Karina Kuschnir

desenhos, textos, coisas


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Ensinando antropólogos a desenhar

Foto01Sei que ninguém está interessado em antropologia numa sexta-feira à noite, véspera das eleições presidenciais mais disputadas dos últimos tempos. Então aceitem minhas desculpas pelo “intervalo intelectual”: é que só hoje consegui cumprir o compromisso de publicar o post da semana!

Saiu o artigo sobre o curso de desenho e antropologia que criei no IFCS/UFRJ! A experiência começou no primeiro semestre de 2013 e já está na terceira turma. Nesse texto, explico de onde veio a ideia do projeto e como desenvolvi algumas das oficinas propostas. Um resumo do resumo do artigo:

Apresento neste trabalho os resultados de uma experiência de ensino chamada “Laboratório de Antropologia e Desenho”, que propõe o desenho como ferramenta central para a pesquisa etnográfica. Alunos sem formação prévia na área foram apresentados ao ato de desenhar como uma forma de se conhecer o mundo.

Através de aulas práticas, as convenções em torno do desenho acabaram desconstruídas para, em seu lugar, reencontrarmos novas formas narrativas capazes de evocar graficamente ideias, encontros, diálogos, observações e percepções sobre a vida social. Por meio de exercícios, tratamos da formação dos pesquisadores aos dispositivos de diálogo e troca com o universo pesquisado, passando pelo processo de registro dos dados e da divulgação dos resultados.

Buscamos explorar as consequências, perguntas e soluções que emergem do ato de se ensinar a desenhar e construir narrativas gráficas no (e sobre o) trabalho de campo.

Na publicação, faço os muitos agradecimentos necessários e cito os autores que me ajudaram a pensar e planejar essa aventura. Mas queria deixar registrado um <<muito obrigada>> especial aos estudantes (bolsistas e alunos) que colaboraram ao longo do curso e que cederam seu tempo, suas imagens e seus textos para a pesquisa.

Espero que gostem!

O artigo completo pode ser lido aqui: Ensinando antropólogos a desenhar: uma experiência didática e de pesquisa. Foi publicado como parte do dossiê “Imagem, pesquisa e antropologia”, organizado por Andréa Barbosa (Unifesp), para a revista Cadernos de Arte e Antropologia, v.3, n.2. Vale a pena ver também os outros textos desse excelente volume.

Cordeiros da Bahia

Em breve, brevíssimo, uma versão em inglês do meu artigo estará disponível. E para quem tiver interesse em ler outros textos que escrevi sobre o tema: estão aqui.

Planos!

Agora – Estou escrevendo um artigo sobre os resultados dos trabalhos finais dos alunos (buscando incluir o material das três turmas que já passaram pelo curso).

No horizonte – Publicar online os destalhes de todas as oficinas (que se renovaram bastante desde o primeiro curso) para alunos e professores que queiram experimentar os exercícios em suas aulas.

Para 2015 – Começa uma outra fase da pesquisa. O tema é… surpresa!

Sobre o desenho inicial desse post: A imagem foi feita por mim num Ipad (App Adobe Ideas, caneta Bamboo) a partir de uma fotografia das alunas Poema Eurístenes (desenhando) e Bárbara Machado (sendo desenhada) tirada em sala de aula, no IFCS/UFRJ, durante uma das oficinas do curso.


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Show de filha

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Dia 2 de outubro Alice não acordou muito bem. Ficou de molho, sem escola, mas lá pelas 16h, parecia totalmente recuperada e dando pinotes de tédio. Propus que fóssemos ao shopping comprar uma chuteira, já que a antiga estava apertada. Ela topou. Chegando lá:

Alice: — Mãe, vamos olhar [no mapa eletrônico das lojas] para irmos direto onde tem chuteiras?

Eu: — Tudo bem, filha.

E ela, rápida, achou tudo e organizou a “busca”.

De vez em quando, eu dizia: — Alice, peraí, deixa eu só ver essa loja rapidinho.

Alice: — Ah, não, mãe, a gente veio aqui pra ver as minhas coisas.

Eu, mais à frente: — Alice, calma, eu quero aproveitar e comprar um presente para o amigo do seu irmão.

Alice: — Não… não dá, a gente ainda não foi na Nike.

Eu, numa última tentativa — Alice, olha que casaco bonitinho…

Alice: — Mãe…

Eu: — Mas Alice, você está sendo muito ditadora!

Alice: — Ué? Só estou fazendo meu papel de filha!

Eu tive que rir… Pra terminar bem: compramos uma chuteira muito simpática e brasileira, ufa!

No dia seguinte, ela ficou doente mesmo. Acordou vomitando, com febre alta, dor de garganta… [Não se preocupem, ela já está ótima!] À noite, mesmo medicada, continuava caidinha e super triste porque não poderia participar do jogo de futebol do dia seguinte.

Seria seu primeiro jogo-amistoso “de verdade”, num clube. Ela chorava por não poder jogar… E eu, inventando um jeito de consolá-la, disse que um dia ela seria uma jogadora tão famosa que ia ser entrevistada pelo Neymar (já velhinho):

– Alice, como você se sente sendo a primeira jogadora brasileira campeã mundial em três Copas do Mundo?

E ela, enxugando as lágrimas:  — Em três Copas não, mãe. Só em duas, tá?

Eu: — Mas por que não três, Alice?

Ela — Por que eu não posso passar o Pelé. Só ele ganhou três Copas.

Assim mesmo, ponto final, seríssima. [E eu e o Antônio nos acabamos de rir!]

Mais tarde, Alice vendo uma briga entre irmãos na novela Império, um almofadinha e um tipo “bad boy”.

Eu: — Ai, esse cara é uma chato… Não convence…

Alice — Mãe, pelo menos ele está amadurecendo!

Uns dias depois, Alice super entediada fazia bagunça numa gaveta.

Eu: — Alice, cuidado, essa gaveta é frágil, vai quebrar!

Antônio, se metendo: — Alice, se vc tocar meus CDs, eu te jogo pela janela!!

Eu: — Que jeito de falar é esse, Antônio?

Antônio, rindo: — Ah, é do térreo, nem vai doer tanto…

Alice, revoltada: — Se você me jogar pela janela, eu jogo óleo e boto fogo em todos os seus funis!!

Nós dois: — Hãããã???? Funis???

Alice: — O que, o que, o que vocês estão rindo?

Eu: — É vinis, filha, vi-nis. Aquele disco grande que o Antônio comprou é um disco de vinil.

[E mais uma vez desatamos de rir...]

Já totalmente curada, Alice se dedicou uma manhã inteira à produção de presentes de aniversário para uma ex-professora. Depois de muita negociação, ela concordou que eu transcrevesse aqui no blog a cartinha feita por ela para todos os amigos assinarem (desde que eu tirasse os nomes: — “Pras outras professores não ficarem com ciúmes, mãe”):

“X,

Parabéns pelos seus anos de vida e também pelos seus anos de profissão. Todos nós da turma [xx] te amamos muito e sempre vamos te amar por tudo que você fez pela gente. Você é muito legal e os alunos que estão com você são muito sortudos. E também é óbvio que a nossa foi a melhor turma que você já teve.

Feliz aniversário!”

Imaginem a emoção dessa professora… E a minha também… Ser mãe-professora e ver a filha escrevendo uma cartinha dessas!

Sobre os desenhos: Os desenhos que abrem o blog foram feitos no apartamento “ovinho” (nossa casa provisória). Alice estava jogando no Ipad e infelizmente ficou com cara de adulta :-(. Já o gato Charlie estava nessa pose de doidinho mesmo! Enfim, foi o que consegui… Usei canetinha preta Pigma Micron 0.05 e aquarelas.

Abaixo, um desenho que fiz como dever-de-casa do workshop online da professora Melanie Reim, na Sketchbook Skool. Neste, além das aquarelas, usei uma canetinha Muji 0.38 que o Ju trouxe de Portugal, junto com um caderninho Laloran novo, viva!

capitao salomao


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Estilo copiativo

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O Leonardo, um leitor do blog que não conheço pessoalmente, me escreveu perguntando “se meu estilo tem nome” e como ele faz para desenhar do jeito que eu desenho… Estou há umas três semanas fingindo que não vi o comentário. Vai que ele errou de blog? Deve ter clicado em algum dos links que coloquei na lista de inspirações e comentou aqui por engano… Mas hoje fui rever a mensagem e estava lá o que eu temia: o meu nome logo no início da pergunta. Foi pra mim mesmo.

O problema é que eu não me vejo tendo estilo de desenho algum. Desde pequena eu adorava era fazer cópias. Um dos primeiros desenhos de que me lembro ter feito foi uma tentativa de cópia da capa do LP dos Saltimbancos, uma imagem da galinha com os pintinhos em volta. A minha mãe até mandou emoldurar, apesar dos meus protestos dizendo que só tinha copiado… Depois me atraquei com uns livrinhos de arte da minha avó, do Toulouse-Lautrec, do Degas e do Ingres. Gostava mais de desenhar gente do que coisas.

Na época em que eu tinha uns dez, doze anos, havia uma febre entre as adolescentes de colecionar adesivos e papéis de carta decorados. O problema é que no Brasil não se vendia aqueles que a gente mais gostava, do Snoopy e da Hello Kitty, por exemplo. Quando eu conseguia uma folhinha nova, ao invés de colar por aí, eu fazia o seguinte: copiava os desenhos tim-tim por tim-tim, com canetinhas e lápis de cor, até ficarem “idênticos” aos originais. Depois recortava (deixando uma margem branca, como nos meus modelos) e colava um contact transparente por cima para virarem adesivos. Tenho até hoje uma agenda escolar cheia dessas cópias e, claro, uma caixa bem velhinha com algumas folhas com os adesivos originais ainda intactos! (Outras eu usei com os meus filhos para provar que tinha deixado de ser boba).

A glória dessa fase foi quando minha irmã arranjou um namorado que gostava de desenhar (e copiar) tanto quanto eu. Fazíamos guerras de Garfields! (Outro dia me lembrei dessa fase, aqui.) Ele era muito melhor: sabia tão bem todas as proporções do Garfield e do Spooky que desenhava sem olhar os modelos. Estávamos nos anos 1980 e tudo era muito cafona: passamos a fazer adesivos enormes para colar nos carros dos pais e dos amigos! Pois é.

Depois desse auge copiativo, a única coisa de que me lembro foram os fracassos em duas provas de vestibular de desenho. Fui reprovada na primeira, que fiz ainda no segundo ano do ensino médio. No terceiro ano, resolvi fazer umas aulas para me preparar. Meu sonho era passar para a Esdi.

Arranjei um professor tipinho “gênio”, especialista em física, química e matemática, mas que também se garantia em desenho. Não me lembro das aulas. Só que ele me emprestou Os Miseráveis e me achei o máximo devorando o livro. (Depois, descobri, revoltada, que aquela era uma versão reduzida!) Eita professorzinho charlatão. O resultado: fui reprovada de novo! Uma das questões daquela segunda prova até hoje me dá pesadelos: desenhe objetos análogos ao conceito que aproxima uma escova de dentes de uma escova de cabelo. Desenhe! Até hoje eu não sei a resposta…

Será que é por isso que eu tenho trauma de fazer desenho por encomenda?

E pensar que nesse mesmo vestibular eu tinha passado na minha segunda opção. Entrei para a Escola de Comunicação da UFRJ e não fui fazer matrícula! Se eu fosse a minha mãe, teria me matado!! Mas minha mãe era tipo anos 1970 e não pressionava… O prêmio de consolação foi passar na prova de desenho da PUC; mas aí o caldo já estava entornado. Não conseguia gostar… Logo no primeiro semestre de projeto, fui reprovada pela Ana Branco, merecidamente. Toda a minha auto-estima, de aluna quase exemplar nos anos de colégio, estava indo ladeira abaixo…

Para encurtar a história: subi umas escadas lá na PUC mesmo e resolvi fazer aulas na Comunicação. Acabei me encantando com os professores do curso, tantos os jornalistas como os que vinham de áreas como antropologia, sociologia, história, letras, cinema… Virei jornalista, depois antropóloga e passei uns dez anos praticamente sem desenhar.

Acho melhor contar a outra parte num próximo post, tá Leonardo? Sei que não respondi nada de objetivo para a sua pergunta, mas já está muito grande essa história que nem tem graça nenhuma.

Sobre os desenhos: O pretexto para responder ao Leonardo surgiu desses desenhos, que comecei a fazer para remendar uma página de observação que deu errado. Me dei conta de que essa mania de copiar me deixa paralisada quando não tenho nada para observar! Como detesto manias (principalmente as minhas), bora lutar contra. Aí vão dois desenhos imaginados… Ambos feitos com canetinhas Unipin 0.05 (abaixo) e 0.2 (acima) e coloridos com aquarela num caderno moleskine velho que tinha umas folhas sobrando. Ah, mas para não dizer que não copiei nada de ninguém, a inspiração das cores é do Prashant Miranda, por quem ando completamente apaixonada; e acho que as construções foram bastante influenciadas casinhas que andei fazendo, aqui e aqui, e por estas lá do início do blog.

 

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A cor salva!

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Estamos todos — adultos, crianças & gatos — nos sentindo engaiolados no micro-apartamento provisório. Daí a vontade de desenhar pássaros sem gaiolas para o calendário de outubro. Decidi que não posso abandonar os temas coloridos para esse enfeite-útil das nossas geladeiras. Na falta de boas tiradas da Alice, a cor salva!

Queria aproveitar também para dizer:

Obrigada de verdade a tod@s que têm mandado mensagens e comentários positivos sobre o blog! Sei que não tenho conseguido responder, mas cada linha enviada me dá uma força enorme para continuar com essa ideia maluca de desenhar e escrever toda semana.

Só agora, aliás, me dei conta de que este blog também é uma espécie de trabalho voluntário: tem que ralar muito, ter compromisso (mas não obrigação), acolher as próprias dificuldades e apoiar quem está à volta. Mas o retorno é o máximo: a sensação de se sentir útil!

Tive a sorte de virar voluntária quando fiquei grávida do Antônio, em 2000. Me apaixonei pelo grupo Amigas do Peito, de apoio à amamentação, onde atuei intensamente por 11 anos. Em 2010, com as minhas duas crianças desmamadas, me aproximei do apoio aos animais de rua, ajudando a encontrar lares para dezenas de gatinhos abandonados. Nessas duas atividades, acabei criando os blogs, lidando com muitas pessoas, aprendendo e recebendo muito mais do que pude oferecer, como diz o clichê-super-verdadeiro sobre o tema.

Há uns três anos, mantive as amizades, mas acabei precisando me afastar. Eu ia escrever que foi “por falta de tempo”, mas não. Não rola falta de tempo quando a gente se apaixona por uma causa! A verdade é que… bem, eu me apaixonei sim, mas foi pelo meu namorado. E paixão depois dos 40 é um trem que a gente não pode deixar passar, sô!

Agora que estamos virando um casal normal, com espaço para o resto do mundo, percebo que a vontade de me dedicar a alguma causa está crescendo de novo. Quando eu era “antropóloga da política”, não conseguia nem imaginar misturar trabalho com voluntariado, como muitas amigas que admiro fazem. Mas desde que virei “antropóloga que desenha”, vejo um mundo de possibilidades se abrindo… tenho certeza de que em breve vou conseguir juntar tudo! Deixa só eu me mudar, me aguardem!

E para fechar o post, mais uma brincadeira de casinha! Nunca pensei que ia encarar uma loucura gótica dessas, mas aí está! Graças ao amor pelo futebol da Alice, que conseguiu convencer até o Antônio a jogar com ela, passei uma hora e pouco fazendo esse desenho no último domingo. Depois, já em casa, terminei de desenhar os tijolinhos, acrescentei as sombras e os dois detalhes ao lado, tendo como referência fotos feitas com o celular.

gurilandia

 

Sobre os desenhos: Os pássaros do calendário foram feitos a partir de fotos do Google, com canetinha Pigma Micron 0.005, e coloridos com lápis de cor Prismacolor (não aquarelável) e CaranD’Ache (aquarelável). Tenho a felicidade de ter duas caixas grandes de 72 e 80 lápis cada uma, que considero entre os bens mais valiosos da minha casa! Quase morri uma vez que a Alice levou uma delas para a escola, porque decretou que não podia fazer os trabalhinhos do segundo ano sem aquelas 80 cores diferentes… Alice sendo Alice! (O pior é que eu concordo e me identifico tanto com ela… se a minha mãe tivesse uma caixa dessas, eu ia ser a primeira a tentar “pegar emprestado” e nunca mais devolver…)

O desenho da Gurilândia, uma casa-clube em Botafogo, foi feito com a mesma caneta 0.005 e depois sombreado com a aguada de nanquim que uso na waterbrush Sakura. As crianças votaram para eu deixar preto & branco. Então assim ficou! Mas acho que, no fundo, nós três ficamos com medo de que eu não acertasse nas cores e “estragasse” o desenho. Descobri no encontro de Paraty que muita gente tem esse medo… Bora enfrentar.

 

 

 


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Brincando de casinha

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Alice hoje não quis participar da aula de inglês. Ficamos tristes, eu e a professora (que ela adora!), tentando entender por que às vezes ela empaca desse jeito… Uma determinação que só vendo pra acreditar.

Agora à noite, achei essa história de quando ela tinha seis anos e falamos de uma situação parecida. Estávamos a caminho do pediatra:

K — Filha, agora vamos ao pediatra, tá? Tem que ter um pouquinho de paciência porque está com trânsito.

Alice — Ah, mãe, eu adoro ir lá. Lá tem aqueles palitinhos coloridos! [Palito de ver garganta com sabor.]

K — Sim, filha… Mas lembra o que aconteceu da ultima vez? Você se comportou tão mal… [não queria ser examinada, medida nem pesada!]. Eu morri de vergonha. Dessa vez, você não vai fazer isso, né?

Alice — Nããão! Pode deixar, mãe.

K — Que bom, filha. Porque, lembra da vergonha que você sentiu lá na escola? Imagina se eu agarrasse a sua amiguinha e desse um monte de beijos? Aí mesmo é que você morreria de vergonha, né?

A — Sim.

K — Entao… foi assim que eu me senti na última vez que fomos ao consultório do pediatra.

A — Ah, mãe, mas se um adulto fizesse isso, de encher uma menina na rua de beijos, ia ser louco!

K — Ia dar vergonha… viu? Estou só comparando pra você entender…

[E a resposta dela, com aquele sotaque carioca super carregado:]

Alice — Ah, mãe, não… Vamos combinar…, né? Eu sou CRI-AN-ÇA!!!

Pois é, filha, aos oito anos e meio, você ainda é criança sim. Vamos combinar, tá?

Só me lembra disso da próxima vez que formos visitar a Fábrica Behring — um local de ateliês de arte no Rio de Janeiro — e você decidir que vai transformar um pequeno bloco de concreto (que achou pelo chão) num objeto conceitual:

Alice — Mãe, vou fazer uma obra artística usando uma serra elétrica. Vou transformar isso num minion e colocar atrás de uma porta de vidro!

E não teve jeito: o bloco de concreto está aqui em casa aguardando seu destino artístico.

Viram, queridos da Escola de Belas Artes (EBA) da UFRJ:a Alice não foi hoje dar palestra comigo, mas quem sabe daqui a alguns anos? Obrigada pela acolhida — foi um encontro maravilhoso!

Sobre o desenho: Uma casa inteirinha desenhada por mim! Me senti criança de novo, igual à Alice! Parece uma coisa tão boba, mas cada um tem os seus desafios…  Acho que foi a primeira vez que consegui fazer isso numa página de caderno (sem recorrer a fotografias ou à imaginação). Ainda estou contagiada pela energia de Paraty e, pensando bem, pela concentração do Antônio e pela determinação da minha caçulinha.

O desenho foi feito todo na rua em aproximadamente 45 minutos, sem contar o tempo de terminar os tijolinhos.  Já quase no final, tive que me aproximar para conseguir enxergar melhor a grade. Nessa hora, dois homens que trabalhavam na casa vieram ver o que eu estava fazendo, meio desconfiados. Mostrei o desenho e tivemos o diálogo feliz que anotei na página ao lado!

O material que utilizei foi só canetinha Pigma Micron 0.005 no caderninho Laloran.


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A terra é redonda!

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Conhecer gente doida é uma das coisas mais divertidas de se mergulhar no mundo do desenho. Tem gente que passa oito horas por dia desenhando, gente que desenha tudo que vê, gente que desenha dezenas de páginas em poucos segundos, gente que leva seis horas desenhando uma só imagem, gente que desenha por onde anda, gente que usa os mesmos tipos de cadernos há décadas, gente que vai toda semana ao mesmo lugar desenhar, gente que desenha tudo que come ou bebe, gente que viaja para desenhar ou desenha viajando… E ainda: gente que vê tudo quadrado e gente que vê tudo redondo!

Em Paraty, conheci de perto um desses doidos que já acompanhava na internet: Paul Heaston, professor do workshop Wide Angle Perspectives. Estão aqui os desenhos que fiz durante as três horas que passamos juntos. Como já expliquei, fico paralisada de desenhar sob pressão. Vocês precisariam ver o trabalho dos outros participantes do workshop para entender a ingenuidade dos esboços que consegui fazer. (Vejam um exemplo fantástico da Lynne Chapman! E também vários do Flávio Ricardo!)

paul heaston 1

Mesmo assim, valeu! O Paul é de uma modéstia incompatível com o próprio talento; e ainda totalmente franco para dizer que não sabe direito como ensinar o tipo de desenho que sabe fazer tão bem. Eita, como seria bom se todos os intelectuais partissem desse patamar! Quanta gente talentosa não tem noção de como dividir seu talento com os outros…

paul heaston 2

Fiquei feliz de conseguir documentar um pouco do que o Paul compartilhou com a gente. A ideia é tentar se colocar na superfície ou no interior de um balão de gás, como nas tentativas dos sketches abaixo.

paul heaston 3

Nesse último desenho, desenhei o Paul desenhando (sim, ele é duplamente doido: vê tudo redondo e não pára de desenhar um minuto). Tanto é assim que a Linda, mulher dele, sucumbiu ao destino e resolveu passar a desenhar também… (e bem!) Eu, que não chego nem perto da doidice deles, acabei perdendo o foco e fiz esse desenho (abaixo) sem coerência nenhuma…

paul heaston 5

 

Sabedorias da Alice:

Alice, num fim-de-noite de sábado — Mãe, bora brincar de alguma coisa?

Eu — Mas, Alice, querida, você já foi à piscina, já jogou futebol, já brincou com os amigos a tarde toda!

Alice — Ah, e daí? Por acaso existe cota pra brincar?

Sobre os desenhos: Todos os desenhos foram feitos no caderninho Laloran que levei para Paraty com uma caneta maravilhosa marca Super 5, com nanquim cinza, que ganhamos como brinde do evento http://paraty2014.urbansketchers.org/.Acrescentei as cores com aquarela depois, já em casa.


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Paraty em quadrinhos

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Era uma vez um professor discreto, tímido, amável e talentoso: William Cordero. Antes de Paraty eu nunca tinha ouvido falar dele. Mas bastou uns poucos minutos ao seu lado, e diante de seus desenhos, para me apaixonar! (Paixão artística, pessoal.) Ele é daquelas pessoas que parecem fazer tudo sem esforço, num raro encontro de delicadeza de personalidade e obra. E ainda tem o charme de ser recém-casado, morar numa casa feita por ele próprio, na Costa Rica, e gostar de cachorros! No penúltimo dia do evento, passou quatro horas trabalhando num desenho, como se não existisse mais nada no mundo para fazer, e o resultado foi um arraso… Linhas leves como se tivessem sido feitas em poucos minutos… Quero ser assim quando eu crescer.

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Foi no seu workshop que fiz esses desenhos-em-quadrinhos. A proposta era narrar o dia-a-dia misturando diferentes escalas. A sugestão dele foi que trabalhássemos com “caixas” feitas de linhas para enquadrar pessoas, coisas, falas e movimentos. Os trabalhos dos colegas ficaram incríveis!

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No meu caso, levei um tempo para achar que esses desenhos tinham um destino melhor que o fundo da gaveta… Nesse dia, eu tinha acabado de dar minha segunda palestra — estava feliz, mas exausta! Só quando voltei para casa (oopss… que casa?) é que tive coragem de adicionar as cores. Tudo começou como um grande pretexto para tentar imitar o céu do Tommy Kane. :-) No fundo, o que me diverte mesmo é copiar o desenho dos outros! (Pelo menos, dou as fontes para vocês conferirem.)

100 anos! Hoje, 10/09/2014, minha avó querida faria 100 anos… Passei o dia pensando em desenhar esse bolinho para ela (abaixo), que acabou saindo mais com cara de chapéu do que de bolo! Mas ela nem ia ligar. Acharia lindo!! Ela adorava amarelo, adorava rosas e todas as flores. Adorava viver bem e com festa. Gosto de lembrar de como às vezes eu tinha medo de contar alguma coisa pra ela, tipo uma decisão arriscada ou difícil na minha vida. Receava que ela fosse me dizer (por ser mais velha): “fique onde está, permaneça, conserve.” Mas ela quase sempre dizia: “Que bom, isso mesmo, vá em frente! Viver empacada não vale a pena!” E é desse espírito de coragem que gosto de lembrar. “Que você nos inspire e viva pra sempre na nossa memória, vó.”

 

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Sobre os desenhos: Utilizei os mesmos materiais de sempre: canetinhas de nanquim descartável Unipin e Pigma Micron 1.0, 0.1 e 0.05. A cor foi feita com aquarela Winsor & Newton e um pincel Pentel waterbrush. No primeiro desenho, o céu dos quadradinhos ficou pesado (com waterbrush); daí troquei para um pincel de pelo (no quadro maior do lado direito) e achei que funcionou melhor. Meu sonho era fazer aquarelas leves mas com cores intensas. Ô coisa difícil!  Daqui a alguns anos a gente conversa…

Leitura da semana: Não levei livro pra Paraty, mas li uma crônica do Arthur Dapieve que lavou a alma: “Saudades do Rio“. É daqueles textos pessoais e ao mesmo tempo universais para todos nós, cariocas, do tempo em que domingo era dia de passear de carro com a família…

 

 

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