Karina Kuschnir

desenhos, textos, coisas


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Viva o tio João

JUR

Como contei no post sobre as dez lições da vida acadêmica, meu primeiro trabalho no mestrado foi sobre João Ubaldo Ribeiro. Era centrado no livro Viva o povo brasileiro, cujas quase 700 páginas li apaixonadamente em 1990.

Com a morte do João, deu tanta saudade dos seus romances… Li todos (até então publicados) de uma vez só!

Foi assim. Um belo dia, entrei numa sala de aula da PUC (era meu último semestre no curso de jornalismo) e conheci um aluno três anos mais jovem que se dizia “sobrinho do João Ubaldo Ribeiro”. Um cara incrível, engraçado, poético, falante e bonito. Ficamos amigos. Éramos ambos apaixonados por literatura, por cartas e por escrever. Ele provou que era sobrinho do João mesmo! Toda semana me dava um romance do tio. E ao invés dos textos do curso (de Psicologia da Comunicação), conversávamos horas e horas sobre os livros, as cartas, os artigos, o humor e as ideias do Ubaldo!

O ápice da minha febre-ubaldina foi quando terminei meu sofrido trabalho (já  no mestrado) e mandei para o “tio João”. Depois, fui finalmente conhecê-lo em pessoa. Tivemos uma conversinha… Ele ali, naquela simplicidade, na casa da sogra, de chinelos, sem ares de fama. Dei boas risadas. A gente não se deve levar muito a sério, ele disse.

O sobrinho dele também passou a escrever livros, tem vários romances lindos. Fez até uma tese de doutorado sobre o tio (que vai virar livro) e guardou com carinho o presente histórico: a máquina de escrever Remington — exatamente a máquina onde foram datilografadas as páginas mágicas de Viva o povo brasileiro e que vai desenhada aí em cima.

E como consegui desenhar essa máquina para o blog? Porque tenho fotos — ela está na casa portuguesa deste que muitos anos e perdas de cabelo depois se tornou meu namorado…

Deixo com vocês a homenagem que ele escreveu para o jornal O Público (Portugal) na semana da morte de João Ubaldo.

Cartas ao jovem sobrinho

Juva Batella

Quando publiquei o meu primeiro livro entreguei um exemplar ao velho tio e, ansioso como um jovem autor não deveria ser, não esperei passarem-se 24 horas e já o procurei, batendo-lhe à porta, para saber o que havia afinal achado do meu primeiro romance, e ele me puxou para dentro com veemência, como se fugíssemos de repórteres, e me aconselhou aos cochichos a jamais perguntar a opinião de alguém acerca de um livro que se tenha escrito. “Deixe que o leitor se manifeste, querido sobrinho. Jamais pergunte uma coisa dessas!” E me disse meses depois, numa carta, que eu arranjasse, por amor a todos os santos da Bahia, uma ocupação decente, “que não se aproximasse tão perigosamente do ofício de seu tio”. E as inúmeras cartas que recebi dele começavam sempre assim: “Irrepreensível e inadmoestável sobrinho”. E me aconselhou a ler Shakespeare. “Basta isso, sobrinho! E que Deus tenha pena de sua alma jovem! Basta ler Shakespeare, ainda há tempo!, e todo o resto virá naturalmente. E se você me disser que não lê em inglês aí eu deixo de me dar com você, vá ler inglês urgentemente, conselhos do velho tio: há que ler os clássicos! Os clássicos não são clássicos à toa. O que se deve evitar é ler o que escreveram sobre os clássicos, a não ser que o autor do clássico sobre o clássico seja também um clássico, coisa rara, mas encontradiça.” Também me aconselhou a ler Homero, “principalmente A Ilíada, é claro”, e me sugeriu que evitasse as traduções em versos, porque os pés gregos são inimitáveis. E numa das cartas, a maior e a mais divertida de todas, simulou uma entrevista que eu daria, anos mais velho, à revista Fortune, onde, acendendo o meu charuto com uma nota mil dólares, relataria ao curioso e assustado repórter as origens do meu sucesso capitaneando um império editorial sem tamanho. “Mas vê-se que o senhor não é um fumante de charutos…”, assim disse eu, como personagem de João Ubaldo, ao estupefato repórter que me entrevistava para a Fortune. “Qualquer fumante de charutos sabe que o charuto aceso com uma nota de mil dólares tem um sabor inigualável.” E em todo os momentos da minha vida o velho tio praticamente me obrigou a prosseguir em minha “trilha triunfal e adotar como lema Audaces fortuna juvat, que calha muito com o seu nome: a sorte sorri aos audazes! Em frente! Eia Sus!”, escreveu ele, que sempre assinava assim: “Misteriosamente, João Ubaldo Ribeiro”.

Hora de reler o velho tio, linha a linha, e refazer esse traçado que já faz parte de mim.

Ah!, e de vez em quando ele assinava assim: “Do seu velho tio, Ubaldão, o Cruel”.

Alice News:

Eu — Alice, como você está? Ainda com “zero problema”?

Alice — Não… essa semana estou com problemas.

Eu — Ah, é? Quais?

Alice — Estou… pro-fun-da-men-te precisando de uma coisa.

Eu — O quê?

Alice — Eu me obsessei pelo Felipe Lahm.

Eu — Como assim, filha?

Alice — Eu preciso conseguir um card dele, e dos brilhantes!

Sobre o desenho: Fiz o desenho sobre a foto da máquina original com uma canetinha para Ipad (genérica, que o Antônio comprou no Japão por 5$) na app Procreate. Depois imprimi, colori com lápis de cor para que a fita da máquina ficasse verde e amarela, e scaneei de novo. Levei quase duas horas para desenhar a máquina e todos os seus detalhes. A melhor parte foi observar com calma cada pedacinho, cada desgaste, e ainda os símbolos antigos de cruzeiro, de libra, de parágrafo… É bem clichê dizer isso, mas… saber que uma peça tão simples produziu uma obra tão gigante me faz lembrar de consumir menos & produzir mais.

Imperdível: No Centro Cultural dos Correios, no Rio de Janeiro, exposição com obras (e até inéditos) de J.Carlos! Curadoria Julieta Sobral; iluminação impecável do Ronald Cavaliere.

 


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Zero problema

UskBcn
Alice adora quando encontra mulher dirigindo táxi. Ontem avistou uma no trânsito e me perguntou:

– Mãe, você gostaria de ser taxista?

Eu — Não, filha, detesto trânsito! E ainda o dia inteiro…

Alice — Ah, mas imagina só: cada passageiro tem uma história para contar! Quando você se dá conta, já acabou o caminho!

Eu — E você, filha, o que gostaria de fazer quando for adulta?

Alice — Hum, será que pode ser “treinadora de futebol da seleção brasileira”? Será que pode ser mulher? Eu acho que pode!

Eu — Deveria poder sim.

Alice — … Ou então: professora de educação física, artista, desenhista, jogadora de futebol e… diretora da Globo!

Eu — Legal, filha.

[e mais tarde...]

Alice — Mãe, estou tão feliz! Atualmente eu tenho “zero problema”.

Eu — Como assim?

Alice — Eu resolvi o problema do cabelo na escola, o da falta da minha bola e o da falta da minha bicicleta, que você buscou hoje.

Eu — Que bom, filha! E como é que a gente faz para ter “zero problema”?

Alice — Ué? É só resolver todos. Resolve um, depois outro, depois outro e assim vai.

Eu — Mas os meus problemas nunca acabam…

Alice — É que nem jogo de futebol, mãe. Não pode sair todo mundo da defesa de uma vez; nem atacar com todos os jogadores de uma vez. Tem que defender quando precisar defender, e atacar quando precisar atacar. E não pode perder a bola.

Eu — Eu sempre perco a bola…

Alice — Não deixe nada te causar problema, mãe.

Eu — É, filha, você tem razão. Quer dizer que você não tem problema…?

Alice — Pensando bem, eu tenho um problema sim: não tenho com quem brigar!

Eu — Como é que é?

Alice — É que o Antônio está viajando! Ah, e tenho outro problema também: a Alemanha vai ganhar a Copa de 2018…

Sobre o blog: Vamos combinar que a semana passada não existiu? Eu finjo que não deixei de escrever o post-de-quarta e de brinde a gente ainda anula os jogos infames da seleção brasileira! Como os jogadores, não sei explicar o que aconteceu: apagão, excesso de Copa, volta às aulas das crianças, mudança número três, obras, gatos, dor nas costas, tudo-isso-junto. Só que não; não adianta dar desculpa. Desde que o blog existe, tive motivos bem piores do que esses para não escrever ou não desenhar ou os dois. Então, bora pra frente. Faz de conta que a semana passada não existiu.

(Mas vamos abrir uma exceção para não apagar a crônica deliciosa do Arthur Dapieve que saiu no Globo na sexta e nenhum dos textos sempre lúcidos do Mário Magalhães no Uol. A Copa ficou melhor com eles.)

Sobre o desenho: Feito no último dia do Simpósio Urban Sketchers em Barcelona, em julho de 2013. Que saudades dessa semana incrível! Queria voltar a desenhar assim… A mistura de cores e materiais foi influência dos workshops que fiz com duas artistas maravilhosas: Inma Serrano e Marina Grechanik. Usei de tudo um pouco: lápis de cor, caneta de pena e nanquim, aquarela, caneta Pentel com ecoline dentro, canetinha Unipin 0.1 e até lápis de cera (acho). Por falar nisso, em agosto acontecerá o 5o. Encontro dos Urban Sketchers no Brasil, em Paraty — ainda dá para participar!

E como alguns têm escrito para saber como se desenvolver no desenho, recomendo a maravilhosa Sketchbook Skool, uma escola online criada pelos ultra-simpáticos e talentosos Danny Gregory e Koosje Koene. Amei o primeiro semestre e estou sonhando com o segundo…


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Sonhando com Ceps

julho2014c

A pior coisa de se mudar três vezes em menos de dois meses é ligar para a Net, cancelar a Net, ter que repetir o seu CPF para a Net, ser chamada de senhora cem vezes pela Net, desistir da Net…

E o Cep? A gente já não decora mais número de celular, vai decorar Cep de moradia provisória? Sim, tem que decorar. Porque atendente da Net não sabe achar o Cep se você disser só o nome da rua. Ele te diz: –“Senhora, essa rua não existe.” ou — “Esse local não tem Net disponível.” — o que é a mesma coisa de não existir, tá subentendido.

Então estou me mudando para um endereço provisório que não existe? Não, calma, Karina. Foi só o Cep que o rapaz da Net não conseguiu achar.

– Moço, o Cep tá aqui: 22222-222.

– Ah, sim, achei. Não se preocupe, essa rua existe sim. Mas não tá disponível.

– Como assim, não está disponível? Já tem outra Net funcionando lá. Eu só quero transferir a minha.

– Sim, minha senhora… Mas se já tem uma, então não está mais disponível…

Bem, vou poupar vocês… Ninguém merece. E daria umas três páginas de post.

O engraçado é que, diante da quantidade de vezes que tive que dar meus endereços nas últimas semanas — o velho, o atual, o da semana que vem e o futuro — sonhei com um calendário cheio de envelopes!

Amo cartas; escrever e receber…  Para minha sorte, sempre tive parentes morando fora do Brasil. Eu era a alegria dos velhinhos da família, pois adorava escrever para eles. Fui tão apaixonada por cartas na infância que me inscrevi naqueles clubes de correspondência que eram anunciados nas revistas em quadrinhos. Cheguei a trocar algumas com desconhecidos Brasil afora — eram amizades virtuais décadas antes do Facebook!

A principal inspiração para os desenhos do calendário de julho foram as cartinhas de amor do pintor Guignard para sua amada Amalita. Tive o privilégio de ver uma exposição sobre essa coleção no Museu do artista em Ouro Preto. (Na imagem acima, são os envelopes com coração vermelho.) Para os demais desenhos, como meu acervo pessoal não está acessível, fui à cata de inspirações na internet.

Sobre o desenho: Linhas feitas com canetinhas Unipin 0,05 e 0,01, depois coloridas com aquarela e lápis de cor. Ah, e sempre esqueço de falar que uso uma waterbrush (caneta de aquarela) com uma aguada de nanquim ou de ecoline sépia para fazer as sombras. Como uso papel de impressora comum, acho que as sombras ajudam a destacar um pouco mais o desenho.

 


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Aos treze

Celina

Essa semana o meu desafio foi voltar no tempo. Não em busca de uma memória específica, um episódio ou um acontecimento. Não… Passei os dias tentando me lembrar de como eu vivia e sentia aos treze anos.

Ter formação em antropologia ajuda? Um pouco. Afinal, a gente vem se debatendo há décadas com a busca por conhecer o mundo pelo ponto de vista dos outros. E “eu, aos treze” era definitivamente uma outra…

O problema é que fazer isso só é fácil na teoria. “Basta não ser etnocêntrico”, diz o livro. Qualquer aluno de ciências sociais acha que tira de letra. Porém, é só pedir um exercício prático que a compreensão vai pelo ralo. Vejam um frase de um estudante do primeiro período (de muitos anos atrás) sobre o universo que tentava analisar:

“Eram pessoas muito diferentes de mim. Eu me senti um estranho, mas depois até que fui me acostumando e achando que eles eram legais.”

Pois é… Não acrescentou nada!

Mas hoje vejo essa frase de forma menos crítica. No fundo, ele escreveu o que todo mundo sente. Compreender o outro não é passar a achá-lo menos estranho e menos chato?

Eu até costumava mostrar essa frase como exemplo do que não escrever num diário de campo. Em seguida, mostrava um trecho de “boa prática” na escrita acadêmica, de uma aluna estudando jogadores de games:

“Esse grupo tem toda uma linguagem particular que aos poucos fui aprendendo. Por exemplo: ‘– Como foi na prova da Petrobras?’ ‘– Ah, foi só para ganhar XP.’ (XP é uma pontuação do jogo. Ele quis dizer que foi mal, mas serviu para ganhar XP=experiência.)”

Pronto. Pelo menos aprendemos alguma coisa.

Voltando à minha volta no tempo. De repente, consegui me lembrar. Quando eu tinha treze anos estava com a paixão à deriva! Sentia a existência dessa coisa maravilhosa, doida, dolorida… Tinha uma força pulsando no peito (e em outras partes do corpo!) e não sabia o que fazer com ela. Ansiava por viver aquilo que (achava que) já sabia na teoria… Escrevia cartas para namorados imaginários… Ia pulando de sonho, de canção, de ídolo, de amor imaginado, numa espécie de eterno viver-em-tese…

E por que essa viagem? Porque meu filho tem treze anos e meio. E eu o amo profundamente… e anseio por me sentir mais conectada com as descobertas e angústias que ele está vivendo. (Sem deixar de ser a mãe.)

Agora já me sinto um pouquinho menos ignorante. E também posso dizer: é difícil, mas vai passar. Daqui a pouco chegam os quatorze, os quinze e finalmente os mágicos dezesseis!

Sobre o desenho: Hoje passei duas horas no trânsito (não, não é modo de dizer). Mas no meio do caminho avistei minha sobrinha Celina Kuschnir, assim mesmo, de calça (ou meia-calça) azul e capa-de-chuva vermelha (ou seria um vestido?). Uma coisa linda de se ver, toda Amelie Poulain, no meio da Rua São Clemente! Gritei por ela, que se virou e me deu um oi-tchau e um sorriso de longe. Assim que cheguei em casa, tentei desenhar a cena, que vai aí em cima em canetinha Uninpin 0,1 e aquarela. Sei que está bem tosca, mas acho que é uma boa ilustração de alguém vivendo a idade-na-idade-que-tem. E um bom lembrete para mim: viver no presente, pois até no meio de um trânsito horrível pode surgir um desenho cor de rosa!

Sobre o título desse post: “Aos treze” é também o título de um filme (2003, direção Catherine Hardwicke) que vi por sugestão de minhas alunas (na época, da PUC-Rio), que fizeram um ótimo trabalho sobre o tema da adolescência no cinema.


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Reflorestamento interior

Reflorestamento

“E a nossa amizade é uma bela coisa, meu amigo. Forte, correta, desinteressada nos sentidos práticos do interesse. Interessadíssima, no sentido de… reflorestamento do ser interior. Talvez seja exatamente pela diferença de idade que milhor nós nos podemos replantar um ao outro em nossas ilusões e esperanças dizimadas.” (Mário de Andrade, em carta para Murilo Miranda, de 10 de janeiro de 1940)

Quando leio Mário, fico com mais saudades ainda dos meus livros e de todos os Mários que tenho lá no guarda-móveis.

A amizade é um dos temas frequentes na obra do poeta. É vivida com uma paixão e uma delicadeza que dói de tão bonita. Tenho também guardada uma transcrição de outra carta, desta vez para Carlos Drummond de Andrade, em 1925:

“Você me desculpe eu falar tanto de mim. Mas eu não posso tirar exemplo da vida dos outros. E também por vaidade não gosto de fazer proselitismo. Então pros mais amigos me conto. Eles que meçam a alma deles pela minha. E se eduquem e se engrandeçam mais do que eu. Sem humildade: isso é uma coisa bem fácil. E depois com os da nossa casa eu não sou o escritor Mário de Andrade. Sou o aluno Mário que também aprendo. Como sou mais velho resolvi já algumas equações. Então mostro não o resultado, mas como fiz elas. E depois, Drummond, quando a gente se liga assim numa amizade verdadeira tão bonita, é gostoso ficar junto do amigo, largado, inteirinho nu. As almas são árvores. De vez em quando uma folha da minha vai avoando pousar nas raízes de você. Que sirva de adubo generoso. Com as folhas da sua, lhe garanto que cresço também.”

Aprender, adubar, crescer, reflorestar por dentro: isso é tudo que estou precisando nesse momento. E também o que mais desejo para meus filhos, amores e amigos.

A esse encontro com o outro, que nos aduba, nunca é demais acrescentar o encontro com nós mesmos, esses inimigos interiores que carregamos por aí… Por isso, fiquemos com a espertíssima definição de amizade da portuguesinha Clara, filha do meu namorado, aos 7 anos — com um detalhe: é uma garotinha extremamente sociável e cheia de amigas e amigos na escola:

Pai: — Clarinha, quem é a sua melhor amiga?

Clara: — Minha melhor amiga? Melhor, melhor, melhor?

Pai: — Sim, sua melhor amiga!

Clara: — Ah, papai, essa é fácil: eu mesma!

Sobre os livros: Há dezenas de livros com correspondências de Mário de Andrade, todos maravilhosos (ops, eu já disse na semana passada que Mário e maravilhoso são redundâncias…). Citei acima a p. 52 de “Cartas a Murilo Miranda (1934-1945)”, ed. Nova Fronteira, e um trecho (não tenho aqui a página) de “Carlos & Mário”, uma lindeza da ed. Bem-Te-Vi.

Sobre o desenho: Nunca tive paciência para desenhos repetitivos, mas de repente aprendi o prazer de me perder nesse tipo de traço… Quem me ensinou foi o Antônio (meu filho), inspirado nas aulas da Lisa Congdon que fizemos juntos (curso online) e nas dezenas de vídeos que ele acha no YouTube. Há qualquer coisa de meditação em desenhar assim. E descobrimos também uma forma gostosa de fazer algo juntos enquanto conversamos sobre a vida. Abaixo um desenho feito a quatro mãos (na verdade só nossas duas mãos direitas!), num caderno Canson A4 (papelaria Brinquelândia) e duas canetinhas Unipin 0.1:

Top-003

 


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Continua, Nora!

Norab

Noralóide querida,

bons ventos trouxeram teu livro às minhas mãos na semana passada. E já vou dizendo que adorei, amei, casei! Todos os livros autobiográficos deveriam ser assim: com história, humor, emoção, aventura e um bem-vindo bom-senso. Concordo com tudo, Nora. Você me devolveu a esperança de que o humanismo faz sim muito sentido.

Meu avô também achava a maior bobagem esse papo de ser melhor do que os outros porque nasceu na Europa. Como você bem escreveu: por que se orgulhar de algo que “não passa de um acidente biológico-geográfico”? Ele adorava mesmo era ser brasileiro.

Quando eu era pequena, mas já grande o suficiente para saber do Holocausto, não entendia porque as famílias judias (ou apontadas como judias) não tinham simplesmente ido embora. Levou um tempo para o meu avô me contar que teve que fugir deixando para trás seus pais, seu irmão e muitas pessoas queridas. No caso dele, foi a única fuga possível. Não havia rota, transporte nem vistos, como você contou tão bem. Fugiram apenas os que tiveram sorte e, mais raramente, algum dinheiro.

Foi com muita emoção que li sobre a sua chegada solitária em Lisboa. Que linda imagem a das calçadas de pedras portuguesas iluminadas pelos candeeiros em contraste com o mundo escuro e bombardeado que ficou pra trás. E foi com mais emoção ainda que imaginei o navio te trazendo para a Baía de Guanabara, onde meu avô aportava dois anos antes. Quando vocês chegaram, em 1941, veja só, ele já tinha arranjado uma namorada brasileira e casado! Pode ser que, no caminho para a pensão, vocês tenham cruzado com minha vó passeando grávida da minha mãe.

Adorei cada pedacinho do seu texto — dos primeiros tempos às terras cariocas. Vi um toque gostoso de Mário de Andrade, um não-sei-o-quê que escreve rindo, sem medo das próprias fraquezas e forças. A cena da estufa explodindo é quase uma versão feliz de “O Peru de Natal”:

“Mamãe trouxe a sopa, serviu e, de repente, pum! A estufa caprichou mesmo. Lá estávamos nós que nem fantasmas após a erupção do Vesúvio de Pompéia, todos cobertos de cinzas. As sopas e o resto da mesa também, tudo em volta era um cinzume só. // Pela primeira vez, mamãe desandou a rir toda contente porque finalmente papai havia tido uma demonstração prática do que vinha acontecendo há tempos.”

E seguimos com vocês, do riso ao choro… Mesmo no meio da tragédia, nos encantamos com suas dúvidas sobre estar ou não “autorizada a se considerar adulta”. E veja a coincidência: enquanto você escrevia para a Rainha da Inglaterra pedindo ajuda, minha avó escrevia para o Getúlio Vargas para salvar a família do seu marido que não conseguia sair de Berlim. Ela até subiu de joelhos a escadaria do Palácio do Catete para pedir uma audiência! Minha bisavó alemã era como você: obstinada. Rapidinho aprendeu português, a ponto de escrever cartas lindas que hoje são um tesouro na nossa família. Infelizmente eles não conseguiram dinheiro suficiente para os vistos e “tudo-o-mais”, como você explicou tão bem.

Termino esta carta te dizendo, Nora: foi pouco! Vamos lá, você mesma admitiu no final. Tem muito mais história para escrever. Em nome de todos os seus leitores, te imploro que continue! A Zélia Gattai começou assim, lembra? Do divertido “Anarquistas Graças a Deus” para uma prateleira cheia.

Um abraço muito abraçado,

Karina

Sobre o livro: Lindo volume, numa edição caprichada, com muitas fotos e delicados desenhos da autora, além de posfácios escritos por suas filhas Laura e Cora. E tudo isso impresso em papéis criativos e fonte legível! Corram pra ler: Memórias de um lugar chamado onde, de Nora Rónai, ed. Casa da Palavra, 2014. A citação do caso da estufa está na página 85. A abertura e o final desta carta foram copiadas do Mário, claro, de Andrade, por causa de um volume que me caiu nas mãos há poucos dias: Cartas a Murilo Miranda (1934-1945), ed. Nova Fronteira, 1981. Como disse-me um amigo, ser fã de Mário exige cuidado. É um vício e não há estante que chegue… “O Peru de Natal” é um conto de Mário incluído no livro Contos Novos, de 1946. Eu ia escrever que o livro é maravilhoso e tal. Mas fica desde já definido nesse blog que Mário-de-Andrade e maravilhoso são sinônimos.

Sobre o desenho: Ilustração feita a partir de fotos do livro, com canetinha Bamboo na App Procreate no Ipad. Depois organizei no Photoshop. Quando já estava quase pronto, senti falta de algo branco. Daí surgiu a ideia do barco se sobrepondo na imagem. Achei que encaixava na travessia oceânica narrada no livro e no intenso amor da Nora pela água… (As cores foram inspiradas numa imagem que achei há tempos no Pinterest, mas, infelizmente, perdi a referência à fonte original.)


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Aprendendo a desescrever

 Sorelle

A pessoa nascida com uma autoestima mais ou menos leva uma baita vantagem na hora de escrever. Não que eu seja desse tipo, imagina! Mas aprendi com uma amiga escritora que me contou tudo o que agora relato para vocês:

1) Escrever é um pouco como morrer, desapegar. Precisa esquecer do telefone, da porta, do gato miando, da conta de luz, do almoço de amanhã. Coisa fácil para quem já tem pensamentos negativos e vontade de ficar na cama o dia inteiro… Para afastar esses devaneios, minha amiga tem um segredo: “Anoto em um caderninho e esqueço; com o tempo, aprendi a pensar menos”.

2) Quando tiver que escrever algo grande, de fôlego, minha amiga aconselha: “Deixe o resto da vida o mais sem graça possível”. É muito mais fácil abrir mão de uma vidinha insossa e pensar que tudo-será-melhor-no-texto (ou depois-do-texto). Imaginem se os “populares” têm tempo de administrar a beleza, o telefone, os convites, os amigos e ainda as próprias produções literárias?

3) “É natural para o cabeça-baixa ser um pouco cruel consigo mesmo”, afirma minha amiga escritora. Daí advém a sua facilidade de praticar um ato que costuma melhorar qualquer texto: cortar, cortar, cortar! “Atacar sem dó os advérbios e os adjetivos já te leva para lá da metade do caminho para escrever bem”, ela diz. Se forem excluídos e não fizerem falta, que descansem em paz. Se deixarem alguma lacuna, é porque falta informação; nada que um substantivo não resolva.

4) Outro corte que sempre alegra o escritor tristonho é o das palavras-muletas, aquelas que a pessoa tem mania. Minha amiga explica: “Tive um aluno que escrevia ‘destarte’ a cada três parágrafos. Quando encontrei o quinto, dei um ataque: des-car-te todos ou não te oriento mais!” A maioria das pessoas tem mania de “muito”, “mas” (eu!), “mesmo”, “bastante”, “sendo assim”, “sempre”, “nunca”…

5) O derrotado geralmente se acha comum demais, sem destaque, sem personalidade. Outra vantagem! Já imaginaram se cedesse aos chavões e aos jargões? Já basta ser joão-ninguém nessa vida, não dá para escrever igual ao que todo mundo já escreveu… Essas pragas grudam na mente e se escondem até nas linhas das melhores famílias… (Viram? Já se infiltrou um chavão aqui!)

6) Outra característica da pessoa com dificuldade na vida social é o medo de se tornar invisível. Resultado: nunca esquece de colocar um sujeito nas suas frases! Minha amiga concorda. Não aguenta ler que “essas questões não são tratadas de forma crítica…” Opa? Por quem? Pela tia Noquinha ou pelo Otavio Paz?

7) Por não se achar o tal, o escritor caidinho também nunca imagina que alguém vá concordar com ele. Então, nada de usar aquele “nós” majestático dos textos acadêmicos de antigamente. Minha amiga exemplifica: “Nosso cotidiano” não é o mesmo, “nosso ponto de vista” nunca foi, “nosso futuro” não será. O texto tem que destrinchar quem é quem nessa salada. Se houver um “nós”, que se diga direitinho quem faz parte dele.

8) E para minha amiga com baixa autoestima aprender tudo isso, como foi? “Foi sofrido”, ela diz. “Mas essa é outra vantagem de não ser o tal: sempre achamos que podemos revisar mais uma vez. E é nessas muitas revisões que os problemas do texto vão embora.”

Ah, preciso parar por aqui… Minha amiga ficou cansada da conversa. Como eu, ela passou boa parte da vida lendo livros de entrevistas com escritores. Todos os volumes famosos que saíram em português; e também a deliciosa trilogia com escritores brasileiros editada pela Edla Van Steen, uma raridade nesse meio tão masculino. E nós duas chegamos à mesma conclusão: ser meio fracassado é uma baita vantagem para aprender a limpar o seu texto, a tirar da frente tudo que atrapalha, dos pensamentos erráticos às palavras e ideias sem sentido. Ou, como disse melhor a minha amiga, é uma baita vantagem para aprender a desescrever.

Sobre o desenho: Eu queria ter colocado os novos desenhos do Antônio nesse post, mas não deu porque ele esqueceu o caderno em algum lugar… Resolvi então postar esse, feito no café Sorelle e inacabado… Como acabei gostando mais das partes incompletas (sempre desconfie de assuntos marrons!), achei que combinava com a ideia desse post, uma especie de “menos é mais” da escrita. Os materiais utilizados: canetinha Unipin 0.1, aquarela, lápis de cor e caneta branca Gelly Roll Sakura.

 

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