Karina Kuschnir

desenhos, textos, coisas

A colecionadora de selos

12 Comentários

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Na semana passada, minha filha Alice chegou em casa irritadíssima, aos gritos: “Mãe eu quero brincar! Eles não me deixam brincar!!!! E eu quero brincar!!!!! Eu quero brincar!!!!”

Fiquei maravilhada, admirando a potência da menina-criatura que bradava como um Titã: “quero diversão! balé! arte!”

E pensei no meu avô e sua máquina perfotrônica que media o espaçamento do denteado dos selos de sua coleção (daquelas figurinhas que usávamos para postar cartas no correio). Um dia ele me ensinou: é imprescindível na vida de um filatelista ter um sensor eletrônico desses ou seu equivalente manual, um odontômetro.

Contar picotes, explorar impressões e filigranas, avaliar cores e estampas, identificar carimbos e gomas, localizar datas de emissão — todos esses eram pequenos prazeres na vida do meu avô. Pinças, lentes, charneiras, envelopes finíssimos e transparentes, álbuns com gravações em relevo, cantoneiras, catálogos e mais catálogos.

A mágica não estava no lucro, mas na atividade cotidiana, no cuidadoso processo de molhar as cartas para retirar suas preciosas estampas e coloca-las para secar a salvo das crianças. Nas consultas incessantes aos livros em busca da identificação precisa. Na compra de novas quadras, blocos, sanfonas, cadernetas ou folhas. Nas pequenas e grandes decisões de organização. Nas memórias de cada peça, no cultivo dos tesouros, no lamento das perdas, na admiração das lindezas e raridades, na excitação de uma nova conquista.

Meu avô era um homem que amava os selos. Tinha um pequeno escritório que era sua Bat-caverna, um lugar para entrar e sair na ponta dos pés, mas também para sentar no colo, prender a respiração e admirar. As lentes, as luzes especiais, as pinças e os delicados papéis por todo lado.

Mais tarde surgiram meu tio e suas miniaturas de metal. Lá vinha outra versão da vida sob lentes grossas, luzes fortes e mesas cheias de materiais e instrumentos mágicos. Encantamentos, segredos e belezas, dessa vez não apenas em coisinhas compradas e colecionadas, mas fabricadas pelas suas mãos de ourives.

Os objetos da vida cotidiana surgiam em réplicas que pareciam ter comido os biscoitos de encolher da Alice (não a minha, a do País das Maravilhas): regadores, chaves, flores, estrelas, corações, colheres, moscas, raios, lagartos, bonecas e até os próprios biscoitos, reduzidos aos menores tamanhos que podemos imaginar.

Por que nos deliciamos tanto com essa vida de mentirinha, esse faz-de-conta auto evidente?

Simples, diria a Alice (a minha Alice): “Queremos brincar!”

Ao começar a pintar ontem, de repente, olhei para minha mesa com outros olhos. Lá estavam dezenas de canetas, com suas espessuras, origens, tintas impermeáveis ou não, resistentes, frágeis, que deslizam ou resistem, caras e baratas, de diferentes países e origens… E vejo os pincéis e seus pelos que aprendi a identificar, com suas idiossincrasias e comportamentos, conforme a qualidade das tintas, nanquins e aquarelas em que mergulham… E ainda massas, pós, bastões, fluidos, químicas, papéis e cadernos…  E finalmente a peça sem a qual nada disso seria tão mágico: uma luz especial só minha, que vem dentro de uma caixa, e me lembra as luzes de ver selos e de fazer jóias, mas também as dos palcos e dos camarins, as luzes de brincar.

Sobre esse desenho em preto e branco: de início, achei que seria mais uma silhueta feita rapidamente na minha viagem diária do metrô, como as que fiz para o Prosa. O primeiro traço foi feito diretamente no papel (no mesmo caderninho comum que está morando na minha bolsa) com uma caneta de nanquim permanente Uni-pin, espessura 0,1 milímetro (caneta de origem japonesa, mas facilmente encontrável em qualquer boa papelaria no Rio de Janeiro). No mesmo dia à noite, resolvi cobrir parte do desenho com nanquim preto (não, nem todos os nanquins são pretos!). O rosto da moça tinha detalhes tão pequenos que eu deveria ter uma lente especial para isso (um dos instrumentos mágicos que me faltam!). Mesmo assim, não desisti. Usei três pincéis de espessuras 12, 7 e 4, sendo o mais delicado deles um Winsor & Newton Series 7, comprado pela minha mãe em Nova York (são caros, uns 40 dólares), e cujo valor aprendi a reconhecer quando fiz um curso de introdução à aquarela na ilustração botânica. Não persisti nesse tipo de técnica, mas toda as vezes que desenho algo assim detalhado e preciso, especialmente um rosto — onde um erro de um milímetro vale por um quilômetro (disse um grande artista) — sinto-me novamente brincando no colo do meu avô, olhando o mundo como se fosse eu a colecionadora de selos.

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12 pensamentos sobre “A colecionadora de selos

  1. Pingback: Felicidades possíveis | Karina Kuschnir

  2. Kau, me lembro como se fosse hoje… obrigado por fazer reviver estes momentos tão especiais na nossas vidas. beijos

  3. Tambem adorei, Vera deve ter se emocionado, tambem eu, pensando como agora, adultos, fazemos ridiculos disfarces para nossas brincadeiras! Poderiamos fazer como Alice, bradar em alto e bom som, “quero brincar”!
    Hoje arrumamos a arvore de natal, os netos e eu, andamos de bicicleta, andamos descalços na poça, “quero brincar”, todos queremos… e podemos. Simples assim.
    Bjs, K!

  4. Querida Karina, que texto mais lindo!!! Suas palavras me proporcionaram um momento de suspensão, voltar ao passado com a minha própria coleção amadora de selos, com a vida encantada dos meus lápis de cor e com aquela certeza que nunca pararia de brincar. Hoje compartilho com você coisas preciosas que o desenho traça para uma amizade.

  5. Muito bom Karina! Viajei imaginando o seu avô…uma figura que eu adoraria ter conhecido. Parabéns!!!

  6. adorei 🙂

  7. Tão inspirador, Karina! Essa é uma das muitas e belas lições que as crianças nos dão: é preciso brincar,e talvez no nosso caso, adultos demais, menos para se divertir e mais para não nos perdermos de nós mesmos.

    • obrigada Cissa, é isso mesmo… a gente não se perder no caminho… Quero que essa garra da Alice pelo brincar nunca me abandone!

  8. obrigada, queridas… achei que podia ter ficado um tanto de listas demais… mas, como diz o Quentin Blake, a culpa é do desenho, que me levou a pensar em tudo isso.

  9. Eu sabia que ia precisar de um tempinho especial para ler “A Colecionadora de Selos”. Tinha certeza que me levaria a memórias tocantes e emocionantes. Está lindo! Um beijo muito especial da sua
    Mamãe.

  10. Coisa linda K!

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