Karina Kuschnir

desenhos, textos, coisas


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Saudades das Saudades de Oxford 2

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Não sei se comemoro os pedidos dos leitores que escreveram “sim, queremos mais diários de Oxford!” ou se choro por achar que minha vida (ou meu texto, que diferença faz?) eram mais divertidos naquela época…

Lá vai um relato que escrevi mais ou menos na terceira semana da viagem, em janeiro de 2005, quando começava a me sentir mais integrada à “sociedade local…” 

**A Dieta Britânica**

A primeira e sem dúvida maior vantagem de vir para a Inglaterra é a oportunidade única de se fazer a “dieta britânica”. É muito simples e eficiente. O sistema funciona em etapas, bem parecido com as dietas tradicionais:

Etapa 1 – Choque de preços: Quando bate a fome, você entra numa lanchonete, olha o cardápio e analisa os preços. Que tal 50,00 reais por um queijo quente? Ou quem sabe 10,00 reais por um pedaço de bolo? Resultado: perda de até um quilo em uma semana.

Etapa 2 – Choque de paladar: Passada a primeira fase, você acaba se acostumando com os preços e resolve encarar. Você pede uma tradicional e simpática batata assada com queijo. Aquela comida quentinha e amiga que seu estômago tanto precisava. A aparência é boa, mas o gosto é indescritível: uma mistura de nada com algo azedo e um tanto amargo (depois você descobrirá que esse é o gosto do “Efeito Cheddar” — mais ou menos equivalente ao “Efeito ketchup” dos americanos). Resultado: perda de até dois quilos em uma semana (pois além de não comer, você ainda passa dias enjoada com o gosto do que comeu).

Etapa 3 – Choque de Supermercados tipo 1: Vencidas as duas primeiras etapas, você já aboliu a idéia de ir a restaurantes. Está feliz com a perda dos famosos três quilos (nada mau, você pensa) mas fraca e desnutrida. É hora de ir ao supermercado! Você entra no primeiro e… epa? não tem comida de verdade. É só comida de restaurante disfarçada: salada para 1, lasanha para 1, chop suey para 1, quiche para 1… Você também se dá conta que todos devem ser terrivelmente solitários nessa terra. A fila só tem 1 moça, 1 rapaz, 1 senhor, 1 adolescente. Nenhum grupinho. Cada um com sua cestinha ou com seus pratos-prontos na mão. Você compra timidamente uma sopa para 1. A embalagem diz que é de legumes, mas o “Efeito Cheddar” é o mesmo de sempre. Resultado: perda de até 1 quilo em três dias. (Isso porque você não aguentará mais uma semana na Etapa 3. Seu organismo está ficando fraco.)

Etapa 4 – Choque de Supermercados tipo 2: Afinal você encontra um supermercado de verdade, que vende arroz, lentilha e alface não lavada! Aqui você percebe que existem famílias nessa terra: e ricas. Para ter direito a usar o carrinho do supermercado é preciso pagar 1 pound! Isso mesmo: quase 6 reais só para usar o carrinho. Bem, você não pode esbanjar. Nada de carrinho. De repente, você se vê até feliz pensando: ah, a cestinha é de graça, que sorte a minha! Você compra então tudo o que consegue carregar na cestinha. Na volta pra casa, vencidas as etapas do fogão, você descobre um pequeno problema: o gosto da sua própria comida não é lá essas coisas… Resultado: perdas oscilantes de até 500 gramas por semana. (Isso porque, mesmo sendo ruim, a sua comida ainda é bem melhor do que qualquer outra).

**Beleza e Moda Britânica em Números**

– Liquidação!! Sapatos: 79 pounds! Casaquinhos Gap: 49 pounds! (multipliquem por 5, se estiverem de bom humor; ou por 6 se estiverem de mau).

– Cortes de cabelo: 67 pounds! Apenas lavar e secar: 30 pounds! (idem acima)

** Sinais de que você está se adaptando (mais ou menos) à vida local **

– Lidando com Máquinas: Aqui a industrialização avançada chegou a todas as esferas da vida humana. Máquinas que fervem café forte com leite fraco e um pouquinho de açúcar, máquinas que lavam e secam roupas em vinte minutos, máquinas que são caixas de supermercados! Todas funcionam à base de dinheiro e falam com você com vozes femininas eletrônicas. O pessoal dos estudos de gênero não ia gostar nada disso… Outro dia, no meu supermercado-restaurante preferido resolvi lutar contra a humilhação de ir para o único caixa-humano do local (para onde vão só os turistas e os velhinhos, claro). Era uma compra simples, pensei: apenas uns 20 reais por um pacote de guardanapos e um rolo de papel plástico. Você chega cheia de confiança, passa o primeiro pacote pelo leitor do código de barras da máquina e… já vai passar o outro quando uma voz soa lá de dentro: “please, put the item in the bag”. Você olha prum lado, olha pro outro… Como é que a máquina sabe que eu não pus o “item” na bolsa? A máquina repete: “pleeease, put the item in the bag”. Você obedece e a máquina agradece: “do you have another item?” Não me perguntem como, mas passei o outro “item”, coloquei os dois na “bag” e enfiei as moedas o mais rapidamente possível. Antes que eu saísse correndo, ainda ouvi: “pleeease, wait for your receipt”. Ai de você, pega o recibo. “Thank you.”

– Maurice (o housekeeper) quis tirar uma foto comigo e colocou a mão na minha cintura! Posso não fazer sucesso acadêmico, mas os trabalhadores me amam…

** Wash your own Mug **

– Coffee and Cake! Em todos os departamentos da Universidade há uma manhã ou tarde reservada para um encontro com café, chá, biscoitos e bolos. Assim, alunos conversam, professores se encontram, secretárias e bibliotecárias se distraem e os bicões como eu se integram à vida local. Até aí, nada extraordinário. O diferente disso tudo são os dois cartazes que você encontrará em todas as salas (os Common Rooms) de convivência: “The coffee and cookies at … costs 0,40p.” (e todo mundo põe os 40 centavos na cestinha); “Please, don’t forget to wash your own mug” (Por favor, não se esqueça de lavar a sua própria caneca!). Aqui não é a terra dos descartáveis como nos EUA. As mugs se multiplicam como filhotes de coelho e se você não lavar a sua pode voltar dali a uma semana que ela estará no mesmo lugar, intacta e suja como você a deixou. (É verdade, aconteceu comigo!) No Centro de Estudos Brasileiros, a diferença é que, ao invés de 1 cartaz, temos quatro ou cinco cartazes espalhados pela cozinha e sala, além de receber pelo menos 2 ou 3 e-mails por semana avisando “wash your own mug”! Adivinhem por que?

** Sinais de que você NÃO está se adaptando à vida local **

– Você continua tomando dois banhos por dia, mesmo com um chuveiro fraco e uma água que parece ter sido misturada com polvilho antisséptico Granado.

– Você continua sentindo falta de dormir com lençol de cima e lençol de baixo ao invés dessa colcha disfarçada de lençol que todos usam por aqui.

– Você continua não entendendo as piadas que os porteiros fazem após o tradicional bom dia! O sotaque é indecifrável. Outro dia, para ter assunto com um dos porters mais empenhados em me alegrar de manhã, tive a infeliz idéia de pedir que ele repetisse a piada, “slowly, please…” Depois de dez minutos de uma conversa de surdos, a única palavra que eu pesquei foi “hedgehog”. Quer dizer, pesquei é modo de dizer: guardei o som e depois fui olhar no dicionário. Era porco-espinho. Alguém nessa terra poderia me dizer se existe uma piada com porco-espinho no meio?

Relendo essas bobagens, fico pensando o que pensarão que eu estava fazendo em Oxford. Será que era mesmo uma viagem acadêmica? Se quiserem, publico o Diário 3, que será a prova de que sim: eu tinha atribuições supostamente intelectuais. Para quem perdeu o Diário 1, está aqui.

Sobre o desenho: Infelizmente meu outro caderno feito Oxford ficou no IFCS, daí que não tive tempo de escanear nada da época para o post. Esse jardim foi feito há duas semanas no Jardim Botânico do Rio, graças à companhia de duas amigas queridas. Nos escondemos no bambuzal, na esperança de que os guardinhas não nos proibissem de estender uma toalha para desenhar. Aí está a prova da nossa proeza! Foi feita numa amostra antiga de papel verde que a Nathalia me deu, e desenhado com minha nova canetinha branca Sakura Gel 0.4 (dica do genial Freekhand/Miguel Herranz). As sombras foram feitas com aguada de nanquim colocada num waterbrush de aquarela. Não estava levando muita fé nesse desenho, mas achei que melhorou um pouco depois de acrescentar contraste no Picasa. Desenhar tanta informação junta me dá uma preguiça danada, mas ao mesmo tempo gera um efeito de auto-hipnose. Se não fossem o calor, os turistas e o medo dos guardinhas, acho que teria conseguido completar a página toda…

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Risadas de botas

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Uma das coisas que mais amo na vida é dar risada, daquelas que dão lágrimas e soluços! E quando um livro, um livrinho só, me provoca essa alegria toda, é o máximo! Pois tive muita muita sorte em 2014: li não só um, mas dois livros que me deixaram com sorrisos e gargalhadas por páginas e páginas.

Queria falar primeiro do Antonio Prata, esse menino que desenhei, nu, de botas, e suas memórias singelas, criativas, sensíveis e sobretudo deliciosamente engraçadas. (Não quero estragar a história, então não vou explicar por que nu ou por que de botas.)

O maior elogio que posso fazer é que a leitura me lembrou dois dos melhores livros de memórias da literatura brasileira: “Os bichos que eu tive” e “Se a memória não me falha”, ambos da Sylvia Orthof, uma deusa da delicadeza e do humor no cotidiano. Como Sylvia, Antonio explora os limites da nossa credulidade ao contar sobre seus insetos, pintos (de vários tipos), tartarugas e o sofridíssimo papagaio Getúlio.

Um dos encantos de Prata-filho (também li e adorei alguns livros do seu pai, Mario Prata; e esses dois Pratas ainda são primos do fantástico Campos de Carvalho!) é a sua capacidade de misturar a narrativa da criança com a do escritor, em frases como:

“Sem opção, enterrei a faca no jardim e parti para a clandestinidade. (…) Se estivesse disposto a correr riscos, mais valia me esgueirar até o quarto e resgatar uns Playmobils para brincar nos 24 ou 36 meses seguintes.”

Achei impossível não rir com as aventuras desse moleque fã do Bozo e do Spectreman, determinado a visitar a África numa prancha de isopor. Tanto faz se você só lembra de uma parte das coisas que ele cita (anos 1980/1990) ou se está conhecendo pela primeira vez. O autor te leva pela mão e te mostra o nonsense daquilo tudo. Quem não fingiu ter febre para não ir à escola e ouviu “as cinco palavras mais frustantes da infância: ‘trinta e seis e meio'”?

Lembrei-me também d”As aventuras do pequeno Nicolau”, de Sempé e Goscinny, que já citei aqui. Prata conta:

“Minha mãe parecia doente, havia engordado muito, reclamava de enjoos e dores nas costas, mas, para minha surpresa, visitas apareciam animadas, acariciavam sua barriga como se fosse uma dádiva dos deuses (…) Uma noite, escutei uns barulhos, minha mãe sumiu por uns dias, e, quando voltou, trazia no colo um bebê, dizendo que eu havia ganhado uma irmãzinha. // Eu achei estranho, nunca tinha pedido irmãzinha nenhuma (…).”

No tempo em que estou agora, com dois filhotes nas idades do personagem, é até covardia ler esse livro… Como não se apaixonar por um autor que escreve sobre a beleza de ver a mãe escovando os dentes, essa mãe que é uma “avalista da ordem e da paz”, uma “embaixadora do país da maternidade, em meio aos perigos da terra estrangeira”, com “a serenidade de uma cama feita, o respeito de uma mesa posta.”

Taí: a mãe do Antonio Prata é minha mais nova ídala.

Ah, e o outro livro maravilhoso que li em 2014 é o Crônicas de Jerusalém, de Guy Delisle (editora Zarabatana). Escrevo sobre ele numa próxima vez, mas desde já recomendo muito!

Sobre o desenho: Optei pelo caminho mais difícil nesse desenho, pois cismei que tinha que estrear meus novos lápis de cor Prismacolor, comprados graças a uma ida do meu sobrinho aos EUA (obrigada irmã!). Que cores lindas e que gostosos de colorir! Mas fazer todos esses detalhes uns por cima dos outros foi bem difícil…  Mas, tudo bem: o que eu queria mesmo era desenhar o Antonio nu, de botas! Espero que ele não se ofenda se por acaso descobrir esse desenho (não, ele não me aceitou de amiga no facebook…). Os materiais foram, no mesmo caderno “velho” que ganhei no Natal: canetinha 0.05, lápis de cor e um pouco de aquarela para as sombras suaves.

Sobre o livro: As citações estão nas páginas 24-25, 35, 69 e 122 do livro “Nu, de botas” de Antonio Prata, editado pela Companhia das Letras em 2013. 

Adendo de 17/4/2015: A linda capa original é do Alceu Chiesorin Nunes!


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Saudades das saudades de Oxford

Em janeiro de 2005, fiquei três semanas longe do meu filho Antônio, na época com quase quatro anos. Era a primeira vez que nos afastávamos desde que ele tinha nascido. Lembrei desse período porque acabo de voltar do aeroporto, onde fui deixá-lo, junto com a irmã e a avó, para passarem 17 dias de férias nos Estados Unidos com o pai. Já estou com saudades… Sim, sou uma mãe grudenta…

Resolvi recuperar o diário que fiz para ele durante a viagem a Oxford (Inglaterra) em 2005 porque lembrei das saudades imensas que senti e de alguns desenhos e histórias engraçadas, que também contei para alguns amigos por e-mail.

**Aprendendo a Sair de Casa em apenas OITO Etapas**

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Etapa 1: Colocar meias, roupa de baixo, calça, blusinha 1, blusinha 2, casaco 1, botas. 

Etapa 2: Colocar o casaco grande, cachecol, colete fosforecente para andar de bicicleta (que é horrível, mas a palpiteira da loja disse que você morreria se não usasse). Não por as luvas ainda!

Etapa 3: Creme no rosto, creme nos lábios, batom, lenço de papel no bolso, 2 moedas de 1 pound no outro bolso, chaves de casa no outro bolso (a calça tem que ter bolso, pois nada disso pode ser misturado, é claro!). Colocar as luvas por cima de tudo nos bolsos do casaco.

Etapa 4: Ainda sem luvas, pegar a mochila, verificar se está com tudo dentro, verificar se está com o cartão que abre as portas do prédio.

Etapa 5: Colocar as luvas de borracha e lavar a louça correndo para Maurice (o housekeeper) continuar achando que você é uma ótima dona de casa. Descobrir que você não deveria ter posto o casacão e o cachecol ainda. Você está suando!

Etapa 6: Colocar a mochila nas costas, colocar as luvas e descer! (só tente essa etapa se você já está com vários dias de prática com luvas). Verificar se você deu o nó no cinto do casacão.

Etapa 6 1/2: Se houver, pegar o saco de lixo para jogar fora. O lixo lixo e o lixo reciclável.

Etapa 7: Tirar as chaves (sem deixar cair nada dos bolsos), abrir o cadeado da bicicleta, colocar o capacete (que vc aprendeu a deixar junto da bicicleta!), conseguir dar o clique no fecho do capacete, colocar os prendedores de barra de calça para sua calça não se prender na corrente da bicicleta (o que você descobriu ser essencial no primeiro dia), colocar o cadeado e a sua bolsa na cestinha da bicicleta.

Etapa 8 no primeiro dia: Ficar olhando para o portão e pensar: como eu abro esse troço?

Etapa 8 no 14o dia: Saber que dá para apertar um longínquo botão cinza parecendo uma descarga na parede com uma mão e abrir o portão com a outra, mesmo em cima da bicicleta!

Mas garanto que andar de bicicleta por essa cidade maravilhosa compensa todo o esforço. … só preciso poupar vocês das 8 etapas que se seguem para tirar essa tralha toda!

**Coisas típicas nas ruas de Oxford**

desenhos 2005 oxford 2

– Chuva: as pessoas não parecem ligar a mínima para a chuva. No meu segundo dia aqui, ainda à pé, começou a chover. Eu era a única criatura do mundo na rua com um guarda-chuva aberto!! Eu olhava, procurava e só via todos andando tranquilamente. Tirava o guarda-chuva e me assegurava: sim, está chovendo! Felizmente, depois de muito procurar, avistei uma longíncua criatura segurando também um guarda-chuva. Com certeza, era uma turista brasileira… Agora, ando pra todo lado, em qualquer tempo, sem guarda-chuva também! A solução é simples: em 5 minutos, você entra num lugar fechado e a calefação seca tudo!

– Luvas: as pessoas perdem muitas luvas… algumas boas de dar pena. Infelizmente, é um pé só e sempre de modelos muito diferentes. São tantas que você passa a temer o dia que perderá a sua!

– Carros fantasmas: todos os dias olho um carro e levo aquele susto: “gente, um carro andando sem motorista; uma crianca dirigindo!” — mas é só a loucura dos ingleses de ter a mão do lado direito.

– Tagarelas: no ponto do ônibus, uma ex-professora contou a vida em 5 minutos e de como gostava quando hospedava estudantes. Na biblioteca, achei uma ex-parteira revoltada com o sistema… No meu prédio, o housekeeper é um francês muito distinto — Maurice — que acho que gostou de mim porque a minha casa é arrumadinha (a vizinha da frente tem que chutar os sapatos e as tralhas do caminho para entrar em casa!). Ele bate aqui quase todos os dias de manhã agora…

– Amantes dos cachorros (e das pulgas!): Nesse meio tempo, arranjei pulgas! Vocês podem imaginar? Havia uma dessas velhinhas que não se separa por nada do seu little dog (“good boy, good boy”, they say all the time) sentada atrás de mim numa palestra. Resultado: passei 4 dias sendo mordida pelas pulguinhas do “little” Chad (esse era o nome do cachorro)! Gracas ao Maurice, fui salva com lençóis limpos, colchão novo, e spray anti-pulgas por todo o apartamento. É muito bom ser amiga do Maurice!

**Os nativos e suas coisas simpáticas**

– Informalidade: as pessoas que encontrei são muito mais informais do que eu pensava. Vocês não imaginam quantas caixas de loja ou atendentes de biblioteca já pararam para bater papo sobre suas vidas pessoais comigo, assim como quem não quer nada… Uma senhora me ensinou tudo sobre segurança em bicicletas e só faltou me levar pra casa dela para eu não ser atropelada.

– Dorminhocos: em cada palestra que vou, há sempre algumas pessoas dormindo e até roncando na platéia!

– A maioria das mulheres tem as mãos vermelhas como pimentão — será do frio ou da água quente? Muitas torneiras não têm misturador: ou jorram água fervente ou congelante!

– Cabelos: numa sala fechada, dá medo ver os cabelos de perto…

– Adolescentes: pra que casacos?: quanto menos roupa melhor! Mesmo num frio de zero grau, as meninas saem de perna de fora, sandália, sem luvas e até barriga de fora. Devem estar assistindo às novelas brasileiras…

**Coisas que me lembram muito o Rio de Janeiro**

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– A feirante me mostrou cerejas lindas e colocou as podres dentro do um saquinho marrom, pelo qual eu paguei a “pequena” quantia de 5 pounds!

– Avisos contra assaltantes: Por toda parte, há avisos sobre como proteger sua bicicleta de roubo ou como cuidar das suas coisas nas bibliotecas. Infelizmente, não são só avisos. Um dos pesquisadores do Centro de Estudos Brasileiros teve seus 2 laptops roubados.

– As pessoas têm medo dos ônibus e dos carros;

**Coisas que me lembram que eu NÃO estou no Rio de Janeiro**

– Eficiência contra os roubos: A universidade pagou pelos 2 laptops roubados em poucos dias, pois a casa assaltada pertencia ao campus.

– 220 Volts: uma das minhas primeiras aventuras aqui foi queimar o meu secador de cabelos brasileiro (recém-comprado especialmente para a viagem) por causa da voltagem 220 — esqueci de virar a chave, claro!

– Preços: outra furada de principiante: logo ao chegar, comprei um passe de ônibus por 12 pounds (a bagatela de 65 reais!!) e descobri que só valia para uma meia dúzia de linhas por meros 5 dias!! 😦

– Fogões elétricos 1: você coloca a panela numa boca do fogão e acende a outra — depois de 15 minutos, a sua água não ferve e você ainda respira aliviada de não ter queimado a casa toda.

– Fogões elétricos 2: Você tira a comida e deixa a panela vazia em cima da boca do fogão ligada — depois de 15 minutos, a casa inteira exala um cheiro estranho e a panela queima! Maurice não gostará de ver isso…

– Dinheiro perdido TEM dono: outro dia, a máquina de café da universidade estava com um troco sobrando de 0,20p. Eu olhei pras velhinhas atrás de mim, como quem pergunta “e agora?”. Elas disseram: “vamos deixar aqui ao lado. Com certeza, o dono virá buscar!”

– Sol e Frio: você olha o dia lindo pela janela e pensa: “oba, sol!” Quando chega na rua, está -2 graus! Quanto mais céu azul, mais frio. É o que dizem os “locals”…

**Coisas que te lembram que você é uma turista**

– Sotaque: ao menor “hello!” todo mundo te pergunta: “where are you from?”

– Tio Sam: você pede “water” com sotaque americano e as garçonetes ficam olhando para a sua cara como se você estivesse pedindo um mamute assado. Pronuncia-se “uá-tah”. As garçonetes são estrangeiras, mas as principais defensoras do mais verdadeiro e legítimo sotaque britânico.

– Nos pagamentos com cartão de crédito, você ouve: “what a weird card you’ve got!” Eles acham estranhíssimo o nosso cartão. A máquina pergunta para eles “credito ou debito?”, assim mesmo, em português. Depois, a máquina pede a senha e ainda manda assinar! Só faltava aquele clássico brasileiro: “e põe o telefone!”

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E essa é a capa do caderninho onde fiz o diário dessa viagem. Se vocês gostarem, posto outros trechos depois.

Agora é aguentar 17 dias de saudades não só do Antônio, mas também da minha linda-potência-máxima Alice (que veio na barriga de Oxford… 😉 !


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Uma semana com defeito

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Quando me apaixono por um artista, me divirto procurando seus defeitos. Não, não é um prazer perverso para me afastar da paixão. Ao contrário, me delicio e me apaixono ainda mais porque as supostas falhas e defeitos (geralmente apontadas por eles próprios sobre este ou aquele trabalho) trazem à tona um caminho criativo, feito de fragilidades, deslizes e perdas.

Acho graça, por exemplo, num trecho da quase autobiografia de Saul Steinberg quando ele conta sobre o período em que passou no Instituto Smithsonian, em Washington, nos anos 1960. Ele lembra que, influenciado pela presença maciça de funcionários chineses, resolveu fazer um diário desenhado num rolo de papel com dez metros de comprimento. O problema é que foi se tornando “escravo do rolo”, e acabou estragando o trabalho “de tanto querer embelezá-lo”.

(Viram? Agora podemos fingir que Saul Steinberg conseguia estragar algum desenho…)

Em outro trecho auto-crítico, da mesma obra, o artista afirma que sempre considerou mais difícil e arriscado observar do que imaginar, outro feito que soa impossível:

“[Nos meus desenhos de observação] vejo alguns dos meus defeitos constantes: terminar sem terminar, cansar e renunciar a insistir num ponto que seria essencial; por timidez ou por preguiça, deixo de insistir, e as coisas não terminam como deveriam, a promessa é mais abundante do que o resultado.”

Nem parece o mesmo Saul Steinberg retratado nos livros dedicados à sua obra. Minha história preferida de um deles é a contada por seu amigo Ian Frazier, da revista The New Yorker. Enquanto outros artistas ficavam melancólicos e desanimados quando algum editor rejeitava seus desenhos, Saul simplesmente os colocava em um novo envelope e os mandava de volta! Fazia isso quantas vezes fossem necessárias até que os editores entendessem o recado. E entendiam.

Tudo isso porque aqui em casa a semana foi cheia de defeitos. Tive uma virose e descobri que tenho uma pedra no rim. O desenho ficou incompleto e o blog teve o post atrasado em dois dias. (Para quem está chegando agora, minha promessa é publicar toda quarta-feira. Se eu trabalhasse num jornal, estava demitida?) Experiência vivida, lição aprendida: preciso preparar esses posts com mais antecedência e ainda ter alguns na manga para semanas-com-defeito.

Sobre o desenho: Meu gato Charlie tem medo de gente desconhecida e tantas falhas no pelo que ontem a Alice comentou, entre divertida e temerosa: — “se vier muita visita aqui em casa, mamãe, o Charlie vai ficar careca.” Mas ele é o meu gato-enfermeiro, aquele que sempre sabe se estou doente, por fora ou por dentro. As linhas foram feitas em canetinha Faber-Castell Pitt S (mais ou menos equivalente a uma 0.4) e a bolsa foi colorida com aquarela. Ficou faltando cor num pedaço, mas assim foi minha semana também. A aquarela está vívida (sem Photoshop!) porque o papel desse caderno é o máximo! Ganhei de presente de Natal do meu cunhado, que achou a relíquia intacta na estante: está ligeiramente amarelado nas primeiras folhas e desgastado por fora. Perfeito para mim que tento não gostar de coisas perfeitas. 🙂

Sobre os livros de Saul Steinberg: As citações são das páginas 78 e 131 do livro Reflexos e sombras, de S. Steinberg com colaboração de Aldo Buzzi (IMS, 2011, trad. Samuel Titan Jr.). É uma pequena joia de livro, embora o depoimento deixe grandes vazios no coração de uma leitora apaixonada. A anedota de Frazier está em Steinberg at The New Yorker (Joel Smith, ed. Harry N. Abrams, 2005). Outras maravilhas do autor podem ser encontradas em Saul Steinberg Illuminations (Yale Univ. Press) e Saul Steinberg: as aventuras da linha (IMS, org. Renata Saraiva). Na internet, vale visitar links produzidos pelo IMS aqui e aqui, além da Fundação Saul Steinberg. Se alguma alma souber onde consigo o documentário La ligne de Steinberg, dirigido por sua sobrinha Daniela Roman, agradeço. Não sei por que esses diretores de documentários tornam tão difícil o acesso aos seus filmes…


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O amor numa banca de jornal

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Dona Teresa mantém uma banca de jornal há mais de vinte anos na esquina da rua Visconde de Caravelas com Capitão Salomão, no Humaitá. Ela diz que é uma “banca das crianças” e acrescento que é também uma banca para pessoas que gostam de receitas e sorvetes. Me senti no lugar certo, como minhas alunas em campo no semestre passado, conseguindo o privilégio de desenhar sentada numa mesinha de plástico do “Bar dos Amigos”, bem em frente. Estava calor, mas a água era gelada e os poucos sons vinham da conversa de alguns bebedores de chope e de um casal tentando ensinar o filho a andar com o patinete ganho no Natal. Ao me entregar à tarefa do desenho, o mundo vai ao mesmo tempo se dissolvendo e tomando forma. Muitos passam para cumprimentar Dona Teresa, dizem que os políticos estão cada vez piores, desejam feliz ano novo, e que teremos sorte se o governo roubar menos; os pais insistem centenas de vezes: se você colocar o pé direito e jogar o peso do corpo pra frente, conseguirá se equilibrar, só que se o calor continuar assim, vamos ter que subir.

Estava ali, desenhando, sem nenhum outro motivo. Não, eu não estava só passando; não estava fazendo hora, à espera de alguém; não, não moro ali perto. Saí de casa com o propósito de desenhar a banca de jornais daquela esquina para talvez colocar aqui neste post. Ainda não sabia que era a banca da Dona Teresa, mas lembrava do seu esplendor, da sua esfuziante mistura.

Como é possível viver para a arte, fazendo algo que não interessa a ninguém? “É um projeto artístico, ou um projeto terapêutico?” pergunta-se um bem humorado Cristóvão Tezza (em O filho eterno), refletindo sobre sua vida até então fracassada de escritor. Escrevo “umas coisinhas”, diz seu personagem, “o álibi de quem se desculpa, de quem quer entrar no salão mas não recebeu convite”. Dizer “eu escrevo” é como revelar sua intimidade, sentir o “peso do ridículo” de ser “alguém que publica livros aos quais não há resposta, livros que ninguém lê”.

Tezza nos conta (em O espírito da prosa) que foi preciso “desembarcar” das suas “próprias nuvens”:  parar de respirar as mensagens políticas e literárias dos outros. Ao reler trabalho anteriores, ele afirma:

“percebo o óvio: eu não estava ali. Um escritor ausente de sua frase é a derrota do texto. Eu continuava obedecendo a uma pauta em grande parte alheia, tateando formas e ideias no escuro.”

Foi preciso aceitar seus desejos mais secretos — o prazer pelas cartas, pelo humor, pelas narrativas  — para se tornar o escritor que queria ser.  Não que tenha passado seu sentimento de inadequação. Afinal, “é simples e cristalino: ninguém pede para você escrever.” Não há anúncios do tipo “procuram-se escritores”, “contratam-se romancistas”, “Poetas, com referências, paga-se bem”.

Gostei de começar 2014 voltando a me reunir com as obras de Cristóvão Tezza que conheci e por quem me apaixonei em 2013. Ele reafirma para mim a ideia de que criar é um “gesto ético de abandono e generosidade”, de tentar se transformar em outra pessoa, de obrigatoriamente tentar “ver o mundo do lado de fora de si mesmo”.

Acho que é um bom começo, talvez até mesmo uma definição perfeita do amor: escutar-se, encontrar-se consigo, mas entregar-se à conexão com os outros, sempre e intensamente.

É o que posso desejar de melhor para tod@s que me acompanharam até aqui. Obrigada, de verdade.

Sobre o desenho: No velho caderninho de sempre, usei canetinha nanquim Pigma Micron 0.05 para o desenho feito no local. Adicionei as cores em casa com aquarela e lápis de cor, com a ajuda preciosa vinda do olhar do meu filho Antônio, e de uma foto tirada com o celular, que não tenho olho nem imaginação biônica…

Sobre os livros de Cristóvão Tezza: O espírito da prosa: uma autobiografia literária (ed. Record, 2012) e O filho eterno (ed. Record, 2010, 9a.ed, lida no Ipad na app Kindle). Não vou indicar todas as páginas, pois foram muitos os trechos que citei. Mas recomendo que leiam, leiam integralmente os dois livros, que são como duas faces da mesma incrível e apaixonante história. Ambos, um prazer do início ao fim.