Karina Kuschnir

desenhos, textos, coisas

Risadas de botas

7 Comentários

nudebotas2

Uma das coisas que mais amo na vida é dar risada, daquelas que dão lágrimas e soluços! E quando um livro, um livrinho só, me provoca essa alegria toda, é o máximo! Pois tive muita muita sorte em 2014: li não só um, mas dois livros que me deixaram com sorrisos e gargalhadas por páginas e páginas.

Queria falar primeiro do Antonio Prata, esse menino que desenhei, nu, de botas, e suas memórias singelas, criativas, sensíveis e sobretudo deliciosamente engraçadas. (Não quero estragar a história, então não vou explicar por que nu ou por que de botas.)

O maior elogio que posso fazer é que a leitura me lembrou dois dos melhores livros de memórias da literatura brasileira: “Os bichos que eu tive” e “Se a memória não me falha”, ambos da Sylvia Orthof, uma deusa da delicadeza e do humor no cotidiano. Como Sylvia, Antonio explora os limites da nossa credulidade ao contar sobre seus insetos, pintos (de vários tipos), tartarugas e o sofridíssimo papagaio Getúlio.

Um dos encantos de Prata-filho (também li e adorei alguns livros do seu pai, Mario Prata; e esses dois Pratas ainda são primos do fantástico Campos de Carvalho!) é a sua capacidade de misturar a narrativa da criança com a do escritor, em frases como:

“Sem opção, enterrei a faca no jardim e parti para a clandestinidade. (…) Se estivesse disposto a correr riscos, mais valia me esgueirar até o quarto e resgatar uns Playmobils para brincar nos 24 ou 36 meses seguintes.”

Achei impossível não rir com as aventuras desse moleque fã do Bozo e do Spectreman, determinado a visitar a África numa prancha de isopor. Tanto faz se você só lembra de uma parte das coisas que ele cita (anos 1980/1990) ou se está conhecendo pela primeira vez. O autor te leva pela mão e te mostra o nonsense daquilo tudo. Quem não fingiu ter febre para não ir à escola e ouviu “as cinco palavras mais frustantes da infância: ‘trinta e seis e meio'”?

Lembrei-me também d”As aventuras do pequeno Nicolau”, de Sempé e Goscinny, que já citei aqui. Prata conta:

“Minha mãe parecia doente, havia engordado muito, reclamava de enjoos e dores nas costas, mas, para minha surpresa, visitas apareciam animadas, acariciavam sua barriga como se fosse uma dádiva dos deuses (…) Uma noite, escutei uns barulhos, minha mãe sumiu por uns dias, e, quando voltou, trazia no colo um bebê, dizendo que eu havia ganhado uma irmãzinha. // Eu achei estranho, nunca tinha pedido irmãzinha nenhuma (…).”

No tempo em que estou agora, com dois filhotes nas idades do personagem, é até covardia ler esse livro… Como não se apaixonar por um autor que escreve sobre a beleza de ver a mãe escovando os dentes, essa mãe que é uma “avalista da ordem e da paz”, uma “embaixadora do país da maternidade, em meio aos perigos da terra estrangeira”, com “a serenidade de uma cama feita, o respeito de uma mesa posta.”

Taí: a mãe do Antonio Prata é minha mais nova ídala.

Ah, e o outro livro maravilhoso que li em 2014 é o Crônicas de Jerusalém, de Guy Delisle (editora Zarabatana). Escrevo sobre ele numa próxima vez, mas desde já recomendo muito!

Sobre o desenho: Optei pelo caminho mais difícil nesse desenho, pois cismei que tinha que estrear meus novos lápis de cor Prismacolor, comprados graças a uma ida do meu sobrinho aos EUA (obrigada irmã!). Que cores lindas e que gostosos de colorir! Mas fazer todos esses detalhes uns por cima dos outros foi bem difícil…  Mas, tudo bem: o que eu queria mesmo era desenhar o Antonio nu, de botas! Espero que ele não se ofenda se por acaso descobrir esse desenho (não, ele não me aceitou de amiga no facebook…). Os materiais foram, no mesmo caderno “velho” que ganhei no Natal: canetinha 0.05, lápis de cor e um pouco de aquarela para as sombras suaves.

Sobre o livro: As citações estão nas páginas 24-25, 35, 69 e 122 do livro “Nu, de botas” de Antonio Prata, editado pela Companhia das Letras em 2013. 

Adendo de 17/4/2015: A linda capa original é do Alceu Chiesorin Nunes!

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7 pensamentos sobre “Risadas de botas

  1. Karina, encontrei seu post numa busca inusitada, adorei ver sua capa ilustrada e o menino de botas, te escrevo porque fiz a criação da capa e foram muitos estudos e muita risadas ao ler o livro, tentei inclusive representar o menino nú de botas, até chegar a esta que é uma passagem muito curta do livro, mas me marcou muito, realmente o Antônio Prata é incrível, e se vc não leu o livro anterior dele eu recomendo, além disso aguarde o próximo que está previsto para este ano, prazer em conhecer, alceu

    • Que legal essa coincidência, Alceu!! Fui no seu site e achei as capas todas LINDAS!! Eu amei a vitrolinha e a cor do fundo dessa capa para o Nu de Botas. E desenhar o menino nu ao lado foi irrestível (como deve ter sido para vc)!! Mas seu comentário também me serviu de lição: da próxima vez que eu fizer alguma capa, vou lembrar de colocar o nome do autor da original!! (Aliás, vou até retificar o post) Estou às vésperas de publicar o meu primeiro livro como ilustradora (tenho alguns como escritora, mas acadêmicos). Foi uma emoção à parte fazer a capa. Vou te mandar a imagem quando ficar pronta. Obrigadíssima pela visita!

  2. Fiquei com uma curiosidade para ler o livro! Pena que eu esteja longe e fique divicil conseguir um exemplar.

  3. Karina,
    como é bom receber seus pots todas as semanas! São inspiradores! Obrigada por compartilhar as ótimas dicas, os textos maravilhosos e os desenhos incríveis. Este desenho está demais…. Adorei!!!

  4. Kaká,
    as quartas já eram dias que esperava com alegria, dia de ver futebol na tv- meu Mengão nem sempre me deixando tão feliz . . . Agora espero as quartas com a certeza de que seus posts só me trarão delícias, como esta de hoje.
    Probleminha: saio comprando tudo que é livro que vc menciona aqui, justo qdo havia me proposto- decisão para o ano novo, saca?- a ser mais econômica e juntar uma graninha para viajar . . .
    De qq modo, obrigadíssima, querida. Afinal, gastar com livros não é pecado maior. Pensando bem, acho até que é virtude maior, não?
    Bjs em todos aí.

  5. Ah, K! É sempre tão gostoso ler os seus posts. Ainda me pego rindo lembrando do post de Oxford… Beijos e bom dia!

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