Karina Kuschnir

desenhos, textos, coisas

Saudades das Saudades de Oxford 2

20 Comentários

jardimbot2014b

Não sei se comemoro os pedidos dos leitores que escreveram “sim, queremos mais diários de Oxford!” ou se choro por achar que minha vida (ou meu texto, que diferença faz?) eram mais divertidos naquela época…

Lá vai um relato que escrevi mais ou menos na terceira semana da viagem, em janeiro de 2005, quando começava a me sentir mais integrada à “sociedade local…” 

**A Dieta Britânica**

A primeira e sem dúvida maior vantagem de vir para a Inglaterra é a oportunidade única de se fazer a “dieta britânica”. É muito simples e eficiente. O sistema funciona em etapas, bem parecido com as dietas tradicionais:

Etapa 1 – Choque de preços: Quando bate a fome, você entra numa lanchonete, olha o cardápio e analisa os preços. Que tal 50,00 reais por um queijo quente? Ou quem sabe 10,00 reais por um pedaço de bolo? Resultado: perda de até um quilo em uma semana.

Etapa 2 – Choque de paladar: Passada a primeira fase, você acaba se acostumando com os preços e resolve encarar. Você pede uma tradicional e simpática batata assada com queijo. Aquela comida quentinha e amiga que seu estômago tanto precisava. A aparência é boa, mas o gosto é indescritível: uma mistura de nada com algo azedo e um tanto amargo (depois você descobrirá que esse é o gosto do “Efeito Cheddar” — mais ou menos equivalente ao “Efeito ketchup” dos americanos). Resultado: perda de até dois quilos em uma semana (pois além de não comer, você ainda passa dias enjoada com o gosto do que comeu).

Etapa 3 – Choque de Supermercados tipo 1: Vencidas as duas primeiras etapas, você já aboliu a idéia de ir a restaurantes. Está feliz com a perda dos famosos três quilos (nada mau, você pensa) mas fraca e desnutrida. É hora de ir ao supermercado! Você entra no primeiro e… epa? não tem comida de verdade. É só comida de restaurante disfarçada: salada para 1, lasanha para 1, chop suey para 1, quiche para 1… Você também se dá conta que todos devem ser terrivelmente solitários nessa terra. A fila só tem 1 moça, 1 rapaz, 1 senhor, 1 adolescente. Nenhum grupinho. Cada um com sua cestinha ou com seus pratos-prontos na mão. Você compra timidamente uma sopa para 1. A embalagem diz que é de legumes, mas o “Efeito Cheddar” é o mesmo de sempre. Resultado: perda de até 1 quilo em três dias. (Isso porque você não aguentará mais uma semana na Etapa 3. Seu organismo está ficando fraco.)

Etapa 4 – Choque de Supermercados tipo 2: Afinal você encontra um supermercado de verdade, que vende arroz, lentilha e alface não lavada! Aqui você percebe que existem famílias nessa terra: e ricas. Para ter direito a usar o carrinho do supermercado é preciso pagar 1 pound! Isso mesmo: quase 6 reais só para usar o carrinho. Bem, você não pode esbanjar. Nada de carrinho. De repente, você se vê até feliz pensando: ah, a cestinha é de graça, que sorte a minha! Você compra então tudo o que consegue carregar na cestinha. Na volta pra casa, vencidas as etapas do fogão, você descobre um pequeno problema: o gosto da sua própria comida não é lá essas coisas… Resultado: perdas oscilantes de até 500 gramas por semana. (Isso porque, mesmo sendo ruim, a sua comida ainda é bem melhor do que qualquer outra).

**Beleza e Moda Britânica em Números**

– Liquidação!! Sapatos: 79 pounds! Casaquinhos Gap: 49 pounds! (multipliquem por 5, se estiverem de bom humor; ou por 6 se estiverem de mau).

– Cortes de cabelo: 67 pounds! Apenas lavar e secar: 30 pounds! (idem acima)

** Sinais de que você está se adaptando (mais ou menos) à vida local **

– Lidando com Máquinas: Aqui a industrialização avançada chegou a todas as esferas da vida humana. Máquinas que fervem café forte com leite fraco e um pouquinho de açúcar, máquinas que lavam e secam roupas em vinte minutos, máquinas que são caixas de supermercados! Todas funcionam à base de dinheiro e falam com você com vozes femininas eletrônicas. O pessoal dos estudos de gênero não ia gostar nada disso… Outro dia, no meu supermercado-restaurante preferido resolvi lutar contra a humilhação de ir para o único caixa-humano do local (para onde vão só os turistas e os velhinhos, claro). Era uma compra simples, pensei: apenas uns 20 reais por um pacote de guardanapos e um rolo de papel plástico. Você chega cheia de confiança, passa o primeiro pacote pelo leitor do código de barras da máquina e… já vai passar o outro quando uma voz soa lá de dentro: “please, put the item in the bag”. Você olha prum lado, olha pro outro… Como é que a máquina sabe que eu não pus o “item” na bolsa? A máquina repete: “pleeease, put the item in the bag”. Você obedece e a máquina agradece: “do you have another item?” Não me perguntem como, mas passei o outro “item”, coloquei os dois na “bag” e enfiei as moedas o mais rapidamente possível. Antes que eu saísse correndo, ainda ouvi: “pleeease, wait for your receipt”. Ai de você, pega o recibo. “Thank you.”

– Maurice (o housekeeper) quis tirar uma foto comigo e colocou a mão na minha cintura! Posso não fazer sucesso acadêmico, mas os trabalhadores me amam…

** Wash your own Mug **

– Coffee and Cake! Em todos os departamentos da Universidade há uma manhã ou tarde reservada para um encontro com café, chá, biscoitos e bolos. Assim, alunos conversam, professores se encontram, secretárias e bibliotecárias se distraem e os bicões como eu se integram à vida local. Até aí, nada extraordinário. O diferente disso tudo são os dois cartazes que você encontrará em todas as salas (os Common Rooms) de convivência: “The coffee and cookies at … costs 0,40p.” (e todo mundo põe os 40 centavos na cestinha); “Please, don’t forget to wash your own mug” (Por favor, não se esqueça de lavar a sua própria caneca!). Aqui não é a terra dos descartáveis como nos EUA. As mugs se multiplicam como filhotes de coelho e se você não lavar a sua pode voltar dali a uma semana que ela estará no mesmo lugar, intacta e suja como você a deixou. (É verdade, aconteceu comigo!) No Centro de Estudos Brasileiros, a diferença é que, ao invés de 1 cartaz, temos quatro ou cinco cartazes espalhados pela cozinha e sala, além de receber pelo menos 2 ou 3 e-mails por semana avisando “wash your own mug”! Adivinhem por que?

** Sinais de que você NÃO está se adaptando à vida local **

– Você continua tomando dois banhos por dia, mesmo com um chuveiro fraco e uma água que parece ter sido misturada com polvilho antisséptico Granado.

– Você continua sentindo falta de dormir com lençol de cima e lençol de baixo ao invés dessa colcha disfarçada de lençol que todos usam por aqui.

– Você continua não entendendo as piadas que os porteiros fazem após o tradicional bom dia! O sotaque é indecifrável. Outro dia, para ter assunto com um dos porters mais empenhados em me alegrar de manhã, tive a infeliz idéia de pedir que ele repetisse a piada, “slowly, please…” Depois de dez minutos de uma conversa de surdos, a única palavra que eu pesquei foi “hedgehog”. Quer dizer, pesquei é modo de dizer: guardei o som e depois fui olhar no dicionário. Era porco-espinho. Alguém nessa terra poderia me dizer se existe uma piada com porco-espinho no meio?

Relendo essas bobagens, fico pensando o que pensarão que eu estava fazendo em Oxford. Será que era mesmo uma viagem acadêmica? Se quiserem, publico o Diário 3, que será a prova de que sim: eu tinha atribuições supostamente intelectuais. Para quem perdeu o Diário 1, está aqui.

Sobre o desenho: Infelizmente meu outro caderno feito Oxford ficou no IFCS, daí que não tive tempo de escanear nada da época para o post. Esse jardim foi feito há duas semanas no Jardim Botânico do Rio, graças à companhia de duas amigas queridas. Nos escondemos no bambuzal, na esperança de que os guardinhas não nos proibissem de estender uma toalha para desenhar. Aí está a prova da nossa proeza! Foi feita numa amostra antiga de papel verde que a Nathalia me deu, e desenhado com minha nova canetinha branca Sakura Gel 0.4 (dica do genial Freekhand/Miguel Herranz). As sombras foram feitas com aguada de nanquim colocada num waterbrush de aquarela. Não estava levando muita fé nesse desenho, mas achei que melhorou um pouco depois de acrescentar contraste no Picasa. Desenhar tanta informação junta me dá uma preguiça danada, mas ao mesmo tempo gera um efeito de auto-hipnose. Se não fossem o calor, os turistas e o medo dos guardinhas, acho que teria conseguido completar a página toda…

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20 pensamentos sobre “Saudades das Saudades de Oxford 2

  1. Querida♡
    Fui teletransportada com teu texto ao ano de 2005 quando trocávamos confidências sobre as incríveis descobertas de nossas vidas!
    Sinto muita falta disso… E também de inventar provérbios geniais para nossa querida vovó Trude… Se pudesse falar diria: “como ter tempo prrrra inventarrrr tanta besteirrra prrra enfiarrr no meu boca e dizerrr que eu falei?”
    Aqui o inverno chegou. 6 da matina. Escuro. Me arrumando sonolenta pra sair pra trabalhar. CALL the Midwife! Já viu esta pérola da Netflix BBC?
    Daqui a pouco estarei na Terê-Petropolis, linda ao amanhecer, onde me sinto a Noviça Rebelde e passo em frente à casinha da vó Trude, humilde e digna, na beira da estradinha.
    Vou com a alma lavada, ouvindo pela milionésima vez o CD do Milton que engastalhou no meu carro. Todo artista tem de ir aonde o povo está…
    Meus netos já sabem as letras de cor e escolhem as faixas pelo número. Fico orgulhosa mas não darrr o brrraço a torrrcer… Agora vovó Trude sou eu♡

    • Ai, amiga, quantas saudades da vovó Trude e de ti, pois vocês são a mesma pessoa, sem dúvida! Que delícia te ler!! Escreve, vovó, escreve!! ♥

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  12. Que memórias deliciosas Karina. E um desenho curioso. Tens um livrinho onde anotas essas memórias?

    • muito obrigada Eduardo!! Que privilégio ter a sua visita aqui. Sim, tenho muitos livrinhos de memórias e outros de desenhos. alguns é que são de memórias e desenhos junto. espero poder juntar mais as duas coisas! bjs

  13. Adorei o texto e o desenho incrível. Estou adorando receber suas produções. Eu tb. escrevo, mas não desenho nada.
    Ando parada com minha escrita, em greve.
    Ano passado em agosto lancei um livro infantil pela Litteris. Estou muito impactada com os editores.
    Meu livro O pé e as mãos, é pra crianças mas pra adultos sensíveis tb, ou pra criança que nos habita. Lancei na Saraiva do Leblon.
    bjs
    Sonia

    • obrigada pelo comentário, Sonia! e parabéns pelo seu livro — vou procurar! Nessa vida maluca é meio difícil se concentrar para escrever e desenhar, mas não podemos desistir… um dia de cada vez, algumas palavras de cada vez, e no final de um mês temos um monte de parágrafos! Muitos escritores contam que estabelecem uma meta mínima por dia: 300 palavras ou x horas, por exemplo. no momento, estou com “1 post por semana” e lá se vão 15 semanas!! às vezes nem eu mesma acredito… bjs,

  14. Muito bom desenhar junto. E acompanhar a criação deste seu desenho tão sensível no Jardim Botânico…
    Ficou lindo!!!! E o texto… que delícia.

  15. Seu texto, como é praxe por aqui, tá delicioso mesmo com todo o “Efeito Cheddar.
    O que mais me impressionou mesmo foi esse desenho “roubado” no Jardim Botânico – quando vi achei que fosse gravura e ainda não tô acreditando que foi feito com canetinha branca e aguada de nanquim – ficou ótimo, ainda bem que vc não teve tempo de fazer mais nada nele!
    (belas dicas – a canetinha e a aguada dentro do waterbrush)
    Parabéns!

    • obrigada pelo incentivo, Murilo, valeu muito! me acho péssima para desenhar paisagens e qualquer situação “ampla”… mas a gente tem que encarar os desafios, ainda mais com as amigas desenhando ao lado: eu não podia enrolar, né? e nesse caso contei com a ajudinha do contraste eletronico, que melhorou significativamente a imagem. bj

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