Karina Kuschnir

desenhos, textos, coisas

Aos 46 do segundo tempo

21 Comentários

fev2014c

“Olha lá, quem acha que perder // É ser menor na vida // Olha lá, quem sempre quer vitória // E perde a glória de chorar // Eu que já não quero mais ser um vencedor // Levo a vida devagar pra não faltar amor” (trecho da música O vencedor, de Marcelo Camelo / Los Hermanos)

Amo essa música e acho que seria a epígrafe perfeita (que faltou) para a autobiografia de Jonathan Franzen e para a minha própria, se algum dia eu fosse escrevê-la… Ler as memórias do escritor nessa época de volta às aulas foi daquelas coincidências doces e amargas ao mesmo tempo. Minhas lembranças dos tempos de colégio não são nada divertidas; mas meus filhos se rolam de rir quando nos reunimos para falar dessas histórias…

Não fui tão caçula quanto Franzen (um temporão), mas caçula o suficiente para viver em função do meu irmão e da minha irmã mais velhos. Eu queria tanto tanto tanto ir para a escola, como eles, que minha mãe arranjou uma vaga para mim aos dois anos de idade, bem antes do que era comum em 1970. O resultado não foi muito promissor: digamos que eu nem sabia como ficar o dia inteiro sem fraldas! E digamos que meus irmãos adoravam me relembrar disso…

Passei o resto da vida sendo chamada de precoce (elogio das professoras e amigas da minha mãe) ou pirralha (acusação dos irmãos e dos “coleguinhas” de turma).

Não que eu fosse tão deslocada quanto o Jon (Franzen): na escola ele se sentia como se carregasse uma placa no pescoço “não contem nada pra mim”. Mas foi divertido descobrir que gostávamos de coisas em comum, apesar dele ter nascido em 1959 e eu em 1967. Ambos temos um fraco pelos oprimidos e fracassados. Eu também amava Charlie Brown, Snoopy e sua turma. Adorei quando Franzen contou que seu ídolo, Charles Schulz, criador de Peanuts, teria dito numa entrevista: “levei muito tempo para me tornar um humano”; e  explicou que não foi para uma faculdade de belas-artes porque seria um desestímulo “conviver com gente que soubesse desenhar melhor do que ele”. Ou quando lembra que Schulz teve que servir o exército, virou primeiro-sargento e refletiu: “me senti bem comigo mesmo, o que durou oito minutos, e depois voltei para onde estou até hoje”.

Aos quatro anos e meio fui parar numa escola nos Estados Unidos, sem falar inglês e sem minha mãe por perto. Acabei sendo convidada a me retirar por ser uma má influência para o meu priminho e seus colegas. Tudo que me lembro foi de ter tido a ideia de nos divertirmos trocando todos os casacos de lugar (havia um nome e um ganchinho para cada criança-e-seu-casaco); ah, e eu não colaborava muito quando tínhamos que cantar infinitas vezes a música “head, shoulders, knees and toes, knees and toes” (mais tarde hiper popularizada pela Xuxa em xuxês). Como Franzen e Schulz, eu acreditava em fazer as pessoas rirem.

Depois de uns anos numa escola que me hiperestimulava (no bom sentido: assisti Vidas Secas aos 6 anos e meio), fui mais ou menos jogada numa cidade do interior (sem mãe novamente), numa escola de Freiras com F maiúsculo. Em uma semana tive que aprender a rezar Ave Maria e Pai Nosso, vestir uniforme, cantar o hino nacional e fazer exercícios de matemática do século XIX. E sem um traje “anti-ansiedade”, como Jon às vezes conseguia… O coitado passou a adolescência inteira — in-tei-ra — tentando convencer a mãe a aceitar que ele usasse calça jeans aos domingos! (Nada como uma informação dessas para relativizar os nossos problemas…).

Daí em diante, parece que não temos mais nada em comum: Franzen se forma em literatura alemã, vira editor na faculdade; ainda bem jovem escreve uma peça teatral elogiada; alguns anos depois publica o romance Correções que faz dele um escritor famoso e premiadíssimo morando em Nova York! Ele próprio admite:

“Aos quarenta e cinco anos, quase todo dia sinto-me grato por ser o adulto que eu esperava poder vir a ser quando tinha dezessete anos. (…) Ao mesmo tempo, quase todo dia, perco várias batalhas para o jovem de dezessete anos que ainda vive dentro de mim. (…) Você nunca pára de esperar que a história para valer comece logo (…)”

Por incrível que pareça, por menos premiada e famosa que eu seja, acho que posso dizer que me vejo em cada uma dessas palavras. Estou (e não estou) exatamente onde queria estar, aqui e agora, aos 46 do segundo tempo.

Sobre o desenho: Em homenagem ao mês de volta às aulas, aproveitei o calendário de fevereiro para desenhar os materiais antigos e novos das crianças, mas também alguns meus, já que voltei para os meus queridos alunos ontem! A peça mais antiga do desenho é o estojo vermelho, à esquerda, que ganhei de presente da melhor professora de antropologia que já tive, a querida-mas-duríssima Lygia Sigaud (o Antonio adotou como estojo dele agora). A canetinha mais amada é a multicores que a Alice ganhou do amigo Ique (está logo abaixo do nome do mês). O item mais caro é a caneta Lamy amarela, no topo à esquerda, que comprei há pouco tempo, mas que não gostei nadinha de usar… (ainda!) O mais divertido é o estojo preto da Alice que imita um Iphone, bem no meio do desenho (não ficou nada fiel… o estojo custou pouco, é bonitinho e tem tamanho ótimo)!  As linhas foram quase todas feitas com a nova canetinha Sakura Kuretake (no desenho, está logo abaixo dos lapis de cera), indicada com paixão pelo Danny Gregory em seu blog. Ainda estou me entendendo com ela… As cores foram feitas com aquarela, lápis de cor e canetinhas hidrocor variadas.

Sobre o livro: As citações estão nas páginas 51, 84 e 134 de A zona do desconforto, de Jonathan Franzen (Cia. das Letras, tradução de Sergio Flaksman). Li também dois outros livros na semana passada que recomendo, por motivos diferentes: o bonito (mas triste, pelo assunto) Pyongyang — Uma Viagem à Coreia do Norte, de Guy Delisle (Zarabatana Books, trad. Claudio R. Martini); e A assinatura de todas as coisas, de Elizabeth Gilbert (Objetiva, trad. Débora Landsberg), uma distração despretensiosa, mas que me surpreendeu pelo aprofundamento no mundo da botânica e da biologia em geral. E acabaram-se as férias: agora estou relendo Roberto Cardoso de Oliveira, O trabalho do antropólogo: olhar, ouvir, escrever.

Sobre o atraso desse post: Fiquei sem internet o dia inteiro ontem (quarta-feira)… Por algum problema psicológico, só consigo escrever aqui se estiver online no painel do WordPress — nada me convence a escrever no Word. Vou tentar ser mais disciplinada e preparar a coisa com alguns dias de antecedência. (Não que alguém tenha reclamado! Ninguém reclamou… chuinf… mas meu senso de disciplina tem vaidade própria).

21 pensamentos sobre “Aos 46 do segundo tempo

  1. Pingback: ‘Não passei’, por Karina Kuschnir (23/12/14-11h19) | Portugal esportes

  2. Pingback: Não passei | Karina Kuschnir

  3. Karina, eu esqueço de mandar meus comentários embora eles fiquem rodando na minha cabeça. Adoro seus textos e vou feliz ler o último. Beijos

  4. Ih ! Já me pego na janela esperando o correio. Quando chega, chega um tempo seu que vira nosso. Valeu!

  5. Ola Karina,
    Não deixo de ler seus textos. São deliciosos porque além de bem escritos eles me provocam. Fui pra escola com 5 anos, mas as irmãs religiosas eram americanas e não falavam português, logo no primeiro dia aconteceu algo bem interessante. Minha mãe não sabia que deveria mandar merenda. Todos tinham menos eu. Elas através de mimica conseguiram que as crianças compreendesem que deveriam me oferecer um pouco da merenda deles. Fui privilegiada pois comi de todos.
    Seus desenhos são ótimos.
    Sonia

  6. Ola Karina
    Estou amando ler seu blog! Relembrei de muitas passagens em Oxford e de nossos encontros como vizinhas..
    Imagino que Antonio deva estar com uns 10 anos… Me lembro dele loirinho, pequeno ainda montando com habilidade e rapidez um quebra cabeça do mapa mundi (na epoca, com sua dica, eu comprei um iqual e, um dia destes vou montar com meu neto, que fez 2 anos.).
    E sua outra filha, que idade tem?
    Mora no Rio ainda?
    Saudades
    Bjs
    Clice – Sergio manda um beijo também

    • Clice querida!! que bom ter notícias suas! também morro de saudades da nossa temporada… te mandarei por email fotos das crianças! bj

  7. Até que para uma pirralha voce é bem legal !!!!
    Adorei Kau, beijos, TE AMO !!!

  8. Que mãe malvada, a sua !!!

    Adorei!!! Beijinhos

  9. Já falaram tudo que também achei : texto maravilhoso – leve de ler .
    Não reclamei da falta mas fiquei curioso do porquê de não receber a atualização do blog ontem.
    Valeu a espera.
    Aqui em casa, na contra-mão, que “herda” os estojos de canetinhas de minhas filhas sou eu.
    Já namorei pra comprar o livro do Guy Delisle – com sua opinião positiva, ele volta pra minha listinha….

    abraços

    • Muito obrigada, Murilo! é uma sorte minha ter um leitor tão talentoso como você! Amei o Delisle de Jerusalem, mas esse da Coreia do Norte é um pouco triste porque o país não ajuda… Agora vou tentar comprar as Cronicas Birmanesas. Virei muito fã dele.

  10. Um deleite seus posts, desenhos de linha graciosa e textos malinowskianos de deliciosa leitura. Nem sempre dou sinal da leitura, mas não perco um.
    Beijo
    Clarice

    • Clarice querida, que felicidade ter sua visita aqui e ainda um comentário desses!! vou tentar ficar a altura! bjs, K

  11. Bom demais.

    Enviado via iPad

    >

  12. seus desenhos são expressivos, divertidos e belamente coloridos. Seus textos uma delícia! Bjs, Kau. Geo

    • obrigada querido! por aqui pensando em você — quando eu crescer quero ser forte e alegre assim! tudo de muito bom para seu 2014

  13. K, que post sensacional! AMei tu-do. Sabe de uma: eu também fui pra escola aos 2 anos! Adorei a história dos casacos. Uma delícia. Love ro

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