Karina Kuschnir

desenhos, textos, coisas


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O sorriso do professor

livros

“Eu quero a sorte de um amor tranquilo…”

Sempre que ouço esse verso da canção do Cazuza e do Frejat, penso nos meus livros. Não sei quando li o primeiro, mas foi paixão e foi tranquila. Os livros são “meu pão e minha comida”… Não vivo, não ando, não me entendo sem.

Na adolescência, sonhei ser presa só para ficar o dia todo lendo. Desisti, porque acordei no Brasil e não naquelas prisões norte-americanas de filme da Sessão-da-Tarde. (Que meu filho não comece a ter ideias lendo isso!)

Achei que a solução era virar professora! Eu pensava: o que mais faz um professor do que ler o dia todo?

Sei, sei que vocês estão achando que era uma ilusão. Afinal, qual é o professor que tem tempo de ler livros hoje em dia?

Eu tenho. Não foi sem luta e sem obstáculos, como toda paixão que se preze! Não gosto de xerox, nem de textos em pedaços, nem de ler só a Introdução… Às vezes um artigo, ok. Mas nada se iguala ao livro inteiro, do início ao fim, seja ficção, ensaio, infantil, seja um livro. E ainda melhor quando termina com índices onomásticos, guardas decoradas, quem sabe impresso em gráficas do Rio antigo.

Quando era pequena, achava que os professores tinham uma Estante-do-Saber onde ficavam todos os livros necessários para o ensino de uma disciplina. Antes das aulas, eles iam até essa estante e tiravam o Livro-Certo para ensinar aos alunos.

Assim que me tornei professora, tive um choque: descobri que isso não existia! Eram milhares de livros e textos aos pedaços. Como escolher? Cadê a Dona Estante que ia me dizer o que dizer para os alunos? Vinte e três anos depois, esse ainda é o pior momento da profissão: montar um curso, ter que escolher, deixar um monte de livros de fora, falar tão pouco de alguns, selecionar partes mutiladas.

E todo esse preambulo foi para chegar na mágica de Como aprendi português e outras aventuras, de Paulo Rónai. É um encanto, uma erudição despretensiosa, generosa, amiga. Cada palavra está ali anunciando o prazer de compartilhar seu conhecimento, com humor e compaixão por nós, seus ignorantes leitores. (Sim, porque ninguém vivo pode dizer que sabe ou sabia mais do que Paulo Rónai — bem, talvez o Antonio Candido e a Cleonice Berardinelli, mas deuses não contam.)

Ainda por cima, sobre o que escreve Paulo Rónai? Sobre livros! E sobre a profissão de professor — que sonho de professor ele deve ter sido… Aqui em casa estão todos com ciúmes de tanto que falo do Paulo e de como queria tê-lo conhecido e quem sabe ter sido aluna dele… Eu certamente não seria como aquelas moças e rapazes que, diante de um exercício com o verbo aller (ir, em francês), obrigaram o professor a proibir as palavras “cinéma” e “futebol”, fazendo graça com a dificuldade da turma de adolescentes para achar lugares alternativos para “ir” em suas redações.

Mergulhado no debate sobre a reforma do ensino de latim, ele é rápido no diagnóstico: “Os nossos mestres, em sua maioria, não sabem sorrir.” E por que tanta carranca e mau-humor?, ele se questiona. Porque “senão algum aluno malandro poderia lembrar-se de fazer perguntas, e adeus autoridade.” A reforma precisava começar pelo professor:

“Bem sei eu que as aulas à razão de 20 cruzeiros ou menos, a instabilidade da profissão, os pesados encargos da família não são motivos especiais de alegria. E no entanto, se me perguntassem qual a reforma mais importante de que o ensino do latim necessita, responderia que é o sorriso do professor. Apesar do espírito hostil da época, apesar de suas próprias dificuldades, ele que entre sorrindo em cada aula, que saia de cada aula sorrindo. Sorrindo como quem acaba de realizar um milagre: o de ressuscitar mais uma vez um morto, a quem, há centenas de anos, em vão querem enterrar.”

Tenho certeza de que seus conselhos não valem só para os professores de latim!

Não o conheci, mas acredito que Paulo Rónai merece as mesmas belas palavras que utilizou para falar do amigo que tanto admirava, Aurélio Buarque de Holanda:

“[uma personalidade que se define pela] falta absoluta de qualquer sectarismo, a completa honestidade, o senso da medida justa, o instinto pedagógico e, sobretudo, o bom gosto.”

Em cada linha de seus escritos, sentimos “a presença de um homem vivo”, sem “prejuízo do valor científico”, uma individualidade “vibrante, compreensiva e moderna” que observa a linguagem — e poderíamos dizer, o mundo — com a mesma “inteligente curiosidade que lhe desperta a vida”.

Que melhor definição poderíamos oferecer a um professor ou à sua obra?

Sobre o livro: Como aprendi português e outras aventuras, de Paulo Rónai, (Mec/Fundação Biblioteca Nacional, editora Casa da Palavra, ). Estava quase terminando essa leitura maravilhosa (do conteúdo à edição), quando surgiu a notícia de que o acervo de Paulo Rónai corre perigo. Precisamos todos mandar mensagens para a USP, para Brasília, para a Dilma. Precisamos mantê-lo vivo e sorrindo. É incalculável o valor da sua presença em nossa língua, em nossas salas de aulas, em nossas estantes e livrarias, enfim, em nossa história.

Sobre o desenho: A imagem acima traz um pedacinho da sala aqui de casa, e gosto dela menos pelos livros do que pelo quadro com o gato Charlie ao centro, pintado pelo Antônio quando estava no terceiro ano da escola. O desenho foi feito com canetinhas nanquim, lápis de cor e aquarela. As crianças reclamam que não estou postando desenhos novos, mas é bom todo mundo se conformar que não sou biônica… (Será que elas sabem o que é isso? Biônica é uma expressão típica dos anos 1980, quando ainda achávamos que os robôs iriam dominar o mundo.)

Sobre as pitonisas da vovó: Não pude deixar de me emocionar, também, sabendo que a história de Paulo Rónai tem tantas afinidades com a do meu avô, ambos fugitivos da segunda guerra mundial. O que isso tem a ver com as pitonisas? É que minha tia escreveu lembrando que uma delas, a Dona Alzira, causava comoção e expectativa na casa porque sempre prometia que meu avô iria encontrar seu irmão desaparecido. Infelizmente esse dia nunca chegou.Tudo indica que ele foi assassinado nos campos de concentração alemães como meus bisavós.


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Alergia aos imperativos

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Não sei bem como começou a minha alergia aos imperativos. Talvez com a mania da minha avó de ir a videntes, que ela chamava carinhosamente de “pitonisas”. Ciganas, mães de santo, leitoras de cartas e de borras de café; mas também padres, rabinos, monges, budistas e médiuns. Todos tomavam café com ela.

Era uma espécie de novela. Você sentava e ouvia a previsão dos negócios, das doenças, dos casamentos, da chegada do sucesso ou das viagens. Tinha suspense, intervalos e próximos capítulos. Às vezes ela brigava com um deles, decepcionava-se. Ou ao contrário: elegia um guru, virava macrobiótica ou crente do dia para a noite. Ninguém se metia. “Coisas da vovó”. Duravam pouco e ela logo voltava para seu mix místico.

Eram gentes de todos os tipos, que nos levavam a visitar bairros longínquos, onde entrávamos nas suas casas ou templos, com respeito, fossem pretos, brancos, pobres, ricos, velhos, jovens, simples ou complexos. Alguns viravam conselheiros, confidentes, e até os melhores amigos pela vida toda.

Eu adorava minha avó, e me apaixonei pelo seu sonho de prever o futuro. Acompanhava suas excursões e, mais crescida, comecei a arriscar algumas visitas sozinha. Lembro de uma cigana, no alto da ladeira dos Tabajaras — olha o João do Rio aí — numa casa surpreendentemente branca e cheia de tapetes. Ela foi firme: eu ia “casar com um estrangeiro, que gostava de papéis e tinha olhos azuis.” Outra vez, fui numa senhorinha muito distinta que lia borras de café. E lá vinha o futuro: era certo o meu casamento com um homem alto, “estrangeiro e de muito estudo.” Variava a ordem, mas a previsão era consistente! Fazer o que? Cliente meio loira, com sobrenome estranho e cara de boa aluna (já de óculos desde cedo)…

Só que não. Eu não queria casar: queria ser grande (para bater nos meus irmãos) e fugir de casa para escrever e desenhar (lembram?).

Admito: ganhar na loteria não era uma má ideia. Será que elas não poderiam ver os números para mim? Não era para isso que serviam as numerólogas, tão na moda nos anos 1980? Não. Elas serviam para dizer que você deveria mudar de nome. Era só eu me chamar “Karynnah” e tudo ia dar certo.

Até que caiu a ficha. Nada mais de videntes e bilhetes da sorte. Confesso que pensei em casar com o meu primeiro namorado, bem moreninho, de olhos pretos e péssimo aluno. (Se eu não confessar, minha irmã vai me delatar nos comentários…) Felizmente acordei a tempo e acabei casando com um ator de teatro no Circo Voador.

Foi assim que peguei alergia aos imperativos. Não, não por culpa do ator; e nem do pai, nem da mãe! Meu pai não estava nem aí (literalmente). E minha mãe foi revolucionária à sua moda nos anos 1970. Acreditava no construtivismo e seu lema estava mais para “se vire” do que “me obedeça”.

A alergia veio mesmo é das previsões de pitonisas e dos manuais de auto ajuda ruins. Eles te dizem: “leia, cuide, seja, trabalhe, estude, corra, compre, medite, tome, faça”. Fico logo empolada: — “Ah, vão se catar. Vão mandar na vovozinha, que eu odeio que mandem em mim.” E também não mandem na minha falecida avó, pois no fundo ela ouvia a todos, mas só fazia o que queria.

(Ok… Não fica bem uma antropóloga escrever isso… Afinal, nas ciências sociais passamos metade das nossas vidas falando para os alunos sobre o poder da “coerção social” ou das “leis de ferro da oligarquia” — que eram de bronze, no original, mas o tradutor deve ter achado o material fraquinho, e pôs logo o ferro para assustar. Mas, convenhamos, se estamos ensinando sobre essas forças “invisíveis” há mais de um século, elas não são tão invisíveis assim, né? Até minha filha de oito anos sabe que o Obama lê o Facebook dela.)

Quando se liga o “radar anti-imperativos”, é como tomar uma vacina. Nenhum salvador de plantão te pega; nem vidente que quer te casar com turista, nem jogos de azar, nem anúncio da coca-cola, nem filósofo francês que descobriu o Graal, nem autor da moda que anuncia a solução final da antropologia.

Não é desacreditar de tudo. É tomar distância de quem profetiza que agora “o mundo tem que ser assim”.

Prefiro desenhar, contar histórias… e, principalmente, não mandar na vida de ninguém. 

Sobre os desenhos: Pedacinhos de um caderno de campo feito em Lisboa em 2013, para homenagear meu namorado, o homem mais gentil, doce, alegre, criativo e lindo da face da terra; e também muito, muito alérgico, como eu, a todos os imperativos e vontades de comandar as pessoas. Utilizei canetinhas Unipin 0.2, aquarela e lápis de cor, num caderninho de papel comum, mas com capa linda, e que agora só é vendido na Inglaterra… Aliás, se alguém tiver um endereço UK para me ajudar a comprar outros, agradeceria muito! *__*  (Para todos com mais de 18 anos: essa carinha à esquerda foi sugerida pelo Antônio. É um emoticon que significa “olhinhos brilhando”. Eu tinha digitado outro que, segundo ele, era impublicável… Vai saber!)

Agradecimentos: Na semana passada tive os meus cinco-mil-cliques-de-fama… Agradeço a gentileza dos que leram, likearam, compartilharam, comentaram. Prometo que não vou sucumbir ao sucesso, nem tentar postar coisas interessantes por várias semanas, de modo que possamos voltar aqui aos trinta e dois leitores e às bobagens de sempre. Lições demais também atrapalham!


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Dez lições da vida acadêmica

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Sou meio pé-frio para eventos acadêmicos. Outro dia aceitei participar de um que estava o maior sucesso. Plateia cheia, palestrantes chiques de várias partes do mundo, todo mundo se sentindo. Mas chegou a minha vez de falar: penúltima sessão, bem no dia-em-que-ninguém-aguentava-mais; as pessoas importantes pediram desculpas pois-tinham-outros-compromissos, as coordenadoras cataram estagiários para sentar nas cadeiras vazias…

Mas sou uma professora com brios e sigo em frente! A palestra deveria ser sobre como realizar uma boa pesquisa em Ciências Sociais. Transformei numa uma espécie de guia de auto-ajuda para jovens pesquisadores. Estas são mais ou menos as palavras que falei (e os desenhos que mostrei):

“É muito bom estar numa sala com pessoas iguais a mim: todos ganhando pouco, trabalhando muito e sem a menor certeza de ‘pra que serve’ essa profissão…

Vou falar um pouco da época em que estava fazendo mestrado e doutorado, já que essa é uma oficina de alunos de pós-graduação. Mas já vou avisando que não sou a pessoa mais indicada para falar sobre como fazer uma boa pesquisa… Quando entrei no mestrado, meu único objetivo era ganhar uma bolsa! Quer dizer, no fundo, eu queria deixar de ser estagiária de jornalismo… Na minha época, o estagiário de jornalismo passava o dia todo ouvindo o rádio da polícia (o que era proibido) e ligando para os bombeiros para saber se havia alguma tragédia na cidade. Não era a tarefa mais criativa do mundo.

Apesar disso, na minha curta carreira, aprendi a diferença básica entre jornalismo e antropologia: numa redação, escrevemos praticamente o mesmo texto curto todos os dias, com nomes de pessoas diferentes. Nas ciências sociais, tomamos um mesmo grupo de pessoas como tema e escrevemos todos os dias um texto sobre elas que não acaba nunca!

Quando fui estudar para o mestrado, meu maior desafio foi não dormir lendo Marx. Li aquele capítulo do Capital sobre o fetichismo da mercadoria e pensei: ferrou! Não entendi nada. Por sorte, a Maria Claudia Coelho era minha professora na PUC e se dispôs a traduzir aquilo pra mim. E não é que o texto caiu na prova? Uma professora durona estava na banca e me perguntou: porque você escolheu Marx para responder essa questão? Respondi a verdade: não tinha entendido nada quando li pela primeira vez, e depois achei genial —  era uma questão de honra enfrentá-lo na prova! (Só não falei que o mérito era todo da Maria Claudia, pois não ia pegar bem…)

Journal_Page_02Primeira lição aprendida: quase sempre vale a pena entender um texto clássico. É por isso que se tornou um clássico. (Mas nem sempre.)

Aprendi muito com as minhas gafes no primeiro semestre no Museu Nacional. Imaginem vocês que coloquei no meu currículo que sabia tocar violão! (Não, não tinha Lattes naquela época.) E num encontro de encerramento do primeiro período, ouvi um pessoal falando sobre uma tal de “ABA” e não tive dúvida: ‘professor, o que é ABA**?’  Meus colegas de turma vinham da UFF, do IFCS e da graduação em antropologia na Argentina! Todo mundo discutia a hermenêutica maussiana e a cismogênese… (**Associação Brasileira de Antropologia)

Enquanto isso, à tarde e à noite, eu ia para a redação da antiga rádio Jornal do Brasil trabalhar em matérias sobre a Guerra do Golfo, a construção da Linha Vermelha e os efeitos da Queda do Muro de Berlim. A agilidade desse tipo de trabalho me dava alguns trunfos, não posso negar.

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Um dia, tive que apresentar um seminário sobre o Homo Hierarquicus do Louis Dumont para a aula do professor Gilberto Velho. Ele era exigentíssimo mas, ao invés dos 20 minutos que me cabiam, gastei uns 27 ou 30… Terminei o mais rápido que pude, já me explicando: ‘desculpe, professor, demorei um pouco mais do que deveria porque esqueci todas as minhas anotações em casa’. A turma fez um grande ohhhh e de repente virei uma heroína!

Segunda lição aprendida: faça o seu trabalho, entregue o que você se comprometeu a entregar no prazo, mesmo que o resultado não seja perfeito. (Sempre se pode mandar anexos e notas depois!)

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Isso vale também para a escolha dos temas de pesquisa. No jornalismo diário, somos obrigados a enfrentar qualquer pauta, sem tempo para questionamentos filosóficos. Já nas Ciências Sociais… deixa pra lá.

Na época em que tive que escolher um orientador,  expliquei para o Gilberto Velho que não poderia ser orientanda dele de jeito nenhum. Falei que não sabia nada de antropologia, nem o básico do básico. Mas ele me respondeu, o que se tornou a Terceira lição aprendida: “você sabe escrever, e isso é 50% do trabalho do antropólogo”

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Minha sorte foi que logo no curso seguinte que fiz com ele, aprendi o segredo dos outros 50%: Para fazer antropologia bastava ficar o dia todo parada numa esquina, me enturmar com jovens desocupados e escrever um diário sobre isso! Quarta lição, com ajuda de William Foote-Whyte.

Nessa altura, eu sofria muito para fazer os trabalhos de mestrado. Muito! Eu não via sentido naquilo. Tudo me parecia tão inútil… Meu primeiro trabalho foi: “O conceito de nação na obra João Ubaldo Ribeiro em diálogo com Gilberto Freyre e outros autores”. No primeiro rascunho, fiz assim: revi toda a teoria que tinha lido nos primeiros quatro meses do curso e escrevi uma lista de 54 tópicos para abordar no trabalho. 54! A sorte foi que nessa altura eu já tinha tomado outra providência importantíssima para a carreira acadêmica: arranjei amigos mais experientes do que eu! No final, dos 54 tópicos sobraram 3!

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Quinta lição aprendida: na hora de fazer um trabalho, comece pensando pequeno. Quase sempre é melhor dizer muito sobre poucos temas do que o contrário. Felizmente, naquela época, a pressão para escolher um tema para a dissertação era menor do que hoje. Só me decidi a trabalhar com políticos no final do primeiro ano do mestrado. Me pautei pelo que achava que seria uma ‘pesquisa útil’. Acho que estava totalmente errada.

Hoje penso que todas as pesquisas são úteis, (ou quase todas), pois independentemente do tema, no fundo, a grande utilidade de uma pesquisa inicial é formar um pesquisador. (Sexta lição!)

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Gilberto Velho acabou por decidir ser meu orientador, sim. Ele nunca deu muita bola para fórmulas metodológicas. Era como aqueles figurões de Oxford para quem o Evans-Pritchard foi perguntar o que devia fazer quando chegasse nos Azande: “seja um cavalheiro” e “não haja como um perfeito idiota”, foram os melhores conselhos. Ele próprio sempre misturou muitas técnicas nos seus trabalhos, e nosso grupo de orientandos era um exemplo dessa diversidade.

Lição número sete: Tínhamos liberdade para experimentar e nos reuníamos semanalmente num espaço de troca, respeitoso e amigável. E esse é um segredo que não sei se consigo bem explicar: simplesmente não havia nos grupos de orientandos do Gilberto a famosa “feroz competição acadêmica”. Ao contrário, talvez a enorme exigência dele favorecesse em nós o espírito solidário! Nossas experiências envolviam observação participante, sim, mas também entrevistas longas ou curtas, fontes impressas, fontes históricas, imagens, filmes, diagramas, mapas, indicadores sociais, estatísticas eleitorais, fontes comparativas, teoria literária, sociológica, formalismo russo, folclore, urbanismo… O computador pessoal era uma novidade… mas cheguei a utilizar softwares de análise de conteúdo e por pouco não aprendi um sobre estudo de redes…

Que bom que não consegui. No doutorado, escrevi eu mesma uma pequena programação de software para lidar com meus dados de campo e de entrevistas. Mas tanto tempo no computador acabou me gerando uma tendinite tão grave que 90% da redação das 450 páginas da tese foi feita à mão.

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Lição número 8: computador demais sempre atrapalha. Seja no sentido mais direto, do sofrimento que gera no corpo do pesquisador; seja no sentido mais indireto, que é o excesso de dados que acaba por promover. Só para dar um exemplo, em 1991, ainda quando a internet se chamava bitnet e estava engatinhando nas universidades americanas, descobri um tesouro! Uma base de dados chamada Sociofile. Era uma espécie de Google para procurar resumo de artigos acadêmicos. Perdi semanas naquilo, separei uma lista fantástica de centenas de artigos, classifiquei por temas e… me perguntem quantos textos eu realmente li daquela lista? Uns dois ou três. Não deu tempo.

Journal_Page_10Lição número 9: referências bibliográficas demais atrapalham. No meio dessas experimentações todas, acho que tive sorte de passar por temas, lugares e pessoas muito diversos. Fiz pesquisas com elites, em casas legislativas, em favelas, em subúrbios e na Zona Sul, em locais de alta criminalidade, ou com movimentos sociais, em locais com alta escolaridade e renda.

Os políticos na minha opinião são o segundo pior grupo para se estudar. Eu achava que eram os piores: tem até um ditado russo: ‘você sabe quando um político está mentindo? Quando ele abre a boca.’ Eles nunca estão disponíveis, nunca querem te receber; quando te recebem estão ao telefone, quando marcam, esquecem, e quando lembram, não dá mais tempo. Eu morria de inveja de uma amiga que estudava velhinhos… Eu pensava ‘que maravilha seria ter aqueles informantes’, tão dedicados e solícitos, dispostos, simpáticos e com tempo! Até que minha amiga, sabendo dessas fantasias, foi logo me desiludindo: ‘tá maluca? Velhinho é o pior tema do mundo: primeiro, porque eles não param nunca de falar. Segundo, porque eles morrem no meio da sua pesquisa!’

Ok, agora falando sério. A coisa mais importante que aprendi com todos esses temas e experiências foi:

Journal_Page_11Lição número 10: uma boa pesquisa exige paciência, curiosidade e focoQuer dizer, paciência é só uma palavra bonitinha para não dizer: ‘enfrente o tédio’! Então, reformulando: uma boa pesquisa exige o tédio, aquele tempo em que você acha que não está fazendo nada, em que você se permite “se deixar ficar” junto ao universo de pessoas (ou textos) que escolheu para pesquisar. (Eu não disse que era só ficar parada numa esquina?)

Eu tenho um amigo que seguia essa regra, mas à sua maneira: passou mais da metade do seu mestrado sentado na mesa de um bar perto da universidade! Era um tédio bem divertido, digamos. E depois ele acabou fazendo uma dissertação incrível sobre como a pesquisa não deu certo! Hoje ele é um excelente professor doutor numa universidade ótima.

Talvez uma pesquisa seja um longo e paciente processo de aprender a olhar/enxergar, ouvir/escutar, interagir/dialogar com o campo (ou mundo) suscitado pelo tema que você escolheu. É estranho que eu tenha partido do que aprendi com Gilberto Velho para chegar a essa conclusão. Ele era a pessoa mais impaciente e ansiosa que já conheci na vida! Ai de quem não estivesse na aula dez minutos antes de começar. E todas as lendas de que ele chegava ao Museu Nacional às 7:15h da manhã, atendendo telefonemas com voz de “múmia” são verdadeiras. Era uma tortura para ele esperar até as 7:59 – já tarde nos seus parâmetros – para ligar e fiscalizar se já estávamos de pé e operantes!

Mas posso dizer que ele tinha um outro tipo de paciência, que se materializava através de duas práticas constantes: a curiosidade infinita pelo mundo, o que o levava a respeitar todas as fontes de conhecimento; e a capacidade de focar nesse processo de conhecimento como se não houvesse nada mais importante no mundo a fazer. Era uma curiosidade que o levava a ser capaz de ir ao baile funk, ao terreiro de umbanda, ler 300 páginas de um copião de tese num dia só, orientar pesquisas sobre astrologia, atores de cinema pornográfico e representações teatrais sobre a cidade no século XIX.

No meu caso, aprendi a praticar essas três coisas (paciência, curiosidade e foco) muito mais depois que me tornei mãe e me envolvi num trabalho voluntário para apoio a mulheres que desejam amamentar. Durante pelo menos dez anos coordenei grupos onde a principal tarefa era ouvir e dizer ‘hã hã’, ‘sim, entendo…’, ‘como foi isso, me conte…’, e devolver perguntas complicadas com outras simples ‘como você responderia essa pergunta…?’

Tive a sorte de estar num grupo que definia tudo isso como ‘dar apoio’ e ‘suporte’ . E qual não foi a minha alegria quando um dia descobri que era exatamente essa a técnica de entrevistas que o Howard Becker defendeu em seu livro sobre metodologia… Diga o mínimo e ouça o máximo…

Depois desse tempo de pesquisa, escuta e convívio, há que se percorrer ainda um longo caminho. Só que essa é a parte divertida! Fica para a próxima palestra. Obrigada. E agora vamos às perguntas de vocês!” (E foi difícil arrancar umas perguntas, porque os poucos que sobraram estavam com fome, claro.)

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Sobre os desenhos: Todos foram feitos na App Paper (53) no Ipad com canetinha Bamboo.

Agradecimentos: Agradeço à Julia O’Donnell e à Mariana Cavalcanti pelo convite para a palestra; e à Bianca Freire-Medeiros pelos êêêê entusiasmados. Aproveito para desejar que elas tenham mais sucesso na escolha dos convidados para a próxima vez!

Você acabou de ler “Dez lições da vida acadêmica“, escrito e ilustrado por Karina Kuschnir e publicado em karinakuschnir.wordpress.com. Se quiser receber automaticamente novos posts, vá para a página inicial do blog e insira seu e-mail na caixa lateral à direita. Se estiver no celular, a caixa de inscrição está no rodapé. Obrigada! 🙂

Como citar: Kuschnir, Karina. 2014. “Dez lições da vida acadêmica”, Publicado em karinakuschnir.wordpress.com, url “http://wp.me/p42zgF-68“. Acesso em [dd/mm/aaaa].


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Últimas Saudades de Oxford

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** O Humor Britânico **
 Ao iniciar uma refeição, os bons hábitos mandam: na França: “Bon appetit!”; na Alemanha: “Guten appetit!”; na Itália: “Buon appetito!”; na Inglaterra: “Never mind…”

** Atendentes, garçons e que tais **
Como vocês sabem, já quase me expulsaram de um restaurante porque eu pedi “water” com sotaque americano. Agora descobri (em 2005!) um crime ainda mais hediondo: pedir “olive oil”!
— O-li-ve-oiiiil? No, I am afraid we don’t have. (resposta simpática)
— O-li-ve-oiiiil? humpf. (resposta tradicional)
Mesmo com um prato de salada verde na frente, o máximo que você vai conseguir é um pouco de sal.

** A contribuição dos fast-foods para a humanidade **
Banheiros limpos no terceiro andar!

** Palavras que vocês não vão achar no dicionário **
“Top up” – Depois de horas tentando entender a voz eletrônica do outro lado da linha, finalmente compreendi. “Top up” é colocar dinheiro via cartão de crédito na conta do telefone celular, no cartão de ligações interurbanas, na máquina de xerox etc. Coisas da vida eletrônica.
“Engaged” – Se diz também quando a linha de telefone está ocupada.

** “I thought you were a student” **
Coisa boa: pelo menos umas cinco vezes fui barrada aqui nos lugares onde só entram pesquisadores e professores porque me confundiram com uma estudante de graduação! (Bem, vá lá, só “estudante”. Graduação já é fantasia minha.) Mas depois que me dei conta disso, resolvi assumir. Nunca mais paguei ingresso de “adulto” em cinema, museu ou teatro!

** Lavando roupa em oito etapas (ou em apenas 130 minutos) **
Você logo percebe os padrões locais de limpeza quando descobre que o seu College tem uma única lavanderia comunitária de 9 metros quadrados para centenas de moradores.

Etapa 1 – Você reserva uma manhã inteira e vai para a lavanderia ver quantas das quatro máquinas estão funcionando. Na chegada, você lembra que esqueceu o cartão magnético que abre a porta. (7 minutos) Não esqueça de novo: cartão, moedas, sabão, roupa suja e sacola. (5 minutos)

Etapa 2 – Você está com sorte hoje: três máquinas estão funcionando. Só um probleminha: todas estão lotadas. Você logo aprende que seus vizinhos gostam muito de colocar a roupa na máquina e sair para dar uma voltinha de 12 horas. Quando uma das luzes apaga, você tem o direito de usar a máquina. (Espera em torno de 13 minutos)

Etapa 3 – É seu trabalho tirar e jogar a roupa molhada do vizinho em cima da máquina. A tarefa não deixa de ser interessante. Você fica conhecendo o lado “íntimo” das pessoas: as russas e suas calcinhas de sex-shop, os adolescentes e suas bermudas rasgadas, o professor  inglês e suas camisas azuis de gola branca, a nova-iorquina e seus modelitos fashion… (5 minutos, se você não parar para examinar as roupas)

Etapa 4 – Colocar sua roupa, colocar a moeda, ler as instruções três vezes, girar o botão da temperatura (que você pensa que é o botão do tempo), apertar a pré-lavagem, ligar. Ah, não esquecer o sabão. (2 ou 5 minutos) Volte para casa e marque uns 40 minutos no relógio.

Etapa 5 – Duas opções: ou você chega antes do tempo, e tem que ficar esperando a lavagem acabar; ou você chega atrasada e todas as suas roupas estão jogadas em cima da máquina (pode contar que uma meia ficou perdida em algum lugar). (10 minutos)

Etapa 6 – Com sorte, uma máquina de secar está vazia. Esta é facil: colocar moedas (até acertar a quantidade de moedas com a quantidade de roupas, é outra história…), colocar a roupa, desistir de ler as instruções, girar o botão para qualquer lado, ligar. Ouvir o vizinho resmungando porque ele quer usar três máquinas, uma para cada tipo de roupa, “porque assim não amassam muito”, ele explica. Voltar para casa. (30 minutos)

Etapa 7 – De volta à lavanderia. Cenário ideal: sua roupa estará seca e te esperando no mesmo lugar. Cenário deprimente: sua roupa ainda está molhada e jogada num canto. Cenário terrível: suas roupas encolheram! Passei pelos três… (10 minutos)

Etapa 8 – Você chega em casa e descobre que esqueceu o sabão na lavanderia! 😦

** Táxi turbinado **
Desde que cheguei, já peguei taxista grosso, enrolão, simpático, estrangeiro-que-não-sabia-o-caminho, indiferente. Mas o auge foi o último: dirigia calmamente bebendo uma cerveja!

** Sinal de que está na hora de ir embora **
Conversando com um pesquisador novato:
Ele:  “Nossa, que bom, está o maior sol!”
Você: “Ah, nem adianta. Quando a gente terminar de colocar os casacos vai estar chovendo…”

Ele: “Oba, parece uma comida gostosa!”
Você: “Nem tente. Tem gosto de chili ou de leite-sem-sal.”

Ele: “Que máximo, vamos entrar nessa livraria?”
Você: “Nem adianta, o livro mais barato vai custar 24,99 pounds. Só uns 135 reais…”

Bem, relevem… Eu devia estar um pouquinho mau-humorada nesse dia!
Como diz um cartão-postal muito procurado aqui: 

“Apart from… the weather, the food, the acommodation, the countryside, the people and the language… I’m having a great time here!”

Sobre o desenho: A imagem desse post começou a surgir na minha cabeça há alguns dias, quando planejei que o calendário de março tinha que ser com o tema “queremos chuva”! Acabou sendo um dos desenhos mais divertidos e ao mesmo tempo trabalhosos de fazer. Como sou teimosa, usei o mesmo papel ruim do post Modelos vivos ou mortos?, mas dessa vez me preparei melhor. Prendi a folha com fita crepe na bancada da pia da cozinha antes de pintá-lo com água, lápis de cor aquarelável e aquarela. Esperei que secasse até ficar só um pouco úmida e passei a ferro. Dessa vez o papel ficou quase liso! Escaneei essa base pintada e fiz os desenhos no Ipad (app AdobeIdeas) com uma canetinha Bamboo que ganhei da minha mãe <3. Depois voltei tudo para o computador, aumentei o contraste (lembram que o azul sempre fica aguado?) e “recortei” as figuras com o Photoshop. Meu plano inicial era fazer toda essa parte à mão, mas deu preguiça quando percebi que teria que organizar cada pedacinho num outro papel e ainda voltar ao scanner… O calendário fica para amanhã — desculpem o atraso carnavalesco.