Karina Kuschnir

desenhos, textos, coisas


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Love maps

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Às vezes é preciso esquecer a lógica e sonhar… Nesse desenho, de 2011, imaginei um resultado do Google Maps que unia Brasil e Portugal numa tela só. Esse é o mundo em que vivo hoje, com filhos amados separados pelo Oceano Atlântico, mas unidos por uma felicidade imensa quando estão juntos.

Alice B., Alice K., Clara e Antonio: que esse mapa esteja sempre presente na vida de vocês!

Sobre o desenho: Canetinha nanquim e lápis de cor, com detalhes da tela do Google Maps (da época) e também de desenhos de Steinberg para a New Yorker (setas e pássaros). No meio do mapa, fiz o impossível: uma serrinha ligando Oeiras ao Rio de Janeiro…

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Mãe, não esquece, tá?


cenacasa

Alice, aos seis anos, estava com tosse há dias… Tentei dar antialérgicos (vários, mas numa sequência científica, claro, porque fui médica na outra encarnação). Mas tem uma hora que olho de mãe… Vi que ela estava caidinha e febril… Achei melhor ir logo para a emergência pediátrica. Peguei-a no colo, menos por necessidade, e mais por vontade de tê-la bem perto de mim. Descendo no elevador, ela se animou um pouco:

Alice — Vamos de carro ou de táxi, mãe?
K — De táxi, filha, porque não quero me preocupar em estacionar…
Alice — Ah, foi por isso que você pegou minha mesada?
K — É, filha, eu peguei, mas amanhã eu devolvo. Porque táxi tem que ter trocado.
Alice — Ah, mãe, não esquece, tá?

[Na portaria]
Alice — Mãe, olha lá a vovó. Ela vai ficar preocupada de me ver saindo no seu colo!
K — Depois eu explico, filha.
Alice — Não esquece, tá?
K — Não se preocupe: acabei de lembrar que eu disse para a sua vó que você estava febril hoje de manhã.
Alice — Ah, tá bem. E depois eu conto pra ela.

[No táxi]
K — [Pro motorista] Boa tarde, vamos para o Copa D’Or por favor.
Alice — Mãe, que lugar é esse? Você não falou que era hospital?
K — É sim, filha. É um hospital chamado “Copa” de Copacabana, que é o bairro; e “D’Or” que significa “de ouro”, em francês. E eles têm outros chamados: Barra D’Or, São Cristóvão D’Or… ops, não, não é São Cristóvão D’Or, filha, é Quinta D’Or, que eles acham mais chique, mas fica em São Cristóvão.
Alice — Ah… Entendi. É que nem shopping.

[No consultório da médica, já depois que a radiografia indicou que era pneumonia]
Dra — Ela teve febre?
K — Ah, teve sim, uns 37 graus e 6, mas só hoje de manhã.
Alice — Não, mãe: foi só 37 graus e 3. Tem que esperar apitar três vezes [o termômetro].
K — Não, Alice, foi 37 graus e 6!
Alice — Mãe… [muito desconfiada]
Dra. — [Já achando graça:] E quanto ela pesa?
K — Ai… não sei bem… Uns 21, 22 quilos?
Alice — hãã? Mãe??? Eu peso entre 19 e 20! [a balança deu 20.900]
Dra. — Tem que dar o antibiótico 3 vezes ao dia, nos horários certos, está bem?
K — Claro, posso fazer às 7h, às 15h e às 11 da noite?
Alice — Uhuu… vou poder dormir bem tarde!!!
K — Nada disso, filhinha. Você dorme cedo e eu te dou o remédio com você dormindo.
Alice — Ah, então vou poder acordar a hora que eu quiser!
Dra — Você acorda cedo, Alice?
Alice — Eu acordo, mas a minha mãe só gosta de acordar às dez horas da manhã!
K — Filha? Mas eu acordo às 6 para ajudar o seu irmão a ir para a escola?
Alice — Ah, sim, você acorda, mas depois volta pra dormir!
K — Não é nada isso, Dra. É que hoje eu voltei para tentar fazê-la dormir mais um pouco… [maior mentira]

[E seguiu-se uma não tão breve discussão sobre o horário em que ela queria tomar os remédios e sobre os meus maus hábitos…]

Alice — Ah, e quantos dias eu posso faltar a escola?
Dra. — Alice, quero que você fique pelo menos uma semana em casa.
Alice — Uhhu! Mas e o futebol? Eu posso jogar futebol?
Dra. — Não, Alice, acho melhor você ficar bem calminha e descansar.
K — E usar meias, não é, doutora?
Dra. — Isso: usar meias o tempo todo. Nada de pés descalços. [Ufa, uma vitória da mãe]
Alice — Mas isso pega? Eu posso ficar perto da minha vó e do meu irmão?
Dra. — Não, não pega não.

[E à noite antes de dormir]
Alice — Mãe, tem que lembrar de colocar o despertador para não esquecer a hora do meu remédio, tá?
K — Tá bem, Alice, não vou esquecer.
Alice — Mãe, amanhã tem que avisar a escola. Ah, e pedir para eles mandarem meus deveres-de-casa pelo Antônio. Não esquece, tá?
K — Tá, filha, claro.
Alice — Ah, e liga também para a Rose, para avisar que eu não vou no transporte, tá?
K — Pode deixar, filhinha. Descansa…
Alice — Quantos remédios eu vou tomar?
K — Dois.
Alice — Só dois?? Mas e aquelas horas todas que a médica falou?
K — Sim, desculpe, filha: são dois tipos de remédios, mas tem que tomar várias vezes por dez dias. dá um monte.
Alice — Mãe… só mais uma coisa… Eu já vou tá boa pro aniversário da Vilani? [a ex-babá dela, super querida]
K — Vai sim, filha, muito boa!
Alice — Não esquece, tá?

Sobre o texto: O texto (e o desenho) são de maio de 2012. Só penso em coisas boas quando vejo essa imagem. Além da paz de vê-los lendo e felizes, lembro que o desenho foi colorido por nós três juntos. Eita época boa em que as crianças gostavam de desenhar comigo! Foi nessa fase também que a Alice começou a se divertir com as revistinhas em quadrinhos do irmão. Ah, e não se preocupem: ela enjoou de me controlar em tudo — quer dizer, desde que eu não esqueça de buscá-la na capoeira e de ligar para a mãe do seu melhor amigo para combinar um programa!

Sobre o desenho: A qualidade da imagem está ruim (o fundo parece azul!) porque o desenho foi feito em papel A3. (Que coragem eu tinha!! O A3 é o dobro do A4, tamanho comum que usamos para as impressoras). Por isso, não consegui escanear, só fotografar e depois ajeitar (mal) com Photoshop. O material utilizado foi um bloco de desenho comum (daqueles de criança), canetinhas nanquim (provavelmente 0.3) e lápis de cor. Tudo feito a partir da observação da mesa da sala e de parte da cozinha da nossa casa, com participação da gatinha Lola e da sapa Trancs.


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Atenção: obras pedestres

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Há semanas, meses, anos, a rua onde moro vive em obras. Dizem que aqui passava um rio, e por isso todos os fios entram em curto e todas as manilhas se rompem. As britadeiras começam às 8 horas da manhã, mesmo aos domingos. As crianças e os gatos sufocam com o barulho.

Tento consolá-los dizendo que os operários lá embaixo estão sofrendo mais. Além da obra-em-si e seus ruídos, os motoristas se atracam às buzinas e os funcionários de trânsito bufam nos apitos, ambos numa ansiedade insana.

Fujo do caos, a pé, rumo ao metrô para dar aula no IFCS. Converso com os alunos, vemos juntos Debrets e Salavisas antes de partirmos para a rua. Nos abrigamos num pequeno largo dentro do Largo da Carioca para observar os passantes. Ficamos noventa minutos em paz. Exercícios fáceis com lápis de cor: acompanhar o movimento, riscar o papel. Sem modelos, sem compromissos. Depois desafios, formas, volumes, tempo livre. Voltamos para admirar os cadernos, beber água e conversar.

Saio do metrô com o céu já escuro para atravessar os 750 metros que faltam até a minha casa. Vejo um guarda municipal chutando cones e explodindo contra os carros que avançam na contramão. Quero rir, mas tenho pena.

E então vejo aqueles velhos baldes da obra se transformando em luminárias; as faixas dos tapumes brilhando no escuro. Meus olhos estão com as lentes dos desenhos da tarde.

Isso nunca me acontece — porque sempre morro de preguiça — mas aconteceu: resolvi pegar o caderno em casa e voltar para desenhar a cena. Achei um cantinho, encostada na grade de um prédio. Tentei calcular os espaços dos tapumes e agradeci por serem seis: três para cada lado do caderno, ufa.

As placas me comovem. Os pedestres são jogados para o nada: não há passagens, só asfalto e carros zunindo. Para onde vai aquela seta? Lembro do operário com quem conversamos outro dia. Há algo de surrealista na placa amarela: uma obra “a 20 mts” grudada nela mesma. E aquele quinto tapume, o único pichado? Foi Banksy quem mandou colocar?

Tudo isso junto foi a metáfora perfeita para a minha vida atual: em obras, a passo de pedestre, um dia de cada vez.

Sobre o desenho: Desenhei por observação com uma canetinha de nanquim permanente Micron 0.05 num caderno Molesquine formato paisagem. Já em casa, acrescentei as cores com aquarela e lápis de cor. Não tive coragem de fazer a noite por trás de tudo… Talvez por isso os baldes do desenho não cheguem nem perto do brilho que tinham os observados. Mas, fazer o que? Ainda estou em obras… Escaneei cada uma das páginas do caderno e depois juntei pelo meio com Photoshop. Como não tenho muita paciência, cortei as margens, que denunciavam a montagem tosca.


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A vida dos outros

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Quando fui parar na antropologia, minha mãe ficou muito preocupada. Eu tinha carteira assinada como jornalista e ia virar “antropo-o-quê”? Mas eu não; achei lindo escrever “antropóloga” em formulários de hotéis ou em documentos tipo-procuração que só servem para coisa chata. (A profissão melhora bastante o desgosto de encarar a burocracia.)

Bem, é um pouco mentira isso de ser antropóloga. Porque a atividade de professora é a que realmente ocupa o meu tempo. E, como as chances de realizar trabalho de campo são raras, faço de tudo para aproveitar a sala de aula para pesquisar. Afinal, tem um monte de alunos ali na minha frente, várias vezes por semana! Vou ficar falando o tempo todo? Nem pensar.

Meu objetivo número um como professora é dar um jeito de saber mais da vida dos alunos. Não estou interessada se eles decoraram os conceitos de Marcel Mauss. Estou é constantemente curiosa para saber o que pensam, qual presente gostariam de ganhar, como vêm e vão da faculdade, e como posso dar um jeito de metê-los numa pesquisa etnográfica (para obrigá-los a me contar tudo sobre a experiência, claro).

Um dos truques que inventei para pesquisar em sala numa disciplina de Metodologia foi pedir para os alunos escreverem uma redação com o título “Minha vida” em uma página. É bem cafona esse nome, eu sei, mas gera um tipo de material que adoro ler. Com uma boa análise, dá para mostrar aos alunos-que-se-acham-tão-singulares-e-únicos com são parecidos! Os padrões estão sempre lá: os desejos de consumo, os temas recorrentes, os sonhos de viagens, as pessoas da família.

Essa redaçãozinha simples serve para lembrá-los que uma pesquisa também é feita dos silêncios que provoca. Imaginem, naquela turma de jovens de 18 a 21 anos ninguém bebe, nem usa drogas, nem pensa em namorar! Como uma pesquisa pode enganar tanto assim, gente? Eles quase sempre morrem de rir de si mesmos; e constatam na prática que todo “dado” é construído, feito para alguém, variando segundo hora, lugar, contexto etc. Eu finjo que o objetivo é ensinar Ciências Sociais. Mas o lucro é que saio dali sabendo um pouquinho mais de cada um. Histórias tão lindas que já li: menina adotada, dançarina, mãe; menino perdido, outro poeta e até um que era da equipe olímpica de polo aquático!

Hoje em dia, quando não tenho tempo de analisar redações inteiras, faço em sala de aula uma versão mais curtinha. Peço que escrevam num papel o que fariam se ganhassem na loteria… a) 100 reais?; b) 10 mil reais?; c) 1 milhão de reais? Depois fazemos coletivamente a compilação e a análise das respostas. Todo mundo se diverte; e se arrepende; e quer começar tudo de novo. Não é fácil se ver objetificado numa tabela.

Contei tudo isso porque essa semana achei no meu computador uma adaptação do “Questionário Proust” — uma série de perguntas associada ao escritor francês que (supostamente) adorava esse jogo de salão. A partir de várias fontes na internet, criamos a nossa própria lista de perguntas, com a participação das crianças. (A Alice acrescentou uma pergunta sobre surf!) Depois, colocamos cada questão em um papel dobradinho, dentro de um chapéu, para ser sorteada. Foi a brincadeira certa para quebrar o gelo durante um reencontro de parentes que não se viam há muitos anos. Dá para saber um pouco mais de cada um com um pouco de humor. Aí vai a lista:

O que é mais importante em uma pessoa? Com qual figura histórica você se identifica? Como você gostaria de morrer? Qual a sua heroína favorita? O que seria a maior das tragédias? Onde gostaria de viver? Quais são os artistas que você mais gosta? Quais são os poetas de que mais gosta? Quem são seus heróis? Qual é o seu maior defeito? O que lamenta não ter feito? O que mais valoriza nos amigos? O que você mais detesta? Onde e quando foi mais feliz? Quais são os seus escritores favoritos? Quais são os seus heróis de ficção preferidos? Quais são os personagens históricos que você mais despreza? Quais são os seus heróis na vida real? Qual a característica que mais deplora nos outros? Qual é a pessoa que mais admira? Qual é a sua característica mais deplorável? Qual é a sua característica mais marcante? Qual é a sua ideia de felicidade perfeita? Qual é a sua maior extravagância? Qual foi a sua maior realização? Qual foi a sua viagem predileta? Qual é o lema da sua vida? Quem você gostaria de conhecer melhor? Que lugar você gostaria de conhecer? Qual é sua ideia de felicidade? Qual é sua maior qualidade? Qual é sua palavra favorita? Qual é o móvel da sua casa favorito? Qual é o maior amor da sua vida? Qual é seu atual estado de espírito? Qual é sua cor favorita? Que defeito é mais fácil perdoar? Quem são suas heroínas na vida real? Quem você gostaria de ser, se não fosse você mesmo(a)? Se pudesse voltar à vida como outra pessoa, quem seria? Seu compositor favorito é… Seus autores preferidos? Sua atividade favorita é… Qual é a sua parte do dia favorita? Qual é a sua bebida favorita? Qual é o seu estilo musical favorito? Se você pudesse mudar alguma coisa no seu passado, o que você mudaria? Qual é o último filme que você viu? Qual foi o último livro que você leu? Qual é a sua fruta favorita? Qual é o seu sabor de sorvete favorito? O que você gostaria de aprender que você ainda não aprendeu? Você prefere frio ou calor? Bicicleta, carro ou prancha de surf? Qual é a sua lembrança mais antiga? Gato ou cachorro? Café da manha, almoço ou jantar?

Sobre o desenho: Desenhei alguns livros aqui de casa inspirada pelo tema do post da semana passada (e para ilustrar o calendário de abril/2014). O bonequinho à frente foi feito a partir de um Gaston Lagaffe que tenho em miniatura. Acrescentei o Garfield porque era o meu personagem favorito na adolescência. Os materiais foram os de sempre: canetinhas nanquim 0.3, lápis de cor e aquarela.