Karina Kuschnir

desenhos, textos, coisas

Portão D

7 Comentários

PortaoDp

No meio da mudança, aproveitei para doar alguns livros e devolver outros que estavam emprestados. Mas um volume acabou no dono errado e, quando todas as caixas já tinham ido para o guarda-móveis, eis que me aparece de volta. Sabe aquele objeto que fica rodando de canto em canto, sem destino? Pois assim ficou o livrinho meio bege, meio rosa, no nosso lar provisório. Até que há uns dias, órfã da biblioteca, e sem vontade de avançar (e arrependida) do único volume que trouxe pra cá, fui ter com o dito cujo.

Pulei a introdução e o prefácio. Prefiro só ler explicações sobre obras de literatura depois de lê-las por mim mesma. (Também tenho horror de ver trailer de filmes que pretendo assistir.) Não é frescura, nem superstição. É simplesmente porque adoro a sensação de fazer descobertas, de sentir que estou tateando em busca de segredos e pistas, como nas caças-ao-tesouro da infância.

E que surpresa maravilhosa eu tive! O livro chama-se “Ladrão de casaca: Uma aventura de Arsene Lupin”, de Maurice Leblanc (trad. de Paulo Hecker Filho, Ed. Nova Fronteira). Aventura, suspense, romance, ironia, mistérios de quebrar-a-cabeça. Estou só no terceiro capítulo e já comecei a diminuir o ritmo com pena de acabar logo…

Não, não vou contar nada da história. Só resolvi trazer o assunto para o post porque ontem, tentando animar meus alunos a avançarem nas suas experiências etnográficas, me lembrei de como é importante saber “brincar de detetive” quando fazemos uma pesquisa. Sair de casa com uma pauta pronta deixa tudo sem graça.

Muitos já escreveram sobre isso, mas gosto especialmente do texto “Sinais: raízes de um paradigma indiciário” do historiador italiano Carlo Ginzburg (capítulo do livro “Mitos, emblemas e sinais”, editado pela Companhia das Letras). Ele escreve sem cerimônia sobre Sherlock Holmes, Freud, Galileu, Voltaire e outros autores de várias épocas, numa mistura divertida e empolgante sobre o tema da investigação científica.

Bem que eu desconfiava que a minha intensa formação em Agatha Christie tinha sido uma boa introdução às ciências sociais! Como Poirot podia descobrir a solução de um crime mostrando que sua testemunha “via” com a imaginação (o que esperava ver) e não com os “olhos” sem um doutorado em semiologia?

Tive a sorte de me encontrar com o mundo dos sinais e dos signos na faculdade de comunicação. É uma forma de olhar o mundo como se fosse um quebra-cabeça, um segredo a ser desvendado, um portão que se abre, quem sabe, para o país das maravilhas ou só para uma imensa obra do metrô.

Ah, e claro: fui examinar o volume perdido do Ladrão de Casaca! E não é que descobri o dono? Num cantinho das páginas iniciais estava o nome do meu irmão e o ano 1975 escritos na caligrafia da minha mãe. O pobrezinho tinha 11 anos nessa data e já devia dar sinais de que não ligava muito para a leitura… Alguém que perde um livro desses não o merece de volta, merece? Pois eu é que não vou devolver!

Aflita com a falta de assunto, perguntei para a Alice pela manhã: “Tem alguma ideia para o post de hoje, filha?” E ela, rápida: “Ah, escreve sobre mim, sempre faz sucesso!”

Sobre o desenho: Esse “Portão D” do desenho fica no cruzamento da R. General Venâncio Flores com Av. Ataulfo de Paiva no Leblon. Fui dar uma volta no canteiro de obras do metrô, e até consegui espiar o lado de dentro, mas acabei preferindo a ideia de retratar esse pedaço de escavadeira encoberta. Aliás, nem sei se é escavadeira mesmo. Preciso voltar para olhar direito. Como sempre acontece quando desenho, há detalhes que só passo a  enxergar quando estou desenhando. Uma das melhores coisas dessa cena foi descobrir que a cadeirinha azul (no canto esquerdo) estava com os pés traseiros enfiados para dentro do plástico. Adorei achar esse pedacinho de improviso em meio a uma obra tão imponente.

Desenhei no caderninho velho-novo (o mesmo desse post aqui) com canetinhas, aquarela e lápis de cor a partir da observação e depois com a ajuda de uma foto feita com celular para me lembrar dos detalhes. Queria ter conseguido fazer uma Kombi branca, cheia de escadinhas, parada à direita, mas não tive fôlego. Vai chegar o momento, me disse o Antônio, em que vou poder desenhar (e ler!) o dia todo, como a Lisa Congdon, uma das artistas que está inspirando desenhos lindos dele! Em breve vou postar aqui.

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7 pensamentos sobre “Portão D

  1. Ótimo texto, é muito inspirador!!!

  2. Uma sugestão de leitura que pega um pouco o caminho do gênero do Maurice Leblanc: O homem que via o trem passar, do grande nome da literatura noir belga, Georges Simenon. O livro dele é menos policial e mais existencial, mas sem perder, em momento algum, seu savoir-faire policialesco no que diz respeito a investidas em direção ao final, sempre ao final da história, como se seguisse à risca os preceitos de Cortázar para um bom conto (embora o livro em questão seja um romance). Simenon tem diversos livros policiais, era profícuo, escrevia um livro por semana. Mas no livro indicado agora ele decidiu fazer algo mais “profundo”, sem perder a agilidade típica do bom romance noir. Abç.

    • obrigada, Henrique! Até tentei ler Simenon na adolescência, mas acho que era muito avançado pra mim… rsrs Eu sempre tive mania de ler entrevistas com escritores e ficava fascinada pelas dele.

  3. Falar que voce escreve ótimos textos é quase um pleonasmo.
    Curiosamente, esta semana é a segunda vez que vejo “Arsene Lupin” .
    A primeira foi num comentário de uma crônica da Cora Ronai sobre um roubo em pleno concerto , na cara de toda a platéia e ,agora , com voce.
    Lembrou-me tempos de adolescente quando tive contato com o famoso ladrão refinado. Depois nunca mais o vi.
    Quanto ao desenho, posso garantir que é mesmo uma escavadeira, ou melhor, uma retro-escavadeira ( geralmente, do outro lado, na frente do equipamento, tem , acoplada, uma pá carregadeira)
    Gosto dessas interferências pintadas nos tapumes, uma forma de arte que deveria ser mais e melhor explorada.
    grande abraço

  4. Os filhos são ótimos para nos dar ideias de post. Alice é mestra. Escreve sobre ela, vai!!! Beijos e que bom que você está aqui perto de mim. Saudades

  5. Seus textos sempre inspiram. Obrigada, querida!

  6. Compartilho dos trailers e prefácios, odeio as salas de entrada!
    E Alice sempre rápida e certeira! rsrsrs

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