Karina Kuschnir

desenhos, textos, coisas

Aos treze

7 Comentários

Celina

Essa semana o meu desafio foi voltar no tempo. Não em busca de uma memória específica, um episódio ou um acontecimento. Não… Passei os dias tentando me lembrar de como eu vivia e sentia aos treze anos.

Ter formação em antropologia ajuda? Um pouco. Afinal, a gente vem se debatendo há décadas com a busca por conhecer o mundo pelo ponto de vista dos outros. E “eu, aos treze” era definitivamente uma outra…

O problema é que fazer isso só é fácil na teoria. “Basta não ser etnocêntrico”, diz o livro. Qualquer aluno de ciências sociais acha que tira de letra. Porém, é só pedir um exercício prático que a compreensão vai pelo ralo. Vejam um frase de um estudante do primeiro período (de muitos anos atrás) sobre o universo que tentava analisar:

“Eram pessoas muito diferentes de mim. Eu me senti um estranho, mas depois até que fui me acostumando e achando que eles eram legais.”

Pois é… Não acrescentou nada!

Mas hoje vejo essa frase de forma menos crítica. No fundo, ele escreveu o que todo mundo sente. Compreender o outro não é passar a achá-lo menos estranho e menos chato?

Eu até costumava mostrar essa frase como exemplo do que não escrever num diário de campo. Em seguida, mostrava um trecho de “boa prática” na escrita acadêmica, de uma aluna estudando jogadores de games:

“Esse grupo tem toda uma linguagem particular que aos poucos fui aprendendo. Por exemplo: ‘– Como foi na prova da Petrobras?’ ‘– Ah, foi só para ganhar XP.’ (XP é uma pontuação do jogo. Ele quis dizer que foi mal, mas serviu para ganhar XP=experiência.)”

Pronto. Pelo menos aprendemos alguma coisa.

Voltando à minha volta no tempo. De repente, consegui me lembrar. Quando eu tinha treze anos estava com a paixão à deriva! Sentia a existência dessa coisa maravilhosa, doida, dolorida… Tinha uma força pulsando no peito (e em outras partes do corpo!) e não sabia o que fazer com ela. Ansiava por viver aquilo que (achava que) já sabia na teoria… Escrevia cartas para namorados imaginários… Ia pulando de sonho, de canção, de ídolo, de amor imaginado, numa espécie de eterno viver-em-tese…

E por que essa viagem? Porque meu filho tem treze anos e meio. E eu o amo profundamente… e anseio por me sentir mais conectada com as descobertas e angústias que ele está vivendo. (Sem deixar de ser a mãe.)

Agora já me sinto um pouquinho menos ignorante. E também posso dizer: é difícil, mas vai passar. Daqui a pouco chegam os quatorze, os quinze e finalmente os mágicos dezesseis!

Sobre o desenho: Hoje passei duas horas no trânsito (não, não é modo de dizer). Mas no meio do caminho avistei minha sobrinha Celina Kuschnir, assim mesmo, de calça (ou meia-calça) azul e capa-de-chuva vermelha (ou seria um vestido?). Uma coisa linda de se ver, toda Amelie Poulain, no meio da Rua São Clemente! Gritei por ela, que se virou e me deu um oi-tchau e um sorriso de longe. Assim que cheguei em casa, tentei desenhar a cena, que vai aí em cima em canetinha Uninpin 0,1 e aquarela. Sei que está bem tosca, mas acho que é uma boa ilustração de alguém vivendo a idade-na-idade-que-tem. E um bom lembrete para mim: viver no presente, pois até no meio de um trânsito horrível pode surgir um desenho cor de rosa!

Sobre o título desse post: “Aos treze” é também o título de um filme (2003, direção Catherine Hardwicke) que vi por sugestão de minhas alunas (na época, da PUC-Rio), que fizeram um ótimo trabalho sobre o tema da adolescência no cinema.

7 pensamentos sobre “Aos treze

  1. Lindo, Karina.

    Brilhante a conexão etnografia-máquina do tempo pessoal.

    Bjs,

    Arthur

  2. Que maravilhoso esse talento seu de falar dos afetos que justificam nossas vidas em todas as idades.

  3. Queriiiida: a frase mais significativa de seu texto foi “sem deixar de ser mãe”. Se conseguir a fórmula me conte, por favor. Acredite numa mãe que sempre se considerou diferente e desprendida das demais. Que ouvia os filhos, procurava responder-lhes com diferentes questões para que eles próprios buscassem as soluções em que acreditavam serem as melhores para eles. É claro que, “como mãe”, muitas vezes elas – as soluções – divergiam das minhas. Só sei de uma coisa: VAI PASSAR !!!!! E os resultados podem nos surpreender. Beijo e vá em frente, SEM DEIXAR DE SER MÃE

  4. Engraçado você escrever sobre os treze. Dia desses uma professora minha, a artista Lygia Eluf, soltou uma dessas: “Acho que continuo a mesma pessoa que era aos treze. Só acumulei coisas e peso”. Sorri pra ela. Depois pensei que ou ela era muito livre aos treze, ou é muito livre agora, ou os dois. Mas a mesma? Duvido.

  5. Maravilhoso o texto e o desenho!
    Realmente é um aprendizado reviver a nossa adolescência, entendê-los e orientá-los! Rita missão complexa!! Mas chegaremos lá! Um super beijo.

  6. Olá Karina, seus textos e desenhos são sempre cheios de conexões e de vida. É muito bom ler seus textos pois sempre me fazem recordar de algo que experienciei e assim regastar seus significados. Beijos pra você.

  7. Karina, que lindo! Que amor é você e que vida nós temos. Lindo desenho e mais lindo ainda os 13 anos. Beijos

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