Karina Kuschnir

desenhos, textos, coisas


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Continue a nadar, continue a nadar

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Quase me afoguei no mar por volta dos onze anos. Não perdi a consciência, mas fui tirada da água por dois salva-vidas que seguravam meus braços com força e me mandavam afundar e respirar, afundar e respirar. Nunca recuperei a coragem com onda de praia, mas sou um pouquinho teimosa (de onde será que a Alice puxou?) e cheguei a me formar num curso de mergulho, com cilindro, pé-de-pato e tudo mais.

Também já tive dois namorados-peixes (um ainda tenho!), do tipo que morre se não nadar todo dia. Os dois tentaram me conquistar para participar desse amor pelo mergulho matinal. Só faltou combinarem com meu sono, meu ouvido, meu nariz, meu cabelo, meu frio… ah, e ainda arranjarem uma piscina sem cloro. Em 2013, fiz até um protetor de ouvido especial para tentar vencer o bloqueio, mas a anti-piscinice foi mais forte.

Pessoa-peixe é ótima para namorar, desde que você saiba com quem está nadando… É do tipo que fica bem sozinha, gosta de sons repetitivos (conhecem o Philip Glass dos anos 1980?), acorda cedo feliz, tem relógio à prova d’água e mini-toalha de atleta. E tem o lado peixe: escorrega toda vez que você tenta segurar!

Essa é a graça. Amar alguém que nada ao seu lado; nem te puxa, nem te empurra. Não tem tempo ruim, chuva, frio, madrugada, tristeza; é “bora pra piscina”. Como canta a peixinha Dory, personagem do filme Procurando Nemo, toda vez que se atrapalha:

— Continue a nadar, continue a nadar, continue a nadar…

[No original: “Just keep swimming, just keep swimming, just keep swimming.” Vejam aqui]

Essa filosofia-aquática da Dory serve pra tudo, vamos combinar?

E é bem mais delicada do que a da Alice, que outro dia pegou um copo d’água bem grande e foi toda sorrateira jogar na cara do irmão. Detalhe: ele estava dormindo. Só ouvi os gritos pela casa!!

Eu — Filha, por que você fez isso????

Alice — Ah, não sei… queria ver se era engraçado!

Antônio — Mentira, mãe. Ela viu isso no Rezende!

Eu — Rezende?? Quem é Rezende? O que é Rezende?

Alice — Ele é muito legal, Antônio!!

Antônio — Ele faz vídeos sobre Minecraft, mãe. Outro dia ele jogou água na cara do irmão dormindo também.

Alice, na maior cara-de-pau: — É, e pelo menos o irmão dele achou engraçado…!

Eu, a mãe-sendo-mãe — Alice?? Dois dias sem internet! E pede desculpas para o seu irmão.

Sobre o desenho: Fiquei feliz porque as crianças finalmente voltaram a me ajudar nesse calendário de fevereiro — por acaso mês do signo de peixes também. Aprendemos no Google que esse era o último mês do calendário romano, e não tinha nome porque ninguém marcava o tempo no inverno. Existem várias lendas sobre por que fevereiro tem 28 dias mas, para mim, a grande data é 26, aniversário do meu filhote, nascido em pleno Carnaval de 2001, com direito a pediatra cheio de purpurina na sala de parto (contei a história nesse post aqui; e indico também uma fonte engraçadíssima sobre fevereiro aqui).

Fica o convite para que, mesmo nesses tempos difíceis, “continuemos a nadar”, cada um nas suas cores e no seu ritmo.

Fizemos o desenho com canetinhas Unipin 0.05 e colorimos com lápis-de-cor Prismacolor. As sombras foram feitas com caneta brush Tombow Abt, n.95. No Rio, dá para comprar as duas canetas na papelaria JLM, no Largo do Machado.

 

 

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Mortos pelo Rio

 

mortos

Quando ainda era bem pequeno, diante de uma série de fotos em preto e branco, Antônio fez uma pergunta que me supreendeu:

— Eles estão mortos, mamãe?

Hoje, na tentativa de homenagear algumas das dezenas de pessoas assassinadas nesses primeiros dias de 2015 no Rio de Janeiro (e nem falo do Brasil, pois já seriam centenas), lembrei dessa nossa conversa.

— Sim, filho. Eles estão todos mortos.

E não sei como podemos continuar vivendo no Brasil assim…

Nos anos 1950, o sociólogo Everett Hughes formulou uma explicação simples para os milhões de mortos na Alemanha da Segunda Guerra Mundial. Alguém estava fazendo o “trabalho sujo”, enquanto a “sociedade” seguia mais ou menos vivendo como se não fosse com ela. Isso soa familiar?

Hoje, no Brasil, morrem principalmente jovens meninos pretos pobres, moradores das áreas desfavorecidas das cidades. Quando grande parte da minha família foi dizimada na Guerra, eram judeus, os pretos pobres da ocasião.

É uma ilusão achar que eles morrem e nós não. Estamos morrendo juntos, pouco a pouco, a cada nome que acrescentamos nessa lista macabra. Porque um dia nossos filhos vão nos perguntar:

— Mas vocês sabiam disso e não faziam nada?

Sinceramente, gostaria que alguém me dissesse o que posso fazer.

O título desse post foi para me lembrar de que essas pessoas estão sendo mortas porque moram no Rio de Janeiro, porque moram no Brasil. Porque é isso que acontece com quem mora aqui.

Sobre o desenho: Retratos feitos a partir de fotos de sites com notícias sobre assassinatos no Rio de Janeiro em janeiro de 2015 de crianças, estudantes, policiais, pessoas. Fiz num caderno antigo utilizando canetinha Unipin 0.05 e aguada de nanquim.


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Quem somos nós afinal?

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“Quando passamos dos cinquenta temos necessidade de encontrar formas de nos tornarmos visíveis aos nossos próprios olhos. (…) Por que razão faço o que faço, porque vivo onde vivo, porque partilho a minha vida com quem partilho?”

A frase é de Philip Roth, numa carta ao seu personagem Nathan Zuckerman, explicando por que resolveu escrever uma autobiografia aos 55 anos.

Foram duas semanas de leitura aprendendo sobre a vida nos subúrbios pobres, judaicos e negros de Nova York. (Sempre me surpreendo com a América parcialmente anti-semita dos livros, pois na história da minha e de muitas outras famílias os Estados Unidos foram terra de salvação.)

Entre ser judeu ou americano, Roth se encantava com seus colegas que lecionavam inglês e, nas horas vagas, viravam escritores tão bons e tão sérios que seus livros nunca vendiam. Mas foi só um sonho. No meio do caminho, ele escreveu contos, publicou, ganhou prêmios, casou-se e descasou-se. A vida e o livro seguem meio mornos…

Eis que nos surge Zuckerman, em sua potência: — “Caro Roth, li o manuscrito duas vezes. Aqui está a franqueza que me pedes: não publiques.”

O personagem acusa o autor de querer se passar por uma “boa pessoa”, a falar pelas bordas, a evitar seus dramas, as desgraças, a vida sexual, enfim, a ser tão diferente do escritor que escreveu sua obra. Pergunta Zuckerman:

— “Em qual das poses devo acreditar: na da ficção ou nesta?”

Como esconder as batalhas se são elas que alimentam a criatividade? É do personagem também a frase:

— “As coisas que te esgotam são também as coisas que te alimentam o talento.”

Apontando os equívocos de cada passagem da primeira parte da autobiografia, Zuckerman provoca, nos fazendo sorrir:

— “Estou a inventar? Apanhei o tique contigo — mas então a minha ficção, se ficção é, talvez seja, ainda assim, menos ficção do que a tua.”

A crítica à obra continua quando Maria (mulher de Zuckerman) entra no texto para dizer que até o recurso à carta dos personagens “é um truque de autodefesa”. Para ela, Roth fala de seus pontos fracos “só depois de escolher com enorme cuidado de que pontos fracos vai falar”.

Maria não quer ser “interessante”; ela quer uma existência que “clama por ser vivida”.

Zuckerman retoma a palavra para as perguntas finais:

“Quem somos nós afinal? E porquê? A tua autobiografia não nos diz nada sobre o que aconteceu, na tua vida, para nos fazer surgir de ti.”

Li esta pequena autobiografia de Roth antes da eclosão das tragédias de Paris e Baga (Nigéria), mas não da nossa diária tragédia carioca. Penso que veio em boa hora… Estamos todos precisando saber:

“Quem somos nós afinal?”

A única resposta de que tenho certeza foi a que publiquei na semana passada: somos aqueles que têm muitas razões para chorar.

Li dezenas de artigos, posts, vi charges, tv, debates… Irritam os que apresentam um diagnóstico e uma receita pronta. Como Maria, Zuckerman e seu autor propõem, é com diálogos e múltiplos pontos de vista que precisamos ir em busca dos “factos”.

Sobre o livro: “Os factos: autobiografia de um romancista” é de 1988, mas ventos amorosos me trouxeram a edição recém lançada em Portugal (Ed. Dom Quixote, tradução de Francisco Agarez, 2014). É pena que não exista no Brasil… Ah, e nunca é demais lembrar: esse livro faz parte de uma tradição deliciosa em que, pelo menos desde Cervantes, os personagens questionam seus autores!

Sobre o desenho: Desenhei Roth a partir de uma fotografia de Fred R. Conrad com canetinha Kuretake Fudegokochi, depois borrada com um pincel de aquarela (waterbrush). Antes dessa versão, tentei fazer outra com cores, mas saiu tão mal, tão mal, que me deu horror a ponto de eu rasgá-la em pedacinhos. (E conto logo esse ataque para que o Zuckerman e a Maria não venham me esculhambar aqui também…)

PS: E sempre vale a pena lembrar que a arte nos salva, como tentei escrever no post em homenagem à Maria Eduarda, morta ano passado no Rio.


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Morte desenhada

choro

 

O gatinho chora pelos mortos e feridos no atentado em Paris hoje, 7/01/2015, e por todos os crimes contra a vida humana por motivações religiosas. (Não custa lembrar que todas as grandes religiões já motivaram assassinatos em nome do seu ‘deus’.)

Parafraseando Dom Quixote: que não sobre nos tinteiros dos cartunistas nem um pontinho de tinta! Que os desenhos possam ser desenhados, que todas as histórias possam ser contadas.