Karina Kuschnir

desenhos, textos, coisas

Quem somos nós afinal?

6 Comentários

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“Quando passamos dos cinquenta temos necessidade de encontrar formas de nos tornarmos visíveis aos nossos próprios olhos. (…) Por que razão faço o que faço, porque vivo onde vivo, porque partilho a minha vida com quem partilho?”

A frase é de Philip Roth, numa carta ao seu personagem Nathan Zuckerman, explicando por que resolveu escrever uma autobiografia aos 55 anos.

Foram duas semanas de leitura aprendendo sobre a vida nos subúrbios pobres, judaicos e negros de Nova York. (Sempre me surpreendo com a América parcialmente anti-semita dos livros, pois na história da minha e de muitas outras famílias os Estados Unidos foram terra de salvação.)

Entre ser judeu ou americano, Roth se encantava com seus colegas que lecionavam inglês e, nas horas vagas, viravam escritores tão bons e tão sérios que seus livros nunca vendiam. Mas foi só um sonho. No meio do caminho, ele escreveu contos, publicou, ganhou prêmios, casou-se e descasou-se. A vida e o livro seguem meio mornos…

Eis que nos surge Zuckerman, em sua potência: — “Caro Roth, li o manuscrito duas vezes. Aqui está a franqueza que me pedes: não publiques.”

O personagem acusa o autor de querer se passar por uma “boa pessoa”, a falar pelas bordas, a evitar seus dramas, as desgraças, a vida sexual, enfim, a ser tão diferente do escritor que escreveu sua obra. Pergunta Zuckerman:

— “Em qual das poses devo acreditar: na da ficção ou nesta?”

Como esconder as batalhas se são elas que alimentam a criatividade? É do personagem também a frase:

— “As coisas que te esgotam são também as coisas que te alimentam o talento.”

Apontando os equívocos de cada passagem da primeira parte da autobiografia, Zuckerman provoca, nos fazendo sorrir:

— “Estou a inventar? Apanhei o tique contigo — mas então a minha ficção, se ficção é, talvez seja, ainda assim, menos ficção do que a tua.”

A crítica à obra continua quando Maria (mulher de Zuckerman) entra no texto para dizer que até o recurso à carta dos personagens “é um truque de autodefesa”. Para ela, Roth fala de seus pontos fracos “só depois de escolher com enorme cuidado de que pontos fracos vai falar”.

Maria não quer ser “interessante”; ela quer uma existência que “clama por ser vivida”.

Zuckerman retoma a palavra para as perguntas finais:

“Quem somos nós afinal? E porquê? A tua autobiografia não nos diz nada sobre o que aconteceu, na tua vida, para nos fazer surgir de ti.”

Li esta pequena autobiografia de Roth antes da eclosão das tragédias de Paris e Baga (Nigéria), mas não da nossa diária tragédia carioca. Penso que veio em boa hora… Estamos todos precisando saber:

“Quem somos nós afinal?”

A única resposta de que tenho certeza foi a que publiquei na semana passada: somos aqueles que têm muitas razões para chorar.

Li dezenas de artigos, posts, vi charges, tv, debates… Irritam os que apresentam um diagnóstico e uma receita pronta. Como Maria, Zuckerman e seu autor propõem, é com diálogos e múltiplos pontos de vista que precisamos ir em busca dos “factos”.

Sobre o livro: “Os factos: autobiografia de um romancista” é de 1988, mas ventos amorosos me trouxeram a edição recém lançada em Portugal (Ed. Dom Quixote, tradução de Francisco Agarez, 2014). É pena que não exista no Brasil… Ah, e nunca é demais lembrar: esse livro faz parte de uma tradição deliciosa em que, pelo menos desde Cervantes, os personagens questionam seus autores!

Sobre o desenho: Desenhei Roth a partir de uma fotografia de Fred R. Conrad com canetinha Kuretake Fudegokochi, depois borrada com um pincel de aquarela (waterbrush). Antes dessa versão, tentei fazer outra com cores, mas saiu tão mal, tão mal, que me deu horror a ponto de eu rasgá-la em pedacinhos. (E conto logo esse ataque para que o Zuckerman e a Maria não venham me esculhambar aqui também…)

PS: E sempre vale a pena lembrar que a arte nos salva, como tentei escrever no post em homenagem à Maria Eduarda, morta ano passado no Rio.

6 pensamentos sobre “Quem somos nós afinal?

  1. Karina, adoro seus desenhos e seus textos. Realmente, a pergunta: Quem somos nos? Faz parte dum mundo intimo que quase sempre o guardamos sem revelar! O facto é que por aqui vivemos toda a semana passada a sentir toda a sorte de sentimentos, indo do choro ao riso e grudado nas noticias que chegavam das tragédias que se sucedem nesse
    mundo de Deus e também do Diabo. Hoje acordei cedo para ver se conseguia o N° do Charlie Hebdo, mas em todas as bancas de jornais ja estava esgotado e prometem-nos para os próximos dias. O mais importante aqui, foi a capacidade de reunir as diferentes facções políticas e ver um sentimento de unidade. Pena que não sabemos por quanto tempo! O importante é que foi importante de defender os Direitos Humanos da Liberdade de expressão que faz parte da nossa cultura pois o que é pena é justamente a falta de cultura e o fanatismo que nada tem de religioso nem de objectivo.

    • Oi Luiz, muito obrigada pelo comentário tão gentil e por compartilhar aqui a experiência dos que estão em Paris. Imagino que difícil e ao mesmo tempo emocionante viver de perto esse momento. Força pra todos aí

  2. Primeiro e antes de tudo, me empresta o livro quando desapegar?
    Você é uma de minhas mestras que me apresentam autores.
    Tô lendo o Trapo do Cristóvão Tezza, que a ignorância me impedia de conhecer. Maravilhoso.
    Beijo saudoso e muita muita saudade! ♡

  3. Karina, ótima análise dessa passagem da obra de Roth. Realmente esta pergunta se encaixa ao status quo: “Quem somos nós afinal?”. Quanto a resposta que “somos aqueles que têm muitas razões para chorar”, completo com “mas temos também muitas razões para sorrir”. É uma pena que continuamos a caminhar rumo a essas incertezas medonhas. Bom se, conforme no livro de Roth, algum personagem nos questionasse de fato até cairmos num verdadeiro estado de reconciliação… com tudo e todos. No livro de Ítalo Calvino “As Cidades Invisíveis” (pag. 109/110) tem um diálogo de Kublai Khan com Marco Polo em que eles, personagens, se questionam sobre a existência (deles). Aprecio os textos de Calvino e essa conversa dos dois me faz refletir sobre a importância maior ou menor que damos ao ‘eu e o outro’; sobre os opostos, enfim.

    • Que lindo, Fátima, obrigada por compartilhar aqui esse trecho… sem a literatura não somos ninguém!

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