Karina Kuschnir

desenhos, textos, coisas

Mortos pelo Rio

5 Comentários

 

mortos

Quando ainda era bem pequeno, diante de uma série de fotos em preto e branco, Antônio fez uma pergunta que me supreendeu:

— Eles estão mortos, mamãe?

Hoje, na tentativa de homenagear algumas das dezenas de pessoas assassinadas nesses primeiros dias de 2015 no Rio de Janeiro (e nem falo do Brasil, pois já seriam centenas), lembrei dessa nossa conversa.

— Sim, filho. Eles estão todos mortos.

E não sei como podemos continuar vivendo no Brasil assim…

Nos anos 1950, o sociólogo Everett Hughes formulou uma explicação simples para os milhões de mortos na Alemanha da Segunda Guerra Mundial. Alguém estava fazendo o “trabalho sujo”, enquanto a “sociedade” seguia mais ou menos vivendo como se não fosse com ela. Isso soa familiar?

Hoje, no Brasil, morrem principalmente jovens meninos pretos pobres, moradores das áreas desfavorecidas das cidades. Quando grande parte da minha família foi dizimada na Guerra, eram judeus, os pretos pobres da ocasião.

É uma ilusão achar que eles morrem e nós não. Estamos morrendo juntos, pouco a pouco, a cada nome que acrescentamos nessa lista macabra. Porque um dia nossos filhos vão nos perguntar:

— Mas vocês sabiam disso e não faziam nada?

Sinceramente, gostaria que alguém me dissesse o que posso fazer.

O título desse post foi para me lembrar de que essas pessoas estão sendo mortas porque moram no Rio de Janeiro, porque moram no Brasil. Porque é isso que acontece com quem mora aqui.

Sobre o desenho: Retratos feitos a partir de fotos de sites com notícias sobre assassinatos no Rio de Janeiro em janeiro de 2015 de crianças, estudantes, policiais, pessoas. Fiz num caderno antigo utilizando canetinha Unipin 0.05 e aguada de nanquim.

5 pensamentos sobre “Mortos pelo Rio

  1. “O Rei Está Nu”… As palavras e os desenhos (mais do que nunca!) nos fazem pensar e compartilhar nossas percepções. Por menos que isso possa parecer, nos fortalece um pingo que seja. Parabéns, Karina! Lindo e oportuno.

  2. Acho que escrever este texto já é fazer alguma coisa diante dessa situação tão triste que temos em nossa cidade. Também me sinto agredida e frustrada…

    • Obrigada querida… ninguém parece ter a solução… estou pensando em ajudar algum trabalho social voltado para jovens. Estou à procura. Pode deixar que te falo

  3. Karina, talvez esse seja seu post mais impactante. Parabéns por ter coragem de escrever sobre essa vergonha que é ter tanta gente assassinada neste país!

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