Karina Kuschnir

desenhos, textos, coisas


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Fevereiro/2016!

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Aí vai o calendário de fevereiro, inspirado na combinação calor-chinelo-carnaval! (Para imprimir, segue o PDF aqui.)

Que seja de música, de dança, de trabalho ou de descanso — mas que seja um ótimo mês para todos nós!

Estou numa fase de estudar, ler e pensar sobre os caminhos a seguir. Nenhuma mudança drástica à vista; apenas a vontade de não deixar o piloto automático tomar conta da minha vida. Por coincidência li num livro essa semana:

“Não é preciso muita força para fazer coisas, mas é necessária uma grande dose de força para decidir o que fazer.” (Elbert Hubbard)

É isso que estou fazendo no momento: planos de como fazer tudo que eu quero em 2016!

 

2 Coisas impossivelmente-animadoras-maravilhosas-e-dignas-de-nota da semana passada:

* Alice está fazendo pesto para o nosso macarrão de domingo! Muito sabidinha, também está lendo O diário de Anne Frank.

* Fui selecionada como palestrante no próximo Urban Sketchers Symposium, que será em Manchester, em julho de 2016! Fiquei super feliz e honrada. Depois conto mais detalhes! Para vocês terem uma ideia sobre esse evento, escrevi sobre a edição de 2014 aquiaqui e aqui. E sobre o meu trabalho na área de antropologia e desenho, os textos estão logo no início do blog do LAU, do Laboratório de Antropologia Urbana que coordeno lá no IFCS/UFRJ.

Sobre o desenho: Para fazer os chinelinhos iguais, fiz um desenho num papel grosso (na verdade, fiz vários rascunhos até achar que um deles ficou com cara de chinelo). Daí recortei e usei de molde para riscar a lápis todos os chinelos distribuídos pelo calendário. Passei canetinha preta de nanquim tamanho S, da linha Pitt da Faber-Castell (equivalente à 0.03 das demais marcas). Pintei as litras com várias canetinhas hidrocor, seguindo a mesma sequência das cores da capa de um caderninho que tenho. Achei que o resultado ficou meio pesado, mas foi o possível hoje!

PS: Estou em busca de alguma pessoa que me ajude a melhorar o escaneamento desses calendários no Photoshop. Quem souber de algum expert que possa me dar uma aulinha particular, me avise, please, por e-mail ou por inbox no facebook! Obrigada desde já.

 

 

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Sem açúcar, sem cérebro

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Queridos, vale presente de Natal atrasado? Eu tinha preparado esse desenho para vocês, mas meu final de 2015 foi tão atordoante que esqueci! (Os links para imprimir a imagem estão no final do post.)

Falta de foco. É assim que a gente esquece das coisas importantes, concordam? Estou há algumas semanas me sentindo numa estrada lateral, daquelas bem esburacadas e sem sinalização. Será que vou dar no meu destino ou num lixão abandonado?

Ou será falta de açúcar? Resolvi parar de comer doces no dia 5/10/2015. Sei que não devia contar isso aqui, mas agora já foi. Estou tentando ser blasé quanto a essa pequena decisão, e nem vou escrever que já se passaram 108 dias, tipo tenho-coisas-muito-mais-importantes-para-me-preocupar. Mas algo me diz que meu cérebro entrou num sistema de protesto próprio. Achou que eu ia desistir logo, só que não!

Há alguns anos, li num livro sobre o funcionamento da mente que cada pessoa tem uma “cota de concentração” diária. Então, segundo o autor, se o seu projeto é escrever uma tese de doutorado, não convém querer virar atleta e aprender mandarim ao mesmo tempo. E se você resolver que não vai comer mais doces? Melhor não fazer mais nada na vida, né?

Brincadeira, pessoal, também não é pra tanto! Já estou acostumando. Não é dieta. É tipo pra-vida-toda.

O corpo deu uma pifada geral por motivos de ser corpo; porque sim. Escrevo sobre isso justamente para rir e me convencer de que preciso aceitar, me escutar, me cuidar e ter paciência. Já já passa.

Coisas impossivelmente-legais-bonitas-interessantes-hilárias-ou-dignas-de-nota da semana:
* Alice está usando óculos! É só um pouquinho de astigmatismo mas, ao primeiro olhar, ela foi categórica: “– Mãe, eu estava vendo tudo em 640px, agora tá em HD!”
* Meu remédio tem sido ler, ler, ler. Taí a única coisa que não me cansa, nem doente. Não vou citar tudo aqui de uma vez, mas indico Jack & Alice, despretensiosa novela de Jane Austen, com a divertida e irônica protagonista Lady Williams. Livrinho lindo com ilustrações da Andrea Joseph (cujo blog acompanho há alguns anos), tradução de Christine Röhrig e edição da Martins Fontes.
Sobre o desenho: Aqui vai a imagem do post em boa resolução para imprimir em PDF ou em .JPG! Aprendi esse lema — “Paixão, Paciência, Prática” — numa aula online com o artista indiano-canadense Prashant Miranda. Me identifiquei tanto que adaptei essas ideias para um post sobre projetos acadêmicos, de maio/2015. A graça desse desenho é que foi feito a partir de ramos de verdade, presente de uma amiga querida. Vendo nosso fascínio pelo pacotinho de pimenta rosa do supermercado, ela disse: “tá cheio disso na Baixada: é aroeira!” E no dia seguinte recebi uma caixa cheia. Para pintar a guirlanda, desenhei primeiro com lápis e depois passei uma canetinha de nanquim 0.05 bem velhinha (daí que a linha ficou quase invisível de tão fina). Depois fui pintando com as tintas e materiais que vocês já sabem, num papel de aquarela que não estou me lembrando qual foi (mas algum de algodão e 300gr).

 

 


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Poesia potente

montanha

“o nosso plano secreto,
secreto até para
nós mesmos,
era procurar
o melhor mirante”
(Carlito Azevedo)

Estou apaixonada por Monodrama, livro de Carlito Azevedo, que li e reli nas últimas semanas. É fresco, bonito, triste, suave, engraçado, apaixonado, sonoro, bom, bom de ler. É cheio de ecos e pequenas histórias, como a

“do místico que dizia
fumar para pôr
um pouco de névoa
entre ele e o mundo”

ou a do escritor que teria nascido com um irmão gêmeo, tão idêntico, ao ponto de, num acidente em que um deles morreu afogado, os pais nunca souberam qual dos dois tinha morrido: “se ele ou eu”.

É também um livro de sons, do “micromundo das vibrações sonoras” que arrepiam; um livro que brilha, “com os seus cem sóis”, que pára o tempo:

“por um segundo
fez todo o sentido do mundo
o nosso absurdo ir e vir”

E nos oferece o silêncio:

“uma pessoa do silêncio,
de sua equipe,
ou melhor,
o silêncio é meu
equipamento.
eu disse:
o silêncio
é meu equipamento”

É também um livro de amor,

“e o fim do amor
e com vontades contrárias e confusas
de deslocamento
e invisibilidade”

e de um poeta antropólogo:

“Parei um dia em uma dessas
praças e, deitado sobre a
grama, me pus a escutar a
desconexão absoluta de
todas as falas do mundo, de
todos os sonhos do mundo.”

Carlito escreve sobre as nossas “pequenas humilhações diárias”, aquelas que acordam conosco — nossos sinais, nossos vícios –, como na história do pobre homem que sussurra ter parado de tomar o café preto da garrafa térmica verde e, “neste mesmo instante se dá conta perfeitamente de que foi o café preto da garrafa térmica verde que o deixou”.

São poemas e prosas (não, não sei a diferença) em que as histórias parecem caminhar soltas, sem esforço, como os verbos de Rua dos Cataventos: ele estava, ele esteve, ele foi, ele poderia, ele será, ele colaborou, ele podia ter colaborado, ele vai colaborar, ele jogou, ele confirmou, ele fez, ele vai, “ele dançou conforme a música”.

E ainda nem chegamos na melhor parte, “Dois estrangeiros”. Todo o poema “A) Efeito Lupa” é uma delicadeza infinita; e me sinto má de escolher um pedaço para mostrar aqui, mas escolho, com o aviso de que o trecho não faz jus ao corpo inteiro:

“longe daqui
tenho amigos que me amam

e aos meus poemas
e pensam em mim todos os dias

Longe daqui
alguém leva desesperados numa chalana

alguém estuda as temperaturas
supercondutoras

alguém percebe que não
se tornou um gênio do piano

deve haver alguém que chora
quando sua amiga lhe lê

um poema de
seu poeta preferido”

Como todas as obras que amo, Monodrama também é daquelas que ri de si mesma. Tem drama e humor no mesmo parágrafo, com o poeta misturando a si próprio, o livro, a vida, fazendo graça até quando é “difícil encontrar alguma graça”; fazendo poemas para escapar dos “procedimentos”; buscando lembrar, ou não: “Não se lembra de nada? Que sorte a sua, isso é melhor ainda, pois então você pode inventar tudo.”, diz que lhe disse um amigo.

Numa segunda leitura descobri mais um trecho apavorante de tão bonito, do poeta-etnógrafo:

“Ela lhe disse que os poemas são a transparência através da qual ela gosta de ver o mundo e você disse que ela era a transparência através da qual você gosta de ver o mundo e todos os poemas que há dentro dele e ela chorou e disse que ia embora e que não podia mais lhe ver e que não prestava para você.”

Não sei se ele vai concordar comigo (que dificuldade escrever de autores vivos!), mas vi aqui e ali uma admiração dos horizontes e do céu aberto. Da praia, vem as ondas

“que te nutrem
do opaco e do transparente
de que o mundo
é capaz”.

E a menina que

“está fugindo de casa
com toda a sua força
e todas as montanhas”

E um pouco adiante os barcos na marina que

“também pareciam querer fugir de si mesmos”

Receio estreitar os sentidos do livro com tantos recortes, como se estreita o coração do poeta nas páginas de despedida à mãe. E dele pego palavras emprestadas para me despedir também:

“Sinto que se conseguir escrever agora o que se passa comigo estarei salvo, repito isso a mim mesmo algumas vezes, como repito mentalmente o refrão de que onde há obra não há loucura e onde há loucura não há obra e venho escrever.”

Sobre o livro: Monodrama, de Carlito Azevedo, editado pela 7Letras, em 2009, está em 2ª reimpressão. Encontrei o meu exemplar na livraria Travessa de Botafogo. Em 2015, o livro foi traduzido e editado por Aníbal Cristobo para a editora Kriller71, de Barcelona, com uma capa lindíssima da artista Leila Danziger.

Sobre o desenho: Rabiscos no caderno Laloran feitos durante a última aula de aquarela do ano passado, inpirados nas nuvens do Turner. Por algum motivo surgiu um homenzinho a la Tom Gauld diante da montanha. Sem coragem de desenhar algo especial para o Monodrama, achei que dava para misturar aqui. Quem sabe, o poeta diante da tarefa de escrever, escreva mesmo assim. Usei canetinha 0.1 mm e aquarelas Winsor & Newton. O caderninho é novo e as páginas estão enrugando… o scanner não deu conta, pra variar.