Karina Kuschnir

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Tese sem CEP. Será que dá tempo? (Parte 2/2 – Cronograma)

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“Quase tudo é muito interessante se você for fundo o suficiente.”  (Richard Feynman)

Há duas semanas escrevi aqui sobre a dificuldade de terminar a tese a tempo. Quem não passou por isso levanta a mão! Desvios no caminho, distrações externas, estradas laterais. Tudo acontece. E muitas vezes a culpa é do mundo lá fora mesmo.

Mas existe um tipo de atraso da tese que é interno, que está nas nossas mãos resolver. Não que eu soubesse disso na época em que fiz o doutorado ou o mestrado… Estava mergulhada demais nos meus problemas para olhá-los com perspectiva.

Logo que comecei a orientar, porém, percebi o drama. Sabem aqueles cronogramas bonitinhos que um dia copiamos de um amigo, que copiou de uma amiga, que copiou de outro amigo, que tirou sabe-se lá de onde? Aquele em que fazemos uma tabelinha contendo projeto-leitura-pesquisa-qualificação-análise-redação-defesa? Pois é.

Vamos analisar de trás pra frente? A defesa leva um dia, ok. Preparar o trabalho para imprimir e entregar para a banca leva dois meses (dois — não um, tá?). A “redação” é que nem reforma de casa: se você colocou 6 meses, ponha 12.

Pausa para os mitos da nossa área. Um professor super metido me disse uma vez que escreveu a tese de mais de 500 páginas em três meses. Vamos fingir que acreditamos que foi um ato de sabedoria suprema? Que ele não terminou um casamento, nem tomou antidepressivos e que tudo se passou na mais absoluta e iluminada criação? Não vamos não.

E chegamos ao ponto principal: o Grande Erro da maioria dos cronogramas (o meu incluído) é o pouco tempo previsto para a análise. Esse é o coração da tese. É nessa hora que nos tornamos autores, onde fazemos os dados conversarem com a teoria, onde construímos as fundações para a redação.  Se eu pudesse voltar no tempo, reformularia o meu cronograma separando um ano para análise e interpretação — isto é, uma conversa séria entre autor-dados-teoria-e-bibliografia. É o momento de desacelerar para poder aprofundar, como diz o Feynman na epígrafe do post.

Continuando nosso caminho de trás pra frente, restaram os dois anos iniciais do doutorado para incluir disciplinas, pesquisa, leituras e qualificação. Tá ótimo. Se for com foco, dá tempo sim. Leituras ou dados complementares sempre podem ser agregados na etapa da análise (apenas os realmente necessários!). A vantagem de reduzir o tempo inicial é que se chega muito mais rápido aonde realmente importa. Afinal, para que entramos numa pós-graduação tão difícil? Para nos tornarmos pesquisadores-autores ou para continuarmos o resto da vida repetindo o que já sabemos (ou o que os outros já disseram)?

E pra que serve essa conversa se não estou fazendo doutorado e nem pretendo fazer? Serve muito! Toda hora reincidimos nesse problema do cronograma-mal-feito. Por exemplo: quero escrever o post do blog, mas começo a parte livre do meu dia vendo vídeos de aquarela na Internet. Isso vai me ajudar ou me atrapalhar a terminar o texto? Por mais desculpas que eu invente… é óbvio que vai me atrasar. Se eu quero escrever o post, preciso escrever o post — primeiro. Simples assim.

Sei que é um exemplo bobo, mas era só pra dizer que os problemas de mal planejamento não começam nem terminam na pós-graduação. E a culpa não é da Internet. Da Vinci, Beethoven, Darwin e Mark Twain faziam listas para não esquecerem as suas prioridades. Quem somos nós para não planejarmos as nossas?

E para quem se interessa pelo mundo acadêmico: o blog tem posts sobre o tempo pra fazer a tese (parte 1 do post de hoje), como explicar sua tese, dicas para aproveitar a defesa de doutorado e outros textos sobre minhas experiência na importância de escutar, nos truques da escrita, na elaboração de uma carta para a seleção de mestrado, em projetos, nas defesas de tese, nas dores de não passar, na falta de tempo, no ensino de antropologia e desenho, no aprender a desescrever, nas agruras de ser doutoranda, na vida dos alunos, no sorriso do professor, nas lições da vida acadêmica, na importância de não ser perfeito e nas muitas saudades de Oxford 1, 2, 3 e 4!

2 Coisas impossivelmente-legais-bonitas-interessantes-divertidas-ou-dignas-de-nota da semana:

* Adorei o artigo da Rosana Pinheiro-Machado “Precisamos falar sobre a vaidade na vida acadêmica”. Recomendo!

* Eu e Alice sentamos para tomar um sorvete num shopping. Senta ao nosso lado uma senhora de uns 75 anos que desliga o celular e começa a praguejar e reclamar do marido para mim.
Eu retruco: — Por que a senhora não se separa?
E ela: — Ah, não dá mais; já conheço os defeitos; agora já estou com o pé na cova; e meus filhos iam me matar; temos netos lindos!
Ela faz uma pausa, mas continua: — E olha que ele já me chifrou muito! Quando foi fazer um trabalho em outra cidade por vários anos, eu ligava e atendia a quenga dele! Até hoje fica babando quando vê mulher bonita. [E imita o homem de boca aberta e olhar vidrado].
De repente, ela se dirige à Alice e diz: — Vai se preparando, hein, homem é tudo igual!
Eu só consegui dizer: — Que isso minha senhora? Ela é uma menina de dez anos!
E a mulher: — Ah, e você prefere que ela fique solteirona?
Dessa vez, eu e Alice respondemos ao mesmo tempo, indignadas: — Qual o problema?
E saímos dali conversando sobre essa triste senhora, com sua visão preconceituosa e machista, que reproduz os mesmos valores de que é vítima.
Conclusão da Alice: — Mãe, acho que dá uma boa história para o blog!

Sobre o desenho: Ampulheta de brinquedo que temos aqui em casa. Só de brincadeira, fiz várias medições para saber quanto tempo a areia demora para cair de um lado pro outro: varia de 1:11′ a 1:14′. Deve ter vindo com algum jogo de tabuleiro que se perdeu. Desenhei primeiro com canetinha descartável 0.1 no caderninho Laloran e depois pintei com aquarela Winsor & Newton. Para não ficar muito sem graça, incluí as palavras e as bolinhas (essas, por inspiração no artista indiano-canadense Prashant Miranda).

Sobre a citação inicial: Tradução bem livre do original “Nearly everything is really interesting if you go into it deeply enough.” Peguei numa página sobre o Richard Feynman, físico e autor que adoro de livros muito inspiradores sobre vida e ciência.

 

 

10 pensamentos sobre “Tese sem CEP. Será que dá tempo? (Parte 2/2 – Cronograma)

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  5. pensando num cronograma de 4 anos.. bateu o desespero à porta pra reorganizar (de novo!!) o cronograma de 2 anos (agora só um ano e meio) do mestrado…. sugestões???? abs!!

    • Oi Paula, eu sempre começo meus cronogramas de trás pra frente. Ou seja, vejo a data final e vou “voltando” até o momento presente, pensando em tudo que tenho que fazer no caminho. Além disso, boto uns 10 dias de margem em todas as tarefas, se for um projeto longo. Isso gera pelo menos um guia para começar. No mais, é acordar todo dia e atacar o mais difícil primeiro. Claro que nem sempre a gente consegue, mas esse é o conselho que o meu eu-sábia diria para o meu eu-preguiça! rs beijo, boa sorte! 🙂

  6. Também sou professora universitária e debato-me constantemente com o problema dos meus alunos (de mestrado e doutoramento) da gestão do tempo. A vida académica é uma prova árdua de persistência!

    Quanto à história da senhora de 75 anos, como é verdade o que disse a Karina! O machismo vem tantas vezes, e de tantas formas, da boca das próprias mulheres! Difícil de perceber, não?

    Um beijinho de Portugal

  7. Olá, Karina!

    Recebi o seu blog de presente do Juva, e que presente!
    Era pra ler só esse post, pois já passava das onze da noite quando comecei a explorar o seu blog, mas não resistir, acabei fuçando cada link e lendo vários posts, um me levava a outro e a outro…
    Quando li o “Viva o tio João”, foi o ápice, meus olhinhos brilharam e meu coração chegou bater mais forte, pois a minha febre-ubaldiana está cada dia mais alta. Creio que pra ela não há remédio, também não procuro tratamento, pois me faz um bem danado, que febre bôua!
    Com esse texto, sentir como se realmente estivesse vendo aquela máquina de escrever pessoalmente.
    Poder ler sobre o João é sempre muito gostoso, conhecer alguém que passou pelo processo que estou passando agora (estou fazendo mestrado em Estudos Literários analisando Viva o povo Brasileiro) é reconfortante, é animador.
    Acho que isso resume os sentimentos que suas palavras despertam.
    A pesquisa acadêmica é tão solitária, quando encontramos alguém que problematiza as nossas inquietações de maneira tão doce e leve, é maravilhoso, é reconfortante, é quase como tomar um sorvete no domingo à tarde.
    Depois da leitura dos seus textos, o desespero se transforma em vontade e coragem!
    Muito obrigada!
    Sobre esse post, foi o texto certo na hora certa, pois eu acabei de entregar o meu projeto de pesquisa para o meu orientador, e me identifiquei em cada linha, principalmente no cronograma copiado e compartilhado. 🙂
    Na feitura do projeto, na hora de organizar o bendito do cronograma, me dei conta que teria que parar a parte mais prazerosa da pesquisa (e que deveria ser a mais importante): a leitura, leitura, leitura e leitura da obra, para fazer o referencial teórico.
    Encontrava-me, então, uma mestranda revoltada com o sistema, e o seu texto me deixou…
    ainda mais revoltada!!! 😉
    Mas o que seria de nós sem a revolta, o desconforto, a indecisão e o discordar?!
    Apesar de ainda revoltada, estou mais tranquila por saber que esse é um processo necessário e possível de ser enfrentado.
    Mais uma vez, muito obrigada!
    Parabéns pelo lindo e excelente trabalho que você faz aqui! É inspirador!

    Atenciosamente,

    Katrícia

    P.S: desculpe o tamanho do texto, era pra ser um comentário, né?! Acho que me esqueci desse detalhe no decorrer da escrita. Serei breve nos próximos comentários, prometo! Acho melhor não prometer, pois sou uma mulher palavra (acho que de muitas palavras, esse é o problema), então, vou me esforçar para ser breve nos próximos comentários.
    Está vendo?!.. meu comentário acabou virando um texto, e meu PS virou um comentário 🙂 Acho melhor parar por aqui!

  8. Como sempre, um lindo post. O problema é saber o quão fundo a gente consegue ir e até onde o fundo é suficiente, não é mesmo? Eu costumo escrever primeiro com o coração e depois vou indo fundo até ficar sem ar e desistir de continuar…. beijos Karina e obrigada pelo lindo post. Alice é minha ídola.
    beijos

  9. Que delicia de história com a senhorinha tomando sorvete! Bem que a Alice tinha razão, dá para colocar no post. Morri de rir. Eta bichinha antenada!

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