Karina Kuschnir

desenhos, textos, coisas

A liberdade de desenhar – Viagem com-inveja (Parte 3)

7 Comentários

NelsonPacienciap

Agora que vocês já ficaram com pena, posso contar um pouquinho das partes boas da viagem? A imagem acima ilustra um dos melhores momentos que vivi na Inglaterra: a palestra do Nelson Paciência, português, desenhista, pai, marido, arquiteto, gêmeo, voluntário e lindo, pra completar. Me senti numa plateia do TED, daquelas que te enlevam, ora a sorrir, ora a chorar de admiração!

O Nelson estava em busca de um trabalho voluntário para desenvolver com desenhos. Busca daqui, busca dali, acabou na prisão de segurança máxima Monsanto, perto de Lisboa, onde as restrições são imensas. Os presos quase não vêem outras pessoas, tem pouquíssima (ou zero) área de sol, nenhum material de escrita e quase nada de atividade, passando cerca de 21 horas por dia em suas celas individuais.

Ainda assim, Nelson conseguiu aprovação para realizar o trabalho, desde que, lhe disse o supervisor, não conversasse sobre passado, crimes, religião, política e não desenhasse qualquer parte da prisão, nem móveis, salas, cadeiras, nada. Parecia uma missão impossível mas, a cada 15 dias, durante 9 meses, Nelson foi ter com o pequeno grupo (que variou entre 4 a 5 pessoas), levando materiais de desenho e pintura e, sobretudo, levando sua escuta sensível, sua história pessoal, seu interesse por aquelas pessoas que encontrou tão destituídas de humanidade. Começou por se apresentar, dar a conhecer sua família, seus filhos, sua Susana, seus cadernos e, sim, prometendo voltar. Levou fotos, revistas, livros ilustrados, pequenos objetos, brinquedos, super heróis.

Como grande desenhista de observação, Nelson buscava seduzir o grupo para o universo dos urban sketchers. Mas o ponto de virada do trabalho veio de outras bandas: surgiu ao incluir nas sessões a música e os desenhos de imaginação e de memória. (Como tantas vezes acontece no bom trabalho etnográfico, as certezas com que saímos de casa tropeçam e se transformam nos encontros com nossos interlocutores.) Na fala de um dos detentos, os dias de desenho tornaram-se não só os dias felizes na prisão, como os únicos em que se sentia de fato vivo.

Já seria muito tudo isso, mas a dedicação de Nelson ao projeto foi além. Realizou viagens para desenhar os locais que os presos gostariam de visitar, frequentou aulas de modelo vivo para lhes mostrar as imagens, trocou correspondência, pediu permissão para contar suas histórias, já ultrapassadas as proibições de fala iniciais, impossíveis de cumprir.

Como podem existir pessoas sem narrativas, sem nomes, sem projetos? Esqueçam seus passados, afirma a instituição. “Eu sou um número”, lhe diz um preso. Nos retratos abaixo, vemos o “82”, o “112” e o “92”, sem mesa, sem cadeiras, pelos traços fantásticos do Nelson.

nelsonpresos-001

O desenho abre possibilidades para os trabalhadores da prisão e apresenta um novo mundo para os detentos. Nas palavras de um deles: “Primeiro, desenhar não significava nada; depois tornou-se a libertação”.  (“First, drawing was nothing, then it became freedom.”)

Saímos todos — plateia, presos, funcionários da Monsanto e o Nelson — melhores depois dessa experiência. Ele, principalmente, que a viveu, nos diz: “sou uma pessoa melhor de todas as formas, como pessoa, pai, marido, arquiteto, desenhista etc.” Conclui que aprendeu muito sobre os valores da dignidade, do tempo, da auto-estima; e de como são grandes os pequenos gestos de cuidado e amizade que todos nós precisamos para nos sentirmos gente.

Agora Nelson pensa como voltar, exigindo mais liberdade para desenvolver novamente seu projeto cujas marcas, como os nomes e as histórias, são impossíveis de apagar.

Só posso terminar dizendo: “Obrigada, Nelson, por compartilhar tudo isso conosco.”

Vocês podem ver outras imagens da palestra aqui. E o endereço completo do blog do autor para ficar registrado: http://nelsonpaciencia.blogspot.com/

Sobre o desenho inicial do post: Anotações feitas por mim durante a palestra do Nelson (realizada durante o 7o. Simpósio dos Urban Sketchers em Manchester) num caderno feito à mão com papel de aquarela. Acrescentei as cores depois em casa, porque os eventos eram muitos e não tenho (ainda) habilidade de escrever tanto e pintar ao mesmo tempo.

Esse post é o terceiro da série sobre a minha viagem a trabalho de jul/ago-2016:

Viagem anti-inveja (Parte 2)
Viagem anti-inveja (Parte 1)
A liberdade de desenhar – Viagem com-inveja (Parte 3)
Londrinas – Ainda viajando (Parte 4)

Espero que vocês não se cansem, porque dá para fazer mais uns dez posts sobre a viagem!

 

 

 

 

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7 pensamentos sobre “A liberdade de desenhar – Viagem com-inveja (Parte 3)

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  5. Karina, você é muito boa. Adoro os seus textos e os seus desenhos. Sempre leio os posts recebidos por e.mail, mas nunca tiro um tempinho para ser generosa com você como você é com todo mundo e dar esse feedback. Continue escrevendo e desenhando tão bem para alegrar os momentos de tanta gente.

  6. Que trabalho lindo! O dele e o seu, de trazer isso para nós. Queremos mais 10, 20 posts sobre sua viagem (com e sem inveja).

  7. Não consigo encontrar palavras para escrever aqui nesta caixinha de comentários. Já li e re-li o teu post, e não me canso de o fazer. A tua escrita é magnífica e envolvente, sinto-me tão feliz de fazer parte dela. Obrigado!

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