Karina Kuschnir

desenhos, textos, coisas

Quinze maneiras de identificar relações abusivas e o que podemos fazer

4 Comentários

2008modelovivarosa

“Eu estava entrando em um meio em que a intimidade é frequentemente profissional, e por isso os limites se confundem. (…) Apesar disso, o incidente com Harvey me deixou desconfortável; eu conseguia explicar e justificar aquilo para mim, e guardá-lo como um momento constrangedor. (…) eu me senti confusa com o desconforto que eu experimentei antes.” (Lupita Nyong’o)

O depoimento de Lupita Nyong’o foi um dos que mais me impactou entre os que li sobre H. Weinstein, homem que perseguia, abusava e estuprava mulheres ao seu redor.

Ao narrar em nuances sua trajetória como objeto de atração e manipulação por parte de um predador, Lupita nos permite entrar em contato com as emoções mais profundas das vítimas de relações abusivas: a vontade de acertar, a credulidade, a desconfiança, a vergonha, a desestabilização do senso de si mesma, a fragilidade e a culpa.

Os abusadores têm como estratégia básica confundir. Ao contrário do ditado popular, eles primeiro assopram, depois batem; e assim sucessivamente. Quando você vê a ferida, eles estão a postos para colocar um curativo por cima. O curativo vem por meio de presentes, cargos, viagens; e de migalhas de sentimentos: “bom-humor”, “carinhos”, “amor” — tudo entre aspas, já que são pseudo-emoções.

Na minha visão leiga, abusador é alguém que não sabe amar, a começar por si mesmo. São pessoas que morrem de medo do que têm por dentro, que não se aceitam, que se odeiam e descontam esse ódio nos outros. Ao agredir a vítima, verbal ou fisicamente, eles projetam sua lama interna.

“Sempre que vocês brigam, de alguma forma muito estranha, que não é explicada, você está sempre errada? Você sempre acaba pedindo desculpas, mesmo quando no início você tinha certeza de que estava certa? (…) Aí você vai ficando presa ali, numa teia de manipulação sem fim… (…) Relacionamento abusivo não é só tapa na cara (…); você pode ser abusada psicologicamente também.” (Jout Jout Prazer)

Milhões de pessoas são abusadas todos os dias. Como as estatísticas mostram, a maioria dos algozes está dentro de casa. São familiares, pais, tios, primos, padrinhos, padrastos, parceiros, pessoas com quem deveríamos ter vínculos amorosos.

O problema é que, em muitos, muitos, desses casos, não temos como simplesmente terminar a relação. Crianças e jovens vítimas de familiares abusivos; orientandos vítimas de orientadores abusivos; mulheres vítimas de casamentos abusivos em situação de dependência; pessoas vítimas de trabalhos abusivos em condições aviltantes; alunos vítimas de sistemas (escolares, médicos e sociais) abusivos, sem subsistência fora dele; grupos religiosos, étnicos, imigrantes, de cor, de gênero… A lista é imensa.

As situações de violência extrema são fáceis de identificar, mas como saber quando a violência se dá no plano de sofrimento psicológico? Inspirada nos depoimentos citados, escrevi quinze critérios para ajudar a identificar relações abusivas violentas, ainda que sem agressão física. Em todas as frases, acrescentem “constantemente”, “insistentemente”, “repetidamente”, pois a maioria dessas coisas se torna abusiva por ser vivida com uma frequência doentia.

1) Quando seus sentimentos mais profundos são negados: isso é abusivo.
2) Quando você é acusada de estar sempre errada: isso é abusivo.
3) Quando seu “não” é desconsiderado e classificado de mimado e egoísta: isso é abusivo.
4) Quando você é levado a se sentir culpada de tudo: isso é abusivo.
5) Quando você nunca sabe se o abusador vai explodir ou sorrir: isso é abusivo.
6) Quando você se sente manipulada e confundida por alguém: isso é abusivo.
7) Quando alguém, numa posição de poder, te faz se sentir inferior por ser quem você é, não importa o quanto você tenta agradar ou corresponder às expectativas: isso é abusivo.
8) Quando alguém te interpela agressivamente querendo saber o que você está pensando, fazendo (ou não) constantes insinuações negativas: isso é abusivo.
9) Quando alguém menospreza ou ridiculariza coisas e pessoas que você ama: isso é abusivo.
10) Quando alguém que deveria te amar te xinga ou berra com você por motivo fútil: isso é abusivo.
11) Quando alguém te chantageia, dizendo que deveria ser amado por você, porque não te bate: isso é abusivo.
12) Quando alguém exige ser amado “porque te dá tudo”: isso é abusivo.
13) Quando alguém é abusador e não reconhece, não se trata (psicologicamente, medicalmente, espiritualmente etc.): isso perpetua relações abusivas com todos à sua volta.
14) Quando você sente que não pode chorar ou se mostrar frágil na frente de uma pessoa que deveria ser próxima afetivamente: isso é um sintoma de um relacionamento abusivo.
15) Quando todas as situações acima acontecem em ambientes sem testemunhas: isso é um sintoma de um relacionamento abusivo.

O que fazer diante dessas situações? Como lidar com a impotência de não poder sair; ou como ajudar uma vítima a lidar (ou sair) de um relacionamento abusivo?

Em seu depoimento, Lupita afirma:

…espero que possamos formar uma comunidade em que mulheres possam falar sobre abuso e não sofrer outro abuso por não serem acreditadas e, pelo contrário, sejam ridicularizadas. É por isso que não nos manifestamos — por medo de sofrer duas vezes, e por medo de ser tachadas e caracterizadas por nosso momento de desempoderamento.  (…) ao falarmos alto, falarmos livres, falarmos juntas, nós recobramos o poder. (…) Eu solto a minha voz para contribuir com o fim da conspiração do silêncio. (Lupita Nyong’o)

Acho que podemos:

Falar alto — Lupita toca num ponto muito importante: precisamos oferecer redes de apoio às vítimas para que elas possam falar e alto! Isso vale para mulheres e para todas as outras pessoas em situação de vulnerabilidade.

Acolher — Precisamos dar acolhimento às vítimas para que elas não sofram duplamente, pelo abuso e pela culpa. Apoiar, abraçar, confortar são formas de mostrar que a pessoa não está sozinha, tentando restaurar o seu abalado senso de pertencimento.

Escutar e reconhecer — Precisamos melhorar nossa escuta, sendo mais pacientes, disponíveis e abertos para ouvir as pessoas — porque a vítima se encontra quase sempre num estado de confusão sobre si mesma. Esse tipo de violência é uma forma de tortura cujo objetivo é desestabilizar, fomentando a insegurança da auto-percepção da vítima como vítima. Por isso, é tão importante reconhecer a situação abusiva.

Fortalecer — Ninguém pode se furtar das dificuldades e frustrações, mas podemos nos fortalecer uns aos outros emocionalmente. Essa força afetiva pode ajudar uma pessoa em uma relação abusiva a identificar a situação em que se encontra, seja para sair dela (quando possível), seja para aprender a lidar, reduzindo os seus danos (quando em situações inevitáveis). Esse fortalecimento também pode (e deve, na minha opinião) ser complementado com um apoio terapêutico profissional.

Sei que há vários aspectos das relações abusivas que não foram tratados nesse texto. É um tema complexo demais para um post. Tentei contribuir com algumas perspectivas possíveis, mas nem de longe pretendi dar conta do debate. Foi uma forma de compartilhar minha emoção com o texto da Lupita Nyong’o, quem sabe ajudando a fortalecer pessoas que estão passando por situações difíceis.

Agradeço a todos leram e faço um pedido: compartilhem! Há muitas vítimas silenciadas ainda.

Queria terminar agradecendo o carinho de vocês.  Não dou conta de responder os comentários, mas reafirmo meu muito obrigada! Sem esse apoio, através de tantas mensagens, likes e e-mails, eu não teria coragem de escrever sobre tudo que escrevo aqui. ♥  Mesmo assim, alguns vão notar que não consegui escrever na primeira pessoa, como sempre procuro fazer no blog. Ainda não tenho a força da Lupita. Um dia eu chego lá.

PS: Estou me recuperando bem da cirurgia (de vesícula). Obrigada pelos desejos de melhoras!

Fontes das citações: O depoimento citado de Lupita Nyong’o  foi uma tradução livre do Rodrigo Torres para o Adoro Cinema. Li pela primeira vez no original, publicado no New York Times em 19/10/2017.

O trecho da Jout Jout Prazer é uma citação extraída do vídeo “Não tira o batom vermelho” sobre relacionamentos abusivos, visto por quase 3 milhões de pessoas desde que foi publicado em 26/2/2015.

Sobre o desenho: Aquarela feita por mim em 2008, na época em que fazia aulas de modelo-vivo na Escola de Artes Visuais do Parque Lage. Nesse dia, nosso professor, Manoel Fernandes, pediu que explorássemos o significado do espaço do papel. Minha escolha pelo canto inferior direito acabou resultando nessa sensação de solidão. No original, o restante do papel em branco é bem maior, reforçando ainda mais a ideia de isolamento. Tive que cortar um pouco (e adicionar um ligeiro tom de rosa à folha) para que o post não parecesse vazio para quem lê no celular. Para a execução, utilizei uma pena de bambu (se não me engano), nanquim e aquarela.

Você acabou de ler “Quinze maneiras de identificar relações abusivas e o que podemos fazer“, escrito e ilustrado por Karina Kuschnir e publicado em karinakuschnir.wordpress.com. Se quiser receber automaticamente novos posts, vá para a página inicial do blog e insira seu e-mail na caixa lateral à direita. Se estiver no celular, a caixa de inscrição está no rodapé. Obrigada! 🙂

Como citar: Kuschnir, Karina. 2017. “Quinze maneiras de identificar relações abusivas e o que podemos fazer”, Publicado em karinakuschnir.wordpress.com, url: http://wp.me/p42zgF-3lF. Acesso em [dd/mm/aaaa].

4 pensamentos sobre “Quinze maneiras de identificar relações abusivas e o que podemos fazer

  1. Pingback: Resumo da semana – 29/10/2017 – 1 Pedra no Caminho

  2. Obrigada Karina. Cheiro no teu coração!!!

  3. Karina,
    Melhor dos melhores textos seus. Importantíssimo e benvindo. Ativa as nossas redes internas e externas. Sendo mulher, quem nunca sofreu abuso de alguma forma (se não física, psicológica ou emocional). Gerações de abusadas e abusadores….em psicólogos e demais tratamentos….pq hoje há label para tudo quanto é tipo de dor. Ah, as redes que curam; os textos que nos elevam e uma xícara de chá com camomila perfumada e mel. Gratidão.

    • muito obrigada, querida. foi com um aperto no peito enorme que escrevi tudo isso, como vc pode imaginar… sem dúvida, quem de nós não passou por quase todas as 15 situações… e as crianças então… mas que bom podermos falar alto disso tudo! obrigada por compartilhar!!

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