Karina Kuschnir

desenhos, textos, coisas

Doze dicas para terminar TCC, dissertação de mestrado e tese de doutorado (Parte 1)

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“A intermitência do sonho é que nos permite suportar os dias de trabalho”. (Pablo Neruda)

Pela primeira vez aqui no blog, resolvi pedir a colaboração de colegas professores. Perguntei quais conselhos eles dariam para ajudar os estudantes a terminar seus trabalhos de conclusão de curso de graduação, dissertações de mestrado e teses de doutorado. O resultado foram doze carinhosas lições e dicas – as seis primeiras seguem abaixo.

Minha gratidão e abraço apertado a Aparecida Fonseca Moraes e Adriana Facina, que colaboram neste post. As fontes estão ao lado de cada citação, mas a responsabilidade pela edição, curadoria e eventuais erros de interpretação é minha.

1. Não esquecer do sonho por trás do trabalho

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A professora Aparecida Fonseca Moraes fez um relato sobre seus tempos de mestrado que me emocionou:

Lembro-me que trabalhava tão arduamente na escrita da dissertação que não tinha interesse nem nas necessidades físicas mais básicas, como dormir ou comer. Uma coisa, porém, me relaxava e oferecia ânimo novo: os poemas e outros escritos de Pablo Neruda. Foi por isso que, até o final do mestrado, me acompanhou uma frase do livro autobiográfico do autor, ‘Confesso que vivi’:

“A intermitência do sonho é que nos permite suportar os dias de trabalho”.

Parafraseando Neruda: confesso que assim sobrevivi. (Aparecida F. Moraes)

Amei a frase! Fui até procurar “intermitência” no dicionário, para ter certeza de que tinha entendido. 😉 Mas depois desencanei, porque o sentido do verso foi o conforto que a Aparecida encontrou para escrever, não esquecendo dos sonhos que a moveram para escrever um trabalho acadêmico.

Achei aqui uma versão inteira do poema de Neruda; e achei aqui vários outros textos e vídeos do poeta para inspirar.

2. Concentrar-se no processo: desligar das redes sociais

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Adriana Facina escreveu três conselhos simples e profundos, que me tocaram muito! Desdobrei em quatro para dar destaque a cada passo descrito por ela. O primeiro:

Escrever, especialmente trabalhos de grande monta como dissertações e teses, exige foco, disciplina e um certo desligamento do mundo. Meu conselho número 1 a todas e todos que estão nesse processo é: saia das redes sociais.

Aqui você encontrará problemas políticos que vão te preocupar e te trazer incertezas sobre o futuro, debates estéreis (tretas) nos quais você vai querer opinar e que vão sugar suas energias, um monte de gente aproveitando as férias e lugares maneiros aonde você queria estar, eventos que você gostaria de frequentar etc.

Tudo isso rouba seu tempo e sua capacidade de trabalho. Acredite: nós escrevemos mesmo quando não estamos escrevendo. Ainda que nos momentos em que estamos distantes da tela do computador, nossa cabeça está funcionando no modo escrita, elaborando ideias e formatos que se tornarão textos. É muito importante a gente se concentrar nisso. Se divertir, se distrair é importante, mas procure aquelas atividades que te refazem e reenergizam, não as que desgastam e dispersam. (Adriana Facina)

Nossa, esse conselho vale para a vida, a qualquer momento, não apenas para quem está escrevendo tese, concordam? Eu teria naufragado se tivesse que fazer pós-graduação num mundo com redes sociais.

3. Curtir a escrita

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Mais um conselho perfeito da professora Adriana Facina:

[Meu] conselho número 2 é: aproveite a escrita. É difícil. Por vezes, solitário. No entanto, é um processo desafiador, instigante, cujos resultados podem ser muito prazerosos (ainda que dificilmente o processo em si o seja).

Faça bons cafés, beba um drink de cara pro computador se isso te ajudar, ouça música ou prefira o silêncio. É a sua arte. Se dedique a ela. Encontre sentido. É sua escolha. É você se inscrevendo no mundo. É o seu pensar autônomo. Não deixe que nada te roube essa experiência tão forte e especial. (Adriana Facina)

Fiquei tão feliz de ler isso! A Adriana tocou num ponto fundamental para mim. É uma delícia quando a gente consegue engrenar no fluxo da escrita, aquele que desliga os sentidos para o mundo lá fora. Vivo para isso. Taí, inclusive, a razão desse blog existir.

4. Cercar-se de pessoas que te ajudem

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A quarta lição, e o conselho número três da Adriana:

Procure ajuda se precisar. Se a relação com orientador não estiver fluindo bem (ou mesmo que esteja, mas que não seja o suficiente pra você), procure amigos, pessoas de confiança afetiva e/ou intelectual, parentes. Peça que leiam. Discuta seu trabalho com elas. Mergulhe nisso. Fique obsessiva. Quanto mais a gente mergulha e vive nosso tema, mais insights de escrita surgem. (Adriana Facina)

Esse trecho me lembrou de uma história. No auge do meu sofrimento no doutorado, com o orientador pressionando para que eu defendesse no prazo mínimo, uma das coisas que mais me ajudou foi dar um telefonema. Liguei para a Myriam Lins de Barros, uma das professoras que iria participar da minha banca, e expliquei como estava me sentindo: cheia de dores, ansiosa e fraca, fisica e emocionalmente. Ainda hoje me lembro da voz dela, calma e serena, me tranquilizando de que não havia qualquer problema em adiar a defesa por quatro meses e que ela se dispunha a ligar para o meu orientador para me dar apoio. Nossa, que bálsamo ouvir aquilo! Foi a partir desse dia que consegui retomar a escrita e seguir em frente. Obter apoio de pessoas significativas, que nos afetam, seja no plano pessoal ou acadêmico, tem um valor imenso na conquista da estabilidade necessária para produzir!

5. Ler autores e livros que te inspirem

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A quinta lição, e última parte dos conselhos da Adriana Facina:

Por fim, nas horas de descanso, recomendo que leia textos que inspiram a escrever. A hora da estrela, da Clarice Lispector, tem uma linda introdução falando sobre escrita. Mas existe muita coisa disponível, inclusive um blog bem bacana: https://comoeuescrevo.com/. Isso ajuda no compartilhamento dessa experiência incrível que é escrever. Bom trabalho! (Adriana Facina)

Não sei vocês, mas eu vou procurar o meu exemplar de A hora da estrela. Não lembrava que havia uma introdução sobre escrita nesse livro! Sobre o blog “Como eu escrevo”, estou devendo uma entrevista lá! É um site cheio de escritores e professores contando seus rituais e métodos de escrita.

Também nunca é demais recomendar a leitura dos Anexos de A sociedade de esquina (William Foote Whyte), do apêndice “Algumas reminiscências e reflexões sobre o trabalho de campo” do livro Bruxaria, oráculos e magia entre os Azande (E. Evans-Pritchard), a obra Truques da escrita (Howard S. Becker), além da lista incrível sobre escrita acadêmica compilada pela Eva Scheliga em seu blog …E ETC. *

Claro que, como sugeriu a Adriana Facina, literatura inspira e muito! Meus autores favoritos nessas horas são Mário de Andrade, Eça de Queirós, Virginia Woolf, Oscar Wilde, Anne Lamott, Umberto Eco, Agatha Christie… Na verdade, qualquer texto que me traga bom humor e inspiração já é um grande estímulo!

6. Visualizar a tese pronta

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Para encerrar as dicas de hoje, retomo a palavra da professora Aparecida Fonseca de Moraes sobre suas memórias de escrita:

Lembrei de outra que adoro contar.  No período de árduo trabalho de escrita da dissertação, meu filho, com mais ou menos dez anos, desenhava esplendidamente e montava algumas estórias em quadrinhos (não foi à toa que acabou trabalhando com cinema).

Bem, um dia chego em casa e encontro um desenho incrível sobre a minha mesa de trabalho. A cena: Um computador grande, como aquele que eu usava para trabalhar, com um personagem ao lado que apertava apenas uma tecla. Do aparelho saíam folhas de um documento onde se lia: “tese pronta”!  Claro que ri muito, mas fiquei imaginando a ansiedade dele para que esse “rival” saísse logo de nossas vidas… rs (Aparecida F. Moraes)

Que delícia de história, que vontade de apertar esse menino nos braços! Queria ter uma super memória para me lembrar de todas as situações desse tipo que já me contaram. Se vocês souberem de alguma, escrevam nos comentários por favor! No meu caso, só tive filhos depois de terminar o doutorado… Por isso, a marca do excesso de trabalho não ficou tão forte nas crianças. Para todos que estão escrevendo: lembrem da delícia que será cumprir as promessas sobre a vida pós-tese que vocês estão fazendo para os amores e família!

[Continua na Parte 2 aqui.]

Um bom Carnaval a todos, com descanso, trabalho e folia, conforme a dose recomendada!

Sobre os desenhos: Fiz as linhas com uma canetinha japonesa preta (Muji hexagonal gel ink 0,25) que ganhei do Juva, no final de janeiro, vinda da Muji, de Lisboa. Estou apaixonada por essa  caneta e suas irmãs azul, azul escura e vermelha. Como queria utilizar papel comum (A4, 90gr), colori com canetinha hidrocor (Staedtler triplus color). (Sobre todos os materiais que utilizo, ver aqui.)

* Os links para a editora Zahar foram indicados apenas como referência aos livros citados. Não recebo nada por compras dessas obras feitas no site deles.

Você acabou de ler “Doze dicas para terminar TCC, dissertação de mestrado e tese de doutorado (Parte 1)“, escrito e ilustrado por Karina Kuschnir e publicado em karinakuschnir.wordpress.com. Se quiser receber automaticamente novos posts, vá para a página inicial do blog e insira seu e-mail na caixa lateral à direita. Se estiver no celular, a caixa de inscrição está no rodapé. Obrigada! 🙂

Como citar: Kuschnir, Karina. 2018. “Doze dicas para terminar TCC, dissertação de mestrado e tese de doutorado (Parte 1)”, Publicado em karinakuschnir.wordpress.com, url: https://wp.me/p42zgF-3Cz. Acesso em [dd/mm/aaaa].

16 pensamentos sobre “Doze dicas para terminar TCC, dissertação de mestrado e tese de doutorado (Parte 1)

  1. Terminei a escrita da dissertação como um todo em fins de janeiro (tô naquela fase em que a gente espera o orientador se pronunciar) e meu enteado me ajudou ao longo do processo como um todo, na escrita do projeto ele com mais ou menos 11 anos sentava atrás da minha cadeira e ficava desenhando e me acompanhando na escrita, depois, me ajudou a colocar os pseudônimos nos participantes, colocou questionários em ordem alfabética e, por último, tocou violão pra me acalmar enquanto quase pirava com a escrita (o tema do filme missão impossível), fizemos até um vídeo deste momento. Mesmo assim, percebi que também foi um período tenso pra ele…

  2. Pingback: Doze (ou treze) lições para ajudar a terminar TCC, dissertação de mestrado e tese de doutorado (Parte 2) | Karina Kuschnir

  3. Karina adoro seu blog! Sou doutoranda na área de patrimônio / arquitetura. E escrever realmente não é fácil é muito solitário. Mas tem momentos muito intensos de escrita, como se acontecesse um download das ideias que ficam 24/24h ali… e depois a gente nem acredita que foi a gente que escreveu aquilo! Reli outro dia um livro que acho que tem um pouco a ver com isso, e recomendo! A Louca da Casa, da Rosa Montero, uma escritora que fala do processo dela de escrita e, não menos importante, de “inspiração” !

  4. Obrigada!

  5. Conto uma história de bastidor: quando estava escrevendo minha dissertação, minha primeira experiência de escrita mais sistemática, que concorria com muito trabalho, minha filha, então no último ano do ensino médio, encontrava sempre um meio de denunciar sua solidão. Ora fazia comentários jocosos (Ih, acho que tu te casou com esta dissertação!), ora me dava bom dia, ao meio dia nos fins de semana, com uma pergunta direta e desesperadamente esperançosa: – Conseguiu terminar?! Teu post meu lembou este período, mas também foi um bálsamo encontrar essas dicas, em um momento de conclusão da minha tese. Algumas eu já pratico, outras, “esqueço” de praticar tendo em vista meu superego ser um tanto exigente… Mas teu texto bem escrito e recheado de empatia colocou em ato a dica 4: me senti acompanhada e confortada na medida. Valeu!

  6. Ótimas dicas! São como boias pra não deixar ninguém morrer na praia. Faz bastante tempo que concluí uma tese, e hoje me vejo às voltas com o trabalho de orientar mestrandos e doutorandos e sou testemunha de suas dores e delícias. Mas o desenho do filho de uma escrevente de tese me fez lembrar do poema que ganhei de minha filha, Marina, quase no final dos meus quatro anos de doutorado. Dos oito aos doze anos de idade, Marina habituou-se a ter a mãe absorta ao computador enquanto ia crescendo e desbravando mundos. Da experiência de acompanhar-me doutoranda, fez ela sua própria escrita, que tem a capacidade de transmutar o que poderia ser objeto de ressentimento em matéria para criação. Copio aqui:

    “Desde que tivera sua misteriosa ideia, ela não havia parado de escrever. Nem por um minuto. Comia escrevendo e tomava banhos super rápidos, para ainda enrolada na toalha voltar a escrever. Escrevia até tarde da noite e, quando seus olhos não aguentavam mais, se cerravam, forçando-a a dormir sobre o teclado. Mas parecia que sonhava com idéias para o texto, pois, ao acordar, lá estava ela, escrevendo novamente. Isso quando não acordava no meio da madrugada, para escrever novas idéias num pedaço de papel. E, todo dia, sua letra, corrida e arredondada, era substituída pela letra certinha do computador que se estendia por uma página, depois cinco, dez, cem, até perder a conta. Escrever agora era um hábito seu, um hábito doentio, indispensável para a sua vida. Uma doença mais importante do que comer ou dormir. Uma doença chamada paixão.”

  7. Pela primeira vez aqui, um material que eu estava precisando, encontrei hoje no face da professora Karina Kuschnir. Professora, tenho um livro seu!

  8. Acabei de ler/ver mais esta delícia!
    Nunca escrevi uma tese mas as lições daqui as tomo para a Vida!
    Amada Kau, ainda uma vez, tomo emprestado de nosso Vinicius . . .
    Se todos fossem iguais a vc e sua tchurma, que maravilha viver!
    Bom Carnaval pra todo mundo.

  9. Alimentou a minha alma e renovou minhas forças esses conselhos. Sobre visualizar o trabalho finalizado, é a minha única certeza, tenho fé em Deus vou conseguir, mas não é fácil não escrever

  10. O bom é que podemos viver pra escrever. Depois de qualquer defesa iremos sempre desejar o ataque que a escrita provoca em nós?

  11. Karina não estou no meio acadêmico no momento, mas estou escrevendo um livro e sim, suas dicas são preciosas. Um abraço.

    • oi Telma, que legal! obrigada pela visita e leitura. hoje estou tentando responder os comentários assim que chegam… porque, depois, o tempo passa e acabo não dando conta! Desejo muito boa sorte na escrita do seu livro. ♥

  12. Encontrei seus textos na minha última fase de doutorado. Felizmente ou infelizmente eu não fiz a defesa. Todo o restante estava concluído. Não tive o gás final, as forças tinham se esvaido no processo tenso da orientação. Acho válidas as dicas do texto acima! São um bom norte para quem está no mar da Defesa rs

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