Karina Kuschnir

desenhos, textos, coisas

Um projeto todo seu – Sobre a felicidade de estudar, aprender, fazer, criar

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“I am happiest when I am making things — whether it be a podcast, a lesson plan, a book, a painting, or an illustration.” (Debbie Millman)

[“Minha maior felicidade é quando estou criando algo — seja um podcast, um plano de aula, um livro, uma pintura ou uma ilustração.”]

Queria compartilhar com vocês um pequeno projeto que estou fazendo baseado no livro “Learn to Paint in Watercolor with 50 Paitings”, de Wil Freeborn (ed. Quarto, 2017). Resolvi pintar um exercício por dia, todos os dias, me dedicando uns 15 minutos de manhã e uns 30-60 minutos à noite, antes de dormir.

Antes de entrar no tema das aquarelas, queria falar da felicidade que é ter um projeto paralelo ao nosso trabalho. Durante muitos anos, posso dizer que tive interesses variados, seja por alguns tipos de livros (sobre escritores, por exemplo), seja por culinária, por corrida, ou até por outras antropologias que não fossem da minha área (como a da criança, da mulher e da alimentação, por exemplo). Mas nenhum desses interesses se tornou um projeto, algo que me faz acordar de manhã animada para aprender, estudar, avançar.

Ao retomar o desenho em 2004, descobri uma porta para o que muitos chamam de “estado de fluxo”: aquela situação meio mágica em que estamos totalmente focados, e o mundo e o tempo deixam de existir. Acho que é a esse tipo de felicidade que a Debbie Millman se refere (na frase da epígrafe): criar nos deixa felizes, no presente.

Não precisa ser desenho ou pintura. Há tanta coisa nesse mundo da criação, e as aulas estão aos milhares na internet. Bordado, culinária, instrumentos musicais, linguagens, artesanatos, jardinagem, sem falar no universo dos esportes, da dança, do canto, da observação de pássaros (sabiam que o J. Franzen era viciado nisso?), do montanhismo, do xadrez, da fotografia, da bicicleta, dos projetos sociais…

Ao estudar algo, descobrimos mundos incríveis, complexos, densos! E tudo fica mais fascinante ainda quando conseguimos transformar esse estudo num projeto pessoal, algo que nos traga um sentido de prazer e realização para o dia-a-dia, algo que passe ao largo de obrigações e boletos.

Um projeto pode custar bem pouco. A minha vida mudou apenas por eu desenhar com uma canetinha comum num caderno (também comum) todos os dias durante 13 minutos na ida (e outros 13 na volta) de metrô para o trabalho. Só isso. Aulas ou atividades mais longas podem ficar para os sábados.

Quinze anos depois desses desenhos em cadernos, e dez anos depois de comprar meu primeiro estojo de aquarela (é o mesmo até hoje), posso dizer que só me arrependo dos momentos (às vezes, semanas ou meses…) em que me esqueci de desenhar e pintar.

Ao criar o blog em 2013, acabei gerando um projeto que toda semana me lembra do quanto desenhar e escrever me faz bem. (E é por isso que o blog persiste.)

Meu maior desejo é que todas as pessoas consigam abrir essa porta também! Na dúvida, abram várias e experimentem! Lembrem das alegrias da infância. Às vezes, nossos maiores prazeres estão logo ali, em  memórias de atividades felizes.

Agora, nerd-alert: para os apaixonados da aquarela, comento os detalhes do meu projeto atual de pintar as 50 imagens do livro de Wil Freeborn.

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O primeiro capítulo é sobre os materiais, papeis e instrumentos de aquarela, além de trazer dicas e reproduções dos lindos sketchbooks do autor.  Uma das qualidades do seu estilo é a escolha de uma paleta bem clássica, com cores que a maioria dos estojos de pintura já tem. Ele acrescenta algumas menos básicas, mas bem populares como Payne’s Gray, Cobalt Turquoise Light e Perylene Green — e só uma ou outra mais exótica como Lunar Black e Undersea Green (essas não tenho, mas dá para adaptar).

Na imagem que abre o post, vocês podem ver os 13 primeiros exercícios que correspondem ao Capítulo 2, chamado “Simple still lifes” (algo como “Naturezas mortas simples”). Aqui começam os problemas, pois não são aquarelas nada fáceis! Já no primeiro exercício, é preciso colocar “masking fluid” na pintura  — trata-se de um fluido especial que cria uma película emborrachada que, depois de retirada, preserva uma parte do papel branco. Na imagem, é onde se vê o “açúcar branco” no Donut cor-de-rosa.

Assim como nessa primeira pintura, várias têm técnicas que exigem alguma experiência. Definitivamente não é um livro de exercícios para quem está começando, apesar de valer a pena pelo simples fato de ser lindo (na minha opinião, claro)! Comprei o livro quando vi a resenha feita pelo Teoh no Parka Blogs (tem muitas fotos internas das páginas lá, assim como links de onde comprar).

Já estou no 23º exercício, no Capítulo 3: Landscapes (paisagens). Os próximos são Capítulo 4: Cityscapes (paisagens urbanas), Capítulo 5: Animals (animais) e Capítulo 6: Figures, portraits, people (figuras, retratos, pessoas).

Uma das soluções do meu projeto é também um dos seus problemas. Resolvi utilizar um caderninho da marca russa Nevskaya Palitra, que ganhei de brinde num evento de desenho. A vantagem é que foi custo-zero e tem exatamente 50 páginas pequenas (aprox. 17 x 11 cm, um tamanho bem simpático). O ruim é que o papel não aguenta a enorme quantidade de água que o Wil Freeborn utiliza nas suas pinturas! Mas tudo bem.

Gosto do desafio de ter que me adaptar a materiais menos nobres. Não tenho coragem de fazer rascunhos em papeis caros. Aliás, é só colocar um papel caro na minha frente que a  minha mão congela! 😉 Já estou prevendo o que uma amiga vai comentar: tamo junto, de roupa furada, caneta velha e papel barato… Sou definitivamente do time que ama vira-latas e cerveja de qualquer marca.

Bom restinho de semana, pessoal!

PS: Vejam o primeiro sorteio no final do post.

7 Coisas impossivelmente-legais-bonitas-interessantes-hilárias-ou-dignas-de-nota da semana:

♥ O título do post é inspirado num dos livros que mudaram minha vida: Um teto todo seu, de Virgínia Woolf. Descobri que já tinha um outro post com esse título aqui no blog, e também um post inspirado no próprio livro, mas resolvi repetir assim mesmo, porque são projetos que conversam entre si.

♥ Ouvi a frase da Debbie Millman no Podcast Creative Pep Talk (em inglês), episódio 136. Esse podcast é sobre arte e ilustração. Tem alguns episódios legais, mas acho o apresentador um pouco histérico às vezes. Depois trago outros links dele.

♥ Para quem ama ilustração, aquarela, sketchbooks: o Atelier Sentô é um blog maravilhoso, mantido por dois artistas franceses que moram no Japão.

♥ Uma fonte de ilustrações fofas e narrativas é o concurso anual da Lilla Rogers. Vejam as semi-finalistas de 2018. Tem um monte de artistas interessantes para seguir no Instagram. Já saíram as dez finalistas. O resultado do concurso é dia 17/08.

♥ Já falei da Eva-Lotta Lamm no post sobre sketchnoting. Ela está dando aulas de desenho nos Stories e no IGTV do Instagram! Fiquei super feliz porque ela viu o meu post (sobre ela) e está lendo alguns dos meus artigos na área de antropologia e desenho.

♥ Saiu um livro novo do Eduardo Salavisa, em Portugal, chamado Caderno do Porto. É uma joia em quatro línguas, repleto de desenhos, histórias e cores lindas… Ainda quero escrever mais sobre ele para vocês.

♥ Não deixem de acompanhar a newsletter do site Public Domain Review — é uma lindeza atrás da outra… Esses dias eles publicaram um artigo sobre paletas de aquarela antigas (uma das imagens abaixo).

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1708 – Traité de la peinture en mignature, an artist’s manual attributed to “C.B.” (Claude Boutet) – Public Domain Review (link no texto acima)

Sobre os desenhos: Fotografei todos desenhos (feitos a partir de exercícios do Cap.2 do livro de Wil Freeborn) com o celular mesmo e juntei com a imagem da capa do livro no Photoshop. Não daria para explicar todos aqui, mas se alguém tiver curiosidade sobre algum especificamente, me escreve nos comentários, ou manda uma mensagem no Instagram! Tenho colocado as imagens lá no meu Stories (e depois no destaque Pinturinhas).

Sorteio de livros: Como prometi, vou começar a sortear os livros que quero doar. Infelizmente, só vale para pessoas aqui no Rio de Janeiro, já que não estou podendo gastar tempo e dinheiro com correio.

O primeiro livro  que tenho novinho (pois fiquei com dois) é esse da foto abaixo: linda edição da Bazar do Tempo em homenagem à Cleonice Berardinelli — uma obra maravilhosa para quem é da área de letras ou ama literatura! Quem tiver interesse em participar do sorteio, me explica por que gostaria de ganhar nos comentários (aqui no blog ou no Instagram). Anuncio a pessoa sorteada na semana que vem! ♥

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Você acabou de ler “Um projeto todo seu – Sobre a felicidade de estudar, aprender, fazer, criar“, escrito e ilustrado por Karina Kuschnir e publicado em karinakuschnir.wordpress.com. Se quiser receber automaticamente novos posts, vá para a página inicial do blog e insira seu e-mail na caixa lateral à direita. Se estiver no celular, a caixa de inscrição está no rodapé. Obrigada! ☺

Como citar: Kuschnir, Karina. 2018. “Um projeto todo seu – Sobre a felicidade de estudar, aprender, fazer, criar”, Publicado em karinakuschnir.wordpress.com, url: https://wp.me/p42zgF-3H7. Acesso em [dd/mm/aaaa].

15 pensamentos sobre “Um projeto todo seu – Sobre a felicidade de estudar, aprender, fazer, criar

  1. Pingback: Paleta de aquarela atual – 44 cores! | Karina Kuschnir

  2. Pingback: Setembro/2018 e Nossas histórias | Karina Kuschnir

  3. Olá Karina. Também gosto muito das aguarelas do Will Freeborn. Ele consegue uma luz incrível. Os projectos pessoais mudam mesmo as nossas vidas. Obrigado pelas dicas. E pela divulgação do “Caderno do Porto”. A distribuição (e o negócio da edição) é um assunto que não percebo nada.

  4. Olá! Sensacional! Adorei isso: “Lembrem das alegrias da infância. Às vezes, nossos maiores prazeres estão logo ali, em memórias de atividades felizes”. Totalmente poético e verdadeiro!
    Obrigada por mais esse post! AMei!

  5. Que delicadeza seus desenhos e textos! Um respiro sempre. Como não amar um livro sobre Cleonice Berardinell? Inoculada pelo vírus de Pessoa e que inoculou tanta gente como eu. Essa joia centenária traduz como ninguém o poeta que só fazia drama em almas e não em personagens.

  6. Kau, oi! Lindo post. Parabéns por escrever sobre isso e ser um exemplo vivo e inspirador para todos nós que te lemos!

    Tem um livro recém lançado chamado Ikigai, que fala sobre isso. Encontrar essa realização, sentir o prazer de criar algo e deixar esse sentimento fluir é um segredo que os japoneses têm para viver uma vida longa e feliz.

    Bora fazer o mesmo! Super beijo.

    • Ah, fiquei até emocionada com seu comentário, querida! muito obrigada pelo incentivo e por compartilhar a dica desse livro. Vou já procurar! Sim, concordo muito: viver o presente, sem consumismo, criando algo com nossas próprias mãos, é um espaço de paz enorme! Saudades de ti, linda♥♥♥ beijos nos quatro humanos e nos dois gatinhos. ☺

  7. Como sempre, vc seus posts são maravilhosos. Amei 😍. Vou procurar o livro. Compartilho com vc a ideia de termos algo que amamos para estudar, executar e criar. Pinto a óleo desde os 14 anos, mas aos 25 parei e voltei aos 40. Pintei, participei de exposições, mas em torno de 2001, tive que parar tudo. Agora, aos 60, fui obrigada a me aposentar, crise deste país, que não acaba. Então resolvi que iria voltar para pintura, mas desta vez, aquarela. É um desafio para mim. Sempre quero fazer da aquarela uma pintura a óleo kkkk, sem chance. Vou comprar este livro, porque adoro desafios e quero me aprofundar e estudar. Muito obrigada pela dica. Amo seu trabalho, para mim uma inspiração. Muito obrigada!

    • Adorei conhecer um pouco da sua história, Helena, muito obrigada por compartilhar e pelas palavras tão generosas sobre o meu trabalho! ♥ Suas pinturas são lindas!! Como avisei lá no grupo, assim que eu acabar de pintar os exercícios, vou deixar o livro no atelier da Chiara para todos poderem consultar. Espero que a gente se encontre lá um dia desses! minhas aulas são aos sábados. beijinhos ♥♥♥

  8. Karina, muito obrigada por seu muito útil alerta sobre a necessidade de um projeto todo seu. Não sei se vc lembra de mim, sou antropóloga e nos encontramos em algumas aulas da Chiara. Tb fui aluna e amiga do Gilberto, meu primeiro prof de Antropologia e a minha turma foi a primeira dele, ainda no Ifcs no ano de chumbo de 1969. Tudo isso para marcar um pouco as identidades entre nós. Gosto muito de ler seus posts, sempre corro atrás de suas dicas. Uma coisa me impressiona: como vc consegue fazer tanta coisa???!!! Deve ser muito disciplinada. Um dia fale sobre o seu cotiano, como vc organiza o seu tempo. Um beijo

    • querida!! claro que lembro — e muito bem! nossas vidas já se cruzaram em tantos momentos! E ainda o apartamento do Gilberto… Muito obrigada pelas palavras tão gentis sobre os posts e desenhos! Vou anotar a ideia do post!! Sou um pouco disciplinada para algumas coisas (eu diria que sou mais teimosa do que disciplinada rs; sabe aquela pessoa que não desiste para não dar o braço a torcer? tipo assim!) mas também não sou nada produtiva em outras áreas da vida (tipo atividade física, que sempre começo, adoro, me animo e desisto uns 3 ou 4 meses depois hahaha). Não desista da pintura! vamos nos encontrar lá na Chiara! ♥

  9. Que maravilha de post, Karina! Amei suas aquarelas, estão lindas demais, vou procurar esse livro, me interessou muito!
    Também adoro o Salavisa, e vivi uma experiência engraçada em Portugal: procurei os livros dele em todas as livrarias em Lisboa e nada…até o dia de voltar ao Brasil, quando me deparei com 2 livros dele na banca do aeroporto! Claro que comprei correndo e são umas das minhas preciosidades.
    Quanto ao medo do papel caro, sou igualzinha!
    Agradeço muito ter tido a chance de ter te conhecido naquela bela palestra que você deu no encontro dos Urban Sketchers em Paraty, foi demais! Você é uma pessoa luminosa, sensível e generosa!

    • que lindo vc escreveu, Inês, muito obrigada! Espero que a gente se encontre em muitos eventos de desenho vida afora! ♥ O meu livro preferido do Salavisa é o Diários de Viagem. Infelizmente está esgotado, mas dá para ler e ver as imagens dele num blog criado pelo E.S. para isso. Deve ter o link lá no blog principal dele. abraço apertado pra ti & bom domingo! ♥

  10. Oiê Karina, mais uma vez me emocionei. Também estou em um projeto q está mudando minha vida, como comentei no post passado. Ah obrigada pelo material enviado!
    Mas o projeto não é mais paralelo. Caí de cabeça e vivo em estado de flow diariamente…rsrs
    Eu amo vira-latas… tenho 3 aq em casa, mas a cervejinha tem que ter mais lúpulo q milho..pelo amorrrr… 😉

    • hahaha, preciso entrar nesse mundo do lúpulo!! tive duas alunas ano passado que estudaram as imagens dos rótulos das cervejas artesanais. Ficou um trabalho incrível! Mas não provamos nenhuma, infelizmente rs bjs ♥

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