Karina Kuschnir

desenhos, textos, coisas


A antropologia como uma forma de olhar o mundo – minha entrevista a Diana Mello para a revista Kula

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Antropologia, inovação, trajetória acadêmica, desenho, saúde mental — esses foram alguns dos temas que falei em uma entrevista a Diana Mello para a revista Kula: Antropología y Ciencias Sociales. A Diana é uma ex-aluna querida (criativa, talentosa e sensível!), que esteve na primeira turma do curso de Antropologia e Desenho no IFCS, em 2013. De lá pra cá, criei esse blog e ela já está no doutorado na Argentina, sua terra natal.

Seguem alguns trechos da conversa para vocês (créditos e link para a publicação completa no final).

Sobre como podemos continuar gostando de antropologia, apesar de…:

KK — “…quando nos debruçamos sobre a vontade de conhecer as pessoas, [descobrimos] que muitas vezes elas são mais parecidas conosco do que a gente imaginava e, portanto, não são bem “outros”, são “interlocutores”. (…) Com todas as ressalvas, acho que sobrevive na antropologia um projeto de produção de conhecimento entre pessoas, e esse projeto continua sendo válido para mim. É isso que me faz continuar acreditando, sem negar que em toda área científica existem relações de poder que precisam ser reveladas e compreendidas.”

Sobre ser jornalista e virar antropóloga na primeira pesquisa de campo na Câmara Municipal do RJ:

KK — “…uma casa legislativa é um espaço extremamente restrito e o meu crachá [de jornalista] abriu portas. O difícil era dizer para as pessoas: ‘Olha, quero conversar com você, mas isso não vai sair em nenhum jornal’. Aí os vereadores respondiam que não tinham tempo para conversar comigo. Isso foi muito revelador. Hoje, entendo melhor que quem somos provoca uma série de situações no campo que são indissociáveis do conhecimento que produzimos.”

Comentei com a Diana como fui acolhida pelo professor Gilberto Velho no Museu Nacional, apesar da precariedade da minha formação. Além dele, devo demais a professores como Moacir Palmeira, Luiz Fernando Dias Duarte e Lygia Sigaud. Eu diria que todos, assim como a Maria Claudia Coelho (minha professora na graduação), me ensinaram que a antropologia é uma área conectada com a história, a sociologia, a política, a literatura, a arte etc. Essa perspectiva foi fundamental para que eu pudesse fazer a virada para o desenho:

KK — “Em 2011, fui a Portugal a trabalho e lá participei de um evento de desenho urbano, o segundo encontro internacional do grupo Urban Sketchers. Assisti a uma série de palestras, de pessoas que não eram cientistas sociais, mas que me abriram para a ideia de que o desenho poderia ser uma porta para conhecer o mundo, que podia ser uma ferramenta de renovação da antropologia pelo grafismo. Voltei dessa viagem e, apesar de já ter um projeto de pesquisa pronto sobre arquivos políticos, resolvi escrever um projeto novo sobre “antropologia e desenho”. O projeto foi aprovado e elogiado pelo CNPq. Conforme fui amadurecendo, tive a ideia de criar uma disciplina na graduação voltada para o tema. Comecei em 2013 e continuo até hoje.”

Depois de falarmos mais do mundo acadêmico, Diana me perguntou por que criei esse blog:

KK — “O blog surgiu da minha vontade de juntar o desenho com o texto. (…) Foi um espaço que comecei com zero expectativas, simplesmente para me obrigar a escrever um texto e produzir um desenho toda semana, tentando me inserir também no mundo do desenho onde naquela época era obrigatório você ter um blog.

O primeiro post de sucesso aconteceu em dezembro de 2013. Fui dar uma palestra e me colocaram no último horário do último dia do evento, a plateia praticamente vazia. Eu tinha tido um grande trabalho pensando no roteiro e desenhando à mão todos os slides. Como quase ninguém assistiu ao vivo, resolvi colocar no blog o post Dez Lições da Vida Acadêmica. Foi o primeiro que viralizou, e hoje tem mais de 20 mil views. A partir disso, percebi como havia uma brecha no mundo acadêmico para falar com mais leveza e humor sobre a vida acadêmica.”

Contei para a Diana que a coragem de ser mais irreverente veio também do meu contato com o Howard Becker. Uma coisa que acabei não contando na entrevista foi que o Howie (como ele gosta de ser chamado) uma vez me provocou, questionando por que no Brasil os intelectuais passam a vida toda trabalhando com um tema só. Comecei a respondê-lo de um jeito meio formal, dizendo que era dificuldade de verba de pesquisa etc., e que isso me aborrecia também. Ele se virou para mim e perguntou: “– Por que você não faz de outro jeito?”

Essa conversa ocorreu durante a entrevista que fiz com ele em 2008, por ocasião de seus 80 anos. Naquele dia, ele plantou uma ideia na minha cabeça — algo que foi frutificando nas mudanças que se seguiram em direção ao desenho e à pintura. Como lembro na entrevista à Kula, o próprio Howie é extremamente inovador em sua prática, estudando temas tabu, circulando artigos por e-mail e no seu blog.

Diana perguntou ainda sobre como surgiu o assunto da saúde mental aqui no blog:

KK — Tudo começou por causa de um post escrito a partir do encontro com um ex-aluno da graduação que estava fazendo seu Doutorado. Encontrei com ele no IFCS e ele estava visivelmente mal. Resolvi publicar no blog uma Carta a um jovem doutorando. Nesse post, que também viralizou, eu falo de todos os problemas de saúde e emocionais que eu mesma passei no Doutorado.

(…) Está complicado para os alunos fazerem um curso de Ciências Sociais no Brasil hoje. É desafiador você segurar a saúde mental num contexto em que a pesquisa em Sociologia é considerada uma ‘ferramenta do mal’ pelos setores que ocupam os espaços de poder na sociedade.

Para terminar, respondi à Diana qual conselho eu daria para quem está lutando para permanecer na antropologia e na universidade:

KK — “Um bom conselho é você buscar aquilo que te afeta, aquilo que te mobiliza afetivamente, para que a vida acadêmica tenha o seu lado de prazer, de construção, de emoção, porque sem isso você não segura o lado do sofrimento. (…) Além de muita determinação, paciência, foco e calma, é importante se cercar de pessoas que compartilham essa paixão com você, porque precisamos de grupo, de redes de apoio. (…) Primeiro você precisa viver, estar bem, se alimentar, dormir, estar inteira e não esquecer disso.”

Encerramos conversando sobre a importância de poder desacelerar para se aprofundar na pesquisa. Contei que valorizo muito a autonomia de pensamento, e que alunos têm sim direito de se tornar autores. Às vezes é bem difícil aceitar isso, mas repito: “não importa se já escreveram antes”. Os encontros autorais, bibliográficos e pessoais são únicos e merecem ser analisados e descritos. Não devemos nos censurar por querer produzir: “você pode prestar contas para a academia sem se anular, sem apagar a sua singularidade”.

Para ler a entrevista completa: A antropologia como uma forma de olhar o mundo: uma conversa com Karina Kuschnir. Entrevista concedida a Diana B. Mello. Kula. Antropología y Ciencias Sociales, nº 20/21: Especial aniversario. Diciembre, 2019, p. 22-29.

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A revista Kula é feita por alunos de pós-graduação de diversas instituições universitárias na Argentina, mas aceita artigos em português. A chamada para o próximo número está aberta!

E-mail para contato: revistakula@gmail.com

A Diana Mello está no Rio fazendo trabalho de campo até final de fevereiro. E-mail para contatos: didibmello@gmail.com

6 Coisas impossivelmente-legais-bonitas-interessantes-e-dignas-de-nota da semana:

♥ Holly Exlley, uma das minhas aquarelistas preferidas do You Tube, lançou um vídeo novo com time-lapse de pintura.

♥ Terminamos a 6ª temporada de Brooklyn 99 e começamos a 3ª de Mrs. Maisel. Que produção, que diálogos! É um show.

♥ A Public Domain Review fez uma foto-montagem divertida e listou vários autores, artistas e músicos que entram em domínio público em 2020 (em inglês).

♥ A Valéria Campos do blog 1 Pedra no Caminho publicou (em co-autoria com Fernanda G. Matuda) um artigo bacana intitulado Uso de podcasts como potencializador do desenvolvimento de gêneros orais em aulas de língua portuguesa no ensino médio. Ela fez um resumo com destaques do texto aqui. Achei uma reflexão super bem-vinda também para aulas de graduação.

PS: A professora Julia O’Donnell (IFCS/UFRJ) fez um projeto com podcasts numa turma de Antropologia Urbana em 2019-2. Quem sabe ela escreve um relato para o blog? O que vocês acham?

♥ Por falar em podcasts, Daniela Manica (Labjor/Unicamp) e Soraya Fleischer (UnB) coordenam o novíssimo Mundaréu, podcast de divulgação científica sobre Antropologia. Super inovador, entrevistando antropólogas e seus interlocutores nessa primeira temporada. Uma alegria de ouvir!

♥ Em 2020 retomei minhas práticas de GTD (sigla de Getting Things Done). Já ouviram falar? A Thais Godinho explica super bem no blog Vida Organizada ou no You Tube (versão curta / versão longa). Eu não sigo tudo certinho, mas gosto da filosofia de buscar tranquilidade e foco para fazer aquilo a que você se propõe. Nada a ver com produtivismo. Como diz a Thais no primeiro vídeo:

“Às vezes, a coisa mais importante que você tem para fazer é não fazer nada; é descansar.” (Thais Godinho)

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Hoje não tem “sobre o desenho”, porque a ilustração foi a capa da revista Kula. Adorei as linhas sobrepostas da logomarca que, assim como a capa, foram criadas pela designer Valeria Mattiangeli.

Tenho desenhado o projeto “50 Pessoas” e compartilhado no Stories do Instagram. Já já trago as imagens juntas pra cá. Boa semana, pessoal. ☼

Você acabou de ler “A antropologia como uma forma de olhar o mundo – minha entrevista a Diana Mello para a revista Kula“, escrito e ilustrado por Karina Kuschnir e publicado em karinakuschnir.wordpress.com. Se quiser receber automaticamente novos posts, vá para a página inicial do blog e insira seu e-mail na caixa lateral à direita. Se estiver no celular, a caixa de inscrição está no rodapé. Obrigada! ☺

Como citar: Kuschnir, Karina. 2020. “A antropologia como uma forma de olhar o mundo – minha entrevista a Diana Mello para a revista Kula”, Publicado em karinakuschnir.wordpress.com, url: https://wp.me/p42zgF-3P6. Acesso em [dd/mm/aaaa].


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Projeto 50 pessoas em aquarela e nanquim

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“A vida é imprevisível. Sei que não podemos controlar tudo… Mas, quando estamos com as pessoas que amamos, conseguimos lidar com qualquer coisa.” (Amy Santiago, Brooklyn 99*)

Querem começar o ano com uma distração leve, que emociona e faz gargalhar? Assistam à série “Brooklyn 99” na Netflix. Tem cinco temporadas lá. (A sexta só catando; a sétima está em produção.)

Não sou muito de série, mas fico feliz quando encontramos uma bem divertida para vermos juntos. Essa nos pegou de jeito. É super engraçada e melhora conforme as temporadas vão avançando. É visível o cuidado dos roteiristas em não fazer humor com zoações homofóbicas, sexistas, racistas etc. Tudo isso sem deixar de falar bobagem e fazer rir. Claro que titio Adorno não aprovaria rirmos de gracinhas sobre polícia norte-americana, mas ninguém é perfeito.

Eu me identifico demais com a Amy — uma caricatura de pessoa hiper organizada, apaixonada por fichários, post-its e materiais de papelaria, que vive tentando ser a queridinha do chefe. Ela é zoada por todos por ser previsível, sem graça, certinha demais. Mas a personagem também acaba rindo bastante de si mesma, ora salvando o dia com seus manuais de 500 páginas, ora deixando o controle de lado em prol do improviso e da diversão. Uma fofa, assim como todos os outros. ♥ Não conto mais para não dar spoiler.

Falei da Amy e de Brooklyn 99 porque a frase dela tem tudo a ver com o projeto que estou fazendo no momento: desenhar e aquarelar 50 pessoas de corpo inteiro.

A senhora que abre o post é a terceira da série, mas já estou na oitava. Vou mostrando a sequência conforme for escaneando:

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É difícil encontrar pesssoas que não estejam com celular na mão. No caso da senhora, porém, me alegrei com a presença de várias estampas (a saia era xadrex azul e a blusa de oncinha, detalhe que acabei não pintando). Amei o reflexo da luz da tela na sua mão, além dos vários pacotes aos seus pés, como se ela fosse um porto seguro.

Final de 2018 e 2019 foram períodos de ressentimento com muitas pessoas. Ainda é difícil lidar. Mas minha natureza é amar gente. Não foi à toa que abracei a antropologia. Antes, bem jovem, cheguei a ensaiar ser fotógrafa de retratos. Depois, me apaixonei por desenhar pessoas. Até hoje, minha primeira aula de modelo vivo é um dos momentos para o qual retorno quando preciso lembrar o que é felicidade. Foi um momento mágico.

O projeto é pra ficar próxima daquilo que me faz bem: acreditar e ter compaixão pelas pessoas. Quando se desenha um ser vivo, acho que acontece um elo, uma linha que busca conhecer, sem julgar. 

Meu ideal seria fazer todos os registros por observação direta. Mas nem sempre dá pra desenhar um corpo inteiro num espaço público. Então, quando faltam modelos, tiro fotos para ver depois. A aquarela deixo para casa, que é onde me sinto melhor pintando. Gosto de camadas que precisam de tempo para secar e da tranquilidade da minha mesa com os materiais à volta. 

Parafraseando a Amy: não podemos controlar tudo, mas, quando estamos com as pessoas certas, e fazendo o que amamos, conseguimos lidar com qualquer coisa.

7 Coisas impossivelmente-legais-interessantes-ou-dignas-de-nota da semana:

♥ Tenho postado stories no meu Instagram mostrando alguns processos de pintura e tentando manter os posts atualizados por lá.

♥ O Twitter me angustia, mas sigo no meu perfil, avisando de novos posts e compartilhando coisas legais sobre arte e desenho, já que é uma boa rede para colocar links.

♥ O Facebook é onde tenho mais amigos. Acho o melhor espaço para receber e responder comentários, além de ser bom para compartilhar textos mais longos. Não podiam juntar as qualidades de todas as redes numa só?

♥ Conto tudo isso porque, na retomada do blog, depois de 3 meses parada, fiquei na dúvida se valia à pena replicar os posts nas três redes. Fiz uma pesquisa no Stories do Instagram perguntando se as pessoas se incomodavam com essas repetições de conteúdo. Resultado: os tolerantes ganharam (38 pessoas acham bom. 13 não gostam, sendo que eu sou uma delas, hahaha.)

♥ Sobre desenho de pessoas ao vivo, lembrei de alguns posts: Razões para sorrir, Modelo viva, Modelos vivos ou mortos, Uma cidade, duas cidades, Irmãos e Irmãs de Shakespeare e outros curtinhos que abrem o blog: Anjos do Metrô, Metrô, Sentido Zona Norte, Leitores no Parque. Não deu pra recuperar tudo, porque meu sistema de tags tá bem caótico.

♥ Na busca acima, achei esse post com o maravilhoso trabalho do Nelson Paciência, A liberdade de desenhar, sobre um projeto de desenho com pessoas encarceradas.

♥ Pra fechar, a dica de um vídeo bacaninha de 5min. sobre A complexa geometria do design islâmico, em inglês mas com legendas (Ted/YouTube).

Sobre a citação: A frase foi dita pela Amy Santiago, personagem da série Brooklyn 99, no último capítulo da 5ª temporada. Tem na Netflix as primeiras 5 temporadas. Depois, só pedindo ajuda pros universitários.

Sobre o desenho: Linhas feitas por observação direta no Metrô do Rio, Linha 1. A canetinha foi uma Pigma Micron 0,05 de nanquim permanente. O caderno foi um bloquinho Hahnemühle como esses aqui. Adicionei as cores em casa, com as aquarelas que estão nessa paleta. Depois escaneei e limpei as sombras geradas pelo scanner no Photoshop.

Você acabou de ler “Projeto 50 pessoas em aquarela e nanquim“, escrito e ilustrado por Karina Kuschnir e publicado em karinakuschnir.wordpress.com. Se quiser receber automaticamente novos posts, vá para a página inicial do blog e insira seu e-mail na caixa lateral à direita. Se estiver no celular, a caixa de inscrição está no rodapé. Obrigada! ☺

Como citar: Kuschnir, Karina. 2020. “Projeto 50 pessoas em aquarela e nanquim”, Publicado em karinakuschnir.wordpress.com, url: https://wp.me/p42zgF-3OL. Acesso em [dd/mm/aaaa].


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Desenho Etnográfico – I Mostra da ABA e imagens de uma aula lúdica

miria_pEstá acontecendo! O desenho entrou para valer na agenda da antropologia — viva!

Na 32ª Reunião Brasileira de Antropologia de 2020 haverá a I Mostra de Desenho Etnográfico, com trabalhos que utilizem desenhos relacionados à pesquisa antropológica. 2020 RBA I Mostra Desenhos EtnograficosEstou torcendo para chegarem muitas incrições! O prazo para envio foi prorrogado para 29/02/2020.

A página de eventos da RBA está aqui: https://bit.ly/35wb6CE. E o edital completo pode ser acessado aqui: https://bit.ly/2up651M

Para completar minha alegria, a imagem de Miriã Cruz, aluna do meu curso de Antropologia e Desenho no IFCS/UFRJ, foi selecionada para o cartaz de chamada do edital.

A ideia da equipe era ter um registro em que o próprio pesquisador-desenhador estivesse inserido na cena. Essa é uma estratégia gráfica que procuro trazer para as aulas, pois um dos efeitos de desenhar no trabalho de campo é colocar em evidência a presença do etnógrafo na narrativa. Como escreveu uma aluna em sua reflexão:

“Uma das principais lições desse exercício é que o pesquisador não é um mero observador, mas uma parte integrande da pesquisa. Quando pesquisamos, estamos envolvidos corporalmente e psicologicamente com o objeto e os sujeitos pesquisados. A neutralidade científica é um mito.” (Luana Fontel)

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Miriã fez o desenho que abre esse post na penúltima aula do semestre. A turma de 2018-2 do curso noturno de Antropologia e Imagem foi inesquecível. Apesar de serem quase 60 pessoas — o que é muito numa aula normal, imaginem numa aula prática –, acho que tivemos uma conexão especial.

Vendo a empolgação de todos, e querendo proporcionar uma experiência diferente, resolvi levá-los para desenhar numa biblioteca reservada do IFCS, onde só se entra com hora marcada. É a nossa “mini Hogwarts” — um pequeno labirinto de três andares de estantes, escadas e passarelas, tudo de madeira. Um lugar incrível de um prédio cuja fundação começa no século XVIII, se constrói no XIX e se modifica ao longo do XX.

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A emoção foi coletiva, como escreveu um Fernando:

“Enquanto desenhava, pensava sobre as gerações de pessoas anteriores a mim que passaram por aquele local, desde as que construíram o prédio até as que circulavam por ali. (…) Esperanças, medos, deslumbramentos e o sentimento de vida em movimento me inspiraram a traçar as linhas para meu desenho. Nunca tive um aula assim.” (Fernando Lima)

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Fui compartilhando ao longo do post alguns dos desenhos que os alunos fizeram nesse dia. A única orientação era para que incorporassem a si mesmos desenhando e, se possível, algum dos colegas de turma desenhando também. Foi difícil selecionar apenas nove imagens para o post, porque amei todas! Adorei que a Thais escreveu no desenho dela:

“Ouço bem de longe a professora dizer que o ato de desenhar é também de fazer escolhas. Desisto da ideia de abraçar o mundo com as pernas, como sempre diz meu pai. Escolho a ideia do labirinto de escadas cruzadas (…).” (Thais Vilar)

Ah, e não custa lembrar: os artistas são alunos de Ciências Sociais. A maioria não tinha experiência intensiva com artes. Sobre a proposta nesse dia, a Luna escreveu:

“[primeiro] pensei: impossível. (…) no fim, fiquei bem impressionada e bem feliz com meu desenho; e levei pra vida a discussão em aula sobre não olhar apenas para todas as dificuldades que nos fazem sentir pequenos, mas olhar para cada passo, para cada gesto e, assim, enfrentar o que nos paralisa.” (Luna Mendes)

Qualquer pessoa pode desenhar, gente.

Agradeço até hoje por esse dia tão mágico. Obrigada turma de 2018-2! ♥

Vocês podem ler sobre os fundamentos que utilizo nessas aulas no artigo “Ensinando antropólogos a desenhar” que está na página de referências Antropologia e Desenho.

Os planos de aulas lúdicas mais elaborados estão na página Vida Acadêmica e Aulas.

♥ 2 Coisas impossivelmente-legais-bonitas-interessantes-ou-dignas-de-nota da semana:

. Novo número da Revista Tessituras – Revista de Antropologia e Arqueologia, com o dossiê Antropoéticas: outras (etno)grafias, editado por Patrícia dos Santos Pinheiro, Cláudia Turra Magni e Marília Floôr Kosby. Sumário fantástico, com textos de Ana Lúcia Ferraz, Fabiana Bruno, Ana Luiza Carvalho da Rocha, Matheus Cervo,
Aina Azevedo, Daniela Feriani, pra citar apenas alguns nomes que acompanho mais de perto. A vontade é de ler o número inteiro! Já comecei a imprimir pelo PDF da Aina.

. Aproveitando o tema, divulgo uma chamada linda que recebi da revista Fotocronografias — link aqui. O desenho maravilhoso da imagem abaixo é da Thay Freitas (ig: @thay_petit). O prazo para envio de contribuições é 31/03/2020.Chamada revista 1

Sobre os desenhos: Os alunos receberam uma folha branca de papel A4, 75 gr, para desenhar. Todos fizeram o desenho por observação direta no local , utilizando caneta (esferográfica preta ou canetinha de nanquim descartável). As cores foram acrescentadas em casa. A Miriã ficou com medo de estragar o desenho original e tirou uma xerox, colorindo com aquarela a cópia. O resultado foi incrível para um papel tão simples! Os demais coloridos foram feitos com lápis de cor e um pouco de aquarela também. 

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Como citar: Kuschnir, Karina. 2020. “Desenho Etnográfico – I Mostra da ABA e imagens de uma aula lúdica”, Publicado em karinakuschnir.wordpress.com, url: https://wp.me/p42zgF-3Ov. Acesso em [dd/mm/aaaa].


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Calendários 2020 de Janeiro a Dezembro

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Para quem gosta de imprimir os calendários, seguem abaixo os PDFs de todos os meses de 2020 para download:

Janeiro, Fevereiro, Março, Abril, Maio, Junho, Julho, Agosto, Setembro, Outubro, Novembro, Dezembro.

Utilizei imagens anteriores, aproveitando o Photoshop para acertar as cores, ocupar melhor os espaços e clarear o branco do papel. Também marquei com desenhos os principais feriados de 2020 no Brasil. Espero que gostem!

Quem sabe agora vou começando a desenhar 2021 no ritmo certo: com calma. ♥

Muito obrigada pelas mensagens tão positivas pelo post de ontem. Continuar a desenhar e escrever voluntariamente aqui no blog é um dos meus focos de 2020.

Minha palavra-chave nos últimos anos têm sido “força”, mas estou cansada de tentar ser forte o tempo todo. Pra 2020, estou querendo liberdade e leveza.

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Revendo os calendários, amei os passarinhos que ficaram no mês de abril. Essa duplinha fofa (acima) parece que tá conspirando: — Bora voar?

Seguem todos os meses em imagens para vocês verem melhor:

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Sobre os desenhos: Quase todos os desenhos foram feitos com canetinha nanquim à prova d’água 0.05 (Pigma Micron ou Unipin) e coloridos com lápis de cor em papel A4 90gr comum. O único mês feito com marcadores é o de maio (tema Matisse), pois as cores tinham que ser bem fortes e sem textura.

Você acabou de ler “Calendários 2020 de Janeiro a Dezembro“, escrito e ilustrado por Karina Kuschnir e publicado em karinakuschnir.wordpress.com. Se quiser receber automaticamente novos posts, vá para a página inicial do blog e insira seu e-mail na caixa lateral à direita. Se estiver no celular, a caixa de inscrição está no rodapé. Obrigada! ☺

Como citar: Kuschnir, Karina. 2020. “Calendários 2020 de Janeiro a Dezembro”, Publicado em karinakuschnir.wordpress.com, url: https://wp.me/p42zgF-3NC. Acesso em [dd/mm/aaaa].


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Vergonha de quê? Feliz 2020!

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Pessoas queridas, que saudades de vocês, de compartilhar, desenhar e escrever! ♥

2019 foi um dos piores anos da minha vida, não vou mentir. Por pouco não quebrei as regras do blog e vim me desesperar em público. (Deixa passar a tempestade que darei um jeito de rir das desgraças, como no post dos 300 dias em obras, e ter forças pra contar.)

Primeiro, vamos falar de vergonha? Sabem aquela aula que a gente falta muito e morre de medo de voltar? E aquela ansiedade pra responder a mensagem da amiga que está há meses aguardando no zap ou no e-mail? E a vontade de sumir depois de pagar uma fortuna na academia de ginástica e não frequentar? E a coleção de cadernos em branco, as tintas na embalagem, a ida ao parque adiada, aquele almoço com o colega de faculdade que não sai nunca, a tia idosa esperando a visita, o artigo da prima que não deu pra ler…

Quanto mais o tempo passa, mais vergonha! E junto vem a preguiça… Vocês também se sentem assim?

Na teoria, o antídoto é fácil. Recito sempre para os meus filhos quando eles alegam vergonha por algo que aconteceu na escola, por um erro na prova, um mal entendido com os amigos, um compromisso esquecido, uma espinha na bochecha:

“Vergonha? Vergonha a gente só deve ter de matar, roubar ou fazer mal a alguém.”

Nunca esqueci dessa frase, que ouvi do recém-falecido ator e diretor Jorge Fernando. Foi no final dos anos 1980. Eu tinha 20 anos e andava no mundo do teatro. “Jorginho”, como era chamado, tinha mania de cumprimentar os amigos com um selinho na boca. Saía tascando beijo em todo mundo. Uma dia, um homem reclamou, num tom carinhoso: — Você não tem vergonha, Jorginho?

Ele respondeu: “– Vergonha? De beijo, de amor, carinho? Nunca! Vergonha a gente tem de matar, roubar ou fazer mal a alguém.”

Achei tão bonito, tão simples. Lembrando: estávamos no final dos anos 1980, a epidemia da Aids no auge da fatalidade, e o Jorginho beijando inclusive os amigos com HIV.

Hoje, pra ser sincera, acho que até as vergonhas do Jorginho são relativas. Andei lendo livros abolicionistas e entendendo que vergonha é uma sociedade que tem como projeto o extermínio e a prisão dos pobres, onde uns têm tanto e outros sentem fome, onde há os que pagam plano de saúde e os que morrem na fila do hospital. Vergonha é não lutar por um mundo melhor para todos e não apenas para si. Vergonha é não saber amar e não querer aprender; é dizer “te amo”, “estou com saudades”, e agir para machucar.

Então, chega de drama. Todo esse post era só para dizer que estou de volta, sem vergonha de admitir que estive mal, e ainda estou capenga, mas de pé. Algumas coisas pra finalizar:

♥ Muito, muito obrigada, por todas as mensagens carinhosas, de força e incentivo para a volta. Mesmo quem não me conhece pessoalmente escreveu sentindo que havia algo errado e me desejou sorte. Que todo esse afeto volte em dobro pra vocês! Obrigada.

♥ Os calendários do mês completaram 6 anos sendo publicados sem interrupção em outubro/2019. 6 anos x 12 = 72 meses! Foi um desafio incrível que, por ora, resolvi parar, pelo menos com desenhos novos. Além do trabalho enorme, cada vez estávamos utilizando menos os nossos, pois as “crianças” aqui de casa cresceram. Talvez me dê saudades, não sei…  Minha ideia é fazer todos do ano de 2020 reaproveitando edições anteriores. Posto em breve!

♥ Há muito tempo, tenho vontade de fazer outras coisas para vocês imprimirem, como marcadores de livros e cartões. Vou tentar publicar pelo menos uma dessas por mês pra compensar a falta dos calendários. O que acham?

♥ Resolvi abolir a periodicidade semanal, publicando mais quando tiver vontade e assunto. Li 35 livros e dei mais de 250* horas de aulas em 2019 — tenho tanta coisa para compartilhar e escrever! O maior desafio é ilustrar tudo isso.
(* Corrigido pois tinha escrito 2500! 😉

♥  Para ajudar nos desenhos, consegui finalmente comprar um Ipad com a canetinha Pencil. O melhor é que foi do jeito que eu queria e podia: de segunda mão, vindos de uma amiga querida, por um preço das deusas. Uma das alegrias desse início de ano em recuperação. Obrigada, Bia!!

♥ Que em 2020 possamos:

• Encontrar e viver “todo amor que houver nessa vida”, como escreveu Cazuza.

• Descansar sem culpa, como essas moças que observei na praia. Que dificuldade eu tenho de parar de trabalhar ou de fazer tarefas em casa. Nesse dia, acabei feliz depois de ser arrastada pra areia pela Alice, linda e muito mais sábia do que eu.

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• Desenhar, criar, ler e escrever mais; ficar menos tempo nas telas. Que diferença o corpo das pessoas ao sol e o das que estão grudadas no celular, mesmo na praia. Os olhos vidrados, os ombros tensos, a necessidade de pouca luz. Viramos vampiros, gente, eu incluída.

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• Compartilhar, cantar, lutar, sorrir. Consumir menos, sermos mais solidários.

• Nos inspirar com e pela arte, apesar de tudo, como nos diz Toni Morrison:

“This is precisely the time when artists go to work. (…) I know the world is bruised and bleeding, and though it is important not to ignore its pain, it is also critical to refuse to succumb to its malevolence. Like failure, chaos contains information that can lead to knowledge, even wisdom. Like art.” (Toni Morrison*)

[Tradução aprox.: “Este é exatamente o momento em que os artistas precisam trabalhar. (…) Sei que o mundo está machucado e sangrando e, embora seja importante não ignorar sua dor, também é fundamental se recusar a sucumbir à sua malevolência. O caos, como o fracasso, contém informações que podem levar ao conhecimento e até à sabedoria. Como a arte.”]

• Feliz 2020 pra todos nós! ♥

Sobre a citação: Li a citação da Toni Morrison pela primeira vez no livro Keep Going, de Austin Kleon. Depois localizei a fonte completa, um artigo de 2015, disponível aqui [em inglês].

Sobre os desenhos: Linhas feitas por observação direta na praia do Leblon, perto do Baixo Bebê. A canetinha utilizada foi uma Muji preta 0.25, que esqueci que não era à prova d’água (daí as manchas nas cores mais claras). O caderno foi um bloquinho Hahnemühle como esses aqui. Adicionei as cores em casa, com as aquarelas que estão nessa paleta. Depois escaneei e limpei as manchas do papel no Photoshop. Minha preferida foi a primeira, não tanto pelo desenho, mas pela alegria da jovem que abriu um sorriso ao ver que o namorado se aproximava. O amor vivido, lindo! ♥

Você acabou de ler “Vergonha de quê? Feliz 2020!“, escrito e ilustrado por Karina Kuschnir e publicado em karinakuschnir.wordpress.com. Se quiser receber automaticamente novos posts, vá para a página inicial do blog e insira seu e-mail na caixa lateral à direita. Se estiver no celular, a caixa de inscrição está no rodapé. Obrigada! ☺

Como citar: Kuschnir, Karina. 2020. “Vergonha de quê? Feliz 2020!”, Publicado em karinakuschnir.wordpress.com, url: https://wp.me/p42zgF-3Nj. Acesso em [dd/mm/aaaa].