Karina Kuschnir

desenhos, textos, coisas

Montanha russa emocional

12 Comentários

“Representou o nada com um símbolo. Trouxe à existência o inexistente.” (Yoko Ogawa)

Tenho pensado muito em vocês e em tudo que estamos passando. É difícil exprimir o invisível que nos separa e ao mesmo tempo nos une — seja pela calamidade, seja pela necessidade de esperanças que tragam ar.

A frase que abre o post evoca a beleza ambígua do zero — esse número mágico que nomeia o vazio mas à direita dos demais multiplica-os ao infinito!

Desenhei essa imagem das idas e vindas no mar num dia que experimentei essas duas intensidades: a sensação boa de compartilhar conhecimento, logo em seguida sufocada pelas notícias da falta de oxigênio em Manaus. Lembrei-me do quanto o oceano é bonito, irrespirável, pacífico, assustador; de como às vezes nos atrai para o fundo; dos dias em que respiramos por um fio ou daqueles em que nadamos fortes como peixes ou alegres como uma criança.

Nos piores momentos dessa experiência pandêmica, sinto-me em busca de uma linguagem para expressar o horror do vazio (dos hospitais sem estrutura à ausência de um plano nacional de saúde). Como nomear a sensação de fundo sem fundo diante do empenho governamenal a favor do vírus?*

Nos melhores momentos, me agarro à emoção das pessoas vacinadas, à poesia de Amanda Gorman, à echarpe da Mônica de Bolle em homenagem à sua avó comunista (que me faz chorar de saudades da minha), às dores de Darwin que, mesmo dilacerado por uma doença desconhecida, lutou pela ciência que hoje produz nossas vacinas, aos Afetos da Gabi e da Karina, ao Mundaréu da Dani e da Soraya, aos textos da Ana Paula Lisboa, ao Gil, ao Caetano, ao Rio das Lembranças do Zé Manoel, ao IGTV do The Dodo, aos áudios do Chris, aos livros e desenhos, aos bom-dias do Ju, às meditações com cores, aos esplendores da pintura do Antônio, às músicas ao violão e às gargalhadas da Alice.

Passei janeiro trabalhando por três. Sobrevivi com bastante auto-cuidado, aprendendo — na marra e na terapia — a conviver com o cansaço acumulado de 11 meses de pandemia: dor no ombro, rinite, enjôo, dores de cabeça, cólicas, cansaço, insônia, vontade de dormir o dia inteiro. De todos os males intermitentes, só não estou sofrendo de gula e alcoolismo, porque nos momentos de angústia meu estômago se fecha.

Boa parte desse trabalho foi de contato com os alunos e gestores da universidade. Tem um lado positivo porque gosto de me sentir útil. Precisei de forças para responder às mensagens de estudantes que perderam seus familiares mais próximos, ou daqueles que não estavam aguentando o ensino remoto… E me emocionei a cada contrato de estágio assinado, a cada declaração de colação de grau confirmada, a cada problema pedagógico-burocrático resolvido — foram as minhas pequenas alegrias no clique-clique do computador.

E vocês, quais foram os altos e baixos desse janeiro?

Que fevereiro nos traga vacinas, auto-acolhimento e cuidado.

Voltando ao mar, esqueci de dizer: esse mês aprendi que as dores da alma vêm em ondas. Às vezes precisamos aceitar o tempo da onda passar. Não acabou ainda, mas vai acabar. ♥

Sobre as coisas mencionadas acima:

♥ O livro de Yoko Ogawa citado na epígrafe é A fórmula preferida do professor (ed. Estação Liberdade). Gostei da leitura. Traz uma simultânea compaixão pelo envelhecimento e pela beleza das crianças. Li por conta desse vídeo da Leena Norms que me recomendaram. Depois fiquei curiosa e li algumas das histórias sobre o número zero aqui.

* Sobre como o atual governo vem atuando constantemente a favor do vírus ver o relatório completo, ou uma reportagem com resumo no El País e também tem uma boa conversa com Deisy Ventura.

♥ Da esperança das vacinas, a linda ilustração de Anne Pires da enfermeira Monica Calazans.

♥ Amanda Gorman recitando sua poesia, com legendas aqui.

♥ A homenagem da Mônica de Bolle para a avó com écharpe está aqui.

♥ O dia que me senti feliz por compartilhar foi nessa live que participei no canal da Thais Godinho, do Vida Organizada. Que gentileza e delicadeza de pessoa é a Thais!

♥ Sobre o Darwin, acabei de ler um biografia gigante (acho que será um post, mas desde já não recomendo essa edição porque a tradução é ruim.). O livro estava pegando poeira na estante há anos, mas deu vontade de ler quando ouvi o podcast Vinte Mil Léguas, indicado pela querida Marília.

♥ Os podcasts que sempre valem a pena ouvir: Afetos e Mundaréu. Que ilhas de esperança.

♥ Adoro tudo que a Ana Paula Lisboa escreve. Tá n’ O Globo (para assinantes), mas acho que um outline resolve. Volta e meia coloco nos meus stories quando sai.

♥ As lives do Gil e do Caetano no Youtube, o IGTV do The Dodo… E vai também a dica que a Letícia mandou e me deu tanta esperança: “No Rio das Lembranças” do Zé Manoel no Spotify.

Desculpem a quantidade de links! Normalmente prefiro ser mais comedida, só que as ondas estão altas e achei que seria bom espalhar botes para nos manter na superfície. Me mandem os pedacinhos de esperança de vocês. Não precisa ser em forma de url — vale risada de filho, avó sendo vacinada!, gato no colo, pão saindo do forno…

Sobre o desenho: Linhas feitas no caderno-terapia, com canetinha Uniball Signo Dx 0.38. Fundo do mar e céu amarelo (em homenagem ao AmarElo, do Emicida) feitos com aquarela num pedaço de papel Harmony da Hahnemühle. Escaneei e sobrepus os dois, editando no app Procreate do Ipad. Fiquei umas boas horas apagando o papel do desenho original para que a imagem vazasse no fundo aquarelado. Descobri que não gosto muito de criar no Ipad, mas editar e ajustar até que é divertido. Não vejo a hora de parar de pagar as taxas abusivas para ter o Photoshop.

Você acabou de ler “Montanha russa emocional“, escrito e ilustrado por Karina Kuschnir e publicado em karinakuschnir.wordpress.com. Se quiser receber automaticamente novos posts, vá para a página inicial do blog e insira seu e-mail na caixa lateral à direita. Se estiver no celular, a caixa de inscrição está no rodapé. Obrigada! ☺

Como citar: Kuschnir, Karina. 2021. “Montanha russa emocional”, Publicado em karinakuschnir.wordpress.com, url: https://wp.me/p42zgF-3SG.  Acesso em [dd/mm/aaaa].

12 pensamentos sobre “Montanha russa emocional

  1. Oi, Karina! O podcast 20 mil léguas é realmente uma ótima recomendação não só pelo conteúdo em si, que é excelente, mas pela ideia de construção narrativa do podcast, de contar a história do Darwin e do livro A Origem das espécies. Meu podcast preferido

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  2. Oi Karina! Que lindos, o post e a aquarela. Leio com a sensação de ouvir vc narrar cada palavra com sua voz mansa e acolhedora. Li esse texto justamente hoje, um dia que tive um pesadelo com um tsunami. Somente ouvia o barulho de destruição e me via fugindo com medo de que o pior acontecesse. Enfim acordei. Coincidência ou não, suas palavras me trouxeram algum significado para esse sonho, considerando o turbilhão de emoções que tenho vivido atualmente. Vc tem razão: Não acabou ainda, mas vai acabar. E sei que tudo vai ficar bem.
    Obrigado pelo lindo texto. Um grande abraço.

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  3. Esse post chegou aqui como aquela onda suave que ajuda a gente a boiar! Conheci vc através da live com a Thaís e me encantei rs… Curiosamente eu conheci o canal dela durante o processo do meu luto materno em 2018, e desde o início da dor eu a reconheci como o mar…sempre fluindo… às vezes uma maré mais baixa onde consigo falar e viver às vezes uma maré mais alta em que me afogo… E o trabalho da Thaís tem sido uma das minhas bóias nesse mar!o cadinho de alegria que eu vou compartilhar com vc é sobre a inspiração que vc, ela e outras mulheres incríveis que conheci e mesmo a distância têm me fortalecido a realização de um sonho pessoal e do meu filho, voltei a estudar e estou fazendo pedagogia pela Univesp, comecei em 2020, justamente nessa onda mundial mais uma professora pro nosso país e com formação online. RS… Obrigada pela leitura 🙂

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  4. É sempre um reconforto me dar conta que outras pessoas compartilham dessa mesma montanha russa, cada um ao seu modo mas a sensibilidade compartilhada, seus escritos são um abraço ❤

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  5. Ô Karina, me bateu fundo a tua montanha russa emocional… é, comadre, tô igual que nem… igual a você e tanta gente, entre a culpa do privilégio de tanta sorte em meio ao caos e a angústia de enxergar o horror mesmo de olhos fechados, fugindo de noticias, jornais, lives e zooms… é que ficou brabo.
    Mas já tô melhorando de novo, arregaçando as mangas pra fazer minha parte no coletivo, parando antes de não dar conta, muitos aprendizados. Doloridos, mas agora tem insônia e amanhã tem sol outra vez, tem caminhada, tem netos, tem roupa pra pendurar no varal, tem varal, e voltei a ter vontade de arrumar o caos que se instalou junto com a paralisia da vontade♡ a gente dá conta da dor e da alegria. Como sempre. Como tanta gente.
    Boralá. Beijos.

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  6. Juntas pela dignidade em tempos de busca de forças. Em frente! Obrigada, @karinakushnir. Quem será você, essa mente linda e inspiradora? ❤️

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  7. Você é um acalento em todos os momentos… Principalmente quando tomo caldo das ondas. Obrigada.

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  8. Que post lindo e com o qual super me identifiquei. Estou emocionalmente cansada e ao mesmo tempo, buscando forças para ajudar tanta gente querida vivendo tantas dores profundas. Obrigada por dividir suas sensações. Nos ajudam a ver que não estamos sós.

    Curtido por 1 pessoa

  9. A aquarela e o texto transbordam de sentimento!
    Que post mais lindo e emocionante, delicado e tocante! Quanto afeto e carinho!
    Parabéns Kauzinha!

    Curtido por 1 pessoa

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