Karina Kuschnir

desenhos, textos, coisas


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Limonadas

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Pessoas queridas, obrigada pelas mensagens depois do post tristinho da semana passada. Precisamos resistir, vocês têm toda razão. ♥ Como me disse uma amiga na semana passada, depois de recebermos uma má notícia no trabalho: bora pensar como transformar esse limão em limonada. 

Resolvi tentar um formato-conversa, para não me exigir tanto em termos de tempo e produção. (Vou fingir que criei uma newsletter, porque tá na moda, mas na verdade é só um post no blog mesmo, que vocês podem receber automaticamente se colocarem o e-mail na caixinha de inscrição.)

A falta de imagens boas e originais é uma das principais dificuldades que venho enfrentando para produzir conteúdo semanal. Continuo desenhando nos meus caderninhos de bolsa, mas nunca acho que os rabiscos estão bons o suficiente para o blog. (Vejam que absurdo, logo eu que dou aula sobre não existir desenho ruim!). Além disso, nos dias de ateliê (já contei que voltei para as aulas da Chiara?), tenho pintado pra relaxar, reproduzindo imagens de outros artistas para aprender suas técnicas. Por isso não dá para publicar aqui.

Portanto, meu desafio é voltar a criar imagens para o blog regularmente. Saudades de começar meu dia desenhando e pintando! Desde setembro de 2018 perdi o ritmo. Além dos motivos que vocês já sabem, em 2019 assumi um cargo administrativo bem puxado, que toma mais da metade da minha semana, sem contar aulas e todo o resto na universidade. Não reclamo. Gosto de trabalhar e me sinto honradíssima de ter um emprego, ainda mais esse cuja atividade fim é estudar e formar.

Não sei se vocês sabem, mas lá na pre-história da minha vida, cursei dois semestres de Design. Depois fiz outro vestibular e mudei para Comunicação. Na hora da matrícula, não me perguntem por quê, optei por Publicidade. Um dia, o professor pediu um trabalho sobre profissionais de agências. Quase no finalzinho de uma entrevista, um veterano publicitário me falou uma coisa que nunca esqueci:

— Minha filha, você parece tão inteligente… Você quer passar o resto da sua vida vendendo água com corante e açúcar? [E apontou uma Coca-Cola.] Não siga essa profissão!

Não sei se foi nesse dia, ou se caiu a ficha porque eu gostava das disciplinas teóricas. No semestre seguinte, mudei para Jornalismo. Amei o curso, que tinha um currículo considerado antiquado porque  a maioria das disciplinas era oferecida por antropólogos, sociólogos, historiadores e filósofos. Imaginem, foi a minha sorte.

Por tudo isso, e por minha breve experiência no mercado, agradeço todos os dias por ter um trabalho que, embora árduo, não me obriga a vender algo.

Nossa, essa carta deu voltas, desculpem se ficou sem rumo! E eu que achava que ia escrever sobre o limão e a limonada… Fica para outro dia!

Queria indicar para vocês novamente os conteúdos da Nátaly Neri, do canal Afros e Afins. Ela fez um vídeo que me tocou muito sobre “aprendizados não lineares”; sobre como, às vezes, temos muito a aprender olhando com generosidade para nossos eus passados. Me ajudou demais nessa fase de achar novos caminhos para a minha própria produção de conteúdo. Aqui vai o link.

Eu teria um monte de outras indicações, pois tenho lido bastante (viva) e consumido coisas legais na internet. Mas fica para a próxima. Sou lenta, gente. Não dá para ficar seis horas escrevendo e editando um post. Esse já está em 2h47min, sem contar o tempo de rever e produzir a imagem. Por isso, resolvi que *talvez* faça posts menores e mais frequentes (suspiros-alert: promessas virtuais são tão perigosas! E isso me lembra outros dois vídeos ótimos e engraçados da N. Neri, justamente sobre cumprir desafios na internet: tem esse sobre procrastinação e esse sobre ficar 7 dias offline.) 

Então, combinado: nada de sofrermos sozinhos. Sigamos dando abraços apertados, desses que dão força para continuar, seja qual for a tempestade.  E, para quem quiser e puder, doações da vida real: o Rene Silva está reunindo recursos para compra de cobertores; e a Winnie Bueno faz um “Tinder de livros”, uma campanha para encontrar doadores de livros para pessoas que precisam. ♥

Sobre o desenho: Esse limão foi pintado por observação num workshop de tinta guache que fiz no Ateliê Chiaroscuro em janeiro/2019. Adorei a experiência. O papel foi parte do material oferecido pela Chiara, mas tenho quase certeza de que é um bloco Hahnemühle tonalizado, tipo kraft.

 


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Julho/2019 – Em pausa

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Aí vai o calendário de Julho de 2019 e a versão em .PDF para imprimir.

A publicação chega com vários dias de atraso e ainda por cima com desenho antigo… Não sei direito o que está acontecendo comigo em relação ao blog. Seria fácil colocar a culpa no excesso de trabalho, mas desde a década de 1990 o que mais faço é trabalhar, com apenas duas pausas para cuidar dos filhos. Não é isso. De alguma forma, esse ambiente político tóxico em que estamos vivendo bloqueou minha criatividade de um jeito que está difícil de destravar.

Peço paciência a vocês e a mim mesma. Seguirei pensando em caminhos para voltar a produzir conteúdo inédito aqui. Por hoje, deixo duas lindas reflexões que me chegaram.

• O artigo da Ana Paula Lisboa inspirado na música Cajuína, essa maravilha de Caetano Veloso, cuja letra tem suas histórias contadas aqui (rolem a tela pois as melhores explicações estão mais pro final). A canção segue abaixo, mas não deixem de ouvir no Youtube ou no Spotify:

CAJUÍNA – Caetano Veloso

Existirmos: a que será que se destina?
Pois quando tu me deste a rosa pequenina
Vi que és um homem lindo e que se acaso a sina
Do menino infeliz não se nos ilumina
Tampouco turva-se a lágrima nordestina
Apenas a matéria vida era tão fina
E éramos olharmo-nos intacta retina
A cajuína cristalina em Teresina

• A outra lindeza foi um post da Ellen Rosa, doutoranda em Filosofia do PPGF/IFCS, sobre como enfrentar os desafios de final de período, seja qual for a sua etapa de escolaridade:

AOS DESESPERADOS DO FINAL DO PERÍODO – Ellen Rosa – 3/7/2019
Quando eu precisei de orientação pra fazer a monografia do final da graduação, não tinha ninguém que eu visse que podia me ajudar. Eu não desenvolvia pesquisa com ninguém. Já tinha arrumado treta com vários profes. O ilustríssimo Renato Noguera veio de outro campus e me salvou, me incentivou. Eu entrei no mestrado. Terminei com dificuldades, mas auxiliei quem eu podia no caminho. Porque eu precisei de auxílio, achei justo tomar essa postura. Entrei no doutorado e a sorte meio que mudou. Eu tropeço em professor pedindo artigo pra publicar, colunista do Le Monde perguntando quem me orienta e pedindo pra ser coorientador, professor trocando ideia comigo antes de entrar pra me dar aula pra saber o que achei do texto. Teve uma vez que eu não consegui ler o texto à tempo, a professora me pegou pelo braço e disse “deixe de besteira” e me sentou do lado dela pra darmos a aula juntas. De pouco as pessoas começam a considerar nossas pontuações, levar elas à sério. Te chamar pros espaços de discussão. Chega uma hora que tu nem dá conta de tudo. Existe um lugar confortável, ele chega. Persevere!
Mas não é fácil. Na minha última aula do doutorado eu tive uma crise de ansiedade lendo um texto MEU. Era uma teoria minha e eu não consegui explicar. Comecei a falar tremendo, saí chorando e correndo antes de conseguir terminar. Era minha última aula do doutorado, o professor foi correndo atrás de mim porque não entendeu como alguém que ia tão bem estava insegura. A teoria é boa, a tese vai ficar show. Falta só qualificar e defender. Eu já a discuti com meus pares. Mas eu tô insegura.
É isso! A insegurança nunca vai passar. Até a zona de conforto tem insegurança. E eu achei que se você que tá embolado aí com artigo de final de período como eu estive muitas vezes, lesse alguém que passou por isso, ia ficar mais tranquilo. Na minha vez, eu não li ninguém que tivesse passando por isso e passei fodida. NÃO SE FODA! Nunca vai estar perfeito, você não vai tirar 10 sempre. Mas cê vai conseguir. Eu cheguei até aqui suando frio, tremendo, chorando e correndo pelos corredores com a bolsa nas mãos. Você não precisa passar pelo mesmo. Senta pra ler, separa os trechos que você gosta. Conta uma historia que entrelace os trechos, escreva uma conclusão. Releia tudo, faça dois parágrafos e cole antes do texto para a introdução. Transforme os dois parágrafos em um, traduza noutro idioma e está pronto o resumo. Você tem um artigo pronto. Sem suar, sem tremer.
Em 10 anos nessa, foi isso que aprendi. Espero que sirva pra você também. Jogue duro!

Ana e Ellen, meu muito obrigada por hoje! ♥

Sobre o desenho: Aproveitei as imagens que venho produzindo para a página Materiais aqui do blog e editei no Photoshop!


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Junho/2019 – Primárias

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Aí vai o calendário de Junho de 2019 e a versão em .PDF para imprimir.

A inspiração foram os desenhos de dois pratos de artesanato peruano que vi na casa de amigos. Ao estudar as imagens para fazer os desenhos, reparei que, apesar de alegres e aparentemente multi-coloridos, tinham apenas variações de saturação nas três cores primárias: azul, amarelo e vermelho.

Achei um bom tema para o mês de junho. Diante do caos que estamos vivendo, tenho tentado controlar meus momentos de ansiedade voltando ao básico: manter a saúde, o afeto em família, a dedicação aos alunos, à UFRJ e à luta por um país mais justo.

Outra coisa que só reparei na hora de desenhar: em várias padronagens surgem bandeirinhas que me lembraram das festas juninas. Que nos dêem sorte nesse próximo mês. Bom junho!

Sobre o desenho: Calendário (feito por um software antigo chamado Above&Beyond) impresso em papel A4 90gr, depois desenhado com canetinha de nanquim permanente descartável Pigma Micron 0,1 e colorido com lápis-de-cor Polychromos da Faber-Castell. No final, escaneei e editei no Photoshop para ficar parecido com o original.

 


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Maio/2019 – Nuvens

mai2019_pEssa semana minha grande inspiração foi o maravilhoso filme Pimenta nos Olhos da Andréa Barbosa e da Fernanda Matos sobre a região dos Pimentas, em Guarulhos-SP. É sobre jovens, redes, cidade, arte e conexões entre pessoas que acreditam no conhecimento. Fruto de um trabalho fantástico de ensino, pesquisa e extensão, coordenado pela Andréa e seu Visurb (Grupo de Pesquisas Visuais e Urbanas/UNIFESP) em parceria com o Lisa (Laboratório de Imagem e Som em Antropologia/USP). Que orgulho da vida universitária e das Ciências Sociais!

Como diz o Fabinho, um dos personagens do filme:

“quando eu terminar minha faculdade (…) eu vou sair pelo Brasil todo (…) passando tudo que eu sei para todo mundo, sem distinguir cor, raça, etnia. Eu tenho essa visão. Antes, o meu objetivo era conquistar algo — ter uma casa, um carro bom. Hoje, não mais. Hoje, meu objetivo, que vi [aprendi] através de professores e artistas, é passar conhecimento. Eu acho que esse é um bem que ninguém pode tirar de você.”

Quando eu tinha 19 anos, tive uma fase de sonhar que voava! Eram sonhos mágicos, de liberdade, de fazer planos e de ter esperança. Tenho saudades.

Mas o filme sobre o Pimentas me renovou esse espaço de imaginação, sensibilidade e criatividade. Espero que seja uma inspiração para vocês também.

Força a todos que estão precisando. Que possamos ter mais descanso, água, sonho, saúde, comida, amigos, bichos, plantas, livros, escritas, desenhos, música, arte, amor.

E que no meio de tudo isso não esqueçamos nem por um momento do que hoje nos parece mais distante e difícil de alcançar: Justiça.

Maio/2019 para imprimir aqui: arquivo em .pdf!

Sobre o desenho: Calendário padrão do mês impresso e depois colorido com vários tons de azul do lápis de cor Polychromos da Faber-Castell.


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Abril/2019 colorido, apesar de

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“Enfim, conservemos a coragem e não desesperemos.” (Van Gogh)

Aqui vai o calendário de abril em .PDF para imprimir!

Diante do luto pelo dia de hoje, minha vontade de colorir e enfeitar um calendário estava em -10 graus negativos. Apesar de toda a dor por nossa situação política, resolvi deixar as notícias de lado e me dedicar ao próximo mês. É uma forma de honrar o compromisso comigo mesma e com vocês que me incentivam tanto.

Foram quase 4 horas para fazer esse padrão bem simples. É preciso parar, sentar, pensar, desenhar, colorir, afastar os pensamentos de que não-está-bom o suficiente, escanear mesmo assim, preparar os arquivos no Photoshop, publicar.

Como escrevi há muito tempo no blog: “primeiro a gente faz, depois desiste”. (Lembrei dessa frase hoje porque estava nos agradecimentos a mim numa tese de doutorado de uma amiga querida. Parabéns, linda! ♥)

A todos que vieram aqui ler os posts sobre teses e TCCs (foram muitos, obrigada!), meu recado é inspirado na frase de Van Gogh: a despeito de todas as adversidades, lutem pela conclusão do curso de vocês. Façam, escrevam, peçam ajuda, terminem. Feito é melhor que perfeito, não canso de repetir (para vocês e para mim mesma).

Esse foi o meu possível hoje. Abraço apertado em todos que protestaram, que reconhecem o imenso luto por 21 anos de atrocidades da ditadura, que acreditam que precisamos protestar e agir contra a barbaridade dessa comemoração infame.

Sobre a citação A frase de Van Gogh está na página 249 de “Cartas a Théo” (Vincent Van Gogh, L&PM Pocket), uma edição lida e relida que amo muito.

Sobre o desenho: Essas bolinhas com três “perninhas” foram inspiradas na visão de cima de um grupo de canetinhas Sakura brush que amarrei com elástico para guardar numa gaveta. Tentei reproduzir o colorido gostoso de vê-las em conjunto. As linhas foram feitas com uma canetinha de nanquim permanente Uni Pin fine line 0.2, e as cores com diferentes marcas de lápis-de-cor.

Acho que não consegui acertar bem os tons, seja por culpa das minhas escolhas, seja porque o processo de digitalização muda as tonalidades. Mesmo assim, espero que seja algo a colorir a parede de vocês, o escritório ou a cozinha. Alento: teremos um (ou dois, dependendo da cidade) feriados nesse próximo mês!

Até semana que vem!

 

 


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Aceitação pelo método Cupim-Kondo

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“Quem diria que as máculas vivem e ajudam a viver.” (Frida Kahlo)

Estou passando por uma fase de auto-aceitação. Não, não fiz dieta, nem ginástica, nem ganhei prêmios.

O processo veio do luto, da passagem do tempo, dos feminismos renovados, da leitura e escuta de mulheres e pessoas negras, das dores e alegrias de assistir ao crescimento dos meus filhos e de uma simples descupinização.

Apesar de já me considerar minimalista, em janeiro e fevereiro encaramos uma descupinização (há muito adiada) de todos os velhos armários do apartamento. Foi uma verdadeira revolução Cupim-Kondo! (Na verdade, o problema era “broca”.) Tivemos que tirar tudo dos quartos, um a cada duas semanas, para não gerar risco aos gatinhos. Deu um imenso trabalho, mas foi.

Apesar de pouca, havia acumulação sim. Na parte de cima do meu armário, e mesmo nos cabides, tinha calças, saias e blusas que “um dia me couberam tão bem”, sapatos comprados para o casamento de uma prima, tecidos que “qualquer hora vou costurar”, mochilas tipo “quem sabe eu uso”, sandálias que “o sapateiro consertará”, roupinhas das crianças “que um dia eles vão gostar de rever”…

Separei apenas uma caixa pequena de lembranças para cada pessoa da casa. (Na minha, guardei as peças com as estampas mais bonitas que “um dia pretendo desenhar” rs.) No mais, doeei tudo. Contando por alto, devem ter sobrado umas 20 blusas, 6 calças, 2 vestidos, duas sandálias, 1 tênis, 3 shorts, 2 saias, alguns casacos, uns sapatos de sair. Só. Que leveza abrir o armário de manhã!

Estou num processo de aceitar que não vou voltar a ter 32 anos, que tenho sono de tarde, que durmo pior, que meus cabelos estão quase brancos, que preciso de mais tempo para ir a médicos. Em compensação, sinto-me mais confiante pra estar em sala de aula, para cuidar, conversar, acolher e saber que tudo isso me faz bem.

Há tempos sei que a vida é feita de oportunidades e escolhas. Mas confesso que, ainda assim, tem um lado meu que continua querendo agradar, me “enquadrar”, dar conta, criar regras, mesmo para as coisas boas, como ser mãe, cuidadora da casa, funcionária pública, quase-artista-escritora.  

Não é possível. É um desperdício de energia lutar contra nossa própria humanidade. Preciso de tempo pra chorar, pra dormir, ir ao banheiro, namorar, pegar o ônibus e o metrô, viver sem me atropelar (tanto).

Que possamos, como ouvi no evento de ontem, “não desistir de resistir”; não desistir de lutar, aprender, mudar, rever e até, quando for o caso, de aceitar.

Sobre a citação: A frase da Frida Kahlo que abre o post está no livro “Frida Kahlo: uma biografia”, escrito e ilustrado por María Hesse (ed. LP&M). Ganhei essa preciosidade (é lindo demais!) de surpresa, de um amigo a quem ofereci um livro que descobri ter duplicado (na grande missão Cupim-Kondo que se espraiou pelas estantes também).

Sobre o método Cupim-Kondo: o nome é uma brincadeira com a Marie Kondo, organizadora profissional que ficou mega famosa com a série da Netflix sobre seu método. Li os livrinhos dela emprestados e gostei principalmente do segundo. Não tive paciência de ver a série toda porque sinto náuseas com o consumismo excessivo das famílias de classe média norte-americanas (apesar de um ou outro episódio ser melhorzinho).  Com a necessidade da descupinização, percebi que eu estava em estado de negação, que precisava de ser mais humilde. Mesmo me achando “super organizada”, vi que guardava coisas que não tinham mais sentido, numa tentativa de voltar a ser alguém que não serei mais.

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Sobre o desenho (na verdade, pintura): Aquarela “para relaxar”, feita sem compromisso com o resultado, em dezembro/2018. Cores diversas pintadas sobre um círculo feito a lápis (depois apagado; no original aprox. 11 x 11 cm) no verso de um papel Canson XL Aquarelle. Escaneei, aumentei um pouco o contraste para ficar mais próximo do orginal e montei em várias repetições no Photoshop.

Podem deixar que não esqueci do calendário: prometo postar até domingo!


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Razões para sorrir

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Essa semana voltei à rotina de desenhar no metrô, prática que iniciei em 2008 e que foi minha maior escola de desenho de observação. Na época, eu fazia um curso de “modelo vivo” — que é como se chamam as aulas em que uma pessoa posa nua para os estudantes desenharem. Apesar de amar esses exercícios, sentia que alguns modelos estavam ali meio mortos, engessados nas poses. Como amo gente (e influenciada pelo treinamento como antropóloga, não posso negar), passei a observar os passageiros do metrô como modelos vivos de verdade: cansados, animados, distraídos, entretidos, apaixonados, preocupados… Eles são uma aula grátis de desenho de observação, todos os dias, bem na nossa frente!

Um dos motivos para retomar o caderno foi o início de mais um curso de Antropologia e Desenho no IFCS/UFRJ. Na página à esquerda, fiz o exercício de “procurar desenhos onde aparentemente não os vemos”: estampas, tatuagens, logomarcas de produtos, texturas… Há um mundo de coisas simples e desenháveis à nossa volta. O interessante é viver o processo de descobertas que a observação gera. Por exemplo: ao desenhar uma flor branca bordada num vestido preto, percebi a originalidade da roupa (cortada com detalhes diferentes do que costumo observar). Desenhei o modelinho e, ao fazer isso, só então reparei numa tatuagem no ombro da moça. Achei que era um padrão floral, mas não: tratava-se de um pequenino manequim de modelagem rodeado por ramos e folhas. Seria uma profissional da moda? Que surpresa boa ser levada, de desenho em desenho, ao amor daquela pessoa por seu ofício. ♥

No meu trajeto até a Uruguaiana desde 2008, algumas coisas são rotineiras: homens do dia vestem roupas lisas, ou no máximo listras e xadrez, constrastando com as mulheres cheias de estampas. Sapatilhas com lacinhos e bolsas de marca descem na estação Carioca 99% das vezes. À noite isso se modifica: há menos ternos e mais camisetas de bandas e tatuagens. Meus modelos favoritos: famílias, pessoas lendo, mães com bebês.

Dois dias depois, peguei novamente o caderno, mesmo apertada nos bancos indecentes do metrô chinês. Foquei em dois homens dormindo (sempre bons modelos), começando o exercício pelos pés de ambos, de modo a experimentar aquilo que falei para a turma: escolham uma “forma” e não um “significado” para iniciar a traçar. Isso ajuda a desconstruir a ideia (assustadora) de desenhar pessoas. Precisamos esquecer quem são e perceber apenas linhas, espaços, sombras, curvas, vazios e cheios… Nossa inspiração da semana foi a simplificação de Steimberg. Comecei pelo senhor à direita, que parece ter sentido meu olhar, o que me fez parar. Retomei com o da esquerda, desligadão de tudo, ao ponto de eu ter conseguido detalhar sua bolsa estilosa que contrastava com a roupa sóbria.

Mas o melhor veio ao final: a moça ao meu lado abriu um sorriso lindo e falou antes de se levantar: “nossa, como você desenha bem, parabéns!” E ainda me deu um tchau sorridente da porta. Uma mulher trabalhadora, cheia de pacotes, que parou um segundinho do seu dia para me incentivar com gentilezas! ♥

A delicadeza do gesto me lembrou as dezenas de mensagens no Twitter de @Nicole_Cliffe. Ela pediu que as pessoas contassem a coisa mais gentil que um estranho já falou ou fez para elas. São tantas histórias bonitas… Resumo algumas para vocês aqui:

• O vendedor de uma livraria LGBT que recebeu um telefonema de um rapaz gay pensando em se matar: ele não só atendeu e começou a conversar, como uma cliente da loja e depois outras e outros fizeram uma fila e se revezaram no atendimento da ligação.

• A aeromoça que deu uma calça de yoga da sua própria mala para uma mãe se trocar (pois estava toda molhada pelo vômito de seu bebê).

• Uma família que parou para ajudar uma pessoa presa com seu carro na neve e ainda ofereceu sopa quente.

• Uma moça que ouviu um comentário ofensivo sobre sua aparência de sua própria mãe, em seguida foi abordada por um estranho que lhe disse: “eu só queria que você soubesse: acho você linda”.

• A mulher que sofreu um aborto espontâneo em um emprego novo e teve todo apoio (e discrição) de seu chefe.

• Uma jovem com problemas de depressão que olhava fixamente para um poster com informações de um serviço de ajuda, quando foi abordada por um homem que lhe perguntou com a voz mais gentil do mundo: “você está bem? precisa de algo? quer conversar?”

• O caminhoneiro que buzinou para um carro sair da frente, sem ver que ele estava parado para deixar uma senhora atravessar. Depois foi pessoalmente pedir desculpas pelo incômodo da buzina.

• Uma pessoa sofrendo um ataque de pânico silencioso no saguão de um aeroporto foi acudida por um cachorro de serviço (de outro passageiro) que detectou seu problema e ficou com a cabeça no seu colo por 20 minutos.

• E uma história dessa semana (que não está na thread) que tocou todas as pessoas que têm um mínimo de senso de humanidade: acompanhar as ações da primeira ministra da Nova Zelândia, Jacinda Ardern, ao acolher, chorar e se eguer para agir proibindo acesso a armas de assalto em seu país.

• Queria também dizer que eu mesma, quase todos os dias, sou tocada pelo carinho enorme dos comentários, mensagens e e-mails de vocês. Recebam meu abraço apertado por cada palavra delicada e generosa. ♥ ♥ ♥ Estou mil vezes melhor das sensações de ansiedade pois, como costuma acontecer comigo, escrever e desenhar sobre um problema é o meu melhor caminho.

As desigualdades que geram as faltas de oportunidades são profundas. Vamos combatê-las!

• Há muitas opções para sermos nós as desconhecidas que ajudam o próximo: saiba como auxiliar as vítimas do ciclone em Moçambique, Zimbabue e Malaui. Ajudei pela ActionAid, que fez um projeto bem específico.

Aqui uma campanha  bonita para financiar o livro do jornalista (e historiador) Alê Santos, Rastros de Resistência – Histórias de luta e liberdade do povo negro.

• E esta semana, na quinta, teremos um evento maravilhoso no IFCS/UFRJ. Segue abaixo o convite para todos que estiverem no Rio. Será uma mesa de mulheres incríveis, tratando de um tema urgente:

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CONVITE PARA AULA INAUGURAL IFCS 2019-1

PREVENÇÃO E COMBATE AOS ASSÉDIOS DE GÊNERO, RAÇA E CLASSE NO IFCS / UFRJ  • Data: 28/03/2019 • Horário: 17:00h •  Local: Salão Nobre

Composição da Mesa:
Direção do IFCS – Susana de Castro (IFCS/UFRJ)
Comissão “Diretrizes para prevenir e combater o assédio moral e sexual no IFCS/UFRJ” – Aparecida Moraes (IFCS/UFRJ)
Centro de Referência das Mulheres da UFRJ – Emmanuela Neves (CRMM e CRM/UFRJ)
Comissão de Direitos Humanos e combate ás Violências da UFRJ – Luciene Lacerda, (CDHCV/UFRJ; NUBEA)
Câmara de Políticas Raciais da UFRJ – Cecília Izidoro (EEAN/UFRJ; DEN/HUCFF; CPR/UFRJ
Coordenação de Políticas de Saúde do Trabalhador da UFRJ – Vânia Glória Alves (CPST/UFRJ)

Resumo da Mesa:  Apresentação dos princípios de prevenção e combate aos diferentes tipos de assédio no IFCS/UFRJ. Reafirmação dos compromissos institucionais das Ciências Sociais, da Filosofia e da UFRJ, de modo mais amplo, na promoção do respeito, igualdade e cidadania em todas as esferas da comunidade universitária. Manifestação da Direção do IFCS e colaboradores pelo repúdio e pelo enfrentamento institucional a quaisquer formas de desrespeito, discriminação, constrangimento, intimidação, entre outras ofensas. Apresentação dos documentos e canais da UFRJ e do IFCS que buscam a garantia desses princípios.

Sobre as Participantes:
Susana de Castro — Diretora do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais (IFCS/UFRJ), Professora do Departamento de Filosofia e do Programa de Pós-Graduação em Filosofia (PPGF), Coordenadora do ANTÍGONA – Laboratório de Filosofia e Gênero (IFCS/UFRJ).

Aparecida Moraes — Professora associada do Departamento de Sociologia e do Programa de Pós-graduação em Sociologia e Antropologia da UFRJ/IFCS. Co-coordenadora do Núcleo de Estudos de Sexualidade e Gênero (NESEG/PPGSA/IFCS)

Luciene Lacerda — Psicóloga (UFRJ), Coordenadora do Laboratório de Ética nas Relações de Trabalho e Ensino (NUBEA) e Coordenadora da Comissão de Direitos Humanos e combate ás Violências da UFRJ. Doutoranda em Educação na UFRJ.

Emmanuela Neves — Psicóloga, Técnica em assuntos educacionais no Centro de Referência de Mulheres da Maré (CRMM). Serei a representante do CRMM e do CRM na apresentação dos serviços de atendimento às mulheres em situação de violência da UFRJ. Mestre em Psicologia na UFRJ e doutoranda no Dpto de Medicina Preventiva na USP.

Cecília Izidoro — Professora associada do Departamento de Enfermagem médico cirúrgico da EEAN/UFRJ, Diretora acadêmica adjunta da DEN/HUCFF, representante da Câmara de Políticas Raciais da UFRJ.

Vânia Glória Alves — Enfermeira do trabalho, Metre em Artes e Ciências Sociais na Unigranrio, Chefe da Seção de Atenção Psicossocial da Coordenação de Políticas de Saúde do Trabalhador da UFRJ.

Sobre o desenho: Caderninho Muji tamanho A5 (aproximadamente) que ganhei de uma ex-aluna querida. Desenhos feitos com canetas esferográficas hexagonais também da Muji, 0,25, que ganhei de presente. Escaneei e editei no Photoshop para dar mais limpeza e fiz um pequeno destaque, aumentando o desenho da tatuagem no canto inferior esquerdo. No mais, já expliquei tudo no próprio post!