Karina Kuschnir

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Escrita Diária – Dez dicas para curtir e manter o hábito de escrever

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“Se lhe ocorrer um argumento brilhante, uma réplica vitoriosa que mude o rumo da conversa, não ceda à tentação de brilhar, mantenha o silêncio; as pessoas finas verão sua inteligência nos seus próprios olhos. Você terá tempo de se mostrar inteligente quando for bispo.” (A cartuxa de Parma, Stendhal)

Lendo Cervantes, Rabelais, Stendhal, Eça de Queirós, sinto-me no mais feliz dos mundos, feito de pessoas que não se levam tão a sério mas, ao mesmo tempo, trabalham a sério. E não são só os clássicos que fazem isso, claro. Minha lista de imperfeitos-perfeitos vai de Carlito Azevedo, Anne Lamott, Juva Batella, Ana Paula Lisboa, Marjane Satrapi — tem um monte de escritores maravilhosos que sabem rir de si e de nós, escrevendo com falhas, ironias e pérolas, tudo numa página só.

Essa é a minha base para escrever todos os dias:

1) Escrevo sem querer brilhar ou parecer inteligente — Pode parecer bobagem, mas não é. Muitos alunos (e eu mesma) empacam na hora de escrever porque querem produzir textos fantásticos. Não é um bom caminho. Aliás, agora mesmo não estou sendo nada brilhante, pois já dei essa dica aqui no blog! Prefiro escrever muito, qualquer bobagem, e depois, com o tempo e alguma sorte, peneirar boas ideias.

2) Escrevo 300 palavras no mínimo todos os dias — Assim que ligo o computador de manhã, a primeira coisa que faço é abrir um arquivo de escrita diária no meu editor de texto. Coloco data, dia da semana, hora e escrevo até contar 300 palavras, o que dura em torno de 11 a 15 minutos (sim, eu medi!). Em alguns dias, fico mais tempo, empolgada com alguma ideia que tenha surgido ou escrevendo algo que possa virar um post, ou até registrando uma atividade da aula do dia anterior, por exemplo. Muitas vezes, porém, fico só nas 300 e poucas palavras mesmo, mal-humorada e irritada com os rituais que invento para mim mesma. Pelo menos já começo sabendo que consigo terminar em 11 minutos. Já é uma vitória escrever algo em dias assim. O saldo é o que vale, tanto pelo aspecto mecânico, de acostumar o corpo e a mente a sentar e escrever todos os dias, quando pelo conteúdo produzido: no meio de um monte de bobagens e reclamações, acabo escrevendo ou anotando coisas que me ajudam a pensar, viver e trabalhar.

3) Escrevo para me manter saudável — Quando estou numa boa fase, só sento para escrever depois de fazer alguma atividade física. Evito abrir o navegador e até ver e-mails antes da escrita e de fazer aquilo que considero o mais importante para o meu dia (ver item 6 abaixo). Mas eu estaria mentindo se dissesse que consigo fazer isso sempre. Há épocas melhores, outras piores. Nesse ano (2017), consegui ficar bem de março a início de junho. De lá para cá, andei doente algumas vezes, perdi o ritmo, voltei, mas acabei decretando férias de mim mesma por duas semanas, no final de julho, e me permiti ficar bastante com as crianças e ler dois livros inteiros.

4) Escrevo sobre o que quero escrever ou realizar — Escrever logo de manhã é ótimo para organizar o pensamento sobre o que considero mais relevante para o dia que está começando. Uma dica que já li em vários lugares na internet é tentar responder à pergunta: quando o dia terminar, o que eu gostaria de ter escrito/realizado? O hábito vai mostrar que nossa ambição inicial é fantasiosa, tipo querer correr 5 km, escrever 10 páginas, arrumar a casa, dar atenção às crianças e dormir cedo, tudo num dia só. É frustrante ter tantas expectativas. Esses excessos acabam me dando uma sensação de fracasso, que afogo navegando nas redes sociais. Hoje em dia me contento em planejar duas ou três coisas, bem modestas, como: ir à academia (só de pisar lá já está bom!); dar ou preparar uma aula (o que sempre leva o triplo de tempo imaginado) e desenhar algo (como tocar um instrumento, desenhar é prática, mesmo que por 5 minutos!).

5) Escrevo o que estiver na pauta do dia, da semana ou do mês — Após o momento diário-de-300-palavras, tenho que voltar à realidade: preciso olhar a agenda e a lista de tarefas. Se houver algo importante, tento me forçar a começar logo, sem responder a e-mails nem ver redes sociais antes das 16:00 horas (ver item abaixo). Com a prática cotidiana de escrever 300 palavras, começar um outro trabalho de escrita deixa de ser tão assustador. Se for algo que já iniciei, releio o que produzi no dia anterior e sigo em frente, parando aqui e ali para consultar algumas fontes, mas tomando cuidado para não me perder nessa tarefa. Se for para escrever algo novo, meu principal truque mental é imaginar que estou escrevendo uma carta para uma amiga querida, explicando o assunto de que quero tratar. (Como já fiz vários posts sobre isso, não vou me deter nessa parte criativa; os links seguirão no final.)

6) Escrevo com as redes sociais desligadas — Nem preciso dizer que isso é mais um desejo do que uma prática… mas continuo buscando estar no fluxo criativo offline. Coisas que tenho feito nessa direção: desligar notificações no celular para aplicativos de redes sociais ou e-mail. Andei radicalizando (em março) e tirei até os avisos sonoros de todas as mensagens do Whatsapp, mas não deu para manter. Consegui, desde então, ficar sem Facebook no celular e, mais recentemente, sem Youtube. De vez em quando, não resisto e vejo ambos no navegador, mas o Messenger não funciona, ainda bem. Uma dica de auto-sabotagem é limpar o cache do Chrome, de modo que, para navegar nesses sites, dá muito trabalho lembrar da senha, o que me lembra de não navegar. Mantenho o Twitter porque não acho muita graça. Também estou com o Instagram instalado, onde sigo alguns artistas. Quando percebo que estou vendo muito as Stories, desinstalo por uma semana. Também só sigo artistas e ilustradores, tentando não repetir as mesmas pessoas que já acompanho pelo Fb.  (Ufa. Fiquei cansada de descrever essa lista toda… E pensar que, até outro dia, esses portais infinitos não existiam! E a gente vivia, viu?)

7) Escrevo sobre o que escrevi — No final do dia, abro novamente o arquivo de escrita diária (deixo um link com o atalho no desktop) para escrever mais um pouquinho. Nessa etapa, utilizo uma listinha de perguntas, sem metas de quantidade de palavras. Respondo objetivamente, sem me alongar muito, questões sobre criatividade: O que escrevi, desenhei ou pintei hoje? Outras coisas que terminei ou avancei hoje? Alguma coisa legal que Ouvi/Li/Assisti?

8) Escrevo sobre o que aprendi — Em seguida ao que descrevi acima, escrevo um pouquinho sobre como estou me sentindo, sobre minhas relações afetivas, as dificuldades e alegrias do dia: O que aprendi hoje? Como ajudei alguém? Qual foi o pior do dia / ou O que foi difícil? Qual foi o melhor do dia / ou Pelo que estou grata hoje?

9) Escrevo sobre o amanhã — Para terminar, tento responder à pergunta: Como posso fazer/ter um dia bom amanhã? Aqui vale qualquer coisa, até escrever que preciso descansar, ir ao médico, conversar com uma amiga, me concentrar mais (ou menos) etc. Esse amanhã também pode se transformar numa reflexão sobre o futuro de médio ou longo prazo.

10) Leio — Querer escrever sem ler é como querer comer sem comida! Ler é um dos maiores prazeres da minha vida — é o que me alimenta, me faz pensar, rir, agir. Nada do que faço, nem minha própria existência, seria possível sem a leitura. Leio muito mais livros e textos do que consigo contar, e cada um deles me norteia em tudo que escrevo.

Obrigada a todos que me leram até aqui. ♥ Se vocês forem obsessivos como eu quando gostam de um tema, aí vão alguns outros posts sobre o assunto escrita:

Dez truques da escrita num livro só
Mente selvagem: dicas de escrita de Natalie Goldberg
25 dicas para revisar textos acadêmicos (de trás pra frente)
Os bastidores do blog
Carta a um jovem doutorando
Como não escrever uma carta para a seleção de mestrado

Além desses, vocês podem ver todos das tag mundo acadêmico, escrita, ou livros. Esse sistema de tags não está super organizado mas é o que temos no momento. Ah, e tem posts de que gosto muito sobre o Carlito Azevedo e vários com a tag Juva Batella.

Por falar no Juva, ele fez a revisão da minha tese de doutorado e está aceitando trabalhos de revisão de texto! O Lattes dele aqui e o contato é juvabatella [@] gmail.com. Fico até sem palavras para elogiar… Ele é autor do único livro que ilustrei, é meu melhor amigo, meu amor, meu tudo. ♥

….

Sobre o desenho: Desenho do meu notebook feito com canetinha Pigma Micron (tamanhos 0,2, 0,1 e 0,05), depois colorido com aquarelas variadas, num papel solto (não lembro a marca). Foi complicadinho, mas me diverti criando uns cinco ou seis tons de cinza para as diferentes áreas do desenho. Não sei se dá para ver na versão eletrônica.

Sobre a citação: A epígrafe do post está na página 171 do livro A cartuxa de Parma, de Stendhal. (Tradução de Rosa Freire D’Aguiar, Editora Penguin/Companhia das Letras). Li este livro por recomendação do Carlito Azevedo, quando comentei que tinha adorado O vermelho e o negro, do mesmo autor. A cartuxa… é um romance fantástico que merece um post próprio, mas não resisti começar a citar logo.

Até semana que vem e boas escritas!

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Como citar: Kuschnir, Karina. 2017. “Escrita Diária – Dez dicas para curtir e manter o hábito de escrever”, Publicado em karinakuschnir.wordpress.com, url: http://wp.me/p42zgF-2yd. Acesso em [dd/mm/aaaa].

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Agosto/2017 – Aconchego

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Pessoas queridas, aí vai o calendário de agosto! Demorou a sair porque eu estava sem tema… até que minha querida mãe sugeriu “aconchego” e me vieram esses novelos de lã. Minhas melhores lembranças da vida são de aconchegos: de mãe, de vó, de tia-vó, de titia, essas quatro mulheres maravilhosas com quem tive a sorte de me aconchegar desde o dia 21 de agosto em que, relutante, nasci.

Para comemorar, além da imagem acima, queria deixar aqui os links para arquivos grandes, que permitem imprimir com mais qualidade. Podem clicar para obter a imagem em .jpg ou em .pdf.

Me digam se a impressão ficou melhor! Isso porque mês passado fui imprimir do blog para testar e achei que ficou ruim se comparado com o original. Já que é um presente meu para vocês, prefiro que seja bem-feito! (Só peço que não façam uso comercial da imagem, claro.)

Semana que vem, volto aos posts!

Que possamos ter um agosto aquecido com prazeres simples. Bora doar casacos, cobertores e meias para quem precisa. ♥

Sobre a imagem: As cores dos novelos foram feitas com canetas pincel Tombow e Koi brush Sakura, inspiradas na paleta da artista Kate Pugsley (tem no Instagram). As linhas fiz com canetinhas Pigma Micron tamanhos 0,2, 0,1 e 0,05 (quanto mais clara a cor, mais fina a caneta).

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Como citar: Kuschnir, Karina. 2017. “Agosto/2017 – Aconchego”, Publicado em karinakuschnir.wordpress.com, url: http://wp.me/p42zgF-2yl. Acesso em [dd/mm/aaaa].


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Saber esperar

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Semaninha difícil,  em que precisei de elevadas doses de paciência e compaixão. Sabem aqueles dias em que você se culpa por tudo, e faz até a burrice de atravessar a cidade sem levar o que precisava entregar do outro lado? Pois é. Tudo isso junto e o pior: duas pessoas amadas sofrendo, sem que eu pudesse fazer nada.

A cada final de dia, porém, conversando com as crianças, chegávamos à conclusão de que os piores momentos trouxeram também alguns dos melhores. (Para quem não conhece, todas as noites fazemos aqui em casa o jogo do melhor e do pior.) E sabemos que nossas dificuldades ficam pequenas frente a tantas outras.

Fiquei em muitas filas e acabei conhecendo mulheres incríveis: uma fisioterapeuta surda (primeira à esquerda, na imagem acima), uma senhora com artroses graves que conseguiu se desaposentar por invalidez (a primeira à direita, no desenho acima).

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Num outro dia, conheci essa senhora da imagem acima, com um cabelo todo cinza claro, de uma cor natural tão bonita, que não pude deixar de elogiar. Vaidosa, ela foi me contando sua história de mansinho… era sobrevivente de uma leucemia.

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Num outro dia, ajudei a senhora (acima), dessa vez, a encontrar o Centro Médico onde iria acompanhar a ultrassonografia da filha, a espera de seu primeiro neto, ou neta! Eu tinha acabado de ter uma notícia pessoal tão ruim… mas, ao conversar com a senhora Regina, me dei conta de que estávamos indo para o mesmo local onde há 17 anos fiz a primeira ultra da gravidez do Antônio, acompanhada pelo seu avô, ansioso por ouvir bater o coração do primeiro neto. Deixei-a tão agradecida na porta do prédio, por eu tê-la acompanhado. Mas senti meus olhos marejarem, certos de que foi ela quem me ajudou.

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Outra imagem da semana veio do livro que estou lendo e amando: Testemunha ocular, de Peter Burke. Não sei se já contei aqui, mas foi uma sorte ter comprado essa preciosidade antes que se esgotasse. Prometo que faço um post quando terminar. Essa moça estava na foto de um quadro analisado no livro. Achei-a com uma pose de “espera”, com as outras tantas mulheres que encontrei nesses dias de clínicas e filas.

Fiquem com meu desejo de boas férias, com muitos encontros e histórias bonitas para contar. Que possamos saber esperar, tendo esperança, como a Alice me ensinou outro dia. — Esperar não é ficar parada, mãe. É muitas coisas: ter esperança, contar com, não desistir.

Sobre os desenhos: Comecei um pequeno caderninho vermelho e resolvi que todos os desenhos nele seriam com uma canetinha vermelha 0.5 da Muji. As sombras em rosa foram feitas com uma caneta pincel Tombow e outra da Koi brush Sakura. As duas mulheres que me contaram um pouquinho de suas vidas foram desenhadas depois, de memória. Na imagem destacada do post (abaixo), alguns itens que adoro e que sempre ajudam a esperar! As cores são também uma homenagem a Fran Meneses, uma ilustradora chilena (vivendo na Inglaterra, atualmente) que admiro e acompanho no Youtube e no Instagram.

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Como citar: Kuschnir, Karina. 2017. “Saber esperar”, Publicado em karinakuschnir.wordpress.com, url: http://wp.me/p42zgF-2wt. Acesso em [dd/mm/aaaa].


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Minhas memórias do NuAP – Núcleo de Antropologia da Política

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Pessoas queridas, essa semana participei de um evento em comemoração aos 20 anos do NuAP – Núcleo de Antropologia da Política. Compartilho com vocês as memórias que escrevi para apresentar lá que são, sobretudo, uma homenagem ao professor Moacir Palmeira.

Espero que gostem! Com o desejo de um final de semana tranquilo para todos nós.

Minhas memórias do NuAP  – Karina Kuschnir

“Começo agradecendo ao convite dos professores Moacir Palmeira e Marcos Otávio Bezerra para participar desse evento, assim como a John Comerford e a todos do NuAP, de ontem e hoje.

Queria dizer logo o mais importante: participar do NuAP foi um sonho para mim, uma alegria enorme, um privilégio. E não digo isso porque estou fazendo um balanço 20 anos depois. Não. Desde o momento em que fui convidada a participar, pensei no quanto eu estava tendo uma oportunidade especial e rara, tipo, eu era feliz e sabia!

Explico melhor. Foi uma chance inacreditável nos meios acadêmicos. E por quê? Porque eu era uma aluna de pós-graduação e não estava vinculada como orientanda a nenhum dos professores do NuAP. Minha participação se deu em nome da produção de conhecimento, pela afinidade temática das pesquisas.

Em 1992, quando o professor Moacir Palmeira publicou “Voto: racionalidade ou significado?”, o que acredito ser o primeiro dos seus artigos no campo da antropologia da política, num dossiê da Revista Brasileira de Ciências Sociais, eu estava fazendo trabalho de campo entre os parlamentares na Câmara Municipal do Rio de Janeiro.

Tanto esse artigo de 1992, quando o texto “Política, facção e compromisso”, também de Moacir, de 1991, apresentado no “Encontro de Ciências Sociais do Nordeste” estão na bibliografia da minha dissertação, defendida em 1993, no PPGAS/Museu Nacional/UFRJ.

Fiquei fascinada e influenciada por esses trabalhos pois, até então, a única tese de antropologia sobre políticos que eu conhecia era a da Cecília Costa, feita basicamente por meio de entrevistas em 1980.

Não por acaso, quando decidi pelo tema da política, num mestrado de antropologia, fui fazer cursos optativos em outras pós-graduações: na Ciência Política, do Iuperj, com o prof. José Murilo de Carvalho, e no programa de pós em História da PUC-Rio, com a professora Margarida Neves. Essas duas interlocuções – com a bibliografia e os amigos cientistas políticos e historiadores – foram bem importantes para mim.

No mestrado e no doutorado, fui orientanda do professor Gilberto Velho, de quem também fui assistente de pesquisa por vários anos. O Gilberto sempre teve um trabalho muito intenso de reunir seus alunos, estimulando nossas trocas e colaborações, mas não havia no grupo ninguém trabalhando com política além de mim.

Portanto, desde 1993, comecei a participar e trocar com colegas que viriam a formar o NuAP alguns anos depois (1997). Essas eram as interações mais importantes e significativas para mim, ansiosa por me sentir “antropóloga de verdade”.

Isso foi tão forte, que a memória prega peças. Eu achava que minha primeira comunicação num congresso acadêmico tinha sido na Reunião da ABA de Niterói, em março de 1994, porque nessa ocasião eu e várias pessoas do grupo que formou o NuAP estávamos num GT assistido e comentado pela Mariza Peirano. Fiquei tão nervosa e, ao mesmo tempo, feliz, que esse evento ficou um marco. Revendo um currículo antigo, porém, de antes do Lattes, percebi que não, essa não foi a minha primeira comunicação científica. Eu já tinha apresentado trabalhos na Anpuh e no Iuperj!

Nesse mesmo ano, de 1994, entre agosto e setembro, ocorreu o primeiro evento de antropologia e eleições, que muitos aqui certamente participaram. Mais uma vez, tive o privilégio de falar, ainda iniciante, num ambiente de pesquisadores que eu admirava, com interesses tão próximos aos meus. Nessa mesma época, também tive a sorte de entrar para o doutorado no PPGAS, em agosto, na mesma turma que Marcos Otávio Bezerra, cujo trabalho tanto admiro.

Logo no semestre seguinte, em 1995, vivi um dos grandes momentos da minha vida acadêmica: fiz o meu primeiro curso com o professor Moacir Palmeira, intitulado: “Poder, dominação e política nos estudos de comunidade”. Posso dizer sem sombra de dúvida que foi uma experiência fantástica, que só aumentou a admiração pelo autor, professor, pesquisador. Realmente não tenho palavras suficientes para elogiar suas aulas e o tanto que aprendi nesse semestre, com ele e com os colegas, como o Marcos, Gabriela (Scotto), Renata (Menezes), entre outros. E pela primeira vez tive um professor que anotava o que eu falava!

Ali também se configurava para mim uma lição do melhor da antropologia: a leitura de autores de diferentes correntes teóricas (tanto da sociologia quanto da antropologia) e nacionalidades, pesquisando em várias partes do mundo, selecionados pelo professor em prol do livre debate de ideias, sem visões salvacionistas, sem ceder aos modismos.

Em 1996, vieram os primeiros eventos do futuro NuAP – que se forma oficialmente em 1997 – e a oportunidade de irmos a Fortaleza e trocarmos de modo mais próximo e intensivo.

Intensidade acho que é a palavra ótima para definir esses primeiros anos do NuAP. Nós trabalhávamos tanto que fui a Fortaleza e voltei duas vezes sem sequer pisar na areia da praia! E, pensando bem, assim eram as aulas do Moacir também: começavam um pouquinho atrasadas mas não tinham hora para terminar.

Eu vivia entre dois mundos, como vocês já podem estar imaginando. Precisava acordar às 6 da manhã, para estar às 7:30 no Museu no horário do Gilberto. Mas fazendo pausas para muitos pães de queijo, que o Gilberto não ficava sem comer de jeito nenhum.

Na parte da tarde, nas aulas do Moacir, ai de quem pensasse em comer ou parar de discutir teoria antes das 7 da noite! Haja amor pela antropologia!

Nos eventos de pesquisa, havia um contraste parecido. Gilberto era sincrético, eclético, social, extremamente produtivo e obsessivo, mas sempre querendo chegar na parte dos salgadinhos e do vinho!

Moacir me parecia o oposto: metódico, focado, intenso, seríssimo. Ao ponto que um dos eventos do NuAP foi marcado num convento em Santa Teresa – nada de distrações, nem álcool!

Pelo menos essa era a visão de uma jovem pesquisadora, não-orientanda dele, que o via como um dos grandes sábios, junto, é claro, com Mariza Peirano, Beatriz Heredia, a Irlys e o Cesar Barreira, o Odaci Coradini e todos os demais colegas com quem tive o privilégio de conviver, principalmente nos primeiros dez anos do Núcleo.

A Mariza, de quem depois daquela ABA conheci a delicadeza, foi autora muitos artigos e livros (como A favor da etnografia e Teoria vivida) que me marcaram, e organizadora de “O dito e o feito”, assim como orientadora de vários trabalhos importantíssimos do acervo do NuAP.

Em 2006, quando entrei para o IFCS, tive a sorte de passar a conviver e oferecer cursos em colaboração com a professora Beatriz Heredia, autora e co-autora com Moacir dos trabalhos seminais da área de Antropologia da Política que vieram a ser reunidos no volume Política Ambígua, certamente um marco na história da antropologia brasileira.

Aliás, tenho falado de aulas, eventos e convívio, mas talvez não tenha enfatizado o principal. Para mim, tudo começou com a leitura de dois artigos do Moacir… e foi se tornando uma grande bibliografia de textos, dissertações, teses, capítulos e livros que geraram um conhecimento enorme sobre a sociedade brasileira, em toda a sua complexidade.

Do candidato que abre a panela de feijão, passando pelo eleitor que faz suas apostas e se diverte no tempo da política, ao debate com a literatura nacional e internacional, sempre privilegiando o etnográfico e o comparativo como eixos centrais. Tudo isso está analisado, discutido e registrado nas páginas do selo NuAP, formando um capítulo importante da teoria antropológica brasileira.

É, sem dúvida, um grande legado, e agora acessível online. Nossas conversas continuaram acontecendo no papel, nas citações mútuas, nos enormes aprendizados que tivemos uns com os outros e que passamos para os nossos alunos e orientandos. Nesse último semestre, uma turma de alunos de graduação do IFCS ficou encantada ao descobrir e escrever trabalhos baseados nas publicações do NuAP. É tão bom ver tudo isso vivo e circulando entre as novas gerações.

Só tenho a agradecer por ter feito parte dessa história. Muito obrigada.”

Comunicação apresentada na mesa: Antigas colaborações, novos debates. Vinte anos do NuAP – Núcleo de Antropologia da Política. Rio de Janeiro, Museu Nacional, Auditório do Horto Botânico, em 7/07/2017.

Sobre os desenhos: Páginas do caderninho que levei para anotar durante o evento. Utilizei uma canetinha Bic comum, colorindo com algumas canetas pincel Tombow das cores azul escuro e cinza, além de uma Koi Sakura brush azul clara. O caderno é um Cícero pautado, A5, folha bem comum, 75gr., daí as canetas vazarem de uma página para a outra.

Você acabou de ler “Minhas memórias do NuAP“, escrito e ilustrado por Karina Kuschnir e publicado em karinakuschnir.wordpress.com. Se quiser receber automaticamente novos posts, vá para a página inicial do blog e insira seu e-mail na caixa lateral à direita. Se estiver no celular, a caixa de inscrição está no rodapé. Obrigada! 🙂

Como citar: Kuschnir, Karina. 2017. “Minhas memórias do NuAP”, Publicado em karinakuschnir.wordpress.com, url: http://wp.me/s42zgF-nuap. Acesso em [dd/mm/aaaa].


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Julho/2017 e as fascinantes histórias da etnobotânica

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“Plantas e civilização: as fascinantes histórias da etnobotânica” foi o melhor livro de não-ficção que li em 2017! O Luiz Mors Cabral é um narrador fantástico, sedutor, bem humorado, daqueles que incluem detalhes incríveis na medida perfeita. Seu objetivo é a prosa científica clara e precisa, sem ser simplista. São 18 capítulos que misturam sua vida pessoal e acadêmica com as aventuras das plantas mundo afora, numa viagem pelo tempo e por dezenas de países, populações e bibliotecas.

Para quem, como eu, ama aprender, o livro é um achado! Não é todo dia que podemos dizer: aprendi novas formas de olhar o mundo. Ir à feira nunca mais será a mesma coisa! As maçãs, hoje tão inocentes e docinhas, quem diria, têm todo um passado a esconder. Muito azedas e próprias para fabricar bebidas alcóolicas, desceram tão baixo na reputação das frutas, que tiveram que passar por um banho de marketing, para se livrar da fama de degeneradoras de lares nos Estados Unidos.

E desenhar um coração, nosso emoji-master ♥? O Luiz nos conta que tudo começou com o laserpício, uma erva medicinal utilizada no século V a.c., na região de Cyrene (atual Oriente Médio). Era tão famosa por suas propriedades contraceptivas, que cunharam-se moedas em sua homenagem utilizando uma marca gráfica que simbolizava a vagem dessa planta, num formato que, aos olhos de hoje, perceberíamos como um “coração”. Vegetal, sexo, amor, coração — taí a história da “maior contribuição de uma planta ao imaginário humano”!

Um aspecto adorável da narrativa é o entrelaçamento da vida do autor com as pessoas e situações que levam às suas buscas na etnobotânica. Seu avô, sua família, seus amigos, suas aventuras de infância e adolescência — tudo isso vai se transformando em história, daquelas que nos levam a virar as páginas, sem esforço. Assim, por exemplo, entramos no Museu Van Gogh, e descobrimos uma planta na mão do Dr. Garchet (várias vezes retratado pelo amigo pintor). Era um tipo de digitalis, na época muito utilizada para tratar distúrbios psiquiátricos, mas com efeito colateral de provocar alterações na percepção visual, da intensidade extrema à criação de halos, além de uma possível intoxicação que pode ter exacerbado a depressão de Van Gogh.

Nada disso é contado no tom de um funcionalismo rasteiro. Ao contrário, o autor é cuidadoso ao extremo, sempre citando suas fontes e ponderando sobre seus aspectos especulativos e delicados, face ao contexto de hoje. Felizmente, para mim, ele também é fascinado por histórias de tintas e cores, não só as de Van Gogh. Aprendi que o amarelo indiano, que tanto amo, já foi feito um dia com a urina de vacas condenadas a só comer folhas de mangas! Graças à reação dos artistas ao forte cheiro do pigmento, as bichinhas foram poupadas dessa dieta e as sociedades de proteção às vacas ajudaram na luta contra o poder colonial britânico. Também vieram das árvores os taninos que se usavam para fazer tinta do tipo ferro-galha, material que está em manuscritos como os de Bach, Galileu e George Washington.

Fiquei comovida em todos os capítulos sobre seu avô, químico que ajudou a fundar o Núcleo de Pesquisas de Produtos Naturais, da UFRJ. Como muitos da minha família, ele também foi um refugiado de guerra, que depois se apaixonou pelo Brasil. Se envolveu em pesquisas sobre a borracha e sobre medicamentos naturais, trabalhando até muito idoso em seu laboratório e na orientação de alunos. Sua biblioteca deve ter sido uma enorme fonte de inspiração para o neto, assim como as narrativas dos navegadores e exploradores, abundantes no livro.

Ao contrário de nós, pessoas comuns, Luiz Mors Cabral cruza com uns tipos incríveis, como o seu colega de quarto em Bruxelas, mexicano e neto do agricultor que descobriu o Bloco Cascajal! Pois é, por mim, passaria batido… mas Luiz nos conta: trata-se nada mais nada menos do que uma pedra olmeca, com 62 símbolos que são o registro mais antigo de escrita das Américas (900 a.c.)!

Da descoberta da aspirina às pesquisas atuais sobre a malária, passando pela origem das galinhas, do fuso-horário, da cerveja e da batata-doce nas Américas: tudo se transforma em aventura nesse livro! Às vezes, é até difícil de acreditar.

Minha passagem preferida, no entanto, é uma singela lembrança da infância do autor:

“Meu gosto pelo estudo da origem das plantas tem muito a ver com o milho. Quando era pequeno, costumava brincar no milharal que havia no sítio do meu avô paterno. Ali, certa vez, encontrei um milho estranho, bem diferente dos demais (…). Ninguém soube me explicar que planta era aquela. A resposta só veio no final das férias, quando mostrei-a para meu avô materno, que era químico de produtos naturais. Ele analisou a haste com muito interesse e disse: ‘Isso é uma mutação atávica do milho! Por algum motivo esse milho voltou a ser parecido com o seu ancestral!’

Não se pode dizer que meu avô tenha resolvido o mistério. Antes, ele o substituiu por outro ainda maior e mais instigante. Este livro começou a nascer naquele momento, quando descobri que plantas tinham ancestrais e histórias.” (p.155)

Esse trecho me fez pensar no quanto devemos respeitar nossos primeiros encantos, aquilo que nos fascina desde pequenos. É aí que está o sentido que nos move!

Pensando naquela pergunta que fiz na semana passada — “como cheguei até aqui?” –lembro das professoras e professores maravilhosos que tive, dos livros que vi e li, e de como tudo isso se materializa hoje em dia nesse blog, um espaço de liberdade, em que posso dar asas ao meu fascínio infantil pelo conhecimento.

Às milhares de pessoas que visitaram o blog desde o post sobre a vida de professora, meu imenso obrigada. Agradeço comovida o carinho das mensagens, o apoio, a solidariedade e as contribuições e exemplos que vocês trouxeram nos comentários e e-mails. Sejam todos super bem-vindos!

Graças a vocês, batemos duas marcas: mais de 300 mil visitas e mais de 200 mil visitantes. Não que eu esteja contando! 😉

Se vocês gostam do assunto plantas e aventuras, um dos meus posts preferidos é o que escrevi sobre As quinze vidas de Margaret Mee.

Sobre o livro: CABRAL, Luiz Mors. 2016. Plantas e civilização: fascinantes histórias da etnobotânica. Rio de Janeiro: Edições de Janeiro. (Ilustrações Carolina Engel.) A edição é lindíssima, mas muitos capítulos podem ser lidos no blog do autor: oetnobotanico.wordpress.com

Sobre os desenhos: Todas as flores foram escolhidas a partir de pesquisas na internet sobre as plantas citadas no livro. Primeiro fiz uns rascunhos a lápis na abertura de cada capítulo, buscando simplificar as formas. Depois desenhei num papel separado com canetinha de nanquim permanente Pigma Micron 0.1., colorindo com lápis de cor (a maioria Polychromos, da Faber-Castell). Só depois tive a ideia de usar para o calendário de julho… Para não ter que desenhar tudo de novo, escaneei e editei no meu velho Photoshop (de 2007, presente de um aluno, que ainda funciona!). Prefiro desenhar direto na folha do calendário, mas foi o possível esse mês!

Para a imagem de Julho/2017 em .jpg, basta clicar no calendário no alto do post, ou aqui para imprimir em .pdf.

Para ver uma amostra de cada planta, aí vai a imagem original.

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Como citar: Kuschnir, Karina. 2017. “Julho/2017 e as fascinantes histórias da etnobotânica”, Publicado em karinakuschnir.wordpress.com, url: http://wp.me/p42zgF-2qq. Acesso em [dd/mm/aaaa].


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Sete coisas invisíveis na vida de uma professora

estojokkpEsse post não é uma obra de ficção: todos os fatos relatados abaixo aconteceram (e acontecem) comigo, professora universitária desde 1992, e com todas as professoras que conheço. Dedico esse texto às colegas da UERJ e das instituições do Estado do Rio de Janeiro em geral, trabalhando em condições aviltantes, há vários meses sem salário.

Dando aula sobre a obra “A representação do eu na vida cotidiana”, de Erving Goffman, sempre me sensibilizo com o exemplo das enfermeiras. O autor utiliza essa profissão para ilustrar um tipo de atividade que precisa encontrar estratégias para tornar seu trabalho visível, já que boa parte de suas tarefas e habilidades técnicas passa despercebida pela maioria das pessoas.

Me espanta que o Goffman não tenha usado o caso dos professores, esses seres que só parecem trabalhar quando estão diante de alunos numa sala de aula, algumas horas por semana. Opa, que beleza de emprego, né? Só que não! Aquela horinha diante dos estudantes é uma ínfima parte de trabalho na representação cotidiana da nossa vida.

Para sanar esse problema, aí vão os bastidores da vida de uma professora, atividade que adoro exercer, mas que me faz acordar todos os dias pensando: como vim parar aqui?

1) A aula em si — Para cada 50 minutos de aula ministrada com entusiasmo, passo umas 3 horas estatelada de exaustão depois. Se a aula foi ruim, me torturo pela minha incompetência. Se foi boa, fico feliz e mais cansada ainda, porque dar uma aula boa significa empenhar mais o corpo, a emoção e a voz. Como a maioria das aulas é de dois ou três tempos seguidos, de até 3 horas e 30 minutos, multipliquem o tempo de “estatelamento” proporcionalmente. Ou seja, uma manhã dando aulas é um dia inteiro perdido. Um amigo meu chama esse cansaço pós-aula de “estado vegetativo”. É bem por aí.

2) Antes da aula (1) — Retrocedendo um pouco. Antes de dar uma aula, é preciso prepará-la, certo? Na minha prática, pelo menos, sim. Não confio na memória, muito menos na ideia de que os alunos lerão todo o material didático e terão perguntas capazes de me ocupar por um tempo inteiro. Portanto, só me resta preparar. Para 50 minutos de aula sobre um autor, digamos que eu tenha sugerido um texto de 50 páginas. Para reler esse texto com calma, anotando um resumo com seus pontos mais importantes, levo de duas a três horas. Para ler material de apoio e, em alguns casos, preparar um datashow, mais duas ou três horas. Agora multipliquem novamente para as 8 horas semanais em sala de aula. Numa semana dando aula terça e quinta, por exemplo, a segunda e a quarta estão perdidas nisso.

3) Antes da aula (2) — Ok, vocês devem estar pensando, mas você não repete os cursos de um semestre para o outro? Sim, às vezes. Por isso escrevi acima que iria “reler” um texto. Dificilmente coloco um material num programa de curso que eu nunca tenha lido antes. É muito arriscado. Por outro lado, se quero ser uma boa professora, vou ficar repetindo eternamente os mesmos autores, textos e aulas? Não dá. Preciso ler coisas novas, acompanhar debates interessantes na área e, no meu caso, principalmente, estou sempre me desafiando a planejar uma aula, não apenas um monólogo. Portanto, seja relendo, seja ampliando meus conhecimentos, seja planejando coisas novas, para cada hora em sala de aula, gasto pelo menos o triplo para me preparar.

4) As bombas de efeito moral — A sobrevivência ao looping preparação-aula-cansaço-preparação-aula-cansaço até que vai bem por umas seis ou sete semanas. O problema é que na oitava semana existem as bombas de efeito moral: corrigir a primeira leva de provas e trabalhos. Pelo menos na universidade, ainda não inventaram um sistema de dar aulas sem avaliar. Para corrigir bem cada prova levo cerca de 15 minutos. Se tenho 100 alunos num semestre, são 1500 minutos ou 25 horas. Ok, vocês vão dizer que estou exagerando. Não estou, mas darei um desconto. Digamos que eu não tenha tantos alunos assim, ou que eu leve apenas 8 minutos por prova (considerando que algumas são muito curtas ou inacabadas): ainda seriam quase 14 horas de correção. Como sou humana, o máximo que consigo me concentrar nesse tipo de atividade num dia é 5 ou 6 horas, o que, contando os intervalos para comida e cafeína, somam três dias inteiros só para as primeiras provas do semestre. Multipliquem pelas duas ou três avaliações seguintes… Isso sem falar na hipótese de ter que ficar verificando no Google se o estudante copiou um texto da internet. Quando acontece, volto três casas no video-game, porque preciso ligar para uma amiga professora, pedir um ombro para desabafar e me convencer de que nem tudo está perdido.

5) Como tudo aconteceu — Se vocês leram até aqui esse post, devem ter simpatia pelos professores ou, quem sabe, querem até exercer o ofício, certo? Pois então… como alguém se torna professor(a)? Nossa-senhora-do-tempo-de-estudo te abençoe, meu filho. São meses estudando para concurso, anos fazendo doutorado, mestrado, especialização e mais alguma coisa. Não vou entrar nas minúcias dessas pedreiras… Só façamos as contas. Nos tempos atuais, são uns dois anos de mestrado, mais 4 de doutorado, e pelo menos 1 ou 2 anos de dedicação (e um pouco de estado vegetativo, claro) antes ou depois disso tudo, o que dá fácil uns 8 anos estudando, escrevendo e outras coisinhas.

6) A vida paralela — Essas “outras coisinhas” que mencionei acima acontecem todas fora da sala de aula, e não são detalhes. Sempre que uma professora entra em uma sala de aula, dezenas de outras professoras estão: realizando pesquisas, dando palestras, orientando alunos (um mundão à parte!), participando de bancas e concursos de seleção, escrevendo pareceres e cartas acadêmicas, colaborando em comissões de inúmeros tipos, atuando junto às agências de fomento, implementando projetos de extensão, assumindo cargos administrativos, criando programas de pós-graduação, mestrados e doutorados, editando revistas científicas, gerindo grupos de pesquisas e entidades da área, preenchendo formulários, editais, relatórios e prestações de contas, lendo, escrevendo, publicando. O tempo nunca é o suficiente, porque a produção de conhecimento da humanidade é infinita — e esta é a matéria-prima de todos esses trabalhos, das aulas inclusive.

7) E a vida não-paralela — Ah, sim, e eu já ia esquecendo: também temos uma vida não acadêmica para viver. Nos apaixonamos, casamos, descasamos, sofremos, envelhecemos, temos filhos, doenças, famílias, casas, mudanças, paixões, histórias, atividades políticas, práticas e lúdicas. Tudo isso e mais um pouco.

Com certeza, esqueci de um monte de coisas, pessoal. Mas tudo bem. Que esses bastidores da nossa vida cotidiana sejam mais visíveis para que, além de faltar salário, não falte o reconhecimento de vidas inteiras dedicadas a esse ofício tão essencial a todos os outros.

Outros posts sobre esses assuntos podem ser lidos seguindo a tag mundo acadêmico. Gosto especialmente de um antigo, que escrevi sobre o Paulo Rónai.

Me contem nos comentários se tudo isso faz sentido para vocês.

Pós-escrito 1 (22/06) – Pessoal, muito obrigada! Não imaginava que tanta gente ia se identificar… Juro que acordei pensando que devia ter agradecido mais e enfatizado como gosto de ser professora etc. Felizmente, uma amiga querida me escreveu no Whatsapp: não precisa agradecer mais não! Fui rever o texto e vi que, afinal, já estava escrito que “adoro exercer” a profissão. O que me faz perceber o quanto de culpa todos carregamos por ter uma ocupação privilegiada sim (por nos permitir estudar e ler coisas maravilhosas), mas que nem por isso deixa de nos exigir sangue, suor e lágrimas quase todos os dias. Como não gosto de alimentar a cultura do sacrifício, o que tenho feito é abrir mão de muitas das coisinhas paralelas que listo no texto… Também queria agradecer especialmente aos professores não universitários que têm escrito e compartilhado… Tenho uma admiração infinita por vocês . E a todos que estão começando: espero que o texto não seja para desanimar e sim para perceber o tanto de planejamento e cuidado consigo próprio que um professorx precisa ter… O que não dá é para aceitar tudo, nem passar por cima, nem achar que é normal viver esgotado, tomando remédios para dormir e acordar, sem vida pessoal. E viva a chegada das férias 🙂 — só precisamos sobreviver às bombas de efeito moral antes!! 😉

Pós-escrito 2 (22/06) – Gente, a coisa mais linda de ter escrito esse post é ver centenas de professores sendo elogiados em público! Nos compartilhamentos no Facebook, tem montes de alunos fazendo declarações de amor às suas professoras e professores. Só isso já vale tanto! No arte, se fala às vezes da ressaca da vulnerabilidade, quando você lança sua obra ao mundo e fica um vazio, porque nunca se tem bem a certeza de como vai ser recebida. Agora, multiplica isso por todas as aulas que já demos… é muita sensação de vulnerabilidade junta. Aliás, voltando ao Goffman, ele acerta de novo quando diz que a plateia (alunxs) tem uma vantagem enorme sobre o ator; ela não está lá se expondo… nós sim. Multiplico tudo isso por milhões para os colegas do ensino básico, para os horistas das faculdades privadas (já dei 26 horas de aula como horista por semana, em 3 empregos; e grávida). Obrigada por essa onda maravilhosa de energia a todos que comentaram aqui também. 

Sobre o desenho: Professora que é professora tem que ter um estojinho na bolsa, né? Aí vai o meu atual, com post-it, marcador amarelo, caneta, elástico, pen drive, lápis-borracha, canetinha roxa e marcador de quadro branco. Só esqueci da lapiseira! Desenhei direto com canetinha de nanquim permanente Pigma Micron 0.1. Depois pintei com aquarela e pincéis diversos. Utilizei um pouquinho de lápis-de-cor e uma canetinha de tinta branca Gelly Roll 0.8, da Sakura, para fazer o xadrez do estojo da marca Yes.

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Você acabou de ler “Sete coisas invisíveis na vida de uma professora“, escrito e ilustrado por Karina Kuschnir e publicado em karinakuschnir.wordpress.com. Se quiser receber automaticamente novos posts, vá para a página inicial do blog e insira seu e-mail na caixa lateral à direita. Se estiver no celular, a caixa de inscrição está no rodapé. Obrigada! 🙂

Como citar: Kuschnir, Karina. 2017. “Sete coisas invisíveis na vida de uma professora”, Publicado em karinakuschnir.wordpress.com, url: http://wp.me/p42zgF-2lk. Acesso em [dd/mm/aaaa].


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Mini paleta de aquarela

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Alguns pesquisadores acreditam que a aquarela existe desde 800 a.c., quando os egípcios coloriam seus papiros com pigmentos naturais misturados com goma arábica, clara de ovo e água. É incrível pensar que essas tintas eram utilizadas nas miniaturas pintadas à mão em livros por gregos, romanos, sírios e bizantinos até o século 9 d.c. Quase todos os livros de história da aquarela dizem que o pintor alemão Albrecht Dürer (1471-1528) foi o primeiro artista (ocidental) a realizar pinturas em aquarela, embora naquele tempo esse material fosse considerado menor, sendo utilizado apenas para croquis, estudos e diários de viagem, por ser de fácil transporte e secagem rápida. Do século 19 em diante, os estojos de aquarela para amadores se tornaram cada vez mais populares e acho que agora, nos anos 2010, estamos vivendo uma valorização enorme dessa mídia.

Todo esse preâmbulo foi para apresentar a vocês o estojinho miniatura que comprei no ano passado no evento dos Urban Sketchers em Manchester, Inglaterra. Numa caixinha igual a um porta-cartão-de-visitas, a empresa Expeditionary Art conseguiu colocar uma base de ímã, uma base branca e 14 recipientes de metal para as tintas. Tive a sorte de ver uma pessoalmente, porque só vendo para acreditar em quão pequena é essa paleta. Não foi barata. Se não me engano, paguei 25 pounds (cerca de 100 reais) na versão vazia, e 35 numa versão já com as tintas, pois queria trazer uma de presente de aniversário para uma amiga.

Foi um investimento maravilhoso. Alguns colegas disseram que iria enferrujar, mas já tenho há quase um ano e não vejo o menor sinal de desgaste. A grande maravilha dessa paleta é poder levá-la para todos os lados sem aquela neura de ficar com a bolsa muito pesada.

Há tempos estava querendo atualizar a seção Materiais aqui do blog. Portanto, aí vai um dos meus itens preferidos!

7 Coisas impossivelmente-legais-bonitas-interessantes-ou-dignas-de-nota da semana:

* Minha fonte para essa pequena historinha da aquarela foi o livro The big book of watercolor, do Jose M. Parramón. Gosto da parte histórica inicial, mas não recomendo para quem quer começar na técnica. É um daqueles volumes mais para olhar do que aprender, com um jeito meio tradicional de “como fazer” o céu, o mar etc. Para ver uma aquarela do Dürer de pertinho, achei esse vídeo da Kahn Academy.

* A mini-paleta de aquarela pode ser vista em mais detalhes no site da Expeditionary Art ou nessa resenha com filminho no final do Parka Blogs.

* Continuo lendo artigos ótimos no site da Revista da Fapesp e, embora eu seja super defensora da inbox mínima, recomendo muito que vocês assinem o boletim deles por e-mail.

* Foi justamente dessa fonte que descobri o excelente artigo Bororo na Tela, contando porque o filme “Rituais e festas Bororo”, do major Luiz Thomaz Reis (1879-1940), deve ser considerado o primeiro documentário etnográfico de que se tem conhecimento.

* Outra leitura interessante foi o artigo no blog do Instituto Moreira Salles sobre a fotografia de Antonio Luiz Ferreira, que registrou, em 17 de maio de 1888, a missa campal realizada no Rio de Janeiro para celebrar a Abolição da Escravatura. Só de saber que essa foto existe e que há uma coleção imensa de imagens dessa qualidade disponíveis online já é uma maravilha.

* Outra lindeza foi seguir a dica da Julia O’Donnell e revisitar a Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional, onde se pode ler online milhares de páginas de jornais históricos brasileiros e de outros países. Só nos últimos 30 dias o site teve mais de 3 milhões e 800 mil páginas visitadas! Esse número nos dá esperança de que nem tudo está perdido , concordam?

* Finalmente, queria compartilhar com vocês que a melhor coisa dessa semana foi receber uma mensagem de uma ex-aluna agradecendo por minhas aulas. Eu que agradeço, querida. Inspirada em você, lembrei de sorrir mais, de me manter forte e determinada, sem esquecer da gentileza. Que seu caminho seja de aprendizado positivo e construtivo. Obrigada por existir, resistir e insistir!

Sobre o desenho: Aquarelinha feita em três etapas. Linhas com canetinha de nanquim permanente Pigma Micron (0.1) e uma primeira mão de tinta com as próprias aquarelas do kit. No dia seguinte, pintei novamente para dar mais intensidade. E ainda num outro dia (esqueci de escrever a data), reforcei algumas áreas mais escuras e a sombra do objeto no papel. O caderninho é um Hahnemühle A6 chamado Sketch & Note, com um papel comum, mas de gramatura um pouco superior (125gr) à média, que aguenta uma aquarela leve. Descobri esse caderno na Casa do Artista em São Paulo e depois comprei novamente na estadia em Lisboa, na maravilhosa Ponto das Artes do Chiado. É super leve para ter na bolsa. Utilizei vários pincéis, pois fiz o desenho em casa, mas costumo ter no estojo da bolsa uma caneta pincel de água (waterbrush) da Kuretake.

Sobre as tintas: Como comprei o kit com algumas pecinhas já cheias de tinta e outras vazias, não sei todas as marcas, mas vou especificar os nomes, da direita para a esquerda, começando na fileira de cima: 1-Espremi duas cores: Vandyke Brown e Indigo, 2-Ultramarine, 3-Cobalt blue; 4-Violet; 5- Permanent magenta e Opera Rose; 6-Rose de Potter e Ruby Red; 7-Scarlet Red. Na segunda fileira: 8-Turquoise; 9-Cerulean; 10-Perylene Green e Terre verte; 11-Sap Green; 12-Burnt Sienna e Pure Orange; 13-Quinacridone Gold e Raw Sienna; 14-Pure yellow e Lemon yellon. A maioria é da marca Winsor & Newton (algumas artísticas, outras da linha estudante, da Cotman), mas o Pure yellow e o Ruby red são da Schmincke.  Se quiserem mais informações sobre as tintas e cores me avisem! Fico meio preguiçosa de escrever sobre esses detalhes porque acho que a maioria dos leitores que vêm aqui são do meio acadêmico e não estão nem ligando para os materiais de pintura! 😉

Espero que todos estejam aproveitando esse feriado prolongado para descansar ou produzir mais.

Até semana que vem!

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Como citar: Kuschnir, Karina. 2017. “Mini paleta de aquarela”, Publicado em karinakuschnir.wordpress.com, url: http://wp.me/p42zgF-2gJ. Acesso em [dd/mm/aaaa].