Karina Kuschnir

desenhos, textos, coisas


15 Comentários

Três choros e muitos agradecimentos

imsdragao_pp

Um dos meus rituais de manhã, ao acordar, é abrir a janela do quarto, olhar o céu e desejar bom dia pro mundo.

Depois de tomar um mate e comer alguma coisa, sento para pintar, nem que seja por 15 minutos. A mesa é embaixo da janela, de onde me chegam vários choros…

Do meu prédio, acompanho um processo terrível. Uma das vizinhas, que até ontem era atlética e ativa, está com uma doença degenerativa aguda. Foi perdendo o controle dos movimentos e da mente… Seus sons são de uma dor sem nome, uma mistura de desespero, agonia… nem tenho palavras para expressar. No elevador e na portaria comentamos compungidos sobre os gritos de ontem e os de hoje… Que sensação de impotência, sem conseguir imaginar a dor dos familiares que se revezam em seus cuidados e que, por muitos momentos, nos acalmam com o silêncio que finalmente chega.

Ouço também o choro da Lisa, uma cadelinha jovem que foi adotada pela moradora do primeiro andar. Quando sua companheira sai para trabalhar, a bichinha se esgoela. A rua inteira escuta porque ela sobe na poltrona e uiva alto e sofrido na janela. Os vizinhos se mobilizaram no zap. Uma pessoa reclamou, mas os funcionários e os demais moradores se solidarizaram com a dor da cachorrinha. Nos revezamos para ajudar, veio um treinador para ansiedade, e a Lisa está cada dia mais linda e chorando (um pouco) menos.

Há um terceiro choro, agudo, intenso e forte. É meu velho conhecido: um bebê grita alto em algum apartamento do prédio ao lado. Como podem criaturas tão pequenas produzirem sons tão potentes? Ano passado, havia um bebê sofrido na vizinhança, era difícil. Mas esse meu companheirinho atual está no seu exercício pulmonar saudável. Quer apenas chorar um pouco. Envio boas vibrações do meu coração de mãe: shhh, shhh, shhh, está tudo bem… e ele logo para.

Meu timer toca: está na hora de fechar a aquarela. Lavo os pincéis, o estojo e os potes. Venho aprendendo a deixar tudo limpo para a próxima sessão. É um esforço diante da preguiça e da pressa, mas é um gesto potente. Quando chego do trabalho, as águas limpas me chamam de volta!

imspeixes_pp

O tema do post me levou aos desenhos do dragão e dos peixes. Pensei nessa mistura de dor e cura que é a vida.

Por mais tristes que sejam, os choros que ouço na minha janela estão envolvidos em afetos, rodeados de pessoas que tentam aliviar suas dores. Pra mim, eles também têm funcionado como um alarme de celular, que todos os dias toca com os lembretes:

1. Agradecer por estar viva; 2. Agradecer por meus amores estarem saudáveis e perto de mim; 3. Lembrar de aliviar as dores dos que choram.

7 Coisas impossivelmente-legais-bonitas-interessantes-hilárias-ou-dignas-de-nota da semana:

♥ Assistimos e gostamos: Encontrando Forrester (Finding Forrester), um filme sobre escritores, livros, estudos, basquete, fama, anonimato… O ator principal é o incrível Rob Brown.

♥ Descobri e segui: o perfil da Sabina Hahn tem postado trechos sobre história das cores (ver abaixo), ilustrado com imagens bem legais.

♥ Não resisti e comprei: The Secret Lives of Color, da Kassia St Clair. O objeto é lindo mas minha primeira impressão foi de que as histórias são um pouco superficiais. Vou ler e conto para vocês com mais calma.

♥ App divertido de arte: Google Arts Selfie. Você tira uma selfie e ele te mostra retratos parecidos de pinturas. Meus principais resultados seguem abaixo, mas não achei nem um pouco parecidos — e vocês?

081

♥ Cursos online novos me seduzindo (ainda avaliando, principalmente o primeiro): Watercolor Rules!, da Sketchbook Skool; e Watercolor Summit, que me inscrevi (basta colocar o e-mail) para receber três amostras gratuitas.

♥ Dia 21 foi meu aniversário! Recebi três cartinhas das pessoas que mais amo no mundo, desses presentes que a gente guarda para a vida inteira… Também ganhei materiais de pintura da minha mãe, vindos dos EUA por minha tia querida: tubinhos de tinta (Perylene Maroon, Cerulean Blue Chromium, Sodalite Genuine, Green Apatite Genuine), pincéis (2 Winsor & Newton e 1 Neptune) e lápis (2 Col-Eraser, da Prismacolor, 1 Mars Lumograph Black da Staedtler).

Aproveitando o espírito agradecitivo, fiz um cartãozinho no dia do meu aniversário para retribuir as lindas mensagens de parabéns que chegaram via fb/insta/zap. Pintei na terça (21) depois da aula. No dia seguinte, porém, acordei super crítica, achando minha letra infantil, assim como o tema da guirlanda; e ainda super arrependida das cores verde e amarelo, logo em época de eleições, que tosca! Mas o Instagram me mostrou um post bonito, que já não consigo localizar, dizendo que os artistas devem colocar suas obras no mundo, mesmo que não estejam perfeitas (nunca estarão), e que precisam ser humildes para começar tudo de novo no dia seguinte. Obrigada autor desse post, seja você quem for!

kkaniv_p

♥ E para compensar todos os choros das manhãs, enquanto escrevo à tarde, tem um bem-te-vi na árvore da minha janela cantando sem parar, com umas variações tão bonitas! (E minha atenção auditiva veio de ter oferecido essa semana aos alunos — e a mim — aquela aula sobre o poder de escutar.)

Bom final de semana! ☼

Sobre os desenhos: A estátua do dragão e os peixes foram feitos por observação direta em julho/2018 no Instituto Moreira Salles (do Rio), numa sessão de pintura ao ar livre oferecida professora Chiara Bozzetti, do Atelier Chiaroscuro (que voltei a frequentar, viva!). Ambos foram desenhados com canetinhas Pigma Micron 0,2, num sketchbook Fabriano Watercolour Acquarelo (é antigo, mas ressuscitei porque ainda tem folhas em branco). As cores foram feitas no local com tintas de várias marcas, mas principalmente Winsor & Newton. Em breve vou fazer um post sobre as cores que tenho no estojo.

O cartão de aniversário foi feito no verso de um papel Canson XL Aquarelle. Comecei com um rascunho do círculo e das letras, depois fiz as aquarelas à mão livre, ajustando conforme iam saindo.

Você acabou de ler “Três choros e muitos agradecimentos“, escrito e ilustrado por Karina Kuschnir e publicado em karinakuschnir.wordpress.com. Se quiser receber automaticamente novos posts, vá para a página inicial do blog e insira seu e-mail na caixa lateral à direita. Se estiver no celular, a caixa de inscrição está no rodapé. Obrigada! ☺

Como citar: Kuschnir, Karina. 2018. “Três choros e muitos agradecimentos”, Publicado em karinakuschnir.wordpress.com, url: https://wp.me/p42zgF-3Hk. Acesso em [dd/mm/aaaa].


12 Comentários

Últimas Saudades de Oxford

chuvascontg

** O Humor Britânico **
 Ao iniciar uma refeição, os bons hábitos mandam: na França: “Bon appetit!”; na Alemanha: “Guten appetit!”; na Itália: “Buon appetito!”; na Inglaterra: “Never mind…”

** Atendentes, garçons e que tais **
Como vocês sabem, já quase me expulsaram de um restaurante porque eu pedi “water” com sotaque americano. Agora descobri (em 2005!) um crime ainda mais hediondo: pedir “olive oil”!
— O-li-ve-oiiiil? No, I am afraid we don’t have. (resposta simpática)
— O-li-ve-oiiiil? humpf. (resposta tradicional)
Mesmo com um prato de salada verde na frente, o máximo que você vai conseguir é um pouco de sal.

** A contribuição dos fast-foods para a humanidade **
Banheiros limpos no terceiro andar!

** Palavras que vocês não vão achar no dicionário **
“Top up” – Depois de horas tentando entender a voz eletrônica do outro lado da linha, finalmente compreendi. “Top up” é colocar dinheiro via cartão de crédito na conta do telefone celular, no cartão de ligações interurbanas, na máquina de xerox etc. Coisas da vida eletrônica.
“Engaged” – Se diz também quando a linha de telefone está ocupada.

** “I thought you were a student” **
Coisa boa: pelo menos umas cinco vezes fui barrada aqui nos lugares onde só entram pesquisadores e professores porque me confundiram com uma estudante de graduação! (Bem, vá lá, só “estudante”. Graduação já é fantasia minha.) Mas depois que me dei conta disso, resolvi assumir. Nunca mais paguei ingresso de “adulto” em cinema, museu ou teatro!

** Lavando roupa em oito etapas (ou em apenas 130 minutos) **
Você logo percebe os padrões locais de limpeza quando descobre que o seu College tem uma única lavanderia comunitária de 9 metros quadrados para centenas de moradores.

Etapa 1 – Você reserva uma manhã inteira e vai para a lavanderia ver quantas das quatro máquinas estão funcionando. Na chegada, você lembra que esqueceu o cartão magnético que abre a porta. (7 minutos) Não esqueça de novo: cartão, moedas, sabão, roupa suja e sacola. (5 minutos)

Etapa 2 – Você está com sorte hoje: três máquinas estão funcionando. Só um probleminha: todas estão lotadas. Você logo aprende que seus vizinhos gostam muito de colocar a roupa na máquina e sair para dar uma voltinha de 12 horas. Quando uma das luzes apaga, você tem o direito de usar a máquina. (Espera em torno de 13 minutos)

Etapa 3 – É seu trabalho tirar e jogar a roupa molhada do vizinho em cima da máquina. A tarefa não deixa de ser interessante. Você fica conhecendo o lado “íntimo” das pessoas: as russas e suas calcinhas de sex-shop, os adolescentes e suas bermudas rasgadas, o professor  inglês e suas camisas azuis de gola branca, a nova-iorquina e seus modelitos fashion… (5 minutos, se você não parar para examinar as roupas)

Etapa 4 – Colocar sua roupa, colocar a moeda, ler as instruções três vezes, girar o botão da temperatura (que você pensa que é o botão do tempo), apertar a pré-lavagem, ligar. Ah, não esquecer o sabão. (2 ou 5 minutos) Volte para casa e marque uns 40 minutos no relógio.

Etapa 5 – Duas opções: ou você chega antes do tempo, e tem que ficar esperando a lavagem acabar; ou você chega atrasada e todas as suas roupas estão jogadas em cima da máquina (pode contar que uma meia ficou perdida em algum lugar). (10 minutos)

Etapa 6 – Com sorte, uma máquina de secar está vazia. Esta é facil: colocar moedas (até acertar a quantidade de moedas com a quantidade de roupas, é outra história…), colocar a roupa, desistir de ler as instruções, girar o botão para qualquer lado, ligar. Ouvir o vizinho resmungando porque ele quer usar três máquinas, uma para cada tipo de roupa, “porque assim não amassam muito”, ele explica. Voltar para casa. (30 minutos)

Etapa 7 – De volta à lavanderia. Cenário ideal: sua roupa estará seca e te esperando no mesmo lugar. Cenário deprimente: sua roupa ainda está molhada e jogada num canto. Cenário terrível: suas roupas encolheram! Passei pelos três… (10 minutos)

Etapa 8 – Você chega em casa e descobre que esqueceu o sabão na lavanderia! 😦

** Táxi turbinado **
Desde que cheguei, já peguei taxista grosso, enrolão, simpático, estrangeiro-que-não-sabia-o-caminho, indiferente. Mas o auge foi o último: dirigia calmamente bebendo uma cerveja!

** Sinal de que está na hora de ir embora **
Conversando com um pesquisador novato:
Ele:  “Nossa, que bom, está o maior sol!”
Você: “Ah, nem adianta. Quando a gente terminar de colocar os casacos vai estar chovendo…”

Ele: “Oba, parece uma comida gostosa!”
Você: “Nem tente. Tem gosto de chili ou de leite-sem-sal.”

Ele: “Que máximo, vamos entrar nessa livraria?”
Você: “Nem adianta, o livro mais barato vai custar 24,99 pounds. Só uns 135 reais…”

Bem, relevem… Eu devia estar um pouquinho mau-humorada nesse dia!
Como diz um cartão-postal muito procurado aqui: 

“Apart from… the weather, the food, the acommodation, the countryside, the people and the language… I’m having a great time here!”

Sobre o desenho: A imagem desse post começou a surgir na minha cabeça há alguns dias, quando planejei que o calendário de março tinha que ser com o tema “queremos chuva”! Acabou sendo um dos desenhos mais divertidos e ao mesmo tempo trabalhosos de fazer. Como sou teimosa, usei o mesmo papel ruim do post Modelos vivos ou mortos?, mas dessa vez me preparei melhor. Prendi a folha com fita crepe na bancada da pia da cozinha antes de pintá-lo com água, lápis de cor aquarelável e aquarela. Esperei que secasse até ficar só um pouco úmida e passei a ferro. Dessa vez o papel ficou quase liso! Escaneei essa base pintada e fiz os desenhos no Ipad (app AdobeIdeas) com uma canetinha Bamboo que ganhei da minha mãe <3. Depois voltei tudo para o computador, aumentei o contraste (lembram que o azul sempre fica aguado?) e “recortei” as figuras com o Photoshop. Meu plano inicial era fazer toda essa parte à mão, mas deu preguiça quando percebi que teria que organizar cada pedacinho num outro papel e ainda voltar ao scanner… O calendário fica para amanhã — desculpem o atraso carnavalesco.