Karina Kuschnir

desenhos, textos, coisas


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Fup: amor, diferenças e defeitos

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“Suas diferenças, apesar de numerosas, eram superficiais; suas semelhanças eram poucas, mas tinham um alicerce: eram ligados pelo espantoso amor que tinham um pelo outro, uma amabilidade que ia além da mera tolerância, uma compreensão sanguínea daquilo que movia seus corações.” (Jim Dodge)

Era uma vez um avô imortal (Jake), um neto órfão (Miúdo) e uma pata gorda (Fup). Esse é o trio de personagens improváveis de um dos meus livros preferidos: Fup, de Jim Dodge. A cada vez que releio essa pequena obra, mais acredito na possibilidade desse “espantoso amor”, com a ternura de cada um poder ser o que é, de estar sozinho mas também acompanhado.

Vovô Jake é imortal, dado a excessos e vícios. Miúdo é um tranquilo construtor de cercas; Fup é uma pata esfomeada como um “aspirador empenado”, que gosta de uísque e de perseguir porcos. Os três se espezinham e se amam, na mesma medida. São poços de defeitos que o autor nos apresenta de forma sutil e bem humorada, como nesse trecho em que Fup reage à tentativa de ser educada por Jake:

“Se abrisse o bico sem fazer som algum, gesto mais ou menos entre um bocejo entediado e uma tentativa de vômito, significava discordância profunda; se isso fosse acompanhado de um som baixo e sibilante, com a cabeça abaixada e as asas levemente abertas, indicava discordância profunda e ataque iminente. Se enfiasse a cabeça debaixo da asa, você, o assunto e o resto do mundo enfadonho estavam dispensados.” (p.58)

As razões das coisas são complicadas, sente Jake. Às vezes só nos resta aceitar. Um de seus amigos nos emociona quando explica que mantém seu nome feio (escolhido por ele próprio em outra época da vida; como alguém que faz uma tatuagem e se arrepende depois) porque… “mantenho para me lembrar que a gente precisa viver com os próprios erros”. (p.73)

Pra seguir em frente sem saber direito o que está fazendo, Jake aconselha: intuição, razão, desespero. A intuição falha muito, mas quando funciona economiza um tempo enorme, dá um salto no espírito! A razão é “fidedigna, mas lenta”, há que ter paciência. (E o desespero?, deixo para quando vocês lerem a história.)

São três personagens doces e potentes, capazes de jogar damas 999 vezes; de serem ao mesmo tempo imortais e desimportantes — como nós!

3 Coisas impossivelmente-legais-bonitas-interessantes-divertidas-ou-dignas-de-nota da semana:

* Meu Photoshop é vintage, ano 2002. Instalei num notebook novo e continua funcionando!

* Comecei a abrir as 65 caixas da biblioteca do Gilberto Velho que herdei em 2012, mas que levei dois anos para reunir no seu local de destino: a linda sala-reserva da biblioteca do IFCS/UFRJ. Preciso da sorte e da imortalidade do vovô Jake. É muita emoção. Estou fazendo um diário para contar mais pra vocês.

* Ontem, último dia de aula do semestre 2015-2, os alunos se despediram de mim desejando “Feliz Natal, Feliz Ano Novo”. Vou sentir saudades dessa turminha de tão longa e boa convivência!

Sobre o desenho: Minha tentativa de desenhar as aventuras da Fup aprendendo a voar! Desenho com canetinha descartável 0.1, aquarelado com tintas Winsor & Newton em papel Canson Aquarelle 300gr.

Sobre o livro: Fup, de Jim Dodge, com tradução de Melany Laterman, publicado pela José Olympio (2007, 2ª edição), com apresentação de Marçal Aquino, na linda coleção Sabor Literário.


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Poesia potente

montanha

“o nosso plano secreto,
secreto até para
nós mesmos,
era procurar
o melhor mirante”
(Carlito Azevedo)

Estou apaixonada por Monodrama, livro de Carlito Azevedo, que li e reli nas últimas semanas. É fresco, bonito, triste, suave, engraçado, apaixonado, sonoro, bom, bom de ler. É cheio de ecos e pequenas histórias, como a

“do místico que dizia
fumar para pôr
um pouco de névoa
entre ele e o mundo”

ou a do escritor que teria nascido com um irmão gêmeo, tão idêntico, ao ponto de, num acidente em que um deles morreu afogado, os pais nunca souberam qual dos dois tinha morrido: “se ele ou eu”.

É também um livro de sons, do “micromundo das vibrações sonoras” que arrepiam; um livro que brilha, “com os seus cem sóis”, que pára o tempo:

“por um segundo
fez todo o sentido do mundo
o nosso absurdo ir e vir”

E nos oferece o silêncio:

“uma pessoa do silêncio,
de sua equipe,
ou melhor,
o silêncio é meu
equipamento.
eu disse:
o silêncio
é meu equipamento”

É também um livro de amor,

“e o fim do amor
e com vontades contrárias e confusas
de deslocamento
e invisibilidade”

e de um poeta antropólogo:

“Parei um dia em uma dessas
praças e, deitado sobre a
grama, me pus a escutar a
desconexão absoluta de
todas as falas do mundo, de
todos os sonhos do mundo.”

Carlito escreve sobre as nossas “pequenas humilhações diárias”, aquelas que acordam conosco — nossos sinais, nossos vícios –, como na história do pobre homem que sussurra ter parado de tomar o café preto da garrafa térmica verde e, “neste mesmo instante se dá conta perfeitamente de que foi o café preto da garrafa térmica verde que o deixou”.

São poemas e prosas (não, não sei a diferença) em que as histórias parecem caminhar soltas, sem esforço, como os verbos de Rua dos Cataventos: ele estava, ele esteve, ele foi, ele poderia, ele será, ele colaborou, ele podia ter colaborado, ele vai colaborar, ele jogou, ele confirmou, ele fez, ele vai, “ele dançou conforme a música”.

E ainda nem chegamos na melhor parte, “Dois estrangeiros”. Todo o poema “A) Efeito Lupa” é uma delicadeza infinita; e me sinto má de escolher um pedaço para mostrar aqui, mas escolho, com o aviso de que o trecho não faz jus ao corpo inteiro:

“longe daqui
tenho amigos que me amam

e aos meus poemas
e pensam em mim todos os dias

Longe daqui
alguém leva desesperados numa chalana

alguém estuda as temperaturas
supercondutoras

alguém percebe que não
se tornou um gênio do piano

deve haver alguém que chora
quando sua amiga lhe lê

um poema de
seu poeta preferido”

Como todas as obras que amo, Monodrama também é daquelas que ri de si mesma. Tem drama e humor no mesmo parágrafo, com o poeta misturando a si próprio, o livro, a vida, fazendo graça até quando é “difícil encontrar alguma graça”; fazendo poemas para escapar dos “procedimentos”; buscando lembrar, ou não: “Não se lembra de nada? Que sorte a sua, isso é melhor ainda, pois então você pode inventar tudo.”, diz que lhe disse um amigo.

Numa segunda leitura descobri mais um trecho apavorante de tão bonito, do poeta-etnógrafo:

“Ela lhe disse que os poemas são a transparência através da qual ela gosta de ver o mundo e você disse que ela era a transparência através da qual você gosta de ver o mundo e todos os poemas que há dentro dele e ela chorou e disse que ia embora e que não podia mais lhe ver e que não prestava para você.”

Não sei se ele vai concordar comigo (que dificuldade escrever de autores vivos!), mas vi aqui e ali uma admiração dos horizontes e do céu aberto. Da praia, vem as ondas

“que te nutrem
do opaco e do transparente
de que o mundo
é capaz”.

E a menina que

“está fugindo de casa
com toda a sua força
e todas as montanhas”

E um pouco adiante os barcos na marina que

“também pareciam querer fugir de si mesmos”

Receio estreitar os sentidos do livro com tantos recortes, como se estreita o coração do poeta nas páginas de despedida à mãe. E dele pego palavras emprestadas para me despedir também:

“Sinto que se conseguir escrever agora o que se passa comigo estarei salvo, repito isso a mim mesmo algumas vezes, como repito mentalmente o refrão de que onde há obra não há loucura e onde há loucura não há obra e venho escrever.”

Sobre o livro: Monodrama, de Carlito Azevedo, editado pela 7Letras, em 2009, está em 2ª reimpressão. Encontrei o meu exemplar na livraria Travessa de Botafogo. Em 2015, o livro foi traduzido e editado por Aníbal Cristobo para a editora Kriller71, de Barcelona, com uma capa lindíssima da artista Leila Danziger.

Sobre o desenho: Rabiscos no caderno Laloran feitos durante a última aula de aquarela do ano passado, inpirados nas nuvens do Turner. Por algum motivo surgiu um homenzinho a la Tom Gauld diante da montanha. Sem coragem de desenhar algo especial para o Monodrama, achei que dava para misturar aqui. Quem sabe, o poeta diante da tarefa de escrever, escreva mesmo assim. Usei canetinha 0.1 mm e aquarelas Winsor & Newton. O caderninho é novo e as páginas estão enrugando… o scanner não deu conta, pra variar.


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Continue a nadar, continue a nadar

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Quase me afoguei no mar por volta dos onze anos. Não perdi a consciência, mas fui tirada da água por dois salva-vidas que seguravam meus braços com força e me mandavam afundar e respirar, afundar e respirar. Nunca recuperei a coragem com onda de praia, mas sou um pouquinho teimosa (de onde será que a Alice puxou?) e cheguei a me formar num curso de mergulho, com cilindro, pé-de-pato e tudo mais.

Também já tive dois namorados-peixes (um ainda tenho!), do tipo que morre se não nadar todo dia. Os dois tentaram me conquistar para participar desse amor pelo mergulho matinal. Só faltou combinarem com meu sono, meu ouvido, meu nariz, meu cabelo, meu frio… ah, e ainda arranjarem uma piscina sem cloro. Em 2013, fiz até um protetor de ouvido especial para tentar vencer o bloqueio, mas a anti-piscinice foi mais forte.

Pessoa-peixe é ótima para namorar, desde que você saiba com quem está nadando… É do tipo que fica bem sozinha, gosta de sons repetitivos (conhecem o Philip Glass dos anos 1980?), acorda cedo feliz, tem relógio à prova d’água e mini-toalha de atleta. E tem o lado peixe: escorrega toda vez que você tenta segurar!

Essa é a graça. Amar alguém que nada ao seu lado; nem te puxa, nem te empurra. Não tem tempo ruim, chuva, frio, madrugada, tristeza; é “bora pra piscina”. Como canta a peixinha Dory, personagem do filme Procurando Nemo, toda vez que se atrapalha:

— Continue a nadar, continue a nadar, continue a nadar…

[No original: “Just keep swimming, just keep swimming, just keep swimming.” Vejam aqui]

Essa filosofia-aquática da Dory serve pra tudo, vamos combinar?

E é bem mais delicada do que a da Alice, que outro dia pegou um copo d’água bem grande e foi toda sorrateira jogar na cara do irmão. Detalhe: ele estava dormindo. Só ouvi os gritos pela casa!!

Eu — Filha, por que você fez isso????

Alice — Ah, não sei… queria ver se era engraçado!

Antônio — Mentira, mãe. Ela viu isso no Rezende!

Eu — Rezende?? Quem é Rezende? O que é Rezende?

Alice — Ele é muito legal, Antônio!!

Antônio — Ele faz vídeos sobre Minecraft, mãe. Outro dia ele jogou água na cara do irmão dormindo também.

Alice, na maior cara-de-pau: — É, e pelo menos o irmão dele achou engraçado…!

Eu, a mãe-sendo-mãe — Alice?? Dois dias sem internet! E pede desculpas para o seu irmão.

Sobre o desenho: Fiquei feliz porque as crianças finalmente voltaram a me ajudar nesse calendário de fevereiro — por acaso mês do signo de peixes também. Aprendemos no Google que esse era o último mês do calendário romano, e não tinha nome porque ninguém marcava o tempo no inverno. Existem várias lendas sobre por que fevereiro tem 28 dias mas, para mim, a grande data é 26, aniversário do meu filhote, nascido em pleno Carnaval de 2001, com direito a pediatra cheio de purpurina na sala de parto (contei a história nesse post aqui; e indico também uma fonte engraçadíssima sobre fevereiro aqui).

Fica o convite para que, mesmo nesses tempos difíceis, “continuemos a nadar”, cada um nas suas cores e no seu ritmo.

Fizemos o desenho com canetinhas Unipin 0.05 e colorimos com lápis-de-cor Prismacolor. As sombras foram feitas com caneta brush Tombow Abt, n.95. No Rio, dá para comprar as duas canetas na papelaria JLM, no Largo do Machado.

 

 


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Sonhando com Ceps

julho2014c

A pior coisa de se mudar três vezes em menos de dois meses é ligar para a Net, cancelar a Net, ter que repetir o seu CPF para a Net, ser chamada de senhora cem vezes pela Net, desistir da Net…

E o Cep? A gente já não decora mais número de celular, vai decorar Cep de moradia provisória? Sim, tem que decorar. Porque atendente da Net não sabe achar o Cep se você disser só o nome da rua. Ele te diz: –“Senhora, essa rua não existe.” ou — “Esse local não tem Net disponível.” — o que é a mesma coisa de não existir, tá subentendido.

Então estou me mudando para um endereço provisório que não existe? Não, calma, Karina. Foi só o Cep que o rapaz da Net não conseguiu achar.

— Moço, o Cep tá aqui: 22222-222.

— Ah, sim, achei. Não se preocupe, essa rua existe sim. Mas não tá disponível.

— Como assim, não está disponível? Já tem outra Net funcionando lá. Eu só quero transferir a minha.

— Sim, minha senhora… Mas se já tem uma, então não está mais disponível…

Bem, vou poupar vocês… Ninguém merece. E daria umas três páginas de post.

O engraçado é que, diante da quantidade de vezes que tive que dar meus endereços nas últimas semanas — o velho, o atual, o da semana que vem e o futuro — sonhei com um calendário cheio de envelopes!

Amo cartas; escrever e receber…  Para minha sorte, sempre tive parentes morando fora do Brasil. Eu era a alegria dos velhinhos da família, pois adorava escrever para eles. Fui tão apaixonada por cartas na infância que me inscrevi naqueles clubes de correspondência que eram anunciados nas revistas em quadrinhos. Cheguei a trocar algumas com desconhecidos Brasil afora — eram amizades virtuais décadas antes do Facebook!

A principal inspiração para os desenhos do calendário de julho foram as cartinhas de amor do pintor Guignard para sua amada Amalita. Tive o privilégio de ver uma exposição sobre essa coleção no Museu do artista em Ouro Preto. (Na imagem acima, são os envelopes com coração vermelho.) Para os demais desenhos, como meu acervo pessoal não está acessível, fui à cata de inspirações na internet.

Sobre o desenho: Linhas feitas com canetinhas Unipin 0,05 e 0,01, depois coloridas com aquarela e lápis de cor. Ah, e sempre esqueço de falar que uso uma waterbrush (caneta de aquarela) com uma aguada de nanquim ou de ecoline sépia para fazer as sombras. Como uso papel de impressora comum, acho que as sombras ajudam a destacar um pouco mais o desenho.

 


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Love maps

lovemaps2

Às vezes é preciso esquecer a lógica e sonhar… Nesse desenho, de 2011, imaginei um resultado do Google Maps que unia Brasil e Portugal numa tela só. Esse é o mundo em que vivo hoje, com filhos amados separados pelo Oceano Atlântico, mas unidos por uma felicidade imensa quando estão juntos.

Alice B., Alice K., Clara e Antonio: que esse mapa esteja sempre presente na vida de vocês!

Sobre o desenho: Canetinha nanquim e lápis de cor, com detalhes da tela do Google Maps (da época) e também de desenhos de Steinberg para a New Yorker (setas e pássaros). No meio do mapa, fiz o impossível: uma serrinha ligando Oeiras ao Rio de Janeiro…


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O sorriso do professor

livros

“Eu quero a sorte de um amor tranquilo…”

Sempre que ouço esse verso da canção do Cazuza e do Frejat, penso nos meus livros. Não sei quando li o primeiro, mas foi paixão e foi tranquila. Os livros são “meu pão e minha comida”… Não vivo, não ando, não me entendo sem.

Na adolescência, sonhei ser presa só para ficar o dia todo lendo. Desisti, porque acordei no Brasil e não naquelas prisões norte-americanas de filme da Sessão-da-Tarde. (Que meu filho não comece a ter ideias lendo isso!)

Achei que a solução era virar professora! Eu pensava: o que mais faz um professor do que ler o dia todo?

Sei, sei que vocês estão achando que era uma ilusão. Afinal, qual é o professor que tem tempo de ler livros hoje em dia?

Eu tenho. Não foi sem luta e sem obstáculos, como toda paixão que se preze! Não gosto de xerox, nem de textos em pedaços, nem de ler só a Introdução… Às vezes um artigo, ok. Mas nada se iguala ao livro inteiro, do início ao fim, seja ficção, ensaio, infantil, seja um livro. E ainda melhor quando termina com índices onomásticos, guardas decoradas, quem sabe impresso em gráficas do Rio antigo.

Quando era pequena, achava que os professores tinham uma Estante-do-Saber onde ficavam todos os livros necessários para o ensino de uma disciplina. Antes das aulas, eles iam até essa estante e tiravam o Livro-Certo para ensinar aos alunos.

Assim que me tornei professora, tive um choque: descobri que isso não existia! Eram milhares de livros e textos aos pedaços. Como escolher? Cadê a Dona Estante que ia me dizer o que dizer para os alunos? Vinte e três anos depois, esse ainda é o pior momento da profissão: montar um curso, ter que escolher, deixar um monte de livros de fora, falar tão pouco de alguns, selecionar partes mutiladas.

E todo esse preambulo foi para chegar na mágica de Como aprendi português e outras aventuras, de Paulo Rónai. É um encanto, uma erudição despretensiosa, generosa, amiga. Cada palavra está ali anunciando o prazer de compartilhar seu conhecimento, com humor e compaixão por nós, seus ignorantes leitores. (Sim, porque ninguém vivo pode dizer que sabe ou sabia mais do que Paulo Rónai — bem, talvez o Antonio Candido e a Cleonice Berardinelli, mas deuses não contam.)

Ainda por cima, sobre o que escreve Paulo Rónai? Sobre livros! E sobre a profissão de professor — que sonho de professor ele deve ter sido… Aqui em casa estão todos com ciúmes de tanto que falo do Paulo e de como queria tê-lo conhecido e quem sabe ter sido aluna dele… Eu certamente não seria como aquelas moças e rapazes que, diante de um exercício com o verbo aller (ir, em francês), obrigaram o professor a proibir as palavras “cinéma” e “futebol”, fazendo graça com a dificuldade da turma de adolescentes para achar lugares alternativos para “ir” em suas redações.

Mergulhado no debate sobre a reforma do ensino de latim, ele é rápido no diagnóstico: “Os nossos mestres, em sua maioria, não sabem sorrir.” E por que tanta carranca e mau-humor?, ele se questiona. Porque “senão algum aluno malandro poderia lembrar-se de fazer perguntas, e adeus autoridade.” A reforma precisava começar pelo professor:

“Bem sei eu que as aulas à razão de 20 cruzeiros ou menos, a instabilidade da profissão, os pesados encargos da família não são motivos especiais de alegria. E no entanto, se me perguntassem qual a reforma mais importante de que o ensino do latim necessita, responderia que é o sorriso do professor. Apesar do espírito hostil da época, apesar de suas próprias dificuldades, ele que entre sorrindo em cada aula, que saia de cada aula sorrindo. Sorrindo como quem acaba de realizar um milagre: o de ressuscitar mais uma vez um morto, a quem, há centenas de anos, em vão querem enterrar.”

Tenho certeza de que seus conselhos não valem só para os professores de latim!

Não o conheci, mas acredito que Paulo Rónai merece as mesmas belas palavras que utilizou para falar do amigo que tanto admirava, Aurélio Buarque de Holanda:

“[uma personalidade que se define pela] falta absoluta de qualquer sectarismo, a completa honestidade, o senso da medida justa, o instinto pedagógico e, sobretudo, o bom gosto.”

Em cada linha de seus escritos, sentimos “a presença de um homem vivo”, sem “prejuízo do valor científico”, uma individualidade “vibrante, compreensiva e moderna” que observa a linguagem — e poderíamos dizer, o mundo — com a mesma “inteligente curiosidade que lhe desperta a vida”.

Que melhor definição poderíamos oferecer a um professor ou à sua obra?

Sobre o livro: Como aprendi português e outras aventuras, de Paulo Rónai, (Mec/Fundação Biblioteca Nacional, editora Casa da Palavra, ). Estava quase terminando essa leitura maravilhosa (do conteúdo à edição), quando surgiu a notícia de que o acervo de Paulo Rónai corre perigo. Precisamos todos mandar mensagens para a USP, para Brasília, para a Dilma. Precisamos mantê-lo vivo e sorrindo. É incalculável o valor da sua presença em nossa língua, em nossas salas de aulas, em nossas estantes e livrarias, enfim, em nossa história.

Sobre o desenho: A imagem acima traz um pedacinho da sala aqui de casa, e gosto dela menos pelos livros do que pelo quadro com o gato Charlie ao centro, pintado pelo Antônio quando estava no terceiro ano da escola. O desenho foi feito com canetinhas nanquim, lápis de cor e aquarela. As crianças reclamam que não estou postando desenhos novos, mas é bom todo mundo se conformar que não sou biônica… (Será que elas sabem o que é isso? Biônica é uma expressão típica dos anos 1980, quando ainda achávamos que os robôs iriam dominar o mundo.)

Sobre as pitonisas da vovó: Não pude deixar de me emocionar, também, sabendo que a história de Paulo Rónai tem tantas afinidades com a do meu avô, ambos fugitivos da segunda guerra mundial. O que isso tem a ver com as pitonisas? É que minha tia escreveu lembrando que uma delas, a Dona Alzira, causava comoção e expectativa na casa porque sempre prometia que meu avô iria encontrar seu irmão desaparecido. Infelizmente esse dia nunca chegou.Tudo indica que ele foi assassinado nos campos de concentração alemães como meus bisavós.


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O amor numa banca de jornal

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Dona Teresa mantém uma banca de jornal há mais de vinte anos na esquina da rua Visconde de Caravelas com Capitão Salomão, no Humaitá. Ela diz que é uma “banca das crianças” e acrescento que é também uma banca para pessoas que gostam de receitas e sorvetes. Me senti no lugar certo, como minhas alunas em campo no semestre passado, conseguindo o privilégio de desenhar sentada numa mesinha de plástico do “Bar dos Amigos”, bem em frente. Estava calor, mas a água era gelada e os poucos sons vinham da conversa de alguns bebedores de chope e de um casal tentando ensinar o filho a andar com o patinete ganho no Natal. Ao me entregar à tarefa do desenho, o mundo vai ao mesmo tempo se dissolvendo e tomando forma. Muitos passam para cumprimentar Dona Teresa, dizem que os políticos estão cada vez piores, desejam feliz ano novo, e que teremos sorte se o governo roubar menos; os pais insistem centenas de vezes: se você colocar o pé direito e jogar o peso do corpo pra frente, conseguirá se equilibrar, só que se o calor continuar assim, vamos ter que subir.

Estava ali, desenhando, sem nenhum outro motivo. Não, eu não estava só passando; não estava fazendo hora, à espera de alguém; não, não moro ali perto. Saí de casa com o propósito de desenhar a banca de jornais daquela esquina para talvez colocar aqui neste post. Ainda não sabia que era a banca da Dona Teresa, mas lembrava do seu esplendor, da sua esfuziante mistura.

Como é possível viver para a arte, fazendo algo que não interessa a ninguém? “É um projeto artístico, ou um projeto terapêutico?” pergunta-se um bem humorado Cristóvão Tezza (em O filho eterno), refletindo sobre sua vida até então fracassada de escritor. Escrevo “umas coisinhas”, diz seu personagem, “o álibi de quem se desculpa, de quem quer entrar no salão mas não recebeu convite”. Dizer “eu escrevo” é como revelar sua intimidade, sentir o “peso do ridículo” de ser “alguém que publica livros aos quais não há resposta, livros que ninguém lê”.

Tezza nos conta (em O espírito da prosa) que foi preciso “desembarcar” das suas “próprias nuvens”:  parar de respirar as mensagens políticas e literárias dos outros. Ao reler trabalho anteriores, ele afirma:

“percebo o óvio: eu não estava ali. Um escritor ausente de sua frase é a derrota do texto. Eu continuava obedecendo a uma pauta em grande parte alheia, tateando formas e ideias no escuro.”

Foi preciso aceitar seus desejos mais secretos — o prazer pelas cartas, pelo humor, pelas narrativas  — para se tornar o escritor que queria ser.  Não que tenha passado seu sentimento de inadequação. Afinal, “é simples e cristalino: ninguém pede para você escrever.” Não há anúncios do tipo “procuram-se escritores”, “contratam-se romancistas”, “Poetas, com referências, paga-se bem”.

Gostei de começar 2014 voltando a me reunir com as obras de Cristóvão Tezza que conheci e por quem me apaixonei em 2013. Ele reafirma para mim a ideia de que criar é um “gesto ético de abandono e generosidade”, de tentar se transformar em outra pessoa, de obrigatoriamente tentar “ver o mundo do lado de fora de si mesmo”.

Acho que é um bom começo, talvez até mesmo uma definição perfeita do amor: escutar-se, encontrar-se consigo, mas entregar-se à conexão com os outros, sempre e intensamente.

É o que posso desejar de melhor para tod@s que me acompanharam até aqui. Obrigada, de verdade.

Sobre o desenho: No velho caderninho de sempre, usei canetinha nanquim Pigma Micron 0.05 para o desenho feito no local. Adicionei as cores em casa com aquarela e lápis de cor, com a ajuda preciosa vinda do olhar do meu filho Antônio, e de uma foto tirada com o celular, que não tenho olho nem imaginação biônica…

Sobre os livros de Cristóvão Tezza: O espírito da prosa: uma autobiografia literária (ed. Record, 2012) e O filho eterno (ed. Record, 2010, 9a.ed, lida no Ipad na app Kindle). Não vou indicar todas as páginas, pois foram muitos os trechos que citei. Mas recomendo que leiam, leiam integralmente os dois livros, que são como duas faces da mesma incrível e apaixonante história. Ambos, um prazer do início ao fim.