Karina Kuschnir

desenhos, textos, coisas


8 Comentários

Meu TCC mudou minha vida

meutcc_p3

“O difícil não é ser complicado; o difícil é ser simples. Quanto mais você conhece algo, mais clara deve ser sua explicação.” (Citando de memória minha orientadora de TCC, Angeluccia Habert)

Até o último ano da faculdade de jornalismo, eu não tinha ideia de como fazer uma pesquisa, apesar de quase metade do meu curso ser composta de disciplinas como história, antropologia e sociologia… Para minha sorte, no último ano era obrigatório fazer um semestre de Metodologia de Pesquisa e outro de Monografia (mais conhecida como TCC,  Trabalho de Conclusão de Curso).

Cheguei na aula de Metodologia de pé atrás, porque a professora Angeluccia Habert tinha fama de durona. Como eu trabalhava e fazia faculdade à noite, precisava escolher as matérias para me dedicar enquanto ia levando as outras. Achei que Metodologia cairia nesse limbo, mas me apaixonei!

O segredo desse amor foi que aprendi a fazer uma pesquisa aprofundada. O principal livro da disciplina era Comunicação de Massa: Análise de Conteúdo, de Albert Kientz. Não tenho referências atuais sobre o autor, mas me marcou demais como ele e a Angeluccia me ensinaram de forma didática que era preciso decupar um material e analisar cada pedacinho, para só depois tentar interpretações mais amplas. Fiquei fascinada por existir um método passo a passo.

Para Metodologia, fiz um trabalho final sobre o conceito de indivíduo em obras teatrais de Mauro Rasi. Através de amigos em comum, consegui os roteiros de três peças que giravam em torno do tema família. Pesquei algumas referências teóricas sobre individualismo e fui. Lembro de suar muito para escrever um texto corrido que juntasse os trechos das peças e as questões dos autores, mas acabei tirando 9,0 — uma nota fantástica para a Angeluccia. Esse trabalho, inclusive, foi crucial para que eu passasse no mestrado em antropologia, pois era a única pesquisa que eu tinha para mencionar na entrevista.

No semestre seguinte, pedi à Angeluccia para ser minha orientadora de TCC. Se lembro bem, por ser super exigente, ela não tinha filas. Faltavam só cinco meses para colar grau quando tive a primeira melhor notícia da minha vida, que foi passar no mestrado para o PPGAS, no Museu Nacional/UFRJ. Agora é que a monografia tinha que sair decente.

Nessa época, eu trabalhava na antiga Rádio JB AM, só de notícias. O sistema Jornal do Brasil tinha um setor de pesquisas incrível. Como estagiária e depois repórter, eu amava vasculhar esse material, que abrangia não apenas o JB mas dezenas de veículos de imprensa, por décadas. A primeira coisa que decidi foi fazer meu TCC trabalhando com cinco jornais impressos. Depois, resolvi focar em como esses veículos retratavam as empregadas domésticas durante um recorte temporal específico.

Não tenho mais o material da pesquisa empírica: eram quase 70 reportagens com suas respectivas fichas de decupagem e uma grande tabela de análise feita à mão em duas cartolinas brancas grudadas (que eu precisava enrolar para transportar). Entrevistei também uma pesquisadora que trabalhava na área. Feita essa parte, restava escrever… Haja coca-cola diet (era novidade) para me manter animada a terminar. O cenário dessa fase está na ilustração acima: um computador dos anos 1980, muitos jornais velhos, disquetes, lápis, caneta, a tabela de análise enrolada  e algumas cópias de textos.

Mas por que o título dramático desse post — “Meu TCC mudou a minha vida”?

• Porque eu nunca teria me tornado pesquisadora e professora se as disciplinas de Metodologia e de TCC não fossem obrigatórias no curso de Comunicação.

• Porque, às vezes, as coisas que a vida te obriga a passar são justamente as que te abrem os caminhos mais interessantes.

• Porque até na minha banca de doutorado, um dos meus ídolos da antropologia afirmou que um dos pontos altos da tese eram os trechos de análise de discurso dos meus interlocutores.

• Porque ainda hoje, quando oriento meus alunos, volto ao básico que aprendi com a Angeluccia e com o Kientz: uma boa investigação parte de um recorte preciso e de uma análise minuciosa das fontes.

• Porque tudo isso reafirma que não precisamos apelar para conceitos mirabolantes para fazermos bem feito.

• Porque criar algo por meio de uma pesquisa nos faz um bem danado.

• Porque o conhecimento contribui para um mundo melhor.

É simples.

Boa semana, com ótimas escritas, desenhos e pinturas, pessoal! ☼

Sobre o desenho: Uma novidade: o desenho desse post foi feito no papel e depois finalizado no Ipad. Estou assistindo um curso online só para aprender a mexer no Procreate. É um mundo de possibilidades. Nesse caso específico, comecei de forma tradicional: reuni fotos de objetos da época, depois fiz um desenho no verso de uma folha de papel A4 (bloco Canson Aquarelle) com canetinha Pigma Micron 0.2. Comecei a pintar com aquarela mas me deu uma preguiça enorme, por ser um tamanho grande (prefiro pintar A5 ou A6) e pelo mundo de detalhes da pilha de jornais… O original ficou largado na minha mesa por vários meses… Com o Ipad, resolvi testar adicionar as cores e sombras no Procreate. Vejam abaixo como estava no início do processo e como foram as camadas adicionais de sombras e cores (juntei todas para facilitar a visualização):

meutcc

TCC_Layers

Abaixo, o desenho final com as duas imagens acima reunidas, e o fundo do papel clareado depois no Photoshop:

meutcc_p3

Adorei a experiência! Apesar de também ser bastante trabalhoso, colorir no Ipad tem o conforto de te permitir testar e desfazer, além de possibilitar coisas impossíveis em aquarela, como pintar letras verdes sobre um fundo escuro. No papel, eu teria que usar guache e mesmo assim seria bem difícil. Na maior parte do processo, utilizei o pincel Calligraphy – Water Pen, que já vem com o app.

Isso me lembra que preciso atualizar urgentemente o post sobre os 12 Cursos de Desenho, que está sempre entre os mais visitados do blog. Já fiz pelo menos outros 12 cursos desde então — amo ser aluna!

Se quiserem saber algum detalhe que esqueci de explicar, escrevam nos comentários por favor. ♥

Você acabou de ler “Meu TCC mudou minha vida“, escrito e ilustrado por Karina Kuschnir e publicado em karinakuschnir.wordpress.com. Se quiser receber automaticamente novos posts, vá para a página inicial do blog e insira seu e-mail na caixa lateral à direita. Se estiver no celular, a caixa de inscrição está no rodapé. Obrigada! ☺

Como citar: Kuschnir, Karina. 2020. “Meu TCC mudou minha vida”, Publicado em karinakuschnir.wordpress.com, url: https://wp.me/p42zgF-3PI. Acesso em [dd/mm/aaaa].


4 Comentários

Sentido no caos em Junho/2016!

junho2016pp

Quando eu era pequena, adorava um programa de tevê chamado Vila Sésamo. Lembro vivamente do meu quadro favorito: Ênio e Beto pegavam um pote cheio de meias e brincavam de achar os pares. Eu ficava hipnotizada e feliz de ver os dois juntando as formas e cores que combinavam.

Buscar sentido no caos me traz conforto, desde sempre. Acho que vem daí o meu senso de organização e, bem depois, o fascínio pela antropologia — que não por acaso começou nas aulas da Maria Claudia (Coelho) ensinando análise estrutural dos mitos. Que lindeza aquilo: servia para os gregos, para os índios e para os filmes de James Bond!

Esse amor pela lógica me faz insistir no otimismo, sempre. Há crianças no mundo, há idosos, há milhões de pessoas vulneráveis. Temos muitos pares de meias para formar. Há muito que fazer, pra ontem, por muitos caminhos possíveis. Tenho uma amiga querida que vai todo sábado trabalhar com jovens na periferia, anônima. Não é para divulgação, é o estar dela no mundo: trocar, agir, viver.

Bem-vindas as meias e bem-vindo o mês de junho!

4 Coisas impossivelmente-legais-bonitas-interessantes-hilárias-ou-dignas-de-nota das últimas semanas:

♥ Alice, que já usava óculos para astigmatismo, começou a reclamar que não estava enxergando o quadro na escola. Ainda tentei argumentar que ela tinha feito exame há poucos meses. — Mãe, estou dizendo que piorou! Dito e feito: diagnóstico de 0.5 graus de miopia em cada olho. Sorte nossa que ela gosta de usar óculos (e que temos uma oftalmologista ótima do plano!).

♥ Tem coisa mais deliciosa do que receber um presente de verdade pelo correio, com direito a dedicatória e florzinha? Obrigada, querido tímido amigo, pelo exemplar que será lido em breve de De Olinda a Holanda: o gabinete de curiosidades de Nassau, de Mariana de Campos Françozo (Ed. Unicamp).

♥ O desastre com o Césio 137, em Goiânia, foi proposto como tema de trabalho aos alunos do ensino médio na escola do Antônio. A peça de teatro que ele montou com um grupo de amigos tocou tanto as pessoas que foi apresentada em várias turmas. E a atividade valeu nota para disciplinas de áreas diversas como química, português, história, sociologia. Como o mundo seria melhor com um ensino assim para todos, universidades inclusive…

♥ Meu novo bebê queridinho é o Francisco, um pequeno humano que teve a sorte de nascer irmão do gato-escritor Borges. Fui visitar o carequinha da família, apertei e beijei, mas o dono da casa nem veio falar comigo! Agora ele desatou a escrever, tentando processar a novidade de dividir a vida com mais um ser estranho. Sorte nossa, que lemos o blog dele!

Sobre o desenho: Meias desenhadas com canetinha Pigma Micron Sakura 0.2 e coloridas com canetinhas diversas: Tombow brush, Koi coloring brush pen (Sakura) e Staedtler triplus color. Tentei formar uma paleta “outono”, usando só umas poucas cores para todos os desenhos. Agora podem brincar de achar os pares!