Karina Kuschnir

desenhos, textos, coisas


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A tese é viva, viva a tese

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Quando estava no mestrado e no doutorado, eu tinha um medo constante de encontrar alguém e ouvir a pergunta:

— Sobre o que é a sua tese?

Podia ser qualquer pessoa — querida, distante, acadêmica, leiga, humilde, alegre. Não importava. Se ela soubesse que eu andava estudando muito… lá vinha o questionário:

— O que você anda fazendo? Ah, é uma tese? E sobre o que é? Mas qual é o título? Resume!

É, eu sei. É difícil. Suspirar não adianta. Muita calma nessa hora. A pessoa não vai embora. Será que ela percebeu que estou suando?

Sempre fui péssima com questionários, títulos e resumos. Para vocês terem uma ideia: não fui eu que escrevi o resumo da minha tese. E logo na primeira fala da minha defesa, o que uma professora da banca disse? “– Adorei o resumo!” (E eu pensando: puxa, nem dei os créditos para o verdadeiro autor. Mas pelo menos ele estava na plateia ouvindo o elogio! Shhh, não contem pra ninguém.)

Mas e a tese? Sobre o que é mesmo?

Tem sempre aquele truque de responder com outra pergunta: “– Depende: quantas horas você tem para me ouvir?” Com essa, muitos desistem e te deixam em paz.

Porque falar da tese com tempo é até legal, mas resumir um trabalho que você levou 4 anos para fazer (4, com sorte) em apenas 1, 5, 10, ou até em 20 minutos é uma tortura! (Se vocês estão em casa preparando a apresentação do dia da defesa, sabem bem do que estou falando.)

Explicar a tese no meio do processo, ou assim que a terminamos, é como olhar um quadro impressionista com o nariz colado na tela. Para ver a forma, só se afastando um pouco e pedindo ajuda! É mais ou menos como aquele truque de começar a escrever fingindo que está mandando um carta para o melhor amigo. Me ajudou muito ensaiar a explicação sobre a tese tanto com quem eu me sentia totalmente à vontade (mãe, amiga, namorado) quanto com quem, mesmo sem intimidade, compartilhava meu interesse pela área da pesquisa. Falar, gravar, se ouvir, escrever, ler em voz alta, ensaiar. Tudo isso me ajudava a ver o quadro mais amplo. 

E tem a moldura: dependendo de qual a gente escolhe, tudo muda! Pode ser a área que enfatizamos, o recorte que escolhemos, ou até uma reavalição das teorias ou dos dados empíricos; pode também ser uma outra etapa do trabalho: como reescrever tudo para transformar em livro, numa liguagem acessível ao leitor comum. (Essa, aliás, foi a opção que escolhi, quando tive a oportunidade de publicar minha pesquisa de doutorado. Acho que só consegui porque foi uns dois anos depois da defesa.) 

Mas e aquela perguntinha “sobre o que é a sua tese?”

Hoje em dia, depois de pensar muitos e muitos anos, acho que eu gostaria de ter podido responder sem medo: “– A tese eu ainda não tenho certeza sobre o que é; mas a pesquisa eu amei fazer e posso te contar. Você tá com tempo?”

A tese é viva, viva a tese!

E para quem se interessa pelo mundo acadêmico, o blog tem dicas para aproveitar a defesa de doutorado e outros textos sobre minhas experiências… nos truques da escrita, na elaboração de projetos, nas defesas de tese, nas dores de não passar, na falta de tempo, no ensino deantropologia e desenho, no aprender a desescrever, nas agruras de ser doutoranda, na vida dos alunos, no sorriso do professor, nas lições da vida acadêmica, na importância de não ser perfeito e nas muitas saudades de Oxford 1, 2, 3 e 4!

Sobre o desenho: Desenhos feitos na época em que fiz o calendário de agosto/2015, inpirado nas gravuras do artista japonês Ando Hiroshige. Ao buscar uma ilustração para esse post, achei que essas pessoas sozinhas na chuva lembravam bem a situação dos mestrandos e doutorandos na reta final da pós: a gente se sente meio encharcado e desconfortável. Mas o artista soube olhar de longe e nos mostrar a beleza de andar e navegar mesmo assim — como a Dory, do Nemo; como a Margaret Mee no Amazonas. Para os desenhos, fiz uma aguada bem clarinha de aquarela nas páginas de um caderno Laloran. Depois desenhei a chuva e os personagens com canetinha de nanquim descartável 0.05 e 0.01 (para a chuva, usei uma canetinha gasta) e colori as roupas com aquarela mais concentrada.


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O quebra-cabeça do artista

agostopuzzle
Resolvi me dedicar ao calendário do mês porque estou numa semana de férias (com tempo!) e meu aniversário tá chegando (não que eu ligue, hehehe). Lembrei que amo quebra-cabeças e que tenho uma caixa de 250 peças de madeira com o tema da chuva na ponte do artista japonês Ando Hiroshige. O recorte das peças é uma lindeza, como vocês podem ver acima (ou na versão inteira, abaixo): todas são diferentes umas das outras e várias homenageiam as artes plásticas, como o potinho de pincéis, a paleta, o pincel e o vidro de nanquim… Adoro desenho e também adoro chuva: é uma combinação irresistível. Espero que vocês também gostem!

(No dia 21, coloquei a pecinha que traz o chapéu do barqueiro na chuva… É uma delicadeza infinita.)

* 7 Coisas impossivelmente-legais-bonitas-interessantes-ou-dignas-de-nota da semana:

* Leitores do post da semana passada me escreveram mensagens super gentis, dando força, elogiando os desenhos e me incentivando. Mil vezes obrigada a tod@s!! Como expliquei no Facebook, não estou desanimada não! Só quis compartilhar a montanha russa negativa-positiva que povooa a nossa (ou a minha? rs) cabeça no processo de aprender uma atividade nova. Devia ter enfatizado que, apesar das dúvidas, é justamente o *desafio* que me motiva, e muito! Meu maior prazer é estar sempre aprendendo, não me acomodar! Obrigada por compartilharem comigo essa jornada.

Algumas frases legais que surgiram sobre o assunto:

* “A vida é um desenho feito de múltiplas camadas. Não importa a ordem!”, escreveu a querida Yoko Nishio.

* “Acho que a gente sempre acha que está aquém do que pensamos que deveríamos ser ou fazer, mas na verdade estamos sempre além quando conseguimos seguir em frente e tentar e fazer, superar as auto sabotagens.”, comentário muito bacana e bem-vindo da Isadora Zuza.

* “One day, in retrospect, the years of struggle will stryke you as the most beautiful.”, por Sigmund Freud — Citação que me chegou pelo blog da ultra-plus-simpática-e-talentosa Lisa Congdon.

* “O artista tem que se autorizar e partir, sem culpa.  Acreditar no caminho.” Assim disse a escultora Denise Milan, num documentário do canal Arte 1.

* Uma amiga me escreveu: “Para certas atividades, só a longo prazo conseguimos ver algum resultado. Mas isso é o máximo. E uma ótima notícia. Pode demorar, mas uma hora ele aparece. E quando ele aparece ele é seu para sempre.

* A mesma amiga contou que o Chico Buarque errou uma letra de música em pleno programa ao vivo na Rede Globo. Depois de um breve silêncio, olhou para a platéia e docemente disse: “Não sei porque eu insisto nessa profissão?”. O público derreteu literalmente e aplaudiu com vontade. Veja aqui(Muito obrigada à Suzana pelo envio do link.)

* Sobre o desenho, abaixo: Minha vida (de desenhadora) mudou depois que tomei coragem e comprei um bloco de papel Arches (300 g., Hot press, que em artês quer dizer um papel bem liso, sem textura). Além de ser uma delícia de pintar, a página “desaparece” no scanner, deixando que as imagens se sobressaiam. Para as pecinhas do quebra-cabeças, usei canetinhas Unipin (0.05, 0.1 e 0.2), tintas aquarela Winsor & Newton e pincéis WN da linha University 000, 0 e 1. Foi um desenho que levou horas para ficar pronto… Cada vez mais percebo a importância de pintar em camadas finas sobrepostas. E isso leva tempo. Cada pecinha foi feita a lápis primeiro, em seguida a nanquim (contorno e imagens internas) e depois ainda pintei de duas a cinco camadas de aquarela em cada uma. É isso que permite chegar nas cores sutis do Hiroshige com alguma segurança. Na hora de fazer a borda de madeira, eu já estava exausta… Então parti para a “ignorância” e fui de marcador Pitt-brush da Faber-Castell, em dois tons de marrom. Nas primeiras tentativas achei que tinha estragado o trabalho, mas até que não! A perspectiva não é meu forte, como vocês podem ver, mas as Pitts não fizeram feio e se misturaram bem. Aprendi mais essa!

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