Karina Kuschnir

desenhos, textos, coisas


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Amor, necessidades especiais e 4 anos do blog

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Essa semana observei uma cena que me tocou. Fui levar a Alice na dentista do aparelho que fica num prédio cheio de consultórios médicos. Enquanto estávamos na fila do elevador, veio chegando uma família: um rapaz bem alto, grande e forte, com expressão de criança apesar do tamanho, falava repetidamente. A voz era grossa, mas um pouco atrapalhada. Era como um filho de 5 anos ansioso pedindo para a mãe comprar bala. Junto dele, dois adultos (na minha visão, os pais) com um ar sereno, sorridente, sem se incomodar com a atenção provocada. A mãe, bem mais baixa, segurava o rapaz com uma mão e fazia festinhas em sua barriga com a outra. De vez em quando também aproximava a cabeça do seu peito, como quem dá um abracinho. Na sua resposta à cantilena do filho, parecia entoar acalantos assim: “já vai, já vai, já vai…”, “tá tudo bem; tá tudo bem…”

Por um instante, achei que os três entrariam no elevador conosco, mas a porta se fechou. Fiquei com a imagem daquela cena, a voz da mãe se sobrepondo suavemente aos pedidos do filho, o corpo dela tocando o dele, um imenso carinho embrulhando tudo.

Já estava abraçada com a Alice no elevador, mas apertei-a contra mim mais forte, conseguindo sentir a felicidade daquele momento.

Pensei no rapaz e no aprendizado de sua família para amá-lo. E me veio a ideia de que todos nós, com as devidas proporções, temos necessidades especiais que exigem paciência, esforço e aceitação de quem nos ama e de nós mesmos.

Queria comemorar os quatro anos do blog (6/novembro) mandando uma festinha na barriga e um afago virtual sussurrado para vocês:  “já vai, já vai, já vai…”, “tá tudo bem; tá tudo bem…”

Obrigada por me acompanharem nessa jornada. Só enxergamos um post de cada vez, mas olhem o quanto a gente andou!!

7 Coisas impossivelmente-legais-bonitas-interessantes-ou-dignas-de-nota sobre amor e necessidades especiais:

♥ Para criar um coraçãozinho (como esse à esquerda) em qualquer aplicativo no computador, basta apertar Alt-3. Se vocês também são fãs de atalhos de teclado (eu amo!), vejam todos os códigos Alt possíveis aqui.

♥ Um livro maravilhoso sobre o assunto é “O filho eterno”, do Cristóvão Tezza. Falei um pouco sobre o autor aqui, mas nem de longe esgotei o quanto gosto dessa obra e de “O espírito da prosa”.

♥ Outro livro que me emocionou foi Brilhante, de Kristine Barnett, da editora Zahar. Uma marca dessa narrativa é o entrelaçamento de crise familiar e econômica (contexto de classe média baixa em 2008 nos EUA) com uma mãe porreta de criativa! Poderia render um post, mas está emprestado há tempos e ainda não voltou — quem sabe a pessoa capta essa indireta aqui! ;-).

♥ Uma referência que releio, indico e compro de presente para pais (mas que serve para qualquer tipo de relacionamento afetivo) é o “Comunicação entre pais e filhos”, da Maria Tereza Maldonado (ed. Saraiva). Tem dezenas de edições e sai baratinho na Estante Virtual. Se eu tivesse que escolher apenas um livro que me ajudou emocionalmente a ser mãe e me apoiou na busca da segurança afetiva dos meus filhos, seria esse.

♥ Para se emocionar e se deliciar com imagens incríveis, a animação A viagem de Maria  do artista espanhol Miguel Gallardo, sobre sua filha. Conheci o autor num evento dos Urban Sketchers em Barcelona e me apaixonei pela sua forma de desenhar e enxergar o mundo. Tenho também o livro Maria e eu, que inspirou o filme, e é um dos meus quadrinhos preferidos de todos os tempos.

♥ Ainda do Miguel Gallardo, o vídeo Academia de Especialistas, um jeito inovador de falar sobre as crianças e seus potenciais tão singulares.

♥ Para fechar a listinha: lembro que a campanha de doações de fraldas para crianças com necessidades especiais da obra social Dona Meca continua acontecendo! Já temos 800 pacotes, mas a meta é conseguir 1000 — quantidade que eles precisam para o ano de 2018. As informações para doar, com depósito em conta ou cartão de crédito, estão aqui.

 

Sobre o desenho — Aquarela com misturas de tintas rosas e amarelas, sobre um papel de algodão antigo (não sei a marca). Achei que combinavam com a ideia de flores, no clima de aniversário do blog. Andei pintando essas transparências como uma forma de me distrair na recuperação da cirurgia. É um bom treino de paciência pintar a primeira camada, esperar secar bem e só depois voltar a pintar por cima. É assim que surge o efeito de transposição. O original é bem mais sutil do que o digital, mas não tive domínio de edição de imagem suficiente para equiparar os dois. Aliás, se alguém souber de uma aula de digitalização voltada para pintura especificamente, estou aceitando indicações!

Minhas desculpas pelos atrasos dos posts, mas a culpa é da NET. Todos os dias a minha internet cai ou fica instável depois das 16:00 horas. Haja meditação. O blog fica super prejudicado. Apesar de adorar ler e pintar (coisas que posso fazer sem internet), é enervante não poder decidir quando ficar offline. Sei que vocês me entendem… Durante a escrita desse post, a internet caiu umas 37 vezes.

Você acabou de ler “Amor, necessidades especiais e 4 anos do blog“, escrito e ilustrado por Karina Kuschnir e publicado em karinakuschnir.wordpress.com. Se quiser receber automaticamente novos posts, vá para a página inicial do blog e insira seu e-mail na caixa lateral à direita. Se estiver no celular, a caixa de inscrição está no rodapé. Obrigada! 🙂

Como citar: Kuschnir, Karina. 2017. “Amor, necessidades especiais e 4 anos do blog”, Publicado em karinakuschnir.wordpress.com, url: https://wp.me/s42zgF-amor. Acesso em [dd/mm/aaaa].


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Tempo de crescer

brasil pequeno amostra

Essa é de quando a Alice tinha só quatro aninhos:
Alice — Mãe, você tá triste?
Eu — Mais ou menos, filha. Tô preocupada com a vovó.
Alice — Ah, mãe, não fica preocupada não! A vovó é adulta: ela se vira!

Tive que rir da sabedoria da moleca!

Será que a gente se desgasta tanto pensando nos problemas dos outros para não pensarmos nos nossos? Será que é mais fácil ficarmos preocupados com o que não podemos resolver, ao invés de partir para as soluções daquilo que está ao nosso alcance?

De tanto eu contar essa história, virou bordão aqui em casa dizer: “Ela é adulta, ela se vira!” (E serve também na versão masculina ou no plural, claro!) Até alguns amigos já adotaram a expressão; porque é perfeita para aquelas pessoas que se fazem de vítimas quando na verdade deveriam ser responsáveis pelas consequências dos seus atos. É perfeita também para nós mesmos, quando precisamos de um ânimo extra para sermos mais crescidinhos. Vale ainda para simplesmente desencanar de alguma preocupação boba que insiste em martelar na nossa mente.

A universidade está o tempo todo me lembrando que preciso ser a adulta da relação. Uma boa parte da sua população vive como se estivesse na “Terra do Nunca”, para usar a feliz expressão do Arthur Dapieve. É uma terra de “meninos perdidos” que não querem crescer, que ficam chorando pelos cantos porque a mamãe não chegou para contar histórias, não resolveu seus probleminhas pessoais, seus atrasos, seus esquecimentos, suas negligências, seus trabalhos incompletos, oh, e nem recuperou o pen-drive que foi comido pelo crocodilo Tic-Tac!

Na internet, é mais ou menos a mesma coisa. Reclamam do Facebook como se não existissem os botões block, unfollow, desconectar, turn off!  Concordo que é difícil não ver, não clicar, não comentar o fast-post da hora. Mas crescer tem disso: a consciência de que você é que aperta os botões possíveis.

E foi um botão escrito SIM que apertei quando chegou pelo Facebook a mensagem da linda adulta-menina-atriz-palhaça-poeta-e-mãe Genifer Gerhardt! Era uma vez um mundo encantado de personagens, histórias e miniaturas incríveis. Me apaixonei à distância pelo seu projeto de ter um carrinho chamado Tempo: um tempo para criar, encantar, narrar, viajar, trocar. Desenhei e pintei essas imagens todas, e lá foi ela percorrer as estradas com o seu “Brasil pequeno itinerante” ouvindo, tocando e cantando; fazendo rir e fazendo chorar. A Genifer é o tipo de adulta que mais admiro: tá no volante da sua vida, mas não esquece de aprender, brincar e compartilhar. Obrigada, querida, pelo convite para viajar contigo! Vocês podem acompanhar essa viagem no Tempo e conhecer mais da poesia da Genifer e do Timtim no blog brasilpequenoitinerante.blogspot.com, no Youtube (filmes lindos!!) e no Facebook.

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2 Coisas impossivelmente-animadoras-bonitas-emocionantes-e-dignas-de-nota da semana passada:

* O blog fez dois anos no dia 6/11/2015! Comemorei por dentro, quietinha, mas feliz. Persistir é um exercício de teimosia, mas sobretudo de muita humildade — de encontrar forças para recomeçar toda semana, mesmo quando falho. E a realidade foi bem essa: justo na semana do aniversário, não dei conta de publicar o post!

* O lado bom: a falta da semana passada tem tudo a ver com a existência do blog. Foi através dele que acabei me envolvendo na campanha #cancerinfantiltemcura — um trabalho de pessoas voluntárias incríveis, com quem tive a sorte de poder colaborar. Foi muita emoção participar da caminhada no domingo, vendo tanta gente feliz, celebrando a vida, e vestindo uma camiseta com meus desenhos! É boa demais a sensação de ser útil nesse mundo. (A camiseta continuará cumprindo seu papel de gerar renda para as crianças e jovens em tratamento, como vocês podem ver na lateral do blog.)

Sobre os desenhos: As imagens que abrem esse post foram feitas a partir de fotografias do universo da Genifer Gerhardt. O caminhãozinho Tempo foi feito a partir de fotos de várias caminhonetes, com a ajuda das ideias da própria Genifer para o projeto de reforma. Em ambos os casos, desenhei primeiro a lápis, depois passei canetinha nanquim 0.05, em papel Arches 300gr Satinée. No final, fiquei vários dias pintando com aquarela, até chegar nas cores que queria. As imagens aqui estão em baixa resolução porque os arquivos em boa qualidade são para uso do projeto.