Karina Kuschnir

desenhos, textos, coisas


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Caderninho de consumo para pensar Cultura e Razão Prática de Sahlins – Ideia para aula lúdica (5)

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“Nenhum objeto, nenhuma coisa é ou tem movimento na sociedade humana, exceto pela signficação que as pessoas lhe atribuem.” (M. Sahlins)

Pessoas queridas, aí vai uma nova ideia para aula lúdica. A base é o texto  “La pensée bourgeoise: a sociedade ocidental como cultura”, de Marshall Sahlins, um dos capítulos do livro Cultura e razão prática (Ed. Zahar). Eu já tinha uma apresentação com imagens e citações para essa aula, mas em 2019-1 inventei um “Caderninho de Consumo”, feito pelos próprios alunos, cujo conteúdo depois é debatido em sala e por escrito. A proposta dessas aulas lúdicas é compreender conceitos antropológicos por meio de atividades divertidas, que valorizem a autonomia de criação e reflexão dos estudantes.

Segue o “plano de aula” que prevê dois encontros e um trabalho escrito. Os arquivos de apoio também estão abaixo. Fiquei feliz de fazer um post útil, pra variar. Dá trabalho, mas é um dos meus objetivos de vida e do blog. 😉

Objetivos da proposta:

. Produzir manualmente um “Caderninho de Consumo” para o registro de todos os itens consumidos pelos estudantes durante uma semana.

. Refletir (através dessa prática) sobre como e quais tipos de coisas ou situações consumimos, prestando atenção em seus significados, classificações e regularidades nos espaços e tempos do cotidiano.

. Perceber que existem diferentes tipos de consumo individual, mas também padrões coletivos. Buscar entender esse ponto através do compartilhamento das experiências da turma primeiro; e depois pelos argumentos do texto.

. Empreender uma experiência de aula que gere conhecimento e transforme, nos fazendo sentir que aprendemos algo, ou seja, realizar uma prática associada à reflexão.

. Lembrar que uma atividade de pesquisa pode ser divertida e interessante; pode ser vivida como um enigma, um quebra-cabeça que desvendamos.

. Fortalecer a autonomia: mostrar que podemos e devemos pensar a partir dos nossos dados, classificá-los e interpretá-los.

Preparação antecipada:

. É bom a professora treinar fazer o caderninho antes, seguindo o tutorial e/o os vídeos indicados abaixo.

. Caso seja possível, treine um estudante para ser monitor nessa aula, pois ajuda ter apoio para orientar os alunos e fazer os cortes.

Material necessário para a Aula 1:

. Papeis A4 brancos (1 folha por estudante, mais algumas extras).

. Algumas tesouras

Material necessário para a Aula 2 (que deve ocorrer 7 dias depois):

. Notebook e Projetor de datashow, além de um pen drive com o PDF indicado abaixo.

Dinâmica da Aula 1 – Como conduzo:

. Entrego uma folha de papel A4 para cada aluno e demonstro cada etapa das dobraduras bem devagar. Espero que todos completem uma etapa antes de ir para a próxima, e auxilio no corte do papel. Segue o tutorial abaixo em imagem e em formato .pdf para imprimir:

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. Sempre lembro que não precisa ficar perfeito, e ofereço uma folha nova se alguém fica se queixando que o seu está “muito ruim”.

. Solicito que deixem a capa em branco e escrevam (com letra pequena) nas 7 páginas seguintes as datas dos próximos 7 dias. (Por exemplo, o caderninho da Laís, que abre o post, foi feito numa aula no dia 26/03/19. Na segunda página, vocês podem ver que ela anotou 27/03, e foi seguindo nas demais: 28/03, 29/03, 30/03/ 31/03, 01/04 e 02/04). É importante preencher as datas ainda na aula para os alunos saberem exatamente os dias em que terão que registrar no caderno. Outro detalhe: colocar o nome na primeira ou na última página.

. Sobre os registros, tento criar um clima de brincadeira, sugerindo que anotem, colem coisas, guardem notas fiscais, usem cores, etiquetas etc. 

. Observo que consumir é diferente de comprar. Podemos consumir algo que nos foi dado de presente, ou feito por alguém da família por exemplo. É um diário sobre isso.

. Trocamos ideias sobre o que eles acham que vão consumir nos próximos dias: surgem comidas, remédios, passagens de transportes, impressão de pdfs ou xerox, e também presentes, roupas, bebidas, ingressos para eventos e até substâncias consideradas ilícitas. Vale também consumo de celular, aplicativos, Uber etc.

. Peço que leiam o capítulo do Sahlins durante a semana em que estiverem fazendo o diário.

Dinâmica da Aula 2 – Como conduzo:

. Mando uma mensagem para a turma lembrando que é imprescindível levar o caderninho e ler o texto do Sahlins para participar dessa segunda aula.

. Abaixo, vejam o exemplo do caderno da Laís Batista Passos, que cedeu suas imagens para esse post (obrigada!). A disciplina era Questões Antropológicas Contemporâneas para o curso de Licenciatura em Ciências Sociais do IFCS/UFRJ, mas a Laís é do curso de Design. Seu caderninho reflete uma familiaridade com a produção visual, a colagem e o desenho que a maioria da turma não tinha, claro. Essas imagens me ajudam a demonstrar a proposta aqui no blog, mas fazer um caderno “bonito” não é o objetivo principal da aula.

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. Para começar, peço que os alunos falem sobre o que chamou sua atenção durante o processo. Solicito que leiam parte de suas anotações para a turma. Tivemos momentos bem divertidos sobre a diferença entre finais de semana e dias úteis, sobre gastar tudo num dia com os amigos e depois não ter dinheiro pro ônibus, sobre rotinas e vícios etc.

. Depois, sugiro que eles troquem caderninhos entre si. Geralmente, entre os amigos mais próximos, se as anotações forem muito pessoais.

. Em seguida, passo à apresentação do Power Point, que traz frases do Sahlins e imagens que busquei para dar visualidade aos argumentos do autor.

. Segue para download a minha sugestão de Apresentação do texto em aula.

. Não vou explicar aqui os principais pontos do texto, pois já estão na apresentação acima.

. Ao longo da aula, continuo conversando com os estudantes sobre as anotações de consumo deles. (Em semestres anteriores, já fiz nessa etapa uma análise das roupas na turma. É uma atividade bacana, mas exige um grupo menor, com uma certa confiança coletiva que nem sempre temos no ambiente universitário atual.)

Trabalho escrito:

. Para amarrar o debate, peço que eles façam um trabalho escrito em casa (mas poderia ser em uma 3ª aula, com consulta), analisando o próprio “caderninho de consumo” em diálogo com o texto do Sahlins. (Prefiro pedir para casa para poder ler o trabalho digitado e não à mão.)

. Alguns alunos pedem para refazer o caderno, pois não se dão conta da sua importância (muitas vezes porque não leram o texto a tempo). Sempre deixo. Acho um ganho enorme quando um estudante quer reelaborar um exercício. Mesmo que a motivação seja a nota, para mim, significa um investimento afetivo (tanto por ser fruto de uma auto-avaliação, quanto pelo tempo dispendido em pensar e refazer a proposta).

. Na aula seguinte, peço que me entreguem o caderninho e um trabalho escrito digitado de cerca de 2 páginas. (Lembrete: levar clipes extras para a aula de receber caderninhos e trabalhos porque eles esquecem de juntar!)

Avaliação:

. Procuro avaliar se eles conseguiram compreender a teoria relacionando-a com a prática, de preferência, sem ficar apenas no plano individual. Esse é o meu principal critério como docente, principalmente em aulas que envolvem atividades lúdicas.

. Em geral, atribuo uma pontuação pequena para esses exercícios: de 2,5 a 3,0 pontos na primeira nota. Procuro avaliar se o estudante compreendeu o argumento central do texto, e se se empenhou em refletir e realizar a tarefa, incorporando as sugestões de temas e composição da aula 1. Não faço avaliação estética.

Espero que tenham gostado e que seja útil. Experimentem, mandem comentários, sugestões e notícias das aulas de vocês. Bom começo de semestre a todos! ☼

Sobre o texto da aula:  SAHLINS, Marshall. 2003 [1976]. “La pensée bourgeoise: a sociedade ocidental como cultura”, In: Cultura e razão prática. Rio de Janeiro, Zahar, p.166-203.

Material para download feito por mim:
Tutorial sobre como fazer o caderninho: baixar PDF.
. Apresentação sobre o texto de Sahlins: baixar PDF.

Links para tutoriais de caderninhos no YouTube:
• Em português: https://youtu.be/uICW1MXNR1E?t=53
• Em inglês: https://youtu.be/ptT6ixIwJbU

Esse é o quinto post de uma série sobre aulas lúdicas:

E talvez vocês gostem de outros posts com a tag mundo acadêmico.

Sobre o caderno da Laís: O caderninho que abre o post foi feito pela aluna de graduação em Design da UFRJ, Laís Batista Passos. Ela seguiu o tutorial em aula e depois fez desenhos à mão livre e colagens (capa, contracapa, roupa amarela, pedaço de papel). Cliquem nas imagens para ver maior!

Sobre o tutorial de como fazer o caderno: Desenhos feitos por mim, primeiro a lápis, depois passados a limpo com uma caneta de naquim descartável 0.5 da Derwent. Tracejado das dobras feito com canetinha Pigma Micron 0.2, setinhas azuis e corte vermelho com Pigma Micron 0.2, sombras internas e na tesoura com caneta pincel Tombow. Depois escaneei na Epson L396 e ajustei tudo no Photoshop, onde também fiz as legendas e o título. Espero que esteja fácil de seguir. Se não, escrevam as dúvidas nos comentários por favor.

Você acabou de ler “Caderninho de consumo para pensar Cultura e Razão Prática Sahlins – Ideia para aula lúdica (5)“, escrito e ilustrado por Karina Kuschnir e publicado em karinakuschnir.wordpress.com. Se quiser receber automaticamente novos posts, vá para a página inicial do blog e insira seu e-mail na caixa lateral à direita. Se estiver no celular, a caixa de inscrição está no rodapé. Obrigada! ☺

Como citar: Kuschnir, Karina. 2019. “Caderninho de consumo para pensar Cultura e Razão Prática Sahlins – Ideia para aula lúdica (5)”, Publicado em karinakuschnir.wordpress.com, url: https://wp.me/p42zgF-3Lj. Acesso em [dd/mm/aaaa].


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Limonadas

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Pessoas queridas, obrigada pelas mensagens depois do post tristinho da semana passada. Precisamos resistir, vocês têm toda razão. ♥ Como me disse uma amiga na semana passada, depois de recebermos uma má notícia no trabalho: bora pensar como transformar esse limão em limonada. 

Resolvi tentar um formato-conversa, para não me exigir tanto em termos de tempo e produção. (Vou fingir que criei uma newsletter, porque tá na moda, mas na verdade é só um post no blog mesmo, que vocês podem receber automaticamente se colocarem o e-mail na caixinha de inscrição.)

A falta de imagens boas e originais é uma das principais dificuldades que venho enfrentando para produzir conteúdo semanal. Continuo desenhando nos meus caderninhos de bolsa, mas nunca acho que os rabiscos estão bons o suficiente para o blog. (Vejam que absurdo, logo eu que dou aula sobre não existir desenho ruim!). Além disso, nos dias de ateliê (já contei que voltei para as aulas da Chiara?), tenho pintado pra relaxar, reproduzindo imagens de outros artistas para aprender suas técnicas. Por isso não dá para publicar aqui.

Portanto, meu desafio é voltar a criar imagens para o blog regularmente. Saudades de começar meu dia desenhando e pintando! Desde setembro de 2018 perdi o ritmo. Além dos motivos que vocês já sabem, em 2019 assumi um cargo administrativo bem puxado, que toma mais da metade da minha semana, sem contar aulas e todo o resto na universidade. Não reclamo. Gosto de trabalhar e me sinto honradíssima de ter um emprego, ainda mais esse cuja atividade fim é estudar e formar.

Não sei se vocês sabem, mas lá na pre-história da minha vida, cursei dois semestres de Design. Depois fiz outro vestibular e mudei para Comunicação. Na hora da matrícula, não me perguntem por quê, optei por Publicidade. Um dia, o professor pediu um trabalho sobre profissionais de agências. Quase no finalzinho de uma entrevista, um veterano publicitário me falou uma coisa que nunca esqueci:

— Minha filha, você parece tão inteligente… Você quer passar o resto da sua vida vendendo água com corante e açúcar? [E apontou uma Coca-Cola.] Não siga essa profissão!

Não sei se foi nesse dia, ou se caiu a ficha porque eu gostava das disciplinas teóricas. No semestre seguinte, mudei para Jornalismo. Amei o curso, que tinha um currículo considerado antiquado porque  a maioria das disciplinas era oferecida por antropólogos, sociólogos, historiadores e filósofos. Imaginem, foi a minha sorte.

Por tudo isso, e por minha breve experiência no mercado, agradeço todos os dias por ter um trabalho que, embora árduo, não me obriga a vender algo.

Nossa, essa carta deu voltas, desculpem se ficou sem rumo! E eu que achava que ia escrever sobre o limão e a limonada… Fica para outro dia!

Queria indicar para vocês novamente os conteúdos da Nátaly Neri, do canal Afros e Afins. Ela fez um vídeo que me tocou muito sobre “aprendizados não lineares”; sobre como, às vezes, temos muito a aprender olhando com generosidade para nossos eus passados. Me ajudou demais nessa fase de achar novos caminhos para a minha própria produção de conteúdo. Aqui vai o link.

Eu teria um monte de outras indicações, pois tenho lido bastante (viva) e consumido coisas legais na internet. Mas fica para a próxima. Sou lenta, gente. Não dá para ficar seis horas escrevendo e editando um post. Esse já está em 2h47min, sem contar o tempo de rever e produzir a imagem. Por isso, resolvi que *talvez* faça posts menores e mais frequentes (suspiros-alert: promessas virtuais são tão perigosas! E isso me lembra outros dois vídeos ótimos e engraçados da N. Neri, justamente sobre cumprir desafios na internet: tem esse sobre procrastinação e esse sobre ficar 7 dias offline.) 

Então, combinado: nada de sofrermos sozinhos. Sigamos dando abraços apertados, desses que dão força para continuar, seja qual for a tempestade.  E, para quem quiser e puder, doações da vida real: o Rene Silva está reunindo recursos para compra de cobertores; e a Winnie Bueno faz um “Tinder de livros”, uma campanha para encontrar doadores de livros para pessoas que precisam. ♥

Sobre o desenho: Esse limão foi pintado por observação num workshop de tinta guache que fiz no Ateliê Chiaroscuro em janeiro/2019. Adorei a experiência. O papel foi parte do material oferecido pela Chiara, mas tenho quase certeza de que é um bloco Hahnemühle tonalizado, tipo kraft.

Você acabou de ler “Limonadas“, escrito e ilustrado por Karina Kuschnir e publicado em karinakuschnir.wordpress.com. Se quiser receber automaticamente novos posts, vá para a página inicial do blog e insira seu e-mail na caixa lateral à direita. Se estiver no celular, a caixa de inscrição está no rodapé. Obrigada! ☺

Como citar: Kuschnir, Karina. 2019. “Limonadas”, Publicado em karinakuschnir.wordpress.com, url: https://wp.me/p42zgF-3KC. Acesso em [dd/mm/aaaa].


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39 exercícios de antropologia e desenho num livro só – Drawn to see de Andrew Causey

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Taí um livro perfeito para quem ama antropologia e desenho — ou só antropologia ou só desenho! Há tempos quero compartilhar com vocês a leitura dessa obra adorável, mas estava aguardando a publicação oficial de uma resenha que escrevi para a Mana. Agora saiu — cliquem aqui para acessar ou leiam abaixo!

Vale a pena também acessar o sumário completo da revista, com vários artigos e resenhas interessantes. Agradeço à editora deste número, Renata Menezes, pelo acolhimento da proposta, assim como à revisora que contribuiu para melhorar o texto.

Queria registrar também um agradecimento especial a Andrew Causey por esse livro tão bonito e generoso! Sinto-me honradíssima de ver meu trabalho citado em seus comentários (e na bibliografia) como uma das raras iniciativas de ensinar antropólogos a desenhar. Além de motivar meus alunos em sala de aula,  meu objetivo acadêmico é espalhar ideias e incentivar outras pessoas, onde quer que elas estejam, a tentar algo novo e criativo para produzir e compartilhar conhecimento.

Assim que terminei a leitura, fiquei sonhando com uma editora brasileira que pudesse traduzir e publicar essa pequena joia da antropologia contemporânea. Se conhecerem alguém, compartilhem a resenha e destaquem esse parágrafo:

O livro tem impacto muito maior do que seu objetivo declarado de “ensinar o desenho linear, como uma das opções para coletar, registrar, documentar e apresentar a informação etnográfica”. Tínhamos até o momento bons livros de ensino de desenho, de um lado; e bons livros de antropologia, do outro. (…) Mas esta é a primeira obra de fôlego a enfrentar de forma densa — tanto teórica quanto empírica — a maneira de unir o melhor dos dois mundos.

Para quem está acostumado a me ler apenas no blog, não estranhem o tom um pouquinho mais formal. De vez em quando também preciso alimentar meu Lattes… 😉 Obrigada desde já pela leitura!

Kuschnir, Karina. (2018). Resenha de CAUSEY, Andrew. 2017. Drawn to See. Drawing as an Ethnographic Method. Mana, 24(1), 271-275. https://dx.doi.org/10.1590/1678-49442018v24n1p271

Numa época de desconstruções e desalentos, Andrew Causey nos oferece uma dádiva. Drawn to See: Drawing as an Ethnographic Method é precioso para quem quer continuar acreditando que a antropologia é possível sem abdicar de uma postura crítica, reflexiva e renovadora. A obra enfrenta com seriedade os problemas teóricos do projeto etnográfico, e propõe soluções metodológicas amparadas em situações vividas no trabalho de campo do autor ou dos autores citados na excelente bibliografia. Textos e ilustrações formam um conjunto de leitura extremamente agradável. Trata-se de um caso raro de obra que consegue refletir, experimentar, demonstrar, propor sem deixar de apontar lacunas e nos fazer sorrir pelo caminho.

Drawn to See é teórico-metodológico, mas também é memorialista e pessoal — um diário escrito e gráfico do autor sobre sua trajetória como etnógrafo. Seu valor está nessas múltiplas camadas narrativas, nas quais vida, pesquisa e obra surgem imbricadas numa saudável antropologia. A etnografia é entendida não apenas como produção de conhecimento, mas de relações, afetos, sensações, visualidades, compartilhamentos, respeito e comunicação. O aprendizado do desenho é central, mas ao mesmo tempo secundário ao objetivo de nos ajudar a ver o mundo (visível e invisível) de modo mais aprofundado, focado e ativo, numa busca por conciliar observação e participação — dois pilares da metodologia antropológica.

O livro divide-se em sete capítulos, pelos quais se espalham 72 ilustrações. Além do debate sobre antropologia, imagem e pesquisa, a obra tem como eixo central ensinar antropólogos a desenhar. Causey inclui 39 exercícios, que chama de “Etudes” (Estudos), palavra que remete às partituras feitas para se aperfeiçoarem as técnicas e as habilidades dos músicos. Seu objetivo não é formar artistas, mas sim estimular o uso do desenho linear como modo de contribuir para a pesquisa de campo. Os materiais sugeridos são simples. Lápis, papel comum, canetinha de ponta porosa e guardanapos são as únicas coisas necessárias para realizar as propostas. Adiantando-se às possíveis resistências de seus leitores acadêmicos, o autor propõe uma lista das predisposições necessárias para começar: relaxar, focar (sentir), concentrar, desacelerar, aceitar (sem avaliações, sem notas, sem comparações), se interessar (ter curiosidade), desenhar o que se vê, desprender-se do ego, praticar.

Como se percebe ao longo da leitura, tais conselhos são fruto das experiências do autor ao longo de sua trajetória como artista e antropólogo. Hoje professor de Antropologia Cultural do Columbia College de Chicago, Causey fez mestrado e doutorado na Universidade do Texas, Austin, local cuja tradição ajuda a compreender sua crença no projeto etnográfico, felizmente, sem deixar de enfrentar seus paradoxos e dificuldades. Sua pesquisa de campo se deu entre os Toba Batak, em Samosir, ilha vulcânica localizada no interior do Lago Toba, ao norte de Sumatra, Indonésia. Um lugar incrível (experimentem digitar Samosir Island nas imagens do Google) que atrai turistas do mundo inteiro, situação que acabou sendo o foco da pesquisa de Causey, em 1994-1995, com um retorno em 2012. O etnógrafo tornou-se aprendiz de Partoho, artista local, escultor em madeira, que, junto com sua esposa Ito, foi seu principal interlocutor no campo.

A leitura permite acompanharmos a ressignificação do uso do desenho na antropologia desde os anos 1990, quando a pesquisa inicial foi feita, e os anos 2015-2017, quando o livro é encomendado, escrito e publicado. Na época em que terminou o doutorado, Causey chegou a expor no campus da universidade seus desenhos e pinturas feitos durante a etnografia. As imagens que retratavam pessoas, no entanto, tiveram de ser retiradas do local, sob o argumento de que não eram sérias o suficiente e poderiam mostrar-se ofensivas à população estudada. Naquela altura, pouco se discutia a possibilidade de se utilizarem os registros gráficos (croquis, esboços, desenhos, aquarelas, pinturas) como parte do conceito de antropologia visual, então voltada para o uso da fotografia e do filme.

Um dos grandes méritos de Drawn to See é contribuir para a ampliação e a consolidação da ideia, cada vez mais fortalecida na literatura recente, de que a imagem desenhada pode — e deve — voltar a assumir mais protagonismo no empreendimento etnográfico. O livro tem impacto muito maior do que seu objetivo declarado de “ensinar o desenho linear, como uma das opções para coletar, registrar, documentar e apresentar a informação etnográfica” (:3, tradução minha). Tínhamos até o momento bons livros de ensino de desenho, de um lado; e bons livros de antropologia, do outro. Existem bons artigos sendo publicados sobre a relação entre as áreas, sem dúvida. Mas esta é a primeira obra de fôlego a enfrentar de forma densa — tanto teórica quanto empírica — a maneira de unir o melhor dos dois mundos.

Na esfera do desenho, os 39 Estudos propostos são claros e acessíveis. O objetivo do autor é que sejam experimentados por todos. Nesse sentido, parece-me acertada a escolha do desenho linear como eixo dos exercícios, uma vez que é a linguagem de produção gráfica mais próxima do universo de pessoas alfabetizadas. Uma das propostas inovadoras e interessantes de Causey é a utilização de formas essenciais baseadas em números e letras. A ideia de recorrer a elementos primários (pontos, retas e curvas) para elaborar figuras complexas não é nova, mas o apoio em formas numéricas e alfabéticas é uma bem-vinda criação do autor. Junto com as chaves de percepção dos Estudos 1 e 2, as propostas 3 e 4 formam um conjunto simples mas bastante eficaz para se desenvolver a habilidade de enxergar pelo desenho.

Nos 35 Estudos seguintes, Causey alterna sugestões mais relaxadas com outras mais elaboradas, numa coleção estimulante e divertida, mas também reflexiva e cuidadosa. Os exercícios têm um bom destaque gráfico no livro, pois estão impressos em fundo cinza, com ilustrações acompanhando a explicação textual. A série e todas as 72 imagens da obra estão numeradas de forma clara e contêm a duração aproximada de sua realização. O tempo estimado da grande maioria dos Etudes (33 em 39) é inferior a 10 minutos; apenas dois levariam de 10 a 15 minutos; e quatro não têm um intervalo definido. A curta duração é atraente para os novatos e estratégica para provar, mesmo aos mais céticos, que não é preciso 10 mil horas de prática para produzir desenhos etnograficamente relevantes. A ideia é pavimentar um caminho para ver, enxergar, perceber, como enfatiza o título do livro.

Pelo lado da antropologia, Drawn to see aborda questões complexas com a mesma clareza com que apresenta os exercícios visuais. Como destaquei acima, Causey enfrenta a problemática da dupla tarefa de “observar” e “participar”, assim como inúmeras questões associadas ao projeto etnográfico. Da necessidade de atenção, registro e memorização, passando pelo diálogo e pelas subjetividades de pesquisadores e interlocutores, o autor aborda problemas na produção de conhecimento antropológico, nas ideias de representação, temporalidade, movimento, memória, corporalidade, entre outras. E tudo isso alinhavado por um profundo comprometimento com a ética na etnografia, como mostram os vários exemplos que nos convidam a aprender com as dúvidas, as falhas e as dificuldades do próprio Causey em campo. Chama a atenção o tom equilibrado e sensato da linguagem do autor, demonstrando respeito, empatia e interesse pelo universo investigado, sem sinal da soberba, do paternalismo e da assertividade messiânica que infelizmente tanto frequentam a literatura antropológica.

Causey_pFigura 1: Desenho de Andrew Causey feito a partir de suas lembranças de campo. Na legenda original se lê: “Ito, debilitada pela artrite, senta em sua mesa de cozinha, de sua casa reconstruída, falando no celular sem parar com um de seus oito filhos. Ela me entrega o telefone sem me dizer com quem estou falando, dizendo: ‘Omong! Omonglah sama dia!’” (Imagem cedida pelo autor para esta resenha).

Esse mesmo senso ético pode ser observado na forma como o autor lida com sua rede de apoio intelectual e com a bibliografia consultada. Cada imagem, quando não de sua autoria, é publicada com aviso de permissão e referência ao/à autor/a ou fonte. As citações aos autores, aos artigos e às obras consultadas são claras e precisas, sempre com indicação das páginas correspondentes. O destaque de cada uma, no texto ou em notas, é compatível com sua relevância para o argumento em pauta. Muitos Estudos indicam as fontes que os inspiraram, sejam obras ou comunicações orais. A pesquisa bibliográfica é em si mesma um empreendimento notável do livro, pois traz um levantamento exaustivo, especialmente em língua inglesa. É consulta indispensável para todos os que se interessam pelo tema.

Entre as muitas qualidades de Drawn to See estão as histórias do trabalho de campo do autor. Atuando como aprendiz de Partoho, Causey percebe o quanto seus olhos não veem da mesma maneira. Ao copiar um desenho do mestre, é corrigido por registrar “errado”, num senso estético alheio aos Toba Batak. Divertimo-nos em vários momentos do livro com as críticas dos interlocutores às imagens do etnógrafo, ora por não perceber detalhes culturalmente relevantes, ora por representar de forma irônica, errada, distorcida ou fragmentada aquilo que lhes parecia correto, decente ou óbvio. Numa das ocasiões, algumas mulheres tomam o caderno do pesquisador e exigem que o retrato de uma delas seja refeito até ficar satisfatório.

A reação de Causey é animadora: desenhar é aceitar riscos; é gerar experiências memoráveis e revolucionárias; é pressupor que o pesquisador “não sabe o que não sabe”. As imagens são notas, documentos de campo que se dão a ver. Não é preciso se desculpar, mas sim aprender com os diálogos, as reações e as interpretações. Todo desenho etnográfico vale a pena, desde que seja uma criação ética, moral e intelectualmente responsável. Sob este aspecto, é tocante o caso de uma entrevista feita pelo etnógrafo com um veterano de guerra, viúvo, cuja fama social era a de arrogante e orgulhoso. Desse encontro, que reverte suas expectativas, o autor não faz registros gráficos ou textuais. Olha nos olhos, exercita sua visão periférica na penumbra, aceita a memorização e o silêncio como parte da experiência. Nem tudo, afinal, pode (ou deve) ser registrado.

Nos capítulos finais, Causey se pergunta como ultrapassar as superfícies, como trazer à tona as estruturas e as motivações que animam pessoas, coisas e animais. Suas respostas em textos e imagens são de uma rara beleza: revelam-se mais como perguntas do que soluções; são imperfeitas e tentativas; são portas que se abrem para dar sentido ao mundo — possibilidades dentro do impossível projeto etnográfico.

Sobre o livro: CAUSEY, Andrew. 2017. Drawn to See. Drawing as an Ethnographic Method. University of Toronto Press. Na época, o Andrew Causey me escreveu gentilmente avisando da publicação e dizendo que a editora iria me enviar um exemplar. Mas o volume provavelmente se extraviou no correio, pois nunca chegou, chuinf… Então corri para comprar na Amazon mesmo. Link aqui: http://a.co/8o3cwuf

Sobre o desenho: Fiz hoje essa capinha para ilustrar o post. Achei um bloco de papel de aquarela A5, da Cotman. Era um pouco texturado demais, daí minha dificuldade nas sombras… Desenhei um rápido rascunho a lápis, depois contornei com canetinha Pigma Micron de nanquim permanente 0.2 e fiz alguns detalhes com a 0.05. Pintei as cores da capa com várias aquarelas, depois fiz as partes cinza escuro com guache, assim como as letrinhas vermelhas e brancas. Para os rascunhos de Causey na capa, usei uma canetinha de naquim permanente Unipin bem velhinha, para dar esse ar de lápis grafite do original.

Você acabou de ler “39 exercícios de antropologia e desenho num livro só – Drawn to see de Andrew Causey“, escrito e ilustrado por Karina Kuschnir e publicado em karinakuschnir.wordpress.com. Se quiser receber automaticamente novos posts, vá para a página inicial do blog e insira seu e-mail na caixa lateral à direita. Se estiver no celular, a caixa de inscrição está no rodapé. Obrigada! ☺

Como citar: Kuschnir, Karina. 2018. “39 exercícios de antropologia e desenho num livro só – Drawn to see de Andrew Causey”, Publicado em karinakuschnir.wordpress.com, url: https://wp.me/p42zgF-3G6. Acesso em [dd/mm/aaaa].


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Nosso Apocalypse Now de todo dia

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O que é melhor: estar correta ou ser gentil?; ter certeza ou compaixão?; indignar-se ou dialogar?

Tantas e tantas vezes optei pelas segundas respostas: gentileza, compreensão, diálogo… São valores que aprendi a amar, mesmo sabendo seu custo. Em algum momento da vida me disseram e eu acreditei: enquanto há palavra, não há guerra.

Será? Quantas injustiças somos capazes de suportar com doçura, compaixão e diálogo? Até quando seremos tratados como lixo respondendo com serenidade, choro ou apatia?

Sei que preciso continuar acreditando que educação, delicadeza, arte, ciência, política, amor e empatia podem construir um mundo melhor para todos os seres. Mas às vezes o vidro embaça, o pneu fura e o macaco quebra.

Trouxe esse colar para abrir o post porque ele vem de um lugar mágico. Tem pessoas, abraços, caminhos enrolados, rotas curtas e longas, paciência, fogo, cor, brilho e sombra.

Minhas últimas semanas, sem posts, foram assim. Pesadelos com o Google, com a Net, com a Lola doentinha, com as gaiolas nos EUA, com as denúncias de assédio na antropologia e principalmente, muito principalmente, até para quem detesta advérbios, o uniforme escolar atravessado de bala e sangue… as perguntas do filho para a mãe, tanta dor nessa morte assassina do Marcos Vinícius, na Maré, RJ.

Fiquei só com rascunhos, sem frases, porque o ditado também vale ao contrário: onde há guerra, não há palavra. Aqui é um Apocalypse Now todos os dias.

De alguma forma, escrevi sobre tudo isso um pouco antes, a convite da querida Mànya Millen, para o blog do IMS. A pauta era desenho e cidade — o que me levou a explicar por que não consegui me tornar uma Urban Sketcher no Rio de Janeiro. Sabia que seria um pouco polêmico, mas agora acho que peguei foi leve… Aí vão desenho e link:

Desdesenhando o Rio – https://blogdoims.com.br/desdesenhando-o-rio/

Karina Kuschnir IMAGEM IMS Post Urban Sketchers Rio de Janeiro

Desenho Karina Kuschnir para o Blog do IMS

Não tenho ideia de quantas pessoas leram a publicação, mas houve uma sequência interessante. O Nexo Jornal repercutiu o post fazendo uma matéria própria sobre os Urban Sketchers, selecionando imagens de desenhistas brasileiros e comentando minha posição crítica. Pena que preferiu utilizar na abertura o clichê de sempre: o Rio de Janeiro do cartão postal. Nada contra a bonita aquarela da Eliane Lopes (que não conheço pessoalmente). Tudo contra continuarmos re-produzindo visualmente esse cenário fake, pois na cidade real, que vive nessa moldura, há pessoas que fuzilam crianças do alto de um helicóptero. Apocalypse Now não é metáfora.

A matéria do Nexo: A comunidade global que compartilha cenas de cidades em desenhos

Para ajudar a população da Maré, conheçam, se envolvam e contribuam para os maravilhosos projetos da Redes da Maré. Não deixem de ler o texto sobre a ilegalidade do Caveirão Voador que, no dia 20/06/2018, foi responsável pelo assassinato de 7 pessoas, entre elas, dois adolescentes. E quantos outros morreram a bala no Rio desde o dia 20?

Para terminar com as contradições da dor e do amor, meus posts com a tag Urban Sketchers, grupo que admiro demais, que vem me ensinando muito do que sei sobre a experiência de desenhar, que me acolheu e onde fiz grandes e amados amigos e amigas de todos os cantos do mundo.

Meu problema não é com os USK; é com o Rio de Janeiro, com o Brasil, com todas as formas de invisibilizar as desigualdades que tanto precisamos corrigir, sanar, ao menos, reduzir! E uma das formas de começar é se permitir olhar, ver, enxergar (sequência bem dita da querida Andréa Barbosa). Precisamos enxergar e desenhar não apenas formas e cores, mas onde, quando e como as pessoas estão vivendo no mundo.

Como diria a Alice: — Super fácil esse negócio de ser antropóloga, mãe!

Sobre a complexidade de Apocalypse Now, filme de Francis Ford Coppola, inspirado na obra de Joseph Conrad, sugiro o verbete denso e interessante (em português!) da Wikipedia.

 

Sobre o desenho: Colar feito de corda com pendente esmaltado, obra de artesãos da escola de arte comunitária do Chapitô, em Lisboa. Desenho no verso de um papel Canson (bloco Aquarelle). Linhas feitas com uma canetinha de nanquim permanente descartável Pigma Micron 0.05 bem velhinha (daí serem tão finas). Cores pintadas com aquarelas Winsor & Newton e um pouquinho de tinta guache branca na área de brilho. Tudo nesse desenho é paciência, camadas leves, e um pouco de coragem na hora das sombras. Essas têm de sair de uma vez só para ficarem naturais… Costumo usar o meu melhor pincel, um Winsor & Newton series 7, n. 2, pois assim carrego tinta o suficiente para não interromper as linhas no meio.

Você acabou de ler “Nosso Apocalypse Now de todo dia“, escrito e ilustrado por Karina Kuschnir e publicado em karinakuschnir.wordpress.com. Se quiser receber automaticamente novos posts, vá para a página inicial do blog e insira seu e-mail na caixa lateral à direita. Se estiver no celular, a caixa de inscrição está no rodapé. Obrigada! 🙂

Como citar: Kuschnir, Karina. 2018. “Nosso Apocalypse Now de todo dia”, Publicado em karinakuschnir.wordpress.com, url: https://wp.me/p42zgF-3Fr. Acesso em [dd/mm/aaaa].


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Minhas memórias do NuAP – Núcleo de Antropologia da Política

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Pessoas queridas, essa semana participei de um evento em comemoração aos 20 anos do NuAP – Núcleo de Antropologia da Política. Compartilho com vocês as memórias que escrevi para apresentar lá que são, sobretudo, uma homenagem ao professor Moacir Palmeira.

Espero que gostem! Com o desejo de um final de semana tranquilo para todos nós.

Minhas memórias do NuAP  – Karina Kuschnir

“Começo agradecendo ao convite dos professores Moacir Palmeira e Marcos Otávio Bezerra para participar desse evento, assim como a John Comerford e a todos do NuAP, de ontem e hoje.

Queria dizer logo o mais importante: participar do NuAP foi um sonho para mim, uma alegria enorme, um privilégio. E não digo isso porque estou fazendo um balanço 20 anos depois. Não. Desde o momento em que fui convidada a participar, pensei no quanto eu estava tendo uma oportunidade especial e rara, tipo, eu era feliz e sabia!

Explico melhor. Foi uma chance inacreditável nos meios acadêmicos. E por quê? Porque eu era uma aluna de pós-graduação e não estava vinculada como orientanda a nenhum dos professores do NuAP. Minha participação se deu em nome da produção de conhecimento, pela afinidade temática das pesquisas.

Em 1992, quando o professor Moacir Palmeira publicou “Voto: racionalidade ou significado?”, o que acredito ser o primeiro dos seus artigos no campo da antropologia da política, num dossiê da Revista Brasileira de Ciências Sociais, eu estava fazendo trabalho de campo entre os parlamentares na Câmara Municipal do Rio de Janeiro.

Tanto esse artigo de 1992, quando o texto “Política, facção e compromisso”, também de Moacir, de 1991, apresentado no “Encontro de Ciências Sociais do Nordeste” estão na bibliografia da minha dissertação, defendida em 1993, no PPGAS/Museu Nacional/UFRJ.

Fiquei fascinada e influenciada por esses trabalhos pois, até então, a única tese de antropologia sobre políticos que eu conhecia era a da Cecília Costa, feita basicamente por meio de entrevistas em 1980.

Não por acaso, quando decidi pelo tema da política, num mestrado de antropologia, fui fazer cursos optativos em outras pós-graduações: na Ciência Política, do Iuperj, com o prof. José Murilo de Carvalho, e no programa de pós em História da PUC-Rio, com a professora Margarida Neves. Essas duas interlocuções – com a bibliografia e os amigos cientistas políticos e historiadores – foram bem importantes para mim.

No mestrado e no doutorado, fui orientanda do professor Gilberto Velho, de quem também fui assistente de pesquisa por vários anos. O Gilberto sempre teve um trabalho muito intenso de reunir seus alunos, estimulando nossas trocas e colaborações, mas não havia no grupo ninguém trabalhando com política além de mim.

Portanto, desde 1993, comecei a participar e trocar com colegas que viriam a formar o NuAP alguns anos depois (1997). Essas eram as interações mais importantes e significativas para mim, ansiosa por me sentir “antropóloga de verdade”.

Isso foi tão forte, que a memória prega peças. Eu achava que minha primeira comunicação num congresso acadêmico tinha sido na Reunião da ABA de Niterói, em março de 1994, porque nessa ocasião eu e várias pessoas do grupo que formou o NuAP estávamos num GT assistido e comentado pela Mariza Peirano. Fiquei tão nervosa e, ao mesmo tempo, feliz, que esse evento ficou um marco. Revendo um currículo antigo, porém, de antes do Lattes, percebi que não, essa não foi a minha primeira comunicação científica. Eu já tinha apresentado trabalhos na Anpuh e no Iuperj!

Nesse mesmo ano, de 1994, entre agosto e setembro, ocorreu o primeiro evento de antropologia e eleições, que muitos aqui certamente participaram. Mais uma vez, tive o privilégio de falar, ainda iniciante, num ambiente de pesquisadores que eu admirava, com interesses tão próximos aos meus. Nessa mesma época, também tive a sorte de entrar para o doutorado no PPGAS, em agosto, na mesma turma que Marcos Otávio Bezerra, cujo trabalho tanto admiro.

Logo no semestre seguinte, em 1995, vivi um dos grandes momentos da minha vida acadêmica: fiz o meu primeiro curso com o professor Moacir Palmeira, intitulado: “Poder, dominação e política nos estudos de comunidade”. Posso dizer sem sombra de dúvida que foi uma experiência fantástica, que só aumentou a admiração pelo autor, professor, pesquisador. Realmente não tenho palavras suficientes para elogiar suas aulas e o tanto que aprendi nesse semestre, com ele e com os colegas, como o Marcos, Gabriela (Scotto), Renata (Menezes), entre outros. E pela primeira vez tive um professor que anotava o que eu falava!

Ali também se configurava para mim uma lição do melhor da antropologia: a leitura de autores de diferentes correntes teóricas (tanto da sociologia quanto da antropologia) e nacionalidades, pesquisando em várias partes do mundo, selecionados pelo professor em prol do livre debate de ideias, sem visões salvacionistas, sem ceder aos modismos.

Em 1996, vieram os primeiros eventos do futuro NuAP – que se forma oficialmente em 1997 – e a oportunidade de irmos a Fortaleza e trocarmos de modo mais próximo e intensivo.

Intensidade acho que é a palavra ótima para definir esses primeiros anos do NuAP. Nós trabalhávamos tanto que fui a Fortaleza e voltei duas vezes sem sequer pisar na areia da praia! E, pensando bem, assim eram as aulas do Moacir também: começavam um pouquinho atrasadas mas não tinham hora para terminar.

Eu vivia entre dois mundos, como vocês já podem estar imaginando. Precisava acordar às 6 da manhã, para estar às 7:30 no Museu no horário do Gilberto. Mas fazendo pausas para muitos pães de queijo, que o Gilberto não ficava sem comer de jeito nenhum.

Na parte da tarde, nas aulas do Moacir, ai de quem pensasse em comer ou parar de discutir teoria antes das 7 da noite! Haja amor pela antropologia!

Nos eventos de pesquisa, havia um contraste parecido. Gilberto era sincrético, eclético, social, extremamente produtivo e obsessivo, mas sempre querendo chegar na parte dos salgadinhos e do vinho!

Moacir me parecia o oposto: metódico, focado, intenso, seríssimo. Ao ponto que um dos eventos do NuAP foi marcado num convento em Santa Teresa – nada de distrações, nem álcool!

Pelo menos essa era a visão de uma jovem pesquisadora, não-orientanda dele, que o via como um dos grandes sábios, junto, é claro, com Mariza Peirano, Beatriz Heredia, a Irlys e o Cesar Barreira, o Odaci Coradini e todos os demais colegas com quem tive o privilégio de conviver, principalmente nos primeiros dez anos do Núcleo.

A Mariza, de quem depois daquela ABA conheci a delicadeza, foi autora muitos artigos e livros (como A favor da etnografia e Teoria vivida) que me marcaram, e organizadora de “O dito e o feito”, assim como orientadora de vários trabalhos importantíssimos do acervo do NuAP.

Em 2006, quando entrei para o IFCS, tive a sorte de passar a conviver e oferecer cursos em colaboração com a professora Beatriz Heredia, autora e co-autora com Moacir dos trabalhos seminais da área de Antropologia da Política que vieram a ser reunidos no volume Política Ambígua, certamente um marco na história da antropologia brasileira.

Aliás, tenho falado de aulas, eventos e convívio, mas talvez não tenha enfatizado o principal. Para mim, tudo começou com a leitura de dois artigos do Moacir… e foi se tornando uma grande bibliografia de textos, dissertações, teses, capítulos e livros que geraram um conhecimento enorme sobre a sociedade brasileira, em toda a sua complexidade.

Do candidato que abre a panela de feijão, passando pelo eleitor que faz suas apostas e se diverte no tempo da política, ao debate com a literatura nacional e internacional, sempre privilegiando o etnográfico e o comparativo como eixos centrais. Tudo isso está analisado, discutido e registrado nas páginas do selo NuAP, formando um capítulo importante da teoria antropológica brasileira.

É, sem dúvida, um grande legado, e agora acessível online. Nossas conversas continuaram acontecendo no papel, nas citações mútuas, nos enormes aprendizados que tivemos uns com os outros e que passamos para os nossos alunos e orientandos. Nesse último semestre, uma turma de alunos de graduação do IFCS ficou encantada ao descobrir e escrever trabalhos baseados nas publicações do NuAP. É tão bom ver tudo isso vivo e circulando entre as novas gerações.

Só tenho a agradecer por ter feito parte dessa história. Muito obrigada.”

Comunicação apresentada na mesa: Antigas colaborações, novos debates. Vinte anos do NuAP – Núcleo de Antropologia da Política. Rio de Janeiro, Museu Nacional, Auditório do Horto Botânico, em 7/07/2017.

Sobre os desenhos: Páginas do caderninho que levei para anotar durante o evento. Utilizei uma canetinha Bic comum, colorindo com algumas canetas pincel Tombow das cores azul escuro e cinza, além de uma Koi Sakura brush azul clara. O caderno é um Cícero pautado, A5, folha bem comum, 75gr., daí as canetas vazarem de uma página para a outra.

Você acabou de ler “Minhas memórias do NuAP“, escrito e ilustrado por Karina Kuschnir e publicado em karinakuschnir.wordpress.com. Se quiser receber automaticamente novos posts, vá para a página inicial do blog e insira seu e-mail na caixa lateral à direita. Se estiver no celular, a caixa de inscrição está no rodapé. Obrigada! 🙂

Como citar: Kuschnir, Karina. 2017. “Minhas memórias do NuAP”, Publicado em karinakuschnir.wordpress.com, url: http://wp.me/s42zgF-nuap. Acesso em [dd/mm/aaaa].


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Memória visual, espaços e cotidiano – Ideia para aula lúdica (4)

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Ser professora, para mim, é viver numa eterna dúvida: será que tenho conseguido afetar positivamente meus estudantes? De vez em quanto a fortuna responde: sim! Pois imaginem minha felicidade quando um ex-aluno veio me pedir dicas para reproduzir uma aula do ano passado na turma em que é monitor. Como eu ainda não tinha escrito sobre essa atividade, pedi um tempinho para me organizar. Segue o plano para vocês (e para ele)!

Objetivos da aula:

. Produzir registros gráficos sobre o entorno do campus universitário, feitos pelos estudantes que o frequentam.

. Refletir (através dessa prática) sobre como lidamos com os espaços e caminhos por onde passamos cotidianamente, promovendo um debate sobre as várias dimensões de olhar, ver, enxergar, distinguir, conhecer, apreender, memorizar, registrar.

. Compreender que os mesmos espaços são percebidos e significados de formas diferentes pelos indivíduos, embora também possamos encontrar padrões mais coletivos de percepção.

. Empreender uma experiência de aula que gere conhecimento e transforme, nos fazendo sentir que aprendemos algo a partir de uma prática associada à reflexão.

. Lembrar que uma atividade de pesquisa pode ser divertida e interessante; pode ser vivida como um enigma, um quebra-cabeça que desvendamos.

. Fortalecer a autonomia: mostrar que podemos e devemos pensar a partir dos nossos dados, classificá-los e interpretá-los.

Material que precisa ser preparado antecipadamente:

. Antes da aula, é preciso tirar as fotografias que serão mostradas na segunda parte do exercício. No meu caso, fui com dois alunos de iniciação científica fazer o percurso no entorno do prédio onde trabalhamos. Tiramos 60 fotografias, procurando mostrar tudo que solicitamos aos estudantes que se lembrassem (ver a lista abaixo). Essa etapa de registro é por si só muito interessante. Mesmo que você não tenha alunos de iniciação científica, aconselho chamar dois ou três estudantes (ou colegas professores) para participar dessa etapa, pois a percepção de várias pessoas tornará mais instigante decidir o quê, e como, registrar. É importante que esse grupo não compartilhe a experiência com os demais alunos antes da atividade.

. Solicite aos alunos que levem lápis de cor ou canetinhas para a aula, mas não explique qual será a atividade. Bastam algumas cores básicas.

Material necessário para a aula:

. Canetas para quadro branco (ou giz, em caso de lousa tradicional).

. Fita adesiva ou fita crepe.

. Papeis A4 brancos. (Se possível, levar 1 folha para cada aluno.)

. Lápis de cor ou canetinhas. (É sempre bom ter um pequeno estoque de lápis-de-cor e canetinhas para os alunos que esquecem de trazer o material.)

. Notebook e Projetor de datashow.

. Pen drive com o conjunto de fotos preparado antecipadamente.

Dinâmica – Como conduzo a aula:

. Entrego uma folha de papel A4 para cada aluno. Peço que separem o material de desenho (canetas comuns e lápis de cor).

. Explico que o trabalho não tem certo ou errado e só conta como participação (ou seja, não é para nota!).

. Abordo o tema da aula: como lidamos com as informações visuais no nosso cotidiano? O que vemos? O que memorizamos?

. Escrevo no quadro o nome de 5 logradouros (o prédio da universidade e cerca de 4 a 5 ruas, praças, avenidas à sua volta). Peço aos alunos para desenharem, com caneta preta, um mapa contendo esses locais. A ideia é ocupar a folha A4 inteira.

. Não especifico como devem desenhar; deixo por conta da interpretação de cada um. Tento criar um clima de brincadeira, mas explicando que o trabalho é individual; o aluno não deve consultar os colegas.

. Em seguida, peço aos estudantes que comecem a registrar graficamente as informações listadas abaixo. É fundamental indicar 1 item de cada vez, esperando que todos tenham terminado de desenhar antes de anunciar o próximo. (Ou seja, os itens não devem ser escritos na lousa todos de uma vez.) A lista de temas e cores deve ser adaptada conforme o espaço onde a aula esteja sendo dada.

. Solicito aos alunos que registrem onde existem…

  • árvores e/ou plantas, utilizando a cor verde.
  • lixeiras, utilizando a cor laranja.
  • hidrantes, utilizando a cor vermelha.
  • monumentos ou estátuas, utilizando a cor rosa.
  • bancas de jornal e orelhões, utilizando a cor azul.
  • postes, fradinhos, bancos e mobiliário público em geral, utilizando a cor cinza.
  • grades, utilizando a cor marrom.
  • calçadas e texturas de pisos, utilizando a cor preta.
  • animais, música, comida etc. (A lista continua até esgotar os temas registrados nas fotos.)

. Divirtam-se com as expressões de desespero! Tem um lado muito engraçado de perceber o quanto somos cegos visualmente para coisas que sabemos que estão lá, mas não distinguimos exatamente onde estão, nem como são.

Vejam um exemplo de resultados baseados na memória de alunos, com o prédio do IFCS ao “centro”:

. Quando todos terminam, sugiro que guardem as canetas, para não ficarem na tentação de acrescentar algo. Em seguida, apresento as fotos dos espaços no Datashow. Primeiro, as mais gerais, depois, as imagens específicas dos itens da lista (árvores, lixeiras, monumentos etc.). Esse é outro momento de diversão geral, com muitos ah! e oh!, devido à comparação: fotografias x registros gráficos x memórias. Vejam o exemplo abaixo do registro do Tomás Meireles, um aluno experiente em desenho (à esquerda) junto a algumas fotos (à direita).

Além de adorar o desenho do Tomás, acho fascinante a comparação: a humanização da estátua (da figura e da escala),  a sensação de espaço ampliado (no desenho, por contraste com a foto), a presença do camelô de comida, a padronagem do chão, a posição da lixeira invertida (no desenho, à esquerda, na foto, à direita). Como nesse exemplo, muitos estudantes não registraram as duas grandes árvores que cobrem a fachada do prédio! Revejam: dos seis mapas mostrados acima, dois marcam com clareza a presença das árvores, dois trazem pontos verdes tímidos e dois não apontam árvore alguma na frente do edifício que frequentam cotidianamente.

Se tenho tempo, reúno todos os desenhos no quadro (colando com a fita adesiva) e peço aos alunos que venham à frente observar, comparar, percebendo as semelhanças e diferenças. É bem instigante comparar não só a presença ou ausência de elementos, mas também as proporções, formas e modos de ocupação dos espaços e dos registros.

Avaliação:

. No final da aula, solicito que todos escrevam na parte de trás do seu mapa uma pequena avaliação da experiência. A maioria registra que foi “difícil lembrar” dos lugares onde passam todos os dias. Uma aluna escreveu que ficou “surpresa” com a sua percepção “superficial” da cidade; o que outra estudante chamou de “olhar sem ver”. A bolsista de iniciação científica afirmou que, mesmo participando da sessão de fotos, esqueceu um monte de coisas na hora de desenhar. “A memória tem vazios” e “hierarquiza” a forma como lembramos,  escreveu outra aluna.

Acho que todos concordaram que “conhecer” é diferente de “saber que existe”, na expressão serena de um aluno, por contraste com a estudante que escreveu: “muito louco esse exercício, professora!” Um aluno explicou que conseguiu registrar os dados que se relacionavam com a bicicleta que usa para ir ao local, o que facilitou na lembrança dos pisos e equipamentos públicos, por exemplo. Vários apontaram essa característica: lembramos mais das coisas (e pessoas) que nos afetam diretamente. Um estudante anotou: “é impossível registrar a realidade em toda a sua complexidade; de forma que toda representação ou teorização é uma redução”. Sim, lembramos de “Funes, o memorioso“, famoso conto de Jorge Luís Borges.

Concluo com o texto do Tomás Meireles, o aluno que desenhou a estátua cor-de-rosa:

“Ao desenharmos a partir das nossas lembranças, temos a oportunidade de extrair um coeficiente estético de uma relação vivida. Desse modo, podemos traçar um contraste entre aquilo que sabemos e aquilo que achamos saber. Ao transportar isso para a antropologia, percebemos como podemos nos enganar a respeito da realidade que nos envolve constantemente.”

Espero que tenham gostado. Experimentem, mandem comentários, sugestões e notícias!

Ah, importante: a referência que me inspirou para construir esse exercício foi o texto abaixo. Coloquei no título um link para o PDF que fiz pois é um artigo difícil de achar. Boa leitura!

NIEMEYER, Ana Maria. “Indicando caminhos: mapas como suporte na orientação espacial e como instrumento no ensino de antropologia”, in: Além dos territórios: para um diálogo entre a etnologia indígena, os estudos rurais e os estudos urbanos. (Niemeyer e Godoy, Emília, orgs.). Campinas, SP, Mercado de Letras, 1998, p. 11-40.

Esse é o quarto post de uma série sobre aulas lúdicas:

E talvez vocês gostem de outros posts com a tag mundo acadêmico.

Sobre o desenho: Depois de várias semanas, me aventurei a desenhar a árvore de que mais gosto do Largo de São Francisco de Paula, praça em frente ao IFCS (Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da UFRJ). É uma lindeza, magrela e gigante (quase da altura da igreja). Fiz parcialmente de memória, parcialmente olhando no Google Street View. Ontem voltei a olhá-la ao vivo e me admirei ainda mais com a sua leveza imponente. Sim, os pombinhos ficam minúsculos e até as pessoas ficam mínimas perto dela. Desenhei com uma canetinha Graphik Line Maker 0.1 Sépia, da Derwent, numa folha que ainda está vazia do caderno Stillman & Birman, Delta Series 8 x 10 polegadas.

Você acabou de ler “Memória visual, espaços e cotidiano – Ideia para aula lúdica (4)“, escrito e ilustrado por Karina Kuschnir e publicado em karinakuschnir.wordpress.com. Se quiser receber automaticamente novos posts, vá para a página inicial do blog e insira seu e-mail na caixa lateral à direita. Se estiver no celular, a caixa de inscrição está no rodapé. Obrigada! 🙂

Como citar: Kuschnir, Karina. 2017. “Memória visual, espaços e cotidiano – Ideia para aula lúdica (4)”, Publicado em karinakuschnir.wordpress.com, url: http://wp.me/p42zgF-297. Acesso em [dd/mm/aaaa].


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Mensagem fotográfica – Ideia para aula lúdica (3)

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Post útil, pra variar, pessoal! Quem não está cansado de ministrar (ou assistir) aulas burocráticas sobre textos, autores e correntes de pensamento? Eu fico, muito! Para fugir um pouquinho da rotina, gosto de pensar em ideias para começar a aula de forma mais lúdica, já que nem sempre dá para fazer uma atividade longa (como já registrei aqui e aqui). Essas aberturas são uma espécie de aquecimento para entrar nos temas centrais, ajudando a “acordar” os alunos e a mim mesma. São super úteis naquelas aulas de tempos de mais de 3 horas e buscam um dos meus principais objetivos como professora: fortalecer a autonomia e a criatividade de pensamento dos próprios alunos.

Segue abaixo uma dinâmica que fiz nesse primeiro semestre de 2017, com uma turma de laboratório audiovisual. Espero que inspire os colegas de todos os níveis de ensino. Nosso trabalho é desgastante, sofrido… mas, por algum mistério, torna-se uma experiência maravilhosa quando ativamos uma energia positiva de trocas e descobertas.

Análise de fotografias dos alunos

Uma semana antes, solicitei que os alunos trouxessem para a aula seguinte uma fotografia tirada por eles (podia ser com celular) impressa em uma folha A4 (retrato ou paisagem) em preto e branco. Pedi que não identificassem nem mostrassem aos colegas. No dia da aula, recolhi as imagens e redistribui 3 ou 4 delas por grupos  (de 3 ou 4 alunos), variando os tipos de conteúdos e evitando que o grupo recebesse fotos de sua autoria.

Expliquei que não havia “certo ou errado” e que o conteúdo não era para nota. (Às vezes, atribuo uma nota de participação, mas acho importante não avaliar as interpretações para que eles se sintam confiantes em falar e pensar por conta própria.) Em seguida, pedi que analisassem as imagens livremente. Fui passando de grupo em grupo, escutando os debates, fazendo algumas perguntas para instigá-los, provocando comparações. Após vinte minutos, solicitei que cada grupo apresentasse os pontos principais discutidos. À medida que falavam, fui anotando no quadro.

O resultado é que eles próprios deram uma aula: tiraram conclusões, complementaram-se uns aos outros, fizeram pontes entre as observações e as imagens, encontraram perguntas novas. Parecia que tinham estudado profundamente o Roland Barthes, autor que usei para preparar o conteúdo e as imagens da segunda parte da aula (tendo como referência principal o texto “A mensagem fotográfica”). Por sorte, nesse dia, eu estava numa sala com quadro-negro à moda antiga, com giz e tudo. Aí vai uma foto dos temas levantados pela turma:

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Quadro/foto Karina Kuschnir – IFCS 2017

Já fiz uma variante dessa dinâmica projetando as fotos dos alunos com datashow. Nesse caso, é preciso pedir as imagens por e-mail antes. Há vantagens (todos veem bem o material discutido), mas também desvantagens, pois demora muito, não dá para analisar as fotos de todos e não promove o diálogo mais aprofundado intra-grupos.

A opção por imprimir as fotografias em P&B e em tamanho A4 acabou sendo bem interessante. Eles se surpreenderam, enxergaram com novos olhos e valorizaram a ausência de cor como algo que permitiu que comparassem melhor e vissem mais elementos nas fotos do que julgavam presentes. Disseram que a “cor distrai” o olhar… Taí uma conclusão que o historiador Michel Pastoureau e tantos fotógrafos e cineastas concordariam!

Outro dia perguntei para uma turma o que eles acharam de um desses exercícios e fiquei feliz com a avaliação bem positiva. Assim como vocês, também tenho um diabinho no meu ombro sussurrando que “professor bom é aquele erudito, que entope os alunos de conteúdo”. Mesmo sabendo que as pesquisas pedagógicas já provaram que aprendizado precisa de afeto e envolvimento, a gente insiste com esse mito de achar que uma aula vai “ensinar” alguém. Podemos informar, inspirar, estimular, apoiar, instigar, semear ideias? Sim, acho que sim. Mas só vai aprender quem estiver aberto pra isso, para se afetar, se envolver, escutar, retrucar, pensar.

Comecei esse post com a ideia de escrever sobre várias pequenas aulas desse tipo que tenho experimentado em 2017, mas essa primeira acabou tomando o post todo! Então, prometo que volto ao formato se vocês tiverem interesse.

 

Esse é o terceiro post de uma série sobre aulas lúdicas:

E talvez vocês gostem de outros posts com a tag mundo acadêmico.

5 Felicidades-possíveis-das-últimas-semanas:

* A tristeza e as saudades do Ulisses foram aplacadas pelo apoio carinhoso que chegou nos comentários, e-mails e mensagens de vocês. Muito, muito obrigada. Está difícil demais viver sem nosso furacãozinho de pelo, mas estamos lambendo as feridas e cuidando dos que ficaram. Como vários disseram, ele viajou, virou livro, viveu intensamente, e isso é motivo para celebrar.

* Quando você vai numa missa de sétimo dia e, ao invés de apenas cumprir um dever social, se vê emocionada com as homenagens a uma vida rica, amorosa, delicada, frutífera. Lembrei das despedidas à minha avó, chorei à vontade, voltei mais sábia de ônibus.

* Chegar no trabalho e encontrar bilhetinho e presente feito-em-casa de um ex-aluno querido… ♥ ♥ ♥  Só tenho a agradecer e me desculpar. Estou em falta com ele e com tanta gente por conta dos meus problemas na retina. O pior já passou. Agora, o único inconveniente é que, toda vez que vou ao oftalmologista, pingam colírios de dilatação que me deixam sem enxergar direito. A outra sequela é que o olho direito (onde a rutura foi mais grave) não voltou ao normal, de modo que estou desanimada para desenhar e pintar. Mas vai passar.

* Desligando das redes sociais: desde o calendário de abril, estou sem repassar o blog para as redes sociais (Facebook e Instagram). Não desativei meus perfis lá; só deixei de usar. É uma experiência — não sei por quanto tempo –, mas estou gostando. Para completar o ciclo, nesse final-de-semana, cancelei as notificações do Whatsapp e tirei o ícone da tela principal do meu celular. A tentativa é retomar o meu tempo, escolher quando quero olhar as mensagens, ao invés de ser dragada por elas a qualquer segundo. Em relação às crianças, combinei que elas precisam me telefonar (!) em situações realmente importantes. A ideia é diminuir os estímulos do cérebro com micro-conteúdos e alongar os momentos de concentração. Podem deixar que vou contando aqui se continuo firme na experiência.

* Um dos incentivos para pensar sobre tudo isso veio desse post, sincero e engraçado da Val, autora do blog “Uma pedra no caminho”. Val, escrevi uma mensagem de parabéns pelo texto e pelo aniversário do seu blog, que acabou apagada naquele vácuo-sugador que são as páginas de login de comentários no celular. Era para te dizer que seu post me fez rir e me fez pensar também. O que eu quero, para onde vou, qual o valor das horas que dedicamos aos nossos blogs? Pra mim, o projeto nunca foi ter renda ou seguidores, mas também não ousaria dizer que sou imune ao efeito dos likes. Por isso, nada mais libertador do que simplesmente se livrar deles!

Sobre o desenho: Desenho feito por mim, em 2004, a partir da observação de uma fotografia de William Klein (NY, 1954), impressa em papel A4, dobrada, disposta na horizontal com um lápis de coração jogado por cima. Feito em grafite sobre papel Canson. O exercício foi proposto por um professor de desenho de observação da PUC-Rio, onde assisti a algumas aulas na época em que eu era professora lá, no Departamento de Comunicação.

Você acabou de ler “Mensagem fotográfica — Ideia para aula lúdica (3)“, escrito e ilustrado por Karina Kuschnir e publicado em karinakuschnir.wordpress.com. Se quiser receber automaticamente novos posts, vá para a página inicial do blog e insira seu e-mail na caixa lateral à direita. Se estiver no celular, a caixa de inscrição está no rodapé. Obrigada! 🙂

Como citar: Kuschnir, Karina. 2017. “Mensagem fotográfica – Ideia para aula lúdica (3)”, Publicado em karinakuschnir.wordpress.com, url: http://wp.me/p42zgF-1Kf. Acesso em [dd/mm/aaaa].