Karina Kuschnir

desenhos, textos, coisas


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Mini paleta de aquarela

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Alguns pesquisadores acreditam que a aquarela existe desde 800 a.c., quando os egípcios coloriam seus papiros com pigmentos naturais misturados com goma arábica, clara de ovo e água. É incrível pensar que essas tintas eram utilizadas nas miniaturas pintadas à mão em livros por gregos, romanos, sírios e bizantinos até o século 9 d.c. Quase todos os livros de história da aquarela dizem que o pintor alemão Albrecht Dürer (1471-1528) foi o primeiro artista (ocidental) a realizar pinturas em aquarela, embora naquele tempo esse material fosse considerado menor, sendo utilizado apenas para croquis, estudos e diários de viagem, por ser de fácil transporte e secagem rápida. Do século 19 em diante, os estojos de aquarela para amadores se tornaram cada vez mais populares e acho que agora, nos anos 2010, estamos vivendo uma valorização enorme dessa mídia.

Todo esse preâmbulo foi para apresentar a vocês o estojinho miniatura que comprei no ano passado no evento dos Urban Sketchers em Manchester, Inglaterra. Numa caixinha igual a um porta-cartão-de-visitas, a empresa Expeditionary Art conseguiu colocar uma base de ímã, uma base branca e 14 recipientes de metal para as tintas. Tive a sorte de ver uma pessoalmente, porque só vendo para acreditar em quão pequena é essa paleta. Não foi barata. Se não me engano, paguei 25 pounds (cerca de 100 reais) na versão vazia, e 35 numa versão já com as tintas, pois queria trazer uma de presente de aniversário para uma amiga.

Foi um investimento maravilhoso. Alguns colegas disseram que iria enferrujar, mas já tenho há quase um ano e não vejo o menor sinal de desgaste. A grande maravilha dessa paleta é poder levá-la para todos os lados sem aquela neura de ficar com a bolsa muito pesada.

Há tempos estava querendo atualizar a seção Materiais aqui do blog. Portanto, aí vai um dos meus itens preferidos!

7 Coisas impossivelmente-legais-bonitas-interessantes-ou-dignas-de-nota da semana:

* Minha fonte para essa pequena historinha da aquarela foi o livro The big book of watercolor, do Jose M. Parramón. Gosto da parte histórica inicial, mas não recomendo para quem quer começar na técnica. É um daqueles volumes mais para olhar do que aprender, com um jeito meio tradicional de “como fazer” o céu, o mar etc. Para ver uma aquarela do Dürer de pertinho, achei esse vídeo da Kahn Academy.

* A mini-paleta de aquarela pode ser vista em mais detalhes no site da Expeditionary Art ou nessa resenha com filminho no final do Parka Blogs.

* Continuo lendo artigos ótimos no site da Revista da Fapesp e, embora eu seja super defensora da inbox mínima, recomendo muito que vocês assinem o boletim deles por e-mail.

* Foi justamente dessa fonte que descobri o excelente artigo Bororo na Tela, contando porque o filme “Rituais e festas Bororo”, do major Luiz Thomaz Reis (1879-1940), deve ser considerado o primeiro documentário etnográfico de que se tem conhecimento.

* Outra leitura interessante foi o artigo no blog do Instituto Moreira Salles sobre a fotografia de Antonio Luiz Ferreira, que registrou, em 17 de maio de 1888, a missa campal realizada no Rio de Janeiro para celebrar a Abolição da Escravatura. Só de saber que essa foto existe e que há uma coleção imensa de imagens dessa qualidade disponíveis online já é uma maravilha.

* Outra lindeza foi seguir a dica da Julia O’Donnell e revisitar a Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional, onde se pode ler online milhares de páginas de jornais históricos brasileiros e de outros países. Só nos últimos 30 dias o site teve mais de 3 milhões e 800 mil páginas visitadas! Esse número nos dá esperança de que nem tudo está perdido , concordam?

* Finalmente, queria compartilhar com vocês que a melhor coisa dessa semana foi receber uma mensagem de uma ex-aluna agradecendo por minhas aulas. Eu que agradeço, querida. Inspirada em você, lembrei de sorrir mais, de me manter forte e determinada, sem esquecer da gentileza. Que seu caminho seja de aprendizado positivo e construtivo. Obrigada por existir, resistir e insistir!

Sobre o desenho: Aquarelinha feita em três etapas. Linhas com canetinha de nanquim permanente Pigma Micron (0.1) e uma primeira mão de tinta com as próprias aquarelas do kit. No dia seguinte, pintei novamente para dar mais intensidade. E ainda num outro dia (esqueci de escrever a data), reforcei algumas áreas mais escuras e a sombra do objeto no papel. O caderninho é um Hahnemühle A6 chamado Sketch & Note, com um papel comum, mas de gramatura um pouco superior (125gr) à média, que aguenta uma aquarela leve. Descobri esse caderno na Casa do Artista em São Paulo e depois comprei novamente na estadia em Lisboa, na maravilhosa Ponto das Artes do Chiado. É super leve para ter na bolsa. Utilizei vários pincéis, pois fiz o desenho em casa, mas costumo ter no estojo da bolsa uma caneta pincel de água (waterbrush) da Kuretake.

Sobre as tintas: Como comprei o kit com algumas pecinhas já cheias de tinta e outras vazias, não sei todas as marcas, mas vou especificar os nomes, da direita para a esquerda, começando na fileira de cima: 1-Espremi duas cores: Vandyke Brown e Indigo, 2-Ultramarine, 3-Cobalt blue; 4-Violet; 5- Permanent magenta e Opera Rose; 6-Rose de Potter e Ruby Red; 7-Scarlet Red. Na segunda fileira: 8-Turquoise; 9-Cerulean; 10-Perylene Green e Terre verte; 11-Sap Green; 12-Burnt Sienna e Pure Orange; 13-Quinacridone Gold e Raw Sienna; 14-Pure yellow e Lemon yellon. A maioria é da marca Winsor & Newton (algumas artísticas, outras da linha estudante, da Cotman), mas o Pure yellow e o Ruby red são da Schmincke.  Se quiserem mais informações sobre as tintas e cores me avisem! Fico meio preguiçosa de escrever sobre esses detalhes porque acho que a maioria dos leitores que vêm aqui são do meio acadêmico e não estão nem ligando para os materiais de pintura! 😉

Espero que todos estejam aproveitando esse feriado prolongado para descansar ou produzir mais.

Até semana que vem!

Você acabou de ler “Mini paleta de aquarela“, escrito e ilustrado por Karina Kuschnir e publicado em karinakuschnir.wordpress.com. Se quiser receber automaticamente novos posts, vá para a página inicial do blog e insira seu e-mail na caixa lateral à direita. Se estiver no celular, a caixa de inscrição está no rodapé. Obrigada! 🙂

Como citar: Kuschnir, Karina. 2017. “Mini paleta de aquarela”, Publicado em karinakuschnir.wordpress.com, url: http://wp.me/p42zgF-2gJ. Acesso em [dd/mm/aaaa].


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Modelo viva

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Um momento especial da viagem a Lisboa, em janeiro, foi participar da sessão de modelo-vivo na Casa Atelier Arpad Szenes Vieira da Silva, coordenada pela Cathy Douzil. Nesse dia, a modelo foi a vivíssima Catarina Oliveira, com seus óculos vermelhos e poses bueda giras (muito legais, na gíria local). Na imagem acima, as posturas mais longas, onde arrisquei trabalhar com aquarela (ainda que sem tempo de secagem). Abaixo, as poses rápidas iniciais (30′ a 60′ segundos), onde utilizei apenas lápis-de-cor.

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Uma das dificuldades de postar mais sobre a viagem tem sido escanear o caderno que levei, pois as páginas grandes (quase A4) e as folhas marfim não são nada fáceis de captar no scanner. Mas prometo que, aos poucos, vou trazendo pra cá!

Post curtinho hoje, terminando nos links que ando acumulando para vocês. Bom final de semana a todos!

6 Coisas impossivelmente-legais-lindas-interessantes-e-bueda-giras da semana sobre desenho:

* Sobre a Casa-Atelier mantida pela Fundação Arpad Szenes Vieira da Silva: tem um mundo de coisas interessantes acontecendo lá, inclusive uma exposição sobre cartas e desenhos! Que saudades de estar pertinho…

* Um dia na vida dos americanos — pesquisa com interface gráfica em movimento, bem bacana! Dica do canal Meio.

* O Danny Gregory tem postado vídeos sobre livros de desenho. Achei incrível o do ilustrador David Gentleman sobre Londres. Já indico aqui o link a partir do minuto 6, quando de fato começa o assunto.

* A Maria Popova, do site Brain Pickings, fez um post lindíssimo sobre as coleções de flores da poeta Emily Dickinson.

* A Lisa Congdon, uma das artistas que adoro acompanhar, escreveu um post muito bom sobre a superação da síndrome de burnout (ou “estafa profissional”, como sugere o Google). Aliás, para quem gosta de desenho, arte e ativismo feminista & lgbt: sigam o blog  (ou o Instagram) dela. Estou há tempos para colocar na minha listinha de inspirações.

* O volume da revista Visual Ethnography sobre desenho em que colaborei no ano passado foi liberado para acesso livre. Tem aquela chatice de fazer um cadastro antes, mas é grátis.

Sobre o desenho: Primeira imagem feita com aquarelas (Winsor & Newton e outras marcas) e caneta pincel Kuretake grande (eu acho!, já não me lembro direito). Na segunda imagem, utilizei apenas lápis de cor aquarelável Faber-Castell. Ambas foram feitas no caderno Stillman & Birman, Delta Series 8 x 10 polegadas, cold press, marfim.

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Como citar: Kuschnir, Karina. 2017. “Modelo viva”, Publicado em karinakuschnir.wordpress.com, url: http://wp.me/p42zgF-29u. Acesso em [dd/mm/aaaa].


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Na volta de Lisboa

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Tenho um problema sério com viagens. Sabe criança de 7 anos na hora do banho? Fico igual. Entro no modo procrastinação, esqueço da mala, me xingo, me arrependo, me saboto. Não sei onde foi parar dentro de mim a pessoa que aceitou a ideia de viajar. Achar um motivo para cancelar o embarque passa a ser meu objetivo de vida.  Mas, como a criança de 7 anos, que também chora para não sair do chuveiro, depois que estou viajando, não quero voltar.

Em janeiro/2017, passei por uma dessas experiências. Foi dificílimo partir, e pior ainda regressar. Exceto pelos problemas de retina (que arranjei no stress pré-viagem), os quinze dias que passei em Lisboa, só desenhando e conversando sobre desenho, foram tão maravilhosos que ainda não consegui processar. Tenho um caderno cheio de desenhos que não escaneei, e um monte de experiências sobre as quais também não escrevi!

Imagino que vocês já sentiram essa paralisia. Quando estamos diante de algo grande demais, e parece mais fácil abandonar do que dar conta. Opa, claro que vocês me entendem. É igualzinho a projeto de mestrado, dissertação, tese, diário de campo e até trabalho de curso!

Então, mesmo depois de enrolar quase dois meses, resolvi que já estava na hora de falar dessa viagem aqui no blog.  Iniciando pelo fim, escaneei o último desenho que fiz, com as coisinhas familiares da casa que me receberam bem: a cama, o alto verão, o telefone de Minion que comprei com a Alice nas Lojas Americanas logo na chegada, o cartão da clínica onde tratei do olho, o sketchbook onde me refugiei nos primeiros dez dias, sem enxergar direito. Tudo isso aconteceu no tumulto da volta às aulas das crianças, todos nós nos acostumando a acordar às 6:15 da manhã pra sempre. Os objetos estão desproporcionais, a cola gigante, o caderno menor do que a tesoura. Minha parte preferida foi desenhar a capa da colcha que — só agora me dou conta — veio também de Portugal, de presente, há uns anos atrás. É um dos objetos que mais amo da minha casa.

Ufa. Agora que já comecei, prometo escrever em breve sobre os encontros e as atividades mais interessantes da viagem.

3 Felicidades possíveis:

♥ Vida prática: Alice me ensinou a usar o Whatsapp pelo computador e também a enviar a minha localização por Whatsapp do celular (está entre as opções de anexar, no símbolo de clipe).

♥ As crianças descobriram um jogo interessante, o GeoGuesser. O computador te coloca num local do mundo e você tem que adivinhar onde está, andando pelas ruas, como no modo 3D do Google maps.

♥ Alice apaixonada por fazer mágica com cartas, anda aprendendo um monte no Youtube. Distração saudável para quem tem pequenos em casa.

Sobre o desenho: Linhas feitas com canetinha Pigma Micron 0.05 e 0.1 em um caderno Stillman & Birn, Delta series, 8 x 10 polegadas, presente que ganhei da minha irmã ano passado. Todas as imagens foram coloridas com aquarela (Winsor&Newton e outras marcas), exceto pelo adesivo de Mentos, colado na página direto da embalagem. O celular de Minion é um dual chip, custou 99 reais, e está funcionando perfeitamente até agora! Virou o telefone fixo da casa, pré pago e baratinho.

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Como citar: Kuschnir, Karina. 2017. “Na volta de Lisboa”, Publicado em karinakuschnir.wordpress.com, url: http://wp.me/p42zgF-1Xi. Acesso em [dd/mm/aaaa].


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Chá-de-tempo, chá-com-o-Tempo

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Alice suspirou, entediada. “Acho que vocês poderiam fazer alguma coisa melhor com o tempo” (…)  “Se você conhece o Tempo tão bem quanto eu”, disse o Chapeleiro, “falaria dele com mais respeito.” “Não sei o que quer dizer”, disse Alice. “Claro que não!” desdenhou o Chapeleiro, jogando a cabeça pra trás. “Atrevo-me a dizer que você nunca chegou a falar com o Tempo! (…) Ele não suporta apanhar.” (Aventuras de Alice no País das Maravilhas**)

Toda segunda tenho a impressão de que falta muito para quarta, e toda sexta eu não entendo o que houve com o tempo de quinta! Assim transcorre a semana-do-blog na minha percepção, como um eterno looping de um post-em-fuga.

Como muitos de vocês que estão agora escrevendo projetos, TCCs, teses e dissertações, também preciso de foco, espaço mental e tempo para desenhar e escrever. Por que essas três condições são tão ariscas?

Sonhei essa noite que tomava um chá-de-tempo ou, como gostaria o Chapeleiro, um chá-com-o-Tempo. Imaginem que maravilha: um saquinho contendo horas, minutos e segundos na quantidade que desejássemos!

Porém, contudo, entretanto… como sempre acontece comigo, o sonho virou pesadelo. Ao me tornar senhora do meu tempo, me vi como a protagonista daquele filme Click, em que o chato do Adam Sendler encontra um controle remoto mágico. Ao pular todas as partes difíceis, ele chega ao final da vida sem viver.

Tomo um chá com cafeína para espantar o sono. Vasculho a pilha de papéis da minha mesa para achar os formulários de matrícula da escola das crianças. Descobri que o prazo da Alice é hoje, mas preciso andar. O corpo vem primeiro, digo para os meus alunos (tentando me convencer). Volto, tomo banho, levo 45 minutos para preencher 12 páginas de informações; outros 45 minutos para ir e voltar da escola. A manhã acabou. Termino de almoçar, olho a inbox do Gmail com 92 mensagens para responder. Não, nenhuma dessas é spam, divulgação ou promoção. Penso nos amigos que não parabenizei, nos agradecimentos que não escrevi, mas hoje é sexta e o post já está dois dias atrasado.

“Dois dias de atraso!”, suspirou o Chapeleiro.

Sim, respondo mentalmente, dois dias é mais ou menos o meu atraso de fábrica. Atrasado mas feito: este é o post número 139. Quando tudo fica pronto e aperto “publicar”, me dá um vazio. É como muitos nos sentimos no pós-tese. No momento em que saímos da água, percebemos o quanto foi bom mergulhar.

Até semana que vem, com um carinho especial para todos os meus colegas professores que ainda têm pilhas de provas e trabalhos para corrigir antes do Natal. Tamo junto!

Sobre o desenho: Imagem feita no caderno da amiga Béliza Mendes, com quem participei de um grupo de troca de sketchbooks sobre diferentes temas. Neste, ela nos fez um “Convite para o chá”. Desenhei minha sapa de estimação (que já apareceu aqui) tomando chá na mesinha que herdei da minha . Utilizei canetinha de nanquim permanente 0.1 Unipin, aquarela e lápis-de-cor (especialmente no paninho listrado). Na edição da imagem para o post, apaguei a mensagem pessoal que havia no canto esquerdo. (Outros desenhos desse projeto estão aqui e aqui; mas estou devendo um post sobre.)

Sobre o livro: trecho inicial extraído da página 70 de “Alice: edição comentada”, de Lewis Carroll (ed. Zahar, tradução de Maria Luiza X. de A. Borges).  Os “dois dias” de atraso estão na página 69.


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Dez dicas sobre criatividade

atelierchiarap.jpg“Qualquer pessoa pode criar”, diz Kevin Ashton, mas não existem atalhos ou fórmulas: “criação não é magia, é trabalho.”

Assim começa um livrinho despretensioso que li nas últimas semanas sobre criatividade. É cheio de histórias para inspirar…  bem auto-ajuda disfarçada para pessoas que não se acham leitoras de auto-ajuda, tipo eu. Então, alerta aos intelectuais! Podem parar por aqui. Aos que continuam, minhas dicas preferidas do autor:

1) Sobre criatividade ser inata. A baunilha — essa delícia que está em quase todos os doces do mundo atual — passou a ser produzida em massa graças à criatividade de um menino escravizado. Edmond Albius, aos 12 anos, em 1841, na atual ilha Reunião, na África, com seus dedinhos de criança, pensou, observou, testou, e fez aquilo que ninguém havia conseguido: inventou um jeito de reproduzir a planta manualmente. Felizmente, seu tutor lutou para que a autoria de Edmond fosse reconhecida na história.

2) Sobre criatividade na vida adulta. Toda criança é criativa. Se ganha uma caixa de lápis de cor, desenha; se ganha um conjunto de blocos, empilha. Se não brinca, fica agitada, ansiosa, amuada. Muitos adultos esquecem disso — mas de vez em quando ouvem uma voz ecoando na própria cabeça: “quero meu lápis de cera colorido de volta”! O problema, como o autor dirá mais à frente, é que criação não combina com as condições de trabalho da maioria dos adultos. O pior ambiente para a criatividade é parecido com o do nosso emprego: não há livre escolha, embora haja recompensa. Quanto mais pressão, menos criativos somos. Saber que estamos sendo avaliados prejudica nossa criatividade. Por isso, muitos artistas preferem não dar importância ao público ou a premiações.

T.S. Eliot, ao saber que ganhara o Prêmio Nobel, teria dito: “O Nobel é uma passagem para o nosso próprio funeral.”

3) Sobre criatividade e persistência. “Criar é dar passos, e não saltos: encontrar um problema, resolvê-lo e repetir. A continuação dos passos vence.” As pessoas mais criativas são as que seguem avançando ao se deparar com novos problemas. Quanto mais passos as pessoas insistem em dar, maior o seu potencial de criar algo novo. Para o autor, os grandes criadores trabalham mesmo que não sintam vontade, que não estejam no clima, ou que não tenham inspiração.

“Seja crônico”, a boa criatividade não surge do nada: ela “se acumula”.

4) Sobre criatividade e desapego. Stephen King, autor de mais de 80 livros, escreve em média duas mil palavras por dia. Em duas décadas, produziu 14 milhões de palavras, mas nesse mesmo período publicou livros que somam apenas 5 milhões de palavras. Para onde foram as 9 milhões restantes? Para o lixo. Sentar e escrever todo dia é o que importa, mesmo que dois terços do que você produza seja ruim.

5) Sobre criatividade requerer tempo. Num levantamento sobre o tema, o pesquisador enviou um questionário para quase 300 pessoas “criativas”. Um terço recusou. Um terço não respondeu. Ambas as partes disseram com atitudes o que o terço final respondeu: criar consome tempo e concentração. Não dá para ficar respondendo questionário! Segundo disse a uma amiga o escritor Charles Dickens:

“não é só meia hora, não é só uma tarde ou uma noite; (…) a mera consciência de um compromisso pode atrapalhar um dia inteiro.  Quem se dedica a uma arte deve se contentar em se entregar totalmente a ela…”

Ah, como todos os acadêmicos lutam internamente com isso. Só essa semana ouvi de três colegas professores lamentos de como não estão conseguindo escrever seus artigos. Taí a explicação. Escrever no meio de uma agenda lotada é humanamente muito difícil.

6) Sobre criatividade e rejeição. Rejeição dói, seja no amor, no trabalho ou em qualquer área da vida. Mas criar exige aceitar esse risco. Enfrentar a suspeita, o ceticismo e o medo e não desistir. A criatividade está em como reagimos às adversidades.

Ashton diz: “Não é possível escapar de um labirinto se andarmos só para frente. Às vezes o caminho para a frente está atrás. A rejeição educa. O fracasso ensina.”

7) Sobre criatividade e visão. Uma das histórias mais legais do livro é a da descoberta da bactéria H.Pylori, por Robin Warren, que recebeu um prêmio Nobel pelo feito em 2005. O detalhe é que, durante anos, o médico lutou para que as pessoas simplesmente “enxergassem” o que ele via em seu microscópio e o que as imagens científicas já registravam desde o século XIX. O pesquisador havia superado a “cegueira” mental provocada pelo desconhecimento. Segundo Douglas Adams, citado por Ashton:

“não vemos o que o nosso cérebro não nos deixa ver (…). O cérebro simplesmente apaga, como um ponto cego. Se você olhar diretamente para algo, não verá nada, a menos que tenha certeza do que é.”

O autor narra vários experimentos divertidos sobre não como não vemos algo que está diante dos nossos olhos. Pessoas falando no celular que não viam um grande palhaço no seu caminho. Médicos radiologistas que não viam a foto de um gorila inserida nas radiografias de pulmões que examinavam. Já os que enxergavam melhor, mesmo diante de armadilhas, como os grandes mestres de xadrez, não tinham varinhas mágicas, mas sim tanta experiência que podiam ver dezenas de jogadas à frente.

8) Sobre criatividade e o vazio. Inspirado no livro “Mente zen, mente de principiante”, de Shunryu Suzuki, Ashton fala da importância de ver além da seletividade, notar tudo “sem pressuposições”. É praticamente uma aula de antropologia… “É ver o que está ali em vez de ver o que pensamos”, diz o autor, antes de narrar um conto zen, que resumo para vocês.

O mestre japonês é procurado pelo professor universitário. Ao servir-lhe o chá, o sábio derrama continuamente o líquido na xícara do visitante. Ao ouvir palavras de espanto — “Está transbordando!” –, o mestre responde: “Assim está sua mente: cheia de suas próprias opiniões e especulações. Para entender o zen, é preciso esvaziar a xícara.”

Diz Suzuki: o segredo para criar é ser sempre um principiante.  Ou, nas palavras de Ashton: “Ver o inesperado, não esperando nada.”

9) Sobre criatividade e dúvida. Quando achamos que vemos o que ninguém vê, como saber a diferença entre confiança e delírio? Taí uma pergunta difícil que o autor responde com mais autores, da teoria das revoluções científicas de Thomas Kuhn aos ensaios de David Foster Wallace. E nos conta a história de Percival Lowell, astrônomo amador que acreditava ter encontrado vida extraterrestre, além de outros achados incríveis. Afinal, seu telescópio tinha problemas estruturais que sua mente ansiosa pelas descobertas não lhe permitiu detectar. “Podemos enxergar algo que não existe quando desejamos muito, assim como podemos ignorar o inesperado quando ele existe”, conclui Ashton.

A falsa certeza é comum no cotidiano, como o autor demonstra através de vários exemplos de memórias distorcidas, num processo que pode chegar à “dissonância cognitiva”: quando vemos coisas que não existem ou ignoramos as que existem de modo a manter a vida segundo as nossas crenças. Ser mais criativo é fugir desse tipo de autoconfiança e buscar a dúvida, se permitindo mudar de ideia.

10) Sobre criatividade e coragem. Tolstói teria dito: “você precisa mergulhar sua pena no sangue”. Entendo que esse sangue não é apenas símbolo da dor e da morte, mas também da vida, da criação. Não criar é que nos mata. Diz Ashton: “A única coisa que fazemos antes de começar é não começar (…) e o melhor modo de começar é se atirar.” Trabalhar o máximo de horas possível, repetir todos os dias, ter coragem de produzir coisas ruins, dispender tempo, evitar interrupções. “A interrupção nos deixa lentos”, ele nos lembra bem a calhar, nesses tempos de redes sociais ininterruptas. E termino por onde começamos, com as crianças, campeãs de uma experiência científica chamada “desafio do marshmallow”.

Desafio do marshmallow. Funciona assim: quem consegue fazer a estrutura mais alta composta de 20 varetas de macarrão, barbante, fita-crepe e um marshmallow por cima, em 18 minutos? Não importa quão inteligentes sejam os adultos competidores, crianças de 5 a 6 anos obtém sempre os melhores resultados: torres de 68 centímetros em média, contra torres de 53 centímetros (de executivos brilhantes) ou só 25 centímetros (de alunos de administração). Segundo o autor, as crianças vencem porque colaboram de forma espontânea, se permitindo fazer várias torres logo de início, sem perder tempo competindo ou planejando demais. Pensam e agem ao mesmo tempo.

Ashton termina de forma otimista: todos os seres humanos são criativos, e muito mais do que pensamos. Precisamos do novo. Por mais dificuldades que surjam, as crises serão superadas com mudança e criatividade.

Assim seja.

Sobre o livro: “A história secreta da criatividade”, de Kevin Ashton, 2016 (ed. Sextante). Uma rara surpresa nesse tipo de obra: há um ótimo conjunto de notas com comentários e fontes detalhadas para cada capítulo, além de uma extensa bibliografia ao final.

Sobre o desenho: Mesinha do chá do Atelier Chiaroscuro, da professora Chiara Bozzetti, onde tenho feito aulas de aquarela. É um espaço de leveza e criatividade como poucos! Por coincidência, o desenho da minha última aula antes da licença-maternidade da professora acabou combinando com o tema do post. Fiz com observação no local, utilizando canetinha Unipin 0.2, num caderno Fabriano de aquarela. Pintei a maior parte lá mesmo, com diferentes tintas e pincéis, mas terminando os detalhes em casa. As bolinhas do painel perfurado foram feitas com uma caneta cinza Graphik Line Marker da Derwent, 0.1.


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A vida simbólica dos objetos – ideia para aula lúdica (2)

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Hoje compartilho um outro plano de aula lúdica com vocês, inspirada pelo retorno tão positivo que venho recebendo do post anterior. É um exercício simples que junta afeto e aprendizado coletivo, as duas coisas que mais prezo dentro de uma sala de aula.

Tive a ideia dessa proposta numa oficina noturna de Antropologia e Desenho, mas tenho experimentado e dá muito certo nas turmas de teoria antropológica também. Os objetos e o tempo dispendido podem ser adaptados conforme a situação e o público (que pode ser de pessoas de qualquer escolaridade, de 9 a 99 anos).☺

Objetivos da aula:

. Criar um ambiente de curiosidade e desafio na sala de aula, que fuja da rotina e estimule a criatividade. (Ou, como já escrevi:  Mostrar que uma pesquisa pode ser divertida e interessante; pode ser vivida como um enigma, um quebra-cabeça que desvendamos.)

. Exercitar a paciência e o foco no processo de observação, com objetivo de “treinar” o rendimento do olhar para o trabalho de campo etnográfico.

. Explorar a capacidade de imaginação e interpretação dos aspectos materiais, visuais e sociais dos objetos.

. Perceber que aprendemos a partir de uma pesquisa, pois há camadas de sentido na vida social que exigem tempo e convívio para serem compreendidas, isto é, não estão acessíveis num contato superficial.

. Compreender que os objetos são carregados de valores simbólicos, socialmente construídos, como escreveu Marshall Sahlins*: “Nenhum objeto, nenhuma coisa é ou tem movimento na sociedade humana, exceto pela significação que as pessoas lhe atribuem.”

. Promover um ambiente descontraído de trocas, afetos e risadas, gerando aproximações e conexões entre os participantes.

. Fortalecer a autonomia: mostrar que podemos e devemos pensar a partir dos nossos dados, classificá-los e interpretá-los.

Material necessário:

. Folha de caderno comum e caneta. (Ou folha de papel A4 liso e material de desenho, se for uma aula com interesse na produção gráfica.)

. Objetos comuns presentes na sala de aula (Ou objetos trazidos de casa, se quiserem explorar histórias mais pessoais.)

Dinâmica – Como conduzir a oficina:

Preparação:

. Pedir para os alunos saírem da sala levando apenas um caderno (ou folha de papel) e uma caneta (ou material de desenho).

. Com os alunos ausentes da sala, o professor coloca objetos que estejam no ambiente perto do quadro da sala, no tablado (se houver) ou no centro da sala (a depender do tamanho da turma, da sala etc.). No caso de objetos pequenos ou trazidos de casa, é bom apoiá-los em folhas de papel Kraft grandes ou em cartolina branca. As mochilas e bolsas dos alunos são ótimos objetos para esse exercício (ver imagem abaixo). É importante selecionar menos objetos do que estudantes (por exemplo, 10 objetos para 30 alunos).

mochilas

Parte 1 – Observação:

. Chamar os alunos de volta à sala, avisando que eles não devem identificar se o seu objeto foi selecionado. (Lembrar também que  o trabalho não é para nota e não tem certo ou errado.)

. Pedir que os alunos se sentem de modo que possam escolher um objeto para observar, em silêncio, por cinco minutos. A escolha é livre e não deve ser compartilhada em voz alta. Ao final do tempo, explicar as tarefas abaixo que devem ser feitas na mesma folha.

. Desenho: cada aluno deve fazer um esboço do objeto escolhido com toda calma, prestando o máximo de atenção possível tanto à forma geral quanto aos pequenos detalhes.

. Texto: cada aluno deve inventar um nome próprio para o objeto escolhido (Maria, João, Ariel etc.) e escrever uma pequena história como se este objeto fosse o personagem nomeado, usando a primeira pessoa do singular (exemplo abaixo).

doris.jpg

Parte 2 – Compartilhando as histórias

. Selecionar um objeto e chamar os alunos que o escolheram para dizer o nome, contar a história e mostrar o desenho. Eles podem ir pra frente da turma ou compartilhar na roda no chão, dependendo de como vocês estiverem organizados. Se a turma for pequena, cada aluno pode ler toda a sua história mas, se o grupo for grande, é melhor que leiam apenas uma ou duas frases. Esse é um momento para deixar todos à vontade, curtindo as histórias criadas; por isso, é bom pedir a um aluno mais extrovertido que comece. (À medida que o exercício avança, os demais vão se tranquilizando e se divertindo.)

. Depois que as histórias do primeiro objeto escolhido são compartilhadas, é o momento de trocar ideias. Quais foram os nomes atribuídos? Houve um gênero? Quais foram os pontos em comum das histórias? E os diferentes? Quais aspectos do objeto (ou do observador) levaram às narrativas e interpretações?

. Para continuar, peço que o dono do objeto se identifique. É sempre com um sorriso que a pessoa levanta a mão! Acho que é um momento em que eles se sentem presentes, para além do seu papel de alunos. Perguntamos então o que ele/ela achou dos nomes e das histórias; e se pode contar um pouco da vida do objeto, se tem um nome, de onde veio, por onde andou etc.

. Nesse processo, todas as pessoas envolvidas vão se conectando por meio das narrativas e dos significados que os objetos suscitaram. Vamos aprendendo sobre os laços afetivos, as redes de sociabilidade, as singularidades individuais e os comportamentos compartilhados (ou não).

. O exercício vai se repetindo com os demais objetos, até que todos os alunos tenham participado.

. Um aspecto relevante numa turma com jovens universitários é que a grande maioria dos objetos foi presente de alguém afetivamente próximo. Essa constatação abre para um debate mais amplo sobre como os objetos “falam” de valores (padrões de gostos, visões de mundo etc.) e indicadores sociais (ocupação, geração, gênero, nacionalidade etc.) das pessoas envolvidas.

Desdobramentos

. Para além dos objetivos da aula, listados acima, já propus dois tipos de exercícios decorrentes dessa experiência, em ambos retirando o lado ficcional da narrativa:

. Um deles é repetir em casa o trio “observação, desenho e escrita” com um objeto que o aluno considere especial na sua história de vida. Na aula de entrega desse material, colocamos todos os trabalhos no quadro para a turma observar e debater. (Geralmente, só faço essa proposta em oficinas de antropologia e desenho.)

. O segundo exercício é levar essa experiência para o trabalho de campo. O objetivo é explorar a habilidade para detectar objetos significativos para o campo escolhido, exercitando a análise de seus aspectos simbólico-sociais. Geralmente, em turmas de pesquisa etnográfica, peço que façam isso com dez objetos (imagens e textos) para depois selecionarem alguns para uma análise mais aprofundada.

Eu poderia passar a noite contando mil histórias que surgiram desse exercício, mas o post já está muito longo. Tivemos choros, risadas, abraços, descobertas, análises filosóficas e antropológicas intermináveis… Muita coisa pode surgir dessa dinâmica, das acadêmicas até as inusitadas: uma vez, sem combinar, três pessoas que nunca tinham se visto antes nomearam uma bolsa com o mesmo nome: Matilde!

Deixo agora por conta de vocês: experimentem e me digam como foi, tá?

* O trecho citado está em SAHLINS, Marshall. “La pensée bourgeoise: a sociedade ocidental como cultura”, In: Cultura e razão prática. Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 2003 [1976], p.170.

E para quem se interessa pelo mundo acadêmico: o blog tem posts com meu último artigo sobre antropologia e desenhodicas de escrita da Natalie Goldberg,  25 dicas de edição de textos, sobre brincar de pesquisar, sobre o tempo pra fazer a tese – parte 1 e parte 2como explicar sua tese, dicas para aproveitar a defesa de doutorado e outros textos sobre minhas experiência na importância de escutar, nos truques da escrita, na elaboração de uma carta para a seleção de mestrado, na escrita de projetos, nas defesas de tese, nas dores de não passar, na falta de tempo, no ensino de antropologia e desenho, no aprender a desescrever, nas agruras de ser doutoranda, na vida dos alunos, no sorriso do professor, nas lições da vida acadêmica, na importância de não ser perfeito e nas muitas saudades de Oxford 1, 2, 3 e 4!

Sobre os desenhos: Objetos que são parte da minha história, da esquerda para a direita: chocalho marajoara que foi do Antônio bebê (ganho em Belém-PA), porta-coisinhas de louça que foi da minha avó Lydia, minha caneca preferida (de Oxford, UK), bonequinha de pano que a Alice mais amava quando era pequena. Todos foram desenhados para um projeto de troca de desenhos num caderninho Laloran com canetinhas de nanquim e coloridos com aquarela. Depois conto mais sobre o projeto!

Agradeço aos alunos pela cessão dos desenhos das bolsas e mochilas!

Você acabou de ler “A vida simbólica dos objetos – ideia para aula lúdica (2)“, escrito e ilustrado por Karina Kuschnir e publicado em karinakuschnir.wordpress.com. Se quiser receber automaticamente novos posts, vá para a página inicial do blog e insira seu e-mail na caixa lateral à direita. Se estiver no celular, a caixa de inscrição está no rodapé. Obrigada! 🙂

Como citar: Kuschnir, Karina. 2016. “A vida simbólica dos objetos – ideia para aula lúdica (2)”, Publicado em karinakuschnir.wordpress.com, url “http://wp.me/s42zgF-objetos“. Acesso em [dd/mm/aaaa].  

 


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Mente selvagem: dicas de escrita de Natalie Goldberg

dragaoculturap

“A vida não é ordeira. Por mais que tentemos pô-la em ordem, bem no meio dela morremos, perdemos uma perna, nos apaixonamos, derrubamos um pote de geléia.”

Assim Natalie Goldberg começa seu Mente selvagem. O dragão da imagem me fez puxar esse livro da estante. Estou assustada com a falta de confiança dos meus alunos em escrever. Não se reconhecem como autores. Repetem as frases que os professores querem ler nas provas. É um bom truque aprender a escrever aquilo que seus avaliadores desejam, mas é também uma armadilha.

“Confiar em nossa mente é essencial para escrever”, diz Natalie, antes de apresentar seus 7 conselhos para o ofício:

  1. “Mantenha sua mão em movimento.” Estabeleça um tempo e não pare. Deixe que a mão criativa assuma o controle, impedindo a mão editora-crítica de interferir.
  2. “Descontrole-se. Diga o quer dizer.”
  3. “Especifique-se. Não carro, mas Cadillac. Não fruta, maçã.”
  4. “Não pense. (…) Limite-se a treinar e esqueça todo o resto.”
  5. “Não se preocupe com pontuação, ortografia e gramática.”
  6. “Esteja livre para escrever o pior lixo das Américas.”
  7. “Ataque a jugular. Se alguma coisa apavorante surgir, vá em frente. É ali que está a energia.”

“Estamos sempre recomeçando”, ela escreve. “É como beber água. Não bebemos um copo uma vez e nunca mais temos de tornar a beber. Não terminamos um poema ou um romance e nunca mais temos de escrever outro. Estamos sempre recomeçando. Isso é bom. É bondade.”

“Mantenha-se simples”, afunde-se em si mesmo e escreva naquele lugar tranquilo de igualdade e verdade, segue Natalie.

“Somos lentos em nos dar conta da grandeza que há em nós.”

“Escrever é a brecha pela qual podemos nos esgueirar para um mundo maior, para nossa mente selvagem.”

“Se quer escrever, escreva. Essa é sua vida. Você é responsável por ela e não vai viver para sempre. Não espere. Arranje tempo agora, mesmo que dez minutos por semana.”

“Muitas vezes, quando está sendo difícil escrever, digo a mim mesma: ‘não existe fracasso’. O único fracasso de quem escreve é parar de escrever. (…) Não faça isso. Deixe que o mundo lá fora grite com você. Crie um mundo íntimo de determinação.”

“É bom experimentar coisas diferentes, mas eventualmente temos que escolher uma coisa e assumir um compromisso. Do contrário estaremos sempre à deriva e não teremos paz. (…) a capacidade de se concentrar é de onde vêm o contentamento e o amor.”

Adorei reler essas frases que sublinhei na época da leitura, nos anos 1990. Quem sabe ressoem em vocês.

Sobre o livro: Goldberg, Natalie. Mente Selvagem: como se tornar um escritor. Rio de Janeiro: Gryphus, 1994. (Tradução de Tati Moraes.) Da mesma autora, recomendo Writing Down the Bones, que não sei se tem em português.

Revistas acadêmicas! A seguir um presentinho preparado pela querida Daniela Manica (obrigada! ♥) a partir de um post que publiquei no Facebook pedindo sugestões de revistas que aceitam trabalhos de alunos de graduação. A Dani também é professora de oficinas de escrita no IFCS e faz um trabalho incrível com os alunos, de pesquisa e preparação de textos para publicação. Aí vai a listinha completa das revistas indicadas:

Revista Habitus (IFCS/UFRJ)
http://www.habitus.ifcs.ufrj.br/index.php/ojs

Cadernos de Campo (FFLCH/USP)
http://www.revistas.usp.br/cadernosdecampo/index

Ponto Urbe (FFLCH/USP)
https://pontourbe.revues.org/

Revista Três Pontos (FAFICH/UFMG)
https://seer.ufmg.br/index.php/revistatrespontos/index

Revista Ensaios (UFF)
http://www.uff.br/periodicoshumanas/index.php/ensaios

Revista Todavia (UFRGS)
http://www.ufrgs.br/revistatodavia/

Revista Florestan (UFSCAR)
http://www.revistaflorestan.ufscar.br/index.php/Florestan/index

Revista Textos Graduados (UNB)
http://periodicos.unb.br/index.php/tg

Revista Primeiros Estudos (USP)
http://www.revistas.usp.br/primeirosestudos/index

Revista Pensata (Unifesp)
http://www2.unifesp.br/revistas/pensata/

Revista Escrita da História – REH
http://www.escritadahistoria.com/

E para quem se interessa pelo mundo acadêmico: o blog tem posts com 25 dicas de edição de textos, sobre brincar de pesquisar, sobre o tempo pra fazer a tese – parte 1 e parte 2como explicar sua tese, dicas para aproveitar a defesa de doutorado e outros textos sobre minhas experiência na importância de escutar, nos truques da escrita, na elaboração de uma carta para a seleção de mestrado, na escrita de projetos, nas defesas de tese, nas dores de não passar, na falta de tempo, no ensino de antropologia e desenho, no aprender a desescrever, nas agruras de ser doutoranda, na vida dos alunos, no sorriso do professor, nas lições da vida acadêmica, na importância de não ser perfeito e nas muitas saudades de Oxford 1, 2, 3 e 4!

Sobre o desenho: Dragão feito por observação na Livraria Cultura do Conjunto Nacional, de São Paulo, durante uma aula de desenho da Fernanda Vaz Campos, que gentilmente me convidou para participar. Foi uma festa estar na terra da garoa por quatro dias, mas sobre isso escrevo mais em outro post. O desenho foi feito num moleskine pequeno com canetinha Unipin 0.2 e  aquarelado no local, do jeito que deu. Passei um pouquinho de lápis-de-cor branco antes de escanear para tentar marcar os brilhos na fórmica preta, mas acho que não deu muito certo.