Karina Kuschnir

desenhos, textos, coisas


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Chá-de-tempo, chá-com-o-Tempo

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Alice suspirou, entediada. “Acho que vocês poderiam fazer alguma coisa melhor com o tempo” (…)  “Se você conhece o Tempo tão bem quanto eu”, disse o Chapeleiro, “falaria dele com mais respeito.” “Não sei o que quer dizer”, disse Alice. “Claro que não!” desdenhou o Chapeleiro, jogando a cabeça pra trás. “Atrevo-me a dizer que você nunca chegou a falar com o Tempo! (…) Ele não suporta apanhar.” (Aventuras de Alice no País das Maravilhas**)

Toda segunda tenho a impressão de que falta muito para quarta, e toda sexta eu não entendo o que houve com o tempo de quinta! Assim transcorre a semana-do-blog na minha percepção, como um eterno looping de um post-em-fuga.

Como muitos de vocês que estão agora escrevendo projetos, TCCs, teses e dissertações, também preciso de foco, espaço mental e tempo para desenhar e escrever. Por que essas três condições são tão ariscas?

Sonhei essa noite que tomava um chá-de-tempo ou, como gostaria o Chapeleiro, um chá-com-o-Tempo. Imaginem que maravilha: um saquinho contendo horas, minutos e segundos na quantidade que desejássemos!

Porém, contudo, entretanto… como sempre acontece comigo, o sonho virou pesadelo. Ao me tornar senhora do meu tempo, me vi como a protagonista daquele filme Click, em que o chato do Adam Sendler encontra um controle remoto mágico. Ao pular todas as partes difíceis, ele chega ao final da vida sem viver.

Tomo um chá com cafeína para espantar o sono. Vasculho a pilha de papéis da minha mesa para achar os formulários de matrícula da escola das crianças. Descobri que o prazo da Alice é hoje, mas preciso andar. O corpo vem primeiro, digo para os meus alunos (tentando me convencer). Volto, tomo banho, levo 45 minutos para preencher 12 páginas de informações; outros 45 minutos para ir e voltar da escola. A manhã acabou. Termino de almoçar, olho a inbox do Gmail com 92 mensagens para responder. Não, nenhuma dessas é spam, divulgação ou promoção. Penso nos amigos que não parabenizei, nos agradecimentos que não escrevi, mas hoje é sexta e o post já está dois dias atrasado.

“Dois dias de atraso!”, suspirou o Chapeleiro.

Sim, respondo mentalmente, dois dias é mais ou menos o meu atraso de fábrica. Atrasado mas feito: este é o post número 139. Quando tudo fica pronto e aperto “publicar”, me dá um vazio. É como muitos nos sentimos no pós-tese. No momento em que saímos da água, percebemos o quanto foi bom mergulhar.

Até semana que vem, com um carinho especial para todos os meus colegas professores que ainda têm pilhas de provas e trabalhos para corrigir antes do Natal. Tamo junto!

Sobre o desenho: Imagem feita no caderno da amiga Béliza Mendes, com quem participei de um grupo de troca de sketchbooks sobre diferentes temas. Neste, ela nos fez um “Convite para o chá”. Desenhei minha sapa de estimação (que já apareceu aqui) tomando chá na mesinha que herdei da minha . Utilizei canetinha de nanquim permanente 0.1 Unipin, aquarela e lápis-de-cor (especialmente no paninho listrado). Na edição da imagem para o post, apaguei a mensagem pessoal que havia no canto esquerdo. (Outros desenhos desse projeto estão aqui e aqui; mas estou devendo um post sobre.)

Sobre o livro: trecho inicial extraído da página 70 de “Alice: edição comentada”, de Lewis Carroll (ed. Zahar, tradução de Maria Luiza X. de A. Borges).  Os “dois dias” de atraso estão na página 69.


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Dez dicas sobre criatividade

atelierchiarap.jpg“Qualquer pessoa pode criar”, diz Kevin Ashton, mas não existem atalhos ou fórmulas: “criação não é magia, é trabalho.”

Assim começa um livrinho despretensioso que li nas últimas semanas sobre criatividade. É cheio de histórias para inspirar…  bem auto-ajuda disfarçada para pessoas que não se acham leitoras de auto-ajuda, tipo eu. Então, alerta aos intelectuais! Podem parar por aqui. Aos que continuam, minhas dicas preferidas do autor:

1) Sobre criatividade ser inata. A baunilha — essa delícia que está em quase todos os doces do mundo atual — passou a ser produzida em massa graças à criatividade de um menino escravizado. Edmond Albius, aos 12 anos, em 1841, na atual ilha Reunião, na África, com seus dedinhos de criança, pensou, observou, testou, e fez aquilo que ninguém havia conseguido: inventou um jeito de reproduzir a planta manualmente. Felizmente, seu tutor lutou para que a autoria de Edmond fosse reconhecida na história.

2) Sobre criatividade na vida adulta. Toda criança é criativa. Se ganha uma caixa de lápis de cor, desenha; se ganha um conjunto de blocos, empilha. Se não brinca, fica agitada, ansiosa, amuada. Muitos adultos esquecem disso — mas de vez em quando ouvem uma voz ecoando na própria cabeça: “quero meu lápis de cera colorido de volta”! O problema, como o autor dirá mais à frente, é que criação não combina com as condições de trabalho da maioria dos adultos. O pior ambiente para a criatividade é parecido com o do nosso emprego: não há livre escolha, embora haja recompensa. Quanto mais pressão, menos criativos somos. Saber que estamos sendo avaliados prejudica nossa criatividade. Por isso, muitos artistas preferem não dar importância ao público ou a premiações.

T.S. Eliot, ao saber que ganhara o Prêmio Nobel, teria dito: “O Nobel é uma passagem para o nosso próprio funeral.”

3) Sobre criatividade e persistência. “Criar é dar passos, e não saltos: encontrar um problema, resolvê-lo e repetir. A continuação dos passos vence.” As pessoas mais criativas são as que seguem avançando ao se deparar com novos problemas. Quanto mais passos as pessoas insistem em dar, maior o seu potencial de criar algo novo. Para o autor, os grandes criadores trabalham mesmo que não sintam vontade, que não estejam no clima, ou que não tenham inspiração.

“Seja crônico”, a boa criatividade não surge do nada: ela “se acumula”.

4) Sobre criatividade e desapego. Stephen King, autor de mais de 80 livros, escreve em média duas mil palavras por dia. Em duas décadas, produziu 14 milhões de palavras, mas nesse mesmo período publicou livros que somam apenas 5 milhões de palavras. Para onde foram as 9 milhões restantes? Para o lixo. Sentar e escrever todo dia é o que importa, mesmo que dois terços do que você produza seja ruim.

5) Sobre criatividade requerer tempo. Num levantamento sobre o tema, o pesquisador enviou um questionário para quase 300 pessoas “criativas”. Um terço recusou. Um terço não respondeu. Ambas as partes disseram com atitudes o que o terço final respondeu: criar consome tempo e concentração. Não dá para ficar respondendo questionário! Segundo disse a uma amiga o escritor Charles Dickens:

“não é só meia hora, não é só uma tarde ou uma noite; (…) a mera consciência de um compromisso pode atrapalhar um dia inteiro.  Quem se dedica a uma arte deve se contentar em se entregar totalmente a ela…”

Ah, como todos os acadêmicos lutam internamente com isso. Só essa semana ouvi de três colegas professores lamentos de como não estão conseguindo escrever seus artigos. Taí a explicação. Escrever no meio de uma agenda lotada é humanamente muito difícil.

6) Sobre criatividade e rejeição. Rejeição dói, seja no amor, no trabalho ou em qualquer área da vida. Mas criar exige aceitar esse risco. Enfrentar a suspeita, o ceticismo e o medo e não desistir. A criatividade está em como reagimos às adversidades.

Ashton diz: “Não é possível escapar de um labirinto se andarmos só para frente. Às vezes o caminho para a frente está atrás. A rejeição educa. O fracasso ensina.”

7) Sobre criatividade e visão. Uma das histórias mais legais do livro é a da descoberta da bactéria H.Pylori, por Robin Warren, que recebeu um prêmio Nobel pelo feito em 2005. O detalhe é que, durante anos, o médico lutou para que as pessoas simplesmente “enxergassem” o que ele via em seu microscópio e o que as imagens científicas já registravam desde o século XIX. O pesquisador havia superado a “cegueira” mental provocada pelo desconhecimento. Segundo Douglas Adams, citado por Ashton:

“não vemos o que o nosso cérebro não nos deixa ver (…). O cérebro simplesmente apaga, como um ponto cego. Se você olhar diretamente para algo, não verá nada, a menos que tenha certeza do que é.”

O autor narra vários experimentos divertidos sobre não como não vemos algo que está diante dos nossos olhos. Pessoas falando no celular que não viam um grande palhaço no seu caminho. Médicos radiologistas que não viam a foto de um gorila inserida nas radiografias de pulmões que examinavam. Já os que enxergavam melhor, mesmo diante de armadilhas, como os grandes mestres de xadrez, não tinham varinhas mágicas, mas sim tanta experiência que podiam ver dezenas de jogadas à frente.

8) Sobre criatividade e o vazio. Inspirado no livro “Mente zen, mente de principiante”, de Shunryu Suzuki, Ashton fala da importância de ver além da seletividade, notar tudo “sem pressuposições”. É praticamente uma aula de antropologia… “É ver o que está ali em vez de ver o que pensamos”, diz o autor, antes de narrar um conto zen, que resumo para vocês.

O mestre japonês é procurado pelo professor universitário. Ao servir-lhe o chá, o sábio derrama continuamente o líquido na xícara do visitante. Ao ouvir palavras de espanto — “Está transbordando!” –, o mestre responde: “Assim está sua mente: cheia de suas próprias opiniões e especulações. Para entender o zen, é preciso esvaziar a xícara.”

Diz Suzuki: o segredo para criar é ser sempre um principiante.  Ou, nas palavras de Ashton: “Ver o inesperado, não esperando nada.”

9) Sobre criatividade e dúvida. Quando achamos que vemos o que ninguém vê, como saber a diferença entre confiança e delírio? Taí uma pergunta difícil que o autor responde com mais autores, da teoria das revoluções científicas de Thomas Kuhn aos ensaios de David Foster Wallace. E nos conta a história de Percival Lowell, astrônomo amador que acreditava ter encontrado vida extraterrestre, além de outros achados incríveis. Afinal, seu telescópio tinha problemas estruturais que sua mente ansiosa pelas descobertas não lhe permitiu detectar. “Podemos enxergar algo que não existe quando desejamos muito, assim como podemos ignorar o inesperado quando ele existe”, conclui Ashton.

A falsa certeza é comum no cotidiano, como o autor demonstra através de vários exemplos de memórias distorcidas, num processo que pode chegar à “dissonância cognitiva”: quando vemos coisas que não existem ou ignoramos as que existem de modo a manter a vida segundo as nossas crenças. Ser mais criativo é fugir desse tipo de autoconfiança e buscar a dúvida, se permitindo mudar de ideia.

10) Sobre criatividade e coragem. Tolstói teria dito: “você precisa mergulhar sua pena no sangue”. Entendo que esse sangue não é apenas símbolo da dor e da morte, mas também da vida, da criação. Não criar é que nos mata. Diz Ashton: “A única coisa que fazemos antes de começar é não começar (…) e o melhor modo de começar é se atirar.” Trabalhar o máximo de horas possível, repetir todos os dias, ter coragem de produzir coisas ruins, dispender tempo, evitar interrupções. “A interrupção nos deixa lentos”, ele nos lembra bem a calhar, nesses tempos de redes sociais ininterruptas. E termino por onde começamos, com as crianças, campeãs de uma experiência científica chamada “desafio do marshmallow”.

Desafio do marshmallow. Funciona assim: quem consegue fazer a estrutura mais alta composta de 20 varetas de macarrão, barbante, fita-crepe e um marshmallow por cima, em 18 minutos? Não importa quão inteligentes sejam os adultos competidores, crianças de 5 a 6 anos obtém sempre os melhores resultados: torres de 68 centímetros em média, contra torres de 53 centímetros (de executivos brilhantes) ou só 25 centímetros (de alunos de administração). Segundo o autor, as crianças vencem porque colaboram de forma espontânea, se permitindo fazer várias torres logo de início, sem perder tempo competindo ou planejando demais. Pensam e agem ao mesmo tempo.

Ashton termina de forma otimista: todos os seres humanos são criativos, e muito mais do que pensamos. Precisamos do novo. Por mais dificuldades que surjam, as crises serão superadas com mudança e criatividade.

Assim seja.

Sobre o livro: “A história secreta da criatividade”, de Kevin Ashton, 2016 (ed. Sextante). Uma rara surpresa nesse tipo de obra: há um ótimo conjunto de notas com comentários e fontes detalhadas para cada capítulo, além de uma extensa bibliografia ao final.

Sobre o desenho: Mesinha do chá do Atelier Chiaroscuro, da professora Chiara Bozzetti, onde tenho feito aulas de aquarela. É um espaço de leveza e criatividade como poucos! Por coincidência, o desenho da minha última aula antes da licença-maternidade da professora acabou combinando com o tema do post. Fiz com observação no local, utilizando canetinha Unipin 0.2, num caderno Fabriano de aquarela. Pintei a maior parte lá mesmo, com diferentes tintas e pincéis, mas terminando os detalhes em casa. As bolinhas do painel perfurado foram feitas com uma caneta cinza Graphik Line Marker da Derwent, 0.1.


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A vida simbólica dos objetos – ideia para aula lúdica (2)

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Hoje compartilho um outro plano de aula lúdica com vocês, inspirada pelo retorno tão positivo que venho recebendo do post anterior. É um exercício simples que junta afeto e aprendizado coletivo, as duas coisas que mais prezo dentro de uma sala de aula.

Tive a ideia dessa proposta numa oficina noturna de Antropologia e Desenho, mas tenho experimentado e dá muito certo nas turmas de teoria antropológica também. Os objetos e o tempo dispendido podem ser adaptados conforme a situação e o público (que pode ser de pessoas de qualquer escolaridade, de 9 a 99 anos).☺

Objetivos da aula:

. Criar um ambiente de curiosidade e desafio na sala de aula, que fuja da rotina e estimule a criatividade. (Ou, como já escrevi:  Mostrar que uma pesquisa pode ser divertida e interessante; pode ser vivida como um enigma, um quebra-cabeça que desvendamos.)

. Exercitar a paciência e o foco no processo de observação, com objetivo de “treinar” o rendimento do olhar para o trabalho de campo etnográfico.

. Explorar a capacidade de imaginação e interpretação dos aspectos materiais, visuais e sociais dos objetos.

. Perceber que aprendemos a partir de uma pesquisa, pois há camadas de sentido na vida social que exigem tempo e convívio para serem compreendidas, isto é, não estão acessíveis num contato superficial.

. Compreender que os objetos são carregados de valores simbólicos, socialmente construídos, como escreveu Marshall Sahlins*: “Nenhum objeto, nenhuma coisa é ou tem movimento na sociedade humana, exceto pela significação que as pessoas lhe atribuem.”

. Promover um ambiente descontraído de trocas, afetos e risadas, gerando aproximações e conexões entre os participantes.

. Fortalecer a autonomia: mostrar que podemos e devemos pensar a partir dos nossos dados, classificá-los e interpretá-los.

Material necessário:

. Folha de caderno comum e caneta. (Ou folha de papel A4 liso e material de desenho, se for uma aula com interesse na produção gráfica.)

. Objetos comuns presentes na sala de aula (Ou objetos trazidos de casa, se quiserem explorar histórias mais pessoais.)

Dinâmica – Como conduzir a oficina:

Preparação:

. Pedir para os alunos saírem da sala levando apenas um caderno (ou folha de papel) e uma caneta (ou material de desenho).

. Com os alunos ausentes da sala, o professor coloca objetos que estejam no ambiente perto do quadro da sala, no tablado (se houver) ou no centro da sala (a depender do tamanho da turma, da sala etc.). No caso de objetos pequenos ou trazidos de casa, é bom apoiá-los em folhas de papel Kraft grandes ou em cartolina branca. As mochilas e bolsas dos alunos são ótimos objetos para esse exercício (ver imagem abaixo). É importante selecionar menos objetos do que estudantes (por exemplo, 10 objetos para 30 alunos).

mochilas

Parte 1 – Observação:

. Chamar os alunos de volta à sala, avisando que eles não devem identificar se o seu objeto foi selecionado. (Lembrar também que  o trabalho não é para nota e não tem certo ou errado.)

. Pedir que os alunos se sentem de modo que possam escolher um objeto para observar, em silêncio, por cinco minutos. A escolha é livre e não deve ser compartilhada em voz alta. Ao final do tempo, explicar as tarefas abaixo que devem ser feitas na mesma folha.

. Desenho: cada aluno deve fazer um esboço do objeto escolhido com toda calma, prestando o máximo de atenção possível tanto à forma geral quanto aos pequenos detalhes.

. Texto: cada aluno deve inventar um nome próprio para o objeto escolhido (Maria, João, Ariel etc.) e escrever uma pequena história como se este objeto fosse o personagem nomeado, usando a primeira pessoa do singular (exemplo abaixo).

doris.jpg

Parte 2 – Compartilhando as histórias

. Selecionar um objeto e chamar os alunos que o escolheram para dizer o nome, contar a história e mostrar o desenho. Eles podem ir pra frente da turma ou compartilhar na roda no chão, dependendo de como vocês estiverem organizados. Se a turma for pequena, cada aluno pode ler toda a sua história mas, se o grupo for grande, é melhor que leiam apenas uma ou duas frases. Esse é um momento para deixar todos à vontade, curtindo as histórias criadas; por isso, é bom pedir a um aluno mais extrovertido que comece. (À medida que o exercício avança, os demais vão se tranquilizando e se divertindo.)

. Depois que as histórias do primeiro objeto escolhido são compartilhadas, é o momento de trocar ideias. Quais foram os nomes atribuídos? Houve um gênero? Quais foram os pontos em comum das histórias? E os diferentes? Quais aspectos do objeto (ou do observador) levaram às narrativas e interpretações?

. Para continuar, peço que o dono do objeto se identifique. É sempre com um sorriso que a pessoa levanta a mão! Acho que é um momento em que eles se sentem presentes, para além do seu papel de alunos. Perguntamos então o que ele/ela achou dos nomes e das histórias; e se pode contar um pouco da vida do objeto, se tem um nome, de onde veio, por onde andou etc.

. Nesse processo, todas as pessoas envolvidas vão se conectando por meio das narrativas e dos significados que os objetos suscitaram. Vamos aprendendo sobre os laços afetivos, as redes de sociabilidade, as singularidades individuais e os comportamentos compartilhados (ou não).

. O exercício vai se repetindo com os demais objetos, até que todos os alunos tenham participado.

. Um aspecto relevante numa turma com jovens universitários é que a grande maioria dos objetos foi presente de alguém afetivamente próximo. Essa constatação abre para um debate mais amplo sobre como os objetos “falam” de valores (padrões de gostos, visões de mundo etc.) e indicadores sociais (ocupação, geração, gênero, nacionalidade etc.) das pessoas envolvidas.

Desdobramentos

. Para além dos objetivos da aula, listados acima, já propus dois tipos de exercícios decorrentes dessa experiência, em ambos retirando o lado ficcional da narrativa:

. Um deles é repetir em casa o trio “observação, desenho e escrita” com um objeto que o aluno considere especial na sua história de vida. Na aula de entrega desse material, colocamos todos os trabalhos no quadro para a turma observar e debater. (Geralmente, só faço essa proposta em oficinas de antropologia e desenho.)

. O segundo exercício é levar essa experiência para o trabalho de campo. O objetivo é explorar a habilidade para detectar objetos significativos para o campo escolhido, exercitando a análise de seus aspectos simbólico-sociais. Geralmente, em turmas de pesquisa etnográfica, peço que façam isso com dez objetos (imagens e textos) para depois selecionarem alguns para uma análise mais aprofundada.

Eu poderia passar a noite contando mil histórias que surgiram desse exercício, mas o post já está muito longo. Tivemos choros, risadas, abraços, descobertas, análises filosóficas e antropológicas intermináveis… Muita coisa pode surgir dessa dinâmica, das acadêmicas até as inusitadas: uma vez, sem combinar, três pessoas que nunca tinham se visto antes nomearam uma bolsa com o mesmo nome: Matilde!

Deixo agora por conta de vocês: experimentem e me digam como foi, tá?

* O trecho citado está em SAHLINS, Marshall. “La pensée bourgeoise: a sociedade ocidental como cultura”, In: Cultura e razão prática. Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 2003 [1976], p.170.

E para quem se interessa pelo mundo acadêmico: o blog tem posts com meu último artigo sobre antropologia e desenhodicas de escrita da Natalie Goldberg,  25 dicas de edição de textos, sobre brincar de pesquisar, sobre o tempo pra fazer a tese – parte 1 e parte 2como explicar sua tese, dicas para aproveitar a defesa de doutorado e outros textos sobre minhas experiência na importância de escutar, nos truques da escrita, na elaboração de uma carta para a seleção de mestrado, na escrita de projetos, nas defesas de tese, nas dores de não passar, na falta de tempo, no ensino de antropologia e desenho, no aprender a desescrever, nas agruras de ser doutoranda, na vida dos alunos, no sorriso do professor, nas lições da vida acadêmica, na importância de não ser perfeito e nas muitas saudades de Oxford 1, 2, 3 e 4!

Sobre os desenhos: Objetos que são parte da minha história, da esquerda para a direita: chocalho marajoara que foi do Antônio bebê (ganho em Belém-PA), porta-coisinhas de louça que foi da minha avó Lydia, minha caneca preferida (de Oxford, UK), bonequinha de pano que a Alice mais amava quando era pequena. Todos foram desenhados para um projeto de troca de desenhos num caderninho Laloran com canetinhas de nanquim e coloridos com aquarela. Depois conto mais sobre o projeto!

Agradeço aos alunos pela cessão dos desenhos das bolsas e mochilas!

 

 


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Mente selvagem: dicas de escrita de Natalie Goldberg

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“A vida não é ordeira. Por mais que tentemos pô-la em ordem, bem no meio dela morremos, perdemos uma perna, nos apaixonamos, derrubamos um pote de geléia.”

Assim Natalie Goldberg começa seu Mente selvagem. O dragão da imagem me fez puxar esse livro da estante. Estou assustada com a falta de confiança dos meus alunos em escrever. Não se reconhecem como autores. Repetem as frases que os professores querem ler nas provas. É um bom truque aprender a escrever aquilo que seus avaliadores desejam, mas é também uma armadilha.

“Confiar em nossa mente é essencial para escrever”, diz Natalie, antes de apresentar seus 7 conselhos para o ofício:

  1. “Mantenha sua mão em movimento.” Estabeleça um tempo e não pare. Deixe que a mão criativa assuma o controle, impedindo a mão editora-crítica de interferir.
  2. “Descontrole-se. Diga o quer dizer.”
  3. “Especifique-se. Não carro, mas Cadillac. Não fruta, maçã.”
  4. “Não pense. (…) Limite-se a treinar e esqueça todo o resto.”
  5. “Não se preocupe com pontuação, ortografia e gramática.”
  6. “Esteja livre para escrever o pior lixo das Américas.”
  7. “Ataque a jugular. Se alguma coisa apavorante surgir, vá em frente. É ali que está a energia.”

“Estamos sempre recomeçando”, ela escreve. “É como beber água. Não bebemos um copo uma vez e nunca mais temos de tornar a beber. Não terminamos um poema ou um romance e nunca mais temos de escrever outro. Estamos sempre recomeçando. Isso é bom. É bondade.”

“Mantenha-se simples”, afunde-se em si mesmo e escreva naquele lugar tranquilo de igualdade e verdade, segue Natalie.

“Somos lentos em nos dar conta da grandeza que há em nós.”

“Escrever é a brecha pela qual podemos nos esgueirar para um mundo maior, para nossa mente selvagem.”

“Se quer escrever, escreva. Essa é sua vida. Você é responsável por ela e não vai viver para sempre. Não espere. Arranje tempo agora, mesmo que dez minutos por semana.”

“Muitas vezes, quando está sendo difícil escrever, digo a mim mesma: ‘não existe fracasso’. O único fracasso de quem escreve é parar de escrever. (…) Não faça isso. Deixe que o mundo lá fora grite com você. Crie um mundo íntimo de determinação.”

“É bom experimentar coisas diferentes, mas eventualmente temos que escolher uma coisa e assumir um compromisso. Do contrário estaremos sempre à deriva e não teremos paz. (…) a capacidade de se concentrar é de onde vêm o contentamento e o amor.”

Adorei reler essas frases que sublinhei na época da leitura, nos anos 1990. Quem sabe ressoem em vocês.

Sobre o livro: Goldberg, Natalie. Mente Selvagem: como se tornar um escritor. Rio de Janeiro: Gryphus, 1994. (Tradução de Tati Moraes.) Da mesma autora, recomendo Writing Down the Bones, que não sei se tem em português.

Revistas acadêmicas! A seguir um presentinho preparado pela querida Daniela Manica (obrigada! ♥) a partir de um post que publiquei no Facebook pedindo sugestões de revistas que aceitam trabalhos de alunos de graduação. A Dani também é professora de oficinas de escrita no IFCS e faz um trabalho incrível com os alunos, de pesquisa e preparação de textos para publicação. Aí vai a listinha completa das revistas indicadas:

Revista Habitus (IFCS/UFRJ)
http://www.habitus.ifcs.ufrj.br/index.php/ojs

Cadernos de Campo (FFLCH/USP)
http://www.revistas.usp.br/cadernosdecampo/index

Ponto Urbe (FFLCH/USP)
https://pontourbe.revues.org/

Revista Três Pontos (FAFICH/UFMG)
https://seer.ufmg.br/index.php/revistatrespontos/index

Revista Ensaios (UFF)
http://www.uff.br/periodicoshumanas/index.php/ensaios

Revista Todavia (UFRGS)
http://www.ufrgs.br/revistatodavia/

Revista Florestan (UFSCAR)
http://www.revistaflorestan.ufscar.br/index.php/Florestan/index

Revista Textos Graduados (UNB)
http://periodicos.unb.br/index.php/tg

Revista Primeiros Estudos (USP)
http://www.revistas.usp.br/primeirosestudos/index

Revista Pensata (Unifesp)
http://www2.unifesp.br/revistas/pensata/

Revista Escrita da História – REH
http://www.escritadahistoria.com/

E para quem se interessa pelo mundo acadêmico: o blog tem posts com 25 dicas de edição de textos, sobre brincar de pesquisar, sobre o tempo pra fazer a tese – parte 1 e parte 2como explicar sua tese, dicas para aproveitar a defesa de doutorado e outros textos sobre minhas experiência na importância de escutar, nos truques da escrita, na elaboração de uma carta para a seleção de mestrado, na escrita de projetos, nas defesas de tese, nas dores de não passar, na falta de tempo, no ensino de antropologia e desenho, no aprender a desescrever, nas agruras de ser doutoranda, na vida dos alunos, no sorriso do professor, nas lições da vida acadêmica, na importância de não ser perfeito e nas muitas saudades de Oxford 1, 2, 3 e 4!

Sobre o desenho: Dragão feito por observação na Livraria Cultura do Conjunto Nacional, de São Paulo, durante uma aula de desenho da Fernanda Vaz Campos, que gentilmente me convidou para participar. Foi uma festa estar na terra da garoa por quatro dias, mas sobre isso escrevo mais em outro post. O desenho foi feito num moleskine pequeno com canetinha Unipin 0.2 e  aquarelado no local, do jeito que deu. Passei um pouquinho de lápis-de-cor branco antes de escanear para tentar marcar os brilhos na fórmica preta, mas acho que não deu muito certo.


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Pequeninas verdades

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Essa semana, Elizabeth Gilbert escreveu sobre o amor que sente por sua melhor amiga e nova companheira, Rayya Elias. Em meio a um emocionado post no Facebook, citou uma frase de Rayya sobre a verdade:

A verdade tem pernas; ela sempre fica de pé. Quando tudo o mais parece explodir ou se dissolver, a única coisa que fica inteira é sempre a verdade. Então, já que é onde você vai acabar de qualquer maneira, você pode muito bem começar por aí.*

Parece tão simples: começar de uma vez pela verdade. No entanto, é um caminho fácil de contestar se você é cientista social ou, pior ainda, antropóloga. Verdade? Qual verdade? Verdade de quem? Aos nossos olhos, o mundo é sempre complexo, cheio de versões, nuances e curvas. Por fora ou por dentro, tudo pode ser.

A frase, porém, ficou martelando na minha cabeça. Lembrou-me de uma vez em que eu estava angustiada e cheia de dúvidas diante de uma situação difícil. Até que minha sobrinha disse:

–Tia, pára de ver o ponto de vista dos outros o tempo todo!

Como? Eu? Parar de relativizar tudo?

Sim, ela tinha razão. Foi de longe o melhor conselho que me deram naquele momento. Tem hora pra tudo, até para deixar a teoria para outra hora.

O problema de aceitar a ideia de que a verdade existe é encontrá-la. Para algumas, levamos a vida inteira nessa busca, na esperança de encontrar uma verdadezinha que seja, de pé em algum lugar. Para outras, entretanto, basta coragem; coragem de perceber quando o coração bate mais rápido, quando o tempo parece não passar, quando o sono vem tranquilo e justo, quando a simples ideia de abraçar algo (ou alguém) te transmite paz .

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Não, não estou cheia de grandes decisões para tomar. Ao contrário, escrevo sobre isso porque ando em busca de pequeninas verdades para o cotidiano: que tipo de desenho amo fazer, o que me traz energia, o que me traz serenidade, o que me faz rir, o que preciso evitar.

As imagens desse post fazem parte dessa busca. Na primeira, uma folha caída de Embaúba que encontrei numa visita ao Parque do Martelo, um oásis perto da minha casa. Eu tinha ido algumas vezes ao local (como vocês podem ver pelas flores desse post) quando, por coincidência, minha amiga Nathalia me chamou para um encontro com suas alunas do curso Desenhos do cotidiano. Foi dificílimo ir num dia de semana. Cheguei atrasada, deixei de dar atenção à Alice e aos Milhões-de-Trabalhos-Importantes para fazer, mas fui. Chegando lá, em pleno universo-das-coisas-inúteis-do-desenho, quem eu encontrei?  A dona-verdade, bem em pé na minha frente, desligando o barulho do mundo e me presenteando com uma hora de paz. Sessenta minutos que tantas vezes já perdi vendo o Nada na tv ou na internet.

No segundo desenho, uma outra história. Achei um assento livre no metrô chinês gelado. Tentava desenhar, mas ao meu lado sentou-se um rapaz com música altíssima nos fones de ouvido. A tal ponto que me movi dali, incomodada. Felizmente, sentei adiante e me reconectei com o personagem desenhado. De repente, o rapaz-dos-fones vem para o meu lado e diz: — Nossa, estava vendo você desenhar, que ótimo! O André Dahmer é meu amigo de infância, você conhece o trabalho dele? Digo que sim. E ele fica animadíssimo, parece criança feliz, e só por encontrar alguém que gosta de desenhar. De meu inimigo a meu amigo, pela varinha mágica da caneta.

Sobre os desenhos: Folha desenhada num caderninho Moleskine pequeno de aquarela que achei semi-usado na estante. Linhas com caneta Pigma Micron 0.2 coloridas com waterbrush (caneta pincel de água) e aquarela no local. Senhor com muleta no metrô desenhado com a mesma caneta, só que num caderninho bem pequeno que carrego na bolsa de ir para o trabalho. Gostei que a página escaneada acabou mostrando um pouco do desenho que tinha atrás.

Versão original da citação de Rayya Elias: “The truth has legs; it always stands. When everything else in the room has blown up or dissolved away, the only thing left standing will always be the truth. Since that’s where you’re gonna end up anyway, you might as well just start there.”


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A liberdade de desenhar – Viagem com-inveja (Parte 3)

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Agora que vocês já ficaram com pena, posso contar um pouquinho das partes boas da viagem? A imagem acima ilustra um dos melhores momentos que vivi na Inglaterra: a palestra do Nelson Paciência, português, desenhista, pai, marido, arquiteto, gêmeo, voluntário e lindo, pra completar. Me senti numa plateia do TED, daquelas que te enlevam, ora a sorrir, ora a chorar de admiração!

O Nelson estava em busca de um trabalho voluntário para desenvolver com desenhos. Busca daqui, busca dali, acabou na prisão de segurança máxima Monsanto, perto de Lisboa, onde as restrições são imensas. Os presos quase não vêem outras pessoas, tem pouquíssima (ou zero) área de sol, nenhum material de escrita e quase nada de atividade, passando cerca de 21 horas por dia em suas celas individuais.

Ainda assim, Nelson conseguiu aprovação para realizar o trabalho, desde que, lhe disse o supervisor, não conversasse sobre passado, crimes, religião, política e não desenhasse qualquer parte da prisão, nem móveis, salas, cadeiras, nada. Parecia uma missão impossível mas, a cada 15 dias, durante 9 meses, Nelson foi ter com o pequeno grupo (que variou entre 4 a 5 pessoas), levando materiais de desenho e pintura e, sobretudo, levando sua escuta sensível, sua história pessoal, seu interesse por aquelas pessoas que encontrou tão destituídas de humanidade. Começou por se apresentar, dar a conhecer sua família, seus filhos, sua Susana, seus cadernos e, sim, prometendo voltar. Levou fotos, revistas, livros ilustrados, pequenos objetos, brinquedos, super heróis.

Como grande desenhista de observação, Nelson buscava seduzir o grupo para o universo dos urban sketchers. Mas o ponto de virada do trabalho veio de outras bandas: surgiu ao incluir nas sessões a música e os desenhos de imaginação e de memória. (Como tantas vezes acontece no bom trabalho etnográfico, as certezas com que saímos de casa tropeçam e se transformam nos encontros com nossos interlocutores.) Na fala de um dos detentos, os dias de desenho tornaram-se não só os dias felizes na prisão, como os únicos em que se sentia de fato vivo.

Já seria muito tudo isso, mas a dedicação de Nelson ao projeto foi além. Realizou viagens para desenhar os locais que os presos gostariam de visitar, frequentou aulas de modelo vivo para lhes mostrar as imagens, trocou correspondência, pediu permissão para contar suas histórias, já ultrapassadas as proibições de fala iniciais, impossíveis de cumprir.

Como podem existir pessoas sem narrativas, sem nomes, sem projetos? Esqueçam seus passados, afirma a instituição. “Eu sou um número”, lhe diz um preso. Nos retratos abaixo, vemos o “82”, o “112” e o “92”, sem mesa, sem cadeiras, pelos traços fantásticos do Nelson.

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O desenho abre possibilidades para os trabalhadores da prisão e apresenta um novo mundo para os detentos. Nas palavras de um deles: “Primeiro, desenhar não significava nada; depois tornou-se a libertação”.  (“First, drawing was nothing, then it became freedom.”)

Saímos todos — plateia, presos, funcionários da Monsanto e o Nelson — melhores depois dessa experiência. Ele, principalmente, que a viveu, nos diz: “sou uma pessoa melhor de todas as formas, como pessoa, pai, marido, arquiteto, desenhista etc.” Conclui que aprendeu muito sobre os valores da dignidade, do tempo, da auto-estima; e de como são grandes os pequenos gestos de cuidado e amizade que todos nós precisamos para nos sentirmos gente.

Agora Nelson pensa como voltar, exigindo mais liberdade para desenvolver novamente seu projeto cujas marcas, como os nomes e as histórias, são impossíveis de apagar.

Só posso terminar dizendo: “Obrigada, Nelson, por compartilhar tudo isso conosco.”

Vocês podem ver outras imagens da palestra aqui. E o endereço completo do blog do autor para ficar registrado: http://nelsonpaciencia.blogspot.com/

Sobre o desenho inicial do post: Anotações feitas por mim durante a palestra do Nelson (realizada durante o 7o. Simpósio dos Urban Sketchers em Manchester) num caderno feito à mão com papel de aquarela. Acrescentei as cores depois em casa, porque os eventos eram muitos e não tenho (ainda) habilidade de escrever tanto e pintar ao mesmo tempo.

Esse post é o terceiro da série sobre a minha viagem a trabalho de jul/ago-2016:

Viagem anti-inveja (Parte 2)
Viagem anti-inveja (Parte 1)
A liberdade de desenhar – Viagem com-inveja (Parte 3)
Londrinas – Ainda viajando (Parte 4)

Espero que vocês não se cansem, porque dá para fazer mais uns dez posts sobre a viagem!

 

 

 

 


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Viagem anti-inveja (Parte 2)

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Continuando a saga anti-inveja-viajante, narro para vocês minhas agruras na terra onde o verão dura alguns dias e é um pouco mais frio do que o inverno carioca. Dá gosto de ver as carinhas felizes das pessoas no parque, aproveitando umas nesguinhas de sol! Como em todo lugar, as almas se dividem entre as sonhadoras, otimistas, com vestidos leves e bermudas, e as realistas e previdentes, enroladas em mantas e lenços, pois a chuva e o vento hão de surgir. Eu estava em qual turma, adivinhem?

Começando pelo fim, porque foi tanta informação, que já não sei se me recordo do início:

* Cuidado quando comprarem passagem barata pela British Airways: vocês podem acabar correndo os 1000 metros rasos no aeroporto de Madri para entrar num avião da Iberia cheio de aeromoças raivosas porque os passageiros não falam espanhol. A comida e o pãozinho são atirados no seu colo, é pegar ou largar. E eu ainda morrendo de sede porque, depois de jogar a garrafinha de água fora para passar no Raio-X, me dei conta de que só tinha libras num mundo de euros. Probleminhas insignificantes quando o principal acontece: pouso seguro, malinha velha carcomida rolando na esteira, ufa.

* Aliás, foi uma aventura feita de ufas, porque meu eu-anti-viagens boicotou meu eu-planejativo. Imaginem que eu ia ficar 4 dias no bem-bom-0800 da casa de uma amiga querida, e na hora de entrar, o que acontece? A chave não funciona. Quem lembrou de testar a chave quando a amiga gentil lhe entregou? Foi pro brejo o meu post onde eu ia ensinar vocês a viajarem em libras com uma conta bancária em reais… Mas viva a internet: arranjei um quarto no Airbnb em menos de  30 minutos, pois era o máximo de tempo que eu podia gastar antes de voltar para a biblioteca. Pelo menos, pensava eu, minha amiga chegaria das suas mini-férias e me mandaria uma mensagem explicando o problema da fechadura. Oops, só que não: com ela, a chave funcionou perfeitamente! Como diria Alice-no-país-das-maravilhas, o coelho passou por aquela portinha, eu não!

* Feliz ou infeliz, a grande vantagem de não entender o que os taxistas estrangeiros-como-você falam é que basta murmurar “ok, ok”, “yes, yes”, Brazil, Rio, Olympics. Encerrada a conversa. Mas no único transporte possível às 3:30 da madrugada, o motorista falava pelos cotovelos, e acabei entendendo que ele tinha 12 filhos, 10 netos e não sei quantos bisnetos; detestava a internet e o Facebook, morou na Holanda muitos anos, mas gostava mesmo era da Inglaterra. Ok, seu moço, obrigada, me deixa quieta, são três e meia da manhã!

* O quarto alugado às pressas até que era legalzinho. Só um detalhe: no alto de uma ladeira! Gente, porque não pintam essas armadilhas de vermelho nos mapas? Nem num super street-Google a gente vê direito quando a rua sobe. E lá vou eu, morro acima, ter um “lovely view” de um bairro na zona 2… Então, aviso-útil para futuros usuários de Airbnb: desconfiem quando um anúncio diz que seu quarto terá uma vista linda. Se não for de frente para a praia… só pode ser porque é morro acima!

É isso por hoje! Foi só o finzinho da viagem mas, se vocês estiverem se divertindo, prometo que continuo a série.

E para alguns que me escreveram preocupados, como dizem os ingleses, numa gramática duvidosa: “no worries!”. Ou, como disse melhor o Caetano, “é tudo só brincadeira e verdade”.

Este é o segundo post da viagem que fiz a trabalho em jul-ago/2016:

Viagem anti-inveja (Parte 2)
Viagem anti-inveja (Parte 1)
A liberdade de desenhar – Viagem com-inveja (Parte 3)
Londrinas – Ainda viajando (Parte 4)

Sobre o desenho: Aquarela feita num caderninho tipo japonês com papel comum, depois com alguns traços em lápis de cor. Foi uma tarde ensolarada (e cheia de vento) no Regent’s Park, com uma turminha simpática de mulheres que participaram do Simpósio dos Urban Sketchers em Manchester. Pintei sem linhas a lápis ou canetas, tentando sair um pouco do meu jeito habitual.