Karina Kuschnir

desenhos, textos, coisas


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14 dias para terminar um texto de 12 páginas (ou 5000 palavras)

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Que antropologia, nada! Eu deveria ter o título de “Doutora em Entrega de Textos no Último Minuto”, outorgado pelo PPGPC — Programa de Pós-Graduação em Procrastinação Crônica.

Uma vez me empenhei tanto para terminar um trabalho de curso, que me auto-premiei com um diploma da internet que dizia “Parabéns, você terminou a sua tarefa _1_ dia(s) antes do prazo.”

Alguém por aí precisando entregar um texto até 31 de julho?

Para inspirar, compartilho com vocês um diário sobre como escrevi um capítulo de 5000 palavras (ou 12 páginas) em 14 dias:

Dia zero: Me martirizo com o prazo, me pergunto por que aceitei o compromisso, sonho em ficar doente para desistir… Agora não dá mais…

Dia 1: Abro o Word e crio um arquivo. Digito tudo que não exige pensar muito: título, meu nome, nota biográfica e nota sobre o texto. Faço uma formatação básica inserindo números de página, fonte e espaçamento. Coloco um subtítulo em negrito para as “Referências Bibliográficas” e acrescento todos as obras que precisarei citar. (Para trabalhos finais de pós, seria bom inserir a bibliografia do curso e depois ir cortando o que não utilizar. Na época, eu não era tão organizada assim!) Como estou trabalhando com fontes, criei uma subseção e listei as que já tinha. Quando não sei alguma informação, escrevo algo só para preencher, tipo [Título] ou [XXXXNÃOSEI!@&%*]. Ufa, até que não foi tão difícil. Acho que gastei quatro horas nisso, contando as pausas para beber, comer e descansar.

Dia 2:  Repasso mentalmente a lista da farmácia, do supermercado, da pet shop, da Amazon… Só de pensar que preciso raciocinar, sinto uma dormência no braço esquerdo e um sono… Mas hoje estou um pouquinho determinada. Vamos lá. Começo digitando tudo que me lembro sobre o assunto. (Se fosse um trabalho de curso, tentaria me lembrar: o que mais me marcou nesses 4 meses de aulas? Qual texto, qual questão, qual citação/autor/fonte? Geralmente tem algo que se destaca no nosso mafuá de pensamentos. É nisso que me agarro.) Pego o resumo enviado à editora e as cinco fontes que vão me servir de base. Resolvo fazer uma entrevista. Por sorte, concordam em me atender por telefone. Digito enquanto escuto: 1459 palavras. Transcrevo duas fontes de vídeo (2433 palavras). Vou deixando tudo no arquivo do artigo. Depois, por segurança salvo esse material em separado.

Dia 3: Continuo o trabalho do dia anterior (com alguma embromação). Termino de transcrever as fontes de vídeos. Em três dias, meu arquivo já está com 8 páginas — que beleza! Ainda não tem coerência alguma, mas já não estou na estaca zero.

Dia 4: Preguiça imensa de pensar. Preciso de uma epígrafe para dar embalo. Repasso a bibliografia, percorrendo a esmo os textos em busca de alguma frase sublinhada inspiradora. Perco o dia inteiro nisso, mas pelo menos consigo a citação e o parágrafo de abertura (que provavelmente vou excluir na edição final).

Dia 5: Após me enredar nos problemas alheios, acho forças para abrir meu arquivo. Não é tão ruim encontrar 8 páginas e meia. Releio a entrevista e aproveito o que é possível. No caso desse texto, tenho uma cronologia a seguir. Não preciso encarar aquela parte super difícil de escolher o que dizer em qual ordem, embora alguns temas atravessem a diacronia. Agradeço mentalmente por vivermos num mundo em que um ano se segue ao outro… Escrever não me parece tão ruim hoje.

Seleciono as informações da primeira fonte. Estou acostumada ao texto acadêmico que intercala paráfrases com trechos entre aspas. Tento usar minhas palavras para sintetizar ao máximo, deixando apenas algumas citações simpáticas do original. São elas que dão o tom e vão construindo uma espécie de “conjunto de provas” do meu argumento.

Termino a segunda sessão de trabalho. No meio teve almoço, quase cochilo, futebol da Copa. Verifico o número de páginas do Word: as mesmas oito. Corta, edita, escreve. Trabalhei muito, mas o tamanho não se alterou. É o preço que pago me iludindo com a estratégia de colocar as fontes no arquivo principal.

Dia 6: Sento para trabalhar e sinto os ombros pesados e doloridos. Pego um mate. (Sou viciada em mate sem açúcar, já contei isso aqui? Até tentei parar quando a Matte Leão foi comprada por aquela multinacional-que-não-vamos-dizer-o-nome, mas não consegui.) Faço um extra forte e enfrento a próxima fonte. Releio, corto, colo, escrevo — 85% paráfrases, 15% citações. Citação é bom mas cansa os leitores. Paro cedo nesse dia. Tenho um compromisso chato no meio da tarde e não consigo retomar depois.

Dia 7: Jogo do Brasil na Copa. Filha de 12 anos. Quem pode trabalhar? No PPGPC, aprendi que sempre há um motivo. “Não consegui escrever hoje porque _____________ [preencha o problema].”

Dia 8: Preciso encarar a bibliografia. Quanto é 14 menos 8 mesmo? Só faltam seis dias, mas hoje conta, então são sete! Abro alguns PDFs. Passo os olhos pelo primeiro e consigo aproveitar algumas ideias. Tenho quase dez páginas. Sei que ainda farei cortes, mas ver a meta chegando me anima. Trabalho duas horas de manhã e três horas à tarde. Total da produção: 3 parágrafos e meio. Como sou lenta!

Dia 9: Conforme o prazo aperta, enrolo menos. Mas é nesse final que os problemas aparecem. O Windows decide fazer uma mega-atualização. Perco mil minutos olhando para uma tela azul. Trabalho no mesmo esquema: abrir PDF, reler, selecionar, reescrever, citar. Saldo: mais meia página.

Dia dez: Acordo com dor de cabeça, preciso ir ao banco, os afazeres me sugam até 14:00 horas, justamente quando o corpo entra em seu estado-tarja-preta-natural. Sono monstro. Pego um chocolate 70% para acompanhar o mate. Abro mais um PDF. Não sei como avançar. Acabo relendo o que escrevi até agora, edito, corto, acrescento, enjoo.

Dia 11: Preciso de um fecho e de conteúdos aqui e ali. Vasculho os últimos PDFs e retomo as edições e acréscimos. Lembro de uma fonte que tinha esquecido. Percebo falhas na bibliografia. Perco tempo pulando de link em link em busca de assuntos ligados ao artigo. Paro para ver as notícias sobre os meninos presos na caverna da Tailândia.

Dia 12: Não consigo trabalhar. Minha casa foi alagada por um vazamento no apartamento de cima. Ficamos sem luz e sem gás. A vida adora se apresentar no caminho de um artigo!

Dia 13: Hoje é sábado: o interfone toca de hora em hora, os operários entram, o Whatsapp não para. Preciso de uma frase para fechar o artigo. Vasculho os mesmos PDFs várias vezes, até que tenho uma ideia. Não sei quantos pensadores já disseram: a inspiração precisa te encontrar trabalhando. Por sorte eu estava ali.

Dia 14: Volto à releitura e à edição. Mudo coisas de lugar, buscando mais coerência e evitando me repetir. Passo o corretor do Word. Não posso cortar demais para não deixar de ter as quase 5000 palavras em doze páginas. Tudo ok. Não está perfeito, mas o prazo é hoje. A editora cobra. Tá indo, foi. Ufa.

Obrigada pela companhia!

Auto-ajuda-alert: Pessoal, é claro que ninguém “cria” um bom trabalho em 14 dias! Esse texto foi só uma brincadeira sobre a reta final da escrita. Pesquisas e ideias levam meses ou anos para se desenvolver.

Sobre esse diário: Fiz uma primeira versão com 2500 palavras em apenas duas horas (pois é, nada como contar uma história!). Depois levei três dias enxugando para virar um post com apenas 1160 palavras.

Abaixo, segue uma listinha de posts anteriores sobre escrita, trabalhos e vida acadêmica em geral. Espero que sejam úteis e que eu não esteja me repetindo muito. 😉

Bom trabalho, pessoal!! Força.

Doze dicas para ajudar a terminar TCC, dissertação e tese de doutorado – Parte 1
Doze (ou treze) lições para ajudar a terminar TCC, dissertação de mestrado e tese de doutorado (Parte 2)
Você vai deixar de me amar se eu não acabar a tese? – Parte 1
Você vai deixar de me amar se eu não acabar a tese? – Parte 2
Lições de escrita com Agatha Christie – Parte 1
Lições de escrita com Agatha Christie – Parte 2
Pensando em desistir
Escrita Diária – Dez dicas para curtir e manter o hábito de escrever
Mente selvagem: dicas de escrita de Natalie Goldberg
Sete coisas invisíveis na vida de uma professora
25 dicas para revisar textos acadêmicos
Tese sem CEP. Será que dá tempo? (Parte 1)
Tese sem CEP. Será que dá tempo? (Parte 2/2 – Cronograma)
A tese é viva, viva a tese
Como não escrever uma carta para a seleção de mestrado
Dez truques da escrita num livro só
Defesa de doutorado: dez dicas para sobreviver (e aproveitar)
Aprendendo a desescrever
Carta a um jovem doutorando
Dez lições da vida acadêmica
e outras com a tag mundo acadêmico…

Sobre o desenho: Peguei um caderno moleskine tipo “japonês” (com papel interligado como um acordeão) e coloquei de modelo. Tracei primeiro os contornos com canetinha Pigma Micron 0.2, no verso do papel Canson, bloco XL Aquarelle (capa azul turquesa). Depois fui trabalhando cada uma das páginas como se correspondessem ao “diário” que faço no texto do post. Fiz o máximo que pude com canetinhas Pigma Micron coloridas finas, pois são à prova d’água, capaz de resistir à aquarela que viria depois. Algumas cores foram feitas com lápis-de-cor (um kit pequeno da Caran D’Ache que utilizo para desenhar fora de casa), como os detalhes em amarelo, laranja e verde.

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Na segunda etapa, passei uma camada bem fina e aguada de aquarela (Raw Sienna misturada com Amarelo de Nápoles). Deixei secar bem e fiz as sombras com aquarela (French ultramarine com um fiapo de Winsor Violet). Infelizmente, ao escanear, os azulados das páginas do livrinho perderam a forma… Apenas as sombras da base sobreviveram… Esse tem sido meu problema constante na hora de criar as versões digitais. Os azuis pálidos simplesmente somem! Mas posso dizer que há tempos não fico tão feliz com um desenho inventado. Adoro quando consigo misturar imagem e texto! E vocês, o que acharam?

PS: As setas e letras da versão acima foram feitas no Procreate/Ipad.

Você acabou de ler “14 dias para terminar um texto de 12 páginas (ou 5000 palavras)“, escrito e ilustrado por Karina Kuschnir e publicado em karinakuschnir.wordpress.com. Se quiser receber automaticamente novos posts, vá para a página inicial do blog e insira seu e-mail na caixa lateral à direita. Se estiver no celular, a caixa de inscrição está no rodapé. Obrigada! ☺

Como citar: Kuschnir, Karina. 2018. “14 dias para terminar um texto de 12 páginas (ou 5000 palavras)”, Publicado em karinakuschnir.wordpress.com, url: https://wp.me/p42zgF-3Gf. Acesso em [dd/mm/aaaa].


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39 exercícios de antropologia e desenho num livro só – Drawn to see de Andrew Causey

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Taí um livro perfeito para quem ama antropologia e desenho — ou só antropologia ou só desenho! Há tempos quero compartilhar com vocês a leitura dessa obra adorável, mas estava aguardando a publicação oficial de uma resenha que escrevi para a Mana. Agora saiu — cliquem aqui para acessar ou leiam abaixo!

Vale a pena também acessar o sumário completo da revista, com vários artigos e resenhas interessantes. Agradeço à editora deste número, Renata Menezes, pelo acolhimento da proposta, assim como à revisora que contribuiu para melhorar o texto.

Queria registrar também um agradecimento especial a Andrew Causey por esse livro tão bonito e generoso! Sinto-me honradíssima de ver meu trabalho citado em seus comentários (e na bibliografia) como uma das raras iniciativas de ensinar antropólogos a desenhar. Além de motivar meus alunos em sala de aula,  meu objetivo acadêmico é espalhar ideias e incentivar outras pessoas, onde quer que elas estejam, a tentar algo novo e criativo para produzir e compartilhar conhecimento.

Assim que terminei a leitura, fiquei sonhando com uma editora brasileira que pudesse traduzir e publicar essa pequena joia da antropologia contemporânea. Se conhecerem alguém, compartilhem a resenha e destaquem esse parágrafo:

O livro tem impacto muito maior do que seu objetivo declarado de “ensinar o desenho linear, como uma das opções para coletar, registrar, documentar e apresentar a informação etnográfica”. Tínhamos até o momento bons livros de ensino de desenho, de um lado; e bons livros de antropologia, do outro. (…) Mas esta é a primeira obra de fôlego a enfrentar de forma densa — tanto teórica quanto empírica — a maneira de unir o melhor dos dois mundos.

Para quem está acostumado a me ler apenas no blog, não estranhem o tom um pouquinho mais formal. De vez em quando também preciso alimentar meu Lattes… 😉 Obrigada desde já pela leitura!

Kuschnir, Karina. (2018). Resenha de CAUSEY, Andrew. 2017. Drawn to See. Drawing as an Ethnographic Method. Mana, 24(1), 271-275. https://dx.doi.org/10.1590/1678-49442018v24n1p271

Numa época de desconstruções e desalentos, Andrew Causey nos oferece uma dádiva. Drawn to See: Drawing as an Ethnographic Method é precioso para quem quer continuar acreditando que a antropologia é possível sem abdicar de uma postura crítica, reflexiva e renovadora. A obra enfrenta com seriedade os problemas teóricos do projeto etnográfico, e propõe soluções metodológicas amparadas em situações vividas no trabalho de campo do autor ou dos autores citados na excelente bibliografia. Textos e ilustrações formam um conjunto de leitura extremamente agradável. Trata-se de um caso raro de obra que consegue refletir, experimentar, demonstrar, propor sem deixar de apontar lacunas e nos fazer sorrir pelo caminho.

Drawn to See é teórico-metodológico, mas também é memorialista e pessoal — um diário escrito e gráfico do autor sobre sua trajetória como etnógrafo. Seu valor está nessas múltiplas camadas narrativas, nas quais vida, pesquisa e obra surgem imbricadas numa saudável antropologia. A etnografia é entendida não apenas como produção de conhecimento, mas de relações, afetos, sensações, visualidades, compartilhamentos, respeito e comunicação. O aprendizado do desenho é central, mas ao mesmo tempo secundário ao objetivo de nos ajudar a ver o mundo (visível e invisível) de modo mais aprofundado, focado e ativo, numa busca por conciliar observação e participação — dois pilares da metodologia antropológica.

O livro divide-se em sete capítulos, pelos quais se espalham 72 ilustrações. Além do debate sobre antropologia, imagem e pesquisa, a obra tem como eixo central ensinar antropólogos a desenhar. Causey inclui 39 exercícios, que chama de “Etudes” (Estudos), palavra que remete às partituras feitas para se aperfeiçoarem as técnicas e as habilidades dos músicos. Seu objetivo não é formar artistas, mas sim estimular o uso do desenho linear como modo de contribuir para a pesquisa de campo. Os materiais sugeridos são simples. Lápis, papel comum, canetinha de ponta porosa e guardanapos são as únicas coisas necessárias para realizar as propostas. Adiantando-se às possíveis resistências de seus leitores acadêmicos, o autor propõe uma lista das predisposições necessárias para começar: relaxar, focar (sentir), concentrar, desacelerar, aceitar (sem avaliações, sem notas, sem comparações), se interessar (ter curiosidade), desenhar o que se vê, desprender-se do ego, praticar.

Como se percebe ao longo da leitura, tais conselhos são fruto das experiências do autor ao longo de sua trajetória como artista e antropólogo. Hoje professor de Antropologia Cultural do Columbia College de Chicago, Causey fez mestrado e doutorado na Universidade do Texas, Austin, local cuja tradição ajuda a compreender sua crença no projeto etnográfico, felizmente, sem deixar de enfrentar seus paradoxos e dificuldades. Sua pesquisa de campo se deu entre os Toba Batak, em Samosir, ilha vulcânica localizada no interior do Lago Toba, ao norte de Sumatra, Indonésia. Um lugar incrível (experimentem digitar Samosir Island nas imagens do Google) que atrai turistas do mundo inteiro, situação que acabou sendo o foco da pesquisa de Causey, em 1994-1995, com um retorno em 2012. O etnógrafo tornou-se aprendiz de Partoho, artista local, escultor em madeira, que, junto com sua esposa Ito, foi seu principal interlocutor no campo.

A leitura permite acompanharmos a ressignificação do uso do desenho na antropologia desde os anos 1990, quando a pesquisa inicial foi feita, e os anos 2015-2017, quando o livro é encomendado, escrito e publicado. Na época em que terminou o doutorado, Causey chegou a expor no campus da universidade seus desenhos e pinturas feitos durante a etnografia. As imagens que retratavam pessoas, no entanto, tiveram de ser retiradas do local, sob o argumento de que não eram sérias o suficiente e poderiam mostrar-se ofensivas à população estudada. Naquela altura, pouco se discutia a possibilidade de se utilizarem os registros gráficos (croquis, esboços, desenhos, aquarelas, pinturas) como parte do conceito de antropologia visual, então voltada para o uso da fotografia e do filme.

Um dos grandes méritos de Drawn to See é contribuir para a ampliação e a consolidação da ideia, cada vez mais fortalecida na literatura recente, de que a imagem desenhada pode — e deve — voltar a assumir mais protagonismo no empreendimento etnográfico. O livro tem impacto muito maior do que seu objetivo declarado de “ensinar o desenho linear, como uma das opções para coletar, registrar, documentar e apresentar a informação etnográfica” (:3, tradução minha). Tínhamos até o momento bons livros de ensino de desenho, de um lado; e bons livros de antropologia, do outro. Existem bons artigos sendo publicados sobre a relação entre as áreas, sem dúvida. Mas esta é a primeira obra de fôlego a enfrentar de forma densa — tanto teórica quanto empírica — a maneira de unir o melhor dos dois mundos.

Na esfera do desenho, os 39 Estudos propostos são claros e acessíveis. O objetivo do autor é que sejam experimentados por todos. Nesse sentido, parece-me acertada a escolha do desenho linear como eixo dos exercícios, uma vez que é a linguagem de produção gráfica mais próxima do universo de pessoas alfabetizadas. Uma das propostas inovadoras e interessantes de Causey é a utilização de formas essenciais baseadas em números e letras. A ideia de recorrer a elementos primários (pontos, retas e curvas) para elaborar figuras complexas não é nova, mas o apoio em formas numéricas e alfabéticas é uma bem-vinda criação do autor. Junto com as chaves de percepção dos Estudos 1 e 2, as propostas 3 e 4 formam um conjunto simples mas bastante eficaz para se desenvolver a habilidade de enxergar pelo desenho.

Nos 35 Estudos seguintes, Causey alterna sugestões mais relaxadas com outras mais elaboradas, numa coleção estimulante e divertida, mas também reflexiva e cuidadosa. Os exercícios têm um bom destaque gráfico no livro, pois estão impressos em fundo cinza, com ilustrações acompanhando a explicação textual. A série e todas as 72 imagens da obra estão numeradas de forma clara e contêm a duração aproximada de sua realização. O tempo estimado da grande maioria dos Etudes (33 em 39) é inferior a 10 minutos; apenas dois levariam de 10 a 15 minutos; e quatro não têm um intervalo definido. A curta duração é atraente para os novatos e estratégica para provar, mesmo aos mais céticos, que não é preciso 10 mil horas de prática para produzir desenhos etnograficamente relevantes. A ideia é pavimentar um caminho para ver, enxergar, perceber, como enfatiza o título do livro.

Pelo lado da antropologia, Drawn to see aborda questões complexas com a mesma clareza com que apresenta os exercícios visuais. Como destaquei acima, Causey enfrenta a problemática da dupla tarefa de “observar” e “participar”, assim como inúmeras questões associadas ao projeto etnográfico. Da necessidade de atenção, registro e memorização, passando pelo diálogo e pelas subjetividades de pesquisadores e interlocutores, o autor aborda problemas na produção de conhecimento antropológico, nas ideias de representação, temporalidade, movimento, memória, corporalidade, entre outras. E tudo isso alinhavado por um profundo comprometimento com a ética na etnografia, como mostram os vários exemplos que nos convidam a aprender com as dúvidas, as falhas e as dificuldades do próprio Causey em campo. Chama a atenção o tom equilibrado e sensato da linguagem do autor, demonstrando respeito, empatia e interesse pelo universo investigado, sem sinal da soberba, do paternalismo e da assertividade messiânica que infelizmente tanto frequentam a literatura antropológica.

Causey_pFigura 1: Desenho de Andrew Causey feito a partir de suas lembranças de campo. Na legenda original se lê: “Ito, debilitada pela artrite, senta em sua mesa de cozinha, de sua casa reconstruída, falando no celular sem parar com um de seus oito filhos. Ela me entrega o telefone sem me dizer com quem estou falando, dizendo: ‘Omong! Omonglah sama dia!’” (Imagem cedida pelo autor para esta resenha).

 

Esse mesmo senso ético pode ser observado na forma como o autor lida com sua rede de apoio intelectual e com a bibliografia consultada. Cada imagem, quando não de sua autoria, é publicada com aviso de permissão e referência ao/à autor/a ou fonte. As citações aos autores, aos artigos e às obras consultadas são claras e precisas, sempre com indicação das páginas correspondentes. O destaque de cada uma, no texto ou em notas, é compatível com sua relevância para o argumento em pauta. Muitos Estudos indicam as fontes que os inspiraram, sejam obras ou comunicações orais. A pesquisa bibliográfica é em si mesma um empreendimento notável do livro, pois traz um levantamento exaustivo, especialmente em língua inglesa. É consulta indispensável para todos os que se interessam pelo tema.

Entre as muitas qualidades de Drawn to See estão as histórias do trabalho de campo do autor. Atuando como aprendiz de Partoho, Causey percebe o quanto seus olhos não veem da mesma maneira. Ao copiar um desenho do mestre, é corrigido por registrar “errado”, num senso estético alheio aos Toba Batak. Divertimo-nos em vários momentos do livro com as críticas dos interlocutores às imagens do etnógrafo, ora por não perceber detalhes culturalmente relevantes, ora por representar de forma irônica, errada, distorcida ou fragmentada aquilo que lhes parecia correto, decente ou óbvio. Numa das ocasiões, algumas mulheres tomam o caderno do pesquisador e exigem que o retrato de uma delas seja refeito até ficar satisfatório.

A reação de Causey é animadora: desenhar é aceitar riscos; é gerar experiências memoráveis e revolucionárias; é pressupor que o pesquisador “não sabe o que não sabe”. As imagens são notas, documentos de campo que se dão a ver. Não é preciso se desculpar, mas sim aprender com os diálogos, as reações e as interpretações. Todo desenho etnográfico vale a pena, desde que seja uma criação ética, moral e intelectualmente responsável. Sob este aspecto, é tocante o caso de uma entrevista feita pelo etnógrafo com um veterano de guerra, viúvo, cuja fama social era a de arrogante e orgulhoso. Desse encontro, que reverte suas expectativas, o autor não faz registros gráficos ou textuais. Olha nos olhos, exercita sua visão periférica na penumbra, aceita a memorização e o silêncio como parte da experiência. Nem tudo, afinal, pode (ou deve) ser registrado.

Nos capítulos finais, Causey se pergunta como ultrapassar as superfícies, como trazer à tona as estruturas e as motivações que animam pessoas, coisas e animais. Suas respostas em textos e imagens são de uma rara beleza: revelam-se mais como perguntas do que soluções; são imperfeitas e tentativas; são portas que se abrem para dar sentido ao mundo — possibilidades dentro do impossível projeto etnográfico.

Sobre o livro: CAUSEY, Andrew. 2017. Drawn to See. Drawing as an Ethnographic Method. University of Toronto Press. Na época, o Andrew Causey me escreveu gentilmente avisando da publicação e dizendo que a editora iria me enviar um exemplar. Mas o volume provavelmente se extraviou no correio, pois nunca chegou, chuinf… Então corri para comprar na Amazon mesmo. Link aqui: http://a.co/8o3cwuf

Sobre o desenho: Fiz hoje essa capinha para ilustrar o post. Achei um bloco de papel de aquarela A5, da Cotman. Era um pouco texturado demais, daí minha dificuldade nas sombras… Desenhei um rápido rascunho a lápis, depois contornei com canetinha Pigma Micron de nanquim permanente 0.2 e fiz alguns detalhes com a 0.05. Pintei as cores da capa com várias aquarelas, depois fiz as partes cinza escuro com guache, assim como as letrinhas vermelhas e brancas. Para os rascunhos de Causey na capa, usei uma canetinha de naquim permanente Unipin bem velhinha, para dar esse ar de lápis grafite do original.

Você acabou de ler “39 exercícios de antropologia e desenho num livro só – Drawn to see de Andrew Causey“, escrito e ilustrado por Karina Kuschnir e publicado em karinakuschnir.wordpress.com. Se quiser receber automaticamente novos posts, vá para a página inicial do blog e insira seu e-mail na caixa lateral à direita. Se estiver no celular, a caixa de inscrição está no rodapé. Obrigada! ☺

Como citar: Kuschnir, Karina. 2018. “39 exercícios de antropologia e desenho num livro só – Drawn to see de Andrew Causey”, Publicado em karinakuschnir.wordpress.com, url: https://wp.me/p42zgF-3G6. Acesso em [dd/mm/aaaa].


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Nosso Apocalypse Now de todo dia

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O que é melhor: estar correta ou ser gentil?; ter certeza ou compaixão?; indignar-se ou dialogar?

Tantas e tantas vezes optei pelas segundas respostas: gentileza, compreensão, diálogo… São valores que aprendi a amar, mesmo sabendo seu custo. Em algum momento da vida me disseram e eu acreditei: enquanto há palavra, não há guerra.

Será? Quantas injustiças somos capazes de suportar com doçura, compaixão e diálogo? Até quando seremos tratados como lixo respondendo com serenidade, choro ou apatia?

Sei que preciso continuar acreditando que educação, delicadeza, arte, ciência, política, amor e empatia podem construir um mundo melhor para todos os seres. Mas às vezes o vidro embaça, o pneu fura e o macaco quebra.

Trouxe esse colar para abrir o post porque ele vem de um lugar mágico. Tem pessoas, abraços, caminhos enrolados, rotas curtas e longas, paciência, fogo, cor, brilho e sombra.

Minhas últimas semanas, sem posts, foram assim. Pesadelos com o Google, com a Net, com a Lola doentinha, com as gaiolas nos EUA, com as denúncias de assédio na antropologia e principalmente, muito principalmente, até para quem detesta advérbios, o uniforme escolar atravessado de bala e sangue… as perguntas do filho para a mãe, tanta dor nessa morte assassina do Marcos Vinícius, na Maré, RJ.

Fiquei só com rascunhos, sem frases, porque o ditado também vale ao contrário: onde há guerra, não há palavra. Aqui é um Apocalypse Now todos os dias.

De alguma forma, escrevi sobre tudo isso um pouco antes, a convite da querida Mànya Millen, para o blog do IMS. A pauta era desenho e cidade — o que me levou a explicar por que não consegui me tornar uma Urban Sketcher no Rio de Janeiro. Sabia que seria um pouco polêmico, mas agora acho que peguei foi leve… Aí vão desenho e link:

Desdesenhando o Rio – https://blogdoims.com.br/desdesenhando-o-rio/

Karina Kuschnir IMAGEM IMS Post Urban Sketchers Rio de Janeiro

Desenho Karina Kuschnir para o Blog do IMS

Não tenho ideia de quantas pessoas leram a publicação, mas houve uma sequência interessante. O Nexo Jornal repercutiu o post fazendo uma matéria própria sobre os Urban Sketchers, selecionando imagens de desenhistas brasileiros e comentando minha posição crítica. Pena que preferiu utilizar na abertura o clichê de sempre: o Rio de Janeiro do cartão postal. Nada contra a bonita aquarela da Eliane Lopes (que não conheço pessoalmente). Tudo contra continuarmos re-produzindo visualmente esse cenário fake, pois na cidade real, que vive nessa moldura, há pessoas que fuzilam crianças do alto de um helicóptero. Apocalypse Now não é metáfora.

A matéria do Nexo: A comunidade global que compartilha cenas de cidades em desenhos

Para ajudar a população da Maré, conheçam, se envolvam e contribuam para os maravilhosos projetos da Redes da Maré. Não deixem de ler o texto sobre a ilegalidade do Caveirão Voador que, no dia 20/06/2018, foi responsável pelo assassinato de 7 pessoas, entre elas, dois adolescentes. E quantos outros morreram a bala no Rio desde o dia 20?

Para terminar com as contradições da dor e do amor, meus posts com a tag Urban Sketchers, grupo que admiro demais, que vem me ensinando muito do que sei sobre a experiência de desenhar, que me acolheu e onde fiz grandes e amados amigos e amigas de todos os cantos do mundo.

Meu problema não é com os USK; é com o Rio de Janeiro, com o Brasil, com todas as formas de invisibilizar as desigualdades que tanto precisamos corrigir, sanar, ao menos, reduzir! E uma das formas de começar é se permitir olhar, ver, enxergar (sequência bem dita da querida Andréa Barbosa). Precisamos enxergar e desenhar não apenas formas e cores, mas onde, quando e como as pessoas estão vivendo no mundo.

Como diria a Alice: — Super fácil esse negócio de ser antropóloga, mãe!

Sobre a complexidade de Apocalypse Now, filme de Francis Ford Coppola, inspirado na obra de Joseph Conrad, sugiro o verbete denso e interessante (em português!) da Wikipedia.

 

Sobre o desenho: Colar feito de corda com pendente esmaltado, obra de artesãos da escola de arte comunitária do Chapitô, em Lisboa. Desenho no verso de um papel Canson (bloco Aquarelle). Linhas feitas com uma canetinha de nanquim permanente descartável Pigma Micron 0.05 bem velhinha (daí serem tão finas). Cores pintadas com aquarelas Winsor & Newton e um pouquinho de tinta guache branca na área de brilho. Tudo nesse desenho é paciência, camadas leves, e um pouco de coragem na hora das sombras. Essas têm de sair de uma vez só para ficarem naturais… Costumo usar o meu melhor pincel, um Winsor & Newton series 7, n. 2, pois assim carrego tinta o suficiente para não interromper as linhas no meio.

Você acabou de ler “Nosso Apocalypse Now de todo dia“, escrito e ilustrado por Karina Kuschnir e publicado em karinakuschnir.wordpress.com. Se quiser receber automaticamente novos posts, vá para a página inicial do blog e insira seu e-mail na caixa lateral à direita. Se estiver no celular, a caixa de inscrição está no rodapé. Obrigada! 🙂

Como citar: Kuschnir, Karina. 2018. “Nosso Apocalypse Now de todo dia”, Publicado em karinakuschnir.wordpress.com, url: https://wp.me/p42zgF-3Fr. Acesso em [dd/mm/aaaa].


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A gorda, missão íntima

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“Não se pode ir com muita sede ao pote. Nem com pouca. Uma pessoa nunca sabe como abordar o pote. É à sorte.” (A gorda, de Isabela Figueiredo, p. 63)

Foi num domingo de manhã que uma amiga me recomendou A gorda, de Isabela Figueiredo (ed. Todavia). Mal sabia o quanto iria me emocionar esta narrativa numa primeira pessoa cheia de contrastes: sensível e objetiva, triste e engraçada, surpreendente e cotidiana. Foi um pote delicioso, bebido com sede!

“Em silêncio, sou sempre eu e o que em mim se compõe e apruma.” (114)

Estamos em 2018 e ainda me espanta e alegra ler uma mulher com voz num mundo em que são os homens que “têm direito a ser grandes”(30). Isabela, Maria Luísa, a mamã, a titia, a vizinha, a amiga… mulheres que precisam aprender a enfrentar seus corpos:

“O meu corpo não esperava que eu tivesse a coragem. Foi surpreendido logo de manhã. Levaram-se para o bloco de operações e zás. (…) Estava só eu e o meu corpo, como se tivesse acabado de nascer, mas consciente. Só nós dois, na nossa luta. (…) ‘Quem manda sou eu!’. E o meu corpo a piar fininho. Quietinho. Dobrado sobre si. E eu dizendo-lhe, ‘subestimaste-me. Afinal não conhecias assim tão bem a mulher com a qual te meteste.'” (124-5)

O mundo interior de Maria Luísa, a protagonista do romance, é ao mesmo tempo melancólico e bonito…

“Por vezes considero que perdi muito tempo, no passado, desgostando de mim, mas reformulo a ideia concluindo que o tempo perdido é tão verdadeiramente vivido na perdição como o que se pensa ter ganho na possessão. E volta o sossego.” (21)

Frágil e forte…

“Mas não, não, mesmo pelos meandros da loucura considerava que matar-me seria um grande desperdício, avaliando o investimento já realizado.” (42)

Sofrido e divertido…

“Imaginei-os comentando uns com os outros, ‘doutor Sequeira, está ali uma senhora a sofrer por amor, vá lá dar-lhe uma injeção ou pô-la ao soro’, e no meio da loucura soltei uma gargalhada. Rir-me era um bom sinal. Ainda não estava louca (…)” (70)

Há uma solidão por vezes sufocante…

“Eu era uma miséria de mulher, um torpor, uma dor que já nem dói. Um farrapo de lã que já não aquece.” (72)

…mas é a de um corpo vivo, um corpo que ama o corpo do outro (David), que se deixa rebentar no momento do encontro, quando não se pertence “a lugar algum”, quando sexo e cérebro são só “dor luminosa no lugar do nada, ópio que não pode durar mais” (40).

“É uma missão íntima entre o nosso coração rarefeito e o do Tejo [o cão]. Os nossos caminhos também se cruzaram sem o termos pedido.” (135)

Acompanhamos as reflexões de Maria Luísa por dentro, os fatos se dobrando às memórias. É uma narradora crescida…

“A vida adulta raspa a pele.” (127)

…que sente saudades

“Falta-me qualquer coisa muito antiga.” (129)

…mas segue:

“Há um dia em que todas as noites acabam.” (151).

Não sabemos ao certo como ou quando se dá seu ponto de fervura interna (“O teu pai ferve em pouca água”, diz a mamã, p.137). Em algum momento nos damos conta, junto com a narradora, que os pais se foram, que a casa se vende, que o desconforto sossega, que as lembranças clareiam, que a vida se ilumina:

“Que bela mulher eu sempre fui! Um corpo tão perfeito, tão imponente, como pude desamá-lo tanto?!” (203)

Que leitura comovente, simples, amorosa, feito chão de tábua corrida com sol.

Um ótimo final de semana, leitores queridos! ☼

Sobre o livro: Agradeço à querida Maria Helena Mosse pela indicação d’A gorda. Que boa companhia! Da autora, Isabela Figueiredo, só sei o básico: é moçambicana, radicada em Portugal desde 1975, autora de Cadernos de memórias coloniais (ainda não disponível no Brasil) e deste primeiro romance A gorda (ed. Todavia, 2018). Adorei que a editora manteve o português lusitano, que amo ler. Comprei numa livraria de rua aqui no Rio de Janeiro, mas vi que está mais barato na Amazon.

Sobre o desenho: Estava sem ideia de imagem para o post e adoro desenhar o objeto-livro. A capa original é do Pedro Inoue. Desenho feito no verso de um papel Canson (bloco XL Mix Media) com canetinha de nanquim permanente Pigma Micron 0.2, depois colorido com aquarela (várias marcas, mas a maioria Winsor & Newton), que depois resolvi cobrir com guache (tenho as três cores primárias da Winsor & Newton). Foi um sacrifício escrever em laranja na capa e na lateral. Depois dei uma ajeitada em tudo no Photoshop para ficar legível.

Você acabou de ler “A gorda, missão íntima“, escrito e ilustrado por Karina Kuschnir e publicado em karinakuschnir.wordpress.com. Se quiser receber automaticamente novos posts, vá para a página inicial do blog e insira seu e-mail na caixa lateral à direita. Se estiver no celular, a caixa de inscrição está no rodapé. Obrigada! 🙂

Como citar: Kuschnir, Karina. 2018. “A gorda, missão íntima”, Publicado em karinakuschnir.wordpress.com, url: https://wp.me/p42zgF-3Fh. Acesso em [dd/mm/aaaa].


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Vício terrível

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A melhor coisa que li essa semana foi a segunda parte do relato sobre saúde mental na universidade, da Sarah, do blog Sarices:

“Sabem como se chamava a república onde eu morei durante a faculdade? Omeprazol. Pareceu engraçado colocar o nome de um remédio para o estômago na nossa república, já que todas nós o tomávamos e tínhamos problemas gástricos. Mas na verdade é extremamente triste que garotas de 20 e poucos anos tivessem que se entupir de remédios para conseguir se manter de pé estudando. Foi triste ver colegas da universidade desistindo do curso. É aterrorizante ver pessoas se suicidando porque não tiveram o apoio e acolhimento que necessitavam. É horrível pensar que um momento tão bom, útil e feliz na vida de um jovem – fazer um curso superior – se transforme em um problema, criando ou acentuando ansiedades e depressões.” (Sarah Ft, do blog Sarices)

Não deixem de acompanhar desde o início: Saúde mental na universidade – Parte 1 e Parte 2 – Graduação. Não vejo a hora de ler a Parte 3, sobre o mestrado! Não conheço a Sarah pessoalmente, mas ficamos amigas-leitoras do blog uma da outra. Ela escreve tão bem e desconfio que tem o mesmo amor pelos livros e pelas pessoas, igual a Cecília:

“Tenho um vício terrível. Meu vício é gostar de gente. Você acha que isso tem cura? Tenho tal amor pela criatura humana, em profundidade, que deve ser doença.”  (Cecília Meireles)

Passei uma semana árdua, tentando fazer pontes, juntando pessoas e textos, dando força aos amigos envoltos nas batalhas da vida real. Não sei como é para vocês — para mim, é mais difícil aturar a falta de delicadeza com as pessoas que amo do que comigo mesma…

♥ A todos que estão se sentindo desvalorizados nesse momento, leiam os relatos da Sarah, abram um livro de Drummond, Cecília, Vinícius, Manuel Bandeira. Ao contrário do que muitos acreditam, não é preciso ser teórico para ser brilhante. Os conceitos passam, a vida fica. Minha admiração a todos que sabem reconhecer uma voz sem decorebas — com luz, corpo e alma.

♥ E se vocês estiverem com preguiça de ler… aqui vai um vídeo lindíssimo sobre como eram feitas as pinturas chinesas em seda. Recriaram todo o processo com uma imagem da corte de Huizong (China, anos 1101-1125), no canal do Victoria & Albert Museum.

♥ Se a vontade de navegar por lindezas continua, uma exposição do Metropolitan Museum sobre desenhos medievais: http://blog.metmuseum.org/penandparchment/introduction/

Sobre a citação inicial: Entrevista de Cecília Meireles a Adolpho Bloch, publicada na revista Manchete, em 1964, ano de sua morte: https://www.revistabula.com/496-a-ultima-entrevista-de-cecilia-meireles/

Sobre o desenho: Consegui desligar um pouco de tudo durante algumas horinhas essa semana pintando esse desenho do ano passado. Foi feito para a proposta (não aceita) do USK-Porto. Nessa versão, além de pintar (com aquarelas Winsor&Newton e algumas Schmincke), recortei os grupos de personagens no Photoshop e encaixei na frente da visão parcial do prédio do Museu da República, no Rio de Janeiro. Como explicam os entendidos de perspectiva (não eu), o segredo é alinhar as pessoas pela altura da cabeça (se estiverem todas em pé, ou ajustando para baixo, se estiverem sentadas). Ficou um halo branco em volta das pessoas porque não tive paciência de fazer um recorte bem rente. Não tenho Ipad Pro, nem Cintiq, nem nenhum desses gadgets de edição profissional que facilitam o recorte de imagens. Mas tudo bem, né? Meu lema continua sendo “feito é melhor que perfeito”.

Boa semana, pessoas queridas. Muito, muito obrigada por todas as mensagens e comentários gentis. ♥

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Como citar: Kuschnir, Karina. 2018. “Vício terrível”, Publicado em karinakuschnir.wordpress.com, url: https://wp.me/p42zgF-3EE. Acesso em [dd/mm/aaaa].


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Caderninho bom, bonito e barato

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Queria dividir com vocês uma pequena grande alegria da minha semana: estão à venda na Papelaria Botafogo meus amados caderninhos Hahnemühle. Taí um raro item importado que se encaixa na categoria bbb (bom, bonito e barato)! Por 16,00 reais, leva-se para casa um kit de 2 cadernos, cada um com 40 páginas de papel marfim (claro) 125 gr, costura na lateral e uma etiqueta de brinde para identificar.

Aprendi a amar esses caderninhos super leves, com folhas que aguentam bem uma ou duas camadas finas de aquarela. Comprei os primeiros em Lisboa e me apaixonei. Parece bobagem, mas quem adora desenho sabe como é difícil não sair de casa com dois quilos extras de material na mochila. Claro que meu pequeno estoque (de 6) terminou logo.

Para minha felicidade, essa semana fui bater ponto na Papelaria Botafogo e lá estavam não só esses caderninhos maravilhosos, como uma enorme variedade de papeis Hahnemühle de todos os tipos. Fiquei tonta.

Só quem ama material de artes sabe o sofrimento de tentar comprar alguma coisa no Rio de Janeiro. Aqui era preciso escolher entre a falida Casa Cruz (que nos deprimia mais a cada visita, até fechar), o tumulto impessoal da Caçula (com suas filas de supermercado Guanabara) e os poucos produtos e altos preços da JLM.

A paisagem era essa até que o Claudio Lopes, dono da Papelaria Botafogo, começou uma pequena revolução. Foi enchendo sua lojinha de coisas maravilhosas — Sakura, Staedtler, Copic, Faber-Castell, Hahnemühle, Van Gogh, Canson, Posca, Stabilo, Kum –, a maioria inéditas no Rio, com preços mais justos que a concorrência (quando tem).

A Botafogo é uma papelaria-de-raiz, na beira do asfalto, com caneca de Feliz Dia das Mães na vitrine de alumínio, com dezenas de miudezas no balcão e uns trambolhos pendurados aleatoriamente no teto. É a antítese da esnobe Casa do Artista de São Paulo.

Entrar lá é uma viagem às papelarias da infância, daquelas de bairro, onde se parava de bicicleta na porta para comprar um lápis, uma borracha e, de vez em quando, um presente no dia das crianças. Tinha duas dessas perto da casa da minha avó.

Imaginem a sensação de caça-ao-tesouro: você entra na Papelaria Botafogo e acha uma estante de Copics e Hahnemühle. Sim, estou parecendo deslumbrada, né? Tudo bem, me deixa. É tão raro a gente ter uma pequena alegria nessa cidade! E a minha custou apenas 16,00 reais.

Aviso importante: esse não é um texto pago! Só falo aqui no blog de materiais que realmente amo e utilizo. Escrevo porque sou extremamente grata de ver essa loja acreditando tanto nos materiais de arte. Além de ser uma simpatia, o Claudio me dá uns descontinhos, como a todos os clientes frequentes. Ele nem sabe que estou escrevendo esse post. Espero que goste e se sinta homenageado!

Queria agradecer a todos que comentaram o post da semana passada. Hoje e nos próximos dias vou responder os comentários. Foi muito emocionante ler os depoimentos da Deise, da Eunícia, da Marília, da Sarah e de tantas pessoas maravilhosas que abriram o coração. Muito obrigada pelo carinho! ♥

Como disse a Viola Davis, numa entrevista linda à Brené Brown, de 9/5/18, para aguentar as agruras da vida:

“Eles dizem para você desenvolver uma casca grossa, então as coisas não chegam até você. O que eles não dizem é que sua casca grossa impedirá que tudo saia, também. Amor, intimidade, vulnerabilidade.

Eu não quero isso. A casca grossa não funciona mais. Eu quero ser transparente e translúcida. Para que isso funcione, não vou absorver críticas de outras pessoas. Não vou colocar o que você diz sobre mim nas minhas costas.” (Viola Davis)

(Tradução acima do Google, com algumas trocas minhas, especialmente de “thick skin” por “casca grossa” que achei mais usual em português do que a literal pele grossa sugerida. Vale a pena ler a entrevista toda.

Amanhã faz dois meses: bora participar das manifestações #JustiçaParaMarielleEAnderson

Um final de semana com alguma leveza para todos nós!

Sobre o desenho: Caderninhos desenhados com Pigma Micron 0.2, coloridos com aquarelas Winsor & Newton, no verso de um bloco Canson (Mix Media). Utilizei uma canetinha  Gelly Roll 0.8 branca da Sakura para fazer as costuras laterais, uma canetinha Pigma Micron  0.05 cor sienna queimada para os galos do símbolo da Hahnemühle e uma canetinha 0.5 cinza Graphik Derwent Line Maker para fazer as sombras da etiqueta e do símbolo da Papelaria Botafogo.

Você acabou de ler “Caderninho bom, bonito e barato“, escrito e ilustrado por Karina Kuschnir e publicado em karinakuschnir.wordpress.com. Se quiser receber automaticamente novos posts, vá para a página inicial do blog e insira seu e-mail na caixa lateral à direita. Se estiver no celular, a caixa de inscrição está no rodapé. Obrigada! 🙂

Como citar: Kuschnir, Karina. 2018. “Caderninho bom, bonito e barato”, Publicado em karinakuschnir.wordpress.com, url: https://wp.me/p42zgF-3Ev. Acesso em [dd/mm/aaaa].


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Tem uma esperança ali

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“Aqui em casa pousou uma esperança.” (Clarice Lispector)

Já fiz 35 sessões de fisioterapia no ombro esse ano, o que significa ficar conectada em maquininhas com nomes de ficção científica: microondas, laser, ultrassom, corrente galvânica. Os fisioterapeutas apertam botões, colocam fios ou, no máximo, deslizam as ferramentas sobre o local afetado. Na sala de espera cheia, todos parecem conformados e até um pouquinho felizes, já que é o plano de saúde que paga.

Há duas semanas, me puseram pela primeira vez na “GAL”, apelido de corrente galvânica. Segundo me explicaram, faz um aquecimento tão profundo que “você não sente nada”. São vinte minutos da pessoa espremida numa cadeira pequena, com o ombro cheio de fita crepe, sentindo nada. Nada. Quando vem um pequeno choque, e você pensa “que bom, vou melhorar”, logo apertam um botão e tudo volta ao zero. Eu costumava ler, mas não dá nem para segurar um livro sem acotovelar a vizinha. As pessoas com dores são muitas.

Como diz o povo, “cabeça vazia, oficina do diabo”. Olhei pro lado. Logo à minha esquerda havia uma sala, mais reservada, onde os doentes estavam recebendo massagens. Massagens de verdade, com mãos humanas, óleos, cremes! Por que eu estava condenada àqueles fios? A inveja é horrível.

Essa semana, porém, o fisioterapeuta-chefe me disse: você vai para a “Cinesio”! Opa, Cinesioterapia? Será o paraíso-das-massagens?

No dia seguinte, chego às 7:45 da manhã, pronta pro sonho. Chamam meu nome e me indicam uma maca: “pode deitar”. Mal comecei e o fisioterapeuta me corrigiu: “é de barriga para cima”. Puxa… Pelo menos estou deitada. Já é um progresso depois de 33 dias em cadeiras duras. Ele manda eu levantar o braço até onde sinto dor, nas três direções. Depois aperta, puxa, sacode um pouquinho, solta. Repete. Manda eu mexer de novo. Repete. Fim. Duas macas à minha direita, uma senhora geme de prazer com os apertos nas costas; à esquerda, mais outra.

Já sem esperanças de massagem ou cura, puxo conversa com o fisioterapeuta que ama samba. Pergunto se na faculdade ensinam a lidar com as reclamações dos pacientes:

— Como vocês mantêm o espírito tão positivo em meio a tanta dor?

— A gente sabe que o mal-estar é passageiro; que a pessoa vai ficar bem.

— Quer dizer que você acredita que todo mundo vai melhorar?

— Sim. Quase sempre, sim. Mas a pessoa tem que acreditar também.

Como disse um amiga ontem: “tem uma esperança ali”. Ela falava sobre tudo que há de bom na universidade: ensino, relações positivas com os alunos, nossos amados livros, debates, aprendizados, trocas…

Talvez nesse ambiente possamos todos aprender com o fisioterapeuta simpático: bora acreditar, cuidar e curar. ♥

Sobre a citação: A epígrafe de Clarice Lispector é do conto “Uma esperança“. Os diários da semana passada me lembraram das leituras de escola.

Infinitas coisas impossivelmente-legais-bonitas-interessantes-ou-dignas-de-esperança:
Não tenho colocado muitos links aqui no blog para não sobrecarregar vocês de informação, mas acho que esses valem a pena:

* Google Arts and Culture – Já conhecem? É uma página de arte e cultura que mostra conjuntos temáticos de imagens, textos e filmes, além de apresentar os Museus e Instituições culturais que permitem uma visita interna, tipo “Google street view” só que por dentro de um prédio de exposições. A pesquisa pode ser por palavra chave ou simplesmente por tipo de material (por exemplo, tecido), cor, suporte, técnica etc. Tudo isso sem anúncios! Essa página tem sido minha navegação preferida, ao invés das redes sociais. Há conteúdo em português também. Algumas sugestões para vocês:

* No mundo da miçanga – exposição do Museu do Índio, organizada por Els Lagrou e Marco Antônio Gonçalves.

* Panos e tapas – um fantástico conjunto dentro do Museu Afro Brasil

* Mulheres na Índia – histórias e imagens incríveis, com dezenas de links, como este.

* As aparências enganam – sobre o guarda-roupa de Frida Khalo, do Museu Frida Khalo.

* Civil Rights Photography e muitas histórias maravilhosas no tema Black History.

Sobre a imagem que abre o post: Verdes de aquarela, todos partindo de um amarelo da Schmincke que ganhei de brinde (por isso não sei exatamente qual é o nome), misturado com todos os azuis da minha paleta. Feitos no verso de um bloco de papel Canson XL Mix Media (de espiral e capa azul marinho).

Desculpem a demora pelo post da semana. Graças à Net, fiquei com uma internet intermitente (perto de zero) por vários dias essa semana…

Você acabou de ler “Tem uma esperança ali“, escrito e ilustrado por Karina Kuschnir e publicado em karinakuschnir.wordpress.com. Se quiser receber automaticamente novos posts, vá para a página inicial do blog e insira seu e-mail na caixa lateral à direita. Se estiver no celular, a caixa de inscrição está no rodapé. Obrigada! 🙂

Como citar: Kuschnir, Karina. 2018. “Tem uma esperança ali”, Publicado em karinakuschnir.wordpress.com, url: https://wp.me/p42zgF-3E7. Acesso em [dd/mm/aaaa].