Karina Kuschnir

desenhos, textos, coisas


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Medo do medo do medo (e um pouco de coragem)

Uma das vantagens de criar filhos é que você descobre a resposta de quase todos os problemas da vida nos livros infantis. Lá estão muitas das emoções do mundo, não importa quão estranhas.

Uma das mais frequentes é o medo. Medo de escorpião, de monstro, de mar, de bicho, de gente, de crescer… Aqui em casa, temos uma coleção de livros sobre o tema. Um dos meus favoritos é “Chapeuzinho Amarelo”, escrito em prosa rimada:

“Não tomava sopa pra não ensopar.
Não tomava banho pra não descolar.
Não falava nada pra não engasgar.
Não ficava em pé com medo de cair.
Então vivia parada,
deitada, mas sem dormir,
com medo de pesadelo.”

E de tantos medos, Chapeuzinho Amarelo tinha um maior que todos: medo de lobo:

“Mesmo assim a Chapeuzinho
tinha cada vez mais medo
do medo do medo do medo
de um dia encontrar um LOBO.
Um LOBO que não existia”

Um dia, a menina encontrou um lobo de verdade — desses assustadores, com boca e dentes gigantes — e o efeito foi surpreendente:

“Mas o engraçado é que,
assim que encontrou o LOBO,
a Chapeuzinho Amarelo
foi perdendo aquele medo,
o medo do medo do medo,
de um dia encontrar um LOBO.
Foi passando aquele medo
do medo que tinha do LOBO.
Foi ficando só com um pouco
de medo daquele lobo.
Depois acabou o medo
e ela ficou só com o lobo.”
(…)
“O lobo ficou chateado.”

O lobo se irritou. Que audácia! Insistia em assustar a menina, gritando que era um LOBO! E, de tanto ouvir aquela palavra — lo-bo-lo-bo-lo-bo-lo…–, Chapeuzinho pensou…

“E o lobo parado assim
do jeito que o lobo estava
já não era mais um LO-BO.
Era um BO-LO.
Um bolo de lobo fofo,
tremendo que nem pudim,
com medo da Chapeuzim.
Com medo de ser comido
com vela e tudo, inteirim.

E assim seguiu a menina, descobrindo que prefere bolo de chocolate (e não de lobo), sem medo de carrapato, de chuva, de brincar ou de se machucar.

Lembrei desse livro porque, depois de tanta auto-exposição online (aqui e aqui), acabei recebendo muitas mensagens sobre medos da vida acadêmica: medo de escrever, medo de falar, medo de não conhecer teorias suficientes, medo de metodologia, medo de mudar de orientador, medo de trancar o mestrado, medo de continuar, medo de terminar, medo de banca, medo de não conseguir um trabalho, medo de ensinar, medo de nunca publicar…

Mas o medo mais frequente é o de “descobrirem que sou uma fraude”. Não é tanto o medo de “ser uma fraude” (porque infelizmente muita gente já se acha uma fraude, já acha que a vida acadêmica não é pra si etc.). O medo é de algo que confirme isso, desde não conseguir terminar um TCC até não passar num concurso, ou ter seu artigo recusado.

Numa aula de metodologia em que participei recentemente, como convidada, várias alunas mencionaram que a parte mais impactante do livro Truques da Escrita foi o capítulo “Riscos”, escrito pela Pamela Richards, ex-aluna do Becker. É um depoimento sobre o medo de ser considerada uma fraude, o medo de se expor às críticas, de não ser boa o suficiente, de não ser considerada inteligente, de não ter legitimidade para ser considerada uma profissional da área etc. Porém, o mais interessante é que a Pamela aponta as consequências de se sentir assim: quem tem muito medo não se arrisca, não se expõe, “não fala nada pra não engasgar”, como Chapeuzinho Amarelo, antes de encontrar o lobo. Nas palavras da autora:

“Esse problema da confiança é crítico porrque desgasta o tipo de liberdade emocional e intelectual de que todos nós precisamos para conseguir criar.” (Pamela Richards)

Ao mesmo tempo em que coloca o dedo na ferida, Pamela aponta caminhos para se fortalecer: olhar para trás (vendo o que te levou a conquistar o lugar onde você se encontra); olhar para frente (conversando com amigos sobre o que você pretente com sua pesquisa). É preciso encarar o lobo da escrita:

“…quanto mais você escreve, mais fácil fica, porque com a prática você aprende que não é tao arriscado quanto temia. (…)
…estou aprendendo, ao passar mais tempo escrevendo, que vale a pena correr esses riscos.” (Pamela Richards)

É isso, pessoal. Talvez todos esses medos sejam como aquelas pequenas faunas caseiras, tão apreciadas pelas crianças, como diz um menino, em outro livro:

“Gosto de você, aranha, porque você não pica nem arranha.”

Ah, antes de me despedir: por que essa imagem ilustrando o post? Porque achei maravilhosa a liberdade dessa mulher, vestida do seu jeito, barriga de fora, sutiã aparecendo, carteira dourada debaixo do braço, sandália confortável nos pés, como se dissesse pro mundo: “meu corpo, minhas regras”. Assim arrisquei desenhá-la também, aceitando as distorções da rapidez, colorindo com as limitações que o meu papel permitia, mas sentindo uma profunda gratidão por ela existir e por eu mesma me permitir arriscar. Às vezes é só disso que precisamos: ter menos medo e sair pra brincar.

Sobre as citações: Chapeuzinho Amarelo, de Chico Buarque, ilustrado por Ziraldo (Ed. José Olympio). Truques da escrita, de Howard S. Becker (Ed. Zahar, trad. Denise Bottmann). Os trechos citados são todos do capítulo 6, escrito quase inteiramente por Pamela Richards, ex-aluna do Becker. A história da aranha, diversos autores (ed. Ática, série Lelé da Cuca, trad. Luciano V. Machado).

Sobre a imagem: Esse desenho é o número 15 do Projeto 50 Pessoas que comecei no final do ano passado e interrompi na metade devido à pandemia. Linhas feitas com canetinha de nanquim permanente Pigma Micron (0,05) por observação rápida de foto tirada por mim pela janela do ônibus em um caderninho Hahnemühle. Aquarelas acrescentadas em casa com essa paleta. Para mais detalhes, ver a página sobre os materiais que utilizo.

Você acabou de ler “Medo do medo do medo (e um pouco de coragem)“, escrito e ilustrado por Karina Kuschnir e publicado em karinakuschnir.wordpress.com. Se quiser receber automaticamente novos posts, vá para a página inicial do blog e insira seu e-mail na caixa lateral à direita. Se estiver no celular, a caixa de inscrição está no rodapé. Obrigada! ☺

Como citar: Kuschnir, Karina. 2020. “Medo do medo do medo (e um pouco de coragem)”, Publicado em karinakuschnir.wordpress.com, url: https://wp.me/p42zgF-3Rk. Acesso em [dd/mm/aaaa].


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Sonhos

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Comecei o ano cheia de projetos. Vários eram só lembretes do que já tento fazer: cuidar dos filhos, de mim, das artes, do blog e do trabalho. O mais diferente foi “quero ter menos pesadelos em 2020”.

Quem me acompanha aqui, sabe que essa é uma das minhas sequelas pessoais. Sonho muito e frequentemente estou no papel das personagens-vítimas de filme de terror. Já fiz exames em que dormi numa clínica grudada em dezenas de fios, já consultei especialistas, já fiz curso de meditação, já corri em volta da Lagoa, já tomei remédio alopata e homeopata, já fiz acupuntura. Melhoro um pouco, mas os pesadelos voltam.

Comecei uma terapia nova em janeiro, decidida a levar esse projeto adiante. Veio a pandemia, o choque, o medo, as milhares de vidas perdidas, o confinamento, nossa Covid não confirmada, o cansaço extremo com o trabalho remoto. Meus planos de ter menos pesadelos foram ladeira abaixo.

Então a Rosana Pinheiro-Machado teve a ideia de um projeto lindo de fazer um curso no Youtube com professores voluntários. Me ofereci para gravar um vídeo sobre Escrita e sofrimento acadêmico. A conversa está com quase 20 mil visualizações e 350 comentários — todos só gentilezas!

Mas não vim aqui me auto-elogiar, né? Queria compartilhar minha surpresa com um dos pontos mais destacados por quem assistiu. Muitos que sugeri “lembrar do sonho” que motivou sua trajetória acadêmica, dos momentos em que você se sentiu empolgada, entusiasmada, feliz ou simplesmente em paz e autoconfiante com a ideia de realizar a sua pesquisa.

Percebem o paradoxo? Eu, a senhora-dos-pesadelos, falando em como sonhar é bom! 😀

Pensar sobre tudo isso me fez lembrar da imagem que ilustra esse post. Sempre volto a ela antes de dormir. Faz parte de um projeto que terminei ano passado, de estudar-pintando um livro de 50 aquarelas do Wil Freeborn, conforme conto aqui.

Recorro a essa cena como uma forma de me transportar para uma sensação boa, de me sentir serena no aqui e agora. Nada contra lindas praias, mas são os jardins que fazem meu coração bater mais forte. Árvores, livros, sol e sombras, conversas, crianças com os pés na água.

Queria sonhar todo dia com parques e céus azuis. Estou longe disso, mas os pesadelos têm diminuído. A terapia está ajudando muito.

Agora meus filhos me dizem: “mãe, você precisa reassistir à sua própria aula”! Eles brincam que preciso dos meus próprios conselhos — de não me cobrar tanto, de me permitir recomeçar e ser imperfeita.

É por isso que escrevo e desenho: para não esquecer dos meus sonhos de sonhar melhor, para lembrar do que importa, para me reenergizar, para ser útil.

Bons sonhos, pessoas queridas! Até semana que vem.

E ontem (28/08/2020) teve aula da nossa reitora-musa do que já apelidei de “Universidade da Pinheira”: Rosana Pinheiro-Machado, falando sobre técnicas para estruturar um texto. Foi excelente. Concordo com cada detalhe, com todas as prioridades apontadas e com o diagnóstico sobre os principais erros dos textos que avaliamos, como perder o fôlego na parte crucial de um trabalho, que é a análise dos dados de pesquisa. Rosana conseguiu resumir o que mais falamos em revisões de artigos, bancas e orientações. Como eu, essa também foi a primeira aula que ela gravou sozinha em vídeo. É um desafio, gente. Mas acho que ela encontrou o tom perfeito: sério, afetivo, acolhedor, com espaço para improvisos e ainda com os sorrisos mais fofos do curso! ♥

Sobre a imagem: Como mostro na foto abaixo, esse é um dos 50 estudos que fiz a partir do livro “Learn to Paint in Watercolor with 50 Paitings”, do Wil Freeborn (ed. Quarto, 2017). Levei quase um ano para completar o projeto que começou em 2018, como conto nesse post. A ideia era pintar uma por dia. Concluí as 50, mas claro que não consegui cumprir esse cronograma fictício. Algumas eram muito complexas, outras atrasaram porque a vida atravessou. Mas aprendi muito! Pensei em compartilhar todas num post só, mas dá um trabalho gigante editar 50 imagens. Não posso me dar a esse luxo no momento atual. Vai ter que ser aos poucos mesmo.

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Em vários estudos, busquei simplificar a proposta do artista, reduzindo os detalhes ou pintando apenas uma parte da cena. Nessa imagem em particular, tirei elementos do fundo à esquerda e tentei fazer um gramado mais suave. Fiz todas em um caderninho pequeno, que ganhei de brinde (ver post citado acima). As cartelinhas de cores são uma forma que utilizo para entender os tons dos pigmentos das aquarela que tenho, como explico no post sobre a paleta de cores e na página de materiais. Na foto acima, livro aberto de W. Freeborn, meu caderninho espiral e as guias de tons em volta. Algumas intensidades mais escuras da imagem original eu não consegui atingir porque ainda estou aprendendo… Além disso, o papel do meu caderno era fino (para aquarela), aguentando no máximo duas ou três camadas de tinta.

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Como citar: Kuschnir, Karina. 2020. “Sonhos”, Publicado em karinakuschnir.wordpress.com, url: https://wp.me/p42zgF-3Ra. Acesso em [dd/mm/aaaa].


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Imperfeições

Juva

“Caminhou quase todo o dia sem lhe acontecer coisa merecedora de ser contada; com o que ele se amofinava, pois era todo o seu empenho topar logo logo onde provar o valor do seu forte braço. Dizem alguns autores que a sua primeira aventura foi a de Porto Lápice; outros, que foi a dos moinhos de vento; mas o que eu pude averiguar, e o que achei escrito nos anais da Mancha, é que ele andou todo aquele dia, e, ao anoitecer, ele com o seu rocim se achava estafado e morto de fome; (…)” (Dom Quixote, Cervantes)

Por boa parte da quarentena, senti-me assim: vagando, seguindo, trabalhando e terminando os dias estafada e morta de fome — não de comida, mas de esperança e sentido.

O caminhar de Quixote e seu cavalo (rocim) nessa passagem me lembra a sensação de navegar a esmo nas redes no primeiros meses da pandemia. Parecia impossível abandonar as telas, as informações, as próximas datas, o término logo ali, bit após bit.

E nada disso veio. Para quem acredita em ciência, foi preciso aceitar que a solução não estava (e nem está) na esquina. Teremos que seguir todos os dias tentando não adoecer. Não é hora de sair de casa (se isso for uma opção).

Aqui, ficamos doentes, os resultados foram negativos, mas continuamos cumprindo as regras. Passou o pânico individual, mas não o horror pelas vidas perdidas.

Agora estamos numa nova fase, tentando reiventar os significados das coisas: da casa, do cuidar, do trabalhar e do criar. Precisamos caminhar, com todas as dores que nos acompanham, apesar de. Como disse a Aline:

“Mãe solteira, minha gente, somos um eterno ‘não vou conseguir’ enquanto vamos conseguindo.” (Aline Passos, no Twitter)

Achei lindo e que vale pra tudo: escrita, tese, trabalho, desafios. Precisamos entender as dificuldades, mas seguir seguindo. (Sigam a Aline, ela é incrível.)

E para meu próprio espanto, vencendo mais uma vez a timidez: hoje (15/08/20) estarei daqui a pouco às 17h numa live no canal da Débora Diniz no Instagram. O nome é Banquinha do Avesso, e a ideia é conversar sobre momentos de virada e/ou fracassos na vida acadêmica. Sei que tá em cima da hora, mas acho que ficará gravado no IGTV dela.

Meu imenso abraço e muito obrigada a todos que escreveram com gentilezas sobre a minha aula do curso da Rosana Pinheiro-Machado. Vocês são uns amores!! ♥

Sobre a citação inicial: Dom Quixote de La Mancha, de Miguel de Cervantes Saavedra, pág. 33 da edição Abril Cultural (1978, Trad. Viscondes de Castilho e Azevedo).

Sobre a imagem que abre o post: Montagem mal encaixada de uma pintura enorme que fiz durante a quarentena. Foi a maior aquarela que já pintei, com 104 x 48 cm. Tive que escanear em 8 partes. Ia encaixar todas as imagens direitinho no Photoshop, mas depois acabei gostando dessa montagem esquisita. Achei uma boa metáfora para esse momento de tentar nos equilibrar e seguir, mesmo sabendo que vamos deixar muitas coisas pelo caminho.

Sobre a pintura em si: Desenhei as esferas a lápis, utilizando vários objetos redondos da casa. Depois, pintei sobre a superfície do papel molhada de modo que as cores fossem se misturando ao sabor da água e das variações dos pigmentos. O papel e a liberdade foram presentes da minha sobrinha artista, Celina Kuschnir, com quem fiz uma oficina de criação maravilhosa, agora oferecida online (detalhes no IG do projeto S_O_L). 

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Entre o inofensivo e o mortífero: a delicadeza e o talento de Bel Franke

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Era uma vez uma jovem, Isabel Franke, que tinha uma página no Facebook sobre fotografia e antropologia. Cada semana publicava um texto melhor que o outro. Um dia, de tanto receber meus elogios, ela respondeu perguntando se eu poderia ler seu projeto para o mestrado. Era uma ideia linda e desafiadora. Conversa vai, conversa vem, ajusta daqui e dali: vaga conquistada. Que alegria! Moramos em cidades diferentes mas nos acompanhamos de longe.

Para minha surpresa, meses depois recebi uma mensagem do Chris Tambascia, amigo querido, dizendo que precisava de mim numa qualificação. Logo eu? Não tenho mais nada pra dizer… “Essa você vai aceitar”, ele respondeu: é da Bel Franke.

E aceitei mesmo, e me maravilhei como estava tudo mudado. Só que era a mesma Bel: forte, delicada, inteligente, entregue ao exercício de pensar. Tempos depois nos conhecemos pessoalmente e, há poucos meses, depois de lutas internas intensas, estive no festejado dia da defesa. Ela não acha, mas eu sim: já nasceu mestra. A diferença foi só o diploma.

Quem vê de longe, pensa que a vida pra Bel foi fácil. Só sei da pontinha do iceberg, mas dá pra ver que o mar é profundo. Só uma pessoa com um oceano dentro de si é capaz de fazer uma dissertação sobre fotografia, ilustração, morte, guerra e máscara de gás nos deixando maravilhados. Onde ela se debruça surgem novas camadas.

A Bel é casada, tem bichos e trabalha com educação infantil num museu. Agora, faz parte de um projeto sobre história das roupas e dos tecidos, o Traje Brasilis: vestindo a história do Brasil, além de escrever seu próprio blog: belfranke.com.

Foi do blog da Bel que retirei as imagens para pintar as aquarelas que ilustram esse post. O estojinho preto com fita dourada foi feito por ela à mão, inspirada em um hussif, kit de costura popular nos séculos XVIII e XIX. O estojo antigo, à direita, foi pintado por mim a partir de uma foto de um hussif e um kit de linhas utilizado por um soldado neozelandês na Primeira Guerra Mundial, acervo do Auckland Museum. Para ler sobre a conversa entre esses dois objetos, leiam o post original “O hussif: ou quando a costura histórica e a dissertação se encontram“. Ali vocês terão uma amostra do talento dessa escritora, antropóloga, artista, costureira, historiadora e contadora de histórias. Há na sua arte uma tensão que remete ao sentido da vida, entre o “inofensivo e o mortífero”, como em sua análise de uma imagem de 1919:

“Costurar parece a única ação realmente humana, e por isso chama a atenção como esse personagem [um soldado] está despido de seu equipamento: o capacete que está aos seus pés e a bolsa que deixa entrever o tubo sanfonado de sua máscara de gás. Retratado em pleno ato de puxar a linha, é ele que tensiona toda a pintura, como se sintomatizasse a inutilidade e o absurdo da guerra.” (Bel Franke)

Não podia deixar de compartilhar com vocês esse duplo “pensar e fazer” que a Bel evoca. Tenho sentido em muitos jovens com quem converso a vontade de agir, de produzir concretudes. Concordo, apoio, preciso!

Entre a inocência e a morte, há um fio tênue —  entre a potência de uma criança feliz e a queda no precipício da decepção. De que lado queremos estar?

Não tenho muitas certezas, mas essa sim: estou do lado das crianças e dos sorrisos, da Bel e das costuras, da vida e não da máscara.

Para todos que vão entregar qualificações, dissertações e teses agora em março: meu abraço apertado e um lembrete: “quando não precisamos mais ser perfeitos, podemos ser bons” [And now that you don’t have to be perfect, you can be good. John Steinbeck, East of Eden], epígrafe desse post.

Para todos os professores que estão estreiando ou voltando às aulas: sorriam, sejam gentis, bebam água, descansem. A sociedade pode não nos valorizar como gostaríamos, mas nós somos a base de tudo. Muita transformação pode acontecer dentro da sala de aula — e quem sabe a primeira delas seja aprender tanto quanto ensinar. Dicas de volta às aulas nesse post, e sobre a importância do sorriso do professor, aqui.

7 Coisas impossivelmente-legais-bonitas-emocionantes-e-dignas-de-nota da semana:

♥ A vitrola da Alice continua a mil. Os hits atuais são “Tanto amar“, do Chico Buarque e “Baby“, na voz da Gal Costa. Ela não apenas ouve, mas canta e se acompanha no violão. Haja emoção.

♥ Antônio fez 19 anos! Quem me acompanha nas redes já sabe: compartilhei uma foto linda dele, com o sorriso maior que o mundo — uma imagem que toda pessoa que ama sonha em ver no rosto do filho.

♥ Um acontecimento inusitado. Minha mãe resolveu dar um tênis bonitinho de aniversário pro neto. (Por convicção, Antônio só tem um par de tênis e um de chinelos. Imagina o perrengue com essas chuvas.) Compra feita, presente dado, opa: “tem algo estranho, mãe”. Acreditam que o vendedor colocou na caixa um pé de cada tamanho? No dia seguinte tivemos que ir à loja trocar e ainda ouvimos um pedido de desculpas bem “mixuruca”, como dizia minha avó.

♥  Encontrei um ex-aluno que fez biscoitinhos pra nós, aprendi sobre o projeto para escolas do Permacultura Lab, da Unirio, telefonei para uma amiga que virou psicóloga, troquei mensagens com pessoas solidárias, recebi zaps de alunas com saudades das aulas. Muito obrigada, gente! Não sei realmente onde eu estaria sem vocês.

♥ Telefonei para um amigo que perdeu uma pessoa querida, mandei cartão com flores para outro que tá sofrendo. É difícil saber o que dizer nessas horas? É sim. Mas é importante. Não importa quão sem graça você fique — é mais digno dizer qualquer coisa do que ficar em silêncio.

♥ Na pintura, me dediquei ao desenho desse post e estou tocando também o projeto das 50 pessoas em aquarela (23/50). Preciso de dicas de lugares que sejam abrigados da chuva e bons para observar gente. Qualquer sugestão é válida. Agradecida.

♥ Uma leitora sugeriu um acréscimo na receitinha para lidar com desamor etc.: cuidar de plantas! ♣ Adorei a lembrança. Já tive uma varandinha repleta de vasos e flores. Minha planta preferida é o jasmin branco, desses que se enrosca nas coisas. Tem um cheiro maravilhoso e me lembra a casa da minha avó. Depois de ter gatos deixei de ter plantas, porque são perigosas pra eles; e talvez porque não tive como cuidar de tantos seres vivos ao mesmo tempo. Mas recomendo sim! Vou editar o post acrescentando essa dica. Obrigadíssima, Ana Valéria! ♥

Sobre o desenho: Desenhei a partir de fotos do post sobre os hussifs da Bel Franke. Linhas feitas com canetinha Pigma Micron 0,05 de nanquim permanente, em um papel Canson do bloco Aquarelle XL. Pintura feita com aquarelas dessa paleta. Depois escaneei e limpei as sombras do papel no Photoshop. Não deixem de ler o post original da Bel para acompanhar de perto a análise e outras imagens incríveis que ela publicou. Ah, já ia me esquecendo: a aquarela original será um presente para ela! ♥

Você acabou de ler “Entre o inofensivo e o mortífero: a delicadeza e o talento de Bel Franke“, escrito e ilustrado por Karina Kuschnir e publicado em karinakuschnir.wordpress.com. Se quiser receber automaticamente novos posts, vá para a página inicial do blog e insira seu e-mail na caixa lateral à direita. Se estiver no celular, a caixa de inscrição está no rodapé. Obrigada! ☺

Como citar: Kuschnir, Karina. 2020. “Entre o inofensivo e o mortífero: a delicadeza e o talento de Bel Franke”, Publicado em karinakuschnir.wordpress.com, url: https://wp.me/p42zgF-3Qr. Acesso em [dd/mm/aaaa].


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Os afetos que nos movem

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“Professora Karina!
Escrevi para você por e-mail no início de 2019. Conversamos sobre as durezas dos nossos tempos, desde o incêndio do Museu. Te contei do que mamãe me falava sobre fragmentos de felicidade e de como seu blog cumpriu um papel fundamental na minha saúde emocional de pesquisador.
Essa madrugada eu terminei o texto da dissertação. Tudinho. Pronta para imprimir. E na hora lembrei de todos os textos que você já escreveu e que serviram como abraços para nós, jovens cheios de incerteza sobre a qualidade do que fazemos.
Queria reafirmar a você o quanto seus textos foram importantes para me convencer a acreditar em mim mesmo. Muitíssimo obrigado, professora Karina! Você cumpre um papel indispensável e de excelência na academia brasileira”

Recebi esse texto hoje e não pude deixar de me emocionar. Normalmente não compartilharia aqui um elogio a mim mesma, mas relevem: estou merecendo.

Na semana passada, fui jogada de um barco em alto mar. Foi um susto, uma violência? Foi. Mas sou grandinha e sei nadar. Tô ferida-viva, aquecida pelas mensagens de carinho e conseguindo fazer uma das coisas que mais amo no mundo: escrever e desenhar para compartilhar com vocês.

Respondi ao jovem da mensagem com o maior sorriso que encontrei dentro de mim. Agradeci cada palavra e disse aquilo que um dia tanto me ajudou na tempestade que foi o meu doutorado: “Parabéns por finalizar a sua dissertação. É sua, é seu trabalho; é algo que ninguém nunca vai poder tirar de você.

E completei: nos momentos difíceis, cada vez mais acredito que o caminho é a gente se doar — compartilhar coisas e conhecimentos para, quem sabe, facilitar a vida de quem estiver precisando.

No meio da nossa conversa, que seguiu por muitos parágrafos, ele mencionou um verso da música do Caetano Veloso, “Desde que o samba é samba”. Cito duas estrofes:

“Solidão apavora
Tudo demorando em ser tão ruim
Mas alguma coisa acontece
No quando agora em mim
Cantando eu mando a tristeza embora”

“O samba ainda vai nascer
O samba ainda não chegou
O samba não vai morrer
Veja o dia ainda não raiou
O samba é pai do prazer
O samba é filho da dor
O grande poder transformador”

Sem que eu precisasse explicar nada do que estava acontecendo comigo, ele escreveu:

“A família por vezes faz com que passemos por momentos delicados. Eu desejo de todo coração que tudo isso passe, passe logo, e que enquanto isso não acontecer, que você tenha serenidade para lidar com aquilo que escapa ao seu controle.

Junto com a terapia, a meditação foi um outro instrumento que me ajudou a cuidar de mim. Às vezes, a única coisa que o dia pede é essa lição de sentar, respirar e observar nossas dores. E no fim, conseguimos até valorizar nossos fragmentos de felicidade, mesmo quando tudo fica ‘demorando em ser tão ruim’.

O que afaga o coração é olhar para o lado e ver que os afetos seguem nos movendo. Talvez essa seja das coisas mais doloridas, mas igualmente mais fascinantes da condição humana. (…) Talvez o melhor caminho seja ser mais fiel às nossas vontades do que aos nossos medos.”

Como eu poderia escrever melhor? Que presente ler algo tão significativo. Quanta sabedoria numa pessoa que acabou de passar por processos difíceis.

Quanto estamos em sintonia conosco, as pessoas e as portas certas parecem nos encontrar e se abrir sem esforço. Quando não, tudo parece demorar em ser tão ruim…

Como saber se estamos diante da porta certa? Para mim, é quando encontro um sorriso íntimo, um suspiro gostoso, uma vontade de cantar um ‘samba transformador’. Mesmo que o mundo lá fora diga não. Respondi para ele (e pra mim): “Fique atentos. Quando o coração bater de alegria, presta atenção. Quando bater de alívio, porque algo tava pesando, presta atenção também. É nisso que tenho pensado nesse momento.

Diante da tsunami e do mar sem boias, precisamos nadar e buscar novos sentidos para nos sentirmos inteiros. (Tem receitinha-lembrete no post da semana passada).

Meu desejo para vocês que estão terminando suas dissertações e teses nesse momento: força, calma, clareza, compaixão, paciência, e um pouquinho de disciplina, que não faz mal à ninguém. E lembrem-se do nosso mantra: “vai passar”.

Boa sorte, pessoal! Saibam que cada um de vocês importa, cada pesquisa importa, cada parágrafo que produz conhecimento sobre esse nosso mundo doido importa!

Coisas impossivelmente-legais-bonitas-emocionantes-e-dignas-de-nota da semana:

♥ A vitrola antiga-nova da Alice está a mil alegrando a casa. Ela está ganhando e comprando vinis, de João Gilberto a Diana Ross. ☺

♥ Visitamos nossa amiguinha do peito Helena e saímos de lá com uma foto polaroid. Que coisa fofa!

♥ Fomos ao teatro ver a última sessão da temporada de Novos Baianos – O musical. Emocionante! É indescritível de tão lindo o trabalho dos atores-bailarinos-músicos. Não percam quando o espetáculo voltar ao Rio.

♥ Encontrei ex-aluna, ex-colega de departamento, amiga de infância, amigas de internet, amiga de trabalho, amiga de desenho, amiga de bairro, prima, irmã, mãe, titia. Mulher é um bicho bom demais, gente. Mulheres maravilhosas, obrigada! ♥

♥ Para não desqualificar a categoria como um todo, vamos lá, tenho que admitir: quatro homens foram engraçados, gentis e solidários, sendo um deles o que me escreveu as mensagens desse post.

♥ Tento tentado postar diariamente nos stories do meu Instagram. Consegui redesenhar e pintar à mão a logomarca que aqui no blog ainda estava na versão original do App. Agora ficou assim:

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Sobre o desenho: Esse jovem no metrô é parte do meu projeto 50 Pessoas em Aquarela (estou na pessoa 21/50). Linhas feitas por observação direta no Metrô do Rio, voltando tarde da noite. A canetinha foi uma Pigma Micron 0,05 de nanquim permanente. O caderno foi um bloquinho Hahnemühle como esses aqui. Adicionei as cores em casa, com as aquarelas que estão nessa paleta. Depois escaneei e limpei as sombras do papel no Photoshop. O rapaz bonito estava entretido com um grupo de música cujo aparelho de som estava bem ao seu lado no chão.

Você acabou de ler “Os afetos que nos movem“, escrito e ilustrado por Karina Kuschnir e publicado em karinakuschnir.wordpress.com. Se quiser receber automaticamente novos posts, vá para a página inicial do blog e insira seu e-mail na caixa lateral à direita. Se estiver no celular, a caixa de inscrição está no rodapé. Obrigada! ☺

Como citar: Kuschnir, Karina. 2020. “Os afetos que nos movem”, Publicado em karinakuschnir.wordpress.com, url: https://wp.me/p42zgF-3Q8. Acesso em [dd/mm/aaaa].


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Meu TCC mudou minha vida

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“O difícil não é ser complicado; o difícil é ser simples. Quanto mais você conhece algo, mais clara deve ser sua explicação.” (Citando de memória minha orientadora de TCC, Angeluccia Habert)

Até o último ano da faculdade de jornalismo, eu não tinha ideia de como fazer uma pesquisa, apesar de quase metade do meu curso ser composta de disciplinas como história, antropologia e sociologia… Para minha sorte, no último ano era obrigatório fazer um semestre de Metodologia de Pesquisa e outro de Monografia (mais conhecida como TCC,  Trabalho de Conclusão de Curso).

Cheguei na aula de Metodologia de pé atrás, porque a professora Angeluccia Habert tinha fama de durona. Como eu trabalhava e fazia faculdade à noite, precisava escolher as matérias para me dedicar enquanto ia levando as outras. Achei que Metodologia cairia nesse limbo, mas me apaixonei!

O segredo desse amor foi que aprendi a fazer uma pesquisa aprofundada. O principal livro da disciplina era Comunicação de Massa: Análise de Conteúdo, de Albert Kientz. Não tenho referências atuais sobre o autor, mas me marcou demais como ele e a Angeluccia me ensinaram de forma didática que era preciso decupar um material e analisar cada pedacinho, para só depois tentar interpretações mais amplas. Fiquei fascinada por existir um método passo a passo.

Para Metodologia, fiz um trabalho final sobre o conceito de indivíduo em obras teatrais de Mauro Rasi. Através de amigos em comum, consegui os roteiros de três peças que giravam em torno do tema família. Pesquei algumas referências teóricas sobre individualismo e fui. Lembro de suar muito para escrever um texto corrido que juntasse os trechos das peças e as questões dos autores, mas acabei tirando 9,0 — uma nota fantástica para a Angeluccia. Esse trabalho, inclusive, foi crucial para que eu passasse no mestrado em antropologia, pois era a única pesquisa que eu tinha para mencionar na entrevista.

No semestre seguinte, pedi à Angeluccia para ser minha orientadora de TCC. Se lembro bem, por ser super exigente, ela não tinha filas. Faltavam só cinco meses para colar grau quando tive a primeira melhor notícia da minha vida, que foi passar no mestrado para o PPGAS, no Museu Nacional/UFRJ. Agora é que a monografia tinha que sair decente.

Nessa época, eu trabalhava na antiga Rádio JB AM, só de notícias. O sistema Jornal do Brasil tinha um setor de pesquisas incrível. Como estagiária e depois repórter, eu amava vasculhar esse material, que abrangia não apenas o JB mas dezenas de veículos de imprensa, por décadas. A primeira coisa que decidi foi fazer meu TCC trabalhando com cinco jornais impressos. Depois, resolvi focar em como esses veículos retratavam as empregadas domésticas durante um recorte temporal específico.

Não tenho mais o material da pesquisa empírica: eram quase 70 reportagens com suas respectivas fichas de decupagem e uma grande tabela de análise feita à mão em duas cartolinas brancas grudadas (que eu precisava enrolar para transportar). Entrevistei também uma pesquisadora que trabalhava na área. Feita essa parte, restava escrever… Haja coca-cola diet (era novidade) para me manter animada a terminar. O cenário dessa fase está na ilustração acima: um computador dos anos 1980, muitos jornais velhos, disquetes, lápis, caneta, a tabela de análise enrolada  e algumas cópias de textos.

Mas por que o título dramático desse post — “Meu TCC mudou a minha vida”?

• Porque eu nunca teria me tornado pesquisadora e professora se as disciplinas de Metodologia e de TCC não fossem obrigatórias no curso de Comunicação.

• Porque, às vezes, as coisas que a vida te obriga a passar são justamente as que te abrem os caminhos mais interessantes.

• Porque até na minha banca de doutorado, um dos meus ídolos da antropologia afirmou que um dos pontos altos da tese eram os trechos de análise de discurso dos meus interlocutores.

• Porque ainda hoje, quando oriento meus alunos, volto ao básico que aprendi com a Angeluccia e com o Kientz: uma boa investigação parte de um recorte preciso e de uma análise minuciosa das fontes.

• Porque tudo isso reafirma que não precisamos apelar para conceitos mirabolantes para fazermos bem feito.

• Porque criar algo por meio de uma pesquisa nos faz um bem danado.

• Porque o conhecimento contribui para um mundo melhor.

É simples.

Boa semana, com ótimas escritas, desenhos e pinturas, pessoal! ☼

Sobre o desenho: Uma novidade: o desenho desse post foi feito no papel e depois finalizado no Ipad. Estou assistindo um curso online só para aprender a mexer no Procreate. É um mundo de possibilidades. Nesse caso específico, comecei de forma tradicional: reuni fotos de objetos da época, depois fiz um desenho no verso de uma folha de papel A4 (bloco Canson Aquarelle) com canetinha Pigma Micron 0.2. Comecei a pintar com aquarela mas me deu uma preguiça enorme, por ser um tamanho grande (prefiro pintar A5 ou A6) e pelo mundo de detalhes da pilha de jornais… O original ficou largado na minha mesa por vários meses… Com o Ipad, resolvi testar adicionar as cores e sombras no Procreate. Vejam abaixo como estava no início do processo e como foram as camadas adicionais de sombras e cores (juntei todas para facilitar a visualização):

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TCC_Layers

Abaixo, o desenho final com as duas imagens acima reunidas, e o fundo do papel clareado depois no Photoshop:

meutcc_p3

Adorei a experiência! Apesar de também ser bastante trabalhoso, colorir no Ipad tem o conforto de te permitir testar e desfazer, além de possibilitar coisas impossíveis em aquarela, como pintar letras verdes sobre um fundo escuro. No papel, eu teria que usar guache e mesmo assim seria bem difícil. Na maior parte do processo, utilizei o pincel Calligraphy – Water Pen, que já vem com o app.

Isso me lembra que preciso atualizar urgentemente o post sobre os 12 Cursos de Desenho, que está sempre entre os mais visitados do blog. Já fiz pelo menos outros 12 cursos desde então — amo ser aluna!

Se quiserem saber algum detalhe que esqueci de explicar, escrevam nos comentários por favor. ♥

Você acabou de ler “Meu TCC mudou minha vida“, escrito e ilustrado por Karina Kuschnir e publicado em karinakuschnir.wordpress.com. Se quiser receber automaticamente novos posts, vá para a página inicial do blog e insira seu e-mail na caixa lateral à direita. Se estiver no celular, a caixa de inscrição está no rodapé. Obrigada! ☺

Como citar: Kuschnir, Karina. 2020. “Meu TCC mudou minha vida”, Publicado em karinakuschnir.wordpress.com, url: https://wp.me/p42zgF-3PI. Acesso em [dd/mm/aaaa].


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Projeto 50 pessoas em aquarela e nanquim

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“A vida é imprevisível. Sei que não podemos controlar tudo… Mas, quando estamos com as pessoas que amamos, conseguimos lidar com qualquer coisa.” (Amy Santiago, Brooklyn 99*)

Querem começar o ano com uma distração leve, que emociona e faz gargalhar? Assistam à série “Brooklyn 99” na Netflix. Tem cinco temporadas lá. (A sexta só catando; a sétima está em produção.)

Não sou muito de série, mas fico feliz quando encontramos uma bem divertida para vermos juntos. Essa nos pegou de jeito. É super engraçada e melhora conforme as temporadas vão avançando. É visível o cuidado dos roteiristas em não fazer humor com zoações homofóbicas, sexistas, racistas etc. Tudo isso sem deixar de falar bobagem e fazer rir. Claro que titio Adorno não aprovaria rirmos de gracinhas sobre polícia norte-americana, mas ninguém é perfeito.

Eu me identifico demais com a Amy — uma caricatura de pessoa hiper organizada, apaixonada por fichários, post-its e materiais de papelaria, que vive tentando ser a queridinha do chefe. Ela é zoada por todos por ser previsível, sem graça, certinha demais. Mas a personagem também acaba rindo bastante de si mesma, ora salvando o dia com seus manuais de 500 páginas, ora deixando o controle de lado em prol do improviso e da diversão. Uma fofa, assim como todos os outros. ♥ Não conto mais para não dar spoiler.

Falei da Amy e de Brooklyn 99 porque a frase dela tem tudo a ver com o projeto que estou fazendo no momento: desenhar e aquarelar 50 pessoas de corpo inteiro.

A senhora que abre o post é a terceira da série, mas já estou na oitava. Vou mostrando a sequência conforme for escaneando:

Projeto_50_1-3

É difícil encontrar pesssoas que não estejam com celular na mão. No caso da senhora, porém, me alegrei com a presença de várias estampas (a saia era xadrex azul e a blusa de oncinha, detalhe que acabei não pintando). Amei o reflexo da luz da tela na sua mão, além dos vários pacotes aos seus pés, como se ela fosse um porto seguro.

Final de 2018 e 2019 foram períodos de ressentimento com muitas pessoas. Ainda é difícil lidar. Mas minha natureza é amar gente. Não foi à toa que abracei a antropologia. Antes, bem jovem, cheguei a ensaiar ser fotógrafa de retratos. Depois, me apaixonei por desenhar pessoas. Até hoje, minha primeira aula de modelo vivo é um dos momentos para o qual retorno quando preciso lembrar o que é felicidade. Foi um momento mágico.

O projeto é pra ficar próxima daquilo que me faz bem: acreditar e ter compaixão pelas pessoas. Quando se desenha um ser vivo, acho que acontece um elo, uma linha que busca conhecer, sem julgar. 

Meu ideal seria fazer todos os registros por observação direta. Mas nem sempre dá pra desenhar um corpo inteiro num espaço público. Então, quando faltam modelos, tiro fotos para ver depois. A aquarela deixo para casa, que é onde me sinto melhor pintando. Gosto de camadas que precisam de tempo para secar e da tranquilidade da minha mesa com os materiais à volta. 

Parafraseando a Amy: não podemos controlar tudo, mas, quando estamos com as pessoas certas, e fazendo o que amamos, conseguimos lidar com qualquer coisa.

7 Coisas impossivelmente-legais-interessantes-ou-dignas-de-nota da semana:

♥ Tenho postado stories no meu Instagram mostrando alguns processos de pintura e tentando manter os posts atualizados por lá.

♥ O Twitter me angustia, mas sigo no meu perfil, avisando de novos posts e compartilhando coisas legais sobre arte e desenho, já que é uma boa rede para colocar links.

♥ O Facebook é onde tenho mais amigos. Acho o melhor espaço para receber e responder comentários, além de ser bom para compartilhar textos mais longos. Não podiam juntar as qualidades de todas as redes numa só?

♥ Conto tudo isso porque, na retomada do blog, depois de 3 meses parada, fiquei na dúvida se valia à pena replicar os posts nas três redes. Fiz uma pesquisa no Stories do Instagram perguntando se as pessoas se incomodavam com essas repetições de conteúdo. Resultado: os tolerantes ganharam (38 pessoas acham bom. 13 não gostam, sendo que eu sou uma delas, hahaha.)

♥ Sobre desenho de pessoas ao vivo, lembrei de alguns posts: Razões para sorrir, Modelo viva, Modelos vivos ou mortos, Uma cidade, duas cidades, Irmãos e Irmãs de Shakespeare e outros curtinhos que abrem o blog: Anjos do Metrô, Metrô, Sentido Zona Norte, Leitores no Parque. Não deu pra recuperar tudo, porque meu sistema de tags tá bem caótico.

♥ Na busca acima, achei esse post com o maravilhoso trabalho do Nelson Paciência, A liberdade de desenhar, sobre um projeto de desenho com pessoas encarceradas.

♥ Pra fechar, a dica de um vídeo bacaninha de 5min. sobre A complexa geometria do design islâmico, em inglês mas com legendas (Ted/YouTube).

Sobre a citação: A frase foi dita pela Amy Santiago, personagem da série Brooklyn 99, no último capítulo da 5ª temporada. Tem na Netflix as primeiras 5 temporadas. Depois, só pedindo ajuda pros universitários.

Sobre o desenho: Linhas feitas por observação direta no Metrô do Rio, Linha 1. A canetinha foi uma Pigma Micron 0,05 de nanquim permanente. O caderno foi um bloquinho Hahnemühle como esses aqui. Adicionei as cores em casa, com as aquarelas que estão nessa paleta. Depois escaneei e limpei as sombras geradas pelo scanner no Photoshop.

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Como citar: Kuschnir, Karina. 2020. “Projeto 50 pessoas em aquarela e nanquim”, Publicado em karinakuschnir.wordpress.com, url: https://wp.me/p42zgF-3OL. Acesso em [dd/mm/aaaa].


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Desenho Etnográfico – I Mostra da ABA e imagens de uma aula lúdica

miria_pEstá acontecendo! O desenho entrou para valer na agenda da antropologia — viva!

Na 32ª Reunião Brasileira de Antropologia de 2020 haverá a I Mostra de Desenho Etnográfico, com trabalhos que utilizem desenhos relacionados à pesquisa antropológica. 2020 RBA I Mostra Desenhos EtnograficosEstou torcendo para chegarem muitas incrições! O prazo para envio foi prorrogado para 29/02/2020.

A página de eventos da RBA está aqui: https://bit.ly/35wb6CE. E o edital completo pode ser acessado aqui: https://bit.ly/2up651M

Para completar minha alegria, a imagem de Miriã Cruz, aluna do meu curso de Antropologia e Desenho no IFCS/UFRJ, foi selecionada para o cartaz de chamada do edital.

A ideia da equipe era ter um registro em que o próprio pesquisador-desenhador estivesse inserido na cena. Essa é uma estratégia gráfica que procuro trazer para as aulas, pois um dos efeitos de desenhar no trabalho de campo é colocar em evidência a presença do etnógrafo na narrativa. Como escreveu uma aluna em sua reflexão:

“Uma das principais lições desse exercício é que o pesquisador não é um mero observador, mas uma parte integrande da pesquisa. Quando pesquisamos, estamos envolvidos corporalmente e psicologicamente com o objeto e os sujeitos pesquisados. A neutralidade científica é um mito.” (Luana Fontel)

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Miriã fez o desenho que abre esse post na penúltima aula do semestre. A turma de 2018-2 do curso noturno de Antropologia e Imagem foi inesquecível. Apesar de serem quase 60 pessoas — o que é muito numa aula normal, imaginem numa aula prática –, acho que tivemos uma conexão especial.

Vendo a empolgação de todos, e querendo proporcionar uma experiência diferente, resolvi levá-los para desenhar numa biblioteca reservada do IFCS, onde só se entra com hora marcada. É a nossa “mini Hogwarts” — um pequeno labirinto de três andares de estantes, escadas e passarelas, tudo de madeira. Um lugar incrível de um prédio cuja fundação começa no século XVIII, se constrói no XIX e se modifica ao longo do XX.

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A emoção foi coletiva, como escreveu um Fernando:

“Enquanto desenhava, pensava sobre as gerações de pessoas anteriores a mim que passaram por aquele local, desde as que construíram o prédio até as que circulavam por ali. (…) Esperanças, medos, deslumbramentos e o sentimento de vida em movimento me inspiraram a traçar as linhas para meu desenho. Nunca tive um aula assim.” (Fernando Lima)

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Fui compartilhando ao longo do post alguns dos desenhos que os alunos fizeram nesse dia. A única orientação era para que incorporassem a si mesmos desenhando e, se possível, algum dos colegas de turma desenhando também. Foi difícil selecionar apenas nove imagens para o post, porque amei todas! Adorei que a Thais escreveu no desenho dela:

“Ouço bem de longe a professora dizer que o ato de desenhar é também de fazer escolhas. Desisto da ideia de abraçar o mundo com as pernas, como sempre diz meu pai. Escolho a ideia do labirinto de escadas cruzadas (…).” (Thais Vilar)

Ah, e não custa lembrar: os artistas são alunos de Ciências Sociais. A maioria não tinha experiência intensiva com artes. Sobre a proposta nesse dia, a Luna escreveu:

“[primeiro] pensei: impossível. (…) no fim, fiquei bem impressionada e bem feliz com meu desenho; e levei pra vida a discussão em aula sobre não olhar apenas para todas as dificuldades que nos fazem sentir pequenos, mas olhar para cada passo, para cada gesto e, assim, enfrentar o que nos paralisa.” (Luna Mendes)

Qualquer pessoa pode desenhar, gente.

Agradeço até hoje por esse dia tão mágico. Obrigada turma de 2018-2! ♥

Vocês podem ler sobre os fundamentos que utilizo nessas aulas no artigo “Ensinando antropólogos a desenhar” que está na página de referências Antropologia e Desenho.

Os planos de aulas lúdicas mais elaborados estão na página Vida Acadêmica e Aulas.

♥ 2 Coisas impossivelmente-legais-bonitas-interessantes-ou-dignas-de-nota da semana:

. Novo número da Revista Tessituras – Revista de Antropologia e Arqueologia, com o dossiê Antropoéticas: outras (etno)grafias, editado por Patrícia dos Santos Pinheiro, Cláudia Turra Magni e Marília Floôr Kosby. Sumário fantástico, com textos de Ana Lúcia Ferraz, Fabiana Bruno, Ana Luiza Carvalho da Rocha, Matheus Cervo,
Aina Azevedo, Daniela Feriani, pra citar apenas alguns nomes que acompanho mais de perto. A vontade é de ler o número inteiro! Já comecei a imprimir pelo PDF da Aina.

. Aproveitando o tema, divulgo uma chamada linda que recebi da revista Fotocronografias — link aqui. O desenho maravilhoso da imagem abaixo é da Thay Freitas (ig: @thay_petit). O prazo para envio de contribuições é 31/03/2020.Chamada revista 1

Sobre os desenhos: Os alunos receberam uma folha branca de papel A4, 75 gr, para desenhar. Todos fizeram o desenho por observação direta no local , utilizando caneta (esferográfica preta ou canetinha de nanquim descartável). As cores foram acrescentadas em casa. A Miriã ficou com medo de estragar o desenho original e tirou uma xerox, colorindo com aquarela a cópia. O resultado foi incrível para um papel tão simples! Os demais coloridos foram feitos com lápis de cor e um pouco de aquarela também. 

Você acabou de ler “Desenho Etnográfico – I Mostra da ABA e imagens de uma aula lúdica“, escrito e ilustrado por Karina Kuschnir e publicado em karinakuschnir.wordpress.com. Se quiser receber automaticamente novos posts, vá para a página inicial do blog e insira seu e-mail na caixa lateral à direita. Se estiver no celular, a caixa de inscrição está no rodapé. Obrigada! ☺

Como citar: Kuschnir, Karina. 2020. “Desenho Etnográfico – I Mostra da ABA e imagens de uma aula lúdica”, Publicado em karinakuschnir.wordpress.com, url: https://wp.me/p42zgF-3Ov. Acesso em [dd/mm/aaaa].


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Expirar, escrever, desenhar

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Há muitos anos atrás, aprendi que uma crise respiratória pode ser por “excesso de ar” nos pulmões, e não falta. A aflição nos faz de tentar inspirar, quando na verdade precisamos expirar, de preferência bem devagarinho.

Descobri que existe também a “aerofagia”, dor e enjôo causados quando se respira muito pela boca, deixando o estômago cheio de ar. Sintoma típico de ansiedade. Até ar em excesso nos adoece.

Imaginem o nosso nível de intoxicação atual… Preocupação extrema, stress, tristeza, sensação de impotência… Quem não está sentindo tudo isso com o nível obsceno das ações governamentais no Brasil? Acrescentem uma dose extra se vocês moram no Rio de Janeiro…

Não tenho soluções, só tentativa de sobrevivência. É a minha versão de receita tipo-bela-gil: “você poderia trocar o consumo de notícias,  vídeos e posts horríveis por…escrever e desenhar”.

Voltei a escrever um diário em papel, no mínimo três páginas A5 por dia. Achei um caderninho usado aqui em casa, pautado, daqueles bem baratinhos da Tilibra. Ando com o telefone grudado nele e na minha caneta de escrita preferida, uma bic azul cristal ultra fine. Toda vez que sinto um impulso de pegar no celular, olho os dois objetos e penso: abro a tela e vejo mais uma atrocidade, ou abro o caderno e escrevo sobre uma ideia, um sonho, qualquer coisa? O caderno, gente. Escrever está sendo como expirar as toxinas… Às vezes estou num dia tão difícil que sigo acrescentando parágrafos em vários momentos. Está sendo uma auto-terapia.

Voltei também a desenhar no metrô, observando as pessoas com a compaixão que o registro gráfico exige. Registrar o corpo de alguém no caderno é uma forma de expirar o que vejo, um pequeno traço por vez. Além das imagens no início do post, seguem algumas cabeças… Parecem cansadas, como eu. Sinto-me menos só.

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Para quem acha que não sabe desenhar (desde já, discordo!): vale recortar e colar, contornar, colorir mandalas. Qualquer coisa analógica serve: tricotar, bordar, cozinhar, pintar, brincar de massinha ou cerâmica. A ideia é fazer “algo para fora”, ao invés de colocar mais coisas para dentro.

Boa semana! ♥

2 Coisas impossivelmente-legais-bonitas-interessantes-e-dignas-de-nota dos próximos dias:

solvermelho• Estreia amanhã, 19/08/2019, a exposição “O nosso sol é vermelho”, do Antônio Kuschnir! (Meu filho, para quem não sabe!) Será na Galeria Macunaíma, na Escola de Belas Artes da UFRJ (1º andar do Prédio da Reitoria, na Cidade Universitária), onde ele estuda. Vai ser incrível!

Para quem não conhece o trabalho dele, vocês podem ter uma amostra no Instagram ou no Facebook, mas nada como ver ao vivo — é lindo demais:

https://www.facebook.com/antonio.castro.9231712

https://www.instagram.com/antoniokuschnir/

• Está aberta até o dia 30/08/2019 a campanha de financiamento coletivo para a reconstrução da Biblioteca Francisca Keller, do PPPGAS/Museu Nacional, uma das preciosidades perdidas no incêndio do prédio. Qualquer valor é importante: https://www.bfkmuseunacional.org/

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Sobre os desenhos: Pessoas desenhadas com canetinha de nanquim permanente Staedtler 0.5, num caderninho Hahnemühle A6. Acrescentei a aquarela em casa, com toda calma, deixando secar uma camada antes de pintar a próxima. Em quase todas as cores, acrescentei um fiapinho de Lunar Black, uma tinta nova na minha paleta, que uma amiga me trouxe dos EUA em janeiro. Estou amando, pois ela cria um granulado lindo por onde passa. Depois conto mais sobre alguns materiais novos porque o objetivo de hoje é fechar a semana com o post publicado! Abraço apertado, pessoal. Tirem o pó dos cadernos, das tintas e dos pincéis. Recomendo. ☼

Você acabou de ler “Expirar, escrever, desenhar“, escrito e ilustrado por Karina Kuschnir e publicado em karinakuschnir.wordpress.com. Se quiser receber automaticamente novos posts, vá para a página inicial do blog e insira seu e-mail na caixa lateral à direita. Se estiver no celular, a caixa de inscrição está no rodapé. Obrigada! ☺

Como citar: Kuschnir, Karina. 2019. “Expirar, escrever, desenhar”, Publicado em karinakuschnir.wordpress.com, url: https://wp.me/p42zgF-3Mf. Acesso em [dd/mm/aaaa].


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Férias de professora

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Quem reconhece uma sacolinha lotada assim, levanta a mão! Taí a imagem que sintetiza as minhas “férias” e a de quase todos os professores que conheço. Pilhas de trabalhos pra corrigir em casa, e a ilusão de que vamos terminar artigos, entregar pareceres, enviar relatórios, marcar orientações e, quem sabe, dar um gás na pesquisa e até uma arrumada nos programas de curso do semestre que vem. [Pausa para suspirar.] Alguém se identifica?

Confesso que pesquei essa listinha de um amigo querido, que me mandou um áudio comentando tudo que ele tinha pensado em fazer nesse recesso da universidade. Ri sozinha de nervoso ouvindo a mensagem no zap. Pessoa mais doida é professor… Não sabe fazer conta da imensidão do próprio trabalho, não sabe dizer não pros textos, pros alunos, pros amigos que pedem pareceres, nem pra si mesmo…

A maioria está assim por conta da precarização do trabalho, claro. O que mais tem é professor com 30 turmas em três empregos. Mas nem todos!

Muitos, como eu, se atolam porque lidam com assuntos e causas que os apaixonam. Só que a vida é como um grande barco de restaurante japonês: para comer as peças que mais gostamos, temos que entubar um monte de kani.

E olha que eu me acho super organizada. Tenho um sistema com todas as informações sobre o que preciso fazer, quando, onde e como. Sei quanto tempo levo nas tarefas e quais compromissos não posso ou não quero aceitar. Tenho clareza sobre as minhas prioridades — filhos, depois eu mesma (amor/saúde/arte incluídos), aulas e alunos, atividades da universidade em geral, a casa e o mundo.

Mas a vida e a antropologia estão aí pra nos lembrar que os laços obrigam. Se amamos nossos bichos, nos cabe cuidar. Se vamos publicar num livro da Routledge (sim, viva!), precisamos fazer o parecer que nos pedem. Se nos dedicamos às aulas, temos que corrigir os trabalhos à altura. A cada “sim”, temos uma dívida em potencial cozinhando. É preciso levar as obrigações a sério, já dizia a saudosa professora Lygia Sigaud.

A doença da Lola me impactou, alguns alunos atrasaram… e a sacolinha cheia de trabalhos foi ficando esquecida num canto. De repente, me pareceu tão bonita, recheada assim. Precisei desenhar e pintar antes de começar a corrigir. Justifiquei pra mim mesma que estava tudo bem, que o prazo ainda não chegou, que tem trabalhos vindo por e-mail ainda, porque foi pro brejo a minha rigidez de professora jovem e determinada. Como diria meu ex-terapeuta, “– É uma vitória quando você chega atrasada, Karina.” Taí o motivo do atraso, alunos queridos. Fiquei pintando os trabalhos de vocês e escrevendo post. Tudo em nome da arte, porque só a arte e os estudos nos salvam.

A pequena “natureza morta” que ilustra esse post une essas duas coisas: arte (a sacolinha preta foi presente do Simpósito anual dos Urban Sketchers em Manchester, de 2016, onde dei uma palestra); e estudos (os trabalhos de duas turmas maravilhosas de 2019-1, um semestre em que me dediquei a estudar e me renovar). Juntos, esses objetos me lembram do motivo de eu estar aqui pensando, escrevendo e desenhando em público, enfrentando a timidez e a preguiça. rs

Obrigada pela companhia, pessoal. Boa sorte e muita tranquilidade para todos que estão às vésperas das seleções de mestrado nesse final de julho. Meu coração está com vocês. ♥

PS: As notas de já foram lançadas, ufa! E pra quem gosta do tema #vidadeprofessora, tem esse post Sete coisas invisíveis na vida de uma professora e esse Quinze coisas para fazer na volta às aulas como professora, além de todos os marcados com a #mundoacademico.

6 Coisas impossivelmente-legais-bonitas-interessantes-ou-dignas-de-nota — Amo blogs e newsletters. Aí vão algumas que são ótimas companhias para ler nos momentos em que vocês precisarem de bons conteúdos pra se distrair, sem precisar recorrer às redes sociais:

* Duas Fridas: newsletter do blog Duas Fridas da Helê e da Monix. Sempre com temas ótimos, bom humor e com lembranças maravilhosas de posts passados que me fazem sorrir e esquecer o caos dos tempos atuais.

Ainda não acabei de pensar nisso: newsletter do blog Papiro Papirus, da Rita Caré, portuguesa, artista, bióloga, comunicadora, cheia de humor e maravilhas a nos deliciar com suas descobertas e reflexões.

Eva-Lotta: newsletter do blog da ilustradora alemã Eva-Lotta Lamm que ama o mundo das anotações desenhadas, aprender novas habilidades, pensar o cotidiano de forma lúdica e ensinar. Uma lindeza! (em inglês)

Austin Kleon: newsletter semanal do blog do autor que descobri por meio da Rita Caré (acima) — obrigada, Rita! Traz sempre uma listinha de dez sugestões de leituras, links, imagens interessantes para o autor. Voltada para quem ama livros, arte, educação: ou seja, nós! (em inglês)

Viktorija Illustration: newsletter mensal do blog da ilustradora Viktorija, baseada em Londres. Traz propostas de exercícios, inspirações, dicas e sugestões de materiais de arte. É bem despretenciosa e bonitinha. (em inglês)

• E como faço para saber dessas coisas? Utilizo um app de blogs chamado Feedly, onde “assino” os blogs que gosto, separados por assuntos. Leio no notebook, mas é também o meu app de celular preferido, seguido do Kindle, cheio de amostras de livros que não vou comprar!

E vocês, quais newsletters me indicariam?

Sobre o desenho: Fiz primeiro um rascunho rápido com lapiseira observando a sacola cheia com os trabalhos de uma turma, apoiada na pilha de trabalhos da outra (o caderninho vermelho foi feito por uma aluna super querida da aula de antropologia e desenho desse semestre, uma graça).  Depois desenhei por cima com caneta de nanquim permanente Unipin 0,2, em verso de um papel do bloco Canson Aquarelle XL (capa turquesa). Depois apaguei o lápis e pintei com vários materiais: a sacola preta e o caderno vermelho foram pintados inicialmente com uma guache acrílica (Acryla Gouache, da Holbein, que ganhei ano passado e só agora comecei a experimentar); as letras brancas na sacola foram feitas no dia seguinte (para a base secar bem primeiro!) com caneta Gelly Roll 0,8 branca da Sakura. O restante foi colorido com lápis de cor (os detalhes dos trabalhos) e aquarela (especialmente as sombras).

Você acabou de ler “Férias de professora“, escrito e ilustrado por Karina Kuschnir e publicado em karinakuschnir.wordpress.com. Se quiser receber automaticamente novos posts, vá para a página inicial do blog e insira seu e-mail na caixa lateral à direita. Se estiver no celular, a caixa de inscrição está no rodapé. Obrigada! ☺

Como citar: Kuschnir, Karina. 2019. “Férias de professora”, Publicado em karinakuschnir.wordpress.com, url: https://wp.me/p42zgF-3L4. Acesso em [dd/mm/aaaa].