Karina Kuschnir

desenhos, textos, coisas


4 Comentários

Realidade alternativa

20160513 lagoa tt

“Quando se perde alguém querido, sempre resta algo de irreal nessa ausência.” (Arthur Dapieve)

Assim como a epígrafe, o título do post veio da crônica “Chuva permanente” de Arthur Dapieve, publicada no Globo de 6/05/2016. Um texto sobre o luto, lindo e triste, triste e lindo. Que bom que artistas como ele existem para nos explicar o que não tem explicação.

Aproveitei a deixa para compartilhar com vocês um pouco da minha “realidade alterativa”. Tenho tentado viver todos os dias pelo menos por alguns minutos nas páginas dos cadernos de desenho. Como me disse uma sábia terapeuta, a arte (ou qualquer atividade que amamos) não nos cansa. Ao contrário, é onde recarregamos as baterias do espírito. (Não reparem, estou relendo muito Lévi-Strauss ultimamente!)

. A crônica do Arthur Dapieve pode ser lida aqui.

20160513 dora blusa 20160513 flores 20160513 peixe

20160513 aula taxi

Sobre os desenhos: Os desenhos foram feitos a partir de diferentes fontes: fotografias (da Lagoa, das pessoas pintadas de preto, da sequência Alice-celular-perdido-no-taxi; flor lilás); do Google Street View (atelier da Dora); e da observação direta (Tristes trópicos, blusa, estampas no metrô e peixinho-chaveiro). Tenho muita dificuldade de desenhar em ambientes abertos: sinto-me vulnerável e desconfortável. Amo desenhar por observação, mas definitivamente prefiro me sentir segura, em casa, no metrô ou em algum local mais protegido. Terá sido minha adolescência na violenta cidade do Rio de Janeiro dos anos 1980 tão traumática? Acho que em parte sim. O Rio cidade-comum (não a turística) é barulhento, atropelativo, sujo. Ou eu é que não sei onde ir… Os materiais foram os de sempre listados aqui.


8 Comentários

Tempo de crescer

brasil pequeno amostra

Essa é de quando a Alice tinha só quatro aninhos:
Alice — Mãe, você tá triste?
Eu — Mais ou menos, filha. Tô preocupada com a vovó.
Alice — Ah, mãe, não fica preocupada não! A vovó é adulta: ela se vira!

Tive que rir da sabedoria da moleca!

Será que a gente se desgasta tanto pensando nos problemas dos outros para não pensarmos nos nossos? Será que é mais fácil ficarmos preocupados com o que não podemos resolver, ao invés de partir para as soluções daquilo que está ao nosso alcance?

De tanto eu contar essa história, virou bordão aqui em casa dizer: “Ela é adulta, ela se vira!” (E serve também na versão masculina ou no plural, claro!) Até alguns amigos já adotaram a expressão; porque é perfeita para aquelas pessoas que se fazem de vítimas quando na verdade deveriam ser responsáveis pelas consequências dos seus atos. É perfeita também para nós mesmos, quando precisamos de um ânimo extra para sermos mais crescidinhos. Vale ainda para simplesmente desencanar de alguma preocupação boba que insiste em martelar na nossa mente.

A universidade está o tempo todo me lembrando que preciso ser a adulta da relação. Uma boa parte da sua população vive como se estivesse na “Terra do Nunca”, para usar a feliz expressão do Arthur Dapieve. É uma terra de “meninos perdidos” que não querem crescer, que ficam chorando pelos cantos porque a mamãe não chegou para contar histórias, não resolveu seus probleminhas pessoais, seus atrasos, seus esquecimentos, suas negligências, seus trabalhos incompletos, oh, e nem recuperou o pen-drive que foi comido pelo crocodilo Tic-Tac!

Na internet, é mais ou menos a mesma coisa. Reclamam do Facebook como se não existissem os botões block, unfollow, desconectar, turn off!  Concordo que é difícil não ver, não clicar, não comentar o fast-post da hora. Mas crescer tem disso: a consciência de que você é que aperta os botões possíveis.

E foi um botão escrito SIM que apertei quando chegou pelo Facebook a mensagem da linda adulta-menina-atriz-palhaça-poeta-e-mãe Genifer Gerhardt! Era uma vez um mundo encantado de personagens, histórias e miniaturas incríveis. Me apaixonei à distância pelo seu projeto de ter um carrinho chamado Tempo: um tempo para criar, encantar, narrar, viajar, trocar. Desenhei e pintei essas imagens todas, e lá foi ela percorrer as estradas com o seu “Brasil pequeno itinerante” ouvindo, tocando e cantando; fazendo rir e fazendo chorar. A Genifer é o tipo de adulta que mais admiro: tá no volante da sua vida, mas não esquece de aprender, brincar e compartilhar. Obrigada, querida, pelo convite para viajar contigo! Vocês podem acompanhar essa viagem no Tempo e conhecer mais da poesia da Genifer e do Timtim no blog brasilpequenoitinerante.blogspot.com, no Youtube (filmes lindos!!) e no Facebook.

tempomini

2 Coisas impossivelmente-animadoras-bonitas-emocionantes-e-dignas-de-nota da semana passada:

* O blog fez dois anos no dia 6/11/2015! Comemorei por dentro, quietinha, mas feliz. Persistir é um exercício de teimosia, mas sobretudo de muita humildade — de encontrar forças para recomeçar toda semana, mesmo quando falho. E a realidade foi bem essa: justo na semana do aniversário, não dei conta de publicar o post!

* O lado bom: a falta da semana passada tem tudo a ver com a existência do blog. Foi através dele que acabei me envolvendo na campanha #cancerinfantiltemcura — um trabalho de pessoas voluntárias incríveis, com quem tive a sorte de poder colaborar. Foi muita emoção participar da caminhada no domingo, vendo tanta gente feliz, celebrando a vida, e vestindo uma camiseta com meus desenhos! É boa demais a sensação de ser útil nesse mundo. (A camiseta continuará cumprindo seu papel de gerar renda para as crianças e jovens em tratamento, como vocês podem ver na lateral do blog.)

Sobre os desenhos: As imagens que abrem esse post foram feitas a partir de fotografias do universo da Genifer Gerhardt. O caminhãozinho Tempo foi feito a partir de fotos de várias caminhonetes, com a ajuda das ideias da própria Genifer para o projeto de reforma. Em ambos os casos, desenhei primeiro a lápis, depois passei canetinha nanquim 0.05, em papel Arches 300gr Satinée. No final, fiquei vários dias pintando com aquarela, até chegar nas cores que queria. As imagens aqui estão em baixa resolução porque os arquivos em boa qualidade são para uso do projeto.


8 Comentários

Pra se molhar

jan2015“A solução para escrever […] é escrever mesmo assim e, ao terminar, descobrir que o mundo não se acabou. […] A única maneira de começar a nadar é entrando na água.”

O trecho acima é do livro Writing for Social Scientists, de Howard S. Becker, que em breve será publicado em português pela editora Zahar. O livro todo é uma delícia, cheio de humor e daquele tipo de saber complexo, mas dito de modo simples, com desejo de ser compartilhado.

É inspirada no Howie (como ele prefere ser chamado), que resumo meus votos para o nosso novo ano:

que a gente entre na chuva pra se molhar. E que rabisque quem quer rabiscar, que corra quem quer correr, que dance quem quer dançar, que desenhe quem quer desenhar… Que todas as listas de inutilidades fiquem pra depois; e que possamos escutar nossos desejos mais íntimos, assim como respeitar os desejos daqueles que amamos; e também daqueles mais distantes com quem compartilhamos a vida coletiva.

Como disseram, de formas diferentes, meus dois colunistas preferidos (aqui e aqui), que tenhamos boa sorte e muitos momentos felizes em 2015! Vamos precisar.

Sobre o desenho: Para entrar bem na água, pranchinhas de surf no calendário de janeiro de 2015, feitas com uma caneta Pigma Micron 0.05 e depois coloridas com os tesouros da casa: 152 lápis de cor Caran D’Ache e Prismacolor. Fiz algumas sombras também com caneta Pitt brush Faber-Castell (cor 272, cinza bem claro). Primeiro fiz só as pranchas, mas depois achei estranho vê-las voando… então fiz os banquinhos de areia, o que não impediu que algumas continuassem meio desengonçadas, prestes a cair. Porém… taí: cumpri desde já uma meta para 2015: resistir bravamente ao perfeccionismo e ao Photoshop.


14 Comentários

Paraty em quadrinhos

wc01

Era uma vez um professor discreto, tímido, amável e talentoso: William Cordero. Antes de Paraty eu nunca tinha ouvido falar dele. Mas bastou uns poucos minutos ao seu lado, e diante de seus desenhos, para me apaixonar! (Paixão artística, pessoal.) Ele é daquelas pessoas que parecem fazer tudo sem esforço, num raro encontro de delicadeza de personalidade e obra. E ainda tem o charme de ser recém-casado, morar numa casa feita por ele próprio, na Costa Rica, e gostar de cachorros! No penúltimo dia do evento, passou quatro horas trabalhando num desenho, como se não existisse mais nada no mundo para fazer, e o resultado foi um arraso… Linhas leves como se tivessem sido feitas em poucos minutos… Quero ser assim quando eu crescer.

wc02

Foi no seu workshop que fiz esses desenhos-em-quadrinhos. A proposta era narrar o dia-a-dia misturando diferentes escalas. A sugestão dele foi que trabalhássemos com “caixas” feitas de linhas para enquadrar pessoas, coisas, falas e movimentos. Os trabalhos dos colegas ficaram incríveis!

wc03

No meu caso, levei um tempo para achar que esses desenhos tinham um destino melhor que o fundo da gaveta… Nesse dia, eu tinha acabado de dar minha segunda palestra — estava feliz, mas exausta! Só quando voltei para casa (oopss… que casa?) é que tive coragem de adicionar as cores. Tudo começou como um grande pretexto para tentar imitar o céu do Tommy Kane. 🙂 No fundo, o que me diverte mesmo é copiar o desenho dos outros! (Pelo menos, dou as fontes para vocês conferirem.)

100 anos! Hoje, 10/09/2014, minha avó querida faria 100 anos… Passei o dia pensando em desenhar esse bolinho para ela (abaixo), que acabou saindo mais com cara de chapéu do que de bolo! Mas ela nem ia ligar. Acharia lindo!! Ela adorava amarelo, adorava rosas e todas as flores. Adorava viver bem e com festa. Gosto de lembrar de como às vezes eu tinha medo de contar alguma coisa pra ela, tipo uma decisão arriscada ou difícil na minha vida. Receava que ela fosse me dizer (por ser mais velha): “fique onde está, permaneça, conserve.” Mas ela quase sempre dizia: “Que bom, isso mesmo, vá em frente! Viver empacada não vale a pena!” E é desse espírito de coragem que gosto de lembrar. “Que você nos inspire e viva pra sempre na nossa memória, vó.”

 

Top

Sobre os desenhos: Utilizei os mesmos materiais de sempre: canetinhas de nanquim descartável Unipin e Pigma Micron 1.0, 0.1 e 0.05. A cor foi feita com aquarela Winsor & Newton e um pincel Pentel waterbrush. No primeiro desenho, o céu dos quadradinhos ficou pesado (com waterbrush); daí troquei para um pincel de pelo (no quadro maior do lado direito) e achei que funcionou melhor. Meu sonho era fazer aquarelas leves mas com cores intensas. Ô coisa difícil!  Daqui a alguns anos a gente conversa…

Leitura da semana: Não levei livro pra Paraty, mas li uma crônica do Arthur Dapieve que lavou a alma: “Saudades do Rio“. É daqueles textos pessoais e ao mesmo tempo universais para todos nós, cariocas, do tempo em que domingo era dia de passear de carro com a família…

 

 


13 Comentários

Zero problema

UskBcn
Alice adora quando encontra mulher dirigindo táxi. Ontem avistou uma no trânsito e me perguntou:

— Mãe, você gostaria de ser taxista?

Eu — Não, filha, detesto trânsito! E ainda o dia inteiro…

Alice — Ah, mas imagina só: cada passageiro tem uma história para contar! Quando você se dá conta, já acabou o caminho!

Eu — E você, filha, o que gostaria de fazer quando for adulta?

Alice — Hum, será que pode ser “treinadora de futebol da seleção brasileira”? Será que pode ser mulher? Eu acho que pode!

Eu — Deveria poder sim.

Alice — … Ou então: professora de educação física, artista, desenhista, jogadora de futebol e… diretora da Globo!

Eu — Legal, filha.

[e mais tarde…]

Alice — Mãe, estou tão feliz! Atualmente eu tenho “zero problema”.

Eu — Como assim?

Alice — Eu resolvi o problema do cabelo na escola, o da falta da minha bola e o da falta da minha bicicleta, que você buscou hoje.

Eu — Que bom, filha! E como é que a gente faz para ter “zero problema”?

Alice — Ué? É só resolver todos. Resolve um, depois outro, depois outro e assim vai.

Eu — Mas os meus problemas nunca acabam…

Alice — É que nem jogo de futebol, mãe. Não pode sair todo mundo da defesa de uma vez; nem atacar com todos os jogadores de uma vez. Tem que defender quando precisar defender, e atacar quando precisar atacar. E não pode perder a bola.

Eu — Eu sempre perco a bola…

Alice — Não deixe nada te causar problema, mãe.

Eu — É, filha, você tem razão. Quer dizer que você não tem problema…?

Alice — Pensando bem, eu tenho um problema sim: não tenho com quem brigar!

Eu — Como é que é?

Alice — É que o Antônio está viajando! Ah, e tenho outro problema também: a Alemanha vai ganhar a Copa de 2018…

Sobre o blog: Vamos combinar que a semana passada não existiu? Eu finjo que não deixei de escrever o post-de-quarta e de brinde a gente ainda anula os jogos infames da seleção brasileira! Como os jogadores, não sei explicar o que aconteceu: apagão, excesso de Copa, volta às aulas das crianças, mudança número três, obras, gatos, dor nas costas, tudo-isso-junto. Só que não; não adianta dar desculpa. Desde que o blog existe, tive motivos bem piores do que esses para não escrever ou não desenhar ou os dois. Então, bora pra frente. Faz de conta que a semana passada não existiu.

(Mas vamos abrir uma exceção para não apagar a crônica deliciosa do Arthur Dapieve que saiu no Globo na sexta e nenhum dos textos sempre lúcidos do Mário Magalhães no Uol. A Copa ficou melhor com eles.)

Sobre o desenho: Feito no último dia do Simpósio Urban Sketchers em Barcelona, em julho de 2013. Que saudades dessa semana incrível! Queria voltar a desenhar assim… A mistura de cores e materiais foi influência dos workshops que fiz com duas artistas maravilhosas: Inma Serrano e Marina Grechanik. Usei de tudo um pouco: lápis de cor, caneta de pena e nanquim, aquarela, caneta Pentel com ecoline dentro, canetinha Unipin 0.1 e até lápis de cera (acho). Por falar nisso, em agosto acontecerá o 5o. Encontro dos Urban Sketchers no Brasil, em Paraty — ainda dá para participar!

E como alguns têm escrito para saber como se desenvolver no desenho, recomendo a maravilhosa Sketchbook Skool, uma escola online criada pelos ultra-simpáticos e talentosos Danny Gregory e Koosje Koene. Amei o primeiro semestre e estou sonhando com o segundo…