Karina Kuschnir

desenhos, textos, coisas


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Quinze coisas para fazer na volta às aulas como professora

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Há 48 semestres que me preparo para entrar em sala de aula como professora, já descontando os dois de licença-maternidade e os dois do pós-doc. É sempre difícil. Minha síndrome de véspera não falha: ansiedade, insônia, medo… mas um pouquinho de curiosidade e antecipação positiva também!

Como prometi para vocês (e a mim mesma) que esse blog deveria ser útil, aí vai minha checklist* de início de semestre letivo para professores:

1) Criar as pastas do curso no computador e na nuvem — Minha estrutura em 2017 estava assim:professora15dicas_01

As pastas iniciais têm o nome do curso primeiro pois serão compartilhadas. O link que dá acesso às três primeiras é enviado aos alunos para que enviem trabalhos (pasta Grupos) ou baixem os PDFs (pasta Textos). Num programa sobre imagens acho mais razoável pedir trabalhos apenas em formato eletrônico para não gerar despesas de impressão. Na pasta Aulas, adiciono meus fichamentos ou .ppts de aula que, em alguns casos, compartilho com a monitora do curso. A pasta Programa só tem as versões do programa mesmo (sempre acabo tendo duas ou três). E a pasta Turma e Notas fica com a planilha de presença e avaliações. Já tive semestres em que ficou tudo embolado numa pasta só, mas essa estrutura facilita achar as coisas durante a correria do semestre.

2) Criar um marcador no Gmail para o curso — Outra tarefa fácil, mas que facilita muito a vida durante as aulas. O meu setup de 2018-2 está assim:

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Coloco essa @número para ordenar as pastas iniciais do meu jeito (e não em ordem alfabética). Para os cursos, coloco um 0 (zero) na frente para que sejam as primeiras. Seleciono uma cor diferente para identificar logo as mensagens. Vou jogando ali os programas enviados, os e-mails dos monitores, e depois toda a correspondência oficial (enviada pelo sistema da universidade) e as minhas com os os alunos. Dá um trabalhinho no início, mas facilita demais a vida conforme vai chegando a época das avaliações! (E os dramas…)

3) Programa de curso — Claro que esse arquivo precisa estar pronto com mais antecedência, mas sempre dá para rever, retirar ou adicionar textos e informações na véspera de começar as aulas (e até durante). Vejam aqui um exemplo do programa e Antropologia e Desenho de 2016.

(Quando dei meu primeiro curso, recebi um programa para seguir. Eram tempos pré-internet e eu era quase da idade dos meus alunos. Hoje em dia, montar uma bibliografia é uma espiral de ansiedade. Poder acessar todos os programas de curso de todas as universidades do mundo dá uma depressão… São tantas escolhas e, ao mesmo tempo, bate aquela real de “só sei que nada sei”!)

4) Calendário de aulas — Sempre crio uma planilha com todas as datas de aulas, aproveitando para ver se haverá feriados ou eventuais ausências devido a compromissos acadêmicos. Assim, consigo planejar o número de aulas e as compensações necessárias para chegar na carga horária correta. Essa mesma planilha servirá para os itens 5, 6, 7 e 8 (ver exemplo adiante).

5) Planejamento aula-a-aula —  Pra mim, um curso não é uma lista de textos. Gosto de planejar exercícios, atividades lúdicas, tempo de orientação, devolução das correções, aulas com convidados, filmes etc. Mas tem uma hora que preciso fechar essas datas para providenciar o que for necessário e deixar monitores e alunos avisados. Claro que sempre fica alguma coisa para resolver mais à frente, é normal!

6) Diário de aulas dadas — Meu semestre ideal é quando tenho tranquilidade e foco para escrever sobre as aulas dadas. Como foi a reação dos alunos? O texto novo rendeu? O exercício foi interessante? Tive alguma ideia para uma futura aula? Às vezes consigo fazer um arquivo separado, mas na maioria dos semestres faço algumas anotações na própria planilha do calendário/planejamento. No exemplo abaixo, a estrutura da planilha que utilizei em 2017-1, anotações das aulas 3 e 4:

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A coluna “ok” é para marcar que a aula foi dada. Tem coisa melhor do que ticar uma tarefa feita? Espero que dê para ler ao clicar na imagem!

7) Controle de presença — Há alguns anos passei a fazer minhas próprias listas de presença ao invés de utilizar as da universidade. Baixo os PDFs oficiais e copio/colo os nomes numa aba da planilha da turma, acrescentando as colunas com as datas, feriados etc. Além da praticidade, imprimo com espaçamento e fonte mais amigáveis para meu astigmatismo e miopia. Um exemplo:

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8) Controle de Notas — Na mesma planilha (acima), incluo colunas para juntar os alunos em grupos (quando é o caso), anotar entrega de trabalhos (no exemplo abaixo, T1 e T2), os graus atribuídos (N1 e N2) e as médias finais. Aí vai uma amostra com as cores separando os grupos para vocês verem melhor:


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9) PDFs e Textos — Uma das coisas mais chatinhas de ser professora é ter que providenciar o material que os alunos precisarão consultar. Como estou sempre modificando minhas bibliografias, costumo fazer em duas etapas, deixando as primeiras semanas prontas e acrescentando as demais quando termino de defini-las. Gosto de ir sentindo a turma e de retirar ou acrescentar textos conforme o rumo das discussões.

10) Planejar semana — Como expliquei nesse post, ser professora exige um imenso trabalho nos bastidores. Preciso separar pelo menos um dia para me dedicar às aulas da semana, seja para ler, reler, preparar, corrigir exercícios, providenciar material, responder e-mails dos alunos, conversar com monitores etc. Dependendo do momento do semestre e do tipo de curso, esse volume se multiplica por dois, três ou mais. Mas tento ter pelo menos um dia em que não marco nenhuma outra atividade. Normalmente separo as segundas-feiras pra isso. Considero uma felicidade acordar numa segunda (!) tendo um dia calmo pela frente, relendo autores e escrevendo sobre temas de que gosto.

Sei que é um enorme privilégio estar numa universidade que me permite ter tempo de preparação e número de turmas compatível com pesquisa, ensino e extensão. Já estive em situação de ministrar 26 horas semanais de aula (nível universitário). Quando se tem dois ou três empregos simultâneos, o único tempo de estudo/correção é sábado e domingo. É ótimo ter trabalho, claro, mas saúde deveria vir primeiro…

11) Roupas — A atividade de professora nos expõe muito… Mesmo eu, que não gosto de consumir, me sinto mal de não ter uma roupa decente para dar aula. As blusas de vocês também estão furando à toa? As minhas sim! Antes do semestre começar, preciso ter pelo menos uma calça e algumas camisas que não estejam apertadas, com o botão faltando, com alguma parte rasgada ou manchada. Não é bobagem: quando a gente sai de casa se sentindo bem dentro das próprias roupas, isso se reflete numa segurança maior em sala de aula. (Desculpem se esse ponto for óbvio pra vocês, mas eu precisava escrever! Esse item 11 é terapia pra mim mesma, pois fui me tornando muito crítica ao consumismo e às vezes acabo exagerando.)

12) Saúde — Essa foi minha primeira lição como professora, pois fiquei totalmente rouca quando comecei. Aprendi a cuidar da minha voz, fazendo pausas e bebendo água durante a aula. Também tenho na bolsa um kit-saúde preventivo. Como ainda temos quadros de giz no IFCS, esse kit de auto-cuidado inclui: pastilhas de hortelã sem açúcar, creme de mão, álcool gel, lenço de papel, lenço umedecido, remedinhos diversos (tipo Tylenol e de alergia), além do básico escova/pasta de dente/batonzinho. E vocês, o que levam?

13) Papelaria — Chegamos na parte boa! Quem não gosta de dar uma passadinha na papelaria? Começo de semestre é uma ótima desculpa para renovar o que estiver faltando: caneta, lapiseira, grafite, borracha, post-its, iluminadores, marcadores de quadro branco, apagador, pasta com elástico (costumo usar uma cor para cada curso, tentando reaproveitar dos semestres anteriores). Esse ano renovei meu estojinho (um bem básico de plástico e zíper, da Yes), e também tenho sempre um pen-drive e carregador de celular extra no trabalho.

14) Mochila — Bolsa, pasta, mochila… professor está sempre carregando papéis, trabalhos, livros… No mundo ideal, eu andaria com uma bolsa pequena e uma sacola de pano separada para o material de aula. Mas com o histórico dos ombros doloridos e algumas dores nas costas, estou indo trabalhar de mochila. Herdei uma bem simpática (e leve) da minha sobrinha que foi morar fora. ♥

15) Livros — Bem, esse item não se compra no início do semestre… Na verdade, uma ida à livraria (ou sebo ou biblioteca!) é um prêmio pessoal por essa preparação toda! ☺ Observação sobre o anti-consumismo do item 11: comprar livros não é gasto, é investimento! Já frequento a biblioteca do meu instituto toda semana, mas essa listinha me lembrou que preciso explorar mais por lá.

Espero que esses lembretes sejam úteis!

E vocês? Fazem alguma coisa ou têm dicas que esqueci de anotar? Me mandem ou escrevam nos comentários: vou adorar saber da rotina (e das maluquices) de cada um. Espero que não tenham me achado a doida-da-organização!

* Checklist é uma listinha de lembretes para tarefas recorrentes. O objetivo não é ser super original, mas sim juntar um monte de pequenas tarefas numa lista só. Aprendi lendo esse artigo aqui (em inglês), mas no blog da Thais Godinho tem explicação simplificada (em português). Nunca mais parei de fazer as minhas. Tenho várias para diferentes situações. Me avisem se acharem interessante o tema que eu trago alguma outra pra cá.

Sobre o desenho: Esses posts sobre vida acadêmica acabam me exigindo muito na hora de ilustrar, socorro! Fiz uns esboços a lápis primeiro, depois cobri com uma canetinha azul gel Muji 0.38. Deixei secar e passei uma aguada bem suave de aquarela azul (French Ultramarine) com um pincel Winsor & Newton University Series n.1. Como papel, utilizei o verso (que é menos rugoso) do bloco espiral da Canson XL Aquarelle (capa azul turqueza).

Você acabou de ler “Quinze coisas para fazer na volta às aulas como professora“, escrito e ilustrado por Karina Kuschnir e publicado em karinakuschnir.wordpress.com. Se quiser receber automaticamente novos posts, vá para a página inicial do blog e insira seu e-mail na caixa lateral à direita. Se estiver no celular, a caixa de inscrição está no rodapé. Obrigada! ☺

Como citar: Kuschnir, Karina. 2018. “Quinze coisas para fazer na volta às aulas como professora”, Publicado em karinakuschnir.wordpress.com, url: https://wp.me/p42zgF-3GO. Acesso em [dd/mm/aaaa].


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Nos vemos semana que vem!

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A irmã de uma amiga é terapeuta, daquele tipo que interrompe a sessão no meio de uma conversa. Fiquei super curiosa para saber como é. Minha amiga, muito despachada, começou logo a simular uma análise comigo e com o meu namorado. “Como vão vocês?”, ela perguntou. E nós, blá blá blá… até que trocamos, sem querer, o nome de uma pessoa bem próxima sobre a qual estávamos falando. E ela, muito séria: “Então… [pausa], vamos falar sobre isso? [pausa] Nos vemos na semana que vem.”

E assim seguimos, tendo várias mini conversas terapêuticas, encerradas toda vez que esbarrávamos num deslize sobre um assunto importante. Ela nos interrompia rapidamente com um olhar penetrante e um “Nos vemos na semana que vem!”

Só de lembrar, morro de rir. Imagina você começar a falar sobre seus pais com sua irmã, que se esquece que não está no consultório e te corta com um “nos vemos na semana que vem.”

Claro que isso não é crítica a nenhum tipo de terapia. Foi só uma brincadeira (que explica as frases do desenho acima). Na mesa, vocês também podem ver o livro “Flupp Pensa – Narrativas 2016”, presentinho dessa amiga querida, que estou super curiosa para ler.

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Os desenhos acima fiz enquanto escutava o podcast da ilustradora @frannerd, para quem contribuo, via Patreon, com 5 dólares por mês. É uma diversão ouvir as aventuras dessa chilena, de 30 anos, radicada com o marido na cidade de Hastings, Inglaterra. Acompanho como se fosse uma série sobre desenho.

Tenho muita dificuldade de achar graça nas séries que vejo recomendadas por aí. Primeiro, porque não suporto a glamourização da violência (o que já exclui 50% das séries). Segundo porque, depois de anos dando aula de teoria da comunicação, adivinho a maioria dos roteiros nas primeiras cenas. Então, não sobra muita coisa.

Na imagem, incluí também os meus gatos, Charlie e Lola, assim como o livro gigante que consegui terminar no final de novembro. Não posso escrever sobre ele aqui no blog ainda, infelizmente!

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Essas plantinhas acima desenhei em Itaipava, para onde tive a felicidade de ir no final de semana passado, com Alice, Antônio, minha mãe e mais quatro amigas da Alice. Foi uma comemoração antecipada do aniversário de 12 anos dela, minha filhotinha crescida. Não  conto mais tantas histórias da Alice aqui no blog para proteger a intimidade dela… Mas nosso dia-a-dia tem sido muito feliz: nesse último ano, ela cresceu por dentro e por fora. Está tocando violão lindamente, cozinhando muito bem, escrevendo redações engraçadas e criativas, e continua querendo brincar de cosquinha e pique-esconde. Viva os 12!

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Para encerrar, o desenho de um objeto que eu já tinha quase esquecido que existia aqui em casa: uma caixinha de linhas coloridas. Ressurgiu de dentro da caixa de costura outro dia a pedido de uma amiga do Antônio. É muito bonito ver as novas gerações recuperando práticas manuais. ♥

Bom final de semana, pessoal!

PS para quem está escrevendo tese — Foi bem difícil escrever esse post — e olha que não era sobre nenhum assunto importante! Achei que não conseguiria, estava morrendo de preguiça só de pensar. Por isso, queria dizer: comecem, escrevam mesmo que não estejam com vontade de escrever. Vocês não estão sozinhos. Força aí. Prometo que na semana que vem eu volto com a segunda parte do post Você vai deixar de me amar se eu não acabar a tese?.

Sobre os desenhos: Desenhos feitos num caderninho Laloran com uma capa azul escura, com borda de tecido em padronagem que lembra azulejos portugueses azuis e amarelos. Assim, resolvi utilizar apenas essas cores nos desenhos internos. As canetas utilizadas estão na imagem que abre esse post.

 


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Caderninho azul

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Página inicial com as canetas que desse caderno: 1 Pigma Micron 0,2 azul, 1 Faber-Castell Pitt artist pen brush amarela (cor 184), 1 Muji 0,38 gel azul, 2 Tombow dual brush (1 azul clara, n.451 e 1 azul média n.526). 

Tenho visto tantas pessoas cansadas nas minhas redes sociais que hoje resolvi fazer um post só de imagens. Há tempos não mostro as páginas dos meus caderninhos do dia-a-dia. Como já mencionei, tenho feito desenhos com cores restritas como uma forma de treino (e também para carregar poucas canetas na bolsa!).

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Desenhando frases do Podcast da Fran Meneses (só da @frannerd) e uma versão psicodélica da Lola, minha gatinha tricolor

Uma das coisas legais do podcast da @frannerd é a sensação de ouvir a real do dia-a-dia de uma ilustradora, sem aquele estilo “olha como sou feliz” das redes sociais. As frases da página são dela: “estou tão cansada e culpada de estar cansada” (acho que todas as pessoas que conheço estão assim); e “estou morrendo de medo mas tentando seguir em frente” (idem).

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Raridade: fomos a um restaurante a pedido da Alice. Arrependimento total: comida ruim, preço caro.  Na volta, fiz esse desenho muito tosco do gatinho Charlie.

Uma das coisas estranhas de desenhar com azul é constatar que tudo fica com um clima melancólico, mesmo uma cena feliz.

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Charlie e Juva lendo num dia de chuva

Outro momento raro: depois de uma consulta médica, resolvi aproveitar o pátio do prédio para desenhar o camelô do outro lado da rua.

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Camelô baixinho com carrinho fofo e mesa com toalha de flores. ♥ 

Concluindo: ainda não cheguei nem na metade e já estou querendo desistir de tanto azul! Preferi mil vezes trabalhar com o rosa e o vermelho. Não deixa de ser um aprendizado sobre mim mesma… Vamos ver se sou persistente (ou teimosa) o suficiente.

Bom final de semana, pessoal! Que seja de sol e descanso! ☼

Sobre o desenho: Além das canetas indicadas no início, os desenhos foram feitos num caderninho Laloran. Foi justamente a capa azul escura, com borda de tecido em padronagem que lembra azulejos portugueses, que me fez instituir o azul como tema. É o caderno do meio na imagem abaixo.

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Três caderninhos Laloran que trouxe de Portugal em janeiro/2017

Você acabou de ler “Caderninho azul“, escrito e ilustrado por Karina Kuschnir e publicado em karinakuschnir.wordpress.com. Se quiser receber automaticamente novos posts, vá para a página inicial do blog e insira seu e-mail na caixa lateral à direita. Se estiver no celular, a caixa de inscrição está no rodapé. Obrigada! 🙂

Como citar: Kuschnir, Karina. 2017. “Caderninho azul”, Publicado em karinakuschnir.wordpress.com, url: https://wp.me/p42zgF-3yU. Acesso em [dd/mm/aaaa].


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Lagartas azuis

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Hoje peguei um pacote perdido de biscoito creme-craquer-com-gergelim no armário. Na dúvida, dei uma olhada no prazo de validade, pra meados de 2014 (ainda estou conseguindo ler esse tipo de informação, ainda que por cima, ou por baixo, dos óculos, oh idade). Abri o pacote e, bem naquele instantinho antes da primeira mordida, lá estavam elas: lagartinhas se movimentando pra todo lado. Não fiquem com nojo, ainda.

Nojo foi quando comi várias, que fizeram o favor de vir acompanhando umas ameixas caríssimas que comprei no Zona Sul quando estava grávida da Alice. Eu toda me achando, comprando ameixa importada. E toca a ligar para médico, clínico geral, gastro, obstetra, até pediatra… — “doutor, tô grávida, comi umas lagartas nojentas!! e agora?” E todos muito blasés, uns mais íntimos até rindo e parecendo o meu padrasto nos seus dias de humor negro: “Que nada, é proteína!! Vai até fazer bem pro bebê.”

Mas fiquei tão enfurecida que fui pra delegacia dar queixa… O pobre do gerente já tava até demitido quando chegou o dia da audiência de pequenas causas e a coisa não deu nada em nada. Ou melhor, deu que as lagartas do Zona Sul continuam felizes comendo suas ameixas e biscoitos, e a gente que deixe de frescura.
E por que escrevo sobre isso?? É que as lagartas no biscoito me lembraram dos meus dias de fúria e de tristeza… e de como essa coisa de desenhar e escrever e outros talentos que a pessoa tenha são nossas tábuas de salvação…
É por isso gosto tanto dos textos do Arthur, dos dias de chuva, dos contos que meu amigo Mauro deveria estar escrevendo, e do Mário e do Ruy Castro e de todos os doidos que eles biografam, enfim, dessa gente que cheira, chora, bebe, se mata e no meio disso tudo cria coisas. (Mas tão aí a Lygia Bojunga e a Sylvia Orthof provando que podem ser maneiras de um jeito um pouco menos auto-destrutivo.)
Então já vou desescrevendo o post da semana passada. Nada de blog bem-humorado p* nenhuma. Senso de humor, ok. Mas bom humor o tempo todo não dá. Hoje estou mais para Familia Addams… A cena da Wandinha acabando com o acampamento wasp vale mil filmes da Disney.
Vejam que esse blog não tem coerência alguma. Começou todo amarelo e animado. Depois ficou vermelho. E agora chegou na cor num azul bem fundo… que é de piscina e felicidade, mas também é dos olhos e da alma cheia d’água… que é como a gente fica quando pensa nos desencontros, nos malditos que morreram cedo demais, nos malucos que resolveram pirar em vez de deprimir um pouco menos, na pobreza no Maranhão e na Etiópia (que ainda por cima agora eu conheço pelos desenhos do Manoel João Ramos, outro que sofreu perdas demais para uma vida só, e fez alguns dos livros mais lindos da antropologia atual.)
Afinal, esse blog é sobre o que? Sobre mim é que não é. Que não sou novaiorquina nem nada para querer um blog “about me, by me, myself” (título, aliás, de um livro maravilhoso do Dr. Seuss que não vou linkar aqui porque pretendo escrever sobre ele em breve).

Fico devendo a resposta num próximo post. Vou tentar trazer alguma coisa útil. Utilidade é fundamental.

Pensando bem, aqui vai a primeira coisa útil que publico: “não comam nada comprado no supermercado Zona Sul antes de dar uma boa olhada para ver se as lagartinhas chegaram primeiro!”

E para não dizer que sou caótica: os posts principais saem em algum horário às quartas-feiras. (Porque a quarta é o melhor dia da semana: nem tão segunda para dar cansaço, nem tão sexta para nos trazer aquela obrigação de se divertir.)
(E se alguém tiver ideia de dia melhor, me avise. E se alguém tiver saudade de ler alguma bobagem, fique de olho no histórico, pois vou postar coisas antigas em datas antigas e ir acrescentando algumas páginas fixas, como a “Do blog e de mim“.)
Sobre o desenho azul:  No meio da piscina, minha filha e seus dois amiguinhos em momento de felicidade extrema. Fiz o desenho no sábado (16/11/2013) em um caderninho simples, com uma caneta preta Pilot bem comum. Depois pintei em casa com aquarela cor Ultramarin e, quando a tinta secou, desenhei por cima com caneta Posca branca. Para a versão digital, tive que acrescentar um pouco de saturação com o Picasa, pois o scanner sempre estraga os azuis. (Fiquei mais conformada com isso depois que li em vários blogs de artistas-de-verdade que eles enfrentam o mesmo problema. E tive aquela sensação que, afinal, todos precisamos ter quando estamos nos sentido azuis por dentro: “Ufa, não sou só eu.”)