Karina Kuschnir

desenhos, textos, coisas


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Não Passei (2) – Janeiro foi fork!

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. Perdi minha bolsa de produtividade do CNPq.

. Minha proposta de workshop para o evento Urban Sketchers em co-autoria com o Eduardo Salavisa não foi aceita.

. A obra que fiz no meu apartamento há apenas 3 anos está cheia de infiltrações.

. Meu ombro esquerdo não reage à fisioterapia; minha retina direita continua nublada, meus dentes dão problema desde quando eu tinha 8 anos.

Era só isso mesmo. Queria deixar registrado aqui, como uma atualização da primeira versão do Não Passei (1). A gente vê tanta comemoração nas redes sociais. E quem tá mal fica nos bastidores chorando; até a Fran Meneses fica mal, imagina a gente!

Estudar para concurso sem a menor certeza de que vai passar é fork, redigir proposta que não é aceita é fork, reprovar na prova é fork, se ferrar na escola, na entrevista de emprego… tudo holy shirt, como diz a Eleanor da série The Good Place. Já viram?

Por outro lado, tem o outro lado: estou feliz, bem feliz, para ser sincera. Meus amores estão com saúde, temos uma vida cansativa, mas também alegre, musical, artística, engraçada. Nossa onda é pegar sol, fazer mímica, cosquinha, macarrão, mate e pipoca. A gente se ajuda e se alegra tão fácil quanto tá junto.

Alice fez 12, Antônio fez 17, cada dia mais lindos. Os primos estão próximos, tem som de teclado o dia todo na casa, a temporada do TACA tá chegando, as mulheres e os amados lgbtxyw estão na rua, os estudantes norte-americanos estão reagindo; e para não dizer que sou imune à vaidade: os pareceres ad hoc do CNPq foram ótimos (o comitê é que me deu zero em tudo) e o trabalho que tenho desenvolvido na graduação foi citado e comentado num livro incrível sobre antropologia e desenho. E ainda tenho a companhia e o aconchego de vocês aqui: chegamos a mais de 450 mil visitas!

Eu tenho esperança, sempre.

Força para todos que estão precisando. Não vamos ficar nos comparando, nos julgando. A gente se ferra e acerta, tudo é aprendizado. Os cientistas do futuro serão vegetarianos, viverão em comunidades e terão amigos. Vão por mim.

Karina pb

Sobre os desenhos: Imagens que fiz para o projeto de workshop idealizado pelo meu ídolo do desenho, Eduardo Salavisa. As primeiras foram feitas por observação na PUC-Rio, direto com canetinha de nanquim permanente (Pigma Micro n.2, eu acho) e depois coloridas com aquarela em casa. Os desenhos embaixo foram feitos nos jardins do Museu da República, no Catete, no Rio.

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Como citar: Kuschnir, Karina. 2018. “Não Passei (2) – Janeiro foi fork!”, Publicado em karinakuschnir.wordpress.com, url: https://wp.me/p42zgF-3Dy. Acesso em [dd/mm/aaaa].


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Vendo a vida voar!

bikeakc

Vocês não sabem, mas esse blog tem um conselho editorial. Ou melhor, tem um conselheiro/copidesque/revisor/editor-adjunto que desde o primeiro dia vem trabalhando nos bastidores para me ajudar a manter um padrão de qualidade gráfica e textual além, claro, de bom humor, que é o propósito de tudo que fazemos. Hoje, porém, ele está de folga. Pela primeira vez vou ter que me aventurar a publicar um post aqui sem a sua ajuda.

Ele nasceu de madrugada, completamente cor-de-rosa e careca. Foi logo fazendo xixi em cima de todo mundo. Estava morrendo de fome mas aprendeu rápido que seu destino era mamar e ter uma página na internet. Aos dois meses, sua homepage já tinha dezenas de leitores. Quando ele soube do sucesso, deu gritinhos de felicidade agarrado a um tigre laranja. Desde essa época, seu poder de concentração nos admirava mais do que os olhos azuis. Adorava dormir e chorar em doses quase iguais. Aos três meses, dominou o chocalho e passou a gostar de tomar banho — uma prova de como as pessoas mudam! Tornou-se um ás nas gargalhadas aos quatro meses, começando com segurança sua carreira de conquistador. Para ajudar, nasceram nesse época uns quatro ou cinco fios do famoso cabelo. Aos sete meses, apaixonou-se por um telefone colorido, numa espécie de premonição sobre qual seria seu objeto do desejo treze anos depois. Os exercícios lhe causavam uma certa preguiça, assim como qualquer tentativa de comer coisas diferentes — taí uma personalidade estável! Aos oito meses começou nos estudos da linguagem e não parou mais: hoje sente necessidades extremas de comprar coleções de livros em inglês. Dominou as palminhas aos nove meses e dispensou para sempre a chupeta, num ataque de raiva e sono. Aos onze meses e vinte e dois dias, anotações em seu diário diziam: “anda bem sozinho, quase corre”, “dá tchau”, “aponta com o dedinho”, pede “água, colo, mama, papa”, “encaixa potes e blocos”, “brinca de pique com a mamãe”, “gosta de bonecos de bichos”.

diario11meses

Nos anos seguintes superou alguns traumas: teve o dedo mordido por uma tartaruga no Jardim Botânico, assustou-se com pesadelos com João Ratão (aquele que caiu-na-panela-do-feijão no dia em que deveria se casar com a dona Baratinha), aprendeu a gostar de pipoca, quebrou o braço e entendeu a diferença entre ter pais antropófagos ou antropólogos. Apaixonou-se perdidamente por quebra-cabeças, bichos de plástico, bichos de verdade, gatos, pinturas, desenhos e todas-as-viagens-do-mundo. Aos cinco meses, já demonstrava um amor incomensurável pelos livros. Foi batizado com Dr. Seuss, Lygia Bojunga, Sylvia Orthof, Pippi Meialonga, Pequeno Nicolau, Ruth Rocha… Mas se graduou sozinho com os sete volumes de Harry Potter, enciclopédias Larousse, mitologia grega, Desventuras em Série, quadrinhos, mangás, Senhor dos Anéis e um mundo de volumes. Os novos amores são a música, a fotografia e ver a vida passar voando numa bicicleta!

Nenhum dos seus talentos, porém, supera a sensibilidade para perceber o sentimento do mundo, para olhar nos nossos olhos e perguntar — “Tá tudo bem com você?”

E hoje te respondo: — “Tá tudo bem sim, filho; tá tudo ótimo! Sou a mãe mais feliz do mundo no dia do seu aniversário de treze anos!! Você me surpreende, me encanta e me ensina a ser uma pessoa melhor todos os dias.”

Sobre os desenhos:  Essa é a bicicleta nova-usada que compramos há quinze dias como presente de aniversário adiantado. Desenhei meio correndo, no intervalo entre as voltas que ele dava sem parar. Resolvi deixar todas as tortices e manchas assim mesmo, sem tentar fazer “outro melhor”. Acho que é um bom lembrete para nós dois de que a vida é feita de coisas que funcionam e outras que nem tanto, mas mesmo assim temos que seguir em frente e dar risada. Para desenhar, usei aquarela, canetinhas e lápis de cor. Uma parte fiz ao vivo, mas terminei os detalhes olhando uma foto. O outro desenho é uma página de um dos caderninhos-diários que venho fazendo para o Antônio desde que ele nasceu.