Karina Kuschnir

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Precisamos escutar δενπρέπειναυπάρχει

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Desenho de Saul Steinberg, 1942

“Sou capitão do Exército, minha missão é matar.” | “O erro da ditadura foi torturar e não matar.” | “No período da ditadura, deviam ter fuzilado uns 30 mil corruptos, a começar pelo presidente Fernando Henrique.” | “Sou a favor da tortura.” (δενπρέπειναυπάρχει)

“Seria incapaz de amar um filho homossexual. Prefiro que um filho meu morra num acidente do que apareça com um bigodudo por aí.” | “Sou preconceituoso, com muito orgulho.” (δενπρέπειναυπάρχει)

“Eu não corro esse risco [de meus filhos namorarem uma negra], meus filhos foram muito bem educados.” | “Fui num quilombo. O afrodescendente mais leve lá pesava sete arrobas. Nem pra procriador ele serve mais.” (δενπρέπειναυπάρχει)

“Não te estupro porque você não merece.” | “Mulher deve ganhar salário menor porque engravida.” (δενπρέπειναυπάρχει)

Pessoas que apoiam ou cogitam votar no δενπρέπειναυπάρχει estão abraçando todas as frases acima, exemplos bem documentados de sua ideologia fascista. Apoiar o fascismo porque “odeia o pt” e os “esquerdopatas” não é desculpa. Existem 13 candidatos à presidência e só um ultrapassa a fronteira da barbárie.

Mesmo perdendo — e ele vai perder, mais cedo ou mais tarde –, jamais esqueceremos o que δενπρέπειναυπάρχει representa. Pior do que os convictos é o voto disfarçado sob a ideia de “mal menor” ou “ódio ao pt”. As ideias por trás desse voto estão aí em cima, bem claras. Não há desculpa de “não li direito” ou “fui enganada” por “fake news”.

Sei que a maioria dos que me lêem concorda comigo. Escrevo para as pessoas que estão votando nele com o nariz tapado, olhando para o outro lado, enquanto deixam que apoiadores de δενπρέπειναυπάρχει façam o “trabalho sujo”, como tão bem analisou Everett Hughes sobre a Alemanha nazista.

Oitenta por cento de meus ancestrais morreram perseguidos ou em campos de concentração. Hitler foi eleito em nome de “salvar o país”, “melhorar a economia” e se livrar dos “corruptos”, exatamente como δενπρέπειναυπάρχει pretende. Uma vez eleito, Hitler mandou exterminar os “sujos” e “impuros”, matando pelo menos 6 milhões de pessoas.

Bloqueei ou desfiz amizade com todos os apoiadores de δενπρέπειναυπάρχει que identifiquei no meu perfil do Facebook. Ainda tive engulhos vendo a imagem da placa em homenagem à vereadora Marielle Franco rasgada por dois de seus apoiadores próximos. É um desafio continuar acreditando na humanidade.

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Desenho de Bruce MacKinnon

Não sei como vamos sobreviver a essa experiência, sinceramente… A cada relato de violência publicado, sinto-me novamente jogada no chão, como a mulher-justiça do desenho de Bruce MacKinnon. Uma ideia sufocada pela força bruta, prestes a sofrer um estupro ou uma sessão de tortura, impedida de ver, falar e respirar.

Que isso exista nas páginas policiais, onde as vítimas são majoritariamente negras, jovens, mulheres, lgbts, indígenas, lideranças comunitárias, já é bastante devastador.

Que isso exista como plataforma eleitoral, embrulhada com papel que promete acabar com a corrupção pelas mãos de um corrupto, é a tortura em estado bruto.

A todos que tinham essas informações e mesmo assim votaram em δενπρέπειναυπάρχει: não esqueceremos! Um dia, seu voto, seu silêncio, seu apoio, seus posts, suas declarações de ódio, suas mentiras, serão julgadas e condenadas.

“A vida virtuosa é aquela inspirada pelo amor e guiada pelo conhecimento. (…) Mas nada se poderá conseguir procurando garantir a segurança de uma parte da humanidade à custa de outra (…). Somente a justiça pode conferir segurança; e por ‘justiça’ me refiro ao reconhecimento da igualdade de direitos entre todos os seres humanos.”  (Bertrand Russell, No que acredito, 1925.)

Steinberg — a imagem que abre o post e outras estão na Saul Steinberg Foundation.

MacKinnon — imagem feita em denúncia à nomeação de B. Kavannaugh, juiz indicado à suprema corte por Trump, apesar de acusado de estupro e assédio por várias mulheres nos EUA. Fonte aqui.

Everett C. Hughes — O texto a que me refiro é “Good people, dirty work”, capítulo do livro Sociological Eye. Fiz um PDF para quem tiver interesse.

Collor e seu discurso final em 1989 – as semelhanças são óbvias demais: aqui.

 

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Como citar: Kuschnir, Karina. 2018. “Precisamos escutar δενπρέπειναυπάρχει”, Publicado em karinakuschnir.wordpress.com, url: https://wp.me/p42zgF-3Ir. Acesso em [dd/mm/aaaa].


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Abril/2018, Frágil

abril2018p

“Tem horas que é caco de vidro
Meses que é feito um grito
Tem horas que eu nem duvido
Tem dias que eu acredito.”
(Paulo Leminski)

Como criar nesse mar de sangue que vivemos no Brasil? Pensei na vida e lembrei do vidro, da beleza e da fragilidade desse material que vem da areia e vira tudo. Fiz o calendário e reencontrei o poema do Leminski. Caco, grito, dúvida, acredito.

Que dor esse país despedaçado, em que a vida da maioria da população não vale nada… Temos que seguir acreditando, protestando, achando um jeito de nos engajar, por todos que ainda estão vivos, pelas crianças que não pediram para nascer, pelos idosos que nos deram a vida, pela natureza, pelos animais, por nós. As lutas justas são muitas. Desdenhar dos que estão lutando ou ficar parado assistindo é que não dá.

Por falar nisso, hoje, dia 2/04/2018, tem o evento “Luzes para Marielle e Anderson”, às 19h. Onde você estiver, acenda uma vela ou luz, sinalizando às autoridades que não esqueceremos. Para confirmar ou se engajar em algum evento presencial, veja as opções na página Marielle Franco e compartilhe imagens e mensagens com a hashtag #LuzesParaMarielleEAnderson.

E para os pós-graduandos e professores que me escrevem, duvidando de suas escolhas: nosso trabalho tem valor sim. Fazer pesquisa, ensino e extensão com consciência, seriedade e ética para com seus interlocutores e a sociedade em geral é uma forma de contribuir para um mundo melhor, mesmo que os resultados sejam a longo prazo. Vamos continuar comparecendo, lendo, escrevendo, desenhando, pesquisando, publicando, produzindo, compartilhando — só não esqueçamos de respirar, nos abraçar e nos cuidar pelo caminho.

Força pra todos nós. Bom abril: tem feriado no Rio de Janeiro dias 21 e 23. ♥

Sobre o calendário:  Foi um desafio criar algo leve como vidro e ao mesmo tempo colorido o suficiente para escanear e imprimir. Espero que tenha dado certo. Para imprimir, abram o .pdf aqui. Desculpem o atraso!

Outros posts: Fiquei com vontade de indicar os posts “Um Matisse para Maria Eduarda” e “Mortos pelo Rio“, algumas das homenagens que escrevi às vítimas da violência na história do blog, tão atuais e antigas, sobre tudo isso.

Sobre o poema: O trecho citado é do poema “Passe a expressão“, do livro Distraídos venceremos, republicado na coletânea Toda Poesia — Paulo Leminski, pela Companhia das Letras, p.183.

Sobre o desenho: Desenhei as coisas de vidro com canetinha Pigma Micron 0,05; depois colori com lápis de cor Polychromos, da Faber-Castell e alguns Prismalo da Caran D’Ache; tudo em papel comum A4 90gr. Comecei com cores individuais, mas depois cheguei a essa mistura de verde, amarelo e rosa para dar uma certa unidade ao conjunto. No final, utilizei uma caneta pincel cinza quente (warm grey) Pitt Faber Castell para fazer as sombras embaixo dos objetos.

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Como citar: Kuschnir, Karina. 2018. “Abril/2018, Frágil”, Publicado em karinakuschnir.wordpress.com, url: https://wp.me/p42zgF-3DN. Acesso em [dd/mm/aaaa].