Karina Kuschnir

desenhos, textos, coisas


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Um caderno não é só um caderno

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A primeira vez que participei de um evento dos Urban Sketchers, em Lisboa, em 2011, fiquei maravilhada com a quantidade de desenhos que passavam de mão em mão. Todo mundo se cumprimentava assim: “Posso ver o seu caderno? Quer ver o meu?”

Já conhecia várias daquelas pessoas por blogs, flickrs e pelo livro Diário de Viagem de Eduardo Salavisa, mas nada se comparava a folhear os caderninhos pessoalmente. Um dos primeiros que vi ao vivo foi o de Richard Câmara, começando com uma sequência de imagens feitas através das janelas do avião (a pousar em Lisboa), seguida por dezenas de páginas com animais do zoológico. “Em quanto tempo você desenhou tudo isso?”, perguntei. “Ontem e hoje”, ele respondeu, sem nenhuma afetação; e ainda fazendo questão de me explicar que a ideia das janelas tinha sido inspirada no desenho de fulano-de-tal (infelizmente não lembro o nome).

“Como assim???”, pensava eu com minhas canetinhas… Desde 2004, eu tinha voltado a desenhar, mas nenhum dos meus cadernos se comparava àquelas páginas intensas e coloridas. Era como saber tocar “Gente Humilde” com três cifras no violão e encontrar pela frente a galera que toca “Brasileirinho” com os olhos vendados.

Felizmente, a essa altura da vida, eu já tinha aprendido que adoro aprender. Gosto de ser aluna, de enfrentar desafios, de descobrir uma montanha de coisas que ainda não sei. Amo legos e quebra-cabeças (os de verdade e os metafóricos).

É claro que morro de preguiça muitas vezes, e também já desisti de aprender a tocar Brasileirinho (o de verdade e os metafóricos) em várias oportunidades. Larguei pelo caminho um monte de coisas; e não sou nenhuma miss-certinha. (Os mais de quinze dias de atraso nesse blog são uma boa prova do meu sistema “bom mas nem tanto”, “bem feito, mas com defeito” ou o melhor, da vovó Trude: “só erra quem faz”. )

Então, bora comemorar! Muitas e muitas páginas e canetas depois daquele evento de 2011, até a imersão na Drawing Land do ano passado, agora já tenho coragem de perguntar: “Posso ver o seu caderno? Quer ver o meu?”

Sobre os desenhos: Quase todos os desenhos foram feitos com canetinhas de nanquim descartáveis (as minhas preferidas são as Pigma Micron da Sakura) e coloridos com aquarela, lápis de cor e vários tipos de canetas hidrocor (no momento estou apaixonada pelas Tombow e em vias de me apaixonar pelas Koi watercolor brush, da Sakura, que acabaram de chegar graças a uma amiga que foi aos EUA.) Estou sem tempo de escrever sobre cada imagem, mas se tiverem alguma dúvida ou curiosidade me escrevam nos comentários que eu respondo!

O caderninho é um Laloran com lombada de tecido Tais timorense feito pelas mãos talentosas de Ketta Linhares. Essa minha versão é com papel mais fino do que o ideal (de 220gr que usei no #UskParaty2014). Ainda por cima, o bichinho tomou um banho d’água logo no segundo dia de uso (daí as ondulações sombreadas em várias das páginas abaixo).

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Chips a mais

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O Jornal Nacional anuncia a primeira convocação de Dunga para a seleção brasileira.

Eu — Alice, o que você achou da lista do Dunga?

Alice — Horrível!

Eu — Nossa, por que, filha?

Alice — Ele não chamou o Thiago Silva, o melhor zagueiro do mundo!

Antônio, entrando na conversa: — Ah, Alice, cada um acha o seu jogador o melhor…

Alice — Como assim?

Antônio — Portugal acha que o Cristiano Ronaldo é o melhor zagueiro do mundo! Já o Brasil acha que o Neymar é que é o melhor zagueiro do mundo!

Alice revira os olhos…

Outro dia, Antônio chegou da escola animado com a boa nota que tirou em Ciências. Comentei com a Jô que era só ele estudar um pouquinho e já guardava toda a matéria. E concluí: — Ele tem um “chip a mais”, Jô. Tem uma memória muito boa.

Alice ouviu nossa conversa e gritou lá da sala: — E eu, mãe, não tenho um “chip a mais”?

Eu — Não, filha. Você não tem um chip a mais. Você tem vários!!

Pronto. O assunto de hoje era Leonardo Da Vinci, mas achei melhor contar logo as novidades da Alice. Tem gente reclamando quando deixo para o final do post!

A inspiração para o desenho foi o maravilhoso livro “O fantasma de Da Vinci: a história desconhecida do desenho mais famoso do mundo”, de Toby Lester (ed. Três Estrelas, selo do Grupo Folha; tradução de José Rubens Siqueira). Ô coisa boa de ler, de olhar, de pesquisar, de fuçar notas, bibliografia e agradecimentos, tipo-quero-mais!!

Partindo do seu fascínio pelo desenho do “homem vitruviano“, de Da Vinci, Lester escreve uma dupla história: a do mundo das ideias que tornaram esse desenho possível; e a do homem Leonardo (de Vinci, de Florença e de Milão) até o momento em que o desenhou. A primeira começa com Augusto, imperador romano, forjando seu corpo em estátuas e moedas de um homem-modelo ( 27a.c.) e segue passeando pela história da arquitetura, da arte, da filosofia e da política nas cidades italianas, até o século XVI. A segunda nos traz as amizades de Da Vinci, suas mazelas, suas pequenas listas de afazeres (“desenhar Milão”) e grandes desafios (“aprender latim”). Nas inseparáveis cadernetas com quase 30 mil páginas de anotações, lemos frases sábias, engraçadas, visionárias:

“O ar está cheio de imagens incontáveis, para as quais o olho é um ímã.”

“Quando a fortuna se manifesta, agarre-a com firmeza pelo topete, porque ela é careca atrás.” (1490)

“Com quais palavras, ó escritor, você descreverá com semelhante perfeição toda a configuração que este desenho aqui fornece?” (c.1500)

É contagiante a curiosidade de Da Vinci; e consolador aprender que ele odiava prazos e quase nunca terminava as obras que prometia (aos outros e a si mesmo)…E tudo isso sendo exímio pintor, escultor, músico, arquiteto, engenheiro, físico, médico… com uma biblioteca de 116 livros!

Ok, chega. Como diz o Antônio, Leonardo Da Vinci não é para os fracos.

(Espero que a Alice não leia isso, mas o Da Vinci devia ter uns mil chips a mais.)

Sobre o desenho: Resolvi estrear um novo caderninho que estava “economizando”, do selo Laloran, da Keta Linhares, com um formato quadrado e umas páginas de aquarela que dão vontade de morder, nem lisas nem ásperas demais. Tenho duas dessas belezinhas graças ao querido Eduardo Salavisa, que me deu a dica e mediou a compra. Aproveitei para tentar furar o bloqueio (vulgo projeto-para-o-cnpq) que tem me afastado dos cadernos e dos desenhos. Ufa, consegui. Enviei o projeto e encarei o caderninho, mesmo correndo o risco de não estar a altura.

ccampo