Karina Kuschnir

desenhos, textos, coisas


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Limonadas

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Pessoas queridas, obrigada pelas mensagens depois do post tristinho da semana passada. Precisamos resistir, vocês têm toda razão. ♥ Como me disse uma amiga na semana passada, depois de recebermos uma má notícia no trabalho: bora pensar como transformar esse limão em limonada. 

Resolvi tentar um formato-conversa, para não me exigir tanto em termos de tempo e produção. (Vou fingir que criei uma newsletter, porque tá na moda, mas na verdade é só um post no blog mesmo, que vocês podem receber automaticamente se colocarem o e-mail na caixinha de inscrição.)

A falta de imagens boas e originais é uma das principais dificuldades que venho enfrentando para produzir conteúdo semanal. Continuo desenhando nos meus caderninhos de bolsa, mas nunca acho que os rabiscos estão bons o suficiente para o blog. (Vejam que absurdo, logo eu que dou aula sobre não existir desenho ruim!). Além disso, nos dias de ateliê (já contei que voltei para as aulas da Chiara?), tenho pintado pra relaxar, reproduzindo imagens de outros artistas para aprender suas técnicas. Por isso não dá para publicar aqui.

Portanto, meu desafio é voltar a criar imagens para o blog regularmente. Saudades de começar meu dia desenhando e pintando! Desde setembro de 2018 perdi o ritmo. Além dos motivos que vocês já sabem, em 2019 assumi um cargo administrativo bem puxado, que toma mais da metade da minha semana, sem contar aulas e todo o resto na universidade. Não reclamo. Gosto de trabalhar e me sinto honradíssima de ter um emprego, ainda mais esse cuja atividade fim é estudar e formar.

Não sei se vocês sabem, mas lá na pre-história da minha vida, cursei dois semestres de Design. Depois fiz outro vestibular e mudei para Comunicação. Na hora da matrícula, não me perguntem por quê, optei por Publicidade. Um dia, o professor pediu um trabalho sobre profissionais de agências. Quase no finalzinho de uma entrevista, um veterano publicitário me falou uma coisa que nunca esqueci:

— Minha filha, você parece tão inteligente… Você quer passar o resto da sua vida vendendo água com corante e açúcar? [E apontou uma Coca-Cola.] Não siga essa profissão!

Não sei se foi nesse dia, ou se caiu a ficha porque eu gostava das disciplinas teóricas. No semestre seguinte, mudei para Jornalismo. Amei o curso, que tinha um currículo considerado antiquado porque  a maioria das disciplinas era oferecida por antropólogos, sociólogos, historiadores e filósofos. Imaginem, foi a minha sorte.

Por tudo isso, e por minha breve experiência no mercado, agradeço todos os dias por ter um trabalho que, embora árduo, não me obriga a vender algo.

Nossa, essa carta deu voltas, desculpem se ficou sem rumo! E eu que achava que ia escrever sobre o limão e a limonada… Fica para outro dia!

Queria indicar para vocês novamente os conteúdos da Nátaly Neri, do canal Afros e Afins. Ela fez um vídeo que me tocou muito sobre “aprendizados não lineares”; sobre como, às vezes, temos muito a aprender olhando com generosidade para nossos eus passados. Me ajudou demais nessa fase de achar novos caminhos para a minha própria produção de conteúdo. Aqui vai o link.

Eu teria um monte de outras indicações, pois tenho lido bastante (viva) e consumido coisas legais na internet. Mas fica para a próxima. Sou lenta, gente. Não dá para ficar seis horas escrevendo e editando um post. Esse já está em 2h47min, sem contar o tempo de rever e produzir a imagem. Por isso, resolvi que *talvez* faça posts menores e mais frequentes (suspiros-alert: promessas virtuais são tão perigosas! E isso me lembra outros dois vídeos ótimos e engraçados da N. Neri, justamente sobre cumprir desafios na internet: tem esse sobre procrastinação e esse sobre ficar 7 dias offline.) 

Então, combinado: nada de sofrermos sozinhos. Sigamos dando abraços apertados, desses que dão força para continuar, seja qual for a tempestade.  E, para quem quiser e puder, doações da vida real: o Rene Silva está reunindo recursos para compra de cobertores; e a Winnie Bueno faz um “Tinder de livros”, uma campanha para encontrar doadores de livros para pessoas que precisam. ♥

Sobre o desenho: Esse limão foi pintado por observação num workshop de tinta guache que fiz no Ateliê Chiaroscuro em janeiro/2019. Adorei a experiência. O papel foi parte do material oferecido pela Chiara, mas tenho quase certeza de que é um bloco Hahnemühle tonalizado, tipo kraft.

Você acabou de ler “Limonadas“, escrito e ilustrado por Karina Kuschnir e publicado em karinakuschnir.wordpress.com. Se quiser receber automaticamente novos posts, vá para a página inicial do blog e insira seu e-mail na caixa lateral à direita. Se estiver no celular, a caixa de inscrição está no rodapé. Obrigada! ☺

Como citar: Kuschnir, Karina. 2019. “Limonadas”, Publicado em karinakuschnir.wordpress.com, url: https://wp.me/p42zgF-3KC. Acesso em [dd/mm/aaaa].


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Como não escrever uma carta para a seleção de mestrado

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Aos membros da Comissão de Seleção do Programa de Pós-Graduação Ainda-Não-Sei-Qual

Prezados professores e professoras,

Minha graduação está acabando e não sei o que fazer. Eu trabalhava numa loja, ganhava bem, mas não dava para passar a vida lá. Amo teatro, já fiz o figurino de duas peças, mas acho que não nasci para isso… Quando era mais nova, adorava fotografia – cheguei a ter um laboratório em casa e ganhei um dinheirinho. Mas passou. E tocar violão (mal) não conta, eu sei.

A faculdade, que teve um começo glorioso, com monitorias e médias ótimas, lá pelo sexto período, tinha chegado à lanterna da minha agenda. A vida era sexo-drogas-e-rockn’roll. O coração sempre aos pulos, o corpo em processo de descobertas, os destinos se cruzando para lá e para cá. Como alguém consegue focar na carreira, se apaixonar várias vezes e ainda casar no Circo Voador? Era assim. Entre um final-de-semana e outro, os professores me diziam para tentar um estágio. Estudante de jornalismo, meu sonho era o curso de verão da editora Abril ou o programa da Folha de São Paulo. Não passei em nenhum dos dois… Ganhei prêmios de consolação: uma vaga na antiga rádio Jornal do Brasil ou um estágio no departamento de fotografia do Globo? Escolhi o JB. (E se escrever matérias jornalísticas contasse como publicação para o currículo, essa experiência teria me valido dezenas de produções, juro.)

Minha sorte foi que no último ano da faculdade tive mestres encantadores. Uma professora de antropologia, um professor de história e uma professora de filosofia – todos na época alunos de pós-graduação – me trouxeram de volta o fascínio pelas ideias e pelos livros. Ninguém na minha família tinha mestrado, exceto por uns primos distantes por parte de pai (mas esses não contam, porque desde pequena eu ouvia que eles eram gênios e eu não).

Pela professora de antropologia, fiquei sabendo que a tal “bolsa de mestrado” não era só para não pagar o curso: era uma remuneração para o aluno se dedicar. Fiquei tão animada! Eu não tinha ideia de que isso existia. Meus irmãos e minha mãe não acreditaram.*

Não vou mentir. Tive apenas três meses para me preparar para essa seleção. E ainda precisei correr atrás de professores importantes para me dar duas cartas de “recomendação”. Eu não conhecia ninguém da área. O mais perto que eu tinha chegado de um antropólogo-doutor tinha sido durante um programa na rádio JB. Não dava para pedir uma carta para o cara! A única opção era a coordenadora do meu curso de graduação, uma professora-doutora muito séria e cética. Ela fez a carta, mas me entregou com um olhar de pena… daquele que diz: não se iluda, você não vai passar. Ok, mas vou fazer mesmo assim, obrigada: “Coragem é quando você sabe que está derrotado antes mesmo de começar, mas começa assim mesmo, e vai até o fim, apesar de tudo.”**

Tive essa coragem porque me convenci de que, se eu não passar, tudo bem, que mal vai fazer? Mas ainda faltava a outra carta… Essa foi a melhor, leiam com carinho. Mesmo sabendo que havia o risco de não valer muito, pedi a recomendação para aquela professora que era mestranda em antropologia. E ela não só escreveu, como se ofereceu para me ajudar com os textos da bibliografia da prova de seleção, porque não entendi um monte. Sei que eu não deveria escrever isso aqui… Mas não posso levar o crédito sozinha. A verdade é que, sem as nossas conversas e a inteligência dela (de gênia), vocês nem estariam lendo essa carta (porque eu não teria a menor chance de passar na prova escrita).

Queria acrescentar que sou uma pessoa muito focada, mesmo sem ter nascido desejando fazer essa pós-graduação. É, não vou mentir: nasci querendo mamar na minha mãe. Depois quis andar e falar – fui até bem precoce, segundo me contam (mas aprendi a ficar quietinha nas aulas, podem deixar). Fui para a escola muito nova e nunca fiquei de recuperação. Isso conta, não é? Ah, outra coisa boa: depois que aprendi a ler, não larguei mais os livros. Tudo bem se for livro de romance, poesia, teatro, correspondência, biografia, viagem? Porque só aprendi a gostar dos acadêmicos mais tarde… E mesmo assim, com alguns ainda durmo no meio – quer dizer, só nos chatos, como os de história da época do colégio.

Confesso que ainda não sou tão disciplinada para ler os textos de antropologia como gostaria. Mas estou melhorando! No início dos estudos para essa prova, eu precisava beber três coca-colas diet para ficar acordada (resquício da era das drogas…). Agora já consigo ler um texto inteiro sem beber nada. Quer dizer, se for um texto em português, mas já é um progresso. As línguas estrangeiras estão meio aos trancos e barrancos… Achei melhor deixar para estudar depois pois não são eliminatórias. Sou uma pessoa prática, isso é bom? Prometo que vou me esforçar ao máximo, porque a bibliografia em francês e inglês não está fácil não. Só não consigo estudar na hora de Pantanal, mas isso vocês perdoem, porque até o meu não-namorado (ele não é meu namorado mas eu queria que fosse) concorda: a novela é muito boa!

Apesar de todos esses defeitos, acredito que sou uma boa candidata para esse curso de mestrado sim. Posso não ser muito expert nos assuntos técnicos de ciências sociais, mas sou determinada. Também não tenho tanta concentração quando gostaria – ainda! E lembram do jornalismo e da fotografia? Pois é, eu só gostava de entrevistar e fotografar pessoas. Não acham que isso pode ser um indício de que darei uma boa antropóloga?

Agora, sério. O principal é que amo ler, escrever e aprender. Isso conta.

Torcendo por mim,

Karina Kuschnir

* Explicação para o leitor de 2015: não existia internet na época.

** A frase sobre a coragem é do livro O sol é para todos (To kill a mockingbird), de Haper Lee (ed. J.Olympio), p.148.

Esse post é dedicado ao Vinícius e ao Pedro, dois queridos que estão deixando o LAU/IFCS para voar por aí…

Também queria comemorar que atingimos 100 mil visitas aqui no blog! Esse número é muito pequeno no mundo da internet, mas é gigantesco pra mim, que comecei escrevendo só para mim mesma e para alguns amigos. Ando lendo blogs antigos na internet e ontem mesmo conversava com o autor de um deles, elogiando a sua coragem de escrever coisas pessoais. Ele me disse: por que não? Nossa conversa acabou me fazendo tirar essa carta dos rascunhos. Como diz o Caetano, tá combinado: “é tudo só brincadeira e verdade”!

E para quem se interessa pelo mundo acadêmico, o blog tem outros textos sobre minhas experiências… nos truques da escrita, na elaboração de projetos, nas defesas de tese, nas dores de não passar, na falta de tempo, no ensino de antropologia e desenho, no aprender a desescrever, nas agruras de ser doutoranda, na vida dos alunos, no sorriso do professor, nas lições da vida acadêmica, na importância de não ser perfeito e nas muitas saudades de Oxford 1, 2, 3 e 4!

Sobre o desenho: Carta inspirada em envelopes verdadeiros que guardei dos anos 1990. Fiz o contorno a lápis primeiro, depois fiz o carimbo-selo com canetinha Pigma Micron vermelha e azul 0.1, com alguns detalhes em lápis de cor (também utilizado para o carimbo DH, que não sei o que significa). O restante foi todo feito com aquarela.

Você acabou de ler “Como não escrever uma carta para a seleção de mestrado“, escrito e ilustrado por Karina Kuschnir e publicado em karinakuschnir.wordpress.com. Se quiser receber automaticamente novos posts, vá para a página inicial do blog e insira seu e-mail na caixa lateral à direita. Se estiver no celular, a caixa de inscrição está no rodapé. Obrigada! 🙂

Como citar: Kuschnir, Karina. 2015. “Como não escrever uma carta para a seleção de mestrado”, Publicado em karinakuschnir.wordpress.com, url: http://wp.me/p42zgF-ie. Acesso em [dd/mm/aaaa].


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Continua, Nora!

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Noralóide querida,

bons ventos trouxeram teu livro às minhas mãos na semana passada. E já vou dizendo que adorei, amei, casei! Todos os livros autobiográficos deveriam ser assim: com história, humor, emoção, aventura e um bem-vindo bom-senso. Concordo com tudo, Nora. Você me devolveu a esperança de que o humanismo faz sim muito sentido.

Meu avô também achava a maior bobagem esse papo de ser melhor do que os outros porque nasceu na Europa. Como você bem escreveu: por que se orgulhar de algo que “não passa de um acidente biológico-geográfico”? Ele adorava mesmo era ser brasileiro.

Quando eu era pequena, mas já grande o suficiente para saber do Holocausto, não entendia porque as famílias judias (ou apontadas como judias) não tinham simplesmente ido embora. Levou um tempo para o meu avô me contar que teve que fugir deixando para trás seus pais, seu irmão e muitas pessoas queridas. No caso dele, foi a única fuga possível. Não havia rota, transporte nem vistos, como você contou tão bem. Fugiram apenas os que tiveram sorte e, mais raramente, algum dinheiro.

Foi com muita emoção que li sobre a sua chegada solitária em Lisboa. Que linda imagem a das calçadas de pedras portuguesas iluminadas pelos candeeiros em contraste com o mundo escuro e bombardeado que ficou pra trás. E foi com mais emoção ainda que imaginei o navio te trazendo para a Baía de Guanabara, onde meu avô aportava dois anos antes. Quando vocês chegaram, em 1941, veja só, ele já tinha arranjado uma namorada brasileira e casado! Pode ser que, no caminho para a pensão, vocês tenham cruzado com minha vó passeando grávida da minha mãe.

Adorei cada pedacinho do seu texto — dos primeiros tempos às terras cariocas. Vi um toque gostoso de Mário de Andrade, um não-sei-o-quê que escreve rindo, sem medo das próprias fraquezas e forças. A cena da estufa explodindo é quase uma versão feliz de “O Peru de Natal”:

“Mamãe trouxe a sopa, serviu e, de repente, pum! A estufa caprichou mesmo. Lá estávamos nós que nem fantasmas após a erupção do Vesúvio de Pompéia, todos cobertos de cinzas. As sopas e o resto da mesa também, tudo em volta era um cinzume só. // Pela primeira vez, mamãe desandou a rir toda contente porque finalmente papai havia tido uma demonstração prática do que vinha acontecendo há tempos.”

E seguimos com vocês, do riso ao choro… Mesmo no meio da tragédia, nos encantamos com suas dúvidas sobre estar ou não “autorizada a se considerar adulta”. E veja a coincidência: enquanto você escrevia para a Rainha da Inglaterra pedindo ajuda, minha avó escrevia para o Getúlio Vargas para salvar a família do seu marido que não conseguia sair de Berlim. Ela até subiu de joelhos a escadaria do Palácio do Catete para pedir uma audiência! Minha bisavó alemã era como você: obstinada. Rapidinho aprendeu português, a ponto de escrever cartas lindas que hoje são um tesouro na nossa família. Infelizmente eles não conseguiram dinheiro suficiente para os vistos e “tudo-o-mais”, como você explicou tão bem.

Termino esta carta te dizendo, Nora: foi pouco! Vamos lá, você mesma admitiu no final. Tem muito mais história para escrever. Em nome de todos os seus leitores, te imploro que continue! A Zélia Gattai começou assim, lembra? Do divertido “Anarquistas Graças a Deus” para uma prateleira cheia.

Um abraço muito abraçado,

Karina

Sobre o livro: Lindo volume, numa edição caprichada, com muitas fotos e delicados desenhos da autora, além de posfácios escritos por suas filhas Laura e Cora. E tudo isso impresso em papéis criativos e fonte legível! Corram pra ler: Memórias de um lugar chamado onde, de Nora Rónai, ed. Casa da Palavra, 2014. A citação do caso da estufa está na página 85. A abertura e o final desta carta foram copiadas do Mário, claro, de Andrade, por causa de um volume que me caiu nas mãos há poucos dias: Cartas a Murilo Miranda (1934-1945), ed. Nova Fronteira, 1981. Como disse-me um amigo, ser fã de Mário exige cuidado. É um vício e não há estante que chegue… “O Peru de Natal” é um conto de Mário incluído no livro Contos Novos, de 1946. Eu ia escrever que o livro é maravilhoso e tal. Mas fica desde já definido nesse blog que Mário-de-Andrade e maravilhoso são sinônimos.

Sobre o desenho: Ilustração feita a partir de fotos do livro, com canetinha Bamboo na App Procreate no Ipad. Depois organizei no Photoshop. Quando já estava quase pronto, senti falta de algo branco. Daí surgiu a ideia do barco se sobrepondo na imagem. Achei que encaixava na travessia oceânica narrada no livro e no intenso amor da Nora pela água… (As cores foram inspiradas numa imagem que achei há tempos no Pinterest, mas, infelizmente, perdi a referência à fonte original.)