Karina Kuschnir

desenhos, textos, coisas


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Mini paleta de aquarela

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Alguns pesquisadores acreditam que a aquarela existe desde 800 a.c., quando os egípcios coloriam seus papiros com pigmentos naturais misturados com goma arábica, clara de ovo e água. É incrível pensar que essas tintas eram utilizadas nas miniaturas pintadas à mão em livros por gregos, romanos, sírios e bizantinos até o século 9 d.c. Quase todos os livros de história da aquarela dizem que o pintor alemão Albrecht Dürer (1471-1528) foi o primeiro artista (ocidental) a realizar pinturas em aquarela, embora naquele tempo esse material fosse considerado menor, sendo utilizado apenas para croquis, estudos e diários de viagem, por ser de fácil transporte e secagem rápida. Do século 19 em diante, os estojos de aquarela para amadores se tornaram cada vez mais populares e acho que agora, nos anos 2010, estamos vivendo uma valorização enorme dessa mídia.

Todo esse preâmbulo foi para apresentar a vocês o estojinho miniatura que comprei no ano passado no evento dos Urban Sketchers em Manchester, Inglaterra. Numa caixinha igual a um porta-cartão-de-visitas, a empresa Expeditionary Art conseguiu colocar uma base de ímã, uma base branca e 14 recipientes de metal para as tintas. Tive a sorte de ver uma pessoalmente, porque só vendo para acreditar em quão pequena é essa paleta. Não foi barata. Se não me engano, paguei 25 pounds (cerca de 100 reais) na versão vazia, e 35 numa versão já com as tintas, pois queria trazer uma de presente de aniversário para uma amiga.

Foi um investimento maravilhoso. Alguns colegas disseram que iria enferrujar, mas já tenho há quase um ano e não vejo o menor sinal de desgaste. A grande maravilha dessa paleta é poder levá-la para todos os lados sem aquela neura de ficar com a bolsa muito pesada.

Há tempos estava querendo atualizar a seção Materiais aqui do blog. Portanto, aí vai um dos meus itens preferidos!

7 Coisas impossivelmente-legais-bonitas-interessantes-ou-dignas-de-nota da semana:

* Minha fonte para essa pequena historinha da aquarela foi o livro The big book of watercolor, do Jose M. Parramón. Gosto da parte histórica inicial, mas não recomendo para quem quer começar na técnica. É um daqueles volumes mais para olhar do que aprender, com um jeito meio tradicional de “como fazer” o céu, o mar etc. Para ver uma aquarela do Dürer de pertinho, achei esse vídeo da Kahn Academy.

* A mini-paleta de aquarela pode ser vista em mais detalhes no site da Expeditionary Art ou nessa resenha com filminho no final do Parka Blogs.

* Continuo lendo artigos ótimos no site da Revista da Fapesp e, embora eu seja super defensora da inbox mínima, recomendo muito que vocês assinem o boletim deles por e-mail.

* Foi justamente dessa fonte que descobri o excelente artigo Bororo na Tela, contando porque o filme “Rituais e festas Bororo”, do major Luiz Thomaz Reis (1879-1940), deve ser considerado o primeiro documentário etnográfico de que se tem conhecimento.

* Outra leitura interessante foi o artigo no blog do Instituto Moreira Salles sobre a fotografia de Antonio Luiz Ferreira, que registrou, em 17 de maio de 1888, a missa campal realizada no Rio de Janeiro para celebrar a Abolição da Escravatura. Só de saber que essa foto existe e que há uma coleção imensa de imagens dessa qualidade disponíveis online já é uma maravilha.

* Outra lindeza foi seguir a dica da Julia O’Donnell e revisitar a Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional, onde se pode ler online milhares de páginas de jornais históricos brasileiros e de outros países. Só nos últimos 30 dias o site teve mais de 3 milhões e 800 mil páginas visitadas! Esse número nos dá esperança de que nem tudo está perdido , concordam?

* Finalmente, queria compartilhar com vocês que a melhor coisa dessa semana foi receber uma mensagem de uma ex-aluna agradecendo por minhas aulas. Eu que agradeço, querida. Inspirada em você, lembrei de sorrir mais, de me manter forte e determinada, sem esquecer da gentileza. Que seu caminho seja de aprendizado positivo e construtivo. Obrigada por existir, resistir e insistir!

Sobre o desenho: Aquarelinha feita em três etapas. Linhas com canetinha de nanquim permanente Pigma Micron (0.1) e uma primeira mão de tinta com as próprias aquarelas do kit. No dia seguinte, pintei novamente para dar mais intensidade. E ainda num outro dia (esqueci de escrever a data), reforcei algumas áreas mais escuras e a sombra do objeto no papel. O caderninho é um Hahnemühle A6 chamado Sketch & Note, com um papel comum, mas de gramatura um pouco superior (125gr) à média, que aguenta uma aquarela leve. Descobri esse caderno na Casa do Artista em São Paulo e depois comprei novamente na estadia em Lisboa, na maravilhosa Ponto das Artes do Chiado. É super leve para ter na bolsa. Utilizei vários pincéis, pois fiz o desenho em casa, mas costumo ter no estojo da bolsa uma caneta pincel de água (waterbrush) da Kuretake.

Sobre as tintas: Como comprei o kit com algumas pecinhas já cheias de tinta e outras vazias, não sei todas as marcas, mas vou especificar os nomes, da direita para a esquerda, começando na fileira de cima: 1-Espremi duas cores: Vandyke Brown e Indigo, 2-Ultramarine, 3-Cobalt blue; 4-Violet; 5- Permanent magenta e Opera Rose; 6-Rose de Potter e Ruby Red; 7-Scarlet Red. Na segunda fileira: 8-Turquoise; 9-Cerulean; 10-Perylene Green e Terre verte; 11-Sap Green; 12-Burnt Sienna e Pure Orange; 13-Quinacridone Gold e Raw Sienna; 14-Pure yellow e Lemon yellon. A maioria é da marca Winsor & Newton (algumas artísticas, outras da linha estudante, da Cotman), mas o Pure yellow e o Ruby red são da Schmincke.  Se quiserem mais informações sobre as tintas e cores me avisem! Fico meio preguiçosa de escrever sobre esses detalhes porque acho que a maioria dos leitores que vêm aqui são do meio acadêmico e não estão nem ligando para os materiais de pintura! 😉

Espero que todos estejam aproveitando esse feriado prolongado para descansar ou produzir mais.

Até semana que vem!

Você acabou de ler “Mini paleta de aquarela“, escrito e ilustrado por Karina Kuschnir e publicado em karinakuschnir.wordpress.com. Se quiser receber automaticamente novos posts, vá para a página inicial do blog e insira seu e-mail na caixa lateral à direita. Se estiver no celular, a caixa de inscrição está no rodapé. Obrigada! 🙂

Como citar: Kuschnir, Karina. 2017. “Mini paleta de aquarela”, Publicado em karinakuschnir.wordpress.com, url: http://wp.me/p42zgF-2gJ. Acesso em [dd/mm/aaaa].


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Sketchnoting – Desenhando e anotando

EvaLottaLammp“A melhor maneira de aprender é se divertindo”, diz a artista alemã Eva-Lotta Lamm, numa palestra sobre sketchnoting, algo como desenhar e anotar ao mesmo tempo. Já sou fã da Eva há alguns anos e, em janeiro, assisti novamente a uma palestra dela para me inspirar. Gosto demais da liberdade com que ela se expressa, num misto de despretensão e busca por qualidade, duas das coisas que mais admiro num trabalho. Se eu pudesse escolher, queria um mundo assim: com bom humor, sem arrogância e sempre em busca de aperfeiçoamento, clareza e precisão.

Venho pensando sobre os artistas que admiro, tentando descobrir os caminhos por onde quero desenvolver o meu próprio desenho. Uma das coisas que percebi é que o meu Olimpo das artes é feito de imagens e palavras juntas. Como diz aquela brincadeira do Millôr: “Uma imagem vale por mil palavras… mas tenta dizer isso sem palavras!” Pra que separar coisas que vão tão bem juntas!

Sem que eu tivesse planejado, o exercício de assistir anotando e desenhando a Eva-Lotta acabou transbordando para a forma como registrei meu caderno da viagem a Portugal, em janeiro/2017. Abaixo, a página sobre o encontro com o pesquisador e desenhador científico Pedro Salgado, no Jardim Botânico de Lisboa, cuja conversa foi mediada pelo artista João Catarino (de quem prometo falar mais num próximo post). Ambos fazem parte do seleto Grupo do Risco, composto de desenhadores e artistas aventureiros talentosíssimos.

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Num outro dia, ainda em Lisboa, assisti a um evento organizado pelos Urban Sketchers Portugal, pelo Nelson Paciência e pelo Eduardo Salavisa (meus ídolos do desenho, como vocês já sabem de outros posts) no Museu do Carmo (viva a Rita!). Entrei novamente no espírito sketchnoting, fazendo pequenas anotações visuais ou, como escreveu a outra Rita (Caré), se calhar, fiz uma reportagem desenhada.

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Junto com a fala do Filipe, que não coube numa página só, ganhei de brinde o autógrafo do palestrante e um desenho (assinado pelo artista) do brinquedo favorito do Vasco, filho do Nelson (abaixo).

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Espero que os meus rabiscos inspirem vocês a desenharem e anotarem. Assim que as aulas acabarem, prometo voltar a publicar na quarta ou na quinta. Sei que sexta-feira é um dia péssimo para o blog, mas está sendo o único possível.

Bom final-de-semana, pessoal!

7 Coisas impossivelmente-legais-bonitas-interessantes-e-dignas-de-nota, incluindo as fontes mencionadas acima:

* A palestra da Eva-Lotta Lamm está aqui e a página oficial dela é http://www.evalotta.net/.

* Um livro pioneiro, que organizou o tema do Sketchnoting é esse aqui.

* Para confirmar a frase do Millôr, utilizei essa fonte.

* Para ter um gostinho, vejam os talentos do Grupo do Risco.

* Ainda em Portugal, nunca é demais visitar os blogs do Eduardo Salavisa, do Nelson Paciência, do João Catarino, da Rita Caré e dos muitos Urban Sketchers lusos.

* Uma das maravilhas que tenho acompanhado na internet: os desenhos sobre saúde mental feitos pela artista Gemma Correll. Ela também publica no Instagram com a hashtag #mentalillnessfeelslike.

* E para quem tiver a felicidade de estar em Lisboa entre 10 a 14 de julho de 2017: haverá um Workshop em Desenho Etnográfico, na Universidade Nova de Lisboa, com os queridos Sónia Vespeira de Almeida, Philip Cabau, Rita Cachado e Inês Belo Gomes. Fiquei honradíssima de participar da bibliografia.

Sobre os desenhos: Todas as páginas são do caderno Stillman & Birman, Delta Series 8 x 10 polegadas, cold press, marfim. As linhas pretas foram feitas com canetinhas Pigma Micron Sakura 0,1 ou 0,2. Na Eva-Lotta, utilizei também uma caneta pincel Tombow azul clara para colorir. No Pedro Salgado, as cores foram todas feitas com aquarela (Winsor & Newton e outras marcas) com vários pinceis. Há também uns pedaços colados de folhas do meu caderninho menor. Na página do Filipe Almeida, utilizei uma canetinha Pigma Micron 0,1 roxa, colorindo com duas canetinhas Tombow cinzas (uma bem escura e outra clara). O desenho de Pokemon do Vasco foi feito com lápis de cor preto, amarelo e vermelho, não me lembro se meus ou dele!

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Como citar: Kuschnir, Karina. 2017. “Sketchnoting – Desenhando e anotando”, Publicado em karinakuschnir.wordpress.com, url: http://wp.me/p42zgF-2bW . Acesso em [dd/mm/aaaa].


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Modelo viva

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Um momento especial da viagem a Lisboa, em janeiro, foi participar da sessão de modelo-vivo na Casa Atelier Arpad Szenes Vieira da Silva, coordenada pela Cathy Douzil. Nesse dia, a modelo foi a vivíssima Catarina Oliveira, com seus óculos vermelhos e poses bueda giras (muito legais, na gíria local). Na imagem acima, as posturas mais longas, onde arrisquei trabalhar com aquarela (ainda que sem tempo de secagem). Abaixo, as poses rápidas iniciais (30′ a 60′ segundos), onde utilizei apenas lápis-de-cor.

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Uma das dificuldades de postar mais sobre a viagem tem sido escanear o caderno que levei, pois as páginas grandes (quase A4) e as folhas marfim não são nada fáceis de captar no scanner. Mas prometo que, aos poucos, vou trazendo pra cá!

Post curtinho hoje, terminando nos links que ando acumulando para vocês. Bom final de semana a todos!

6 Coisas impossivelmente-legais-lindas-interessantes-e-bueda-giras da semana sobre desenho:

* Sobre a Casa-Atelier mantida pela Fundação Arpad Szenes Vieira da Silva: tem um mundo de coisas interessantes acontecendo lá, inclusive uma exposição sobre cartas e desenhos! Que saudades de estar pertinho…

* Um dia na vida dos americanos — pesquisa com interface gráfica em movimento, bem bacana! Dica do canal Meio.

* O Danny Gregory tem postado vídeos sobre livros de desenho. Achei incrível o do ilustrador David Gentleman sobre Londres. Já indico aqui o link a partir do minuto 6, quando de fato começa o assunto.

* A Maria Popova, do site Brain Pickings, fez um post lindíssimo sobre as coleções de flores da poeta Emily Dickinson.

* A Lisa Congdon, uma das artistas que adoro acompanhar, escreveu um post muito bom sobre a superação da síndrome de burnout (ou “estafa profissional”, como sugere o Google). Aliás, para quem gosta de desenho, arte e ativismo feminista & lgbt: sigam o blog  (ou o Instagram) dela. Estou há tempos para colocar na minha listinha de inspirações.

* O volume da revista Visual Ethnography sobre desenho em que colaborei no ano passado foi liberado para acesso livre. Tem aquela chatice de fazer um cadastro antes, mas é grátis.

Sobre o desenho: Primeira imagem feita com aquarelas (Winsor & Newton e outras marcas) e caneta pincel Kuretake grande (eu acho!, já não me lembro direito). Na segunda imagem, utilizei apenas lápis de cor aquarelável Faber-Castell. Ambas foram feitas no caderno Stillman & Birman, Delta Series 8 x 10 polegadas, cold press, marfim.

Você acabou de ler “Modelo viva“, escrito e ilustrado por Karina Kuschnir e publicado em karinakuschnir.wordpress.com. Se quiser receber automaticamente novos posts, vá para a página inicial do blog e insira seu e-mail na caixa lateral à direita. Se estiver no celular, a caixa de inscrição está no rodapé. Obrigada! 🙂

Como citar: Kuschnir, Karina. 2017. “Modelo viva”, Publicado em karinakuschnir.wordpress.com, url: http://wp.me/p42zgF-29u. Acesso em [dd/mm/aaaa].


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Memória visual, espaços e cotidiano – Ideia para aula lúdica (4)

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Ser professora, para mim, é viver numa eterna dúvida: será que tenho conseguido afetar positivamente meus estudantes? De vez em quanto a fortuna responde: sim! Pois imaginem minha felicidade quando um ex-aluno veio me pedir dicas para reproduzir uma aula do ano passado na turma em que é monitor. Como eu ainda não tinha escrito sobre essa atividade, pedi um tempinho para me organizar. Segue o plano para vocês (e para ele)!

Objetivos da aula:

. Produzir registros gráficos sobre o entorno do campus universitário, feitos pelos estudantes que o frequentam.

. Refletir (através dessa prática) sobre como lidamos com os espaços e caminhos por onde passamos cotidianamente, promovendo um debate sobre as várias dimensões de olhar, ver, enxergar, distinguir, conhecer, apreender, memorizar, registrar.

. Compreender que os mesmos espaços são percebidos e significados de formas diferentes pelos indivíduos, embora também possamos encontrar padrões mais coletivos de percepção.

. Empreender uma experiência de aula que gere conhecimento e transforme, nos fazendo sentir que aprendemos algo a partir de uma prática associada à reflexão.

. Lembrar que uma atividade de pesquisa pode ser divertida e interessante; pode ser vivida como um enigma, um quebra-cabeça que desvendamos.

. Fortalecer a autonomia: mostrar que podemos e devemos pensar a partir dos nossos dados, classificá-los e interpretá-los.

Material que precisa ser preparado antecipadamente:

. Antes da aula, é preciso tirar as fotografias que serão mostradas na segunda parte do exercício. No meu caso, fui com dois alunos de iniciação científica fazer o percurso no entorno do prédio onde trabalhamos. Tiramos 60 fotografias, procurando mostrar tudo que solicitamos aos estudantes que se lembrassem (ver a lista abaixo). Essa etapa de registro é por si só muito interessante. Mesmo que você não tenha alunos de iniciação científica, aconselho chamar dois ou três estudantes (ou colegas professores) para participar dessa etapa, pois a percepção de várias pessoas tornará mais instigante decidir o quê, e como, registrar. É importante que esse grupo não compartilhe a experiência com os demais alunos antes da atividade.

. Solicite aos alunos que levem lápis de cor ou canetinhas para a aula, mas não explique qual será a atividade. Bastam algumas cores básicas.

Material necessário para a aula:

. Canetas para quadro branco (ou giz, em caso de lousa tradicional).

. Fita adesiva ou fita crepe.

. Papeis A4 brancos. (Se possível, levar 1 folha para cada aluno.)

. Lápis de cor ou canetinhas. (É sempre bom ter um pequeno estoque de lápis-de-cor e canetinhas para os alunos que esquecem de trazer o material.)

. Notebook e Projetor de datashow.

. Pen drive com o conjunto de fotos preparado antecipadamente.

Dinâmica – Como conduzo a aula:

. Entrego uma folha de papel A4 para cada aluno. Peço que separem o material de desenho (canetas comuns e lápis de cor).

. Explico que o trabalho não tem certo ou errado e só conta como participação (ou seja, não é para nota!).

. Abordo o tema da aula: como lidamos com as informações visuais no nosso cotidiano? O que vemos? O que memorizamos?

. Escrevo no quadro o nome de 5 logradouros (o prédio da universidade e cerca de 4 a 5 ruas, praças, avenidas à sua volta). Peço aos alunos para desenharem, com caneta preta, um mapa contendo esses locais. A ideia é ocupar a folha A4 inteira.

. Não especifico como devem desenhar; deixo por conta da interpretação de cada um. Tento criar um clima de brincadeira, mas explicando que o trabalho é individual; o aluno não deve consultar os colegas.

. Em seguida, peço aos estudantes que comecem a registrar graficamente as informações listadas abaixo. É fundamental indicar 1 item de cada vez, esperando que todos tenham terminado de desenhar antes de anunciar o próximo. (Ou seja, os itens não devem ser escritos na lousa todos de uma vez.) A lista de temas e cores deve ser adaptada conforme o espaço onde a aula esteja sendo dada.

. Solicito aos alunos que registrem onde existem…

  • árvores e/ou plantas, utilizando a cor verde.
  • lixeiras, utilizando a cor laranja.
  • hidrantes, utilizando a cor vermelha.
  • monumentos ou estátuas, utilizando a cor rosa.
  • bancas de jornal e orelhões, utilizando a cor azul.
  • postes, fradinhos, bancos e mobiliário público em geral, utilizando a cor cinza.
  • grades, utilizando a cor marrom.
  • calçadas e texturas de pisos, utilizando a cor preta.
  • animais, música, comida etc. (A lista continua até esgotar os temas registrados nas fotos.)

. Divirtam-se com as expressões de desespero! Tem um lado muito engraçado de perceber o quanto somos cegos visualmente para coisas que sabemos que estão lá, mas não distinguimos exatamente onde estão, nem como são.

Vejam um exemplo de resultados baseados na memória de alunos, com o prédio do IFCS ao “centro”:

. Quando todos terminam, sugiro que guardem as canetas, para não ficarem na tentação de acrescentar algo. Em seguida, apresento as fotos dos espaços no Datashow. Primeiro, as mais gerais, depois, as imagens específicas dos itens da lista (árvores, lixeiras, monumentos etc.). Esse é outro momento de diversão geral, com muitos ah! e oh!, devido à comparação: fotografias x registros gráficos x memórias. Vejam o exemplo abaixo do registro do Tomás Meireles, um aluno experiente em desenho (à esquerda) junto a algumas fotos (à direita).

Além de adorar o desenho do Tomás, acho fascinante a comparação: a humanização da estátua (da figura e da escala),  a sensação de espaço ampliado (no desenho, por contraste com a foto), a presença do camelô de comida, a padronagem do chão, a posição da lixeira invertida (no desenho, à esquerda, na foto, à direita). Como nesse exemplo, muitos estudantes não registraram as duas grandes árvores que cobrem a fachada do prédio! Revejam: dos seis mapas mostrados acima, dois marcam com clareza a presença das árvores, dois trazem pontos verdes tímidos e dois não apontam árvore alguma na frente do edifício que frequentam cotidianamente.

Se tenho tempo, reúno todos os desenhos no quadro (colando com a fita adesiva) e peço aos alunos que venham à frente observar, comparar, percebendo as semelhanças e diferenças. É bem instigante comparar não só a presença ou ausência de elementos, mas também as proporções, formas e modos de ocupação dos espaços e dos registros.

Avaliação:

. No final da aula, solicito que todos escrevam na parte de trás do seu mapa uma pequena avaliação da experiência. A maioria registra que foi “difícil lembrar” dos lugares onde passam todos os dias. Uma aluna escreveu que ficou “surpresa” com a sua percepção “superficial” da cidade; o que outra estudante chamou de “olhar sem ver”. A bolsista de iniciação científica afirmou que, mesmo participando da sessão de fotos, esqueceu um monte de coisas na hora de desenhar. “A memória tem vazios” e “hierarquiza” a forma como lembramos,  escreveu outra aluna.

Acho que todos concordaram que “conhecer” é diferente de “saber que existe”, na expressão serena de um aluno, por contraste com a estudante que escreveu: “muito louco esse exercício, professora!” Um aluno explicou que conseguiu registrar os dados que se relacionavam com a bicicleta que usa para ir ao local, o que facilitou na lembrança dos pisos e equipamentos públicos, por exemplo. Vários apontaram essa característica: lembramos mais das coisas (e pessoas) que nos afetam diretamente. Um estudante anotou: “é impossível registrar a realidade em toda a sua complexidade; de forma que toda representação ou teorização é uma redução”. Sim, lembramos de “Funes, o memorioso“, famoso conto de Jorge Luís Borges.

Concluo com o texto do Tomás Meireles, o aluno que desenhou a estátua cor-de-rosa:

“Ao desenharmos a partir das nossas lembranças, temos a oportunidade de extrair um coeficiente estético de uma relação vivida. Desse modo, podemos traçar um contraste entre aquilo que sabemos e aquilo que achamos saber. Ao transportar isso para a antropologia, percebemos como podemos nos enganar a respeito da realidade que nos envolve constantemente.”

Espero que tenham gostado. Experimentem, mandem comentários, sugestões e notícias!

Ah, importante: a referência que me inspirou para construir esse exercício foi o texto abaixo. Coloquei no título um link para o PDF que fiz pois é um artigo difícil de achar. Boa leitura!

NIEMEYER, Ana Maria. “Indicando caminhos: mapas como suporte na orientação espacial e como instrumento no ensino de antropologia”, in: Além dos territórios: para um diálogo entre a etnologia indígena, os estudos rurais e os estudos urbanos. (Niemeyer e Godoy, Emília, orgs.). Campinas, SP, Mercado de Letras, 1998, p. 11-40.

Esse é o quarto post de uma série:

E talvez vocês gostem de outros posts com a tag mundo acadêmico.

Sobre o desenho: Depois de várias semanas, me aventurei a desenhar a árvore de que mais gosto do Largo de São Francisco de Paula, praça em frente ao IFCS (Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da UFRJ). É uma lindeza, magrela e gigante (quase da altura da igreja). Fiz parcialmente de memória, parcialmente olhando no Google Street View. Ontem voltei a olhá-la ao vivo e me admirei ainda mais com a sua leveza imponente. Sim, os pombinhos ficam minúsculos e até as pessoas ficam mínimas perto dela. Desenhei com uma canetinha Graphik Line Maker 0.1 Sépia, da Derwent, numa folha que ainda está vazia do caderno Stillman & Birman, Delta Series 8 x 10 polegadas.

Você acabou de ler “Memória visual, espaços e cotidiano – Ideia para aula lúdica (4)“, escrito e ilustrado por Karina Kuschnir e publicado em karinakuschnir.wordpress.com. Se quiser receber automaticamente novos posts, vá para a página inicial do blog e insira seu e-mail na caixa lateral à direita. Se estiver no celular, a caixa de inscrição está no rodapé. Obrigada! 🙂

Como citar: Kuschnir, Karina. 2017. “Memória visual, espaços e cotidiano – Ideia para aula lúdica (4)”, Publicado em karinakuschnir.wordpress.com, url: http://wp.me/p42zgF-297. Acesso em [dd/mm/aaaa].


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Os bastidores do blog

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“Não compare os bastidores da sua vida com a fachada da vida dos outros.”

Taí uma frase que preciso colar na parede na frente do meu computador! Não é que a gente faz isso o tempo todo? Achei uma boa síntese do mundo atual o artigo do Seth Stephens-Davidowitz, no New York Times, sobre como as pessoas são diferentes nos posts no Facebook e nas perguntas que fazem ao Google. Na vitrine somos felizes, amorosos e alegres; no cantinho escondido da janela de buscas, somos doentes, confusos e melancólicos. É muito contraste, conclui o autor, citando o conselho dos Alcoólicos anônimos que destaquei acima (no original,  “Don’t compare your backstage to other people’s front stage”). Por coincidência, no mesmo dia, a artista Liz Steel escreveu sobre as dificuldades em montar um curso online começando com uma versão bem-humorada da máxima: “Don’t compare your insides to other people’s outsides” (algo como “não compare seu mundo interno com a aparência externa dos outros”).

Pensei em aproveitar o tema para responder uma dúvida que já ouvi de várias pessoas: como é o dia-a-dia de manter o blog?

1) Faz-de-conta  — “Várias” pessoas me escrevem…? Foram só *cinco* que me perguntaram sobre isso, duas por escrito e três pessoalmente, vai ver até por educação… Alguns autores (eu inclusive) inflam seus textos com esse tipo de palavra genérica sobre os seus leitores — muitos, vários, diversos, um monte! — deixando no ar uma aura de sucesso. Esse tipo de recurso é mais velho que a vovozinha, né? Não julgo, porque às vezes também caio nessa besteira. É uma forma de não desanimar por falta de torcida.

2) Apenas 3% ! —  Dos 149 posts já publicados aqui, apenas cinco (3%) têm uma visitação alta para os meus padrões (de 10 a 35 mil vistas), respondendo por quase 80% das estatísticas. Portanto, 97% do tempo escrevo consciente de não ter tantos leitores. São aproximadamente 200 a 1000 visualizações por post, atualmente. Segundo o que consigo ver com o meu vínculo gratuito no WordPress, as médias mensais foram subindo com os anos, de 1.500, 3000, 5000,  até as cerca de 6 mil vistas por mês atuais, exceto nos meses de posts mais lidos, com médias de 10 a 30 mil. Os números de visitantes são cerca de 30% menores que esses.

3) Zero centavos — Nunca ganhei um tostão com o blog e estou feliz assim. Não aconselho apostar a vida em “viver de blog”. Conheço autores super bem sucedidos, que aparecem em televisão, tem anunciantes e tudo, e mal conseguem pagar a conta de luz com os rendimentos gerados. O segredo para fazer dinheiro na internet é por outros caminhos.

4) Ganhos — Desenhar, escrever e publicar toda semana é um trabalho voluntário que me dá um retorno emocional e intelectual impossível de medir em números. Sei por outras experiências que trabalhos voluntários nos apaixonam e são o melhor investimento da vida. Abrir espaço na agenda da “vida real” para fazer esse tipo de coisa é difícil , cansativo, exigente, chato… mas compensa, demais.

5) Desafio — Desde pequena, eu gostava de escrever em diários, mas percebia que 99% dos meus textos eram reclamações e tristezas. É tão mais fácil registrar o que dá errado! A escrita alivia. (Aliás, uma dica paralela: quando estiver com raiva de algo ou de alguém, escreva uma longa mensagem e mande apenas para o seu próprio e-mail.) Quando meus filhos nasceram, comecei a fazer diários para eles, tentando escrever de uma forma positiva, como se dissesse: “crianças, bem vindas ao mundo, valeu a pena ter nascido!”  Esse foi e é um dos desafios que me faz manter o blog até hoje: falar da vida (e do mundo acadêmico) de uma forma positiva e bem-humorada, sem deixar de ser crítica. Haja criatividade!

6) Prática — Na real, o dia-a-dia de produzir o blog desde novembro de 2013 tem sido caótico. Não faço reunião de pauta comigo mesma, não escrevo com antecedência, não preparo tudo bonitinho no Word antes, não desenho com calma, não faço nada que mandam os manuais dos blogueiros profissionais. Sigo a intuição e reviso bastante depois. Já tentei encontrar um horário, um dia certo, um sistema, mas a vida atropela sempre. Essa semana, por exemplo, estou dando quase 20 horas de aulas presenciais (faltam 3 hoje à noite ainda). Continuo porque o processo me faz bem. Sabem a sensação de terminar uma atividade física boa? Ou a de terminar um artigo/capítulo da tese? É por aí.

Às cinco queridas leitoras que me estimularam a escrever esse post: espero ter ajudado nos planos bloguísticos de vocês! Faltaram alguns temas, mas já estou atrasada para um compromisso! Melhor feito do que perfeito, como diria a vovó Trude. Escrevam, desenhem, fotografem, publiquem, sim! O mundo agradece.

6 Coisas impossivelmente-legais-lindas-e-interessantes da semana (inclui as fontes citadas acima):

* A citação que abre o post está no artigo “Don’t Let Facebook Make You Miserable” do Seth Stephens-Davidowitz, no New York Times.

* Cheguei ao link acima através da newsletter Meio, enviada para assinantes por e-mail todos os dias às 7 da manhã (grátis).

* O texto da artista Liz Steel mencionado está aqui, aliás num blog ótimo para todos que se interessam por aquarela e diários gráficos.

* Li um artigo curtinho, com imagens lindas e interessantes, sobre a história da fotografia, na Revista da Fapesp. Vou atrás de todas as sugestões de leitura no final.

* Do antropólogo B. Malinowski, descobri na seção “reprints” da revista HAU, o simpático “Anthropology is the science of the sense of humour” (acesso gratuito).

♥ Para quem está com saudades da Alice: ela está fofa e manda beijos!

Sobre o desenho: Imagem mostrando os “bastidores” aqui de casa, feita com caneta-pincel Tombow (não sei o número porque descascou) num caderno de rascunho que deixo na sala para desenhar quando a TV está ligada.

Você acabou de ler “Os bastidores do blog“, escrito e ilustrado por Karina Kuschnir e publicado em karinakuschnir.wordpress.com. Se quiser receber automaticamente novos posts, vá para a página inicial do blog e insira seu e-mail na caixa lateral à direita. Se estiver no celular, a caixa de inscrição está no rodapé. Obrigada! 🙂

Como citar: Kuschnir, Karina. 2017. “Os bastidores do blog”, Publicado em karinakuschnir.wordpress.com, url:  http://wp.me/p42zgF-215. Acesso em [dd/mm/aaaa].


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Na volta de Lisboa

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Tenho um problema sério com viagens. Sabe criança de 7 anos na hora do banho? Fico igual. Entro no modo procrastinação, esqueço da mala, me xingo, me arrependo, me saboto. Não sei onde foi parar dentro de mim a pessoa que aceitou a ideia de viajar. Achar um motivo para cancelar o embarque passa a ser meu objetivo de vida.  Mas, como a criança de 7 anos, que também chora para não sair do chuveiro, depois que estou viajando, não quero voltar.

Em janeiro/2017, passei por uma dessas experiências. Foi dificílimo partir, e pior ainda regressar. Exceto pelos problemas de retina (que arranjei no stress pré-viagem), os quinze dias que passei em Lisboa, só desenhando e conversando sobre desenho, foram tão maravilhosos que ainda não consegui processar. Tenho um caderno cheio de desenhos que não escaneei, e um monte de experiências sobre as quais também não escrevi!

Imagino que vocês já sentiram essa paralisia. Quando estamos diante de algo grande demais, e parece mais fácil abandonar do que dar conta. Opa, claro que vocês me entendem. É igualzinho a projeto de mestrado, dissertação, tese, diário de campo e até trabalho de curso!

Então, mesmo depois de enrolar quase dois meses, resolvi que já estava na hora de falar dessa viagem aqui no blog.  Iniciando pelo fim, escaneei o último desenho que fiz, com as coisinhas familiares da casa que me receberam bem: a cama, o alto verão, o telefone de Minion que comprei com a Alice nas Lojas Americanas logo na chegada, o cartão da clínica onde tratei do olho, o sketchbook onde me refugiei nos primeiros dez dias, sem enxergar direito. Tudo isso aconteceu no tumulto da volta às aulas das crianças, todos nós nos acostumando a acordar às 6:15 da manhã pra sempre. Os objetos estão desproporcionais, a cola gigante, o caderno menor do que a tesoura. Minha parte preferida foi desenhar a capa da colcha que — só agora me dou conta — veio também de Portugal, de presente, há uns anos atrás. É um dos objetos que mais amo da minha casa.

Ufa. Agora que já comecei, prometo escrever em breve sobre os encontros e as atividades mais interessantes da viagem.

3 Felicidades possíveis:

♥ Vida prática: Alice me ensinou a usar o Whatsapp pelo computador e também a enviar a minha localização por Whatsapp do celular (está entre as opções de anexar, no símbolo de clipe).

♥ As crianças descobriram um jogo interessante, o GeoGuesser. O computador te coloca num local do mundo e você tem que adivinhar onde está, andando pelas ruas, como no modo 3D do Google maps.

♥ Alice apaixonada por fazer mágica com cartas, anda aprendendo um monte no Youtube. Distração saudável para quem tem pequenos em casa.

Sobre o desenho: Linhas feitas com canetinha Pigma Micron 0.05 e 0.1 em um caderno Stillman & Birn, Delta series, 8 x 10 polegadas, presente que ganhei da minha irmã ano passado. Todas as imagens foram coloridas com aquarela (Winsor&Newton e outras marcas), exceto pelo adesivo de Mentos, colado na página direto da embalagem. O celular de Minion é um dual chip, custou 99 reais, e está funcionando perfeitamente até agora! Virou o telefone fixo da casa, pré pago e baratinho.

Você acabou de ler “Na volta de Lisboa“, escrito e ilustrado por Karina Kuschnir e publicado em karinakuschnir.wordpress.com. Se quiser receber automaticamente novos posts, vá para a página inicial do blog e insira seu e-mail na caixa lateral à direita. Se estiver no celular, a caixa de inscrição está no rodapé. Obrigada! 🙂

Como citar: Kuschnir, Karina. 2017. “Na volta de Lisboa”, Publicado em karinakuschnir.wordpress.com, url: http://wp.me/p42zgF-1Xi. Acesso em [dd/mm/aaaa].


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5 razões para dizer sim e Maio/2017

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Certa vez, minha amiga Claudia contou que sua neta mais velha era o oposto dela: adorava colocar salto alto, usar frufrus e passar maquiagem. Quando a avó hippie lhe perguntou porque ela fazia isso, a resposta foi curta e direta: “Porque sim, porque eu gosto, vó!”

Que simples. Isso de agradar a todo mundo é uma areia movediça que engole o nosso cérebro. No cotidiano, no mundo acadêmico, na vida. Com minha mania de querer justificar o que faço com base nos Valores Maiores do Mundo, vivo atormentada. Tocar violão com a Alice, comprar presentinho para os amigos, ir para a academia, desenhar e escrever para o blog — tudo que não se encaixa na categoria “útil/obrigatório” na minha agenda vira um debate interno: por que, por que, por que? Ainda estou aprendendo a dizer: “porque sim, porque eu gosto, porque me faz bem”. Meninas que me leem: vamos treinar dizer essa frase em voz alta? Aí vai em destaque:

“Porque sim, porque eu gosto, porque me faz bem.”

Normalmente, numa revisão de texto bem-feita, eu cortaria o pronome “eu” dessa frase, já que há uma redundância em escrever “eu gosto”. No entanto, resolvi deixar redundante mesmo. Afinal, na contramão do mundo narcisista e egocêntrico, aqui no blog somos uma turma de problemáticos que precisa aprender a se aceitar.

Portanto, vamos treinar dizer, em várias situações:

  1. Vou fazer [tal e tal coisa] porque sim, porque eu gosto, porque me faz bem.
  2. Desejo [isso e isso] porque sim, porque eu gosto, porque me faz bem.
  3. Vou me empenhar [em tal e tal coisa] porque sim, porque eu gosto, porque me faz bem.
  4. Vou me doar [para essa causa] porque sim, porque eu gosto, porque me faz bem.
  5. Gosto [dessa pessoa] porque sim, porque eu gosto, porque me faz bem.

E aí, conseguiram? É simples, é bobo, mas é forte, né? Notem que acrescentei na frase da neta da minha amiga a expressão final “porque me faz bem”. Sem esse detalhe, nosso eu destrambelhado correria o risco de sair por aí fazendo muitas, muitas besteiras. Não sei o de vocês, mas o meu com certeza. Por isso adicionei esse lembrete; para não me esquecer de que nem tudo que gosto, ou acho que gosto, me faz bem; e, para essas situações, talvez seja melhor dizer um singelo “não”.

O calendário de maio — esse mês que é o preferido de tantas pessoas e também um dos meus — foi inspirado num acontecimento das últimas semanas. Ajudando a Alice a arrumar as coisas da escola, percebemos que o lápis-de-cor vermelho dela estava no finzinho. Fui espiar na lata em formato de Bob Esponja onde guardamos lápis-de-cor usados. Ao procurar algum da cor vermelha, só achei cotoquinhos antigos, pequenos pedaços de memórias da vida das crianças. Fiz até uma foto para mostrar pra vocês.

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Ainda bem que aquela Marie Kondo não faz sucesso aqui em casa. Ela jogaria tudo isso no lixo. Nós não conseguimos. Não foi à toa que outro dia a Alice tirou dez no trabalho autobiográfico para a aula de história. Um dos critérios de avaliação era a diversidade de fontes. Nem preciso dizer que tínhamos ticket de teatro infantil, ingresso de museu e até xerox do passaporte português do Ulisses. Imagina a felicidade do professor! E da mãe! Quanto ao lápis vermelho: consegui comprar um avulso na papelaria JLM, no Largo do Machado.

Sobre o desenho: Para o desenho no calendário, fiz os mini-lápis com uma canetinha preta de nanquim permanente Pigma Micron 0.2. Depois o Antônio me ajudou a escolher as cores e colorir. Tentamos sair do óbvio, explorando a caixa de Polychromos da Faber-Castell, utilizando ocres, sépias, sanguínea, turquesa, verde cobalto, entre outras. No final, fiz as sombras com uma caneta pincel Tombow cinza n.79.

Para imprimir o calendário, cliquem no .pdf ou na imagem acima (em .jpg).

6 Coisas impossivelmente-legais-bonitas-interessantes-ou-dignas-de-nota das últimas semanas:

♥ Adorei o post Coordenando, escrito pelo João Marcelo Maia, avaliando o aprendizado positivo na sua gestão como coordenador do curso de Ciências Sociais da FGV do Rio. Acho importantíssimo valorizar o trabalho administrativo feito por professores, num campo que o torna invisível pelos critérios de agências e fóruns científicos. Li uma parte para minha turma no IFCS e tivemos uma boa conversa sobre o tema da saúde mental no mundo universitário. Em breve, conto aqui.

♥ Continuo na “dieta” de abstinência do Facebook e Instagram. Eu já tinha um uso parcimonioso, mas ando numa de escrever e ler mais, com menos interrupções. Também gosto da ideia de parar de enriquecer Zuckerberg e cia. Confesso que não sinto saudades dos feeds, mas sim dos amigos que fiz por lá… ainda estou na dúvida se devo (e como) voltar.

♥ Por falar em escrever mais, retomei a prática de escrever pelo menos 300 palavras todos os dias (de semana!). Utilizei um método assim na época em que escrevi as teses de mestrado e doutorado. É impressionante como dá para cumprir esse hábito, às vezes, em apenas 15 minutos! Além do prazer de “ter escrito”, acabo dando conta de registrar logo algum acontecimento do dia anterior que pode ser útil depois, como resumo de aulas dadas, ideias para o blog, aulas e planos futuros etc. Claro que, em alguns dias, fico empacada, digitando bobagens e tudo bem.

♥ Descobri um guia de Emojis fofo para usar no Todoist, o aplicativo que uso para anotar tarefas. Para quem gosta desse tipo de utilidade inútil, também existem guias de códigos-Alt para digitar símbolos em teclados comuns (como os coraçõezinhos — Alt-3 — dessa lista).

♥ Consegui convencer as crianças a dar uma chance à série Abstract: the art of design do Netflix. Muito simpática, pelo menos o primeiro episódio, com momentos que misturam documentário e animação.

♥ Pesquisando para dar uma aula, acabei assistindo a divertida palestra “Sua linguagem corporal molda quem você é“, da Amy Cuddy no TED Talks. Impossível não terminar sorrindo! ☺

Você acabou de ler “5 razões para dizer sim e Maio/2017“, escrito e ilustrado por Karina Kuschnir e publicado em karinakuschnir.wordpress.com. Se quiser receber automaticamente novos posts, vá para a página inicial do blog e insira seu e-mail na caixa lateral à direita. Se estiver no celular, a caixa de inscrição está no rodapé. Obrigada! 🙂

Como citar: Kuschnir, Karina. 2017. “5 razões para dizer sim e Maio/2017”, Publicado em karinakuschnir.wordpress.com, url: http://wp.me/s42zgF-lapis. Acesso em [dd/mm/aaaa].