Karina Kuschnir

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Caderninho de consumo para pensar Cultura e Razão Prática de Sahlins – Ideia para aula lúdica (5)

Lais Caderninho Consumo_p1

“Nenhum objeto, nenhuma coisa é ou tem movimento na sociedade humana, exceto pela signficação que as pessoas lhe atribuem.” (M. Sahlins)

Pessoas queridas, aí vai uma nova ideia para aula lúdica. A base é o texto  “La pensée bourgeoise: a sociedade ocidental como cultura”, de Marshall Sahlins, um dos capítulos do livro Cultura e razão prática (Ed. Zahar). Eu já tinha uma apresentação com imagens e citações para essa aula, mas em 2019-1 inventei um “Caderninho de Consumo”, feito pelos próprios alunos, cujo conteúdo depois é debatido em sala e por escrito. A proposta dessas aulas lúdicas é compreender conceitos antropológicos por meio de atividades divertidas, que valorizem a autonomia de criação e reflexão dos estudantes.

Segue o “plano de aula” que prevê dois encontros e um trabalho escrito. Os arquivos de apoio também estão abaixo. Fiquei feliz de fazer um post útil, pra variar. Dá trabalho, mas é um dos meus objetivos de vida e do blog. 😉

Objetivos da proposta:

. Produzir manualmente um “Caderninho de Consumo” para o registro de todos os itens consumidos pelos estudantes durante uma semana.

. Refletir (através dessa prática) sobre como e quais tipos de coisas ou situações consumimos, prestando atenção em seus significados, classificações e regularidades nos espaços e tempos do cotidiano.

. Perceber que existem diferentes tipos de consumo individual, mas também padrões coletivos. Buscar entender esse ponto através do compartilhamento das experiências da turma primeiro; e depois pelos argumentos do texto.

. Empreender uma experiência de aula que gere conhecimento e transforme, nos fazendo sentir que aprendemos algo, ou seja, realizar uma prática associada à reflexão.

. Lembrar que uma atividade de pesquisa pode ser divertida e interessante; pode ser vivida como um enigma, um quebra-cabeça que desvendamos.

. Fortalecer a autonomia: mostrar que podemos e devemos pensar a partir dos nossos dados, classificá-los e interpretá-los.

Preparação antecipada:

. É bom a professora treinar fazer o caderninho antes, seguindo o tutorial e/o os vídeos indicados abaixo.

. Caso seja possível, treine um estudante para ser monitor nessa aula, pois ajuda ter apoio para orientar os alunos e fazer os cortes.

Material necessário para a Aula 1:

. Papeis A4 brancos (1 folha por estudante, mais algumas extras).

. Algumas tesouras

Material necessário para a Aula 2 (que deve ocorrer 7 dias depois):

. Notebook e Projetor de datashow, além de um pen drive com o PDF indicado abaixo.

Dinâmica da Aula 1 – Como conduzo:

. Entrego uma folha de papel A4 para cada aluno e demonstro cada etapa das dobraduras bem devagar. Espero que todos completem uma etapa antes de ir para a próxima, e auxilio no corte do papel. Segue o tutorial abaixo em imagem e em formato .pdf para imprimir:

caderninhoA4_p

. Sempre lembro que não precisa ficar perfeito, e ofereço uma folha nova se alguém fica se queixando que o seu está “muito ruim”.

. Solicito que deixem a capa em branco e escrevam (com letra pequena) nas 7 páginas seguintes as datas dos próximos 7 dias. (Por exemplo, o caderninho da Laís, que abre o post, foi feito numa aula no dia 26/03/19. Na segunda página, vocês podem ver que ela anotou 27/03, e foi seguindo nas demais: 28/03, 29/03, 30/03/ 31/03, 01/04 e 02/04). É importante preencher as datas ainda na aula para os alunos saberem exatamente os dias em que terão que registrar no caderno. Outro detalhe: colocar o nome na primeira ou na última página.

. Sobre os registros, tento criar um clima de brincadeira, sugerindo que anotem, colem coisas, guardem notas fiscais, usem cores, etiquetas etc. 

. Observo que consumir é diferente de comprar. Podemos consumir algo que nos foi dado de presente, ou feito por alguém da família por exemplo. É um diário sobre isso.

. Trocamos ideias sobre o que eles acham que vão consumir nos próximos dias: surgem comidas, remédios, passagens de transportes, impressão de pdfs ou xerox, e também presentes, roupas, bebidas, ingressos para eventos e até substâncias consideradas ilícitas. Vale também consumo de celular, aplicativos, Uber etc.

. Peço que leiam o capítulo do Sahlins durante a semana em que estiverem fazendo o diário.

Dinâmica da Aula 2 – Como conduzo:

. Mando uma mensagem para a turma lembrando que é imprescindível levar o caderninho e ler o texto do Sahlins para participar dessa segunda aula.

. Abaixo, vejam o exemplo do caderno da Laís Batista Passos, que cedeu suas imagens para esse post (obrigada!). A disciplina era Questões Antropológicas Contemporâneas para o curso de Licenciatura em Ciências Sociais do IFCS/UFRJ, mas a Laís é do curso de Design. Seu caderninho reflete uma familiaridade com a produção visual, a colagem e o desenho que a maioria da turma não tinha, claro. Essas imagens me ajudam a demonstrar a proposta aqui no blog, mas fazer um caderno “bonito” não é o objetivo principal da aula.

Lais Caderninho Consumo_p2

. Para começar, peço que os alunos falem sobre o que chamou sua atenção durante o processo. Solicito que leiam parte de suas anotações para a turma. Tivemos momentos bem divertidos sobre a diferença entre finais de semana e dias úteis, sobre gastar tudo num dia com os amigos e depois não ter dinheiro pro ônibus, sobre rotinas e vícios etc.

. Depois, sugiro que eles troquem caderninhos entre si. Geralmente, entre os amigos mais próximos, se as anotações forem muito pessoais.

. Em seguida, passo à apresentação do Power Point, que traz frases do Sahlins e imagens que busquei para dar visualidade aos argumentos do autor.

. Segue para download a minha sugestão de Apresentação do texto em aula.

. Não vou explicar aqui os principais pontos do texto, pois já estão na apresentação acima.

. Ao longo da aula, continuo conversando com os estudantes sobre as anotações de consumo deles. (Em semestres anteriores, já fiz nessa etapa uma análise das roupas na turma. É uma atividade bacana, mas exige um grupo menor, com uma certa confiança coletiva que nem sempre temos no ambiente universitário atual.)

Trabalho escrito:

. Para amarrar o debate, peço que eles façam um trabalho escrito em casa (mas poderia ser em uma 3ª aula, com consulta), analisando o próprio “caderninho de consumo” em diálogo com o texto do Sahlins. (Prefiro pedir para casa para poder ler o trabalho digitado e não à mão.)

. Alguns alunos pedem para refazer o caderno, pois não se dão conta da sua importância (muitas vezes porque não leram o texto a tempo). Sempre deixo. Acho um ganho enorme quando um estudante quer reelaborar um exercício. Mesmo que a motivação seja a nota, para mim, significa um investimento afetivo (tanto por ser fruto de uma auto-avaliação, quanto pelo tempo dispendido em pensar e refazer a proposta).

. Na aula seguinte, peço que me entreguem o caderninho e um trabalho escrito digitado de cerca de 2 páginas. (Lembrete: levar clipes extras para a aula de receber caderninhos e trabalhos porque eles esquecem de juntar!)

Avaliação:

. Procuro avaliar se eles conseguiram compreender a teoria relacionando-a com a prática, de preferência, sem ficar apenas no plano individual. Esse é o meu principal critério como docente, principalmente em aulas que envolvem atividades lúdicas.

. Em geral, atribuo uma pontuação pequena para esses exercícios: de 2,5 a 3,0 pontos na primeira nota. Procuro avaliar se o estudante compreendeu o argumento central do texto, e se se empenhou em refletir e realizar a tarefa, incorporando as sugestões de temas e composição da aula 1. Não faço avaliação estética.

Espero que tenham gostado e que seja útil. Experimentem, mandem comentários, sugestões e notícias das aulas de vocês. Bom começo de semestre a todos! ☼

Sobre o texto da aula:  SAHLINS, Marshall. 2003 [1976]. “La pensée bourgeoise: a sociedade ocidental como cultura”, In: Cultura e razão prática. Rio de Janeiro, Zahar, p.166-203.

Material para download feito por mim:
Tutorial sobre como fazer o caderninho: baixar PDF.
. Apresentação sobre o texto de Sahlins: baixar PDF.

Links para tutoriais de caderninhos no YouTube:
• Em português: https://youtu.be/uICW1MXNR1E?t=53
• Em inglês: https://youtu.be/ptT6ixIwJbU

Esse é o quinto post de uma série sobre aulas lúdicas:

E talvez vocês gostem de outros posts com a tag mundo acadêmico.

Sobre o caderno da Laís: O caderninho que abre o post foi feito pela aluna de graduação em Design da UFRJ, Laís Batista Passos. Ela seguiu o tutorial em aula e depois fez desenhos à mão livre e colagens (capa, contracapa, roupa amarela, pedaço de papel). Cliquem nas imagens para ver maior!

Sobre o tutorial de como fazer o caderno: Desenhos feitos por mim, primeiro a lápis, depois passados a limpo com uma caneta de naquim descartável 0.5 da Derwent. Tracejado das dobras feito com canetinha Pigma Micron 0.2, setinhas azuis e corte vermelho com Pigma Micron 0.2, sombras internas e na tesoura com caneta pincel Tombow. Depois escaneei na Epson L396 e ajustei tudo no Photoshop, onde também fiz as legendas e o título. Espero que esteja fácil de seguir. Se não, escrevam as dúvidas nos comentários por favor.

Você acabou de ler “Caderninho de consumo para pensar Cultura e Razão Prática Sahlins – Ideia para aula lúdica (5)“, escrito e ilustrado por Karina Kuschnir e publicado em karinakuschnir.wordpress.com. Se quiser receber automaticamente novos posts, vá para a página inicial do blog e insira seu e-mail na caixa lateral à direita. Se estiver no celular, a caixa de inscrição está no rodapé. Obrigada! ☺

Como citar: Kuschnir, Karina. 2019. “Caderninho de consumo para pensar Cultura e Razão Prática Sahlins – Ideia para aula lúdica (5)”, Publicado em karinakuschnir.wordpress.com, url: https://wp.me/p42zgF-3Lj. Acesso em [dd/mm/aaaa].


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5 razões para dizer sim e Maio/2017

mai2017p

Certa vez, minha amiga Claudia contou que sua neta mais velha era o oposto dela: adorava colocar salto alto, usar frufrus e passar maquiagem. Quando a avó hippie lhe perguntou porque ela fazia isso, a resposta foi curta e direta: “Porque sim, porque eu gosto, vó!”

Que simples. Isso de agradar a todo mundo é uma areia movediça que engole o nosso cérebro. No cotidiano, no mundo acadêmico, na vida. Com minha mania de querer justificar o que faço com base nos Valores Maiores do Mundo, vivo atormentada. Tocar violão com a Alice, comprar presentinho para os amigos, ir para a academia, desenhar e escrever para o blog — tudo que não se encaixa na categoria “útil/obrigatório” na minha agenda vira um debate interno: por que, por que, por que? Ainda estou aprendendo a dizer: “porque sim, porque eu gosto, porque me faz bem”. Meninas que me leem: vamos treinar dizer essa frase em voz alta? Aí vai em destaque:

“Porque sim, porque eu gosto, porque me faz bem.”

Normalmente, numa revisão de texto bem-feita, eu cortaria o pronome “eu” dessa frase, já que há uma redundância em escrever “eu gosto”. No entanto, resolvi deixar redundante mesmo. Afinal, na contramão do mundo narcisista e egocêntrico, aqui no blog somos uma turma de problemáticos que precisa aprender a se aceitar.

Portanto, vamos treinar dizer, em várias situações:

  1. Vou fazer [tal e tal coisa] porque sim, porque eu gosto, porque me faz bem.
  2. Desejo [isso e isso] porque sim, porque eu gosto, porque me faz bem.
  3. Vou me empenhar [em tal e tal coisa] porque sim, porque eu gosto, porque me faz bem.
  4. Vou me doar [para essa causa] porque sim, porque eu gosto, porque me faz bem.
  5. Gosto [dessa pessoa] porque sim, porque eu gosto, porque me faz bem.

E aí, conseguiram? É simples, é bobo, mas é forte, né? Notem que acrescentei na frase da neta da minha amiga a expressão final “porque me faz bem”. Sem esse detalhe, nosso eu destrambelhado correria o risco de sair por aí fazendo muitas, muitas besteiras. Não sei o de vocês, mas o meu com certeza. Por isso adicionei esse lembrete; para não me esquecer de que nem tudo que gosto, ou acho que gosto, me faz bem; e, para essas situações, talvez seja melhor dizer um singelo “não”.

O calendário de maio — esse mês que é o preferido de tantas pessoas e também um dos meus — foi inspirado num acontecimento das últimas semanas. Ajudando a Alice a arrumar as coisas da escola, percebemos que o lápis-de-cor vermelho dela estava no finzinho. Fui espiar na lata em formato de Bob Esponja onde guardamos lápis-de-cor usados. Ao procurar algum da cor vermelha, só achei cotoquinhos antigos, pequenos pedaços de memórias da vida das crianças. Fiz até uma foto para mostrar pra vocês.

mai2017 foto lapis akc 2017-04-28

Ainda bem que aquela Marie Kondo não faz sucesso aqui em casa. Ela jogaria tudo isso no lixo. Nós não conseguimos. Não foi à toa que outro dia a Alice tirou dez no trabalho autobiográfico para a aula de história. Um dos critérios de avaliação era a diversidade de fontes. Nem preciso dizer que tínhamos ticket de teatro infantil, ingresso de museu e até xerox do passaporte português do Ulisses. Imagina a felicidade do professor! E da mãe! Quanto ao lápis vermelho: consegui comprar um avulso na papelaria JLM, no Largo do Machado.

Sobre o desenho: Para o desenho no calendário, fiz os mini-lápis com uma canetinha preta de nanquim permanente Pigma Micron 0.2. Depois o Antônio me ajudou a escolher as cores e colorir. Tentamos sair do óbvio, explorando a caixa de Polychromos da Faber-Castell, utilizando ocres, sépias, sanguínea, turquesa, verde cobalto, entre outras. No final, fiz as sombras com uma caneta pincel Tombow cinza n.79.

Para imprimir o calendário, cliquem no .pdf ou na imagem acima (em .jpg).

6 Coisas impossivelmente-legais-bonitas-interessantes-ou-dignas-de-nota das últimas semanas:

♥ Adorei o post Coordenando, escrito pelo João Marcelo Maia, avaliando o aprendizado positivo na sua gestão como coordenador do curso de Ciências Sociais da FGV do Rio. Acho importantíssimo valorizar o trabalho administrativo feito por professores, num campo que o torna invisível pelos critérios de agências e fóruns científicos. Li uma parte para minha turma no IFCS e tivemos uma boa conversa sobre o tema da saúde mental no mundo universitário. Em breve, conto aqui.

♥ Continuo na “dieta” de abstinência do Facebook e Instagram. Eu já tinha um uso parcimonioso, mas ando numa de escrever e ler mais, com menos interrupções. Também gosto da ideia de parar de enriquecer Zuckerberg e cia. Confesso que não sinto saudades dos feeds, mas sim dos amigos que fiz por lá… ainda estou na dúvida se devo (e como) voltar.

♥ Por falar em escrever mais, retomei a prática de escrever pelo menos 300 palavras todos os dias (de semana!). Utilizei um método assim na época em que escrevi as teses de mestrado e doutorado. É impressionante como dá para cumprir esse hábito, às vezes, em apenas 15 minutos! Além do prazer de “ter escrito”, acabo dando conta de registrar logo algum acontecimento do dia anterior que pode ser útil depois, como resumo de aulas dadas, ideias para o blog, aulas e planos futuros etc. Claro que, em alguns dias, fico empacada, digitando bobagens e tudo bem.

♥ Descobri um guia de Emojis fofo para usar no Todoist, o aplicativo que uso para anotar tarefas. Para quem gosta desse tipo de utilidade inútil, também existem guias de códigos-Alt para digitar símbolos em teclados comuns (como os coraçõezinhos — Alt-3 — dessa lista).

♥ Consegui convencer as crianças a dar uma chance à série Abstract: the art of design do Netflix. Muito simpática, pelo menos o primeiro episódio, com momentos que misturam documentário e animação.

♥ Pesquisando para dar uma aula, acabei assistindo a divertida palestra “Sua linguagem corporal molda quem você é“, da Amy Cuddy no TED Talks. Impossível não terminar sorrindo! ☺

Você acabou de ler “5 razões para dizer sim e Maio/2017“, escrito e ilustrado por Karina Kuschnir e publicado em karinakuschnir.wordpress.com. Se quiser receber automaticamente novos posts, vá para a página inicial do blog e insira seu e-mail na caixa lateral à direita. Se estiver no celular, a caixa de inscrição está no rodapé. Obrigada! 🙂

Como citar: Kuschnir, Karina. 2017. “5 razões para dizer sim e Maio/2017”, Publicado em karinakuschnir.wordpress.com, url: http://wp.me/s42zgF-lapis. Acesso em [dd/mm/aaaa].