Karina Kuschnir

desenhos, textos, coisas


9 Comentários

Londrinas – Ainda viajando (Parte 4)

metrogirl3p

“I am not a replacement. I am person.”

Passei a parte londrina da viagem pensando nas mulheres. Nos museus, no metrô, na biblioteca ou nas casas onde fiquei, conheci um monte. No único dia em que fui sozinha a um restaurante de verdade, perto da universidade, ouvi a frase escrita acima (no desenho vermelho). A conversa girava em torno das agruras da vida acadêmica e uma professora dizia para a outra: “Eu não sou uma peça de reposição. Sou uma pessoa!”

Quantas vezes nos sentimos assim? Eu queria levantar e abraçá-la! (Mas me contive.)

A primeira menina à esquerda falava francês com os irmãos e os pais, uma família de pele negra, todos lindos. Ficaram  tão felizes de ver o desenho! Os irmãos mais novos zoaram a irmã adolescente, tipo “ae, ela desenhou você… tá se achando!”, naquele jeito que nem precisamos saber a língua pra entender. Ela só ria, a mãe e o pai babavam as crias.

Nos desenhos azuis à direita, a perna de uma menina muito branca com uma tatuagem abaixo do joelho onde se lia “S U N S H I N E”. Me deu uma dó no coração por ela, pela busca daquele sol que parecia tão distante, mesmo no verão. Enquanto eu prestava atenção em um monte de suas outras tatuagens, ela tirou da bolsa um espelho grande, em formato de concha, verde água. Pareciam todos saídos de um filme preto e branco dos anos 1940 colorizado artificialmente umas décadas depois. Só o espelho e o batom tinham cor…

Numa viagem mais longa, com o trem vazio, desenhei o padrão do tecido do metrô, para não me esquecer do lugar onde passei tantas horas. No cantinho direito, embaixo, a real dos almoços da viagem: sanduíche e chá por 7 libras.

Nas casas onde fiquei, conheci londrinas de origens chinesa, indiana e inglesa. Essa última era a mais jovem e aflita; e tinha a casa mais bagunçada do universo, mesmo com faxineira vindo cuidar várias vezes por semana (financiada pela intensa atividade dela como hospedeira do Airbnb). A bichinha tinha uma bagunça atávica, do tipo com armários e geladeira entupidos de tudo que “um dia vai precisar”, mesmo que seja um molho vencido em 2013. Ela estava ansiosa com uma entrevista de emprego, para a qual treinou quatro dias seguidos, mas cuja resposta foi negativa, infelizmente.

Na moradia anterior, em Machester (oops, essa não é londrina), tive brevíssimos encontros com a chinesa-inglesa e seu marido inglês-inglês: tudo impecavelmente limpo, arrumado, silencioso. Para completar o clichê: um jardim zen ao fundo, também meticulosamente bem cuidado e verdejante. Felizmente, para eu não passar o resto da vida sonhando em ser como ela, na sexta-feira, ao chegar do evento, percebo algo estranho. Um furacão tinha passado por ali? Sem saber a origem da bagunça, vejo roupas pelo chão, ouço música alta, barulho de latas de cerveja, portas batendo, conversas até as 3 da manhã. No domingo, ao me despedir deles, arrisquei: “– Houve um adolescente por aqui?” E o Gary (o marido), muito sem graça: “–Sim… desculpe a bagunça… foi meu filho (do primeiro casamento) que veio passar o final-de-semana conosco…Ele é impossível!”

Na última hospedagem, fiquei os primeiros dias sozinha no apartamento-casa de uma londrina de pai indiano e mãe inglesa. A casa falava tanto da sua dona: no lugar do espelho do banheiro, um texto sobre os valores da vida. Na parede da sala, a linda vista combinava com fotos de paisagens nas paredes. Na escadaria, malas enfiadas num canto e um retrato da dona aventureira enrolada numa cobra. Mas a cozinha era quem mais me contava: aromas, temperos, livros de culinária e vidrinhos com iguarias a perder de vista. Vegetariana, vegana talvez, apaixonada por comida. Foi a única casa em que tinha azeite! (Nem no supermercado tem azeite. Só em restaurante italiano.) Quando ela voltou, na última noite, descobri: trabalhava com terapias nutricionais, algo assim. Deixei um cachinho de uvas de presente.

cbrontep

Do passado, conheci Charlotte Brontë (1816-1855) e um pouco de suas irmãs, todas escritoras famosas, mas cujos romances não li (ainda). Fiquei encantada com os documentos, cartas e retratos, principalmente os de autoria de Charlotte. Desde criança, ela brincava de escrever, produzir e ilustrar seus próprios livros. Antes de conseguir viver da escrita, aprendeu aquarela e fez carreira como professora, embora detestasse o isolamento e a falta de liberdade criativa da profissão. Foi publicada primeiro com pseudônimo masculino, até lutar para ter seu próprio nome de autora reconhecido.

Sobre os desenhos: Linhas feitas com canetinhas Pigma Micron azul, vermelha e preta num caderninho em formato japonês com papel comum feito pela Laloran para a marca Navigator, apoiadora do evento Urban Sketchers, onde estive em Manchester. Nas páginas de cima, carimbei a rosa vermelha e o buda preto numa loja Muji (que oferecia o mimo para clientes; mas eu não comprei nada e carimbei assim mesmo). Abaixo, no desenho da Charlotte, feito a partir de um retrato dela, colei um adesivo de florzinha que veio na embalagem de uma fita tipo washi tape.

Esse é o quarto post da série sobre a viagem que fiz a trabalho em jul-ago/2016:
Viagem anti-inveja (Parte 2)
Viagem anti-inveja (Parte 1)
A liberdade de desenhar – Viagem com-inveja (Parte 3)
Londrinas – Ainda viajando (Parte 4)

 


10 Comentários

Agosto/2016 em viagem anti-inveja

agosto2016p

Passo o ano inteiro invejando as pessoas felizes do Facebook, com suas fotos de praias, sorrisos e passeios mundo afora, enquanto balanço no metrô, morrendo de preguiça de trabalhar. Agora, sou eu que estou viajando, mas fiquem tranquilos: prometo que está tudo péssimo. Aqui chove fazendo sol, e faz sol quando chove. Ou seja, o guarda-chuva nunca está na sua bolsa quando você precisa.

A comida é tão apimentada que até uma sopa de legumes te faz beber 5 litros d’água. Admito, a água é de graça e potável da torneira, mas os restaurantes não têm comida depois das 21:00 horas e o excesso de tapetes dá alergia até em quem nunca espirrou. Os ônibus têm hora marcada para chegar, mas são tão silenciosos que você se distrai no celular e não percebe que chegaram. Quando nota, já foram, e lá se vão mais 7 minutos e meio até o próximo!

Você economiza ficando num quartinho do Airbnb, mas no dia seguinte descobre que têm passarinhos na janela para te acordar às 5:35 da manhã. A cerveja é quente, as casas são velhas, os sotaques são impossíveis e os eventos têm música tão alta que ninguém consegue conversar. As pessoas te humilham distribuindo cartões coloridos feitos no Japão e ainda por cima ficam naquele vai não vai estranho porque nunca sabem com quantos beijos se despedir. Os patrocinadores te enchem de brindes, você é obrigada a comprar os livros dos amigos e depois acaba com a coluna para arrastar uma bolsa com 19 quilos sabendo que, no final do dia, não haverá farmácia aberta para comprar Dorflex.

Os banheiros públicos têm água quente, a Universidade faz treinamento anti-incêndio e te oferece WiFi gratuita que só termina de funcionar muitos quilômetros depois. Ok, até seria bom se você não se arrependesse da fortuna que gastou colocando um chip importado no celular! Na televisão, mulheres normais, de cabelos brancos e sem maquiagem, apresentam programas sobre arqueologia em horário nobre. Ah, e não falei dos preços… Custa quase meio salário mínimo para ter um Riocard com nome de ostra por uma semana, e são tantas linhas de ônibus, metrô e trem, que você se sente na obrigação de acordar cedo e ir para algum lugar!

Viu, gente, nada de inveja. Se vocês estão no Rio, sofrendo com os estudos para as provas de mestrado ou com os bloqueios olímpicos, fiquem tranquilos pois minhas férias têm sido só trabalho e sacrifício…

Alguém adivinha onde estou? 😉

Segue o calendário de agosto! Tive que improvisar fazendo uma montagem no Photoshop com a imagem das bolinhas porque não tenho acesso a scanner daqui.

Vocês podem imprimir a imagem em .jpg ou em .pdf.

Este é o primeiro post da viagem que fiz a trabalho em jul-ago/2016:

Viagem anti-inveja (Parte 2)
Viagem anti-inveja (Parte 1)
A liberdade de desenhar – Viagem com-inveja (Parte 3)
Londrinas – Ainda viajando (Parte 4)


3 Comentários

É permitido descansar!

caesparaty

Que observar seja também aprender… Vamos descansar? Estamos precisando.

Sobre o desenho: Desenho de 2014, de cães fofos que encontrei durante o evento dos Urbans Sketchers em Paraty. Linhas com canetinha Pigma Micron 0.1 e aguadas feitas com waterbrush Kuretake e aquarelas Winsor & Newton, no caderninho Laloran.


10 Comentários

Drawing Land

setembro2014fb

Imaginem um lugar onde todos andam a olhar para cima e para baixo ao mesmo tempo; onde as pessoas se sentam em banquinhos minúsculos, munidas de seus cadernos e de instrumentos delicados e coloridos. Um lugar onde se pode ficar horas a fio numa atividade silenciosa, sob o sol ou sob a chuva, na calçada, na mesa ou no chão, e ninguém acha estranho. Um lugar em que se pode estar só, mas também se comunicar com facilidade, ainda que não se fale a mesma língua. Um lugar onde cadernos, papéis e cartões passam de mão-em-mão; onde se compartilham técnicas, materiais e ferramentas.

Imaginem um lugar onde não importa a idade, a cor, a religião, o sexo, a renda ou a nacionalidade. Um lugar onde um caderno é o passaporte; onde todos são iguais, mas ao mesmo tempo únicos, com direito a expressar seu olhar íntimo sobre o mundo, com suas cores, sua voz, seu ritmo…

Vocês podem não acreditar, mas esse lugar existe: é a terra do desenho! E eu estive lá na semana passada. Nosso encontro foi em Paraty, cidade histórica do Rio de Janeiro, durante o 5o. Simpósio Internacional dos Urban Sketchers. Foi mágico passar seis dias nessa pequena “Drawing Land” com seus adoráveis 243 habitantes.

Vai demorar para eu processar tudo que aprendi nessa semana. E mais ainda para acreditar na incrível recepção que recebi ao apresentar o projeto sobre antropologia e desenho que venho desenvolvendo. Acho que nunca estive diante de uma platéia que compartilhasse tão intimamente das mesmas motivações.

Aos poucos, prometo que vou publicando aqui no blog mais desenhos e anotações que produzi antes, durante e depois do evento! Abaixo, as primeiras páginas de anotações da excelente atividade de mapeamento gráfico ministrada por Richard Alomar.

richardalomar

Novas da Alice

Eu [brincando de jornalista] — Alice, como você se sente tendo uma mãe que dá palestra em inglês em Paraty?

Alice — Ah, mãe, legal. Mas eu preferia que fosse em Nova Iorque!

E na terça à noite:

Alice — Mãe, preciso faltar a escola amanhã!

Eu — Por que, Alice?

Alice — Ah, porque sim!

Eu [naquele tom de conta-outra] — A-li-ce…

Alice — É o meu Neuer, mãe!!! Ele vai jogar contra a Argentina!

Sobre o desenho: Na parte de cima do calendário de setembro, redesenhei coisinhas que vi em Paraty durante a já mencionada atividade proposta por Richard Alomar. Para a parte de baixo do calendário, fui atrás das portinhas de Paraty que registrei em fotos e achei na internet. Tudo feito com canetinha Pigma Micron 0.05 e colorido com aquarela e lápis de cor Prismacolor.


14 Comentários

Alergia aos imperativos

blog18032014b

Não sei bem como começou a minha alergia aos imperativos. Talvez com a mania da minha avó de ir a videntes, que ela chamava carinhosamente de “pitonisas”. Ciganas, mães de santo, leitoras de cartas e de borras de café; mas também padres, rabinos, monges, budistas e médiuns. Todos tomavam café com ela.

Era uma espécie de novela. Você sentava e ouvia a previsão dos negócios, das doenças, dos casamentos, da chegada do sucesso ou das viagens. Tinha suspense, intervalos e próximos capítulos. Às vezes ela brigava com um deles, decepcionava-se. Ou ao contrário: elegia um guru, virava macrobiótica ou crente do dia para a noite. Ninguém se metia. “Coisas da vovó”. Duravam pouco e ela logo voltava para seu mix místico.

Eram gentes de todos os tipos, que nos levavam a visitar bairros longínquos, onde entrávamos nas suas casas ou templos, com respeito, fossem pretos, brancos, pobres, ricos, velhos, jovens, simples ou complexos. Alguns viravam conselheiros, confidentes, e até os melhores amigos pela vida toda.

Eu adorava minha avó, e me apaixonei pelo seu sonho de prever o futuro. Acompanhava suas excursões e, mais crescida, comecei a arriscar algumas visitas sozinha. Lembro de uma cigana, no alto da ladeira dos Tabajaras — olha o João do Rio aí — numa casa surpreendentemente branca e cheia de tapetes. Ela foi firme: eu ia “casar com um estrangeiro, que gostava de papéis e tinha olhos azuis.” Outra vez, fui numa senhorinha muito distinta que lia borras de café. E lá vinha o futuro: era certo o meu casamento com um homem alto, “estrangeiro e de muito estudo.” Variava a ordem, mas a previsão era consistente! Fazer o que? Cliente meio loira, com sobrenome estranho e cara de boa aluna (já de óculos desde cedo)…

Só que não. Eu não queria casar: queria ser grande (para bater nos meus irmãos) e fugir de casa para escrever e desenhar (lembram?).

Admito: ganhar na loteria não era uma má ideia. Será que elas não poderiam ver os números para mim? Não era para isso que serviam as numerólogas, tão na moda nos anos 1980? Não. Elas serviam para dizer que você deveria mudar de nome. Era só eu me chamar “Karynnah” e tudo ia dar certo.

Até que caiu a ficha. Nada mais de videntes e bilhetes da sorte. Confesso que pensei em casar com o meu primeiro namorado, bem moreninho, de olhos pretos e péssimo aluno. (Se eu não confessar, minha irmã vai me delatar nos comentários…) Felizmente acordei a tempo e acabei casando com um ator de teatro no Circo Voador.

Foi assim que peguei alergia aos imperativos. Não, não por culpa do ator; e nem do pai, nem da mãe! Meu pai não estava nem aí (literalmente). E minha mãe foi revolucionária à sua moda nos anos 1970. Acreditava no construtivismo e seu lema estava mais para “se vire” do que “me obedeça”.

A alergia veio mesmo é das previsões de pitonisas e dos manuais de auto ajuda ruins. Eles te dizem: “leia, cuide, seja, trabalhe, estude, corra, compre, medite, tome, faça”. Fico logo empolada: — “Ah, vão se catar. Vão mandar na vovozinha, que eu odeio que mandem em mim.” E também não mandem na minha falecida avó, pois no fundo ela ouvia a todos, mas só fazia o que queria.

(Ok… Não fica bem uma antropóloga escrever isso… Afinal, nas ciências sociais passamos metade das nossas vidas falando para os alunos sobre o poder da “coerção social” ou das “leis de ferro da oligarquia” — que eram de bronze, no original, mas o tradutor deve ter achado o material fraquinho, e pôs logo o ferro para assustar. Mas, convenhamos, se estamos ensinando sobre essas forças “invisíveis” há mais de um século, elas não são tão invisíveis assim, né? Até minha filha de oito anos sabe que o Obama lê o Facebook dela.)

Quando se liga o “radar anti-imperativos”, é como tomar uma vacina. Nenhum salvador de plantão te pega; nem vidente que quer te casar com turista, nem jogos de azar, nem anúncio da coca-cola, nem filósofo francês que descobriu o Graal, nem autor da moda que anuncia a solução final da antropologia.

Não é desacreditar de tudo. É tomar distância de quem profetiza que agora “o mundo tem que ser assim”.

Prefiro desenhar, contar histórias… e, principalmente, não mandar na vida de ninguém. 

Sobre os desenhos: Pedacinhos de um caderno de campo feito em Lisboa em 2013, para homenagear meu namorado, o homem mais gentil, doce, alegre, criativo e lindo da face da terra; e também muito, muito alérgico, como eu, a todos os imperativos e vontades de comandar as pessoas. Utilizei canetinhas Unipin 0.2, aquarela e lápis de cor, num caderninho de papel comum, mas com capa linda, e que agora só é vendido na Inglaterra… Aliás, se alguém tiver um endereço UK para me ajudar a comprar outros, agradeceria muito! *__*  (Para todos com mais de 18 anos: essa carinha à esquerda foi sugerida pelo Antônio. É um emoticon que significa “olhinhos brilhando”. Eu tinha digitado outro que, segundo ele, era impublicável… Vai saber!)

Agradecimentos: Na semana passada tive os meus cinco-mil-cliques-de-fama… Agradeço a gentileza dos que leram, likearam, compartilharam, comentaram. Prometo que não vou sucumbir ao sucesso, nem tentar postar coisas interessantes por várias semanas, de modo que possamos voltar aqui aos trinta e dois leitores e às bobagens de sempre. Lições demais também atrapalham!


17 Comentários

Saudades das saudades de Oxford

Em janeiro de 2005, fiquei três semanas longe do meu filho Antônio, na época com quase quatro anos. Era a primeira vez que nos afastávamos desde que ele tinha nascido. Lembrei desse período porque acabo de voltar do aeroporto, onde fui deixá-lo, junto com a irmã e a avó, para passarem 17 dias de férias nos Estados Unidos com o pai. Já estou com saudades… Sim, sou uma mãe grudenta…

Resolvi recuperar o diário que fiz para ele durante a viagem a Oxford (Inglaterra) em 2005 porque lembrei das saudades imensas que senti e de alguns desenhos e histórias engraçadas, que também contei para alguns amigos por e-mail.

**Aprendendo a Sair de Casa em apenas OITO Etapas**

 desenhos 2005 oxford 1

Etapa 1: Colocar meias, roupa de baixo, calça, blusinha 1, blusinha 2, casaco 1, botas. 

Etapa 2: Colocar o casaco grande, cachecol, colete fosforecente para andar de bicicleta (que é horrível, mas a palpiteira da loja disse que você morreria se não usasse). Não por as luvas ainda!

Etapa 3: Creme no rosto, creme nos lábios, batom, lenço de papel no bolso, 2 moedas de 1 pound no outro bolso, chaves de casa no outro bolso (a calça tem que ter bolso, pois nada disso pode ser misturado, é claro!). Colocar as luvas por cima de tudo nos bolsos do casaco.

Etapa 4: Ainda sem luvas, pegar a mochila, verificar se está com tudo dentro, verificar se está com o cartão que abre as portas do prédio.

Etapa 5: Colocar as luvas de borracha e lavar a louça correndo para Maurice (o housekeeper) continuar achando que você é uma ótima dona de casa. Descobrir que você não deveria ter posto o casacão e o cachecol ainda. Você está suando!

Etapa 6: Colocar a mochila nas costas, colocar as luvas e descer! (só tente essa etapa se você já está com vários dias de prática com luvas). Verificar se você deu o nó no cinto do casacão.

Etapa 6 1/2: Se houver, pegar o saco de lixo para jogar fora. O lixo lixo e o lixo reciclável.

Etapa 7: Tirar as chaves (sem deixar cair nada dos bolsos), abrir o cadeado da bicicleta, colocar o capacete (que vc aprendeu a deixar junto da bicicleta!), conseguir dar o clique no fecho do capacete, colocar os prendedores de barra de calça para sua calça não se prender na corrente da bicicleta (o que você descobriu ser essencial no primeiro dia), colocar o cadeado e a sua bolsa na cestinha da bicicleta.

Etapa 8 no primeiro dia: Ficar olhando para o portão e pensar: como eu abro esse troço?

Etapa 8 no 14o dia: Saber que dá para apertar um longínquo botão cinza parecendo uma descarga na parede com uma mão e abrir o portão com a outra, mesmo em cima da bicicleta!

Mas garanto que andar de bicicleta por essa cidade maravilhosa compensa todo o esforço. … só preciso poupar vocês das 8 etapas que se seguem para tirar essa tralha toda!

**Coisas típicas nas ruas de Oxford**

desenhos 2005 oxford 2

– Chuva: as pessoas não parecem ligar a mínima para a chuva. No meu segundo dia aqui, ainda à pé, começou a chover. Eu era a única criatura do mundo na rua com um guarda-chuva aberto!! Eu olhava, procurava e só via todos andando tranquilamente. Tirava o guarda-chuva e me assegurava: sim, está chovendo! Felizmente, depois de muito procurar, avistei uma longíncua criatura segurando também um guarda-chuva. Com certeza, era uma turista brasileira… Agora, ando pra todo lado, em qualquer tempo, sem guarda-chuva também! A solução é simples: em 5 minutos, você entra num lugar fechado e a calefação seca tudo!

– Luvas: as pessoas perdem muitas luvas… algumas boas de dar pena. Infelizmente, é um pé só e sempre de modelos muito diferentes. São tantas que você passa a temer o dia que perderá a sua!

– Carros fantasmas: todos os dias olho um carro e levo aquele susto: “gente, um carro andando sem motorista; uma crianca dirigindo!” — mas é só a loucura dos ingleses de ter a mão do lado direito.

– Tagarelas: no ponto do ônibus, uma ex-professora contou a vida em 5 minutos e de como gostava quando hospedava estudantes. Na biblioteca, achei uma ex-parteira revoltada com o sistema… No meu prédio, o housekeeper é um francês muito distinto — Maurice — que acho que gostou de mim porque a minha casa é arrumadinha (a vizinha da frente tem que chutar os sapatos e as tralhas do caminho para entrar em casa!). Ele bate aqui quase todos os dias de manhã agora…

– Amantes dos cachorros (e das pulgas!): Nesse meio tempo, arranjei pulgas! Vocês podem imaginar? Havia uma dessas velhinhas que não se separa por nada do seu little dog (“good boy, good boy”, they say all the time) sentada atrás de mim numa palestra. Resultado: passei 4 dias sendo mordida pelas pulguinhas do “little” Chad (esse era o nome do cachorro)! Gracas ao Maurice, fui salva com lençóis limpos, colchão novo, e spray anti-pulgas por todo o apartamento. É muito bom ser amiga do Maurice!

**Os nativos e suas coisas simpáticas**

– Informalidade: as pessoas que encontrei são muito mais informais do que eu pensava. Vocês não imaginam quantas caixas de loja ou atendentes de biblioteca já pararam para bater papo sobre suas vidas pessoais comigo, assim como quem não quer nada… Uma senhora me ensinou tudo sobre segurança em bicicletas e só faltou me levar pra casa dela para eu não ser atropelada.

– Dorminhocos: em cada palestra que vou, há sempre algumas pessoas dormindo e até roncando na platéia!

– A maioria das mulheres tem as mãos vermelhas como pimentão — será do frio ou da água quente? Muitas torneiras não têm misturador: ou jorram água fervente ou congelante!

– Cabelos: numa sala fechada, dá medo ver os cabelos de perto…

– Adolescentes: pra que casacos?: quanto menos roupa melhor! Mesmo num frio de zero grau, as meninas saem de perna de fora, sandália, sem luvas e até barriga de fora. Devem estar assistindo às novelas brasileiras…

**Coisas que me lembram muito o Rio de Janeiro**

desenhos 2005 oxford 3

– A feirante me mostrou cerejas lindas e colocou as podres dentro do um saquinho marrom, pelo qual eu paguei a “pequena” quantia de 5 pounds!

– Avisos contra assaltantes: Por toda parte, há avisos sobre como proteger sua bicicleta de roubo ou como cuidar das suas coisas nas bibliotecas. Infelizmente, não são só avisos. Um dos pesquisadores do Centro de Estudos Brasileiros teve seus 2 laptops roubados.

– As pessoas têm medo dos ônibus e dos carros;

**Coisas que me lembram que eu NÃO estou no Rio de Janeiro**

– Eficiência contra os roubos: A universidade pagou pelos 2 laptops roubados em poucos dias, pois a casa assaltada pertencia ao campus.

– 220 Volts: uma das minhas primeiras aventuras aqui foi queimar o meu secador de cabelos brasileiro (recém-comprado especialmente para a viagem) por causa da voltagem 220 — esqueci de virar a chave, claro!

– Preços: outra furada de principiante: logo ao chegar, comprei um passe de ônibus por 12 pounds (a bagatela de 65 reais!!) e descobri que só valia para uma meia dúzia de linhas por meros 5 dias!! 😦

– Fogões elétricos 1: você coloca a panela numa boca do fogão e acende a outra — depois de 15 minutos, a sua água não ferve e você ainda respira aliviada de não ter queimado a casa toda.

– Fogões elétricos 2: Você tira a comida e deixa a panela vazia em cima da boca do fogão ligada — depois de 15 minutos, a casa inteira exala um cheiro estranho e a panela queima! Maurice não gostará de ver isso…

– Dinheiro perdido TEM dono: outro dia, a máquina de café da universidade estava com um troco sobrando de 0,20p. Eu olhei pras velhinhas atrás de mim, como quem pergunta “e agora?”. Elas disseram: “vamos deixar aqui ao lado. Com certeza, o dono virá buscar!”

– Sol e Frio: você olha o dia lindo pela janela e pensa: “oba, sol!” Quando chega na rua, está -2 graus! Quanto mais céu azul, mais frio. É o que dizem os “locals”…

**Coisas que te lembram que você é uma turista**

– Sotaque: ao menor “hello!” todo mundo te pergunta: “where are you from?”

– Tio Sam: você pede “water” com sotaque americano e as garçonetes ficam olhando para a sua cara como se você estivesse pedindo um mamute assado. Pronuncia-se “uá-tah”. As garçonetes são estrangeiras, mas as principais defensoras do mais verdadeiro e legítimo sotaque britânico.

– Nos pagamentos com cartão de crédito, você ouve: “what a weird card you’ve got!” Eles acham estranhíssimo o nosso cartão. A máquina pergunta para eles “credito ou debito?”, assim mesmo, em português. Depois, a máquina pede a senha e ainda manda assinar! Só faltava aquele clássico brasileiro: “e põe o telefone!”

desenhos 2005 oxford 5

E essa é a capa do caderninho onde fiz o diário dessa viagem. Se vocês gostarem, posto outros trechos depois.

Agora é aguentar 17 dias de saudades não só do Antônio, mas também da minha linda-potência-máxima Alice (que veio na barriga de Oxford… 😉 !