Karina Kuschnir

desenhos, textos, coisas


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Doze dicas de cursos de desenho e aquarela que já fiz (presenciais e online)

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Aquarela feita por mim a partir de tutorial da Anna Mason

Um dos desafios de quem gosta de arte, desenho e aquarela é encontrar um bom curso. Como já passei por vários, resolvi fazer uma listinha de referências. Há muita coisa legal para experimentar, mesmo se você não se acha artista. É uma boa ideia também para curtir nas férias.

Cursos presenciais — Vou iniciar pelos cursos presenciais, pois são os mais legais e significativos para mim. Foi por onde comecei, onde fiz amigos que me incentivaram e onde encontrei professores e colegas que me ensinaram muito.

Aqui no Rio de Janeiro há poucas opções. Os lugares por onde passei (ou que conheço) são os seguintes:

Chiaroscuro Ateliê de Pintura — Fui aluna do curso de aquarela da professora Chiara Bozzetti por dois anos (2015-16), como já escrevi aqui e aqui. É o lugar que mais recomendo a todos que me pedem indicações de onde começar. Pretendo voltar em breve, pois é um ambiente maravilhoso, alegre, criativo, acolhedor, com professores habilidosos, técnicos e dedicados. Além disso, os preços são mega acessíveis, o que gera um ambiente de alunos diverso, com anos de convívio. A Chiara é de uma delicadeza incrível, com um modo de trabalhar baseado na confiança e na capacidade de estimular o que cada um tem de melhor. Além do site, o ateliê tem um Instagram super ativo.

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aquarela que fiz com ajuda da Chiara

Escola de Artes Visuais do Parque Lage – EAV — Entre 2008-2009, fiz aulas de modelo-vivo durante um ano com o professor Manoel Fernandes — um mestre e artista que me marcou muito! Infelizmente, ele não está mais na escola (voltou para São Paulo, sua terra natal). Tentei outros cursos na EAV, mas não deram certo. O lugar é maravilhoso, as opções de aulas são interessantes — só que agora estão bem caras. Comecei no Parque Lage porque o Antônio (meu filho) fez a escolinha de artes de lá por 4 anos, e todas as professoras são excelentes. Tenho um enorme carinho por elas!

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modelo-vivo, meu caderno na época da EAV-Parque Lage

Ilustração Botânica – Jardim Botânico do Rio de Janeiro — Frequentei um curso de aquarela de oito semanas, ministrado por Paulo Ormindo e Malena Barretto, dois mestres da ilustração botânica. O programa completo é bem mais longo, e vale muito a pena para quem quer seguir no caminho da ilustração científica. Além do acesso a dois artistas fantásticos, o Solar da Imperatriz é um local lindo e os preços, na época em que fiz, eram bem acessíveis. Nessa área, uma outra referência importante é a professora Maria Alice Rezende, com quem já tive algumas aulas avulsas. Gostei de ambas as experiências, mas percebi que não queria seguir na ilustração botânica.

Renato Alarcão — Existe também no Rio de Janeiro o ateliê do professor Renato Alarcão, com oficinas de aquarela, diários gráficos e outras. É um artista experiente e talentoso. Já fiz uma aula avulsa lá. Hoje em dia, sigo as páginas dele no Facebook, em especial a do Diário Gráfico, que tem links ótimos.

Nathalia Sá Cavalcante — Outra sugestão é acompanhar o trabalho da Nathalia Sá Cavalcante, ilustradora e professora de design da PUC-Rio. De vez em quando, ela oferece workshops de desenhos do cotidiano, além de promover oficinas ao ar livre, reunindo propostas e pessoas maravilhosas. Conheci a Nathália na EAV-Parque Lage e tenho uma gratidão imensa pelo incentivo que ela sempre me deu para desenhar. Fico super feliz de acompanhar o trabalho lindo que ela está fazendo atualmente.

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Oficina da Nathalia Sá Cavalcante no Parque do Martelo – Humaitá/RJ

Urban Sketchers Rio de Janeiro — Uma opção gratuita é participar do grupo Urban Sketchers Rio de Janeiro que organiza encontros mensais abertos. Não precisa ter nenhuma experiência. O espírito é acolhedor, com compartilhamento de dicas, cadernos e técnicas, que se estendem depois para conversas no Facebook. Pessoalmente, nunca participei do grupo no Rio (muito devido à minha avassaladora preguiça de final de semana!) mas quis deixar aqui a indicação.

Urban Sketchers – Encontros internacionais — Foram nesses eventos que minha visão de desenho, arte e aquarela realmente mudou! Se eu tivesse que eleger uma só dica, seria: participe de um encontro internacional dos Urban Sketchers! Tive a sorte de ir a quatro edições — 2011 (Lisboa), 2013 (Barcelona), 2014 (Parati), 2016 (Manchester) — sendo os dois primeiros como aluna e os dois últimos como palestrante. Em todos tive subsídios de custo devido a eventos acadêmicos paralelos (nos dois primeiros) ou por ter sido selecionada para falar. Como já contei em alguns posts (aqui, aqui e aqui) além de oficinas, demostrações e palestras, os Encontros USK criam um espaço mágico, onde tudo gira em torno de arte, com uma atmosfera super generosa de aprendizado coletivo. Mais do que produzir desenhos e pinturas em si, fiz grandes amizades, conheci projetos e artistas incríveis. Pela primeira vez, percebi que era possível existir um ambiente de criatividade franco, onde a maioria das pessoas não está nem aí para competitividade e egocentrismo.

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Desenho feito por mim no final do USK-Barcelona (2013)

Cursos online de desenho e aquarela — Existem muitos!! Compartilho uma listinha dos que realmente fiz, paguei, experimentei, e gostei. Há basicamente dois modelos de escolas na internet: aquelas onde se compra um curso específico e aquelas onde se faz uma assinatura mensal, com direito a assistir quantos cursos quiser (tipo Netflix). Vou dar alguns exemplos dos dois tipos. (São todos em inglês, pois não conheço em outras línguas, nem no Brasil; mas se vocês souberem de algum legal, me contem nos comentários!)

Anna Mason Art — A escola online da inglesa Anna Mason é voltada para quem ama aquarela de precisão, com tutoriais de botânica, pequenos animais e alguns de temas diversos. Foi onde aprendi a fazer a abelha que ilustra esse post! Parece uma coisa dificílima, mas na verdade requer apenas paciência de seguir os passos dos vídeos, tudo super explicadinho pela simpática Anna. Já entrei e voltei duas vezes, pois é por assinatura mensal (só tem acesso se estiver pagando). Da última vez, optei por um pacote de 6 meses, mas pedi um desconto dizendo que era brasileira e que a libra estava muito cara. Eles me deram 20% de abatimento, resultando num custo de aproximadamente 60 reais por mês. Gosto muito do jeito como ela ensina, das mensagens que ela escreve, das misturas de cores, das técnicas e truques de aquarela. Já os temas das pinturas não me interessam tanto.

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Flor (magnólia) feita por mim a partir de tutorial Anna Mason

Creative Bug — Outra escola de assinatura mensal, voltada para desenho, aquarela, artes e artesanatos em geral. Tem a vantagem de ser baratinha: menos de 20 reais mensais da última vez que assinei (4,99 dólares). Além disso, os vídeos são lindos, as filmagens bem detalhadas e nítidas, com aulas estruturadas de forma simples e rápida. Conheci o site pelos cursos de desenho e aquarela da Lisa Congdon, mas depois assisti também as aulas de Lindsay StriplingYao Cheng e Jennifer Orkin Lewis, além de outras sobre encadernação. Um bônus é que as mensalidades se transformam em créditos que permitem você guardar os cursos na sua biblioteca pessoal. Assim, mesmo interrompendo o pagamento, o acesso a essa lista é garantido pra sempre. Também oferecem mini-cursos gratuitos no site e no Facebook.

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desenho da minha gata Lola inspirado em L. Congdon

Sketchbook Skool — Essa foi a primeira escola online que frequentei, pois já admirava muito os livros e o blog do Danny Gregory, um de seus fundadores. O pagamento é por curso, que inclui 5 ou 6 instrutores, com as aulas liberadas semana a semana, como se fosse uma faculdade de arte. A lista de professores é maravilhosa e os vídeos costumam ser super bem feitos. A filosofia da SBS é inspirar, motivar, dar ideias, mostrar artistas trabalhando e falando sobre seus processos criativos. Há demonstrações de desenhos e pinturas sendo feitos, mas sem ênfase em técnicas passo-a-passo. Em compensação, eles mostram os estúdios, os sketchbooks e os livros preferidos dos artistas, e quase sempre saem para filmagens ao ar livre, enfatizando o desenho/pintura de observação direta. O preço garante acesso permanente aos cursos mas não é baratinho (99 dólares). Já fiz alguns desde que a escola começou e posso dizer que valeram muito à pena! Professores que me marcaram, além do próprio Danny Gregory (que dá aula em quase todos os cursos): Prashant Miranda, Tommy Kane, Roz Stendhal, Jill Weber, Feliz Scheinberger, Lynne Chapman. Algumas dessas aulas foram fundamentais para me encorajar a criar as oficinas dos cursos de antropologia e desenho que comecei a oferecer na UFRJ desde 2013. Vários dos professores da SBS também são pessoas que conheci nos encontros internacionais dos Urban Sketchers, como Miguel Herranz, Lapin, Veronica Lawlor, Nina Johansson, Jason Das… daí eu não destacar tanto as aulas deles online, pois tive a oportunidade de fazer workshops pessoalmente. Incluí a Lynne Chapman (com quem trabalhei em 2016) nos destaques pois acho que fizeram uma filmagem excepcional sobre ela e seus projetos na interface entre ilustração e ciência, que tanto admiro.

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pintura/colagem que fiz assistindo uma aula do J.Twingley na Sketchbook Skool

Craftsy — Escola de arte online que cobra por curso. Só fiz os dois da Shari Blaukopf, pois ganhei cupons de desconto dela, que conheci em 2013 e com quem fiz uma oficina em 2016. A Shari é uma pessoa gentilíssima, com um alto nível de conhecimento de aquarela, num estilo bem solto. Gostei de assistir e acho que aprendi bastante sobre cores, camadas e aguadas. As aulas na Craftsy são bem didáticas, tipo passo-a-passo — pena que o estúdio de filmagem seja tão sem graça! Eles têm feito cursos com vários instrutores ligados ao mundo da aquarela e do desenho urbano, como Suhita Shirodkar, James Richards, Marc Taro Holmes, Stephanie Bower, entre outros como vocês podem ver aqui. Recomendo para quem quer aprender o estilo de um artista específico. Ah, e uma dica bem legal é ver as resenhas do Parka Blogs sobre os cursos antes de decidir qual fazer.

Roubadas — Cuidado com cursos que são meras palestras filmadas por Skype! Uma vez cheguei a pagar por uma aula anunciada no Instagram com três ilustradoras que admirava. Na hora de assistir, eram vídeos super mal feitos de telas de computador. Pedi meu dinheiro de volta depois da meia hora. Reclamaram, mas devolveram. Por essas e outras é que costumo pagar tudo online com Paypal, inclusive livros, já que fica mais fácil estornar valores.

Curso milagroso x seu tempo — Assim como na vida acadêmica, no mundo da arte também procuramos pela fórmula mágica que vai nos transformar em artistas da noite para o dia. Isso não existe. Mesmo para pessoas que nascem com talento e criatividade excepcionais, é o trabalho diário, a persistência, a capacidade de recomeçar, enfrentando as dificuldades, que faz com que avancem.

Para nós, simples mortais, o caminho é o mesmo. Considero que retomei essa estrada em 2004 (em cursos da faculdade de design, trancada depois). Continuo dando passinhos de formiga, muitos pra frente, outros pro lado, vários pra trás (meu momento atual!). Em 2008, quando senti que tive um certo desenvolvimento, meu professor Manoel Fernandes me disse: mais do que as aulas, o que está fazendo você se desenvolver é o uso diário do caderno, seus desenhos no metrô; não pare! Ou seja, não adianta frequentar o melhor curso do mundo se você não pratica, se não investe seu tempo e atenção nisso.

É isso, pessoal! Espero que essas dicas sejam úteis. ♥ Eu poderia falar do mundo Youtube, mas vou deixar para um outro dia, se vocês tiverem interesse.

Levei três semanas fazendo esse post porque foram muitos detalhes para lembrar e informações e imagens para organizar.

Nesse meio tempo, fiz uma cirurgia para retirar uma pedra na vesícula. Já passei pela primeira semana de repouso e está tudo indo bem! ☺ Bons desenhos!

Você acabou de ler “Doze dicas de cursos de desenho e aquarela que já fiz (presenciais e online)“, escrito e ilustrado por Karina Kuschnir e publicado em karinakuschnir.wordpress.com. Se quiser receber automaticamente novos posts, vá para a página inicial do blog e insira seu e-mail na caixa lateral à direita. Se estiver no celular, a caixa de inscrição está no rodapé. Obrigada! 🙂

Como citar: Kuschnir, Karina. 2017. “Doze dicas de cursos de desenho e aquarela que já fiz (presenciais e online)”, Publicado em karinakuschnir.wordpress.com, url: http://wp.me/p42zgF-39g. Acesso em [dd/mm/aaaa].

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Mente selvagem: dicas de escrita de Natalie Goldberg

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“A vida não é ordeira. Por mais que tentemos pô-la em ordem, bem no meio dela morremos, perdemos uma perna, nos apaixonamos, derrubamos um pote de geléia.”

Assim Natalie Goldberg começa seu Mente selvagem. O dragão da imagem me fez puxar esse livro da estante. Estou assustada com a falta de confiança dos meus alunos em escrever. Não se reconhecem como autores. Repetem as frases que os professores querem ler nas provas. É um bom truque aprender a escrever aquilo que seus avaliadores desejam, mas é também uma armadilha.

“Confiar em nossa mente é essencial para escrever”, diz Natalie, antes de apresentar seus 7 conselhos para o ofício:

  1. “Mantenha sua mão em movimento.” Estabeleça um tempo e não pare. Deixe que a mão criativa assuma o controle, impedindo a mão editora-crítica de interferir.
  2. “Descontrole-se. Diga o quer dizer.”
  3. “Especifique-se. Não carro, mas Cadillac. Não fruta, maçã.”
  4. “Não pense. (…) Limite-se a treinar e esqueça todo o resto.”
  5. “Não se preocupe com pontuação, ortografia e gramática.”
  6. “Esteja livre para escrever o pior lixo das Américas.”
  7. “Ataque a jugular. Se alguma coisa apavorante surgir, vá em frente. É ali que está a energia.”

“Estamos sempre recomeçando”, ela escreve. “É como beber água. Não bebemos um copo uma vez e nunca mais temos de tornar a beber. Não terminamos um poema ou um romance e nunca mais temos de escrever outro. Estamos sempre recomeçando. Isso é bom. É bondade.”

“Mantenha-se simples”, afunde-se em si mesmo e escreva naquele lugar tranquilo de igualdade e verdade, segue Natalie.

“Somos lentos em nos dar conta da grandeza que há em nós.”

“Escrever é a brecha pela qual podemos nos esgueirar para um mundo maior, para nossa mente selvagem.”

“Se quer escrever, escreva. Essa é sua vida. Você é responsável por ela e não vai viver para sempre. Não espere. Arranje tempo agora, mesmo que dez minutos por semana.”

“Muitas vezes, quando está sendo difícil escrever, digo a mim mesma: ‘não existe fracasso’. O único fracasso de quem escreve é parar de escrever. (…) Não faça isso. Deixe que o mundo lá fora grite com você. Crie um mundo íntimo de determinação.”

“É bom experimentar coisas diferentes, mas eventualmente temos que escolher uma coisa e assumir um compromisso. Do contrário estaremos sempre à deriva e não teremos paz. (…) a capacidade de se concentrar é de onde vêm o contentamento e o amor.”

Adorei reler essas frases que sublinhei na época da leitura, nos anos 1990. Quem sabe ressoem em vocês.

Sobre o livro: Goldberg, Natalie. Mente Selvagem: como se tornar um escritor. Rio de Janeiro: Gryphus, 1994. (Tradução de Tati Moraes.) Da mesma autora, recomendo Writing Down the Bones, que não sei se tem em português.

Revistas acadêmicas! A seguir um presentinho preparado pela querida Daniela Manica (obrigada! ♥) a partir de um post que publiquei no Facebook pedindo sugestões de revistas que aceitam trabalhos de alunos de graduação. A Dani também é professora de oficinas de escrita no IFCS e faz um trabalho incrível com os alunos, de pesquisa e preparação de textos para publicação. Aí vai a listinha completa das revistas indicadas:

Revista Habitus (IFCS/UFRJ)
http://www.habitus.ifcs.ufrj.br/index.php/ojs

Cadernos de Campo (FFLCH/USP)
http://www.revistas.usp.br/cadernosdecampo/index

Ponto Urbe (FFLCH/USP)
https://pontourbe.revues.org/

Revista Três Pontos (FAFICH/UFMG)
https://seer.ufmg.br/index.php/revistatrespontos/index

Revista Ensaios (UFF)
http://www.uff.br/periodicoshumanas/index.php/ensaios

Revista Todavia (UFRGS)
http://www.ufrgs.br/revistatodavia/

Revista Florestan (UFSCAR)
http://www.revistaflorestan.ufscar.br/index.php/Florestan/index

Revista Textos Graduados (UNB)
http://periodicos.unb.br/index.php/tg

Revista Primeiros Estudos (USP)
http://www.revistas.usp.br/primeirosestudos/index

Revista Pensata (Unifesp)
http://www2.unifesp.br/revistas/pensata/

Revista Escrita da História – REH
http://www.escritadahistoria.com/

E para quem se interessa pelo mundo acadêmico: o blog tem posts com 25 dicas de edição de textos, sobre brincar de pesquisar, sobre o tempo pra fazer a tese – parte 1 e parte 2como explicar sua tese, dicas para aproveitar a defesa de doutorado e outros textos sobre minhas experiência na importância de escutar, nos truques da escrita, na elaboração de uma carta para a seleção de mestrado, na escrita de projetos, nas defesas de tese, nas dores de não passar, na falta de tempo, no ensino de antropologia e desenho, no aprender a desescrever, nas agruras de ser doutoranda, na vida dos alunos, no sorriso do professor, nas lições da vida acadêmica, na importância de não ser perfeito e nas muitas saudades de Oxford 1, 2, 3 e 4!

Sobre o desenho: Dragão feito por observação na Livraria Cultura do Conjunto Nacional, de São Paulo, durante uma aula de desenho da Fernanda Vaz Campos, que gentilmente me convidou para participar. Foi uma festa estar na terra da garoa por quatro dias, mas sobre isso escrevo mais em outro post. O desenho foi feito num moleskine pequeno com canetinha Unipin 0.2 e  aquarelado no local, do jeito que deu. Passei um pouquinho de lápis-de-cor branco antes de escanear para tentar marcar os brilhos na fórmica preta, mas acho que não deu muito certo.


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Defesa de doutorado: dez dicas para sobreviver (e aproveitar)

sonho duplo

 “And now that you don’t have to be perfect, you can be good.”
John Steinbeck, East of Eden

Quando assisti pela primeira vez uma defesa de doutorado, saí empolgadíssima para comentar com meu (futuro) orientador:

Eu — Puxa, quero ler aquela tese: deve ser maravilhosa!

Ele — Hã? Maravilhosa? Como assim? A tese quase não foi aprovada!

Eu — Ué… Mas a banca elogiou tanto!

Ele, já rindo — Você não entendeu nada, Karina… A banca elogiou pontos sem importância; mas criticou a estrutura do trabalho!

Eu — É? E ele virou doutor assim mesmo?

Ele — Sim!

Quase 25 anos depois desse episódio e após minhas próprias defesas e participações em bancas, acho que aprendi alguma coisa…

Em homenagem às centenas de teses que serão defendidas nas próximas semanas Brasil afora, aí vão dez dicas para sobreviver (e aproveitar) esse momento:

1) Muita gente se apavora antes da defesa, lembrando do pânico que foi a prova de seleção. Nada a ver. Se o seu(sua) orientador(a) é minimamente sério, se a sua defesa está marcada e se a sua tese está entregue, relaxe: você vai passar. (Mas não fica bem mandar imprimir convite para a festinha da noite, muito menos convidar os membros da banca com antecedência!)

2) O que mais me ajuda nas situações de estresse acadêmico é me preparar. Agora que estou do outro lado, sei que uma fala bem ensaiada de 20 minutos é tudo que a banca sonha em ouvir. Algo que Informe a platéia mas não canse os examinadores… Também é prático imprimir a apresentação em letra grande. Tenho implicância com power-point de texto em defesa, mas para imagens ou filmes, às vezes é inevitável.

3) Se na hora de montar sua apresentação você for como 95% dos doutorandos que ainda não sabem exatamente sobre o quê é a tese…, relaxe: você é normal. Os outros 5% são uns chatos.

4) A defesa é um ritual mas não um teatro infantil requentado. Ao contrário! Na minha experiência e na de muitos que já passaram por isso, a defesa é um dos melhores momentos da vida acadêmica. Durante quatro horas, cinco professores se dedicarão exclusivamente a debater o seu trabalho com você. Quando isso vai acontecer de novo? Talvez só numa homenagem póstuma (e você não vai estar lá para ver).

5) Para aproveitar ao máximo, umas dicas aparentemente bobas, mas úteis: usar a sua roupa mais apresentável-com-conforto no dia (roupa nova é arriscado, vai que aperta), ir ao banheiro antes, levar água e uma comidinha discreta para o intervalo (chocolate, castanha, uva). Na minha defesa, levei aqueles saquinhos com mel dentro; mas eu mordia, mordia, e nada de abrir… foi horrível. O doutorando mais engraçado que já vi começou a defesa instalando um verdadeiro piquenique na mesa: comidinhas variadas, bebidas, guardanapos! (E passou super bem. Foi considerado excêntrico.)

6) O meu Grande-Medo era ouvir críticas que eu não soubesse responder; ou pior: críticas tão ferozes que não restasse nada de bom no meu trabalho. Isso é uma Grande-Bobagem, por vários bons e maus motivos… Um bom motivo é que, como escreveu Umberto Eco, se foi você mesmo que fez a pesquisa, você é a pessoa que mais saberá defendê-la. Confie nisso. Outro bom motivo é que todo trabalho tem pontos fortes (ou deveria). Valorize os seus caminhos e as suas opções.

7) Conheço orientadores experientes que aconselham seus alunos a defenderem-se a qualquer custo das perguntas da banca. Não concordo. Acho que é importante se valorizar, mas também reconhecer quando algo interessante (ou problemático) for sugerido. Uma das defesas mais legais que assisti foi a que o orientando fez questão de convidar uma banca feroz, só com professores famosos por serem durões. E, a cada pergunta, ele vibrava, anotava e dizia: “manda mais!” Tudo para poder responder de igual para igual depois! Foi um espetáculo.

8) Ainda um bom motivo para enfrentar o Grande-Medo: humildade faz bem. Como diz Steinbeck na epígrafe acima, quando não precisamos mais ser perfeitos, podemos ser bons. (Vovó Trude diz que o bom é inimigo do ótimo. Ela tem razão: queremos fazer teses incríveis, fantásticas e que vão revolucionar o mundo, mas vamos fazer apenas Teses. Ponto.)

9) Isso me lembra outro bom motivo para afastar o medo: a conclusão do doutorado é o começo da vida acadêmica e não o fim. É a partir da defesa que começamos a trabalhar de verdade. Sei que isso parece irreal agora (antes), mas vai por mim. A vida começa depois da tese.

10) Os maus motivos para não ter medo da defesa infelizmente também existem: quando seu(sua) orientador(a) ou os membros da banca não fazem um bom trabalho, não terminam de ler a tese, não se empenham em elaborar questões relevantes, não focam no seu tema, não estão interessados em contribuir com a sua pesquisa… Sem falar naqueles defeitinhos sórdidos: ciúmes, agressividade, inexperiência, preguiça. Enfim, uma prova de que os doutores continuam sendo humanos. Resta voltar ao ponto 9 e lembrar que a vida continua.

Foi pensando no tempo em que eu esperava os dias para a minha defesa (nos idos de 1998!) que fiz o desenho acima. Como já contei aqui, somatizo as minhas ansiedades e medos tendo pesadelos terríveis. Sonhava que tinha esquecido de entregar um capítulo, que não lembrava de levar a apresentação, que saía massacrada… Todo o roteiro acima (do 1 ao, infelizmente, 10 também).

O problema de quem tem muito pesadelo é voltar a dormir. Hoje, pela primeira vez, resolvi desenhar a imagem que me ajuda a retomar o sono de madrugada. Imagino que estou deitada na beira de um rio, embaixo de uma árvore, num dia bonito, e tento me concentrar na sensação de paz desse cenário. Aprendi esse tipo de visualização ainda adolescente, com uma professora de violão. Quase sempre dá certo.

Espero que o post e a imagem ajudem a todos a atravessar bem as defesas que vêm por aí! Boa sorte!

Update de fev/2017: leitores novos, sejam bem-vindos! O post tem sido lido por milhares de pessoas nos últimos dias mas o WordPress só me diz que o link vem de algum lugar do Facebook… Alguém poderia me mandar a origem para eu agradecer a referência? Podem postar nos comentários, mandar via mensagem de Facebook ou por e-mail! Obrigada ♥

Sobre o desenho: Registrei o processo antes de adicionar cor, pois estava insegura se ia dar certo (esse caderno Laloran é maravilhoso, mas não está com papel próprio para aquarela). As linhas foram feitas com canetinha nanquim Pigma Micron 0.3 e as cores com aquarela Winsor & Newton e waterbrush Kuretake.

Você acabou de ler “Defesa de doutorado: dez dicas para sobreviver (e aproveitar)“, escrito e ilustrado por Karina Kuschnir e publicado em karinakuschnir.wordpress.com. Se quiser receber automaticamente novos posts, vá para a página inicial do blog e insira seu e-mail na caixa lateral à direita. Se estiver no celular, a caixa de inscrição está no rodapé. Obrigada! 🙂

Como citar: Kuschnir, Karina. 2015. “Defesa de doutorado: dez dicas para sobreviver (e aproveitar)”, Publicado em karinakuschnir.wordpress.com, url “http://wp.me/p42zgF-cG“. Acesso em [dd/mm/aaaa].