Karina Kuschnir

desenhos, textos, coisas


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14 dias para terminar um texto de 12 páginas (ou 5000 palavras)

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Que antropologia, nada! Eu deveria ter o título de “Doutora em Entrega de Textos no Último Minuto”, outorgado pelo PPGPC — Programa de Pós-Graduação em Procrastinação Crônica.

Uma vez me empenhei tanto para terminar um trabalho de curso, que me auto-premiei com um diploma da internet que dizia “Parabéns, você terminou a sua tarefa _1_ dia(s) antes do prazo.”

Alguém por aí precisando entregar um texto até 31 de julho?

Para inspirar, compartilho com vocês um diário sobre como escrevi um capítulo de 5000 palavras (ou 12 páginas) em 14 dias:

Dia zero: Me martirizo com o prazo, me pergunto por que aceitei o compromisso, sonho em ficar doente para desistir… Agora não dá mais…

Dia 1: Abro o Word e crio um arquivo. Digito tudo que não exige pensar muito: título, meu nome, nota biográfica e nota sobre o texto. Faço uma formatação básica inserindo números de página, fonte e espaçamento. Coloco um subtítulo em negrito para as “Referências Bibliográficas” e acrescento todos as obras que precisarei citar. (Para trabalhos finais de pós, seria bom inserir a bibliografia do curso e depois ir cortando o que não utilizar. Na época, eu não era tão organizada assim!) Como estou trabalhando com fontes, criei uma subseção e listei as que já tinha. Quando não sei alguma informação, escrevo algo só para preencher, tipo [Título] ou [XXXXNÃOSEI!@&%*]. Ufa, até que não foi tão difícil. Acho que gastei quatro horas nisso, contando as pausas para beber, comer e descansar.

Dia 2:  Repasso mentalmente a lista da farmácia, do supermercado, da pet shop, da Amazon… Só de pensar que preciso raciocinar, sinto uma dormência no braço esquerdo e um sono… Mas hoje estou um pouquinho determinada. Vamos lá. Começo digitando tudo que me lembro sobre o assunto. (Se fosse um trabalho de curso, tentaria me lembrar: o que mais me marcou nesses 4 meses de aulas? Qual texto, qual questão, qual citação/autor/fonte? Geralmente tem algo que se destaca no nosso mafuá de pensamentos. É nisso que me agarro.) Pego o resumo enviado à editora e as cinco fontes que vão me servir de base. Resolvo fazer uma entrevista. Por sorte, concordam em me atender por telefone. Digito enquanto escuto: 1459 palavras. Transcrevo duas fontes de vídeo (2433 palavras). Vou deixando tudo no arquivo do artigo. Depois, por segurança salvo esse material em separado.

Dia 3: Continuo o trabalho do dia anterior (com alguma embromação). Termino de transcrever as fontes de vídeos. Em três dias, meu arquivo já está com 8 páginas — que beleza! Ainda não tem coerência alguma, mas já não estou na estaca zero.

Dia 4: Preguiça imensa de pensar. Preciso de uma epígrafe para dar embalo. Repasso a bibliografia, percorrendo a esmo os textos em busca de alguma frase sublinhada inspiradora. Perco o dia inteiro nisso, mas pelo menos consigo a citação e o parágrafo de abertura (que provavelmente vou excluir na edição final).

Dia 5: Após me enredar nos problemas alheios, acho forças para abrir meu arquivo. Não é tão ruim encontrar 8 páginas e meia. Releio a entrevista e aproveito o que é possível. No caso desse texto, tenho uma cronologia a seguir. Não preciso encarar aquela parte super difícil de escolher o que dizer em qual ordem, embora alguns temas atravessem a diacronia. Agradeço mentalmente por vivermos num mundo em que um ano se segue ao outro… Escrever não me parece tão ruim hoje.

Seleciono as informações da primeira fonte. Estou acostumada ao texto acadêmico que intercala paráfrases com trechos entre aspas. Tento usar minhas palavras para sintetizar ao máximo, deixando apenas algumas citações simpáticas do original. São elas que dão o tom e vão construindo uma espécie de “conjunto de provas” do meu argumento.

Termino a segunda sessão de trabalho. No meio teve almoço, quase cochilo, futebol da Copa. Verifico o número de páginas do Word: as mesmas oito. Corta, edita, escreve. Trabalhei muito, mas o tamanho não se alterou. É o preço que pago me iludindo com a estratégia de colocar as fontes no arquivo principal.

Dia 6: Sento para trabalhar e sinto os ombros pesados e doloridos. Pego um mate. (Sou viciada em mate sem açúcar, já contei isso aqui? Até tentei parar quando a Matte Leão foi comprada por aquela multinacional-que-não-vamos-dizer-o-nome, mas não consegui.) Faço um extra forte e enfrento a próxima fonte. Releio, corto, colo, escrevo — 85% paráfrases, 15% citações. Citação é bom mas cansa os leitores. Paro cedo nesse dia. Tenho um compromisso chato no meio da tarde e não consigo retomar depois.

Dia 7: Jogo do Brasil na Copa. Filha de 12 anos. Quem pode trabalhar? No PPGPC, aprendi que sempre há um motivo. “Não consegui escrever hoje porque _____________ [preencha o problema].”

Dia 8: Preciso encarar a bibliografia. Quanto é 14 menos 8 mesmo? Só faltam seis dias, mas hoje conta, então são sete! Abro alguns PDFs. Passo os olhos pelo primeiro e consigo aproveitar algumas ideias. Tenho quase dez páginas. Sei que ainda farei cortes, mas ver a meta chegando me anima. Trabalho duas horas de manhã e três horas à tarde. Total da produção: 3 parágrafos e meio. Como sou lenta!

Dia 9: Conforme o prazo aperta, enrolo menos. Mas é nesse final que os problemas aparecem. O Windows decide fazer uma mega-atualização. Perco mil minutos olhando para uma tela azul. Trabalho no mesmo esquema: abrir PDF, reler, selecionar, reescrever, citar. Saldo: mais meia página.

Dia dez: Acordo com dor de cabeça, preciso ir ao banco, os afazeres me sugam até 14:00 horas, justamente quando o corpo entra em seu estado-tarja-preta-natural. Sono monstro. Pego um chocolate 70% para acompanhar o mate. Abro mais um PDF. Não sei como avançar. Acabo relendo o que escrevi até agora, edito, corto, acrescento, enjoo.

Dia 11: Preciso de um fecho e de conteúdos aqui e ali. Vasculho os últimos PDFs e retomo as edições e acréscimos. Lembro de uma fonte que tinha esquecido. Percebo falhas na bibliografia. Perco tempo pulando de link em link em busca de assuntos ligados ao artigo. Paro para ver as notícias sobre os meninos presos na caverna da Tailândia.

Dia 12: Não consigo trabalhar. Minha casa foi alagada por um vazamento no apartamento de cima. Ficamos sem luz e sem gás. A vida adora se apresentar no caminho de um artigo!

Dia 13: Hoje é sábado: o interfone toca de hora em hora, os operários entram, o Whatsapp não para. Preciso de uma frase para fechar o artigo. Vasculho os mesmos PDFs várias vezes, até que tenho uma ideia. Não sei quantos pensadores já disseram: a inspiração precisa te encontrar trabalhando. Por sorte eu estava ali.

Dia 14: Volto à releitura e à edição. Mudo coisas de lugar, buscando mais coerência e evitando me repetir. Passo o corretor do Word. Não posso cortar demais para não deixar de ter as quase 5000 palavras em doze páginas. Tudo ok. Não está perfeito, mas o prazo é hoje. A editora cobra. Tá indo, foi. Ufa.

Obrigada pela companhia!

Auto-ajuda-alert: Pessoal, é claro que ninguém “cria” um bom trabalho em 14 dias! Esse texto foi só uma brincadeira sobre a reta final da escrita. Pesquisas e ideias levam meses ou anos para se desenvolver.

Sobre esse diário: Fiz uma primeira versão com 2500 palavras em apenas duas horas (pois é, nada como contar uma história!). Depois levei três dias enxugando para virar um post com apenas 1160 palavras.

Abaixo, segue uma listinha de posts anteriores sobre escrita, trabalhos e vida acadêmica em geral. Espero que sejam úteis e que eu não esteja me repetindo muito. 😉

Bom trabalho, pessoal!! Força.

Doze dicas para ajudar a terminar TCC, dissertação e tese de doutorado – Parte 1
Doze (ou treze) lições para ajudar a terminar TCC, dissertação de mestrado e tese de doutorado (Parte 2)
Você vai deixar de me amar se eu não acabar a tese? – Parte 1
Você vai deixar de me amar se eu não acabar a tese? – Parte 2
Lições de escrita com Agatha Christie – Parte 1
Lições de escrita com Agatha Christie – Parte 2
Pensando em desistir
Escrita Diária – Dez dicas para curtir e manter o hábito de escrever
Mente selvagem: dicas de escrita de Natalie Goldberg
Sete coisas invisíveis na vida de uma professora
25 dicas para revisar textos acadêmicos
Tese sem CEP. Será que dá tempo? (Parte 1)
Tese sem CEP. Será que dá tempo? (Parte 2/2 – Cronograma)
A tese é viva, viva a tese
Como não escrever uma carta para a seleção de mestrado
Dez truques da escrita num livro só
Defesa de doutorado: dez dicas para sobreviver (e aproveitar)
Aprendendo a desescrever
Carta a um jovem doutorando
Dez lições da vida acadêmica
e outras com a tag mundo acadêmico…

Sobre o desenho: Peguei um caderno moleskine tipo “japonês” (com papel interligado como um acordeão) e coloquei de modelo. Tracei primeiro os contornos com canetinha Pigma Micron 0.2, no verso do papel Canson, bloco XL Aquarelle (capa azul turquesa). Depois fui trabalhando cada uma das páginas como se correspondessem ao “diário” que faço no texto do post. Fiz o máximo que pude com canetinhas Pigma Micron coloridas finas, pois são à prova d’água, capaz de resistir à aquarela que viria depois. Algumas cores foram feitas com lápis-de-cor (um kit pequeno da Caran D’Ache que utilizo para desenhar fora de casa), como os detalhes em amarelo, laranja e verde.

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Na segunda etapa, passei uma camada bem fina e aguada de aquarela (Raw Sienna misturada com Amarelo de Nápoles). Deixei secar bem e fiz as sombras com aquarela (French ultramarine com um fiapo de Winsor Violet). Infelizmente, ao escanear, os azulados das páginas do livrinho perderam a forma… Apenas as sombras da base sobreviveram… Esse tem sido meu problema constante na hora de criar as versões digitais. Os azuis pálidos simplesmente somem! Mas posso dizer que há tempos não fico tão feliz com um desenho inventado. Adoro quando consigo misturar imagem e texto! E vocês, o que acharam?

PS: As setas e letras da versão acima foram feitas no Procreate/Ipad.

Você acabou de ler “14 dias para terminar um texto de 12 páginas (ou 5000 palavras)“, escrito e ilustrado por Karina Kuschnir e publicado em karinakuschnir.wordpress.com. Se quiser receber automaticamente novos posts, vá para a página inicial do blog e insira seu e-mail na caixa lateral à direita. Se estiver no celular, a caixa de inscrição está no rodapé. Obrigada! ☺

Como citar: Kuschnir, Karina. 2018. “14 dias para terminar um texto de 12 páginas (ou 5000 palavras)”, Publicado em karinakuschnir.wordpress.com, url: https://wp.me/p42zgF-3Gf. Acesso em [dd/mm/aaaa].


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Junho/2018 e Bastidores do blog (2)

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Bem-vindos ao mês de junho/2018! Aqui vai o calendário em .pdf para imprimir.

Há alguns dias, o blog ultrapassou a marca das 500 mil visualizações e 300 mil visitantes. São números pequenos para o tamanho da internet, mas gigantes para mim! 😀 Para comemorar esse meio milhão de cliques, resolvi retomar alguns temas do post Bastidores do blog escrito em maio/2017, e acrescentar outros, que chegaram em comentários, em perguntas de amigos queridos ou na minha cabeça mesmo:

Quanto custa manter o blog? Tenho duas despesas anuais fixas com o blog. Desde a sua criação, pago o tema/template Yoko do WordPress (30 dólares por ano), que permite escolher fontes e cores, widgets (códigos html pré-formatados para serem utilizados na lateral) e faz ajustes automáticos para diferentes telas (celular, tablet e computador). Em janeiro/2018, passei a pagar um plano Pessoal do WordPress (48 dólares por ano) para que parassem de aparecer anúncios no rodapé dos posts.

Por que você não utiliza o endereço karinakuschnir.com? O plano Pessoal do WordPress dá direito a um domínio .com mas, por enquanto, não me sinto bem associando meu nome a um domínio comercial.

O blog está hospedado em algum servidor? Não. Utilizo a hospedagem virtual do WordPress. No ano passado, me dei conta que não tinha backup! Com ajuda da minha sobrinha, passamos todos os posts para arquivos de Word, um conjunto para cada ano. Um dia ainda pretendo imprimir tudo… mas esse dia nunca chega.

Esse é o seu primeiro blog? Sim e não… Uso a internet desde 1991. Em 1994, criei uma disciplina eletiva na PUC-Rio chamada “Comunicação e novas tecnologias”. Adorava dar esse curso que teve o apoio do RDC (prédio da informática da PUC, onde trabalhei de 1992 a 2006) para termos acesso aos laboratórios conectados à internet. Criei blogs para dar suporte a vários cursos, mas foi nos anos 2000 que ajudei a montar um blog mais complexo para a Ong Amigas do Peito. O trabalho estrutural foi feito pelo webdesigner Marcelo Torrico com quem aprendi muito. Depois disso, fiz um blog institucional e vários de apoio a projetos. Este karinakuschnir.wordpress.com foi criado em 6/11/2013 e é meu primeiro blog pessoal de verdade.

Você ganha algo com o blog? Nada, em termos financeiros. Mas posso dizer que ganho muito em termos pessoais, afetivos e profissionais. Explico. Criei o blog inspirada numa página que fiz para o caderno Prosa do jornal O Globo, a convite da editora Mànya Millen, conforme já expliquei aqui. O objetivo era simples: me obrigar a publicar um desenho e um texto uma vez por semana, com o desafio de ser algo lúdico, útil e positivo. Essa regularidade me permitiu estreitar laços com pessoas conhecidas e desconhecidas, além de trazer leitores para os meus trabalhos acadêmicos, alimentando uma rede afetiva e intelectual. Como não sou muito enturmada na vida (sou aquela que ama estar nos bastidores), o blog vem me trazendo uma sensação boa, de pertencimento. O único momento embaraçoso é quando percebo (na vida real) que as pessoas sabem detalhes da minha vida e eu não estou sabendo nada da delas!

Quanto tempo você leva para escrever e desenhar um post? Atualmente, levo cerca de 6 horas para escrever e revisar o texto de um post normal. Se for um post sobre livros ou mundo acadêmico, preciso de o dobro de tempo. Para os desenhos, depende muito. Posso levar 4 horas ou mais. Venho melhorando um pouco nessa área: já consigo começar um desenho num dia e continuar em dias diferentes. Fico feliz quando isso acontece, já que nunca tenho tantas horas livres em sequência. No mais, o que escrevi no primeiro bastidores do blog continua valendo: não tenho pauta, nem consigo produzir com antecedência, mas adoro a sensação de ter feito!

Qual é a parte mais difícil de fazer o blog? Em termos práticos, o mais difícil (e frustrante) para mim é a preparação das imagens: escanear e editar os desenhos e aquarelas. Sou autodidata. Já melhorei depois de alguns cursinhos online, mas ainda sofro. Outros desafios constantes são: inventar ilustrações para os calendários e para posts acadêmicos, encontrar assuntos novos, ter tempo para escrever e desenhar com calma, ser engraçada e manter o tom positivo diante de tanta tragédia que acontece no Brasil (nem sempre consigo). Em termos pessoais, porém, o mais difícil é encontrar um equilíbrio entre dizer a verdade e me proteger da exposição excessiva. Acho super importante falar de vulnerabilidades, mas não consigo imaginar a vida sem um pouco de privacidade.

Como você escolhe os temas dos posts? O que vem primeiro: o desenho ou o texto? A graça de fazer o blog é alternar entre esses dois pontos de partida. Às vezes, o post surge de um desenho, às vezes de uma ideia. O que mais gosto de fazer são posts sobre livros que adorei ter lido ou de aulas lúdicas que deram certo (embora ambos sejam trabalhosos). Na última semana do mês, sinto um alívio por saber que não preciso pensar num tema, já que é a época de postar o calendário. Passo 30 dias buscando ideias para ilustrar o calendário do mês seguinte. Quando leio um livro, fico na espreita, avaliando se daria um post.

Quais posts você acaba não escrevendo? Às vezes tenho ideias mirabolantes para futuros posts que, pouco depois, murcham e perdem o sentido. Tem posts que desejo muito escrever, mas não posso, seja porque ferem o objetivo do blog — falar mal da vida e de certas pessoas, por exemplo! 😉 –, seja porque são sobre assuntos que preciso guardar para publicar em forma de artigos de pesquisa. Por mais que eu já tenha me libertado, ainda preciso produzir coisas que possam ser incluídas no Lattes.

Que novidades você gostaria de trazer para o blog? Uma das coisas que está nos meus planos a curto prazo é fazer um sumário que abranja todos os posts do blog (este é o 197º). A longo prazo, adoraria publicar os posts em português e inglês, para poder ser lida pelos amigos da área do desenho de outros lugares do mundo. Isso ainda não dá, pois teria que investir um tempo enorme para melhorar meu inglês escrito e para as traduções em si.

Qual é o balanço desse último ano do blog? Minha maior conquista nesse período foi ser mais assídua nas respostas aos comentários e ter publicado quase todas as postagens semanais. Adorei ter feito dois posts pela primeira vez com a ajuda dos amigos acadêmicos de carne e osso (e não apenas de bibliografia) que foram o Doze lições para ajudar a terminar TCC, dissertação e tese… Parte 1 e Parte 2.  Além desses, meus preferidos foram o Memória visual, espaços e cotidiano – Ideia para aula lúdica (4), o Sete coisas invisíveis na vida de uma professora, o Lições de escrita com Agatha Christie – Parte 1 e Parte 2, Você vai deixar de me amar se eu não acabar a tese? – Parte 1 e Parte 2.

Os posts mais pessoais  foram o Não Passei (2) – Janeiro foi fork! e Querido Diário. O post que mais me emocionou foi Desistindo de (quase) tudo, em função da repercussão afetiva que gerou nas pessoas e em mim (ainda não consegui responder os comentários desse, desculpem). Um dos posts mais leves e úteis, que me surpreendeu pela reação positiva, foi o Caderninho bom, bonito e barato. Além de todos os já citados, dois dos meus desenhos preferidos dos últimos meses são os dos posts Escrita Diária e Materiais – Canetinhas coloridas.

Qual o conselho você daria para quem pensa em começar um blog? Comecem! Estabeleçam alguns princípios e tentem seguir em frente. Acho que a ideia de postar semanalmente é perfeita, pois não é frequente nem espaçado demais. Se você não desenha ou produz as próprias imagens: invista nisso, tire fotos, se associe a um banco de imagens de qualidade ou utilize imagens de bases públicas, sempre dando os créditos. Por mais conteúdo que exista na internet, tem espaço para todo mundo. Vivo à procura de blogs legais para ler — mandem seus links! ♥

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Sobre o desenho: Para o calendário de junho, quis começar de um jeito que não precisasse me esforçar muito, já que semana passada fiz um desenho trabalhoso. Fiz as bolinhas com a ajuda de duas réguas de desenho geométrico, como essa que desenhei (imagem acima). Desde pequena, adoro essas réguas! Depois de fazer os círculos em tamanhos variados, com canetinha de nanquim permanente 0.2, fiz os traços internos com a mesma caneta, só que 0.05. A seguir, colori com as mesmas cores que utilizei na semana passada, com os lápis-de-cor Polychromos da Faber-Castell. O mais legal foi que a Alice me ajudou! Quando ficou pronto, vimos esse monte de “rodas” e pensamos que nosso subconsciente captou o tema do momento: caminhões, carros, gasolinas, estradas e bicicletas… ♥

ps: As rodas invadiram o dia 30 porque inicialmente eu tinha desenhado no calendário de Julho! Por sorte uma leitora querida do blog me avisou do erro. Troquei a parte interna do mês no Photoshop.

Você acabou de ler “Junho/2018 e Bastidores do blog (2)“, escrito e ilustrado por Karina Kuschnir e publicado em karinakuschnir.wordpress.com. Se quiser receber automaticamente novos posts, vá para a página inicial do blog e insira seu e-mail na caixa lateral à direita. Se estiver no celular, a caixa de inscrição está no rodapé. Obrigada! 🙂

Como citar: Kuschnir, Karina. 2018. “Junho/2018 e Bastidores do blog (2)”, Publicado em karinakuschnir.wordpress.com, url: https://wp.me/p42zgF-3F1. Acesso em [dd/mm/aaaa].

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Querido diário

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“Querido diário,
Oi, hoje quando acordei estava uma chuva danada, aí fiquei vendo televisão, afinal não tinha nada para fazer. (…) Depois eu joguei War com meu irmão e como sempre perdi.” (K, 11 anos)

Tenho lido diários de escritores. Não gosto de reler os meus, principalmente os da infância… As minhas páginas são uma coleção de fracassos e eventos banais. No colégio, eu penava nas aulas de Educação física, onde havia duas Sílvias, a professora e a melhor aluna:

“Rio, quarta
Hoje foi um dia comum, tive educação física, e outra vez fiquei morrendo de ódio só que desta vez foram das duas sílvias (com letra minúscula). A pequena ficava dizendo que eu não sabia jogar, e como tinha gente demais ela dizia que era para eu sair. Quando alguém errava a bola ela falava: Aí, a bola foi na sua frente! E quando a bola ia pra ela, ela errava e dava um risinho idiota. Hug! que raiva. Karina” (11 anos)

Sei que nunca fui popular, mas guardava uma imagem de ter sido boa aluna, interessada nas aulas. Nos diários, escrevo para contar essas alegrias? Não. Encontro isso:

“Acho que o mês foi positivo, apesar de eu ainda não ter muitos amigos na escola. Estou muito chatiada com isso. Quarta feira passada eu fiquei muito chatiada, eu quase chorei. Quando formaram os grupos na aula ninguém quis que eu entrasse no seu grupo e ainda assim eu entrei porque a [professora] mandou. E elas ainda ficaram reclamando. Um beijão da Karina. Tchau!!!!!” (12 anos)

Na minha memória, eu era uma criança apaixonada por livros, que amava a biblioteca do bairro e a da escola. Nas páginas do passado, estou sempre vendo novela!

Oiíííí… gostou do meu oi? Poxa, eu tô chateada, sabe o que é? é que Água Viva acabou e agora vou ter que ver aquela novela ridícula “Coração Alado”. Não aguento mais essa Janete Clair, uma careta. (…) Hoje tive aula de Datilografia, adorei! (…) De noite a mamãe trouxe uma amiga pra cá. Jantamos e fui ver Planeta dos Homens e Malu Mulher. Um beijão, Karina” (11 anos)

Foi uma fase difícil: mudei de escola, tinha medo de bomba atômica, estava virando adolescente e percebendo que não tinha pai. Aqui e ali, registrei que gostava das aulas de datilografia e de andar de bicicleta; outro dia, minha empolgação por trabalhar como babá das minhas sobrinhas, uma praia, um livro, várias brigas de irmãos; eu sempre escrevendo cartas e querendo ser certinha:

Ah!! Uma coisa que eu tava louca pra te contar. Sabe a minha professora de violão, pois é, eu não tô confiando muito nela não, sabe porque? Eu vou te contar. Ela tem 13 anos, e não é lá maravilhas no violão, e tá sempre desmarcando as aulas falando que vai ligar e não liga. Sabe o que eu penso? Eu acho que ela não tem responsabilidade, né?! (K, 11 anos)

Coitada dessa professora, aos 13, sendo criticada pela aluna de 11!

Ao final, acho graça de perceber que, mesmo depois das histórias mais tristes, eu terminava o registro do dia com uma despedida animada:

Gostou? Por hoje é só! Um beijo e boa noite. Até a próxima. Já vou. Amanhã tem mais! (K, 11 anos)

Será que eu já pensava em escrever um blog?

A ideia de fazer esse post veio das minhas leituras atuais (depois conto) e dos cadernos feitos à mão pela artista Marilisa Mesquita, que registrei nessa página durante a viagem à Portugal no ano passado. São forradinhos de papel ou tecido, cada um mais bonito do que o outro — tem até caderno-colar. Nesse dia, no café da Fundação Gulbenkian, tive a sorte de apresentar a Marilisa às queridas Sonia Vespeira de Almeida e Ana Isabel Afonso, duas pesquisadoras que admiro imensamente. Ai, que saudades dos amigos de Lisboa! (Mais sobre Portugal nesses posts aqui.)

Sobre o desenho: Linhas feitas com canetinhas Pigma Micron 0,2 num caderno Stillman & Birn, Delta Series, Ivory, 270 gr., 8 x 10 inches. Depois colori com aquarelas diversas, deixando secar bem entre uma camada e outra. Na parte inferior do desenho, brincamos juntas com o carimbo (também feito pela Marilisa) e as tintas da aquarela mesmo.

Você acabou de ler “Querido diário“, escrito e ilustrado por Karina Kuschnir e publicado em karinakuschnir.wordpress.com. Se quiser receber automaticamente novos posts, vá para a página inicial do blog e insira seu e-mail na caixa lateral à direita. Se estiver no celular, a caixa de inscrição está no rodapé. Obrigada! 🙂

Como citar: Kuschnir, Karina. 2018. “Querido diário”, Publicado em karinakuschnir.wordpress.com, url: https://wp.me/p42zgF-3DW. Acesso em [dd/mm/aaaa].
 

 


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Doze (ou treze) lições para ajudar a terminar TCC, dissertação de mestrado e tese de doutorado (Parte 2)

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“Existem dois tipos de teses, as perfeitas e as defendidas.”

Continuando o post da semana passada, trago a colaboração de colegas professores que me responderam como ajudar a terminar TCCs, dissertações e teses. Seguem as últimas seis dicas (que viraram sete). As fontes estão indicadas no texto, mas a responsabilidade por tudo que houver de errado é minha, claro.

Começo lembrando rapidinho as lições da primeira parte do post: 1. Não esquecer do sonho por trás do trabalho; 2. Concentrar-se no processo: desligar das redes sociais; 3. Curtir a escrita; 4. Cercar-se de pessoas que te ajudem; 5. Ler autores e livros que te inspirem; e 6. Visualizar a tese pronta. Aí vão as próximas!

7. Ter paciência, respeito ao próprio tempo e humildade

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O depoimento da professora Andréa Moraes me emocionou. Ela conta que seu principal trabalho de orientação é nos Trabalhos de Conclusão de Curso (TCCs) numa área com pouca tradição de pesquisa. Sua maior preocupação é que os alunos não desanimem. É comovente ver que há professoras tão comprometidas com o percurso acadêmico, em especial, dos que chegam à universidade menos preparados.

“O desafio é gigantesco: alunos sem preparo têm que enfrentar uma exigência colossal: escrever pelo menos 50 páginas de um tema de investigação. É um suplício. O TCC tem duração de um ano, mas poucos conseguem concluí-lo nesse prazo. Desistem, voltam, desistem, voltam, o TCC vira um grande fantasma. (…)

Gosto que os alunos de graduação aprendam sobre autonomia e sobre criatividade, sobretudo. Mas, não creio que sejam coisas que conquistamos de uma vez, elas vêm aos poucos. Escrita e pensamento requerem paciência, respeito ao próprio tempo e uma dose de humildade. A humildade é amiga das boas perguntas. São coisas preciosas que aprendemos ao longo da vida.

Nada está pronto, nunca, tudo está ainda por fazer. O trabalho escrito pode vir assinado por um autor, mas é sempre fruto dos encontros e das oportunidades que aquela pessoa teve ao longo da vida. Pensar nisso é ter compromisso com uma orientação (acredito na orientação como processo pedagógico) mais compassiva e mais amorosa. Eu acredito nisso e acho que é necessário nos tempos que correm. A escrita é sempre criação e violência, precisamos de calma com ela.” (Andrea Moraes)

8. Perceber que a escrita se faz escrevendo

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O professor Christiano Tambascia mandou uma ideia em que acredito demais: o trabalho se faz trabalhando, no processo.

“A dica que eu dei recentemente, para alguém que não estava conseguindo fazer as pazes com o Word: o mais importante é contar sobre o seu trabalho. Se for teclando um pouco, desenhando um pouco, falando um pouco, fotografando um pouco, ou tudo isso em doses variadas, não importa tanto num primeiro momento. Depois que tudo começar a andar, o trabalho de burilar, mexer e refazer se torna um pouco mais tranquilo e saudável.” (Christiano Tambascia)

Esse comentário me lembra de algo que já contei aqui: quando eu era pequena, achava que existia uma estante com todas as ideias do mundo, prontinhas para serem utilizadas pelas pessoas sábias. Mais crescida, passei a achar que os argumentos tinham que estar completamente elaborados antes de começar a escrever. Isso me causava um sofrimento enorme porque as minhas ideias nunca estão acabadas quando começo um texto. É o contrário: a escrita é que me ajuda a entender o que estou pensando!

9. Afastar os fantasmas

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Como bem disse a Andréa, TCCs, dissertações e teses vão se tornando verdadeiros fantasmas na nossa cabeça. O Chris Tambascia fala sobre isso também, lembrando que a escrita também pode ser uma aventura, como dito na Parte 1 desse post:

“Há casos em que a pessoa sabe direitinho o que quer dizer, até mesmo como quer construir o texto, mas termina por ficar angustiada e triste na frente de uma tela em branco. Uma das coisas que acaba travando a escrita é o medo de não produzir um texto que corresponda ao que temos na nossa cabeça; que faça jus a uma espécie de texto fantasmagórico, que só nos resta digitar.

Nos esquecemos que uma tese ou uma dissertação, no fundo, é um bom projeto de uma ideia que então pesquisamos e depois comunicamos para o mundo (um mundo bem pequeno, mas que amedronta e que tememos muito que vá nos julgar).

O exercício da autoria pode ser empolgante, quando começamos a lidar melhor com essa paralisia. E, vai saber, o texto não vai ser aquele da cabeça (porque ele é formado justamente no processo, que inclui bater algumas teclas por algum tempo) e pode ficar ainda melhor do que antecipado! Vai ficar aquém e além do planejado – e tudo bem!

Claro, faz parte da formação acadêmica aprender a produzir num certo formato. Mas parece que isso vem à custa do esquecimento de que, afinal de contas, queremos contar sobre o trabalho que fizemos. Tenho convicção de que não há uma tese ou uma dissertação definitiva. Elas são o que fazemos delas.” (Christiano Tambascia)

10. Lembrar que uma tese é só uma tese

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A professora Julia O’Donnell foi na mesma direção do Chris apontando que precisamos olhar o projeto de escrita numa perspectiva menos grandiosa:

“A coisa mais verdadeira e a mais difícil de introjetar: É só uma tese! Passamos anos dedicados a esse bicho-tese, que suga nossas energias, compromete nossa saúde e nossa vida social, nos faz sentir burros(as) 30 vezes por dia (nos bons dias) e por todo esse tempo parece que a vida é a tese. E, por incrível que pareça, não é – ainda bem!

Então meu mantra era: ‘É só uma tese!’. Claro que, nos momentos de desespero (que eram quase todos os momentos na fase de escrita), eu nem ligava pro mantra. Mas de vez em quando eu me permitia repeti-lo e levá-lo a sério. Isso me ajudava a pôr os pés no chão e me reconectar com aquilo que realmente importa: o mundo-além-da-tese.” (Julia O’Donnell)

Concordo com tudo, inclusive com a parte de que é muito difícil colocar essa dica em prática em meio à ansiedade escrever. Só quando fiquei mal de saúde é que me dei conta de que não podia deixar a tese engolir todas as esferas da minha vida. De que adianta terminar a tese, acabando com o próprio corpo junto?

11. Não se apavorar com a defesa

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Diante dos fantasmas da defesa, a professora Maria Claudia Coelho mandou uma mensagem tranquilizadora:

“Uma coisa que digo sempre aos meus orientandos, quando recebo aquele inevitável e-mail, um ou dois dias antes da defesa, apontando um problema terrível que acabaram de constatar (geralmente ‘grave’ como uma data errada na bibliografia) e que, naquele momento, têm certeza de que os fará serem reprovados: a angústia recrudesce imediatamente antes da defesa, é o pior momento, todos temos isso, porque é quando os fantasmas vêm nos atormentar.

É a proximidade da defesa que acorda os fantasmas. Essa data errada na bibliografia (ou o que for, varia muito a natureza do ‘problema-grave-que-causará-a-reprovação’) é apenas a sua versão de uma angústia pela qual passamos todos. Pare de ler e reler a tese, vá ao cinema, vá tomar um chope, vá à praia, enfim, relaxa, a tese está entregue.” (Maria Claudia Coelho)

Ai, como eu queria ter recebido esse recadinho antes do meu dia-D!! Meu orientador não era desses de mandar relaxar… Ele era capaz de pedir para eu repassar a apresentação por telefone, isso sim! Agora acho graça desses excessos, mas na época eu tinha muitos pesadelos, como já contei aqui.

12. Lembrar que tudo tem começo, meio e fim

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Retomo a mensagem enviada pela professora Andréa Moraes para falar de como é importante colocar um ponto final no processo de escrita e seguir adiante:

“Ajudar a encerrar o percurso é tão importante quanto ajudar a começar. A hora de acabar é a hora de constatar que o autor ou autora caminhou o melhor que pôde até aquele momento.

Encerrar para começar coisas novas a partir dali. Dar um ponto final em uma etapa da vida, a graduação, no caso. Uma etapa que em um país tão profundamente desigual e injusto como o nosso é ainda exclusividade de poucos. Ter um TCC escrito e apresentado é uma vitória por si só, na minha opinião.” (Andrea Moraes)

Como lembrou a professora Yvonne Maggie, sua máxima predileta na hora de escrever é “tudo tem começo, meio e fim”! Prazos podem ser tirânicos, mas também nos trazer tranquilidade: uma hora a tese tem que acabar! Precisei muito me embalar com esse mantra não só durante o doutorado, mas desde quando enfrentava os trabalhos de curso da graduação e do mestrado. Até hoje uso essa ideia para as escritas com datas de entrega apertadas.

13. Não existe trabalho perfeito

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Bora teorizar e demonstrar: aqui está um post de doze lições que viraram treze! Ao invés de espremer o texto nas ideias previstas, resolvi terminar errando a conta! Tudo porque a última liçãozinha é uma pérola que merece o seu item próprio:

“Existem dois tipos de teses, as perfeitas e as defendidas.”

A frase faz parte das lembranças do doutorado da professora Daniela Manica:

“Aquilo tocou fundo para mim num momento em que eu precisava terminar, mas não conseguia, pensando que, se eu tivesse mais um mês (um semestre, um ano), eu chegaria mais perto daquilo que queria fazer. Aprendi que, na maioria dos casos, ainda mais com tanta pressão que temos para produzir muito, e rápido, a tese é um ponto final no meio da conversa.

Mesmo assim, faltando só a introdução e a conclusão do texto eu, grávida de 20 e poucas semanas, entrei em trabalho de parto prematuro e tive que parar tudo. Exercício difícil para quem estava querendo concluir logo o trabalho e poder curtir o bebê! Mas não teve outro jeito. Assim que tive condições, depois dele nascer, terminei o que precisava, e finalmente defendi a tese quando meu filho estava com quatro meses. Aí aprendi que nossa vida pessoal, e nossa saúde, importam mais do que qualquer outra coisa.” (Daniela Manica)

Nossa, Dani, muito obrigada por compartilhar sua história. Fiquei emocionada pensando em você e em milhares de mulheres que vivenciaram situações semelhantes… Eu mesma passei a licença-maternidade da Alice estudando para o concurso de professora. Felizmente acabei entrando, mas até hoje me sinto culpada como mãe por esse momento!

Espero que essas treze lições-dicas-sugestões, ajudem vocês a enfrentar as dificuldades nos processos de escrita. Não tem fórmula, mas há qualquer coisa mágica na hora em que paramos de nos questionar e simplesmente fazemos o melhor que nos é possível.

Parafraseando os conselhos da Adriana Facina, na Parte 1 desse post: TCC, dissertação ou tese são trabalhos que exigem disciplina, foco e seriedade; mas sua escrita também pode ser uma arte que dá sentido às nossas vidas.

Meu muito obrigada a todos que colaboraram nessa série-saga; e a todos que leram, comentaram e compartilharam. Até semana que vem!

Sobre os desenhos: Fiz as linhas com uma canetinha japonesa preta (Muji hexagonal gel ink 0,25) e as cores com canetinhas hidrocor (Staedtler triplus color), tudo num papel comum (A4, 90gr).

Você acabou de ler “Doze (ou treze) lições para ajudar a terminar TCC, dissertação de mestrado e tese de doutorado (Parte 2)“, escrito e ilustrado por Karina Kuschnir e publicado em karinakuschnir.wordpress.com. Se quiser receber automaticamente novos posts, vá para a página inicial do blog e insira seu e-mail na caixa lateral à direita. Se estiver no celular, a caixa de inscrição está no rodapé. Obrigada! 🙂

Como citar: Kuschnir, Karina. 2018. “Doze (ou treze) lições para ajudar a terminar TCC, dissertação de mestrado e tese de doutorado (Parte 2)”, Publicado em karinakuschnir.wordpress.com, url: https://wp.me/p42zgF-3CU. Acesso em [dd/mm/aaaa].


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Doze dicas para terminar TCC, dissertação de mestrado e tese de doutorado (Parte 1)

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“A intermitência do sonho é que nos permite suportar os dias de trabalho”. (Pablo Neruda)

Pela primeira vez aqui no blog, resolvi pedir a colaboração de colegas professores. Perguntei quais conselhos eles dariam para ajudar os estudantes a terminar seus trabalhos de conclusão de curso de graduação, dissertações de mestrado e teses de doutorado. O resultado foram doze carinhosas lições e dicas – as seis primeiras seguem abaixo.

Minha gratidão e abraço apertado a Aparecida Fonseca Moraes e Adriana Facina, que colaboram neste post. As fontes estão ao lado de cada citação, mas a responsabilidade pela edição, curadoria e eventuais erros de interpretação é minha.

1. Não esquecer do sonho por trás do trabalho

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A professora Aparecida Fonseca Moraes fez um relato sobre seus tempos de mestrado que me emocionou:

Lembro-me que trabalhava tão arduamente na escrita da dissertação que não tinha interesse nem nas necessidades físicas mais básicas, como dormir ou comer. Uma coisa, porém, me relaxava e oferecia ânimo novo: os poemas e outros escritos de Pablo Neruda. Foi por isso que, até o final do mestrado, me acompanhou uma frase do livro autobiográfico do autor, ‘Confesso que vivi’:

“A intermitência do sonho é que nos permite suportar os dias de trabalho”.

Parafraseando Neruda: confesso que assim sobrevivi. (Aparecida F. Moraes)

Amei a frase! Fui até procurar “intermitência” no dicionário, para ter certeza de que tinha entendido. 😉 Mas depois desencanei, porque o sentido do verso foi o conforto que a Aparecida encontrou para escrever, não esquecendo dos sonhos que a moveram para escrever um trabalho acadêmico.

Achei aqui uma versão inteira do poema de Neruda; e achei aqui vários outros textos e vídeos do poeta para inspirar.

2. Concentrar-se no processo: desligar das redes sociais

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Adriana Facina escreveu três conselhos simples e profundos, que me tocaram muito! Desdobrei em quatro para dar destaque a cada passo descrito por ela. O primeiro:

Escrever, especialmente trabalhos de grande monta como dissertações e teses, exige foco, disciplina e um certo desligamento do mundo. Meu conselho número 1 a todas e todos que estão nesse processo é: saia das redes sociais.

Aqui você encontrará problemas políticos que vão te preocupar e te trazer incertezas sobre o futuro, debates estéreis (tretas) nos quais você vai querer opinar e que vão sugar suas energias, um monte de gente aproveitando as férias e lugares maneiros aonde você queria estar, eventos que você gostaria de frequentar etc.

Tudo isso rouba seu tempo e sua capacidade de trabalho. Acredite: nós escrevemos mesmo quando não estamos escrevendo. Ainda que nos momentos em que estamos distantes da tela do computador, nossa cabeça está funcionando no modo escrita, elaborando ideias e formatos que se tornarão textos. É muito importante a gente se concentrar nisso. Se divertir, se distrair é importante, mas procure aquelas atividades que te refazem e reenergizam, não as que desgastam e dispersam. (Adriana Facina)

Nossa, esse conselho vale para a vida, a qualquer momento, não apenas para quem está escrevendo tese, concordam? Eu teria naufragado se tivesse que fazer pós-graduação num mundo com redes sociais.

3. Curtir a escrita

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Mais um conselho perfeito da professora Adriana Facina:

[Meu] conselho número 2 é: aproveite a escrita. É difícil. Por vezes, solitário. No entanto, é um processo desafiador, instigante, cujos resultados podem ser muito prazerosos (ainda que dificilmente o processo em si o seja).

Faça bons cafés, beba um drink de cara pro computador se isso te ajudar, ouça música ou prefira o silêncio. É a sua arte. Se dedique a ela. Encontre sentido. É sua escolha. É você se inscrevendo no mundo. É o seu pensar autônomo. Não deixe que nada te roube essa experiência tão forte e especial. (Adriana Facina)

Fiquei tão feliz de ler isso! A Adriana tocou num ponto fundamental para mim. É uma delícia quando a gente consegue engrenar no fluxo da escrita, aquele que desliga os sentidos para o mundo lá fora. Vivo para isso. Taí, inclusive, a razão desse blog existir.

4. Cercar-se de pessoas que te ajudem

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A quarta lição, e o conselho número três da Adriana:

Procure ajuda se precisar. Se a relação com orientador não estiver fluindo bem (ou mesmo que esteja, mas que não seja o suficiente pra você), procure amigos, pessoas de confiança afetiva e/ou intelectual, parentes. Peça que leiam. Discuta seu trabalho com elas. Mergulhe nisso. Fique obsessiva. Quanto mais a gente mergulha e vive nosso tema, mais insights de escrita surgem. (Adriana Facina)

Esse trecho me lembrou de uma história. No auge do meu sofrimento no doutorado, com o orientador pressionando para que eu defendesse no prazo mínimo, uma das coisas que mais me ajudou foi dar um telefonema. Liguei para a Myriam Lins de Barros, uma das professoras que iria participar da minha banca, e expliquei como estava me sentindo: cheia de dores, ansiosa e fraca, fisica e emocionalmente. Ainda hoje me lembro da voz dela, calma e serena, me tranquilizando de que não havia qualquer problema em adiar a defesa por quatro meses e que ela se dispunha a ligar para o meu orientador para me dar apoio. Nossa, que bálsamo ouvir aquilo! Foi a partir desse dia que consegui retomar a escrita e seguir em frente. Obter apoio de pessoas significativas, que nos afetam, seja no plano pessoal ou acadêmico, tem um valor imenso na conquista da estabilidade necessária para produzir!

5. Ler autores e livros que te inspirem

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A quinta lição, e última parte dos conselhos da Adriana Facina:

Por fim, nas horas de descanso, recomendo que leia textos que inspiram a escrever. A hora da estrela, da Clarice Lispector, tem uma linda introdução falando sobre escrita. Mas existe muita coisa disponível, inclusive um blog bem bacana: https://comoeuescrevo.com/. Isso ajuda no compartilhamento dessa experiência incrível que é escrever. Bom trabalho! (Adriana Facina)

Não sei vocês, mas eu vou procurar o meu exemplar de A hora da estrela. Não lembrava que havia uma introdução sobre escrita nesse livro! Sobre o blog “Como eu escrevo”, estou devendo uma entrevista lá! É um site cheio de escritores e professores contando seus rituais e métodos de escrita.

Também nunca é demais recomendar a leitura dos Anexos de A sociedade de esquina (William Foote Whyte), do apêndice “Algumas reminiscências e reflexões sobre o trabalho de campo” do livro Bruxaria, oráculos e magia entre os Azande (E. Evans-Pritchard), a obra Truques da escrita (Howard S. Becker), além da lista incrível sobre escrita acadêmica compilada pela Eva Scheliga em seu blog …E ETC. *

Claro que, como sugeriu a Adriana Facina, literatura inspira e muito! Meus autores favoritos nessas horas são Mário de Andrade, Eça de Queirós, Virginia Woolf, Oscar Wilde, Anne Lamott, Umberto Eco, Agatha Christie… Na verdade, qualquer texto que me traga bom humor e inspiração já é um grande estímulo!

6. Visualizar a tese pronta

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Para encerrar as dicas de hoje, retomo a palavra da professora Aparecida Fonseca de Moraes sobre suas memórias de escrita:

Lembrei de outra que adoro contar.  No período de árduo trabalho de escrita da dissertação, meu filho, com mais ou menos dez anos, desenhava esplendidamente e montava algumas estórias em quadrinhos (não foi à toa que acabou trabalhando com cinema).

Bem, um dia chego em casa e encontro um desenho incrível sobre a minha mesa de trabalho. A cena: Um computador grande, como aquele que eu usava para trabalhar, com um personagem ao lado que apertava apenas uma tecla. Do aparelho saíam folhas de um documento onde se lia: “tese pronta”!  Claro que ri muito, mas fiquei imaginando a ansiedade dele para que esse “rival” saísse logo de nossas vidas… rs (Aparecida F. Moraes)

Que delícia de história, que vontade de apertar esse menino nos braços! Queria ter uma super memória para me lembrar de todas as situações desse tipo que já me contaram. Se vocês souberem de alguma, escrevam nos comentários por favor! No meu caso, só tive filhos depois de terminar o doutorado… Por isso, a marca do excesso de trabalho não ficou tão forte nas crianças. Para todos que estão escrevendo: lembrem da delícia que será cumprir as promessas sobre a vida pós-tese que vocês estão fazendo para os amores e família!

[Continua na Parte 2 aqui.]

Um bom Carnaval a todos, com descanso, trabalho e folia, conforme a dose recomendada!

Sobre os desenhos: Fiz as linhas com uma canetinha japonesa preta (Muji hexagonal gel ink 0,25) que ganhei do Juva, no final de janeiro, vinda da Muji, de Lisboa. Estou apaixonada por essa  caneta e suas irmãs azul, azul escura e vermelha. Como queria utilizar papel comum (A4, 90gr), colori com canetinha hidrocor (Staedtler triplus color). (Sobre todos os materiais que utilizo, ver aqui.)

* Os links para a editora Zahar foram indicados apenas como referência aos livros citados. Não recebo nada por compras dessas obras feitas no site deles.

Você acabou de ler “Doze dicas para terminar TCC, dissertação de mestrado e tese de doutorado (Parte 1)“, escrito e ilustrado por Karina Kuschnir e publicado em karinakuschnir.wordpress.com. Se quiser receber automaticamente novos posts, vá para a página inicial do blog e insira seu e-mail na caixa lateral à direita. Se estiver no celular, a caixa de inscrição está no rodapé. Obrigada! 🙂

Como citar: Kuschnir, Karina. 2018. “Doze dicas para terminar TCC, dissertação de mestrado e tese de doutorado (Parte 1)”, Publicado em karinakuschnir.wordpress.com, url: https://wp.me/p42zgF-3Cz. Acesso em [dd/mm/aaaa].


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Ler muda o mundo – sobre “O sol e o peixe” de Virginia Woolf

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“Ler mudou, muda e continuará mudando o mundo.” (Virginia Woolf)

É difícil  começar a escrever sobre o livro “O sol e o peixe: prosas poéticas”, de Virginia Woolf: são tantas frases que dariam boas epígrafes! Como diz o subtítulo, é ensaio mas parece verso. Aí vão, por capítulos (fora de ordem), algumas ideias desse linda obra.

Em “A paixão pela leitura”, a autora celebra os livros como a grande criação da humanidade, nos provocando para sermos leitores mais generosos. Seu alerta é atual:

“(…) nossa primeira obrigação para com um livro é que devemos lê-lo pela primeira vez como se o tivéssemos escrevendo. Para começar, devemos nos sentar no banco dos réus e não na poltrona do juiz. Devemos, nesse ato de criação, não importa se bom ou ruim, ser cúmplices do escritor. Pois cada um desses livros (…) representa um esforço para criar algo.” (p.35)

O mesmo poderia ser dito para a escrita ou leitura de uma tese! Deveríamos tentar entender um texto pelos olhos de quem o escreve. Assim, diz Virginia, aprendemos, inclusive com aqueles que mais “violentam nossos preconceitos”. (p.36) Um livro nos ensina quando deixa impressões “penduradas no armário da mente”, como “roupas que tiramos e penduramos à espera da estação adequada”. (p.38)

No ensaio “Montaigne”, a autora aproveita para nos falar da escrita de si:

“Dizer a verdade sobre si mesmo, descobrir a si mesmo de tão perto, não é coisa fácil. (…) aquilo que pensamos, quão pouco, então, somos capazes de transmitir!” (p.14)

Admirada pelo escritor-filósofo, pelo esforço de escrever dizendo a verdade, Virginia afirma:

“Pois, para além da dificuldade de comunicar aquilo que se é, há a suprema dificuldade de ser aquilo que se é. Esta alma, ou a vida dentro de nós, não combina absolutamente com a vida fora de nós.” (p.15)

Haverá um segredo para uma existência coerente, por dentro e por fora? O escritor deve se recolher ou seguir para o mundo?

“Observe a si próprio: num momento, você está todo animado; no seguinte, um copo quebrado deixa-o à beira de um ataque de nervos. Todos os extremos são perigosos. É melhor ficar no meio da estrada, nas trilhas costumeiras, por mais lamacentas que sejam. Ao escrever, escolha as palavras comuns; (…)” (p.18)

Uma vida flexível, disposta ao movimento e às mudanças é uma vida mais real e feliz, sem a rigidez das convenções e da morte, escreve Virginia. “Talvez” é sua palavra favorita. “É preciso viver entre os vivos” (Montaigne, III, 8), buscando nos comunicar com nossos semelhantes.

“Comunicação é saúde; comunicação é verdade; comunicação é felicidade. Compartilhar é nosso dever; mergulhar energicamente e trazer à luz aqueles pensamentos ocultos que são os mais mórbidos; não esconder nada, não fingir nada; se somos ignorantes, dizê-lo; se gostamos de nossos amigos, fazer com que o saibam.” (p.22)

Como não concordar com esse lindo trecho?

A autora segue, falando do prazer de viajar, seja para longe, seja para dentro de um singelo sonho.

“A beleza está por toda parte, e a beleza está a apenas dois dedos de distância da bondade.” (p.23)

A lição que Montaigne lhe deixa é a de um “grande mestre da arte da vida”, a de alguém que “agarrou a beleza do mundo com todos os dedos”, atingindo a felicidade. (Algo que, infelizmente, sabemos que Virginia não conseguiu fazer; o que torna esse ensaio doloroso para quem ama sua obra, como eu.)

Suas lembranças do pai estão em “Memórias de uma filha: Leslie Stephen, o filósofo em casa”, segundo capítulo do livro. É bonito ler suas recordações de carinho, sabedoria, cachorros e caminhadas. Apesar de rígido quanto aos comportamentos, seu pai lhe dava o principal:

“se liberdade significa o direito de ter os seus próprios pensamentos e seguir suas próprias metas, então ninguém respeitava a liberdade — na verdade, insistia nela — mais completamente do que ele.” (p.32-3)

Na filosofia paterna, o lema era “leia o que quiser”! Aos 15 anos, Virginia tinha total liberdade para vasculhar a biblioteca de casa. Para ele, leitura e escrita eram simples: goste dos livros que gostar; e escreva “com o mínimo de palavras”, com clareza, dizendo o que quiser dizer. (p.33)

Escrevi apenas sobre os três capítulos iniciais, embora o restante do livro merecesse igual atenção. O caso é que o post já ficou muito longo, e logo nessa semana de Natal, que ninguém tem tempo de ler. Ou seria o contrário? Que melhor lugar para se refugiar nessa época do ano do que nas leituras, nos livros, ensaios, contos ou poemas?

Minha sugestão para essa próxima semana: desliguem os celulares e mergulhem num livro! É simples, é bom, e ainda nos recarrega, sem fio.

Muito obrigada por todos os comentários inteligentes e gentis que vocês escreveram nos últimos posts, de verdade! Até semana que vem. ☼

Sobre o livro: “O sol e o peixe: prosas poéticas”, de Virginia Woolf. Seleção e tradução Tomaz Tadeu. Belo Horizonte: Autêntica, 2015.  Vejam que linda é a capa original (abaixo), projeto de Diogo Droschi. Pena que não deram o crédito da origem desses peixes, que devem vir de alguma coleção de ilustração científica antiga. Aproveito para agradecer mais uma vez à leitora do blog que me indicou esse livro. ♥

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4 coisas impossivelmente-legais-bonitas-interessantes-ou-dignas-de-nota da semana:

♥ Para quem lê inglês: fui uma das milhares de pessoas que se emocionaram e se divertiram com o conto Cat person, de Kristen Roupenian, da New Yorker. (Em breve sairá em português pela Companhia das Letras.)

♥ Para quem tem filhos entediados: essa semana nos divertimos jogando Banco Imobiliário Júnior. Era daqueles brinquedos de tabuleiro velhos, que já estava quase indo para doação, mas reviveu por insistência da Alice. Derrubamos algumas regras, criamos outras, fizemos doações generalizadas e falimos! Tudo sem precisar de internet.

♥ Uma notícia maravilhosa: nosso livro “Do gato Ulisses as sete histórias” foi selecionado como leitura recomendada para os alunos das escolas municipais de Belo Horizonte. Meu agradecimento à nossa querida editora Cilene Vieira, pelo empenho em divulgar essa obra. (Uma seleção de trechos do livro aqui.)

♥ Por falar em livros, estou lendo “Azul: história de uma cor”, de Michel Pastoureau, edição portuguesa da Orfeu Negro, com tradução de Anabela Carvalho Caldeira e José Alfaro (2016). Do mesmo autor, já li “Preto: história de uma cor”. Quando acabar, prometo que faço um post sobre os dois.

 

Sobre o desenho que abre o post: Peixes inspirados nos desenhos da capa do livro, feitos com as limitações de cores que tenho trabalhado no meu caderno atual Laloran, como expliquei aqui. Canetinhas azuis Muji 0,38, Pigma Micron 0,2, Tombow Brush (números 451 e 526); e uma amarela da Faber-Castell Pitt brush. Não vejo a hora de acabar esse caderno, mas sinto que aprendo com o desafio das cores restritas. E, aqui, nesse cantinho onde só chegam os artistas que lêem o blog, meu desejo para as férias: bons desenhos e pinturas! Quem tem um sketchbook nas mãos, nunca está só. ♥

 


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Você vai deixar de me amar se eu não acabar a tese? (Parte 2)

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“Há, em cada um de nós, uma floresta virgem, emaranhada, inexplorada; um campo nevado onde não se veem nem pegadas de pássaros.” (Virgina Woolf)

Quando meu filho começou a comer frutas e legumes, depois de seis meses de amamentação exclusiva, fiquei insegura. Bora ligar para o médico: devo dar uma banana ou meia banana? Tempos depois, um primo pediatra me contou como os colegas fazem para responder as perguntas das mães aflitas: “basta dizer dois sim e um não, para a mãe não te achar nem rígido nem desatento demais”. Fica um diálogo assim: “– Meia banana? — Sim! — Um mamão? — Sim. — Morango? — Não, morango é melhor não.”

É brincadeira, mas é verdade!

O que isso tem a ver com o sofrimento na hora de escrever uma tese?

Ter que ligar para o pediatra para pedir autorização para dar uma fruta a um bebê de seis meses é só um sintoma. Mostra como eu estava vivendo a maternidade de forma isolada, sem contar com família extensa, vizinhos, comunidade. No meu caso, até que foram poucos momentos assim. Tive apoio, avós participativos, Amigas do Peito e amigas com bebês.

Quando a gente está na gestação do bebê-tese, porém, os sintomas de isolamento podem ser bem piores. No evento sobre saúde mental (que motivou a primeira parte desse post), ouvi depoimentos sobre depressão aguda, gastrite, angústia, anorexia, excesso de entorpecentes ou remédios, tentativas de suicídio, inseguranças profundas, término de relacionamentos, falência, sensação de estar permanentemente em dívida, exaustão, vergonha, falta de apoio, desistência. Além de todos esses sintomas, recebi comentários no Facebook dos que sofreram (e até desistiram da pós-graduação) pela falta de apoio por engravidar, ser vítima de estupro ou perder os pais com câncer.

Para qual pediatra essas pessoas podem telefonar? Quantos telefonemas seriam suficientes?

Escrevi no post anterior que não sou o meu trabalho, currículo ou diplomas. Acredito nisso, mas quem disse que consigo pensar sempre assim, super saudável, sem me definir por avaliações externas? Bem que eu queria ser esse tipo de pessoa: focada, vivendo meu caminho, sabendo que o processo é mais importante do que o fim etc. O problema é que em 89% do tempo eu não consigo! Vivo me comparando e sofrendo, com sintomas bem parecidos com os que os alunos relataram, apenas em doses menores.

Acho que tenho dificuldade de me distanciar porque o trabalho acadêmico não é apenas um trabalho. É algo muito íntimo.  Nós, nossos dados e autores protagonizamos uma história intensa de amor, descoberta e decepção.

Por que sofreríamos tanto se não estivéssemos tão investidos emocionalmente?

Talvez uma parte desse sofrimento venha de nos depararmos com nossa “floresta virgem, emaranhada, inexplorada”, nosso “campo nevado” particular, onde nenhum pássaro pisou ainda, como escreveu Virgínia Woolf. A cada texto, ao invés de decidir a comida do bebê, preciso me perguntar:

O que penso sobre o mundo? O que tenho a dizer? Como posso contribuir para o conhecimento humano?

Parágrafo a parágrafo, duvido da minha capacidade de desemaranhar os pensamentos.

Ao longo da minha formação, as disciplinas eram super teóricas. O objetivo era demonstrar o “domínio da bibliografia”. Aprendi a salpicar meus textos com Weber, Bourdieu e seja-qual-for-o-nome-da-autora-da-moda. Me iludia que isso era fazer jus à história do pensamento — afinal, não se pode inventar a roda a cada texto.

No entanto, hoje, me pergunto: em que momento a repetição do que os outros autores dizem se torna tão automática que já não consigo mais saber o que penso? O que tenho para dizer por escrito? Ou seja: qual pedaço de mim estará no meu trabalho?

Não tenho respostas… Lembro que a escrita da minha tese se tornava menos sofrida quando eu percebia que estava escrevendo algo que fazia sentido no meu íntimo. Eram momentos raros, que faziam o esforço valer a pena. Nos demais, eu estava como no post anterior, perdida de mim, pensando que eu própria era quem ia “deixar de me amar se eu não acabasse a tese”.

A academia, como a maternidade, é transitória. O tempo passa, os alunos se renovam, viram a página. A memória do sofrimento não é passada adiante.

Seria muito bom se pessoas que passaram por situações dolorosas na pós-graduação compartilhassem suas experiências. Acho que precisamos de grupos de apoio que, além de abraços, nos permitam manter essas memórias circulando, de modo a acolher quem esteja passando por dificuldades. (Acolher não é resolver, mas escutar, reconhecer — primeiro passo para ajudar qualquer que seja a situação. Não podemos tratar de algo que não enxergamos.)

Tenho conversado com algumas amigas. Fico sonhando em pensarmos juntas sobre espaços de apoio coletivos no mundo acadêmico. Alguém conhece experiências desse tipo?

Nessas conversas, esclareci algumas coisas que talvez tenham ficado nebulosas na primeira parte do post:

* Para as orientadoras maravilhosas, atenciosas e dedicadas: sim, vocês existem!

* Não sei se orientação com tempo de escuta e paciência é exceção. Talvez a área das ciências humanas seja uma bolha melhorzinha até, pois recebo comentários de doutorandos de outras áreas com relatos punk.

* Aos orientadores em geral, acho importante ficarem atentos a sinais de alunos que têm muita vergonha de estar em sofrimento. É um ciclo vicioso: a pessoa entra em pânico/depressão e tem mais pânico/depressão por estar assim. Daí fica paralisada e não conta para o orientador(a). De vez em quando recebo relatos sobre isso também.

* Aos alunos: suas orientadoras e orientadores também sofrem, e muito.

* Sim, existem pessoas mimadas, preguiçosas, sem qualquer noção dos seus deveres. Mas não acho que a maioria dos alunos em sofrimento seja desse tipo. A pessoa sofre muito justamente porque valoriza sua vida acadêmica. Aliás, acho que alunos hiper exigentes e dedicados são dos que mais adoecem. Não sei a fórmula para identificar os casos do primeiro tipo, mas plágios costumam ser um dos sintomas.

* Prazos não são vilões em si mesmos. Como escreveu uma amiga: “Sem prazos nunca publicaríamos nada, já que todo artigo, por melhor que seja, sempre pode ficar melhor”. Trabalhar dá trabalho: exige foco e capacidade de priorizar, assim como de abrir mão de distrações. O segredo é conseguir equilibrar tudo isso, sem esquecer de se cuidar.

* Essa semana estive igual a vocês: digitando e apagando, digitando e apagando… Reescrevi esse post umas três vezes.  Quis deixar isso registrado para ninguém pensar que escrevo sem revisar ou sem medo.

* Um post singelo e bonito que estou há tempos para compartilhar: “Como libertar-se de seu falso-eu acadêmico?”, de David Berliner.

* Para terminar, indico o site maravilhoso da professora Eva Scheliga com referências, ferramentas, links, artigos e posts sobre escrita, editoração científica e desenvolvimento de projetos de graduação e pós-graduação, além de aplicativos e gadgets úteis para o trabalho acadêmico: https://evascheliga.wordpress.com/

Sobre a epígrafe: O trecho da Virgínia Woolf está em “O sol e o peixe”, livro de ensaios publicado pela editora Autêntica, indicado por uma leitora do blog super querida. Estou adorando; talvez vire um post.

Sobre o desenho: Desenhei essa dupla inspirada em diversas fotos sobre o tema abraço que procurei no banco de imagens Shutterstock. Utilizei canetas de nanquim permanente 0,2 e 0,05 Pigma Micron, num papel Canson (bloco azul escuro, para Mixed Media; prefiro o verso da folha, que é mais liso). Depois escaneei a imagem e resolvi colorir no Photoshop, coisa que raramente faço (só uma vez, aqui).

Você acabou de ler “Você vai deixar de me amar se eu não acabar a tese? (Parte 2)“, escrito e ilustrado por Karina Kuschnir e publicado em karinakuschnir.wordpress.com. Se quiser receber automaticamente novos posts, vá para a página inicial do blog e insira seu e-mail na caixa lateral à direita. Se estiver no celular, a caixa de inscrição está no rodapé. Obrigada! 🙂

Como citar: Kuschnir, Karina. 2017. “Você vai deixar de me amar se eu não acabar a tese? (Parte 2)”, Publicado em karinakuschnir.wordpress.com, url: https://wp.me/p42zgF-3zq. Acesso em [dd/mm/aaaa].