Karina Kuschnir

desenhos, textos, coisas


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25 dicas para revisar textos acadêmicos (de trás pra frente)

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Pessoal, um post útil pra variar! Reuni as 25 dicas de revisão que mais utilizo. Servem para resenha, livro, artigo, blog, dissertação ou tese de doutorado. São simples, mas funcionam, com a vantagem que você não precisa ser nenhum gênio do português para executar. O segredo é não pular nenhuma, por mais boba que seja. Estão divididas em três blocos, seguindo de trás para frente.

Revisando as Referências Bibliográficas – Como sempre começo a ler um texto acadêmico pela bibliografia, é a partir dela que inicio a revisão também. (Se o texto que você está revendo não tem bibliografia, pule para o item 11.)

1) Ordem alfabética – Verifico se os autores estão em ordem alfabética por sobrenome.

2) Ordem cronológica – Coloco as obras do mesmo autor em ordem de ano (do mais antigo ao mais recente).

3) Repetições – Se há várias obras do mesmo autor, substituo os sobrenomes e nomes repetidos por uma pequena linha (6 traços sublinhados).*

4) Conteúdos – Verifico se todas as referências contém data, título, cidade e editora.

5) Paginação – Volto ao início procurando itens com artigos e capítulos para ver se coloquei o intervalo de páginas específicas de cada um.

6) Links –  Em caso de links, costumo substituir urls imensas por versões reduzidas por um encurtador (tipo Google Shortener).

7) Formato – Releio tudo mais uma vez verificando se todas as informações estão no formato pedido pelo local de publicação (e isso varia muito, tipo modelo Chicago, ABNT etc.).

8) Alinhamentos –  Por último, seleciono tudo e padronizo os espaços entre linhas (1,0), os espaços entre parágrafos (12pt) e os recuos (primeira linha: 1,25).

9) Citações no texto –  Vou ao início do arquivo e faço uma busca por parênteses, isto é, aperto Ctrl-L e digito ( . Isso me ajuda a localizar citações pelo ano. A cada referência encontrada, vejo se a obra está na lista bibliográfica. É útil trabalhar com duas janelas de arquivos lado a lado, uma com o texto, outra com a bibliografia. Dá bastante trabalho, mas compensa. Evito esquecer obras inteiras nas referências e corrijo errinhos de datas (por exemplo, obras citadas como 1996 no texto e como 1997 na bibliografia). Caso existam referências em notas de rodapé ou notas de fim de texto, verifico os autores citados lá também.

10) Referências não citadas – Se for um trabalho grande, verifico tudo ao inverso, isto é, se todas as obras listadas nas referências bibliográficas estão referidas no texto. É um pouco de exagero, eu sei. Mas imaginem que só durante a impressão da minha dissertação de mestrado é que descobri que não se podia colocar autores na bibliografia que não estivessem citados na tese! Foram horas de estresse editando a lista.

Revisando o Texto

11) Limpar excessos – Começo eliminando as palavras-daninhas, aquelas que mais uso sem necessidade, tipo: eu (como em “eu vi”, por exemplo), muito, mas, mesmo, que, também, bastante, meu, minha, sempre, ou seja etc. Tento jogar fora também generalizações sem fundamento, coloquialismos, jargões, chavões e clichês (alguns exemplos aqui).

12) Eliminar repetições – Nessa primeira limpeza, busco também cortar ou substituir palavras repetidas (ou similares) muito próximas. É um desafio escrever um texto sobre objetos, por exemplo, e não escrever “objetos” a cada duas linhas! Haja criatividade. A providência seguinte é reduzir o uso de vocábulos-muleta típicos do texto acadêmico como “questão”, “crucial”, “importante”, “relevante” “etc.” etc. 😉

13) Evitar adjetivos e advérbios – Tento eliminar ao máximo o uso de adjetivos (ótimo, excelente, instigante) e advérbios (justamente, claramente, obviamente, desnecessariamente…). Deixo passar alguns quando escrevo resenhas ou comentários mais opinativos.

14) Reduzir frases longas – Outro dia sugeri aos meus alunos que revisassem seus textos com um critério bem simples: todas as frases com mais de 3 linhas deveriam ser redivididas. Foi ótimo! A chance de se enrolar com uma frase longa é bem maior do que com uma frase curta.

15) Rever citações longas – Evito ao máximo incluir extensas citações de autores nos meus textos. Sempre que consigo, traduzo suas ideias em paráfrases (ou seja, explicando o que eles querem dizer com as minhas palavras) ou utilizo citações curtas e conceitos essenciais. É uma preferência minha como leitora. Acho mais agradável ler um texto com um narrador só e não cheio de colagens.

16) Eliminar voz passiva – Frases com sujeito oculto ou indeterminado quase sempre são reflexo de um argumento ou situação de pesquisa mal esclarecidos. Nunca é demais perguntar quem faz o quê, onde, quando e como.

17) Melhorar a precisão – Reviso buscando trocar afirmações vagas, imprecisas e  relativas (como “em geral”, pouco, grande, longo, menor etc.) por informações precisas e, sempre que possível, comparativas.

18) Indicar fontes, datas e locais  – Sempre releio um texto avaliando se citei todas as fontes necessárias. Como leitora, gosto de dados específicos e de saber de onde vieram as informações, frases, imagens etc. Acho tudo mais interessante quando conheço o contexto, as condições de produção, tempo e lugar.

19) Sintetizar a argumentação – Um dos problemas mais comuns nos textos que reviso (e nos meus!) é a repetição de ideias. Já repararam? A gente se apega num argumento e fica repetindo, repetindo, de diferentes maneiras, nem sempre criativas. Pra mim, esse é um dos momentos mais difíceis da revisão: avaliar se realmente estou avançando ou apenas repisando uma ideia já apresentada ao leitor – essa pessoa enjoada e preguiçosa que nos abandona ao primeiro enfado!

20) Assumir as próprias falhas – Nem sempre dá para consertar tudo numa revisão. Aliás, nunca dá para consertar tudo numa revisão! Prefiro deixar claro as falhas que consegui identificar e suas justificativas. Mil vezes um autor consciente de seus problemas do que o arrogante-profeta-sabe-tudo.

21) Apontar caminhos – Uma das falhas de todo bom texto é que ele acaba! Por isso, dar um fechamento é tão difícil quanto começar. Criei uma formulazinha para mim mesma: procuro terminar apontando desdobramentos possíveis, numa espécie de promessa do que eu faria se pudesse pesquisar e escrever mais.

22) Rever a abertura – Depois de todo esse trabalho, ainda falta uma revisão essencial: a do primeiro parágrafo. Nada mais chato do que começar lendo: “esta tese é sobre um assunto que surgiu no tempo em que eu estudava no lugar tal da vila tal da região remota tal onde um dia nasceu a nossa senhora dos começos”.  Um pouco de criatividade, uma epígrafe, uma pergunta, uma imagem… procuro achar algo para começar que não se pareça com um formulário carimbado em três vias.

Revisando Autoria, Título e Resumo

23) Dados biográficos – Erro no nosso próprio nome é uma das piores coisas que podem acontecer numa publicação! Mas acontecem; e com frequência, porque essas informações costumam ser redigitadas. Nas provas de um artigo que publiquei recentemente, meu nome inteiro estava trocado por outro! A mini-biografia veio correta mas eu me chamava Xan-Xin-Ling!  Essa é a parte da revisão que requer maior atenção pois somos mais desatentos com o que é familiar.

24) Revisar o resumo – Taí a melhor coisa que você pode fazer para a vida de seus futuros leitores. Tem que revisar em português e em inglês. Mesmo sem dominar bem a língua estrangeira, já ajuda passar um revisor automático ou usar o tradutor do Google pra verificar errinhos de ortografia.

25) Título – Escolher um título é pra mim a pior parte de todas! Sempre deixo por último para tentar melhorar e para evitar de vir errado. Já vi acontecer até em grandes editoras.

PS1: Faltou dizer que costumo terminar padronizando fontes, espaçamentos e outros detalhes formais, mas achei que “25 dicas” soaria melhor do que 26. Espero que sejam úteis!

PS2:  Nunca é demais lembrar: ao final da revisão, procuro enviar meu texto para um leitor(a) qualificado fazer críticas – e peço que sejam sem piedade! Quando chegam as correções e sugestões, descubro duas coisas: 1) tenho uma amizade verdadeira nesse mundo (só amigo pra fazer isso nos tempos de hoje); e 2) haja força para encarar mais uma – necessária – revisão! (E isso se provou verdadeiro aqui nesse post, conforme vocês podem ler abaixo.)

* Agradeço à Eva Scheliga por avisar que o correto, pela ABNT, é substituir o nome dos autores por 6 traços sublinhados. Agradeço ao Mário Magalhães por me ensinar que a expressão “de trás pra frente” está tecnicamente incorreta. Agradeço à Franciely Ribeiro por me alertar que “junto com” é pleonasmo! (Estava no início do item 12. Agora já está corrigido.)

PS3: Esqueci de escrever aqui (na versão inicial) que o post também é para comemorar duas marcas redondas do blog: 170 mil visitas e 100 mil visitantes \o/

PS4: Listinha de livros para quem gosta do tema da escrita e de ver como os escritores profissionais lidam com as próprias dificuldades:
– “Truques da Escrita”, de Howard S. Becker (ed. Zahar) – mais nesse post.
– “O espírito da prosa”, de Cristovão Tezza (ed. Record) – mais nesse post.
– “Sobre a escrita”, de Stephen King (ed.Suma)
– “Palavra por Palavra”, de Anne Lamott (ed. Sextante)
(Tentando citar apenas quatro para não exagerar nas referências… assim vocês não percebem que sou obcecada pelo tema.)

 

E para quem se interessa pelo mundo acadêmico: o blog tem posts sobre brincar de pesquisar, sobre o tempo pra fazer a tese – parte 1 e parte 2como explicar sua tese, dicas para aproveitar a defesa de doutorado e outros textos sobre minhas experiência na importância de escutar, nos truques da escrita, na elaboração de uma carta para a seleção de mestrado, na escrita de projetos, nas defesas de tese, nas dores de não passar, na falta de tempo, no ensino de antropologia e desenho, no aprender a desescrever, nas agruras de ser doutoranda, na vida dos alunos, no sorriso do professor, nas lições da vida acadêmica, na importância de não ser perfeito e nas muitas saudades de Oxford 1, 2, 3 e 4!

Sobre a imagem: Desenho de uma canetinha Derwent (e de seu estojo, que ficou pequeno) que ganhei no encontro dos Urban Sketchers em Manchester. Usei a própria caneta desenhada para fazer as linhas pretas. O papel é a folha de rosto cinza de um caderninho Fabriano que comprei no evento. A parte branca foi feita com lápis de cor e caneta posca. O desenho veio a calhar, pois já estava pronto quando resolvi escrever o post. Nada como uma canetinha preferida na hora de fazer uma revisão, pois sempre que posso trabalho com papel à mão.

Você acabou de ler “25 dicas para revisar textos acadêmicos (de trás pra frente)“, escrito e ilustrado por Karina Kuschnir e publicado em karinakuschnir.wordpress.com. Se quiser receber automaticamente novos posts, vá para a página inicial do blog e insira seu e-mail na caixa lateral à direita. Se estiver no celular, a caixa de inscrição está no rodapé. Obrigada! 🙂

Como citar: Kuschnir, Karina. 2016. “25 dicas para revisar textos acadêmicos (de trás pra frente)”, Publicado em https://karinakuschnir.wordpress.com/2016/09/23/25dicas. Acesso em [dd/mm/aaaa].


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No que acredito

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“A vida virtuosa é aquela inspirada pelo amor e guiada pelo conhecimento.”

“Duas pessoas entre as quais haja amor perseveram ou fracassam juntas, mas quando dois indivíduos se odeiam, o êxito de um constitui o fracasso do outro.”

“Não há atalho para uma vida virtuosa, seja ela individual ou social. Para construir uma vida virtuosa, precisamos erigir a inteligência, o autocontrole e a solidariedade.”

“Mas nada se poderá conseguir procurando garantir a segurança de uma parte da humanidade à custa de outra (…). Somente a justiça pode conferir segurança; e por ‘justiça’ me refiro ao reconhecimento da igualdade de direitos entre todos os seres humanos.”

Bertrand Russell, No que acredito, 1925

Essas frases saíram de um livrinho que caiu no meu colo essa semana. Ia dar só uma olhada, mas acabei lendo o pequeno volume inteiro! Que sabedoria a desse filósofo que escreve sobre temas complexos de uma forma tão clara e fácil.

3 Coisas impossivelmente-legais-bonitas-interessantes-hilárias-ou-dignas-de-nota da semana:

* Começou o primeiro semestre da UFRJ, e tenho duas turmas. Senti as mesmas apreensões de sempre: não vou dar conta, estou muito cansada, não tenho mais nada para dizer… Mas o encontro com os alunos e alunas reais foi ótimo. Propus exercícios novos em sala de aula (tanto para a Antropologia II quanto para a turma de Antropologia e Desenho) e acho que deu para nos divertirmos bastante! Depois conto mais aqui, se vocês quiserem — será que alguém tem esse interesse?

* Alice foi eleita representante de turma, junto com uma amiga. Fiquei feliz por ela. Por experiência (Antônio também já foi representante), sei que vai ser um caminho de muito aprendizado. Não é fácil.

* Antônio se apresentou com a peça Vida Severina, do grupo de teatro da escola. Foi lindo, emocionante, surpreendente! E claro que sou totalmente isenta para elogiar. No palco ele nem parecia meu filho!

Sobre o livro: Bertrand Russell, No que acredito, LP&M Pocket (tradução de André Godoy Vieira). Depois fiz uma rápida pesquisa no blog Brain Pickings e achei vários posts legais sobre o autor.

Sobre o desenho: Aquarela feita a partir de uma foto que tirei numa rua perto de casa. A árvore estava linda, toda colorida nesses tons. Estou tentando ser mais consistente no uso do meu diário gráfico, fazendo pelo menos um desenho por dia. Para não ficar de cerimônia, comecei essa nova série no final de um caderno Laloran antigo, detonado, pois tinha sido encharcado de água pelas patinhas do Ulisses… Assim não tem como ter pena de errar ou gastar.  A data no canto direito foi feita com um carimbo muito legal: “mini dater”. Não lembro de onde é o meu, mas consegui comprar com facilidade o refil da almofada de tinta. Para as flores, pintei direto com caneta pincel waterbrush e tintas Winsor & Newton. Estou tentando ser mais solta do que nos meus últimos desenhos com contorno. Aproveitei o momento de uma conversa telefônica matinal para pintar, e acho que a leveza refletiu as palavras sábias da minha amiga parteira: “penso, logo existo; penso demais, logo desisto”!

 


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Fup: amor, diferenças e defeitos

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“Suas diferenças, apesar de numerosas, eram superficiais; suas semelhanças eram poucas, mas tinham um alicerce: eram ligados pelo espantoso amor que tinham um pelo outro, uma amabilidade que ia além da mera tolerância, uma compreensão sanguínea daquilo que movia seus corações.” (Jim Dodge)

Era uma vez um avô imortal (Jake), um neto órfão (Miúdo) e uma pata gorda (Fup). Esse é o trio de personagens improváveis de um dos meus livros preferidos: Fup, de Jim Dodge. A cada vez que releio essa pequena obra, mais acredito na possibilidade desse “espantoso amor”, com a ternura de cada um poder ser o que é, de estar sozinho mas também acompanhado.

Vovô Jake é imortal, dado a excessos e vícios. Miúdo é um tranquilo construtor de cercas; Fup é uma pata esfomeada como um “aspirador empenado”, que gosta de uísque e de perseguir porcos. Os três se espezinham e se amam, na mesma medida. São poços de defeitos que o autor nos apresenta de forma sutil e bem humorada, como nesse trecho em que Fup reage à tentativa de ser educada por Jake:

“Se abrisse o bico sem fazer som algum, gesto mais ou menos entre um bocejo entediado e uma tentativa de vômito, significava discordância profunda; se isso fosse acompanhado de um som baixo e sibilante, com a cabeça abaixada e as asas levemente abertas, indicava discordância profunda e ataque iminente. Se enfiasse a cabeça debaixo da asa, você, o assunto e o resto do mundo enfadonho estavam dispensados.” (p.58)

As razões das coisas são complicadas, sente Jake. Às vezes só nos resta aceitar. Um de seus amigos nos emociona quando explica que mantém seu nome feio (escolhido por ele próprio em outra época da vida; como alguém que faz uma tatuagem e se arrepende depois) porque… “mantenho para me lembrar que a gente precisa viver com os próprios erros”. (p.73)

Pra seguir em frente sem saber direito o que está fazendo, Jake aconselha: intuição, razão, desespero. A intuição falha muito, mas quando funciona economiza um tempo enorme, dá um salto no espírito! A razão é “fidedigna, mas lenta”, há que ter paciência. (E o desespero?, deixo para quando vocês lerem a história.)

São três personagens doces e potentes, capazes de jogar damas 999 vezes; de serem ao mesmo tempo imortais e desimportantes — como nós!

3 Coisas impossivelmente-legais-bonitas-interessantes-divertidas-ou-dignas-de-nota da semana:

* Meu Photoshop é vintage, ano 2002. Instalei num notebook novo e continua funcionando!

* Comecei a abrir as 65 caixas da biblioteca do Gilberto Velho que herdei em 2012, mas que levei dois anos para reunir no seu local de destino: a linda sala-reserva da biblioteca do IFCS/UFRJ. Preciso da sorte e da imortalidade do vovô Jake. É muita emoção. Estou fazendo um diário para contar mais pra vocês.

* Ontem, último dia de aula do semestre 2015-2, os alunos se despediram de mim desejando “Feliz Natal, Feliz Ano Novo”. Vou sentir saudades dessa turminha de tão longa e boa convivência!

Sobre o desenho: Minha tentativa de desenhar as aventuras da Fup aprendendo a voar! Desenho com canetinha descartável 0.1, aquarelado com tintas Winsor & Newton em papel Canson Aquarelle 300gr.

Sobre o livro: Fup, de Jim Dodge, com tradução de Melany Laterman, publicado pela José Olympio (2007, 2ª edição), com apresentação de Marçal Aquino, na linda coleção Sabor Literário.


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Poesia potente

montanha

“o nosso plano secreto,
secreto até para
nós mesmos,
era procurar
o melhor mirante”
(Carlito Azevedo)

Estou apaixonada por Monodrama, livro de Carlito Azevedo, que li e reli nas últimas semanas. É fresco, bonito, triste, suave, engraçado, apaixonado, sonoro, bom, bom de ler. É cheio de ecos e pequenas histórias, como a

“do místico que dizia
fumar para pôr
um pouco de névoa
entre ele e o mundo”

ou a do escritor que teria nascido com um irmão gêmeo, tão idêntico, ao ponto de, num acidente em que um deles morreu afogado, os pais nunca souberam qual dos dois tinha morrido: “se ele ou eu”.

É também um livro de sons, do “micromundo das vibrações sonoras” que arrepiam; um livro que brilha, “com os seus cem sóis”, que pára o tempo:

“por um segundo
fez todo o sentido do mundo
o nosso absurdo ir e vir”

E nos oferece o silêncio:

“uma pessoa do silêncio,
de sua equipe,
ou melhor,
o silêncio é meu
equipamento.
eu disse:
o silêncio
é meu equipamento”

É também um livro de amor,

“e o fim do amor
e com vontades contrárias e confusas
de deslocamento
e invisibilidade”

e de um poeta antropólogo:

“Parei um dia em uma dessas
praças e, deitado sobre a
grama, me pus a escutar a
desconexão absoluta de
todas as falas do mundo, de
todos os sonhos do mundo.”

Carlito escreve sobre as nossas “pequenas humilhações diárias”, aquelas que acordam conosco — nossos sinais, nossos vícios –, como na história do pobre homem que sussurra ter parado de tomar o café preto da garrafa térmica verde e, “neste mesmo instante se dá conta perfeitamente de que foi o café preto da garrafa térmica verde que o deixou”.

São poemas e prosas (não, não sei a diferença) em que as histórias parecem caminhar soltas, sem esforço, como os verbos de Rua dos Cataventos: ele estava, ele esteve, ele foi, ele poderia, ele será, ele colaborou, ele podia ter colaborado, ele vai colaborar, ele jogou, ele confirmou, ele fez, ele vai, “ele dançou conforme a música”.

E ainda nem chegamos na melhor parte, “Dois estrangeiros”. Todo o poema “A) Efeito Lupa” é uma delicadeza infinita; e me sinto má de escolher um pedaço para mostrar aqui, mas escolho, com o aviso de que o trecho não faz jus ao corpo inteiro:

“longe daqui
tenho amigos que me amam

e aos meus poemas
e pensam em mim todos os dias

Longe daqui
alguém leva desesperados numa chalana

alguém estuda as temperaturas
supercondutoras

alguém percebe que não
se tornou um gênio do piano

deve haver alguém que chora
quando sua amiga lhe lê

um poema de
seu poeta preferido”

Como todas as obras que amo, Monodrama também é daquelas que ri de si mesma. Tem drama e humor no mesmo parágrafo, com o poeta misturando a si próprio, o livro, a vida, fazendo graça até quando é “difícil encontrar alguma graça”; fazendo poemas para escapar dos “procedimentos”; buscando lembrar, ou não: “Não se lembra de nada? Que sorte a sua, isso é melhor ainda, pois então você pode inventar tudo.”, diz que lhe disse um amigo.

Numa segunda leitura descobri mais um trecho apavorante de tão bonito, do poeta-etnógrafo:

“Ela lhe disse que os poemas são a transparência através da qual ela gosta de ver o mundo e você disse que ela era a transparência através da qual você gosta de ver o mundo e todos os poemas que há dentro dele e ela chorou e disse que ia embora e que não podia mais lhe ver e que não prestava para você.”

Não sei se ele vai concordar comigo (que dificuldade escrever de autores vivos!), mas vi aqui e ali uma admiração dos horizontes e do céu aberto. Da praia, vem as ondas

“que te nutrem
do opaco e do transparente
de que o mundo
é capaz”.

E a menina que

“está fugindo de casa
com toda a sua força
e todas as montanhas”

E um pouco adiante os barcos na marina que

“também pareciam querer fugir de si mesmos”

Receio estreitar os sentidos do livro com tantos recortes, como se estreita o coração do poeta nas páginas de despedida à mãe. E dele pego palavras emprestadas para me despedir também:

“Sinto que se conseguir escrever agora o que se passa comigo estarei salvo, repito isso a mim mesmo algumas vezes, como repito mentalmente o refrão de que onde há obra não há loucura e onde há loucura não há obra e venho escrever.”

Sobre o livro: Monodrama, de Carlito Azevedo, editado pela 7Letras, em 2009, está em 2ª reimpressão. Encontrei o meu exemplar na livraria Travessa de Botafogo. Em 2015, o livro foi traduzido e editado por Aníbal Cristobo para a editora Kriller71, de Barcelona, com uma capa lindíssima da artista Leila Danziger.

Sobre o desenho: Rabiscos no caderno Laloran feitos durante a última aula de aquarela do ano passado, inpirados nas nuvens do Turner. Por algum motivo surgiu um homenzinho a la Tom Gauld diante da montanha. Sem coragem de desenhar algo especial para o Monodrama, achei que dava para misturar aqui. Quem sabe, o poeta diante da tarefa de escrever, escreva mesmo assim. Usei canetinha 0.1 mm e aquarelas Winsor & Newton. O caderninho é novo e as páginas estão enrugando… o scanner não deu conta, pra variar.


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Vida, modo de usar — Doze lições de Oliver Sacks

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Sacks — Você disse a ele que eu era um bom homem. Como pode ser bom alguém que dá a vida… apenas para tirá-la novamente?
Eleanor — A vida é dada e tirada de todos nós.
Sacks — Por que isso não me conforta?
Eleanor — Porque você é um bom homem.
(Diálogo do filme Tempo de Despertar, 1990)

1) Viver intensamente. “Sacks vai longe, se não for longe demais” – a frase consta no relatório escolar do jovem Oliver (aos doze anos) e sintetiza bem a vida intensa e inovadora que ele nos conta em seu décimo quarto livro e autobiografia, publicada cerca de um ano antes da sua morte (e antes que ele soubesse que ia morrer).

2) Viver, apesar de. “Você é uma abominação. […] quisera que você nunca tivesse nascido” — isso foi o que ele ouviu aos 18 anos, quando sua mãe soube de suas preferências sexuais por meninos (1951). Sofremos com ele, para rir em seguida, da aventura forçada pela família junto a uma prostituta parisiense. A moça, ele conta, “parecia uma das minhas tias”, e logo entendeu que o programa seria uma boa xícara de chá.

3) Viver e aprender a se conhecer. Sacks é três vezes reprovado no exame de anatomia na faculdade de medicina, logo ele, o quinto Sacks-médico! Mas pouco tempo depois ganha um prêmio importantíssimo na mesma área. “Sou péssimo em exames factuais e em perguntas sim-não, mas crio asas na dissertação”, observa (p.24). Décadas mais tarde, fica fascinado pelas teorias neurocientíficas e pela pessoa de Gerald M. Edelman, expressando sua inveja por aquele cérebro com uma capacidade de “concentração feroz”. Mas reflete, bem humorado: “a vida não devia ser muito fácil com um cérebro daqueles”, e talvez fosse melhor se contentar com seus “próprios dotes, mais modestos” (p.305).

4) Viver com compaixão. O fascínio de Sacks pelo singular em cada ser humano (inclusive nele) é encantador! Suas descobertas do sexo, das drogas, das viagens, dos parentes e dos pacientes são narrativas sobre pessoas, seus cérebros, seus corpos, seus medos e afetos. Ele não está preocupado com quem-fez-o-quê-onde, mas com quem-sentiu-o-quê-como-e-com-quem. Ao invés de se afastar, Sacks se aproxima dos males dos pacientes, mostrando as necessidades deles e a sua de construir narrativas sobre a vida. A infinita demanda de “compor a si mesmo”, recriando incessantemente a si e seu mundo, é humana (e iluminada pela intensidade nos casos de amnésia).

Ele fica maravilhado com uma visita a Guam, na Micronésia, onde os pacientes com doenças mentais fazem parte da sociedade, colocando em evidência (por comparação) a “barbárie da nossa medicina […] do mundo civilizado onde afastamos e tentamos esquecer os doentes ou os dementes.” (p.279)

5) Viver com encantamento, com criação. É comovente perceber que ele investiga tanto os dramas dos pacientes quanto os seus próprios, narrando ora o efeito de uma droga, ora o efeito da escrita na sua vida:

“[Escrevendo,] era como se o tempo tivesse parado, com um halo de encantamento, um ponto privilegiado atemporal, longe da agitação do cotidiano, um tempo especial consagrado à criação. (…) Tenho a impressão de que os meus pensamentos se revelam pelo ato de escrever, no ato de escrever.” (p.160-2)

Seu editor lhe diz: “Oliver, você é capaz de qualquer coisa para ter uma nota de rodapé!” (p.205). Quando passou 30 dias num hotel para escritores, dos quais 29 sem escrever uma linha, teve apenas um só dia “magnificamente produtivo” (p. 217). Sacks duvida, a ponto de debater um ponto-e-vírgula num telefonema internacional com seu editor no meio da madrugada. Ele está em busca da prosa científica bem escrita (p.236), e da concentração do processo de escrever (“tão eficaz quanto a morfina” e “sem efeitos colaterais”, p. 323).

6) Viver no mundo. Ao receber uma carta elogiosa de um de seus ídolos, o neurologista-psicólogo Alexander Lúria, Sacks fala de sua profunda alegria e da sensação de sentir “uma espécie de tranquilidade intelectual que jamais sentira”. (p.173) E ele irá precisar desse aval porque, ao se tornar um autor “popular”, sente o peso de não “ser levado a sério” por seus colegas neurologistas. Diante de seus ídolos brilhantes, como Edelman, aprende a dar valor ao seu gosto pelas pessoas: afinal, alguém precisa fazer o “trabalho de campo” necessário às formulações teóricas gerais (p.313).

7) Viver e sobreviver. Tendo sido uma criança que foi evacuada de Londres durante a Segunda Guerra Mundial, separada de sua família, ele se emociona quando houve no rádio que os veteranos dessa mesma época sobreviveram, sim, mas com sequelas. E se identifica com o depoimento de um deles: “até hoje tenho problemas com os três Bs: bonding, belonging and believing [criar laços, me sentir parte integrante e acreditar]”. Mas é comovente como, aqui e ali, vai se reconciliando com seus pais e até percebedo neles muito de seu próprio modo de ser. Sobre a prática de seu pai, clínico estimado por todos até os 94 anos, ele lembra: “conhecia o interior da geladeira dos pacientes tão bem quanto o interior do corpo deles.”

8) Viver e aprender a perceber. Um tema central em toda a sua narrativa é o da percepção (visual ou não) do mundo. Da percepção da própria existência, que Sacks explorará através do conceito de “propriopercepção” às percepções clínicas que adquire (por meio da análise de seus pacientes), que por sua vez mudam sua percepção do mundo à volta. Por exemplo, quanto mais tempo ele passa e estuda seu paciente com síndrome de Tourette, mais “calibra o seu olho neurológico” para enxergar a síndrome em outras pessoas. Tudo isso vai culminar na ideia de que a experiência do indivíduo “molda” o seu cérebro. É fascinante como ele explora os casos de alterações visuais (desde a ausência da percepção de cor e variantes do daltonismo, à perda da visão binocular estéreo, entre outras) e conclui: “Toda percepção é um ato de criação” (p. 310).

9) Viver e saber mudar. Sacks fala abertamente de depressão, de deslocamento, de se sentir inadequado, de ser desleixado, lento, de fazer digressões mentais esdrúxulas… de voltar atrás, de mudar de ideia, de não ter certeza. Elogia um de seus ídolos, Jerome Bruner, que podia parar no meio de uma frase e refletir: “Não acredito mais no que eu estava para dizer”. (p.229)

10) Viver com desapego. Sacks ama a obra de seu amigo poeta, Thom Gunn, com seus versos que celebram as plantas que nascem em terrenos baldios e rachaduras (p.234). Louva o desprendimento financeiro do autor, sua dedicação e o progressivo desapego à busca da beleza e da perfeição formal, em nome de uma obra mais livre e terna. Thom, numa carta citada, escreve da importância dos “empréstimos maciços” que faz das suas leituras e se encanta quando Eliot diz que “a arte é a fuga da personalidade” (p.238).

Empatia, espírito livre, sem-julgamento, simplicidade: essas são as qualidades das pessoas que admira. Cita o caso de seu tio que visitou Einstein em Princeton e espantou-se quando o genial cientista foi para a cozinha lhe fazer um café.

11) Viver com amor. Desenvolver novas habilidades o leva de volta às aulas de música e piano aos 75 anos, mas tudo se torna um desafio com a perda da visão do olho, devido a um câncer, em 2005 (p.323). No meio de sua batalha com a dor, encontra um novo “analgésico”: se apaixona por aquele que foi o seu único companheiro e com quem viveu os últimos 7 anos de sua vida. “Seria o próprio enamoramento que inundava o corpo de opioides, de canabinoides ou qualquer coisa assim?” O amor, ele escreve, é uma “dádiva grandiosa e inesperada na minha velhice, depois de toda uma vida me mantendo à distância.” (p.326-7)

12) Viver e morrer. Em janeiro de 2015, poucas semanas depois de entregar à editora o manuscrito de sua biografia, Sacks descobre que o câncer havia voltado agressivo e lhe dando poucos meses de vida. Ao invés de se recolher, ele escreve ao mundo no New York Times quatro comoventes cartas de despedida, a última publicada poucas semanas antes de sua morte, em 30 de agosto de 2015. Na primeira delas, ele diz:

“Eu tenho que viver da maneira mais rica, mais profunda, mais produtiva que posso. (…) Sinto-me intensamente vivo, e quero e espero que, no tempo que resta, possa aprofundar minhas amizades, dizer adeus àqueles que amo, escrever mais, viajar e, se tiver forças, alcançar novos níveis de entendimento e novas ideias. (…) Não posso fingir que não tenho medo. Mas o meu sentimento predominante é de gratidão. Amei e fui amado;  recebi muito e dei algo em troca; li e viajei, pensei e escrevi. Interagi com o mundo (…). Acima de tudo, tenho sido um ser senciente, um animal que pensa, neste belo planeta, e isso foi em si mesmo uma enorme aventura e privilégio.” (tradução livre minha)

Escrevi a maior parte desse post quando Sacks ainda estava vivo, e fiquei abalada, sem conseguir terminá-lo, quando soube de sua morte. Felizmente, agora presto essa homenagem. As crônicas do New York Times estão disponíveis online — My own life, MishearingsMy Periodic TableSabbath — e há um mundo de informações a explorar em seu site http://www.oliversacks.com/.

Sobre o livro: “Sempre em movimento: uma vida”, de Oliver Sacks (Ed. Companhia das Letras, 2015, tradução de Denise Bottmann, 354p.).

Sobre o filme: Tempo de Despertar (Awakenings, no original) é de 1990, dirigido por Penny Marshall, com base no livro do mesmo nome de Oliver Sacks e roteiro de Steven Zaillian. Tem atuações brilhantes de Robert De Niro (o paciente Leonard), Robin Williams (Oliver Sacks) e Julie Kavner (enfermeira Eleonor), assim como de todo o elenco.

Sobre o desenho: Fiz esse retrato de Sacks a partir da foto da capa do livro, com aquarela sobre papel. O scanner sabotou todas as sutilezas das cores, mas o principal problema do resultado, na minha opinião, é a falta de expressão no olhar. No original, ele nos sorri com os olhos! Taí mais um segredo da pintura a ser desvendado…

 


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A importância de não ser perfeito

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Bom dia! Meu desejo para todos nós hoje é simples: ânimo! Um monte de cor para quem acordou melancólico e para quem acordou alegre e bem disposto. A humanidade, apesar de tudo, está vivendo mais e melhor.* Não podemos nos esquecer disso. Força para todos que estão aflitos com qualquer coisa — da vida cotidiana e das injustiças sociais, aos prazos para escrever trabalhos, projetos, dissertações, teses e artigos. Estou nesse barco também.

Nunca é demais lembrar que muita perfeição atrapalha. Como escreveu Oscar Wilde nesse diálogo:

— A senhorita é absolutamente perfeita, senhorita Fairfax.
— Ah, Espero não ser. Assim não haveria espaço para desenvolvimento, e eu pretendo me desenvolver em muitas direções.

E nada como rir de si mesmo, como nos lembram as frases de Lorde Goring, outro personagem de Wilde:

— Que pena que não me atrasei mais então. Gosto que sintam minha falta.
— [Meus defeitos] são terríveis! Quando penso neles à noite, durmo na mesma hora.
— Eu adoro falar sobre coisa nenhuma, meu pai. É o único assunto sobre o qual sei alguma coisa.
— Sempre distribuo bons conselhos. É a única coisa que se pode fazer com eles. Nunca têm serventia alguma para nós próprios.
— Tudo é perigoso, meu caro amigo. Se não fosse assim, a vida não valeria a pena…
— A vida nunca é justa, Robert.
— Sempre vale a pena perguntar, embora nem sempre valha a pena responder.
— …existe uma moda para passados, assim como existe uma moda para vestidos.
— Ah, a verdade é uma coisa da qual eu me livro assim que possível. O que é um péssimo hábito, aliás.
— É o amor, e não a filosofia alemã, a verdadeira explicação para este mundo, qualquer que seja a explicação para o outro. […] Mas já passa das sete, meu pai, e o médico diz que não posso ter nenhuma conversa série depois das sete.

Bom trabalho para todos nós!

3 Coisas impossivelmente-animadoras-bonitas-interessantes-ou-dignas-de-nota da semana:

* Hans Rosling mostra os avanços na vida humana em 200 países, por 200 anos, em 4 minutos: https://youtu.be/jbkSRLYSojo

* A artista Eva Furnari tem um site maravilhoso e fala de sua carreira e dos seus desenhos nesse mini-doc (20min.) produzido pelo site Esconderijos do Tempo: https://youtu.be/Fwv3zaDhpNc. Eu estava guardando esse link para fazer um post inteiro sobre ela, mas não resisto a compartilhar logo essa lindeza com vocês. Os personagens de Eva são perfeitamente imperfeitos!

* E para quem acompanha a carreira musical da Alice: já temos uma violonista tocando Bob Dylan em casa! 🙂

Sobre os trechos de Oscar Wilde: O primeiro diálogo é entre Jack e Gwendolen, personagens da peça “A importância de ser prudente”. As falas de Lorde Goring estão na peça “Um marido ideal”. Os trechos foram tirados de “Oscar Wilde — A importância de ser prudente e outras peças”, traduzido por Sônia Moreira, com introdução e notas de Richard Allen Cave, para a editora Penguin/Companhia das Letras. Esse volume é uma pequena joia para qualquer biblioteca. Merece ser lido da introdução até a última notinha na página 415. Lá, o editor cita um trecho excluído por Wilde: Jack perguntando ao seu interlocutor se seu nome é Grubsby ou Parker. E ouve: “– Sou ambos, senhor. Sou Gribsby quando estou tratando de assuntos desagradáveis e Parker em ocasiões de natureza menos grave.” Jack responde: “– Na próxima vez que o encontrar, espero que o senhor seja Parker.”

Acho que todos nós temos esses lados, concordam? Espero na próxima semana voltar aqui mais Karina e menos Kuschnir!

Sobre o desenho: Brincadeira de aquarela com as misturas que fui encontrando no meu godê. Minha regra foi trabalhar cada bolinha com tons claros e escuros da mesma cor, tentando fugir das combinações que costumo utilizar. A ideia surgiu do aprendizado de desenhar o calendário de setembro, com nuances apenas em azul. O resultado, principalmente ao vivo, é cheio de imperfeições. As bolinhas não são bem redondas e os traços não estão uniformes… mas, como vocês já sabem, meu lema é o da vovó Trude e do vovô Steinbeck: “feito é melhor que o perfeito”.


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Dez truques da escrita num livro só

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“Para superar a prosa acadêmica, primeiro você precisa superar a pose acadêmica.” (C. Wright Mills, cit. por Becker, em Truques da escrita, p.57)

O melhor livro sobre escrita no mundo das ciências sociais está finalmente publicado em português! Foi uma delícia ajudar na edição do Truques da escrita: para começar e terminar teses, livros e artigos, do Howard S. Becker (editora Zahar, 2015, tradução de Denise Bottmann, e minha revisão técnica). É sempre bom ter uma desculpa para trocar e-mails com o Howie. Ele é desafiador, irreverente e simpático, mas não bonzinho!

Ano passado ele estava bem pessimista com a vida acadêmica… A primeira versão de prefácio para a edição brasileira veio nessa onda… Pedi please, por favor, dá para animar um pouquinho? Os estudantes brasileiros estão precisando de boas vibrações para terminar seus textos, artigos e teses! (E nem estávamos no cenário atual… ) Então veio uma nova versão, bem no tom do restante do livro, cheia de ideias e análises séria-mas-divertidas sobre nosso modo de lidar com a escrita na academia.

Aí vão dez dicas que pincei dentre os muitos segredos e truques apresentados na primeira metade do livro:

1) Você não está sozinho — Isso parece título de seriado de suspense, mas traduz uma ideia forte e simples da obra do Becker: a maioria dos nossos problemas são coletivos e não individuais. Escrever também. Você senta diante do computador e pensa: “Oh, meu deus, por que tudo que eu escrevo é horrível?” Bem-vindo. Todo mundo senta ao computador e escreve seis frases horríveis antes de escrever uma que preste. Você, o professor titular e o aluno brilhante de doutorado também. Perde-se muito tempo sofrendo nessa “privacidade socialmente organizada” da escrita. Melhor aceitar que escrever mal ou truncado faz parte de escrever. Ponto.

2) Rascunho sem censura — Escreva uma primeira versão do seu texto sem se preocupar com o que os outros vão achar, sem medo de rirem de você, sem apagar antes de começar. Querer um texto claro e coerente de primeira é uma das principais armadilhas para acabar não tendo texto algum. Confie, escreva um “rascunho confuso”, pois o objetivo é “fazer descobertas” e não publicar imediatamente (p.40).

3) Uma, duas, três, quatro, cinco revisões — Corte tudo que não sobreviver à pergunta: “Isso é realmente necessário?” Divida frases longas, substitua a voz passiva, simplifique, clareie. É o dever-de-casa básico dos cursos de redação, diz Becker. O problema é que os cientistas sociais se acostumaram a ter que escrever em prazos muito curtos, acabando por aceitar como normais textos que precisariam de várias revisões para serem realmente bons.

4) Crítica-amiga — Nem todo colega é um bom leitor, mas cultivar um círculo de amigos-leitores para suas versões preliminares ajuda a “desemaranhar as ideias”, melhorar a linguagem, incorporar referências, incluir comparações e até cortar mais, se necessário! Quando eles reclamarem que a prosa está confusa, a culpa é sua. Volte ao ponto 3!

5) Complexidade com simplicidade — Muitas pessoas confundem redação empolada e complicada com sofisticação intelectual. Becker abomina. Citando C. Wright Mills, ele defende: é possível ser compreensível e complexo, ser claro e também profundo. Subterfúgios retóricos servem para afirmar superioridade de status por parte dos acadêmicos (e é nesse contexto que aparece a citação do Mills que abre o post), como o sotaque que denuncia uma classe social.

6) O fim no começo — Ao terminar de escrever, pegue o triunfante parágrafo final e coloque-o no início do texto! Ou seja, escreva a introdução por último, quando já tiver clareza de onde seu trabalho irá chegar. Começar de forma evasiva não ajuda. Apresentar de cara as conclusões e o mapa do percurso de sua pesquisa é uma forma mais eficiente de fazer o leitor se interessar. Becker dá um exemplo ótimo de como fazer isso na p.83.

7) Escrever para pensar — Escrever o rascunho-sem-censura da forma mais livre possível, até sem recorrer a notas de campo e bibliografia, te leva a entender as ideias que estão na sua cabeça. É uma maneira de dar uma “forma física” ao seu pensamento! (p.86) Depois, avaliando estas páginas, é o caso de se perguntar: as ideias se repetem?; se complementam?; são frágeis? quantas/quais são realmente importantes?

8) A ordem dos dados importa? — Não há uma maneira única e certa de apresentar os dados de uma pesquisa. Há várias, e quase sempre a conclusão é a mesma, não importando o modo como você organiza os temas. Mas recortar, empilhar, marcar, fichar, fazer diagramas… tudo isso pode ajudar a construir o mapa do seu texto.

9) Falar dos problemas resolve todos os problemas — Em vez de eliminar um problema, escreva sobre ele. Simples assim. Qualquer transtorno ou situação penosa te ensina “algo que vale a pena aprender” (p.96). Mas para falar dos seus problemas, você precisa reconhecê-los… e admitir que o Senhor-Todo-Certinho não existe: “O remédio é experimentar e ver por si mesmo que não dói.” (p.100)

10) O trabalho é seu e o mundo não acabou — O autor existe! Bem-vindo, Você.

“…a solução para escrever algo (…) é escrever mesmo assim e, ao terminar, descobrir que o mundo não se acabou. Uma maneira de fazer isso é iludir a si mesmo e se forçar a pensar que o que você está escrevendo não tem importância e não faz diferença nenhuma – uma carta para um velho amigo, talvez. (…) A única maneira de começar a nadar é entrando na água.” (p. 181)

Essas dez dicas são só das primeiras 100 páginas do livro! (Exceto a última, ok, não reparem.) Como o próprio Becker afirma que é “preguiçoso” e não gosta de trabalhar, também me sinto à vontade para parar no meio. Talvez eu faça um segundo post sobre o livro, talvez não… Falta tanta coisa boa: como editar, como enfrentar a bibliografia, como descobrir que o texto está pronto… Corram pra ler, é muito mais divertido do que eu escrevi!

**Aviso: é correto informar que o livro faz parte da Coleção Antropologia Social (dirigida por mim) e que recebo uma pequenina porcentagem das vendas. Mas não foi por isso que escrevi o post, claro.

** PS: Depois do post publicado, soube dessa resenha muito legal feita pela Julia Polessa, antes da edição brasileira existir. Vejam lá!

E para quem se interessa pelo mundo acadêmico, o blog tem outros textos sobre minhas experiências… na escrita de projetos, nas defesas de tese, nas dores de não passar, na falta de tempo, no ensino de antropologia e desenho, no aprender a desescrever, nas agruras de ser doutoranda, na vida dos alunos, no sorriso do professor, nas lições da vida acadêmica e nas muitas saudades de Oxford 1, 2, 3 e 4!

* 5 Coisas impossivelmente-legais-bonitas-interessantes-hilárias-ou-dignas-de-nota da semana:

* Descobri o blog A Vida Pública da Sociologia, escrito pelo João Marcelo Maia. Li tudo de uma vez só, adorei e entupi o João com comentários. Um lugar para respirar ar fresco e inteligência na vida acadêmica!

* Médico: — Como vai o Antônio? Teve febre?
Eu: — Não, ao contrário. Estou até preocupada:  o termômetro não ultrapassa 35 graus e pouco.
Médico — Ah, é “febre de sapo”!

* Seriado Elementary (Netflix): o Sherlock Holmes moderno explica: “The danger with rule books, Watson, is that they offer the illusion that leading a moral life is a simple undertaking, that the world exists in black and white. Welcome to the greys!”

* Saiu em português um dos melhores livros autobiográficos que já li: Sobre a escrita: a arte em memórias, de Stephen King.

* Coincidência simpática: este é 80º post e o blog acaba de ultrapassar 80.000 visitas!

* Sobre o desenho: Fiz o desenho achando que ia ser um rascunho, mas acabou virando a versão final. Lápis e caneta nanquim 0.3 Unipin sobre o verso de um papel Canson Aquarelle. Aguadas com waterbrush Kuretake (large) e tintas de aquarela misturando cinzas com as cores Burn Sienna, French Ultramarine, Neutral Tint e um pouquinho de Turquoise para os azuis claros. No chão do escritório imaginário, os rabiscos são as letras e palavras que o Becker nos sugere cortar sem piedade. Quem sabe um dia eu não viro ilustradora de verdade e publico um desses na Piauí?

Você acabou de ler “Dez truques da escrita num livro só“, escrito e ilustrado por Karina Kuschnir e publicado em karinakuschnir.wordpress.com. Se quiser receber automaticamente novos posts, vá para a página inicial do blog e insira seu e-mail na caixa lateral à direita. Se estiver no celular, a caixa de inscrição está no rodapé. Obrigada! 🙂

Como citar: Kuschnir, Karina. 2015. “Dez truques da escrita num livro só”, Publicado em karinakuschnir.wordpress.com, url “http://wp.me/p42zgF-ft“. Acesso em [dd/mm/aaaa].