Karina Kuschnir

desenhos, textos, coisas


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Fup: amor, diferenças e defeitos

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“Suas diferenças, apesar de numerosas, eram superficiais; suas semelhanças eram poucas, mas tinham um alicerce: eram ligados pelo espantoso amor que tinham um pelo outro, uma amabilidade que ia além da mera tolerância, uma compreensão sanguínea daquilo que movia seus corações.” (Jim Dodge)

Era uma vez um avô imortal (Jake), um neto órfão (Miúdo) e uma pata gorda (Fup). Esse é o trio de personagens improváveis de um dos meus livros preferidos: Fup, de Jim Dodge. A cada vez que releio essa pequena obra, mais acredito na possibilidade desse “espantoso amor”, com a ternura de cada um poder ser o que é, de estar sozinho mas também acompanhado.

Vovô Jake é imortal, dado a excessos e vícios. Miúdo é um tranquilo construtor de cercas; Fup é uma pata esfomeada como um “aspirador empenado”, que gosta de uísque e de perseguir porcos. Os três se espezinham e se amam, na mesma medida. São poços de defeitos que o autor nos apresenta de forma sutil e bem humorada, como nesse trecho em que Fup reage à tentativa de ser educada por Jake:

“Se abrisse o bico sem fazer som algum, gesto mais ou menos entre um bocejo entediado e uma tentativa de vômito, significava discordância profunda; se isso fosse acompanhado de um som baixo e sibilante, com a cabeça abaixada e as asas levemente abertas, indicava discordância profunda e ataque iminente. Se enfiasse a cabeça debaixo da asa, você, o assunto e o resto do mundo enfadonho estavam dispensados.” (p.58)

As razões das coisas são complicadas, sente Jake. Às vezes só nos resta aceitar. Um de seus amigos nos emociona quando explica que mantém seu nome feio (escolhido por ele próprio em outra época da vida; como alguém que faz uma tatuagem e se arrepende depois) porque… “mantenho para me lembrar que a gente precisa viver com os próprios erros”. (p.73)

Pra seguir em frente sem saber direito o que está fazendo, Jake aconselha: intuição, razão, desespero. A intuição falha muito, mas quando funciona economiza um tempo enorme, dá um salto no espírito! A razão é “fidedigna, mas lenta”, há que ter paciência. (E o desespero?, deixo para quando vocês lerem a história.)

São três personagens doces e potentes, capazes de jogar damas 999 vezes; de serem ao mesmo tempo imortais e desimportantes — como nós!

3 Coisas impossivelmente-legais-bonitas-interessantes-divertidas-ou-dignas-de-nota da semana:

* Meu Photoshop é vintage, ano 2002. Instalei num notebook novo e continua funcionando!

* Comecei a abrir as 65 caixas da biblioteca do Gilberto Velho que herdei em 2012, mas que levei dois anos para reunir no seu local de destino: a linda sala-reserva da biblioteca do IFCS/UFRJ. Preciso da sorte e da imortalidade do vovô Jake. É muita emoção. Estou fazendo um diário para contar mais pra vocês.

* Ontem, último dia de aula do semestre 2015-2, os alunos se despediram de mim desejando “Feliz Natal, Feliz Ano Novo”. Vou sentir saudades dessa turminha de tão longa e boa convivência!

Sobre o desenho: Minha tentativa de desenhar as aventuras da Fup aprendendo a voar! Desenho com canetinha descartável 0.1, aquarelado com tintas Winsor & Newton em papel Canson Aquarelle 300gr.

Sobre o livro: Fup, de Jim Dodge, com tradução de Melany Laterman, publicado pela José Olympio (2007, 2ª edição), com apresentação de Marçal Aquino, na linda coleção Sabor Literário.


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Poesia potente

montanha

“o nosso plano secreto,
secreto até para
nós mesmos,
era procurar
o melhor mirante”
(Carlito Azevedo)

Estou apaixonada por Monodrama, livro de Carlito Azevedo, que li e reli nas últimas semanas. É fresco, bonito, triste, suave, engraçado, apaixonado, sonoro, bom, bom de ler. É cheio de ecos e pequenas histórias, como a

“do místico que dizia
fumar para pôr
um pouco de névoa
entre ele e o mundo”

ou a do escritor que teria nascido com um irmão gêmeo, tão idêntico, ao ponto de, num acidente em que um deles morreu afogado, os pais nunca souberam qual dos dois tinha morrido: “se ele ou eu”.

É também um livro de sons, do “micromundo das vibrações sonoras” que arrepiam; um livro que brilha, “com os seus cem sóis”, que pára o tempo:

“por um segundo
fez todo o sentido do mundo
o nosso absurdo ir e vir”

E nos oferece o silêncio:

“uma pessoa do silêncio,
de sua equipe,
ou melhor,
o silêncio é meu
equipamento.
eu disse:
o silêncio
é meu equipamento”

É também um livro de amor,

“e o fim do amor
e com vontades contrárias e confusas
de deslocamento
e invisibilidade”

e de um poeta antropólogo:

“Parei um dia em uma dessas
praças e, deitado sobre a
grama, me pus a escutar a
desconexão absoluta de
todas as falas do mundo, de
todos os sonhos do mundo.”

Carlito escreve sobre as nossas “pequenas humilhações diárias”, aquelas que acordam conosco — nossos sinais, nossos vícios –, como na história do pobre homem que sussurra ter parado de tomar o café preto da garrafa térmica verde e, “neste mesmo instante se dá conta perfeitamente de que foi o café preto da garrafa térmica verde que o deixou”.

São poemas e prosas (não, não sei a diferença) em que as histórias parecem caminhar soltas, sem esforço, como os verbos de Rua dos Cataventos: ele estava, ele esteve, ele foi, ele poderia, ele será, ele colaborou, ele podia ter colaborado, ele vai colaborar, ele jogou, ele confirmou, ele fez, ele vai, “ele dançou conforme a música”.

E ainda nem chegamos na melhor parte, “Dois estrangeiros”. Todo o poema “A) Efeito Lupa” é uma delicadeza infinita; e me sinto má de escolher um pedaço para mostrar aqui, mas escolho, com o aviso de que o trecho não faz jus ao corpo inteiro:

“longe daqui
tenho amigos que me amam

e aos meus poemas
e pensam em mim todos os dias

Longe daqui
alguém leva desesperados numa chalana

alguém estuda as temperaturas
supercondutoras

alguém percebe que não
se tornou um gênio do piano

deve haver alguém que chora
quando sua amiga lhe lê

um poema de
seu poeta preferido”

Como todas as obras que amo, Monodrama também é daquelas que ri de si mesma. Tem drama e humor no mesmo parágrafo, com o poeta misturando a si próprio, o livro, a vida, fazendo graça até quando é “difícil encontrar alguma graça”; fazendo poemas para escapar dos “procedimentos”; buscando lembrar, ou não: “Não se lembra de nada? Que sorte a sua, isso é melhor ainda, pois então você pode inventar tudo.”, diz que lhe disse um amigo.

Numa segunda leitura descobri mais um trecho apavorante de tão bonito, do poeta-etnógrafo:

“Ela lhe disse que os poemas são a transparência através da qual ela gosta de ver o mundo e você disse que ela era a transparência através da qual você gosta de ver o mundo e todos os poemas que há dentro dele e ela chorou e disse que ia embora e que não podia mais lhe ver e que não prestava para você.”

Não sei se ele vai concordar comigo (que dificuldade escrever de autores vivos!), mas vi aqui e ali uma admiração dos horizontes e do céu aberto. Da praia, vem as ondas

“que te nutrem
do opaco e do transparente
de que o mundo
é capaz”.

E a menina que

“está fugindo de casa
com toda a sua força
e todas as montanhas”

E um pouco adiante os barcos na marina que

“também pareciam querer fugir de si mesmos”

Receio estreitar os sentidos do livro com tantos recortes, como se estreita o coração do poeta nas páginas de despedida à mãe. E dele pego palavras emprestadas para me despedir também:

“Sinto que se conseguir escrever agora o que se passa comigo estarei salvo, repito isso a mim mesmo algumas vezes, como repito mentalmente o refrão de que onde há obra não há loucura e onde há loucura não há obra e venho escrever.”

Sobre o livro: Monodrama, de Carlito Azevedo, editado pela 7Letras, em 2009, está em 2ª reimpressão. Encontrei o meu exemplar na livraria Travessa de Botafogo. Em 2015, o livro foi traduzido e editado por Aníbal Cristobo para a editora Kriller71, de Barcelona, com uma capa lindíssima da artista Leila Danziger.

Sobre o desenho: Rabiscos no caderno Laloran feitos durante a última aula de aquarela do ano passado, inpirados nas nuvens do Turner. Por algum motivo surgiu um homenzinho a la Tom Gauld diante da montanha. Sem coragem de desenhar algo especial para o Monodrama, achei que dava para misturar aqui. Quem sabe, o poeta diante da tarefa de escrever, escreva mesmo assim. Usei canetinha 0.1 mm e aquarelas Winsor & Newton. O caderninho é novo e as páginas estão enrugando… o scanner não deu conta, pra variar.


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Vida, modo de usar — Doze lições de Oliver Sacks

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Sacks — Você disse a ele que eu era um bom homem. Como pode ser bom alguém que dá a vida… apenas para tirá-la novamente?
Eleanor — A vida é dada e tirada de todos nós.
Sacks — Por que isso não me conforta?
Eleanor — Porque você é um bom homem.
(Diálogo do filme Tempo de Despertar, 1990)

1) Viver intensamente. “Sacks vai longe, se não for longe demais” – a frase consta no relatório escolar do jovem Oliver (aos doze anos) e sintetiza bem a vida intensa e inovadora que ele nos conta em seu décimo quarto livro e autobiografia, publicada cerca de um ano antes da sua morte (e antes que ele soubesse que ia morrer).

2) Viver, apesar de. “Você é uma abominação. […] quisera que você nunca tivesse nascido” — isso foi o que ele ouviu aos 18 anos, quando sua mãe soube de suas preferências sexuais por meninos (1951). Sofremos com ele, para rir em seguida, da aventura forçada pela família junto a uma prostituta parisiense. A moça, ele conta, “parecia uma das minhas tias”, e logo entendeu que o programa seria uma boa xícara de chá.

3) Viver e aprender a se conhecer. Sacks é três vezes reprovado no exame de anatomia na faculdade de medicina, logo ele, o quinto Sacks-médico! Mas pouco tempo depois ganha um prêmio importantíssimo na mesma área. “Sou péssimo em exames factuais e em perguntas sim-não, mas crio asas na dissertação”, observa (p.24). Décadas mais tarde, fica fascinado pelas teorias neurocientíficas e pela pessoa de Gerald M. Edelman, expressando sua inveja por aquele cérebro com uma capacidade de “concentração feroz”. Mas reflete, bem humorado: “a vida não devia ser muito fácil com um cérebro daqueles”, e talvez fosse melhor se contentar com seus “próprios dotes, mais modestos” (p.305).

4) Viver com compaixão. O fascínio de Sacks pelo singular em cada ser humano (inclusive nele) é encantador! Suas descobertas do sexo, das drogas, das viagens, dos parentes e dos pacientes são narrativas sobre pessoas, seus cérebros, seus corpos, seus medos e afetos. Ele não está preocupado com quem-fez-o-quê-onde, mas com quem-sentiu-o-quê-como-e-com-quem. Ao invés de se afastar, Sacks se aproxima dos males dos pacientes, mostrando as necessidades deles e a sua de construir narrativas sobre a vida. A infinita demanda de “compor a si mesmo”, recriando incessantemente a si e seu mundo, é humana (e iluminada pela intensidade nos casos de amnésia).

Ele fica maravilhado com uma visita a Guam, na Micronésia, onde os pacientes com doenças mentais fazem parte da sociedade, colocando em evidência (por comparação) a “barbárie da nossa medicina […] do mundo civilizado onde afastamos e tentamos esquecer os doentes ou os dementes.” (p.279)

5) Viver com encantamento, com criação. É comovente perceber que ele investiga tanto os dramas dos pacientes quanto os seus próprios, narrando ora o efeito de uma droga, ora o efeito da escrita na sua vida:

“[Escrevendo,] era como se o tempo tivesse parado, com um halo de encantamento, um ponto privilegiado atemporal, longe da agitação do cotidiano, um tempo especial consagrado à criação. (…) Tenho a impressão de que os meus pensamentos se revelam pelo ato de escrever, no ato de escrever.” (p.160-2)

Seu editor lhe diz: “Oliver, você é capaz de qualquer coisa para ter uma nota de rodapé!” (p.205). Quando passou 30 dias num hotel para escritores, dos quais 29 sem escrever uma linha, teve apenas um só dia “magnificamente produtivo” (p. 217). Sacks duvida, a ponto de debater um ponto-e-vírgula num telefonema internacional com seu editor no meio da madrugada. Ele está em busca da prosa científica bem escrita (p.236), e da concentração do processo de escrever (“tão eficaz quanto a morfina” e “sem efeitos colaterais”, p. 323).

6) Viver no mundo. Ao receber uma carta elogiosa de um de seus ídolos, o neurologista-psicólogo Alexander Lúria, Sacks fala de sua profunda alegria e da sensação de sentir “uma espécie de tranquilidade intelectual que jamais sentira”. (p.173) E ele irá precisar desse aval porque, ao se tornar um autor “popular”, sente o peso de não “ser levado a sério” por seus colegas neurologistas. Diante de seus ídolos brilhantes, como Edelman, aprende a dar valor ao seu gosto pelas pessoas: afinal, alguém precisa fazer o “trabalho de campo” necessário às formulações teóricas gerais (p.313).

7) Viver e sobreviver. Tendo sido uma criança que foi evacuada de Londres durante a Segunda Guerra Mundial, separada de sua família, ele se emociona quando houve no rádio que os veteranos dessa mesma época sobreviveram, sim, mas com sequelas. E se identifica com o depoimento de um deles: “até hoje tenho problemas com os três Bs: bonding, belonging and believing [criar laços, me sentir parte integrante e acreditar]”. Mas é comovente como, aqui e ali, vai se reconciliando com seus pais e até percebedo neles muito de seu próprio modo de ser. Sobre a prática de seu pai, clínico estimado por todos até os 94 anos, ele lembra: “conhecia o interior da geladeira dos pacientes tão bem quanto o interior do corpo deles.”

8) Viver e aprender a perceber. Um tema central em toda a sua narrativa é o da percepção (visual ou não) do mundo. Da percepção da própria existência, que Sacks explorará através do conceito de “propriopercepção” às percepções clínicas que adquire (por meio da análise de seus pacientes), que por sua vez mudam sua percepção do mundo à volta. Por exemplo, quanto mais tempo ele passa e estuda seu paciente com síndrome de Tourette, mais “calibra o seu olho neurológico” para enxergar a síndrome em outras pessoas. Tudo isso vai culminar na ideia de que a experiência do indivíduo “molda” o seu cérebro. É fascinante como ele explora os casos de alterações visuais (desde a ausência da percepção de cor e variantes do daltonismo, à perda da visão binocular estéreo, entre outras) e conclui: “Toda percepção é um ato de criação” (p. 310).

9) Viver e saber mudar. Sacks fala abertamente de depressão, de deslocamento, de se sentir inadequado, de ser desleixado, lento, de fazer digressões mentais esdrúxulas… de voltar atrás, de mudar de ideia, de não ter certeza. Elogia um de seus ídolos, Jerome Bruner, que podia parar no meio de uma frase e refletir: “Não acredito mais no que eu estava para dizer”. (p.229)

10) Viver com desapego. Sacks ama a obra de seu amigo poeta, Thom Gunn, com seus versos que celebram as plantas que nascem em terrenos baldios e rachaduras (p.234). Louva o desprendimento financeiro do autor, sua dedicação e o progressivo desapego à busca da beleza e da perfeição formal, em nome de uma obra mais livre e terna. Thom, numa carta citada, escreve da importância dos “empréstimos maciços” que faz das suas leituras e se encanta quando Eliot diz que “a arte é a fuga da personalidade” (p.238).

Empatia, espírito livre, sem-julgamento, simplicidade: essas são as qualidades das pessoas que admira. Cita o caso de seu tio que visitou Einstein em Princeton e espantou-se quando o genial cientista foi para a cozinha lhe fazer um café.

11) Viver com amor. Desenvolver novas habilidades o leva de volta às aulas de música e piano aos 75 anos, mas tudo se torna um desafio com a perda da visão do olho, devido a um câncer, em 2005 (p.323). No meio de sua batalha com a dor, encontra um novo “analgésico”: se apaixona por aquele que foi o seu único companheiro e com quem viveu os últimos 7 anos de sua vida. “Seria o próprio enamoramento que inundava o corpo de opioides, de canabinoides ou qualquer coisa assim?” O amor, ele escreve, é uma “dádiva grandiosa e inesperada na minha velhice, depois de toda uma vida me mantendo à distância.” (p.326-7)

12) Viver e morrer. Em janeiro de 2015, poucas semanas depois de entregar à editora o manuscrito de sua biografia, Sacks descobre que o câncer havia voltado agressivo e lhe dando poucos meses de vida. Ao invés de se recolher, ele escreve ao mundo no New York Times quatro comoventes cartas de despedida, a última publicada poucas semanas antes de sua morte, em 30 de agosto de 2015. Na primeira delas, ele diz:

“Eu tenho que viver da maneira mais rica, mais profunda, mais produtiva que posso. (…) Sinto-me intensamente vivo, e quero e espero que, no tempo que resta, possa aprofundar minhas amizades, dizer adeus àqueles que amo, escrever mais, viajar e, se tiver forças, alcançar novos níveis de entendimento e novas ideias. (…) Não posso fingir que não tenho medo. Mas o meu sentimento predominante é de gratidão. Amei e fui amado;  recebi muito e dei algo em troca; li e viajei, pensei e escrevi. Interagi com o mundo (…). Acima de tudo, tenho sido um ser senciente, um animal que pensa, neste belo planeta, e isso foi em si mesmo uma enorme aventura e privilégio.” (tradução livre minha)

Escrevi a maior parte desse post quando Sacks ainda estava vivo, e fiquei abalada, sem conseguir terminá-lo, quando soube de sua morte. Felizmente, agora presto essa homenagem. As crônicas do New York Times estão disponíveis online — My own life, MishearingsMy Periodic TableSabbath — e há um mundo de informações a explorar em seu site http://www.oliversacks.com/.

Sobre o livro: “Sempre em movimento: uma vida”, de Oliver Sacks (Ed. Companhia das Letras, 2015, tradução de Denise Bottmann, 354p.).

Sobre o filme: Tempo de Despertar (Awakenings, no original) é de 1990, dirigido por Penny Marshall, com base no livro do mesmo nome de Oliver Sacks e roteiro de Steven Zaillian. Tem atuações brilhantes de Robert De Niro (o paciente Leonard), Robin Williams (Oliver Sacks) e Julie Kavner (enfermeira Eleonor), assim como de todo o elenco.

Sobre o desenho: Fiz esse retrato de Sacks a partir da foto da capa do livro, com aquarela sobre papel. O scanner sabotou todas as sutilezas das cores, mas o principal problema do resultado, na minha opinião, é a falta de expressão no olhar. No original, ele nos sorri com os olhos! Taí mais um segredo da pintura a ser desvendado…

 


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A importância de não ser perfeito

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Bom dia! Meu desejo para todos nós hoje é simples: ânimo! Um monte de cor para quem acordou melancólico e para quem acordou alegre e bem disposto. A humanidade, apesar de tudo, está vivendo mais e melhor.* Não podemos nos esquecer disso. Força para todos que estão aflitos com qualquer coisa — da vida cotidiana e das injustiças sociais, aos prazos para escrever trabalhos, projetos, dissertações, teses e artigos. Estou nesse barco também.

Nunca é demais lembrar que muita perfeição atrapalha. Como escreveu Oscar Wilde nesse diálogo:

— A senhorita é absolutamente perfeita, senhorita Fairfax.
— Ah, Espero não ser. Assim não haveria espaço para desenvolvimento, e eu pretendo me desenvolver em muitas direções.

E nada como rir de si mesmo, como nos lembram as frases de Lorde Goring, outro personagem de Wilde:

— Que pena que não me atrasei mais então. Gosto que sintam minha falta.
— [Meus defeitos] são terríveis! Quando penso neles à noite, durmo na mesma hora.
— Eu adoro falar sobre coisa nenhuma, meu pai. É o único assunto sobre o qual sei alguma coisa.
— Sempre distribuo bons conselhos. É a única coisa que se pode fazer com eles. Nunca têm serventia alguma para nós próprios.
— Tudo é perigoso, meu caro amigo. Se não fosse assim, a vida não valeria a pena…
— A vida nunca é justa, Robert.
— Sempre vale a pena perguntar, embora nem sempre valha a pena responder.
— …existe uma moda para passados, assim como existe uma moda para vestidos.
— Ah, a verdade é uma coisa da qual eu me livro assim que possível. O que é um péssimo hábito, aliás.
— É o amor, e não a filosofia alemã, a verdadeira explicação para este mundo, qualquer que seja a explicação para o outro. […] Mas já passa das sete, meu pai, e o médico diz que não posso ter nenhuma conversa série depois das sete.

Bom trabalho para todos nós!

3 Coisas impossivelmente-animadoras-bonitas-interessantes-ou-dignas-de-nota da semana:

* Hans Rosling mostra os avanços na vida humana em 200 países, por 200 anos, em 4 minutos: https://youtu.be/jbkSRLYSojo

* A artista Eva Furnari tem um site maravilhoso e fala de sua carreira e dos seus desenhos nesse mini-doc (20min.) produzido pelo site Esconderijos do Tempo: https://youtu.be/Fwv3zaDhpNc. Eu estava guardando esse link para fazer um post inteiro sobre ela, mas não resisto a compartilhar logo essa lindeza com vocês. Os personagens de Eva são perfeitamente imperfeitos!

* E para quem acompanha a carreira musical da Alice: já temos uma violonista tocando Bob Dylan em casa! 🙂

Sobre os trechos de Oscar Wilde: O primeiro diálogo é entre Jack e Gwendolen, personagens da peça “A importância de ser prudente”. As falas de Lorde Goring estão na peça “Um marido ideal”. Os trechos foram tirados de “Oscar Wilde — A importância de ser prudente e outras peças”, traduzido por Sônia Moreira, com introdução e notas de Richard Allen Cave, para a editora Penguin/Companhia das Letras. Esse volume é uma pequena joia para qualquer biblioteca. Merece ser lido da introdução até a última notinha na página 415. Lá, o editor cita um trecho excluído por Wilde: Jack perguntando ao seu interlocutor se seu nome é Grubsby ou Parker. E ouve: “– Sou ambos, senhor. Sou Gribsby quando estou tratando de assuntos desagradáveis e Parker em ocasiões de natureza menos grave.” Jack responde: “– Na próxima vez que o encontrar, espero que o senhor seja Parker.”

Acho que todos nós temos esses lados, concordam? Espero na próxima semana voltar aqui mais Karina e menos Kuschnir!

Sobre o desenho: Brincadeira de aquarela com as misturas que fui encontrando no meu godê. Minha regra foi trabalhar cada bolinha com tons claros e escuros da mesma cor, tentando fugir das combinações que costumo utilizar. A ideia surgiu do aprendizado de desenhar o calendário de setembro, com nuances apenas em azul. O resultado, principalmente ao vivo, é cheio de imperfeições. As bolinhas não são bem redondas e os traços não estão uniformes… mas, como vocês já sabem, meu lema é o da vovó Trude e do vovô Steinbeck: “feito é melhor que o perfeito”.


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Dez truques da escrita num livro só

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“Para superar a prosa acadêmica, primeiro você precisa superar a pose acadêmica.” (C. Wright Mills, cit. por Becker, em Truques da escrita, p.57)

O melhor livro sobre escrita no mundo das ciências sociais está finalmente publicado em português! Foi uma delícia ajudar na edição do Truques da escrita: para começar e terminar teses, livros e artigos, do Howard S. Becker (editora Zahar, 2015, tradução de Denise Bottmann, e minha revisão técnica). É sempre bom ter uma desculpa para trocar e-mails com o Howie. Ele é desafiador, irreverente e simpático, mas não bonzinho!

Ano passado ele estava bem pessimista com a vida acadêmica… A primeira versão de prefácio para a edição brasileira veio nessa onda… Pedi please, por favor, dá para animar um pouquinho? Os estudantes brasileiros estão precisando de boas vibrações para terminar seus textos, artigos e teses! (E nem estávamos no cenário atual… ) Então veio uma nova versão, bem no tom do restante do livro, cheia de ideias e análises séria-mas-divertidas sobre nosso modo de lidar com a escrita na academia.

Aí vão dez dicas que pincei dentre os muitos segredos e truques apresentados na primeira metade do livro:

1) Você não está sozinho — Isso parece título de seriado de suspense, mas traduz uma ideia forte e simples da obra do Becker: a maioria dos nossos problemas são coletivos e não individuais. Escrever também. Você senta diante do computador e pensa: “Oh, meu deus, por que tudo que eu escrevo é horrível?” Bem-vindo. Todo mundo senta ao computador e escreve seis frases horríveis antes de escrever uma que preste. Você, o professor titular e o aluno brilhante de doutorado também. Perde-se muito tempo sofrendo nessa “privacidade socialmente organizada” da escrita. Melhor aceitar que escrever mal ou truncado faz parte de escrever. Ponto.

2) Rascunho sem censura — Escreva uma primeira versão do seu texto sem se preocupar com o que os outros vão achar, sem medo de rirem de você, sem apagar antes de começar. Querer um texto claro e coerente de primeira é uma das principais armadilhas para acabar não tendo texto algum. Confie, escreva um “rascunho confuso”, pois o objetivo é “fazer descobertas” e não publicar imediatamente (p.40).

3) Uma, duas, três, quatro, cinco revisões — Corte tudo que não sobreviver à pergunta: “Isso é realmente necessário?” Divida frases longas, substitua a voz passiva, simplifique, clareie. É o dever-de-casa básico dos cursos de redação, diz Becker. O problema é que os cientistas sociais se acostumaram a ter que escrever em prazos muito curtos, acabando por aceitar como normais textos que precisariam de várias revisões para serem realmente bons.

4) Crítica-amiga — Nem todo colega é um bom leitor, mas cultivar um círculo de amigos-leitores para suas versões preliminares ajuda a “desemaranhar as ideias”, melhorar a linguagem, incorporar referências, incluir comparações e até cortar mais, se necessário! Quando eles reclamarem que a prosa está confusa, a culpa é sua. Volte ao ponto 3!

5) Complexidade com simplicidade — Muitas pessoas confundem redação empolada e complicada com sofisticação intelectual. Becker abomina. Citando C. Wright Mills, ele defende: é possível ser compreensível e complexo, ser claro e também profundo. Subterfúgios retóricos servem para afirmar superioridade de status por parte dos acadêmicos (e é nesse contexto que aparece a citação do Mills que abre o post), como o sotaque que denuncia uma classe social.

6) O fim no começo — Ao terminar de escrever, pegue o triunfante parágrafo final e coloque-o no início do texto! Ou seja, escreva a introdução por último, quando já tiver clareza de onde seu trabalho irá chegar. Começar de forma evasiva não ajuda. Apresentar de cara as conclusões e o mapa do percurso de sua pesquisa é uma forma mais eficiente de fazer o leitor se interessar. Becker dá um exemplo ótimo de como fazer isso na p.83.

7) Escrever para pensar — Escrever o rascunho-sem-censura da forma mais livre possível, até sem recorrer a notas de campo e bibliografia, te leva a entender as ideias que estão na sua cabeça. É uma maneira de dar uma “forma física” ao seu pensamento! (p.86) Depois, avaliando estas páginas, é o caso de se perguntar: as ideias se repetem?; se complementam?; são frágeis? quantas/quais são realmente importantes?

8) A ordem dos dados importa? — Não há uma maneira única e certa de apresentar os dados de uma pesquisa. Há várias, e quase sempre a conclusão é a mesma, não importando o modo como você organiza os temas. Mas recortar, empilhar, marcar, fichar, fazer diagramas… tudo isso pode ajudar a construir o mapa do seu texto.

9) Falar dos problemas resolve todos os problemas — Em vez de eliminar um problema, escreva sobre ele. Simples assim. Qualquer transtorno ou situação penosa te ensina “algo que vale a pena aprender” (p.96). Mas para falar dos seus problemas, você precisa reconhecê-los… e admitir que o Senhor-Todo-Certinho não existe: “O remédio é experimentar e ver por si mesmo que não dói.” (p.100)

10) O trabalho é seu e o mundo não acabou — O autor existe! Bem-vindo, Você.

“…a solução para escrever algo (…) é escrever mesmo assim e, ao terminar, descobrir que o mundo não se acabou. Uma maneira de fazer isso é iludir a si mesmo e se forçar a pensar que o que você está escrevendo não tem importância e não faz diferença nenhuma – uma carta para um velho amigo, talvez. (…) A única maneira de começar a nadar é entrando na água.” (p. 181)

Essas dez dicas são só das primeiras 100 páginas do livro! (Exceto a última, ok, não reparem.) Como o próprio Becker afirma que é “preguiçoso” e não gosta de trabalhar, também me sinto à vontade para parar no meio. Talvez eu faça um segundo post sobre o livro, talvez não… Falta tanta coisa boa: como editar, como enfrentar a bibliografia, como descobrir que o texto está pronto… Corram pra ler, é muito mais divertido do que eu escrevi!

**Aviso: é correto informar que o livro faz parte da Coleção Antropologia Social (dirigida por mim) e que recebo uma pequenina porcentagem das vendas. Mas não foi por isso que escrevi o post, claro.

** PS: Depois do post publicado, soube dessa resenha muito legal feita pela Julia Polessa, antes da edição brasileira existir. Vejam lá!

E para quem se interessa pelo mundo acadêmico, o blog tem outros textos sobre minhas experiências… na escrita de projetos, nas defesas de tese, nas dores de não passar, na falta de tempo, no ensino de antropologia e desenho, no aprender a desescrever, nas agruras de ser doutoranda, na vida dos alunos, no sorriso do professor, nas lições da vida acadêmica e nas muitas saudades de Oxford 1, 2, 3 e 4!

* 5 Coisas impossivelmente-legais-bonitas-interessantes-hilárias-ou-dignas-de-nota da semana:

* Descobri o blog A Vida Pública da Sociologia, escrito pelo João Marcelo Maia. Li tudo de uma vez só, adorei e entupi o João com comentários. Um lugar para respirar ar fresco e inteligência na vida acadêmica!

* Médico: — Como vai o Antônio? Teve febre?
Eu: — Não, ao contrário. Estou até preocupada:  o termômetro não ultrapassa 35 graus e pouco.
Médico — Ah, é “febre de sapo”!

* Seriado Elementary (Netflix): o Sherlock Holmes moderno explica: “The danger with rule books, Watson, is that they offer the illusion that leading a moral life is a simple undertaking, that the world exists in black and white. Welcome to the greys!”

* Saiu em português um dos melhores livros autobiográficos que já li: Sobre a escrita: a arte em memórias, de Stephen King.

* Coincidência simpática: este é 80º post e o blog acaba de ultrapassar 80.000 visitas!

* Sobre o desenho: Fiz o desenho achando que ia ser um rascunho, mas acabou virando a versão final. Lápis e caneta nanquim 0.3 Unipin sobre o verso de um papel Canson Aquarelle. Aguadas com waterbrush Kuretake (large) e tintas de aquarela misturando cinzas com as cores Burn Sienna, French Ultramarine, Neutral Tint e um pouquinho de Turquoise para os azuis claros. No chão do escritório imaginário, os rabiscos são as letras e palavras que o Becker nos sugere cortar sem piedade. Quem sabe um dia eu não viro ilustradora de verdade e publico um desses na Piauí?

Você acabou de ler “Dez truques da escrita num livro só“, escrito e ilustrado por Karina Kuschnir e publicado em karinakuschnir.wordpress.com. Se quiser receber automaticamente novos posts, vá para a página inicial do blog e insira seu e-mail na caixa lateral à direita. Se estiver no celular, a caixa de inscrição está no rodapé. Obrigada! 🙂

Como citar: Kuschnir, Karina. 2015. “Dez truques da escrita num livro só”, Publicado em karinakuschnir.wordpress.com, url “http://wp.me/p42zgF-ft“. Acesso em [dd/mm/aaaa].


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Quem somos nós afinal?

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“Quando passamos dos cinquenta temos necessidade de encontrar formas de nos tornarmos visíveis aos nossos próprios olhos. (…) Por que razão faço o que faço, porque vivo onde vivo, porque partilho a minha vida com quem partilho?”

A frase é de Philip Roth, numa carta ao seu personagem Nathan Zuckerman, explicando por que resolveu escrever uma autobiografia aos 55 anos.

Foram duas semanas de leitura aprendendo sobre a vida nos subúrbios pobres, judaicos e negros de Nova York. (Sempre me surpreendo com a América parcialmente anti-semita dos livros, pois na história da minha e de muitas outras famílias os Estados Unidos foram terra de salvação.)

Entre ser judeu ou americano, Roth se encantava com seus colegas que lecionavam inglês e, nas horas vagas, viravam escritores tão bons e tão sérios que seus livros nunca vendiam. Mas foi só um sonho. No meio do caminho, ele escreveu contos, publicou, ganhou prêmios, casou-se e descasou-se. A vida e o livro seguem meio mornos…

Eis que nos surge Zuckerman, em sua potência: — “Caro Roth, li o manuscrito duas vezes. Aqui está a franqueza que me pedes: não publiques.”

O personagem acusa o autor de querer se passar por uma “boa pessoa”, a falar pelas bordas, a evitar seus dramas, as desgraças, a vida sexual, enfim, a ser tão diferente do escritor que escreveu sua obra. Pergunta Zuckerman:

— “Em qual das poses devo acreditar: na da ficção ou nesta?”

Como esconder as batalhas se são elas que alimentam a criatividade? É do personagem também a frase:

— “As coisas que te esgotam são também as coisas que te alimentam o talento.”

Apontando os equívocos de cada passagem da primeira parte da autobiografia, Zuckerman provoca, nos fazendo sorrir:

— “Estou a inventar? Apanhei o tique contigo — mas então a minha ficção, se ficção é, talvez seja, ainda assim, menos ficção do que a tua.”

A crítica à obra continua quando Maria (mulher de Zuckerman) entra no texto para dizer que até o recurso à carta dos personagens “é um truque de autodefesa”. Para ela, Roth fala de seus pontos fracos “só depois de escolher com enorme cuidado de que pontos fracos vai falar”.

Maria não quer ser “interessante”; ela quer uma existência que “clama por ser vivida”.

Zuckerman retoma a palavra para as perguntas finais:

“Quem somos nós afinal? E porquê? A tua autobiografia não nos diz nada sobre o que aconteceu, na tua vida, para nos fazer surgir de ti.”

Li esta pequena autobiografia de Roth antes da eclosão das tragédias de Paris e Baga (Nigéria), mas não da nossa diária tragédia carioca. Penso que veio em boa hora… Estamos todos precisando saber:

“Quem somos nós afinal?”

A única resposta de que tenho certeza foi a que publiquei na semana passada: somos aqueles que têm muitas razões para chorar.

Li dezenas de artigos, posts, vi charges, tv, debates… Irritam os que apresentam um diagnóstico e uma receita pronta. Como Maria, Zuckerman e seu autor propõem, é com diálogos e múltiplos pontos de vista que precisamos ir em busca dos “factos”.

Sobre o livro: “Os factos: autobiografia de um romancista” é de 1988, mas ventos amorosos me trouxeram a edição recém lançada em Portugal (Ed. Dom Quixote, tradução de Francisco Agarez, 2014). É pena que não exista no Brasil… Ah, e nunca é demais lembrar: esse livro faz parte de uma tradição deliciosa em que, pelo menos desde Cervantes, os personagens questionam seus autores!

Sobre o desenho: Desenhei Roth a partir de uma fotografia de Fred R. Conrad com canetinha Kuretake Fudegokochi, depois borrada com um pincel de aquarela (waterbrush). Antes dessa versão, tentei fazer outra com cores, mas saiu tão mal, tão mal, que me deu horror a ponto de eu rasgá-la em pedacinhos. (E conto logo esse ataque para que o Zuckerman e a Maria não venham me esculhambar aqui também…)

PS: E sempre vale a pena lembrar que a arte nos salva, como tentei escrever no post em homenagem à Maria Eduarda, morta ano passado no Rio.


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Chips a mais

davinci

O Jornal Nacional anuncia a primeira convocação de Dunga para a seleção brasileira.

Eu — Alice, o que você achou da lista do Dunga?

Alice — Horrível!

Eu — Nossa, por que, filha?

Alice — Ele não chamou o Thiago Silva, o melhor zagueiro do mundo!

Antônio, entrando na conversa: — Ah, Alice, cada um acha o seu jogador o melhor…

Alice — Como assim?

Antônio — Portugal acha que o Cristiano Ronaldo é o melhor zagueiro do mundo! Já o Brasil acha que o Neymar é que é o melhor zagueiro do mundo!

Alice revira os olhos…

Outro dia, Antônio chegou da escola animado com a boa nota que tirou em Ciências. Comentei com a Jô que era só ele estudar um pouquinho e já guardava toda a matéria. E concluí: — Ele tem um “chip a mais”, Jô. Tem uma memória muito boa.

Alice ouviu nossa conversa e gritou lá da sala: — E eu, mãe, não tenho um “chip a mais”?

Eu — Não, filha. Você não tem um chip a mais. Você tem vários!!

Pronto. O assunto de hoje era Leonardo Da Vinci, mas achei melhor contar logo as novidades da Alice. Tem gente reclamando quando deixo para o final do post!

A inspiração para o desenho foi o maravilhoso livro “O fantasma de Da Vinci: a história desconhecida do desenho mais famoso do mundo”, de Toby Lester (ed. Três Estrelas, selo do Grupo Folha; tradução de José Rubens Siqueira). Ô coisa boa de ler, de olhar, de pesquisar, de fuçar notas, bibliografia e agradecimentos, tipo-quero-mais!!

Partindo do seu fascínio pelo desenho do “homem vitruviano“, de Da Vinci, Lester escreve uma dupla história: a do mundo das ideias que tornaram esse desenho possível; e a do homem Leonardo (de Vinci, de Florença e de Milão) até o momento em que o desenhou. A primeira começa com Augusto, imperador romano, forjando seu corpo em estátuas e moedas de um homem-modelo ( 27a.c.) e segue passeando pela história da arquitetura, da arte, da filosofia e da política nas cidades italianas, até o século XVI. A segunda nos traz as amizades de Da Vinci, suas mazelas, suas pequenas listas de afazeres (“desenhar Milão”) e grandes desafios (“aprender latim”). Nas inseparáveis cadernetas com quase 30 mil páginas de anotações, lemos frases sábias, engraçadas, visionárias:

“O ar está cheio de imagens incontáveis, para as quais o olho é um ímã.”

“Quando a fortuna se manifesta, agarre-a com firmeza pelo topete, porque ela é careca atrás.” (1490)

“Com quais palavras, ó escritor, você descreverá com semelhante perfeição toda a configuração que este desenho aqui fornece?” (c.1500)

É contagiante a curiosidade de Da Vinci; e consolador aprender que ele odiava prazos e quase nunca terminava as obras que prometia (aos outros e a si mesmo)…E tudo isso sendo exímio pintor, escultor, músico, arquiteto, engenheiro, físico, médico… com uma biblioteca de 116 livros!

Ok, chega. Como diz o Antônio, Leonardo Da Vinci não é para os fracos.

(Espero que a Alice não leia isso, mas o Da Vinci devia ter uns mil chips a mais.)

Sobre o desenho: Resolvi estrear um novo caderninho que estava “economizando”, do selo Laloran, da Keta Linhares, com um formato quadrado e umas páginas de aquarela que dão vontade de morder, nem lisas nem ásperas demais. Tenho duas dessas belezinhas graças ao querido Eduardo Salavisa, que me deu a dica e mediou a compra. Aproveitei para tentar furar o bloqueio (vulgo projeto-para-o-cnpq) que tem me afastado dos cadernos e dos desenhos. Ufa, consegui. Enviei o projeto e encarei o caderninho, mesmo correndo o risco de não estar a altura.

ccampo