Karina Kuschnir

desenhos, textos, coisas


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Voando junto – Minhas ilustrações para o blog do Juva Batella

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“…não persigas o êxito. O êxito acabou com Cervantes, tão bom novelista até ao Quixote. Ainda que o êxito seja sempre inevitável, procura um bom fracasso de vez em quando para que os teus amigos se entristeçam. (…) Décimo: tenta dizer as coisas de modo que o leitor sinta sempre que no fundo é tanto ou mais inteligente do que tu. De vez em quando tenta que efetivamente o seja; mas para conseguir isso terás de ser mais inteligente do que ele.” (Augusto Monterroso, da biblioteca de Juva Batella)

A vantagem de ter um namorado poeta é voar. Não é preciso ler Murakami nem Arthur Clarke. Um dia, ele vai te beijar e te convidar para ser o sol. E tudo que você achava impossível, acontecerá.

Quando alguém bem enraizado, planejado, controlado e sabedor de todas as coisas do universo te disser que gente não voa, teu coração vai parar de bater um pouco. Mas, lá no fundo, uma voz de dentro vai sussurrar: não acredita. Lembra do vôo do sonho de ontem!

Quando você não conseguir dormir, leve um poeta contigo, deixe a vida lá fora e aguarde os seus efeitos mágicos. Só estar ali. Adormecer, flutuar ou voar. Tudo pode, tudo é bom, tudo é possível.

Sim, este ser existe! Ele veio ao mundo chamado Juvenal, nome antigo, igual ao do pai, mas um dia encheu e passou a se chamar Juva. Ele sabe, é um apelido esquisito, difícil na hora de se apresentar, mas impossível de esquecer quando se conhece a pessoa-em-si.

Depois de doze livros, duas filhas, dois empregos, muita disciplina e café, o Juva voltou a escrever na internet, agora semanalmente, reanimando seu blog. Já tem centenas de textos maravilhosos lá dentro, mas é um recomeço e tá diferente. Vai ter ficção, não-ficção, referências, livros, técnicas de escrita, cursos, maluquices e… desenhos!

Desconectados

ilustração de K. Kuschnir para o post “Os desconectados”, de J. Batella

Logo eu, que sou medrosa feito a peste, mas um pouquinho corajosa também, resolvi me enturmar. Primeiro, fiz apenas o novo topo do blog, que é a imagem que abre esse post, aquele amontoado gostoso de livros, lápis e materiais de quem ama escrever.

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ilustração de K. Kuschnir para o post “Inferno astral”, de J. Batella

Depois pedi para continuar… Cada um desses desenhos menores é uma ilustração para os posts novos. Como fazer desenhos para outra pessoa me traz uma enorme ansiedade, decidi que me concentraria nas ideias visuais e utilizaria uma técnica bem fácil (explicada no final).

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ilustração de K. Kuschnir para o post “O instante de Sisifo no tempo de Cecília Meireles”, de J. Batella

O Juva é super disciplinado, escreve tudo com capricho e antecedência, coisa que eu nunca consigo, vocês sabem. Ele é do tipo que termina os posts no domingo para publicar na quarta! Daí chega a minha vez de desenhar. O mais difícil foi este (acima), que chamamos de “Sísifo calmo”. A primeira versão estava óbvia, com o homem empurrando a pedra morro acima. Por sugestão do Juva, mudei a figura para um Sísifo descendo calmamente a montanha, na bonita inversão que o texto sugere. Há dois detalhes que ficaram imperceptíveis na escala da imagem no computador: a “pedra” é feita de um emaranhado de letras, que são também as “pedrinhas” vermelhas que vão sobrando na parte baixa da montanha, como cascalhos que se soltam ao longo desse perpétuo trabalho.

Nessa empreitada mais ou menos conjunta (minha parte é uns 16%?) estamos nos desafiando a voar juntos. Já temos quase oito anos de milhas aéreas, que se somam aos vinte da amizade terrestre, de antes. Os pessimistas dizem que um amor assim não existe, mas eu digo: existe sim.

Vendo esse projeto, lembro-me dos versos do próprio Juva na história do nosso gato Ulisses:

“queria a proposta de uma vida só sua, e procurou a resposta miando para a lua. A lua, miando para o gato, iluminou as águas do mar, e Ulisses pensou de imediato que era hora de voltar a navegar.”

Além dos posts novos, o blog tem centenas (ou milhares, não sei!) de outros textos, contos, crônicas sobre a paternidade (das minhas preferidas), palestras, resenhas, artigos, livros, entrevistascitações, além de duas seções específicas, com fontes literárias sobre os autores brasileiros Campos de Carvalho e João Ubaldo Ribeiro. O blog já teve mais de 50 mil visualizações, e agora será também um ponto de encontro para quem fizer um dos cursos livres de escrita, revisão e literatura que o Juva está oferecendo. Em breve, ele dará notícias das inscrições para a turma que abrirá no segundo semestre (no Rio de Janeiro), mas quem tiver interesse nas aulas pode entrar em contato por e-mail (juvabatella@gmail.com) e/ou adicionar seu e-mail no blog www.juvabatella.com/ para receber novos posts de lá.

Sobre as citações: A primeira, de Augusto Monterroso, está na seção Bibliotequinha do blog, com citações de vários autores. As frases estão nas páginas 115 e 116 do texto “Decálogo do escritor”, de Augusto Monterroso, publicado no livro O resto é silêncio (Lisboa, Oficina do Livro, 2007).

A citação final está na página 66 do livro Do gato Ulisses as sete histórias, de Juva Batella (ilustrações Karina Kuschnir, editora Vieira & Lent, 2015.)

Sobre os desenhos: Tecnicamente, são desenhos simples de fazer. Começo organizando uma imagem a partir de uma ou mais fotografias no Photoshop (no primeiro desenho, foi uma foto panorâmica que tiramos aqui em casa). A seguir, exporto essa imagem .jpg para o Ipad e abro no Procreate. Coloco a transparência da camada em cerca de 70%. Crio então uma nova camada (layer) e passo a desenhar tendo a foto como referência de fundo, mas acabo inventando ou recriando algumas coisas nessa hora.

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Não tenho “pencil” nem Ipad pro, infelizmente. Utilizo meu Ipad velhinho (acho que é um 2) e uma canetinha com ponta de borracha gorducha, dessas chinesas que custam 10 reais na lojinha de capas de celular. Para ter uma certa identidade, estabeleci o padrão de fazer as linhas principais sempre com pincel “marcador redondo” preto, com espessuras que variam de 12 a 4 aproximadamente. Para o cinza, crio uma nova camada e desenho com marcador “caneta pincel” (com uns 30% de transparência). Propus que todos os desenhos fossem nessas cores, com uma pitada de outra cor aqui e ali. É algo levemente inspirado nos cartoons que adoro da revista New Yorker. A grande vantagem desse tipo de ilustração é a rapidez! Dá para desenhar sem pensar muito, testando algumas ideias e variações, além de não ter pós-produção (escanear, limpar, editar etc.).

Você acabou de ler “Voando junto – Minhas ilustrações para o blog do Juva Batella“, escrito e ilustrado por Karina Kuschnir e publicado em karinakuschnir.wordpress.com. Se quiser receber automaticamente novos posts, vá para a página inicial do blog e insira seu e-mail na caixa lateral à direita. Se estiver no celular, a caixa de inscrição está no rodapé. Obrigada! ☺

Como citar: Kuschnir, Karina. 2018. “Voando junto – Minhas ilustrações para o blog do Juva Batella”, Publicado em karinakuschnir.wordpress.com, url: https://wp.me/p42zgF-3FR. Acesso em [dd/mm/aaaa].


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A gorda, missão íntima

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“Não se pode ir com muita sede ao pote. Nem com pouca. Uma pessoa nunca sabe como abordar o pote. É à sorte.” (A gorda, de Isabela Figueiredo, p. 63)

Foi num domingo de manhã que uma amiga me recomendou A gorda, de Isabela Figueiredo (ed. Todavia). Mal sabia o quanto iria me emocionar esta narrativa numa primeira pessoa cheia de contrastes: sensível e objetiva, triste e engraçada, surpreendente e cotidiana. Foi um pote delicioso, bebido com sede!

“Em silêncio, sou sempre eu e o que em mim se compõe e apruma.” (114)

Estamos em 2018 e ainda me espanta e alegra ler uma mulher com voz num mundo em que são os homens que “têm direito a ser grandes”(30). Isabela, Maria Luísa, a mamã, a titia, a vizinha, a amiga… mulheres que precisam aprender a enfrentar seus corpos:

“O meu corpo não esperava que eu tivesse a coragem. Foi surpreendido logo de manhã. Levaram-se para o bloco de operações e zás. (…) Estava só eu e o meu corpo, como se tivesse acabado de nascer, mas consciente. Só nós dois, na nossa luta. (…) ‘Quem manda sou eu!’. E o meu corpo a piar fininho. Quietinho. Dobrado sobre si. E eu dizendo-lhe, ‘subestimaste-me. Afinal não conhecias assim tão bem a mulher com a qual te meteste.'” (124-5)

O mundo interior de Maria Luísa, a protagonista do romance, é ao mesmo tempo melancólico e bonito…

“Por vezes considero que perdi muito tempo, no passado, desgostando de mim, mas reformulo a ideia concluindo que o tempo perdido é tão verdadeiramente vivido na perdição como o que se pensa ter ganho na possessão. E volta o sossego.” (21)

Frágil e forte…

“Mas não, não, mesmo pelos meandros da loucura considerava que matar-me seria um grande desperdício, avaliando o investimento já realizado.” (42)

Sofrido e divertido…

“Imaginei-os comentando uns com os outros, ‘doutor Sequeira, está ali uma senhora a sofrer por amor, vá lá dar-lhe uma injeção ou pô-la ao soro’, e no meio da loucura soltei uma gargalhada. Rir-me era um bom sinal. Ainda não estava louca (…)” (70)

Há uma solidão por vezes sufocante…

“Eu era uma miséria de mulher, um torpor, uma dor que já nem dói. Um farrapo de lã que já não aquece.” (72)

…mas é a de um corpo vivo, um corpo que ama o corpo do outro (David), que se deixa rebentar no momento do encontro, quando não se pertence “a lugar algum”, quando sexo e cérebro são só “dor luminosa no lugar do nada, ópio que não pode durar mais” (40).

“É uma missão íntima entre o nosso coração rarefeito e o do Tejo [o cão]. Os nossos caminhos também se cruzaram sem o termos pedido.” (135)

Acompanhamos as reflexões de Maria Luísa por dentro, os fatos se dobrando às memórias. É uma narradora crescida…

“A vida adulta raspa a pele.” (127)

…que sente saudades

“Falta-me qualquer coisa muito antiga.” (129)

…mas segue:

“Há um dia em que todas as noites acabam.” (151).

Não sabemos ao certo como ou quando se dá seu ponto de fervura interna (“O teu pai ferve em pouca água”, diz a mamã, p.137). Em algum momento nos damos conta, junto com a narradora, que os pais se foram, que a casa se vende, que o desconforto sossega, que as lembranças clareiam, que a vida se ilumina:

“Que bela mulher eu sempre fui! Um corpo tão perfeito, tão imponente, como pude desamá-lo tanto?!” (203)

Que leitura comovente, simples, amorosa, feito chão de tábua corrida com sol.

Um ótimo final de semana, leitores queridos! ☼

Sobre o livro: Agradeço à querida Maria Helena Mosse pela indicação d’A gorda. Que boa companhia! Da autora, Isabela Figueiredo, só sei o básico: é moçambicana, radicada em Portugal desde 1975, autora de Cadernos de memórias coloniais (ainda não disponível no Brasil) e deste primeiro romance A gorda (ed. Todavia, 2018). Adorei que a editora manteve o português lusitano, que amo ler. Comprei numa livraria de rua aqui no Rio de Janeiro, mas vi que está mais barato na Amazon.

Sobre o desenho: Estava sem ideia de imagem para o post e adoro desenhar o objeto-livro. A capa original é do Pedro Inoue. Desenho feito no verso de um papel Canson (bloco XL Mix Media) com canetinha de nanquim permanente Pigma Micron 0.2, depois colorido com aquarela (várias marcas, mas a maioria Winsor & Newton), que depois resolvi cobrir com guache (tenho as três cores primárias da Winsor & Newton). Foi um sacrifício escrever em laranja na capa e na lateral. Depois dei uma ajeitada em tudo no Photoshop para ficar legível.

Você acabou de ler “A gorda, missão íntima“, escrito e ilustrado por Karina Kuschnir e publicado em karinakuschnir.wordpress.com. Se quiser receber automaticamente novos posts, vá para a página inicial do blog e insira seu e-mail na caixa lateral à direita. Se estiver no celular, a caixa de inscrição está no rodapé. Obrigada! 🙂

Como citar: Kuschnir, Karina. 2018. “A gorda, missão íntima”, Publicado em karinakuschnir.wordpress.com, url: https://wp.me/p42zgF-3Fh. Acesso em [dd/mm/aaaa].


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Ler muda o mundo – sobre “O sol e o peixe” de Virginia Woolf

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“Ler mudou, muda e continuará mudando o mundo.” (Virginia Woolf)

É difícil  começar a escrever sobre o livro “O sol e o peixe: prosas poéticas”, de Virginia Woolf: são tantas frases que dariam boas epígrafes! Como diz o subtítulo, é ensaio mas parece verso. Aí vão, por capítulos (fora de ordem), algumas ideias desse linda obra.

Em “A paixão pela leitura”, a autora celebra os livros como a grande criação da humanidade, nos provocando para sermos leitores mais generosos. Seu alerta é atual:

“(…) nossa primeira obrigação para com um livro é que devemos lê-lo pela primeira vez como se o tivéssemos escrevendo. Para começar, devemos nos sentar no banco dos réus e não na poltrona do juiz. Devemos, nesse ato de criação, não importa se bom ou ruim, ser cúmplices do escritor. Pois cada um desses livros (…) representa um esforço para criar algo.” (p.35)

O mesmo poderia ser dito para a escrita ou leitura de uma tese! Deveríamos tentar entender um texto pelos olhos de quem o escreve. Assim, diz Virginia, aprendemos, inclusive com aqueles que mais “violentam nossos preconceitos”. (p.36) Um livro nos ensina quando deixa impressões “penduradas no armário da mente”, como “roupas que tiramos e penduramos à espera da estação adequada”. (p.38)

No ensaio “Montaigne”, a autora aproveita para nos falar da escrita de si:

“Dizer a verdade sobre si mesmo, descobrir a si mesmo de tão perto, não é coisa fácil. (…) aquilo que pensamos, quão pouco, então, somos capazes de transmitir!” (p.14)

Admirada pelo escritor-filósofo, pelo esforço de escrever dizendo a verdade, Virginia afirma:

“Pois, para além da dificuldade de comunicar aquilo que se é, há a suprema dificuldade de ser aquilo que se é. Esta alma, ou a vida dentro de nós, não combina absolutamente com a vida fora de nós.” (p.15)

Haverá um segredo para uma existência coerente, por dentro e por fora? O escritor deve se recolher ou seguir para o mundo?

“Observe a si próprio: num momento, você está todo animado; no seguinte, um copo quebrado deixa-o à beira de um ataque de nervos. Todos os extremos são perigosos. É melhor ficar no meio da estrada, nas trilhas costumeiras, por mais lamacentas que sejam. Ao escrever, escolha as palavras comuns; (…)” (p.18)

Uma vida flexível, disposta ao movimento e às mudanças é uma vida mais real e feliz, sem a rigidez das convenções e da morte, escreve Virginia. “Talvez” é sua palavra favorita. “É preciso viver entre os vivos” (Montaigne, III, 8), buscando nos comunicar com nossos semelhantes.

“Comunicação é saúde; comunicação é verdade; comunicação é felicidade. Compartilhar é nosso dever; mergulhar energicamente e trazer à luz aqueles pensamentos ocultos que são os mais mórbidos; não esconder nada, não fingir nada; se somos ignorantes, dizê-lo; se gostamos de nossos amigos, fazer com que o saibam.” (p.22)

Como não concordar com esse lindo trecho?

A autora segue, falando do prazer de viajar, seja para longe, seja para dentro de um singelo sonho.

“A beleza está por toda parte, e a beleza está a apenas dois dedos de distância da bondade.” (p.23)

A lição que Montaigne lhe deixa é a de um “grande mestre da arte da vida”, a de alguém que “agarrou a beleza do mundo com todos os dedos”, atingindo a felicidade. (Algo que, infelizmente, sabemos que Virginia não conseguiu fazer; o que torna esse ensaio doloroso para quem ama sua obra, como eu.)

Suas lembranças do pai estão em “Memórias de uma filha: Leslie Stephen, o filósofo em casa”, segundo capítulo do livro. É bonito ler suas recordações de carinho, sabedoria, cachorros e caminhadas. Apesar de rígido quanto aos comportamentos, seu pai lhe dava o principal:

“se liberdade significa o direito de ter os seus próprios pensamentos e seguir suas próprias metas, então ninguém respeitava a liberdade — na verdade, insistia nela — mais completamente do que ele.” (p.32-3)

Na filosofia paterna, o lema era “leia o que quiser”! Aos 15 anos, Virginia tinha total liberdade para vasculhar a biblioteca de casa. Para ele, leitura e escrita eram simples: goste dos livros que gostar; e escreva “com o mínimo de palavras”, com clareza, dizendo o que quiser dizer. (p.33)

Escrevi apenas sobre os três capítulos iniciais, embora o restante do livro merecesse igual atenção. O caso é que o post já ficou muito longo, e logo nessa semana de Natal, que ninguém tem tempo de ler. Ou seria o contrário? Que melhor lugar para se refugiar nessa época do ano do que nas leituras, nos livros, ensaios, contos ou poemas?

Minha sugestão para essa próxima semana: desliguem os celulares e mergulhem num livro! É simples, é bom, e ainda nos recarrega, sem fio.

Muito obrigada por todos os comentários inteligentes e gentis que vocês escreveram nos últimos posts, de verdade! Até semana que vem. ☼

Sobre o livro: “O sol e o peixe: prosas poéticas”, de Virginia Woolf. Seleção e tradução Tomaz Tadeu. Belo Horizonte: Autêntica, 2015.  Vejam que linda é a capa original (abaixo), projeto de Diogo Droschi. Pena que não deram o crédito da origem desses peixes, que devem vir de alguma coleção de ilustração científica antiga. Aproveito para agradecer mais uma vez à leitora do blog que me indicou esse livro. ♥

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4 coisas impossivelmente-legais-bonitas-interessantes-ou-dignas-de-nota da semana:

♥ Para quem lê inglês: fui uma das milhares de pessoas que se emocionaram e se divertiram com o conto Cat person, de Kristen Roupenian, da New Yorker. (Em breve sairá em português pela Companhia das Letras.)

♥ Para quem tem filhos entediados: essa semana nos divertimos jogando Banco Imobiliário Júnior. Era daqueles brinquedos de tabuleiro velhos, que já estava quase indo para doação, mas reviveu por insistência da Alice. Derrubamos algumas regras, criamos outras, fizemos doações generalizadas e falimos! Tudo sem precisar de internet.

♥ Uma notícia maravilhosa: nosso livro “Do gato Ulisses as sete histórias” foi selecionado como leitura recomendada para os alunos das escolas municipais de Belo Horizonte. Meu agradecimento à nossa querida editora Cilene Vieira, pelo empenho em divulgar essa obra. (Uma seleção de trechos do livro aqui.)

♥ Por falar em livros, estou lendo “Azul: história de uma cor”, de Michel Pastoureau, edição portuguesa da Orfeu Negro, com tradução de Anabela Carvalho Caldeira e José Alfaro (2016). Do mesmo autor, já li “Preto: história de uma cor”. Quando acabar, prometo que faço um post sobre os dois.

 

Sobre o desenho que abre o post: Peixes inspirados nos desenhos da capa do livro, feitos com as limitações de cores que tenho trabalhado no meu caderno atual Laloran, como expliquei aqui. Canetinhas azuis Muji 0,38, Pigma Micron 0,2, Tombow Brush (números 451 e 526); e uma amarela da Faber-Castell Pitt brush. Não vejo a hora de acabar esse caderno, mas sinto que aprendo com o desafio das cores restritas. E, aqui, nesse cantinho onde só chegam os artistas que lêem o blog, meu desejo para as férias: bons desenhos e pinturas! Quem tem um sketchbook nas mãos, nunca está só. ♥

 


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Lições de escrita com Agatha Christie (Parte 2)

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Em 1962, Agatha Christie foi convidada de honra para a festa de dez anos de encenação de sua peça A Ratoeira, em Londres. Conforme o combinado, chegou ao teatro com antecedência, mas foi barrada na recepção: “Ninguém pode entrar, no momento, minha senhora. Faltam vinte minutos.”

Sua reação surpreende: “Então saí.”, ela conta. Não conseguiu explicar que era a senhora Christie devido à enorme timidez. Ficou vagando pelos corredores até ser salva por uma assistente da direção que riu muito quando a reconheceu, assim como o diretor, que dava gargalhadas. Ela já era, então, a autora mais lida do mundo.

Escrita e insegurança  — Essa pequena história ilustra um aspecto que me parece comum na vida acadêmica e fora dela: mulheres inseguras em ser quem são, especialmente no mundo público. A própria Agatha comenta que não consegue se “comportar como uma escritora”, porque se sente “fingindo ser alguém que na verdade não é”. Ela acha que muitos autores se sentem assim, precisando se reafirmar. Compara essa sensação com o dia em que viu seu neto descendo as escadas dizendo para si mesmo: “Este é o Mathew descendo as escadas!” Na festa no teatro, ela precisou pensar:

“Esta é Agatha, fingindo ser uma escritora renomada, indo para a grande recepção oferecida em sua homenagem. Ela tem que parecer alguém, tem de fazer um discurso que não sabe fazer, tem de ser um personagem que não sabe interpretar.” (Agatha Christie, Autobiografia, p. 523)

Quantas de nós já não nos sentimos assim em salas de aula, eventos, numa defesa de tese ou em qualquer situação em precisamos parecer inteligentes?

Uma das delicadezas da Autobiografia de Agatha Christe é que ela se mostra como uma pessoa comum, cheia dúvidas e incertezas, ao mesmo tempo em que narra feitos extraordinários.

Escrita e coragem — Em 1928, depois da morte de sua mãe e da traumática separação do primeiro marido, a escritora reuniu forças para realizar uma viagem. Mulher, divorciada, com uma filha, escolheu um destino nada óbvio: pegaria o Expresso do Oriente, passando por Turquia, Síria e Iraque. Ela reflete:

“Agora eu estava viajando sozinha. Agora, eu devia descobrir que tipo de pessoa eu era — se me tornara completamente dependente dos outros como eu temia. (…) Às vezes, pensava que minha natureza era como a de um cachorro: cachorros não saem para passear, a não ser que alguém os leve. Talvez eu fosse assim. Esperava que não.” (Agatha Christie, Autobiografia, p. 364)

Esse paradoxo me fascina na narrativa da escritora: humilde, a ponto de se comparar a um cachorro obediente, mas corajosa a ponto de se lançar numa viagem solitária, naquela época e lugar. A despeito de todos os conselhos negativos, maravilhou-se por atravessar desertos e dormir ao relento, relevando desconfortos materiais em nome de conhecer pessoas e paisagens. Dessa e de outras viagens surgiram muitas das suas histórias e o segundo casamento, com o arqueólogo Max Mallowan.

Pensando bem, talvez humildade e coragem não sejam tão paradoxais como escrevi acima. A gente precisa de coragem para ser humilde (“Só sei que nada sei”, disse o audacioso Sócrates). Será que desse patamar não pode florescer uma escrita menos sofrida, mais valente, da nossa parte?

Escrita com diálogos e personagens — Num dia triste de inverno, a mãe da entediada Agatha sugeriu: “Por que não escreve uma história?” A filha achou que não conseguiria, mas a mãe foi insistente: “Você não sabe se pode ou se não pode, porque nunca tentou.”

Ao mandar essa primeira história a um editor, amigo da família, recebeu uma carta com boas críticas e conselhos: “Você tem um grande talento para os diálogos.” Insista naquilo que você faz bem! O mesmo editor escreve um maravilhoso conselho, que vale também para autores de textos etnográficos:

“Experimente eliminar todas as considerações morais de seus romances; (…) não existe coisa mais maçante de se ler. Tente dar liberdade a seus personagens, deixando-os falarem por si próprios, em vez de se apressar para dizer a eles o que deveriam dizer, ou para explicar ao leitor o que eles querem dizer com suas palavras. Cabe ao leitor julgar por si mesmo.” (Eden Philpotts, em carta a Agatha Christie, Autobiografia, p.198)

Escrita, satisfação interior e cotidiano — Para Agatha, a escrita é um impulso criativo, tão valioso quanto qualquer outro, como bordar, costurar, tocar, cozinhar, pintar flores em porcelana. “A satisfação interior do artista é essencialmente a mesma.” A única diferença, ela escreve, “é que algumas dessas ocupações conferem mais status do que outras”.

“O que existe de melhor na carreira de escritor é que podemos trabalhar a sós e dispor de nosso tempo.” Mas escrever também cansa, gera mau humor, ela reconhece. Empacada no meio de um livro, recebeu o conselho de sua mãe: vá para um lugar “sem nada que a perturbe”.

Embora apreciados, esses tempos de foco e reclusão eram raros na vida de Agatha Christie. Sua prática de escrita se deu quase sempre misturada com a vida cotidiana: filha para cuidar, contas a pagar, cartas a responder. Gostava mais de arrumar a casa: “Existe uma monotonia nas tarefas domésticas — e suficiente atividade física, de modo a liberar a mente, permitindo-lhe ganhar espaço e construir seus próprios pensamentos e invenções”.

Escrita e independência — Uma das coisas mais surpreendentes na leitura da Autobiografia de Agatha Christie, para mim, foi a rápida independência financeira que a escrita lhe proporcionou. Após uns poucos livros, por volta de 1924, aos 34 anos, ela recebe uma oferta de 500 libras para uma história a ser publicada em capítulos num periódico. (Para vocês terem uma ideia, o antropólogo Bronislaw Malinowski vivia com um orçamento apertado de 150 libras por ano nos seus tempos de trabalho de campo entre a Austrália e a Papua Nova Guiné.)

Ao contrário de muitos escritores, o trabalho de Agatha vai lhe render uma fortuna, feito notável para uma mulher cuja família havia perdido quase tudo por volta da primeira guerra mundial e que, dali a uns anos, estaria divorciada, com uma filha, sustentando-se sozinha. Aliás, falando sobre a filha, ela nos deixa entrever o quanto aprendeu a valorizar o amor com independência e liberdade:

“Acho que não existe nada de mais empolgante neste mundo do que ter um filho, só seu, e que ainda assim é misteriosamente um estranho. Você é a porta por onde ele ingressa no mundo, e lhe será permitido cuidar dele por um tempo: depois disso, ele vai deixá-la para desabrochar para a liberdade de sua própria vida (…). É como uma semente desconhecida que você trouxe para casa, plantou e mal pode esperar para ver que tipo de planta será.” (Autobiografia, Agatha Christie, p.333)

Escrita profissional — “Não é um bom começo julgar-se um gênio nato”, aconselha Agata Christie. Ela própria demorou muitos anos para se perceber como escritora profissional, papel que não deixa de ser o de todos os acadêmicos, em especial das áreas de humanas. Ela diz:

“Foi então que assumi o peso de uma profissão, que é escrever mesmo quando não se está com vontade, quando não se está gostando do que se está escrevendo e quando não se está produzindo algo especialmente bom.” (Autobiografia, Agatha Christie, p.360)

Em vários momentos do livro, ela afirma que foi criada por uma mãe da era vitoriana, aprendendo desde cedo que, diante de uma ordem ou um dever,  “aceitava-se o fato”. Diante das dificuldades (não só emocionais, mas de duas grandes guerras), repetia para si mesma os conselhos de um amigo que considerava como pai: “O que quer que aconteça, aceite-o e siga em frente. Você é forte e corajosa. Ainda tem muito sentido a dar à sua vida.” Aceitar aqui não era passividade, mas encarar os acontecimentos e achar forças para superá-los. Foi a partir desse conselho que decidiu rumar sozinha ao Oriente (história que contei acima).

Escrita e crises — Apesar da progressiva segurança, Agatha também passava por crises de criatividade que às vezes duravam semanas. Nessa hora, ela lembra, precisava aguentar firme:

“É uma angústia inigualável. Sentava-se na sala, mordendo o lápis, olhava para a máquina de escrever, caminhava pelo quarto ou jogava-me em cima de um sofá, com vontade de chorar! Depois saía, interrompia alguém que estava trabalhando (…) e dizia: — É terrível, Max. Acho que esqueci como se escreve um livro! Simplesmente não consigo. Jamais vou escrever um livro novo!” (Autobiografia, Agatha Christie, p.479)

Max, seu marido, respondia: “Ah, claro que vai!” E ela teimava: “desta vez é diferente”, mas não era. Sempre esquecia que já havia sentido antes o “desespero, a infelicidade e o sentimento de impotência para fazer algo com um mínimo de criatividade”. No entanto, conclui que a “crise de infelicidade” precisa ser vivida:

“É como se só depois de muita reviravolta interna, depois de horas de tédio profundo, é que nos sentíssemos normais. (…) Ficamos, enfim, tomados por um sentimento de desesperança paralisante. De repente, por alguma razão desconhecida, uma espécie de fagulha faz com que comecemos a agir. Compreendemos que o livro está começando a nascer, que a neblina está se dissipando.” (Autobiografia, Agatha Christie, p.480)

Acho que este é (neste momento) o meu trecho favorito da obra! Em agosto de 2017 passei por essa sensação de que jamais iria conseguir escrever algo de bom ou achar um caminho para a minha pesquisa. Que alívio ler uma escritora tão produtiva me ajudando a entender que esse sentimento faz parte.

Livros-tesouros — “A cada ano torna-se mais difícil encarar o futuro. Nada parece valer a pena”, escreve Agatha, referindo-se tanto ao presente (1965, contexto da guerra fria), quanto ao trauma da segunda guerra mundial. No entanto, ela afirma: “A esperança é a virtude que mais deveríamos cultivar hoje e sempre”.

A escritora enfrentou as duas guerras como voluntária em hospitais, onde aprendeu enfermagem e a manipular remédios. Na segunda guerra, além desse serviço, manteve-se escrevendo. A essa altura, seus livros já valiam tanto que ela providenciou um “seguro” para seus familiares. Escreveu uma aventura de Poirot para sua filha Rosalind e uma de Miss Marple para seu marido Max e depositou os dois manuscritos em um cofre num banco, a salvo de destruições por bombardeio!

Agatha considera a “sorte” como principal fator de seu sucesso. Eu acrescentaria a despretensão, a imaginação, a alegria de viver e de escrever:

“De repente, senti que estava me divertindo: o maravilhoso instante na vida de um escritor que, embora seja muito breve, o impele a se entregar totalmente a uma obra tal como ser apalhado por uma boa onda no mar (…). ‘Que maravilha, estou conseguindo! É o meu ofício. O que vem a seguir?’” (Autobiografia, Agatha Christie, p.521)

Obrigada a todos que chegaram até aqui!! Que esse texto traga um pouquinho de esperança para nós, que estamos precisando tanto. ♥

Esse post é uma continuação do anterior: Lições de escrita com Agatha Christie (Parte 1)

Sobre o livro: Autobiografia, Agatha Christie. Porto Alegre, L&PM, 2015. (Tradução de Bruno Alexander). Queria só avisar a todos que se empolgaram em comprar e ler: é muita responsabilidade indicar um livro tão grande e que tem alguns pontos sensíveis, aos olhos de hoje.

Outros livros: Leitores do post da semana passada me indicaram dois livros que complementam essa autobiografia, ambos com versões em português. “Na Síria” (título original Come, Tell Me How You Live) que narra os tempos de Agatha Christie junto ao projeto de arqueologia de seu marido naquele país; e “Ausência na primavera” (título original Absent in the Spring), publicado sob o pseudônimo de Mary Westmacott, sobre uma mulher que se vê sozinha, questionando sua própria identidade. Ela fala com muito carinho de ambos os livros, especialmente do segundo, do qual os editores não gostaram nem um pouco, mas ela sim:

“Pode até ser que seja bobo, mal escrito, que não preste para nada. Entretanto, foi escrito com integridade, com sinceridade; foi escrito como desejei que fosse escrito, e esse é o maior orgulho que um escritor pode ter.” (Autobiografia, Agatha Christie, p.506)

Isso deveria valer para todas as nossas teses e artigos, concordam? Podem não ser perfeitos, mas nem por isso devemos valorizá-los menos, principalmente pelo tanto que contribuem para nosso aprendizado.

Sobre o desenho: Na falta de uma ilustração (sem tempo para desenhar!!), utilizei esse carrinho, desenhado no Museu da Ciência em Manchester, Inglaterra, em agosto de 2016, porque ele se parece muito com o Morris-Cowley, primeiro carro que Agatha Christie comprou e que a fez se sentir livre e independente. O desenho foi feito num caderno com papel de aquarela, desenhado com canetinha de nanquim permanente descartável (não me lembro o número) e colorido com aquarela (aumentei o contraste com Photoshop depois de escanear). A proposta do workshop era deixar algumas partes sem terminar mesmo, do tipo “menos é mais”.

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Como citar: Kuschnir, Karina. 2017. “Lições de escrita com Agatha Christie (Parte 2)”, Publicado em karinakuschnir.wordpress.com, url: http://wp.me/s42zgF-agatha2. Acesso em [dd/mm/aaaa].


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Lições de escrita com Agatha Christie (Parte 1)

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“Creio que não há ninguém no mundo mais inadequado para representar o papel de heroína do que eu eu. ” (Agatha Christie)

Imaginem uma menina nascida em 1890 na Inglaterra, tímida, reservada, lenta, sem escolaridade formal, criada para servir o marido. Agora, me digam: vocês acreditariam que essa pessoa se tornaria a escritora que mais vendeu livros em todo o mundo? Pois foi, ela mesma, Agatha Christie!

Passei o feriado lendo as 545 páginas da sua autobiografia, me divertindo e me impressionando com a falta de pompa e de pose dessa mulher que tinha tudo para ser esnobe, mas não é. O livro traz suas memórias familiares e afetivas, os momentos difíceis e os empolgantes, as muitas casas e viagens da autora, do seu nascimento aos 75 anos (ela viveu até os 85).

Os processos de criação não são o foco principal da autobiografia. Mas pesquei algumas lições de escrita que me estimularam a compartilhar com vocês. Aí vai a primeira parte.

Solidão e imaginação — Desde muito pequena, sendo uma filha temporã numa casa afastada da cidade, Agatha Christie era uma criança que brincava sozinha. O conceito de educação da sua família era bastante simples: entretenha-se! O jardim virava sua terra encantada, os bichos seus personagens, brinquedos se transformavam em carruagens, navios ou locomotivas. Estava tão acostumada a inventar as próprias histórias que contava para suas amigas, tendo o cuidado de mentir que tinha lido em algum lugar (já que não acreditariam se dissesse que eram pura invenção).

Isso me fez pensar no quanto atrapalhamos nossa imaginação consumindo conteúdos demais, quando o mais simples está bem à mão. Nossa própria imaginação pode ser uma fonte inesgotável de ideias. Claro que nem todo mundo tem essa facilidade — anos mais tarde, a própria Agatha viria a se espantar com a dificuldade de sua filha para brincar sozinha. Mas será que não vale a pena estancar o fluxo de estímulos e ver o que acontece?

Aprendizado sem professores — Agatha Christie nunca foi à escola. Sim, vocês leram certo: nunca foi a uma escola! Aprendeu a ler sozinha por volta dos 4 anos, apesar das contra-indicações da mãe, que achava a leitura nociva antes dos 9 anos. Mesmo nessa idade, continuou sem frequentar salas de aula. (Só aos 19 foi para uma escola de moças, onde as aulas eram de música e canto, e, mais tarde, fez uma formação em farmacologia.) Escrevia mal e com erros ortográficos, na sua própria avaliação, mas lia muito, principalmente contos de fada e livros para crianças. Sua primeira história escrita foi para a irmã, com objetivo de encenarem para a família. Desde essa época, gostava de de sentir medo e criou uma vilã “sanguinária”, palavra que provocou risos, mas gerou a crítica da mãe (que, mais tarde, seria sua grande incentivadora).

Avaliando essa época, Agatha acha que sua criatividade foi fortalecida por não ter ido à escola, onde tudo vinha “preparado demais”, gerando crianças dependentes dessa estrutura, sem conseguir pensar por si próprias. Será que essa ideia pode se aplicar ao mundo acadêmico? Ao enfatizar demais a importância dos autores e professores, será que não enfraquecemos nossa capacidade (e confiança!) de pensar por nós mesmos?

Cultivar suas paixões infantis — Em sua autobiografia, Agatha Christie escreve:

“Aquilo com que gostava de brincar quando criança é o mesmo com que sempre gostei de brincar vida afora. […] O que nos dá mais prazer na vida? […] parece-me que são sempre os momentos tranquilos que preenchem o cotidiano.”

Para ela, esses momentos eram os de inventar histórias, ouvir as leituras em voz alta de sua mãe, brincar de casinha e com os animais, viver em família. Nada indicava que se tornaria uma autora. Seria tão mais interessante, Agatha reflete, se pudesse “afirmar que sempre quis ser escritora” e que estava “determinada a ser bem-sucedida um dia”, mas isso jamais lhe passou pela cabeça. Até que aconteceu.

Acho essa dissociação boa para pensar. Agatha foi vivendo um dia de cada vez, sentindo-se como alguém que não se “destacava em nada”. Tentou guiar seus talentos para a música e para o canto, mas o que prevaleceu (e rendeu) foi sua capacidade de criar personagens e contar histórias, algo que desde muito cedo fazia parte da sua personalidade.

Penso que muitos de nós temos consciência desses amores infantis; daquilo que nos emociona desde muito cedo. Hoje, escrevendo esse blog, vejo o quanto ele reflete meu amor pelos livros ilustrados. Nunca imaginei que esse gosto iria me trazer até aqui e que um dia eu fosse ousar sonhar com uma vida de escrita e ilustração.

E vocês? Quais são os seus amores de infância? Eles estão esquecidos ou guiando suas ações em alguma direção?

Esse post continua na próxima semana!

Sobre o livro: Autobiografia, Agatha Christie. Porto Alegre, L&PM, 2015. (Tradução de Bruno Alexander). Comprei na Estante virtual! A ideia de ler esse livro veio de uma citação no Facebook do mural do poeta Carlito Azevedo. Infelizmente, não consegui localizar novamente. Só me lembro que gostei!

Sobre o desenho: Imagem feita a partir da fotografia da capa do livro (créditos Getty Images). Utilizei o mesmo processo descrito aqui para traçar um esboço a lápis. Depois fiz as linhas com diversas canetinhas de nanquim descartável Pigma Micron (0,4, 0,1 e 0,05). Colori com marcadores cinzas Tombow, num papel 180gr, bem ruinzinho, da marca Spiral (desses blocos de desenho baratos que vendem em qualquer papelaria). Infelizmente não consegui dar ao rosto dela a expressão marota da fotografia original. Ficou tudo meio pesado, mas o post tem que sair; então vai de qualquer jeito!

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Como citar: Kuschnir, Karina. 2017. “Lições de escrita com Agatha Christie (Parte 1)”, Publicado em karinakuschnir.wordpress.com, url: http://wp.me/s42zgF-agatha1. Acesso em [dd/mm/aaaa].


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O vazio interrogativo

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Afastados da casa onde morria uma tia, um menino e seus primos esperavam a chegada solene da morte. Estavam num grande “vazio interrogativo”  quando, de repente, um pano branco…

Surgiu no ar, atravessou em passo lento a sala, desapareceu no corredor escuro que dava pra rua. Ninguém não exclamou “Vi uma assombração!”, nada. Todos estávamos estarrecidos, olhando. Só um bom minuto depois é que uma criada falou: “Foi lençol”. Então fomos chamados pra chorar. (Macobeba, Mário de Andrade)

Passei a semana nesse estado de “vazio interrogativo”,  com dificuldade de entender o que estava acontecendo, ora dando como desculpa que o mundo anda mal, ora achando que o problema era eu.

Caí em mim mas foi pra ter ódio de mim. Naquele tempo eu inda não era sábio, isto é, não tinha paciência. (Na sombra do erro, Mário de Andrade)

Não, não tem ninguém próximo morrendo! É só o meu aniversário de muitos anos que se aproxima. Eu tinha feito planos, cronogramas, metas, tabelas, objetivos, horizontes… Projetei que, em agosto, eu estaria mais jovem, mais atlética, mais disposta, mais leve, mais engraçada, mais feliz — e estou só mais eu mesma!

Vivi uns quatro meses nesse surto de onipotência controlativa. Até que veio uma dorzinha na lombar. Não dei bola, virou uma dorzona, virou uma fisioterapia, duas, dez. Já melhor, veio a preguiça, pensei vamos-esperar-as-férias-das-crianças-acabarem. E depois veio a parte em que já não sabia se estava triste por alguma coisa, ou se estava triste por estar triste.

Quando alguém não puder se vencer, disfarce lendo as tabuletas. (O terno itinerário, Mário de Andrade).

Não sei vocês, mas eu estou sempre sem poder “me vencer”, lutando comigo mesma. Acho que o Mário de Andrade também, porque essa ideia está presente de forma constante (mas bem-humorada) na obra dele.

Estou precisando de umas tabuletas pra ler, de paciência, de valorizar as coisinhas pequenas e boas do dia-a-dia, de entender que falhar faz parte, que todo dia é dia de juntar os cacos e recomeçar. Aqui em casa, repetimos um mantra: “vergonha” só de matar, roubar, bater, ofender, prejudicar. Errar, falhar, vestir calça cor-de-laranja, não. Pra esses, o melhor remédio é rir, se levantar; e ler Mário de Andrade, claro.

Porque se há de reduzir a felicidade, que é especialmente uma concordância do indivíduo consigo mesmo e o seu destino, a uma contingência externa? A própria dor é uma felicidade, quando aceita entre os bens que a vida fornece para o equilíbrio do ser e a sua perfeição livre.

Fui reler o Mário, um dos meus escritores favoritos, pois passei a semana me culpando pelo esquecimento do nome dele no último post. Taí uma amostra bem pequenininha do universo gigante desse autor. As citações são de crônicas do livro “Os filhos da Candinha” (ed. Martins/INL) escritos entre 1930 e 1942. O protagonista é, na maioria das vezes, o próprio autor a se “desfatigar” de si mesmo.

E um pouco sobre tudo isso, leiam a crônica maravilhosa de hoje do Arthur Dapieve: C’est la vie.

Ah, e muito, muito, obrigada pelos comentários tão gentis das últimas semanas! ♥

Sobre o desenho: Folhagens aleatórias que gosto de pintar quando estou ouvindo alguém que fala muito ao telefone (hoje em dia, só no Whatsapp!). Aquarelas amarelas, azuis e verdes, feitas com pincel n. 4, todos da Winsor & Newton. Dupliquei a imagem original no Photoshop para ocupar uma área mais horizontal.

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Como citar: Kuschnir, Karina. 2017. “O vazio interrogativo”, Publicado em karinakuschnir.wordpress.com, url: http://wp.me/s42zgF-vazio. Acesso em [dd/mm/aaaa].


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Escrita Diária – Dez dicas para curtir e manter o hábito de escrever

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“Se lhe ocorrer um argumento brilhante, uma réplica vitoriosa que mude o rumo da conversa, não ceda à tentação de brilhar, mantenha o silêncio; as pessoas finas verão sua inteligência nos seus próprios olhos. Você terá tempo de se mostrar inteligente quando for bispo.” (A cartuxa de Parma, Stendhal)

Lendo Cervantes, Rabelais, Stendhal, Eça de Queirós, sinto-me no mais feliz dos mundos, feito de pessoas que não se levam tão a sério mas, ao mesmo tempo, trabalham a sério. E não são só os clássicos que fazem isso, claro. Minha lista de imperfeitos-perfeitos vai de Carlito Azevedo, Anne Lamott, Juva Batella, Ana Paula Lisboa, Marjane Satrapi — tem um monte de escritores maravilhosos que sabem rir de si e de nós, escrevendo com falhas, ironias e pérolas, tudo numa página só.

Essa é a minha base para escrever todos os dias:

1) Escrevo sem querer brilhar ou parecer inteligente — Pode parecer bobagem, mas não é. Muitos alunos (e eu mesma) empacam na hora de escrever porque querem produzir textos fantásticos. Não é um bom caminho. Aliás, agora mesmo não estou sendo nada brilhante, pois já dei essa dica aqui no blog! Prefiro escrever muito, qualquer bobagem, e depois, com o tempo e alguma sorte, peneirar boas ideias.

2) Escrevo 300 palavras no mínimo todos os dias — Assim que ligo o computador de manhã, a primeira coisa que faço é abrir um arquivo de escrita diária no meu editor de texto. Coloco data, dia da semana, hora e escrevo até contar 300 palavras, o que dura em torno de 11 a 15 minutos (sim, eu medi!). Em alguns dias, fico mais tempo, empolgada com alguma ideia que tenha surgido ou escrevendo algo que possa virar um post, ou até registrando uma atividade da aula do dia anterior, por exemplo. Muitas vezes, porém, fico só nas 300 e poucas palavras mesmo, mal-humorada e irritada com os rituais que invento para mim mesma. Pelo menos já começo sabendo que consigo terminar em 11 minutos. Já é uma vitória escrever algo em dias assim. O saldo é o que vale, tanto pelo aspecto mecânico, de acostumar o corpo e a mente a sentar e escrever todos os dias, quando pelo conteúdo produzido: no meio de um monte de bobagens e reclamações, acabo escrevendo ou anotando coisas que me ajudam a pensar, viver e trabalhar.

3) Escrevo para me manter saudável — Quando estou numa boa fase, só sento para escrever depois de fazer alguma atividade física. Evito abrir o navegador e até ver e-mails antes da escrita e de fazer aquilo que considero o mais importante para o meu dia (ver item 6 abaixo). Mas eu estaria mentindo se dissesse que consigo fazer isso sempre. Há épocas melhores, outras piores. Nesse ano (2017), consegui ficar bem de março a início de junho. De lá para cá, andei doente algumas vezes, perdi o ritmo, voltei, mas acabei decretando férias de mim mesma por duas semanas, no final de julho, e me permiti ficar bastante com as crianças e ler dois livros inteiros.

4) Escrevo sobre o que quero escrever ou realizar — Escrever logo de manhã é ótimo para organizar o pensamento sobre o que considero mais relevante para o dia que está começando. Uma dica que já li em vários lugares na internet é tentar responder à pergunta: quando o dia terminar, o que eu gostaria de ter escrito/realizado? O hábito vai mostrar que nossa ambição inicial é fantasiosa, tipo querer correr 5 km, escrever 10 páginas, arrumar a casa, dar atenção às crianças e dormir cedo, tudo num dia só. É frustrante ter tantas expectativas. Esses excessos acabam me dando uma sensação de fracasso, que afogo navegando nas redes sociais. Hoje em dia me contento em planejar duas ou três coisas, bem modestas, como: ir à academia (só de pisar lá já está bom!); dar ou preparar uma aula (o que sempre leva o triplo de tempo imaginado) e desenhar algo (como tocar um instrumento, desenhar é prática, mesmo que por 5 minutos!).

5) Escrevo o que estiver na pauta do dia, da semana ou do mês — Após o momento diário-de-300-palavras, tenho que voltar à realidade: preciso olhar a agenda e a lista de tarefas. Se houver algo importante, tento me forçar a começar logo, sem responder a e-mails nem ver redes sociais antes das 16:00 horas (ver item abaixo). Com a prática cotidiana de escrever 300 palavras, começar um outro trabalho de escrita deixa de ser tão assustador. Se for algo que já iniciei, releio o que produzi no dia anterior e sigo em frente, parando aqui e ali para consultar algumas fontes, mas tomando cuidado para não me perder nessa tarefa. Se for para escrever algo novo, meu principal truque mental é imaginar que estou escrevendo uma carta para uma amiga querida, explicando o assunto de que quero tratar. (Como já fiz vários posts sobre isso, não vou me deter nessa parte criativa; os links seguirão no final.)

6) Escrevo com as redes sociais desligadas — Nem preciso dizer que isso é mais um desejo do que uma prática… mas continuo buscando estar no fluxo criativo offline. Coisas que tenho feito nessa direção: desligar notificações no celular para aplicativos de redes sociais ou e-mail. Andei radicalizando (em março) e tirei até os avisos sonoros de todas as mensagens do Whatsapp, mas não deu para manter. Consegui, desde então, ficar sem Facebook no celular e, mais recentemente, sem Youtube. De vez em quando, não resisto e vejo ambos no navegador, mas o Messenger não funciona, ainda bem. Uma dica de auto-sabotagem é limpar o cache do Chrome, de modo que, para navegar nesses sites, dá muito trabalho lembrar da senha, o que me lembra de não navegar. Mantenho o Twitter porque não acho muita graça. Também estou com o Instagram instalado, onde sigo alguns artistas. Quando percebo que estou vendo muito as Stories, desinstalo por uma semana. Também só sigo artistas e ilustradores, tentando não repetir as mesmas pessoas que já acompanho pelo Fb.  (Ufa. Fiquei cansada de descrever essa lista toda… E pensar que, até outro dia, esses portais infinitos não existiam! E a gente vivia, viu?)

7) Escrevo sobre o que escrevi — No final do dia, abro novamente o arquivo de escrita diária (deixo um link com o atalho no desktop) para escrever mais um pouquinho. Nessa etapa, utilizo uma listinha de perguntas, sem metas de quantidade de palavras. Respondo objetivamente, sem me alongar muito, questões sobre criatividade: O que escrevi, desenhei ou pintei hoje? Outras coisas que terminei ou avancei hoje? Alguma coisa legal que Ouvi/Li/Assisti?

8) Escrevo sobre o que aprendi — Em seguida ao que descrevi acima, escrevo um pouquinho sobre como estou me sentindo, sobre minhas relações afetivas, as dificuldades e alegrias do dia: O que aprendi hoje? Como ajudei alguém? Qual foi o pior do dia / ou O que foi difícil? Qual foi o melhor do dia / ou Pelo que estou grata hoje?

9) Escrevo sobre o amanhã — Para terminar, tento responder à pergunta: Como posso fazer/ter um dia bom amanhã? Aqui vale qualquer coisa, até escrever que preciso descansar, ir ao médico, conversar com uma amiga, me concentrar mais (ou menos) etc. Esse amanhã também pode se transformar numa reflexão sobre o futuro de médio ou longo prazo.

10) Leio — Querer escrever sem ler é como querer comer sem comida! Ler é um dos maiores prazeres da minha vida — é o que me alimenta, me faz pensar, rir, agir. Nada do que faço, nem minha própria existência, seria possível sem a leitura. Leio muito mais livros e textos do que consigo contar, e cada um deles me norteia em tudo que escrevo.

Obrigada a todos que me leram até aqui. ♥ Se vocês forem obsessivos como eu quando gostam de um tema, aí vão alguns outros posts sobre o assunto escrita:

Dez truques da escrita num livro só
Mente selvagem: dicas de escrita de Natalie Goldberg
25 dicas para revisar textos acadêmicos (de trás pra frente)
Os bastidores do blog
Carta a um jovem doutorando
Como não escrever uma carta para a seleção de mestrado

Além desses, vocês podem ver todos das tag mundo acadêmico, escrita, ou livros. Esse sistema de tags não está super organizado mas é o que temos no momento. Ah, e tem posts de que gosto muito sobre o Carlito Azevedo e vários com a tag Juva Batella.

Por falar no Juva, ele fez a revisão da minha tese de doutorado e está aceitando trabalhos de revisão de texto! O Lattes dele aqui e o contato é juvabatella [@] gmail.com. Fico até sem palavras para elogiar… Ele é autor do único livro que ilustrei, é meu melhor amigo, meu amor, meu tudo. ♥

….

Sobre o desenho: Desenho do meu notebook feito com canetinha Pigma Micron (tamanhos 0,2, 0,1 e 0,05), depois colorido com aquarelas variadas, num papel solto (não lembro a marca). Foi complicadinho, mas me diverti criando uns cinco ou seis tons de cinza para as diferentes áreas do desenho. Não sei se dá para ver na versão eletrônica.

Sobre a citação: A epígrafe do post está na página 171 do livro A cartuxa de Parma, de Stendhal. (Tradução de Rosa Freire D’Aguiar, Editora Penguin/Companhia das Letras). Li este livro por recomendação do Carlito Azevedo, quando comentei que tinha adorado O vermelho e o negro, do mesmo autor. A cartuxa… é um romance fantástico que merece um post próprio, mas não resisti começar a citar logo.

Até semana que vem e boas escritas!

Você acabou de ler “Escrita Diária – Dez dicas para curtir e manter o hábito de escrever“, escrito e ilustrado por Karina Kuschnir e publicado em karinakuschnir.wordpress.com. Se quiser receber automaticamente novos posts, vá para a página inicial do blog e insira seu e-mail na caixa lateral à direita. Se estiver no celular, a caixa de inscrição está no rodapé. Obrigada! 🙂

Como citar: Kuschnir, Karina. 2017. “Escrita Diária – Dez dicas para curtir e manter o hábito de escrever”, Publicado em karinakuschnir.wordpress.com, url: http://wp.me/p42zgF-2yd. Acesso em [dd/mm/aaaa].

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