Karina Kuschnir

desenhos, textos, coisas


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O vazio interrogativo

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Afastados da casa onde morria uma tia, um menino e seus primos esperavam a chegada solene da morte. Estavam num grande “vazio interrogativo”  quando, de repente, um pano branco…

Surgiu no ar, atravessou em passo lento a sala, desapareceu no corredor escuro que dava pra rua. Ninguém não exclamou “Vi uma assombração!”, nada. Todos estávamos estarrecidos, olhando. Só um bom minuto depois é que uma criada falou: “Foi lençol”. Então fomos chamados pra chorar. (Macobeba, Mário de Andrade)

Passei a semana nesse estado de “vazio interrogativo”,  com dificuldade de entender o que estava acontecendo, ora dando como desculpa que o mundo anda mal, ora achando que o problema era eu.

Caí em mim mas foi pra ter ódio de mim. Naquele tempo eu inda não era sábio, isto é, não tinha paciência. (Na sombra do erro, Mário de Andrade)

Não, não tem ninguém próximo morrendo! É só o meu aniversário de muitos anos que se aproxima. Eu tinha feito planos, cronogramas, metas, tabelas, objetivos, horizontes… Projetei que, em agosto, eu estaria mais jovem, mais atlética, mais disposta, mais leve, mais engraçada, mais feliz — e estou só mais eu mesma!

Vivi uns quatro meses nesse surto de onipotência controlativa. Até que veio uma dorzinha na lombar. Não dei bola, virou uma dorzona, virou uma fisioterapia, duas, dez. Já melhor, veio a preguiça, pensei vamos-esperar-as-férias-das-crianças-acabarem. E depois veio a parte em que já não sabia se estava triste por alguma coisa, ou se estava triste por estar triste.

Quando alguém não puder se vencer, disfarce lendo as tabuletas. (O terno itinerário, Mário de Andrade).

Não sei vocês, mas eu estou sempre sem poder “me vencer”, lutando comigo mesma. Acho que o Mário de Andrade também, porque essa ideia está presente de forma constante (mas bem-humorada) na obra dele.

Estou precisando de umas tabuletas pra ler, de paciência, de valorizar as coisinhas pequenas e boas do dia-a-dia, de entender que falhar faz parte, que todo dia é dia de juntar os cacos e recomeçar. Aqui em casa, repetimos um mantra: “vergonha” só de matar, roubar, bater, ofender, prejudicar. Errar, falhar, vestir calça cor-de-laranja, não. Pra esses, o melhor remédio é rir, se levantar; e ler Mário de Andrade, claro.

Porque se há de reduzir a felicidade, que é especialmente uma concordância do indivíduo consigo mesmo e o seu destino, a uma contingência externa? A própria dor é uma felicidade, quando aceita entre os bens que a vida fornece para o equilíbrio do ser e a sua perfeição livre.

Fui reler o Mário, um dos meus escritores favoritos, pois passei a semana me culpando pelo esquecimento do nome dele no último post. Taí uma amostra bem pequenininha do universo gigante desse autor. As citações são de crônicas do livro “Os filhos da Candinha” (ed. Martins/INL) escritos entre 1930 e 1942. O protagonista é, na maioria das vezes, o próprio autor a se “desfatigar” de si mesmo.

E um pouco sobre tudo isso, leiam a crônica maravilhosa de hoje do Arthur Dapieve: C’est la vie.

Ah, e muito, muito, obrigada pelos comentários tão gentis das últimas semanas! ♥

Sobre o desenho: Folhagens aleatórias que gosto de pintar quando estou ouvindo alguém que fala muito ao telefone (hoje em dia, só no Whatsapp!). Aquarelas amarelas, azuis e verdes, feitas com pincel n. 4, todos da Winsor & Newton. Dupliquei a imagem original no Photoshop para ocupar uma área mais horizontal.

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Como citar: Kuschnir, Karina. 2017. “O vazio interrogativo”, Publicado em karinakuschnir.wordpress.com, url: http://wp.me/s42zgF-vazio. Acesso em [dd/mm/aaaa].


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Escrita Diária – Dez dicas para curtir e manter o hábito de escrever

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“Se lhe ocorrer um argumento brilhante, uma réplica vitoriosa que mude o rumo da conversa, não ceda à tentação de brilhar, mantenha o silêncio; as pessoas finas verão sua inteligência nos seus próprios olhos. Você terá tempo de se mostrar inteligente quando for bispo.” (A cartuxa de Parma, Stendhal)

Lendo Cervantes, Rabelais, Stendhal, Eça de Queirós, sinto-me no mais feliz dos mundos, feito de pessoas que não se levam tão a sério mas, ao mesmo tempo, trabalham a sério. E não são só os clássicos que fazem isso, claro. Minha lista de imperfeitos-perfeitos vai de Carlito Azevedo, Anne Lamott, Juva Batella, Ana Paula Lisboa, Marjane Satrapi — tem um monte de escritores maravilhosos que sabem rir de si e de nós, escrevendo com falhas, ironias e pérolas, tudo numa página só.

Essa é a minha base para escrever todos os dias:

1) Escrevo sem querer brilhar ou parecer inteligente — Pode parecer bobagem, mas não é. Muitos alunos (e eu mesma) empacam na hora de escrever porque querem produzir textos fantásticos. Não é um bom caminho. Aliás, agora mesmo não estou sendo nada brilhante, pois já dei essa dica aqui no blog! Prefiro escrever muito, qualquer bobagem, e depois, com o tempo e alguma sorte, peneirar boas ideias.

2) Escrevo 300 palavras no mínimo todos os dias — Assim que ligo o computador de manhã, a primeira coisa que faço é abrir um arquivo de escrita diária no meu editor de texto. Coloco data, dia da semana, hora e escrevo até contar 300 palavras, o que dura em torno de 11 a 15 minutos (sim, eu medi!). Em alguns dias, fico mais tempo, empolgada com alguma ideia que tenha surgido ou escrevendo algo que possa virar um post, ou até registrando uma atividade da aula do dia anterior, por exemplo. Muitas vezes, porém, fico só nas 300 e poucas palavras mesmo, mal-humorada e irritada com os rituais que invento para mim mesma. Pelo menos já começo sabendo que consigo terminar em 11 minutos. Já é uma vitória escrever algo em dias assim. O saldo é o que vale, tanto pelo aspecto mecânico, de acostumar o corpo e a mente a sentar e escrever todos os dias, quando pelo conteúdo produzido: no meio de um monte de bobagens e reclamações, acabo escrevendo ou anotando coisas que me ajudam a pensar, viver e trabalhar.

3) Escrevo para me manter saudável — Quando estou numa boa fase, só sento para escrever depois de fazer alguma atividade física. Evito abrir o navegador e até ver e-mails antes da escrita e de fazer aquilo que considero o mais importante para o meu dia (ver item 6 abaixo). Mas eu estaria mentindo se dissesse que consigo fazer isso sempre. Há épocas melhores, outras piores. Nesse ano (2017), consegui ficar bem de março a início de junho. De lá para cá, andei doente algumas vezes, perdi o ritmo, voltei, mas acabei decretando férias de mim mesma por duas semanas, no final de julho, e me permiti ficar bastante com as crianças e ler dois livros inteiros.

4) Escrevo sobre o que quero escrever ou realizar — Escrever logo de manhã é ótimo para organizar o pensamento sobre o que considero mais relevante para o dia que está começando. Uma dica que já li em vários lugares na internet é tentar responder à pergunta: quando o dia terminar, o que eu gostaria de ter escrito/realizado? O hábito vai mostrar que nossa ambição inicial é fantasiosa, tipo querer correr 5 km, escrever 10 páginas, arrumar a casa, dar atenção às crianças e dormir cedo, tudo num dia só. É frustrante ter tantas expectativas. Esses excessos acabam me dando uma sensação de fracasso, que afogo navegando nas redes sociais. Hoje em dia me contento em planejar duas ou três coisas, bem modestas, como: ir à academia (só de pisar lá já está bom!); dar ou preparar uma aula (o que sempre leva o triplo de tempo imaginado) e desenhar algo (como tocar um instrumento, desenhar é prática, mesmo que por 5 minutos!).

5) Escrevo o que estiver na pauta do dia, da semana ou do mês — Após o momento diário-de-300-palavras, tenho que voltar à realidade: preciso olhar a agenda e a lista de tarefas. Se houver algo importante, tento me forçar a começar logo, sem responder a e-mails nem ver redes sociais antes das 16:00 horas (ver item abaixo). Com a prática cotidiana de escrever 300 palavras, começar um outro trabalho de escrita deixa de ser tão assustador. Se for algo que já iniciei, releio o que produzi no dia anterior e sigo em frente, parando aqui e ali para consultar algumas fontes, mas tomando cuidado para não me perder nessa tarefa. Se for para escrever algo novo, meu principal truque mental é imaginar que estou escrevendo uma carta para uma amiga querida, explicando o assunto de que quero tratar. (Como já fiz vários posts sobre isso, não vou me deter nessa parte criativa; os links seguirão no final.)

6) Escrevo com as redes sociais desligadas — Nem preciso dizer que isso é mais um desejo do que uma prática… mas continuo buscando estar no fluxo criativo offline. Coisas que tenho feito nessa direção: desligar notificações no celular para aplicativos de redes sociais ou e-mail. Andei radicalizando (em março) e tirei até os avisos sonoros de todas as mensagens do Whatsapp, mas não deu para manter. Consegui, desde então, ficar sem Facebook no celular e, mais recentemente, sem Youtube. De vez em quando, não resisto e vejo ambos no navegador, mas o Messenger não funciona, ainda bem. Uma dica de auto-sabotagem é limpar o cache do Chrome, de modo que, para navegar nesses sites, dá muito trabalho lembrar da senha, o que me lembra de não navegar. Mantenho o Twitter porque não acho muita graça. Também estou com o Instagram instalado, onde sigo alguns artistas. Quando percebo que estou vendo muito as Stories, desinstalo por uma semana. Também só sigo artistas e ilustradores, tentando não repetir as mesmas pessoas que já acompanho pelo Fb.  (Ufa. Fiquei cansada de descrever essa lista toda… E pensar que, até outro dia, esses portais infinitos não existiam! E a gente vivia, viu?)

7) Escrevo sobre o que escrevi — No final do dia, abro novamente o arquivo de escrita diária (deixo um link com o atalho no desktop) para escrever mais um pouquinho. Nessa etapa, utilizo uma listinha de perguntas, sem metas de quantidade de palavras. Respondo objetivamente, sem me alongar muito, questões sobre criatividade: O que escrevi, desenhei ou pintei hoje? Outras coisas que terminei ou avancei hoje? Alguma coisa legal que Ouvi/Li/Assisti?

8) Escrevo sobre o que aprendi — Em seguida ao que descrevi acima, escrevo um pouquinho sobre como estou me sentindo, sobre minhas relações afetivas, as dificuldades e alegrias do dia: O que aprendi hoje? Como ajudei alguém? Qual foi o pior do dia / ou O que foi difícil? Qual foi o melhor do dia / ou Pelo que estou grata hoje?

9) Escrevo sobre o amanhã — Para terminar, tento responder à pergunta: Como posso fazer/ter um dia bom amanhã? Aqui vale qualquer coisa, até escrever que preciso descansar, ir ao médico, conversar com uma amiga, me concentrar mais (ou menos) etc. Esse amanhã também pode se transformar numa reflexão sobre o futuro de médio ou longo prazo.

10) Leio — Querer escrever sem ler é como querer comer sem comida! Ler é um dos maiores prazeres da minha vida — é o que me alimenta, me faz pensar, rir, agir. Nada do que faço, nem minha própria existência, seria possível sem a leitura. Leio muito mais livros e textos do que consigo contar, e cada um deles me norteia em tudo que escrevo.

Obrigada a todos que me leram até aqui. ♥ Se vocês forem obsessivos como eu quando gostam de um tema, aí vão alguns outros posts sobre o assunto escrita:

Dez truques da escrita num livro só
Mente selvagem: dicas de escrita de Natalie Goldberg
25 dicas para revisar textos acadêmicos (de trás pra frente)
Os bastidores do blog
Carta a um jovem doutorando
Como não escrever uma carta para a seleção de mestrado

Além desses, vocês podem ver todos das tag mundo acadêmico, escrita, ou livros. Esse sistema de tags não está super organizado mas é o que temos no momento. Ah, e tem posts de que gosto muito sobre o Carlito Azevedo e vários com a tag Juva Batella.

Por falar no Juva, ele fez a revisão da minha tese de doutorado e está aceitando trabalhos de revisão de texto! O Lattes dele aqui e o contato é juvabatella [@] gmail.com. Fico até sem palavras para elogiar… Ele é autor do único livro que ilustrei, é meu melhor amigo, meu amor, meu tudo. ♥

….

Sobre o desenho: Desenho do meu notebook feito com canetinha Pigma Micron (tamanhos 0,2, 0,1 e 0,05), depois colorido com aquarelas variadas, num papel solto (não lembro a marca). Foi complicadinho, mas me diverti criando uns cinco ou seis tons de cinza para as diferentes áreas do desenho. Não sei se dá para ver na versão eletrônica.

Sobre a citação: A epígrafe do post está na página 171 do livro A cartuxa de Parma, de Stendhal. (Tradução de Rosa Freire D’Aguiar, Editora Penguin/Companhia das Letras). Li este livro por recomendação do Carlito Azevedo, quando comentei que tinha adorado O vermelho e o negro, do mesmo autor. A cartuxa… é um romance fantástico que merece um post próprio, mas não resisti começar a citar logo.

Até semana que vem e boas escritas!

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Como citar: Kuschnir, Karina. 2017. “Escrita Diária – Dez dicas para curtir e manter o hábito de escrever”, Publicado em karinakuschnir.wordpress.com, url: http://wp.me/p42zgF-2yd. Acesso em [dd/mm/aaaa].

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Mente selvagem: dicas de escrita de Natalie Goldberg

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“A vida não é ordeira. Por mais que tentemos pô-la em ordem, bem no meio dela morremos, perdemos uma perna, nos apaixonamos, derrubamos um pote de geléia.”

Assim Natalie Goldberg começa seu Mente selvagem. O dragão da imagem me fez puxar esse livro da estante. Estou assustada com a falta de confiança dos meus alunos em escrever. Não se reconhecem como autores. Repetem as frases que os professores querem ler nas provas. É um bom truque aprender a escrever aquilo que seus avaliadores desejam, mas é também uma armadilha.

“Confiar em nossa mente é essencial para escrever”, diz Natalie, antes de apresentar seus 7 conselhos para o ofício:

  1. “Mantenha sua mão em movimento.” Estabeleça um tempo e não pare. Deixe que a mão criativa assuma o controle, impedindo a mão editora-crítica de interferir.
  2. “Descontrole-se. Diga o quer dizer.”
  3. “Especifique-se. Não carro, mas Cadillac. Não fruta, maçã.”
  4. “Não pense. (…) Limite-se a treinar e esqueça todo o resto.”
  5. “Não se preocupe com pontuação, ortografia e gramática.”
  6. “Esteja livre para escrever o pior lixo das Américas.”
  7. “Ataque a jugular. Se alguma coisa apavorante surgir, vá em frente. É ali que está a energia.”

“Estamos sempre recomeçando”, ela escreve. “É como beber água. Não bebemos um copo uma vez e nunca mais temos de tornar a beber. Não terminamos um poema ou um romance e nunca mais temos de escrever outro. Estamos sempre recomeçando. Isso é bom. É bondade.”

“Mantenha-se simples”, afunde-se em si mesmo e escreva naquele lugar tranquilo de igualdade e verdade, segue Natalie.

“Somos lentos em nos dar conta da grandeza que há em nós.”

“Escrever é a brecha pela qual podemos nos esgueirar para um mundo maior, para nossa mente selvagem.”

“Se quer escrever, escreva. Essa é sua vida. Você é responsável por ela e não vai viver para sempre. Não espere. Arranje tempo agora, mesmo que dez minutos por semana.”

“Muitas vezes, quando está sendo difícil escrever, digo a mim mesma: ‘não existe fracasso’. O único fracasso de quem escreve é parar de escrever. (…) Não faça isso. Deixe que o mundo lá fora grite com você. Crie um mundo íntimo de determinação.”

“É bom experimentar coisas diferentes, mas eventualmente temos que escolher uma coisa e assumir um compromisso. Do contrário estaremos sempre à deriva e não teremos paz. (…) a capacidade de se concentrar é de onde vêm o contentamento e o amor.”

Adorei reler essas frases que sublinhei na época da leitura, nos anos 1990. Quem sabe ressoem em vocês.

Sobre o livro: Goldberg, Natalie. Mente Selvagem: como se tornar um escritor. Rio de Janeiro: Gryphus, 1994. (Tradução de Tati Moraes.) Da mesma autora, recomendo Writing Down the Bones, que não sei se tem em português.

Revistas acadêmicas! A seguir um presentinho preparado pela querida Daniela Manica (obrigada! ♥) a partir de um post que publiquei no Facebook pedindo sugestões de revistas que aceitam trabalhos de alunos de graduação. A Dani também é professora de oficinas de escrita no IFCS e faz um trabalho incrível com os alunos, de pesquisa e preparação de textos para publicação. Aí vai a listinha completa das revistas indicadas:

Revista Habitus (IFCS/UFRJ)
http://www.habitus.ifcs.ufrj.br/index.php/ojs

Cadernos de Campo (FFLCH/USP)
http://www.revistas.usp.br/cadernosdecampo/index

Ponto Urbe (FFLCH/USP)
https://pontourbe.revues.org/

Revista Três Pontos (FAFICH/UFMG)
https://seer.ufmg.br/index.php/revistatrespontos/index

Revista Ensaios (UFF)
http://www.uff.br/periodicoshumanas/index.php/ensaios

Revista Todavia (UFRGS)
http://www.ufrgs.br/revistatodavia/

Revista Florestan (UFSCAR)
http://www.revistaflorestan.ufscar.br/index.php/Florestan/index

Revista Textos Graduados (UNB)
http://periodicos.unb.br/index.php/tg

Revista Primeiros Estudos (USP)
http://www.revistas.usp.br/primeirosestudos/index

Revista Pensata (Unifesp)
http://www2.unifesp.br/revistas/pensata/

Revista Escrita da História – REH
http://www.escritadahistoria.com/

E para quem se interessa pelo mundo acadêmico: o blog tem posts com 25 dicas de edição de textos, sobre brincar de pesquisar, sobre o tempo pra fazer a tese – parte 1 e parte 2como explicar sua tese, dicas para aproveitar a defesa de doutorado e outros textos sobre minhas experiência na importância de escutar, nos truques da escrita, na elaboração de uma carta para a seleção de mestrado, na escrita de projetos, nas defesas de tese, nas dores de não passar, na falta de tempo, no ensino de antropologia e desenho, no aprender a desescrever, nas agruras de ser doutoranda, na vida dos alunos, no sorriso do professor, nas lições da vida acadêmica, na importância de não ser perfeito e nas muitas saudades de Oxford 1, 2, 3 e 4!

Sobre o desenho: Dragão feito por observação na Livraria Cultura do Conjunto Nacional, de São Paulo, durante uma aula de desenho da Fernanda Vaz Campos, que gentilmente me convidou para participar. Foi uma festa estar na terra da garoa por quatro dias, mas sobre isso escrevo mais em outro post. O desenho foi feito num moleskine pequeno com canetinha Unipin 0.2 e  aquarelado no local, do jeito que deu. Passei um pouquinho de lápis-de-cor branco antes de escanear para tentar marcar os brilhos na fórmica preta, mas acho que não deu muito certo.


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Poesia potente

montanha

“o nosso plano secreto,
secreto até para
nós mesmos,
era procurar
o melhor mirante”
(Carlito Azevedo)

Estou apaixonada por Monodrama, livro de Carlito Azevedo, que li e reli nas últimas semanas. É fresco, bonito, triste, suave, engraçado, apaixonado, sonoro, bom, bom de ler. É cheio de ecos e pequenas histórias, como a

“do místico que dizia
fumar para pôr
um pouco de névoa
entre ele e o mundo”

ou a do escritor que teria nascido com um irmão gêmeo, tão idêntico, ao ponto de, num acidente em que um deles morreu afogado, os pais nunca souberam qual dos dois tinha morrido: “se ele ou eu”.

É também um livro de sons, do “micromundo das vibrações sonoras” que arrepiam; um livro que brilha, “com os seus cem sóis”, que pára o tempo:

“por um segundo
fez todo o sentido do mundo
o nosso absurdo ir e vir”

E nos oferece o silêncio:

“uma pessoa do silêncio,
de sua equipe,
ou melhor,
o silêncio é meu
equipamento.
eu disse:
o silêncio
é meu equipamento”

É também um livro de amor,

“e o fim do amor
e com vontades contrárias e confusas
de deslocamento
e invisibilidade”

e de um poeta antropólogo:

“Parei um dia em uma dessas
praças e, deitado sobre a
grama, me pus a escutar a
desconexão absoluta de
todas as falas do mundo, de
todos os sonhos do mundo.”

Carlito escreve sobre as nossas “pequenas humilhações diárias”, aquelas que acordam conosco — nossos sinais, nossos vícios –, como na história do pobre homem que sussurra ter parado de tomar o café preto da garrafa térmica verde e, “neste mesmo instante se dá conta perfeitamente de que foi o café preto da garrafa térmica verde que o deixou”.

São poemas e prosas (não, não sei a diferença) em que as histórias parecem caminhar soltas, sem esforço, como os verbos de Rua dos Cataventos: ele estava, ele esteve, ele foi, ele poderia, ele será, ele colaborou, ele podia ter colaborado, ele vai colaborar, ele jogou, ele confirmou, ele fez, ele vai, “ele dançou conforme a música”.

E ainda nem chegamos na melhor parte, “Dois estrangeiros”. Todo o poema “A) Efeito Lupa” é uma delicadeza infinita; e me sinto má de escolher um pedaço para mostrar aqui, mas escolho, com o aviso de que o trecho não faz jus ao corpo inteiro:

“longe daqui
tenho amigos que me amam

e aos meus poemas
e pensam em mim todos os dias

Longe daqui
alguém leva desesperados numa chalana

alguém estuda as temperaturas
supercondutoras

alguém percebe que não
se tornou um gênio do piano

deve haver alguém que chora
quando sua amiga lhe lê

um poema de
seu poeta preferido”

Como todas as obras que amo, Monodrama também é daquelas que ri de si mesma. Tem drama e humor no mesmo parágrafo, com o poeta misturando a si próprio, o livro, a vida, fazendo graça até quando é “difícil encontrar alguma graça”; fazendo poemas para escapar dos “procedimentos”; buscando lembrar, ou não: “Não se lembra de nada? Que sorte a sua, isso é melhor ainda, pois então você pode inventar tudo.”, diz que lhe disse um amigo.

Numa segunda leitura descobri mais um trecho apavorante de tão bonito, do poeta-etnógrafo:

“Ela lhe disse que os poemas são a transparência através da qual ela gosta de ver o mundo e você disse que ela era a transparência através da qual você gosta de ver o mundo e todos os poemas que há dentro dele e ela chorou e disse que ia embora e que não podia mais lhe ver e que não prestava para você.”

Não sei se ele vai concordar comigo (que dificuldade escrever de autores vivos!), mas vi aqui e ali uma admiração dos horizontes e do céu aberto. Da praia, vem as ondas

“que te nutrem
do opaco e do transparente
de que o mundo
é capaz”.

E a menina que

“está fugindo de casa
com toda a sua força
e todas as montanhas”

E um pouco adiante os barcos na marina que

“também pareciam querer fugir de si mesmos”

Receio estreitar os sentidos do livro com tantos recortes, como se estreita o coração do poeta nas páginas de despedida à mãe. E dele pego palavras emprestadas para me despedir também:

“Sinto que se conseguir escrever agora o que se passa comigo estarei salvo, repito isso a mim mesmo algumas vezes, como repito mentalmente o refrão de que onde há obra não há loucura e onde há loucura não há obra e venho escrever.”

Sobre o livro: Monodrama, de Carlito Azevedo, editado pela 7Letras, em 2009, está em 2ª reimpressão. Encontrei o meu exemplar na livraria Travessa de Botafogo. Em 2015, o livro foi traduzido e editado por Aníbal Cristobo para a editora Kriller71, de Barcelona, com uma capa lindíssima da artista Leila Danziger.

Sobre o desenho: Rabiscos no caderno Laloran feitos durante a última aula de aquarela do ano passado, inpirados nas nuvens do Turner. Por algum motivo surgiu um homenzinho a la Tom Gauld diante da montanha. Sem coragem de desenhar algo especial para o Monodrama, achei que dava para misturar aqui. Quem sabe, o poeta diante da tarefa de escrever, escreva mesmo assim. Usei canetinha 0.1 mm e aquarelas Winsor & Newton. O caderninho é novo e as páginas estão enrugando… o scanner não deu conta, pra variar.