Karina Kuschnir

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Minhas memórias do NuAP – Núcleo de Antropologia da Política

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Pessoas queridas, essa semana participei de um evento em comemoração aos 20 anos do NuAP – Núcleo de Antropologia da Política. Compartilho com vocês as memórias que escrevi para apresentar lá que são, sobretudo, uma homenagem ao professor Moacir Palmeira.

Espero que gostem! Com o desejo de um final de semana tranquilo para todos nós.

Minhas memórias do NuAP  – Karina Kuschnir

“Começo agradecendo ao convite dos professores Moacir Palmeira e Marcos Otávio Bezerra para participar desse evento, assim como a John Comerford e a todos do NuAP, de ontem e hoje.

Queria dizer logo o mais importante: participar do NuAP foi um sonho para mim, uma alegria enorme, um privilégio. E não digo isso porque estou fazendo um balanço 20 anos depois. Não. Desde o momento em que fui convidada a participar, pensei no quanto eu estava tendo uma oportunidade especial e rara, tipo, eu era feliz e sabia!

Explico melhor. Foi uma chance inacreditável nos meios acadêmicos. E por quê? Porque eu era uma aluna de pós-graduação e não estava vinculada como orientanda a nenhum dos professores do NuAP. Minha participação se deu em nome da produção de conhecimento, pela afinidade temática das pesquisas.

Em 1992, quando o professor Moacir Palmeira publicou “Voto: racionalidade ou significado?”, o que acredito ser o primeiro dos seus artigos no campo da antropologia da política, num dossiê da Revista Brasileira de Ciências Sociais, eu estava fazendo trabalho de campo entre os parlamentares na Câmara Municipal do Rio de Janeiro.

Tanto esse artigo de 1992, quando o texto “Política, facção e compromisso”, também de Moacir, de 1991, apresentado no “Encontro de Ciências Sociais do Nordeste” estão na bibliografia da minha dissertação, defendida em 1993, no PPGAS/Museu Nacional/UFRJ.

Fiquei fascinada e influenciada por esses trabalhos pois, até então, a única tese de antropologia sobre políticos que eu conhecia era a da Cecília Costa, feita basicamente por meio de entrevistas em 1980.

Não por acaso, quando decidi pelo tema da política, num mestrado de antropologia, fui fazer cursos optativos em outras pós-graduações: na Ciência Política, do Iuperj, com o prof. José Murilo de Carvalho, e no programa de pós em História da PUC-Rio, com a professora Margarida Neves. Essas duas interlocuções – com a bibliografia e os amigos cientistas políticos e historiadores – foram bem importantes para mim.

No mestrado e no doutorado, fui orientanda do professor Gilberto Velho, de quem também fui assistente de pesquisa por vários anos. O Gilberto sempre teve um trabalho muito intenso de reunir seus alunos, estimulando nossas trocas e colaborações, mas não havia no grupo ninguém trabalhando com política além de mim.

Portanto, desde 1993, comecei a participar e trocar com colegas que viriam a formar o NuAP alguns anos depois (1997). Essas eram as interações mais importantes e significativas para mim, ansiosa por me sentir “antropóloga de verdade”.

Isso foi tão forte, que a memória prega peças. Eu achava que minha primeira comunicação num congresso acadêmico tinha sido na Reunião da ABA de Niterói, em março de 1994, porque nessa ocasião eu e várias pessoas do grupo que formou o NuAP estávamos num GT assistido e comentado pela Mariza Peirano. Fiquei tão nervosa e, ao mesmo tempo, feliz, que esse evento ficou um marco. Revendo um currículo antigo, porém, de antes do Lattes, percebi que não, essa não foi a minha primeira comunicação científica. Eu já tinha apresentado trabalhos na Anpuh e no Iuperj!

Nesse mesmo ano, de 1994, entre agosto e setembro, ocorreu o primeiro evento de antropologia e eleições, que muitos aqui certamente participaram. Mais uma vez, tive o privilégio de falar, ainda iniciante, num ambiente de pesquisadores que eu admirava, com interesses tão próximos aos meus. Nessa mesma época, também tive a sorte de entrar para o doutorado no PPGAS, em agosto, na mesma turma que Marcos Otávio Bezerra, cujo trabalho tanto admiro.

Logo no semestre seguinte, em 1995, vivi um dos grandes momentos da minha vida acadêmica: fiz o meu primeiro curso com o professor Moacir Palmeira, intitulado: “Poder, dominação e política nos estudos de comunidade”. Posso dizer sem sombra de dúvida que foi uma experiência fantástica, que só aumentou a admiração pelo autor, professor, pesquisador. Realmente não tenho palavras suficientes para elogiar suas aulas e o tanto que aprendi nesse semestre, com ele e com os colegas, como o Marcos, Gabriela (Scotto), Renata (Menezes), entre outros. E pela primeira vez tive um professor que anotava o que eu falava!

Ali também se configurava para mim uma lição do melhor da antropologia: a leitura de autores de diferentes correntes teóricas (tanto da sociologia quanto da antropologia) e nacionalidades, pesquisando em várias partes do mundo, selecionados pelo professor em prol do livre debate de ideias, sem visões salvacionistas, sem ceder aos modismos.

Em 1996, vieram os primeiros eventos do futuro NuAP – que se forma oficialmente em 1997 – e a oportunidade de irmos a Fortaleza e trocarmos de modo mais próximo e intensivo.

Intensidade acho que é a palavra ótima para definir esses primeiros anos do NuAP. Nós trabalhávamos tanto que fui a Fortaleza e voltei duas vezes sem sequer pisar na areia da praia! E, pensando bem, assim eram as aulas do Moacir também: começavam um pouquinho atrasadas mas não tinham hora para terminar.

Eu vivia entre dois mundos, como vocês já podem estar imaginando. Precisava acordar às 6 da manhã, para estar às 7:30 no Museu no horário do Gilberto. Mas fazendo pausas para muitos pães de queijo, que o Gilberto não ficava sem comer de jeito nenhum.

Na parte da tarde, nas aulas do Moacir, ai de quem pensasse em comer ou parar de discutir teoria antes das 7 da noite! Haja amor pela antropologia!

Nos eventos de pesquisa, havia um contraste parecido. Gilberto era sincrético, eclético, social, extremamente produtivo e obsessivo, mas sempre querendo chegar na parte dos salgadinhos e do vinho!

Moacir me parecia o oposto: metódico, focado, intenso, seríssimo. Ao ponto que um dos eventos do NuAP foi marcado num convento em Santa Teresa – nada de distrações, nem álcool!

Pelo menos essa era a visão de uma jovem pesquisadora, não-orientanda dele, que o via como um dos grandes sábios, junto, é claro, com Mariza Peirano, Beatriz Heredia, a Irlys e o Cesar Barreira, o Odaci Coradini e todos os demais colegas com quem tive o privilégio de conviver, principalmente nos primeiros dez anos do Núcleo.

A Mariza, de quem depois daquela ABA conheci a delicadeza, foi autora muitos artigos e livros (como A favor da etnografia e Teoria vivida) que me marcaram, e organizadora de “O dito e o feito”, assim como orientadora de vários trabalhos importantíssimos do acervo do NuAP.

Em 2006, quando entrei para o IFCS, tive a sorte de passar a conviver e oferecer cursos em colaboração com a professora Beatriz Heredia, autora e co-autora com Moacir dos trabalhos seminais da área de Antropologia da Política que vieram a ser reunidos no volume Política Ambígua, certamente um marco na história da antropologia brasileira.

Aliás, tenho falado de aulas, eventos e convívio, mas talvez não tenha enfatizado o principal. Para mim, tudo começou com a leitura de dois artigos do Moacir… e foi se tornando uma grande bibliografia de textos, dissertações, teses, capítulos e livros que geraram um conhecimento enorme sobre a sociedade brasileira, em toda a sua complexidade.

Do candidato que abre a panela de feijão, passando pelo eleitor que faz suas apostas e se diverte no tempo da política, ao debate com a literatura nacional e internacional, sempre privilegiando o etnográfico e o comparativo como eixos centrais. Tudo isso está analisado, discutido e registrado nas páginas do selo NuAP, formando um capítulo importante da teoria antropológica brasileira.

É, sem dúvida, um grande legado, e agora acessível online. Nossas conversas continuaram acontecendo no papel, nas citações mútuas, nos enormes aprendizados que tivemos uns com os outros e que passamos para os nossos alunos e orientandos. Nesse último semestre, uma turma de alunos de graduação do IFCS ficou encantada ao descobrir e escrever trabalhos baseados nas publicações do NuAP. É tão bom ver tudo isso vivo e circulando entre as novas gerações.

Só tenho a agradecer por ter feito parte dessa história. Muito obrigada.”

Comunicação apresentada na mesa: Antigas colaborações, novos debates. Vinte anos do NuAP – Núcleo de Antropologia da Política. Rio de Janeiro, Museu Nacional, Auditório do Horto Botânico, em 7/07/2017.

Sobre os desenhos: Páginas do caderninho que levei para anotar durante o evento. Utilizei uma canetinha Bic comum, colorindo com algumas canetas pincel Tombow das cores azul escuro e cinza, além de uma Koi Sakura brush azul clara. O caderno é um Cícero pautado, A5, folha bem comum, 75gr., daí as canetas vazarem de uma página para a outra.

Você acabou de ler “Minhas memórias do NuAP“, escrito e ilustrado por Karina Kuschnir e publicado em karinakuschnir.wordpress.com. Se quiser receber automaticamente novos posts, vá para a página inicial do blog e insira seu e-mail na caixa lateral à direita. Se estiver no celular, a caixa de inscrição está no rodapé. Obrigada! 🙂

Como citar: Kuschnir, Karina. 2017. “Minhas memórias do NuAP”, Publicado em karinakuschnir.wordpress.com, url: http://wp.me/s42zgF-nuap. Acesso em [dd/mm/aaaa].


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Faz logo o meu autógrafo!

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Alice, ontem à noite: — Mãe,  me dá o livro. Vou ler. Não posso chegar no lançamento sem ter lido né? ?

Eu: — Ok, filha, claro, tá aqui.

Alice, na página 42: — Mãe, adorei o Gatovsky. Ele é bem legal. Estão querendo comprar ele. Mas porque o Juva usa aspas ao invés de travessão?

Eu: — Os dois são certos… Ele preferiu aspas por causa das rimas.

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Alice, aos prantos, invade meu quarto: — Mãe!!! A Babi morreu… a Babi morreu…

Eu, tentando consolá-la: — Eu sei, filha… Mas, pensa bem, agora a Babizinha que você tanto ama está para sempre no livro…

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Alice, ao terminar: — Mãe, adorei!

Eu: — Que bom, querida!! De qual parte você mais gostou?

Alice: — De quando o Ulisses conheceu a Penélope!

Eu: — Esse também é meu capítulo preferido, filha!

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Alice: — Gostei do livro, é bem legal. E é melhor do que “Os bichos que eu tive”, da Sylvia Orthof. [Implicando, porque ela sabe que eu amo esse livro.]

Eu: — Ai, filha, não fala isso! Eu adoro o livro do Ulisses, mas a Sylvia é imbatível!

Alice: — Mãe, pára de ser velha. Os desenhos dos bichos desse livro [da Sylvia] são horríveis. E faz logo o meu autógrafo!

[E mais não falei; porque os desenhos do Gê Orthof são maravilhosos… É só a minha filha sendo filha… heart]

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Sobre os desenhos: Fiz a imagem que abre o post a partir de uma foto da Alice que tirei ontem mesmo. Desenhei com canetinha 0.05 e fiz umas aguadas de aquarela sobre papel A4 comum. O gatinho é o Charlie, que toda a noite faz companhia para a Alice ler. Depois de pronto, fui no Photoshop e encaixei no desenho uma imagem escaneada da capa do livro! Todas as outras imagens são ilustrações do livro novo. Abaixo, mostro pra vocês algumas ideias que tive antes de resolver qual seria o tipo de ilustração final — e isso levou mais de um ano!

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Sobre o livro: O lançamento é quinta-feira, 11/junho, na livraria Argumento, a partir das 19h. Para quem não puder ir ou estiver fora do Rio, todas as informações estão no site da editora Vieira & Lent. Na semana passada, esqueci de publicar pelo menos um pequeno trecho da quarta capa:

“Ulisses viajou o mundo inteiro, um mundo de aventura, um mundo de cheiro. Foi bailarino, músico e marinheiro; foi artista de rua e gato em cativeiro. Também se apaixonou, e o nome dela é bonito. A fera se chama Penélope — como no mito.

Viaje com este gato, ao longo de sua estrada. Vamos repensar a vida, esta grande, grande charada.”

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Dez lições da vida acadêmica

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Sou meio pé-frio para eventos acadêmicos. Outro dia aceitei participar de um que estava o maior sucesso. Plateia cheia, palestrantes chiques de várias partes do mundo, todo mundo se sentindo. Mas chegou a minha vez de falar: penúltima sessão, bem no dia-em-que-ninguém-aguentava-mais; as pessoas importantes pediram desculpas pois-tinham-outros-compromissos, as coordenadoras cataram estagiários para sentar nas cadeiras vazias…

Mas sou uma professora com brios e sigo em frente! A palestra deveria ser sobre como realizar uma boa pesquisa em Ciências Sociais. Transformei numa uma espécie de guia de auto-ajuda para jovens pesquisadores. Estas são mais ou menos as palavras que falei (e os desenhos que mostrei):

“É muito bom estar numa sala com pessoas iguais a mim: todos ganhando pouco, trabalhando muito e sem a menor certeza de ‘pra que serve’ essa profissão…

Vou falar um pouco da época em que estava fazendo mestrado e doutorado, já que essa é uma oficina de alunos de pós-graduação. Mas já vou avisando que não sou a pessoa mais indicada para falar sobre como fazer uma boa pesquisa… Quando entrei no mestrado, meu único objetivo era ganhar uma bolsa! Quer dizer, no fundo, eu queria deixar de ser estagiária de jornalismo… Na minha época, o estagiário de jornalismo passava o dia todo ouvindo o rádio da polícia (o que era proibido) e ligando para os bombeiros para saber se havia alguma tragédia na cidade. Não era a tarefa mais criativa do mundo.

Apesar disso, na minha curta carreira, aprendi a diferença básica entre jornalismo e antropologia: numa redação, escrevemos praticamente o mesmo texto curto todos os dias, com nomes de pessoas diferentes. Nas ciências sociais, tomamos um mesmo grupo de pessoas como tema e escrevemos todos os dias um texto sobre elas que não acaba nunca!

Quando fui estudar para o mestrado, meu maior desafio foi não dormir lendo Marx. Li aquele capítulo do Capital sobre o fetichismo da mercadoria e pensei: ferrou! Não entendi nada. Por sorte, a Maria Claudia Coelho era minha professora na PUC e se dispôs a traduzir aquilo pra mim. E não é que o texto caiu na prova? Uma professora durona estava na banca e me perguntou: porque você escolheu Marx para responder essa questão? Respondi a verdade: não tinha entendido nada quando li pela primeira vez, e depois achei genial —  era uma questão de honra enfrentá-lo na prova! (Só não falei que o mérito era todo da Maria Claudia, pois não ia pegar bem…)

Journal_Page_02Primeira lição aprendida: quase sempre vale a pena entender um texto clássico. É por isso que se tornou um clássico. (Mas nem sempre.)

Aprendi muito com as minhas gafes no primeiro semestre no Museu Nacional. Imaginem vocês que coloquei no meu currículo que sabia tocar violão! (Não, não tinha Lattes naquela época.) E num encontro de encerramento do primeiro período, ouvi um pessoal falando sobre uma tal de “ABA” e não tive dúvida: ‘professor, o que é ABA**?’  Meus colegas de turma vinham da UFF, do IFCS e da graduação em antropologia na Argentina! Todo mundo discutia a hermenêutica maussiana e a cismogênese… (**Associação Brasileira de Antropologia)

Enquanto isso, à tarde e à noite, eu ia para a redação da antiga rádio Jornal do Brasil trabalhar em matérias sobre a Guerra do Golfo, a construção da Linha Vermelha e os efeitos da Queda do Muro de Berlim. A agilidade desse tipo de trabalho me dava alguns trunfos, não posso negar.

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Um dia, tive que apresentar um seminário sobre o Homo Hierarquicus do Louis Dumont para a aula do professor Gilberto Velho. Ele era exigentíssimo mas, ao invés dos 20 minutos que me cabiam, gastei uns 27 ou 30… Terminei o mais rápido que pude, já me explicando: ‘desculpe, professor, demorei um pouco mais do que deveria porque esqueci todas as minhas anotações em casa’. A turma fez um grande ohhhh e de repente virei uma heroína!

Segunda lição aprendida: faça o seu trabalho, entregue o que você se comprometeu a entregar no prazo, mesmo que o resultado não seja perfeito. (Sempre se pode mandar anexos e notas depois!)

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Isso vale também para a escolha dos temas de pesquisa. No jornalismo diário, somos obrigados a enfrentar qualquer pauta, sem tempo para questionamentos filosóficos. Já nas Ciências Sociais… deixa pra lá.

Na época em que tive que escolher um orientador,  expliquei para o Gilberto Velho que não poderia ser orientanda dele de jeito nenhum. Falei que não sabia nada de antropologia, nem o básico do básico. Mas ele me respondeu, o que se tornou a Terceira lição aprendida: “você sabe escrever, e isso é 50% do trabalho do antropólogo”

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Minha sorte foi que logo no curso seguinte que fiz com ele, aprendi o segredo dos outros 50%: Para fazer antropologia bastava ficar o dia todo parada numa esquina, me enturmar com jovens desocupados e escrever um diário sobre isso! Quarta lição, com ajuda de William Foote-Whyte.

Nessa altura, eu sofria muito para fazer os trabalhos de mestrado. Muito! Eu não via sentido naquilo. Tudo me parecia tão inútil… Meu primeiro trabalho foi: “O conceito de nação na obra João Ubaldo Ribeiro em diálogo com Gilberto Freyre e outros autores”. No primeiro rascunho, fiz assim: revi toda a teoria que tinha lido nos primeiros quatro meses do curso e escrevi uma lista de 54 tópicos para abordar no trabalho. 54! A sorte foi que nessa altura eu já tinha tomado outra providência importantíssima para a carreira acadêmica: arranjei amigos mais experientes do que eu! No final, dos 54 tópicos sobraram 3!

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Quinta lição aprendida: na hora de fazer um trabalho, comece pensando pequeno. Quase sempre é melhor dizer muito sobre poucos temas do que o contrário. Felizmente, naquela época, a pressão para escolher um tema para a dissertação era menor do que hoje. Só me decidi a trabalhar com políticos no final do primeiro ano do mestrado. Me pautei pelo que achava que seria uma ‘pesquisa útil’. Acho que estava totalmente errada.

Hoje penso que todas as pesquisas são úteis, (ou quase todas), pois independentemente do tema, no fundo, a grande utilidade de uma pesquisa inicial é formar um pesquisador. (Sexta lição!)

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Gilberto Velho acabou por decidir ser meu orientador, sim. Ele nunca deu muita bola para fórmulas metodológicas. Era como aqueles figurões de Oxford para quem o Evans-Pritchard foi perguntar o que devia fazer quando chegasse nos Azande: “seja um cavalheiro” e “não haja como um perfeito idiota”, foram os melhores conselhos. Ele próprio sempre misturou muitas técnicas nos seus trabalhos, e nosso grupo de orientandos era um exemplo dessa diversidade.

Lição número sete: Tínhamos liberdade para experimentar e nos reuníamos semanalmente num espaço de troca, respeitoso e amigável. E esse é um segredo que não sei se consigo bem explicar: simplesmente não havia nos grupos de orientandos do Gilberto a famosa “feroz competição acadêmica”. Ao contrário, talvez a enorme exigência dele favorecesse em nós o espírito solidário! Nossas experiências envolviam observação participante, sim, mas também entrevistas longas ou curtas, fontes impressas, fontes históricas, imagens, filmes, diagramas, mapas, indicadores sociais, estatísticas eleitorais, fontes comparativas, teoria literária, sociológica, formalismo russo, folclore, urbanismo… O computador pessoal era uma novidade… mas cheguei a utilizar softwares de análise de conteúdo e por pouco não aprendi um sobre estudo de redes…

Que bom que não consegui. No doutorado, escrevi eu mesma uma pequena programação de software para lidar com meus dados de campo e de entrevistas. Mas tanto tempo no computador acabou me gerando uma tendinite tão grave que 90% da redação das 450 páginas da tese foi feita à mão.

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Lição número 8: computador demais sempre atrapalha. Seja no sentido mais direto, do sofrimento que gera no corpo do pesquisador; seja no sentido mais indireto, que é o excesso de dados que acaba por promover. Só para dar um exemplo, em 1991, ainda quando a internet se chamava bitnet e estava engatinhando nas universidades americanas, descobri um tesouro! Uma base de dados chamada Sociofile. Era uma espécie de Google para procurar resumo de artigos acadêmicos. Perdi semanas naquilo, separei uma lista fantástica de centenas de artigos, classifiquei por temas e… me perguntem quantos textos eu realmente li daquela lista? Uns dois ou três. Não deu tempo.

Journal_Page_10Lição número 9: referências bibliográficas demais atrapalham. No meio dessas experimentações todas, acho que tive sorte de passar por temas, lugares e pessoas muito diversos. Fiz pesquisas com elites, em casas legislativas, em favelas, em subúrbios e na Zona Sul, em locais de alta criminalidade, ou com movimentos sociais, em locais com alta escolaridade e renda.

Os políticos na minha opinião são o segundo pior grupo para se estudar. Eu achava que eram os piores: tem até um ditado russo: ‘você sabe quando um político está mentindo? Quando ele abre a boca.’ Eles nunca estão disponíveis, nunca querem te receber; quando te recebem estão ao telefone, quando marcam, esquecem, e quando lembram, não dá mais tempo. Eu morria de inveja de uma amiga que estudava velhinhos… Eu pensava ‘que maravilha seria ter aqueles informantes’, tão dedicados e solícitos, dispostos, simpáticos e com tempo! Até que minha amiga, sabendo dessas fantasias, foi logo me desiludindo: ‘tá maluca? Velhinho é o pior tema do mundo: primeiro, porque eles não param nunca de falar. Segundo, porque eles morrem no meio da sua pesquisa!’

Ok, agora falando sério. A coisa mais importante que aprendi com todos esses temas e experiências foi:

Journal_Page_11Lição número 10: uma boa pesquisa exige paciência, curiosidade e focoQuer dizer, paciência é só uma palavra bonitinha para não dizer: ‘enfrente o tédio’! Então, reformulando: uma boa pesquisa exige o tédio, aquele tempo em que você acha que não está fazendo nada, em que você se permite “se deixar ficar” junto ao universo de pessoas (ou textos) que escolheu para pesquisar. (Eu não disse que era só ficar parada numa esquina?)

Eu tenho um amigo que seguia essa regra, mas à sua maneira: passou mais da metade do seu mestrado sentado na mesa de um bar perto da universidade! Era um tédio bem divertido, digamos. E depois ele acabou fazendo uma dissertação incrível sobre como a pesquisa não deu certo! Hoje ele é um excelente professor doutor numa universidade ótima.

Talvez uma pesquisa seja um longo e paciente processo de aprender a olhar/enxergar, ouvir/escutar, interagir/dialogar com o campo (ou mundo) suscitado pelo tema que você escolheu. É estranho que eu tenha partido do que aprendi com Gilberto Velho para chegar a essa conclusão. Ele era a pessoa mais impaciente e ansiosa que já conheci na vida! Ai de quem não estivesse na aula dez minutos antes de começar. E todas as lendas de que ele chegava ao Museu Nacional às 7:15h da manhã, atendendo telefonemas com voz de “múmia” são verdadeiras. Era uma tortura para ele esperar até as 7:59 – já tarde nos seus parâmetros – para ligar e fiscalizar se já estávamos de pé e operantes!

Mas posso dizer que ele tinha um outro tipo de paciência, que se materializava através de duas práticas constantes: a curiosidade infinita pelo mundo, o que o levava a respeitar todas as fontes de conhecimento; e a capacidade de focar nesse processo de conhecimento como se não houvesse nada mais importante no mundo a fazer. Era uma curiosidade que o levava a ser capaz de ir ao baile funk, ao terreiro de umbanda, ler 300 páginas de um copião de tese num dia só, orientar pesquisas sobre astrologia, atores de cinema pornográfico e representações teatrais sobre a cidade no século XIX.

No meu caso, aprendi a praticar essas três coisas (paciência, curiosidade e foco) muito mais depois que me tornei mãe e me envolvi num trabalho voluntário para apoio a mulheres que desejam amamentar. Durante pelo menos dez anos coordenei grupos onde a principal tarefa era ouvir e dizer ‘hã hã’, ‘sim, entendo…’, ‘como foi isso, me conte…’, e devolver perguntas complicadas com outras simples ‘como você responderia essa pergunta…?’

Tive a sorte de estar num grupo que definia tudo isso como ‘dar apoio’ e ‘suporte’ . E qual não foi a minha alegria quando um dia descobri que era exatamente essa a técnica de entrevistas que o Howard Becker defendeu em seu livro sobre metodologia… Diga o mínimo e ouça o máximo…

Depois desse tempo de pesquisa, escuta e convívio, há que se percorrer ainda um longo caminho. Só que essa é a parte divertida! Fica para a próxima palestra. Obrigada. E agora vamos às perguntas de vocês!” (E foi difícil arrancar umas perguntas, porque os poucos que sobraram estavam com fome, claro.)

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Sobre os desenhos: Todos foram feitos na App Paper (53) no Ipad com canetinha Bamboo.

Agradecimentos: Agradeço à Julia O’Donnell e à Mariana Cavalcanti pelo convite para a palestra; e à Bianca Freire-Medeiros pelos êêêê entusiasmados. Aproveito para desejar que elas tenham mais sucesso na escolha dos convidados para a próxima vez!

Você acabou de ler “Dez lições da vida acadêmica“, escrito e ilustrado por Karina Kuschnir e publicado em karinakuschnir.wordpress.com. Se quiser receber automaticamente novos posts, vá para a página inicial do blog e insira seu e-mail na caixa lateral à direita. Se estiver no celular, a caixa de inscrição está no rodapé. Obrigada! 🙂

Como citar: Kuschnir, Karina. 2014. “Dez lições da vida acadêmica”, Publicado em karinakuschnir.wordpress.com, url “http://wp.me/p42zgF-68“. Acesso em [dd/mm/aaaa].


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Saudades das Saudades de Oxford 3

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** Agruras da Vida Acadêmica **

Você ganha uma bolsa para vir para Oxford e se sente a pessoa mais importante do mundo. Memorize bem esse sentimento, pois quando o diretor do seu centro de pesquisas pedir que você organize um “pequeno workshop internacional”, com apenas 2 meses de antecedência, toda a auto-estima acumulada será necessária!

** O Francês Importante **

Os ingleses acham que é muito fácil organizar um evento, afinal “everybody likes to come to Oxford”! Tente convencer um figurão francês disso… Levei um tremendo bolo na véspera do evento! Um furo à francesa: nem um singelo “je suis desolée…”

** O Inglês Incompreensível **

Você precisa de mais um comentador. Seus colegas sugerem: “chame um inglês de verdade”. Ok, o cara tem vários livros, é reconhecido no meio, parece simpático nos e-mails e aceita! Finalmente, um único participante sobre o qual não precisamos nos preocupar se fala ou não bem inglês.

No dia do Workshop, porém… Ninguém entendeu uma palavra do que o cara disse!! Só rindo pra não chorar. As pessoas se entreolhavam, suspiravam, franziam a testa. Nada. De vez em quando uma palavra ao longe fazia algum sentido. Só não combinava com a palavra seguinte… O problema era uma mistura de tom de voz (variando do inaudível ao operístico), caretas, suspiros, falta de objetividade e uma “malice” congênita!

Além dos comentários no Workshop, ainda tive a “sorte” de sentar do lado dele no restaurante à noite. O cara cheirava a cigarro e falava sem parar sobre a namorada espanhola na Bahia, os pais republicanos, o filho comunista… Bem, só captei esses três assuntos no início — depois não me dei mais ao trabalho… E ele falou a noite toda assim mesmo.

O mais engraçado foi ver o suspiro de alívio dos brasileiros quando eu disse que também não tinha entendido nada do que ele falou. Ainda hoje encontrei uma professora da USP que assistiu o seminário e estava se sentindo péssima, achando que precisava voltar para o curso de inglês!

** Um Senador Italiano **

Tentem visualizar o tipo: terno italiano, cabelo italiano, sapato italiano, cortesia italiana. Um pacote de vaidade. Quando a secretária foi tirar uma foto, ele simplesmente parou de falar para afastar os copos e fazer uma pose! Depois, ainda disse que não havia mais clientelismo na Itália. Imagina se ia admitir essas vulgaridades latino-americanas…

** Um Espanhol e sua Agenda **

Outro convidado sugerido pelo povo daqui. Um espanhol com fama de “excelente”, “fantástico”, “maravilhoso”. Aí o cara se prepara para falar e abre a agenda!!! A agenda!! Sabe aquela coisa com espiral no meio e umas folhinhas miúdas para anotar o dia do dentista? Pois é.

E de lá saíram constituições espanholas do século 18, a legislação eleitoral da Cataluna, a troca de partidos conservadores em 1879… A essa altura, ninguém mais estava prestando atenção.

Bem que desconfiei que a coisa não ia dar certo. A única preocupação dele era saber se poderíamos hospedá-lo no hotel mais caro da cidade. Não, não podíamos. A cada vírgula, repetia que tinha feito doutorado em Oxford. Mas, pelo visto não aprendeu nem o básico, pois saiu para todos os lados com um enorme guarda-chuva e ainda pediu coca-cola na hora do evento!

** A Redenção Latino-americana **

Éramos três brasileiras e um colombiano, seríssimos, falando sobre temas pertinentes, com idéias, começo, meio e fim. Ufa. Fomos os melhores do dia! Mas a concorrência…

** A Plateia **

Muita gente fica nervosa ao ser convidada para Oxford achando que vai falar para grandes plateias. Muito ao contrário. Os eventos tem pouquíssimo público. Quer dizer, meu seminário foi um sucesso: 15 pessoas de fora, sem contar os da casa, amigos e participantes. Com a queda de qualidade da segunda sessão, perdemos metade da plateia. Pra quem gosta de vinho, foi ótimo: sobrou muita bebida no coquetel de encerramento! E mantivemos a tradição: um italiano roncou enquanto uma das brasileiras falava.

Concluindo, o evento foi quase-péssimo, mas felizmente lembrei que teria um ótimo material para esse diário. Afinal, tudo que dá errado é mais engraçado.

** Humor Britânico **

“If you actually look like your passport photo, you aren’t well enough to travel.” (sir V. Fuchs)

** Oxford com Crianças **

As crianças são bem-vindas: a comida é grátis e chega rápido! Mas tem um pequeno detalhe: é tão ruim quanto a dos adultos…

Os museus têm atividades para toda a família e há sempre uma área com avisos de “é permitido mexer, tirar fotos e brincar!”  Fofo.

** Detalhes do Cotidiano **

Todos são a favor de comida em cima do computador, migalhas no teclado, molho nos papéis! Toda mesa de trabalho tem um “cup of tea”, um prato com restos de biscoito, um garfo caído pelo meio, uma garrafa de água com gás quente apoiada em cima do arquivo… Ninguém reclama, ninguém acha estranho. Gostei! Dá um ar de casa bagunçada.

Todas as bicicletas têm uma sacola de plástico enfiada embaixo do assento. No início, não entendi. Mas agora também tenho uma: é para proteger o banco em caso (muito provável) de chuva. Eles não se incomodam com a cabeça, mas andar com a bunda molhada também já é demais!

** Sinais de que está na hora de voltar pra casa **

Já sei de cor o valor de todas moedas.

Minhas mãos estão ficando vermelhas, como as das mulheres inglesas!

Estou começando a gostar de chá com um pouquinho de leite…

Sobre o desenho: Fiz o desenho nos últimos minutos desta quarta-feira a partir de uma foto que tirei do meu café da manhã em Oxford (o pão estava na torradeira, não tive paciência de desenhar tudo, perdoem). A xícara ficou bem fora de proporção e ainda por cima descobri que a canetinha Kuretake nova não é à prova d’água! Mas tudo bem: foi bom lembrar que a louça do meu apartamento era horrível (azul e amarelo-sujo!) e também da minha maluquice de levar um paninho de prato brasileiro, feito com ponto-de-cruz pela querida Maria-de-Itaipava — foi a peça que fez eu me sentir em casa quando estava lá. Resolvi deixar o desenho na folha do caderno inteira porque ficou parecendo um tapete voador… Não custa nada sonhar com um pouco de mágica nos tempos atuais!