Karina Kuschnir

desenhos, textos, coisas


10 Comentários

Ulisses (2009-2017), despedida

Ulisses Contracapa Montagem

“Esta é a história dum gato com sete vidas — cada vida com sua graça, sua dor e suas medidas. Em todas as histórias o gato lutou, e quase nunca desanimou. Apaixonado e perdido o bichinho cresceu: apaixonadamente perdido pelas vidas que a vida lhe deu.”

07 Ulisses062

“Mas nosso Ulisses gostava era de gente; gostava de festinhas, atenção e presente. Decidiu, então, que sairia do solo; pularia, sem vergonha, direto prum colo. Mas o colo deveria ser quente, ou, se preferisse (e foi o que a si mesmo disse), o primeiro colo que surgisse à sua frente.”

02 Ulisses033

“‘Atira-te ao mundo, até o fundo; atira-te à vida, não tens saída.’ Era este o conselho materno, lá de longe e sempre eterno. Dando suas voltas em torno do umbigo, sentia-se da gata [Penélope] muito mais que um amigo. E os felinos pegaram a estrada; caíram na vida, esta grande charada.”

08 Ulisses011

“Quanto ao nosso gato, o que dizer de fato? Sua sétima vida começa agora, e lá está ele olhando para a aurora. entrou na canoa conversando com o mar, e é hora de nos afastarmos devagar. É hora de dizer que tudo valeu a pena, sim — uma forma de dizer que chegamos ao fim.”

Ulisses005

Ulisses morreu hoje de manhã (10/04/2017) e nos deixou de corações despedaçados… Isso de partir subitamente combina bem com o jeito dele: adoecer era uma humilhação para seu orgulho de gato. Sua vida era miar alto, exigir petiscos, colos e carinhos, fugir porta afora, pular nos teclados, rosnar para os pombos, lamber a banheira e depois desmaiar de tanto dormir. Ele ficou doentinho na segunda-feira passada, foi piorando, piorando, e nem a melhor veterinária, e nem a melhor clínica de gatos conseguiram salvá-lo.

Está difícil de escrever…  por isso recupero aqui os posts com a tag Ulisses para lembrar dos nossos momentos felizes:

7/08/2014 – Ulisses em fuga

30/04/2015 – Gato sarado, dona arranhada, calendário de maio

04/06/2015 – O gato que virou livro

10/06/2015 – Faz logo o meu autógrafo!

17/06/2015 – Artista, bicho, jardim

09/09/2015 – Empurrão de flor

09/12/2016 – Três anos e sete coisas impossíveis

10/04/2017 – Ulisses (2009-2017), despedida

Sobre os trechos e desenhos: As passagens e as imagens foram retiradas do livro “Do gato Ulisses, as sete histórias”, escrito por Juva Batella (quem primeiro adotou Ulisses em Portugal, 2009), e ilustrado por mim, Karina Kuschnir (que adotei o Ulisses em 2011, dando a ele dois irmãos humanos e dois felinos); edição Vieira & Lent, 2015.

05 Ulisses007

Anúncios


8 Comentários

Felicidades possíveis

janelaakcp

“You can’t do sketches enough. Sketch everything and keep your curiosity fresh.”*
John Singer Sargent (1856 – 1925) [traduzindo:”Desenhar nunca é demais  Desenhe tudo e mantenha a sua curiosidade sempre acesa.”]

O apartamento onde moro com as crianças é fofo e antigo, mas tem uma disposição esquisita. A melhor (e maior) janela da casa não é a da sala e sim a do quarto do Antônio. Num sábado de fevereiro, achamos uma caixa perdida de lápis de cera e começamos a desenhar juntos. Saiu essa imagem, que postei no Instagram e se tornou a mais curtida do meu perfil. Conclusão: por mais que eu me esforce, o Antônio é o verdadeiro artista plástico da casa! Desenhar com ele é um aprendizado enorme, pelas cores, pela forma de olhar, pela disposição livre das proporções, por ter as possibilidades sempre fluidas. É como se ele me abrisse novas janelas diante desta.

O que me motiva na vida é seguir descobrindo visões novas, aprendendo. Por isso amo tanto ser mãe e estudar: são duas áreas que exigem altas doses de paciência, curiosidade, flexibilidade e adaptação… A recompensa material é pequena, mas a interior é infinita. ♥

Sim, este post é singelo, como definiria um amigo querido. Quis apenas falar da alegria de fazer um desenho com meu filho. Escrever sobre isso é uma forma de reafirmar e ampliar esse tipo de felicidade — possível, cotidiana, gratuita, tranquila.

Outro dia, minha mãe se espantou ao ler no meu caderninho: “dia calmo e pacífico”:
— Quem hoje em dia tem um dia “calmo e pacífico”, filha?

Achei graça, ela tinha razão, mas expliquei que isso era uma forma de valorizar as partes calmas e pacíficas da vida. Não, minha rotina não é um mar de rosas. Nos primeiros dois meses do ano, tivemos aqui em casa: um problema sério no olho (rotura de retina por stress), um assalto de celular, um arrombamento, um diagnóstico de pedra na vesícula, um tombo feio no meio da rua, várias dores de cabeça, infiltrações nos dentes e listas de coisas-a-fazer e deveres-de-casa maiores que uma montanha. Ao longo disso tudo, porém, tivemos muitos momentos felizes, de risadas, abraços, música, arte e criação compartilhada. É nestes que estou tentando focar para começar o ano letivo com otimismo e motivação.

Espero inspirar vocês a seguir nesse caminho. Pra me ajudar, retomei a rotina de andar e pegar um pouquinho de sol odos os dias. Taí uma receitinha grátis de felicidade possível.

7 Felicidades possíveis legais-bonitas-interessantes-divertidas-ou-dignas-de-nota das últimas semanas:

* A única rede social que tenho frequentado é o Instagram, onde não publico muito mas vejo artistas e ilustradores que admiro. Três mulheres que sempre me trazem alegrias: Lisa Congdon (que também tem um blog com textos ótimos), Holly Exley (que também faz vlogs no Youtube) e Gemma Corell. Preciso colocá-las na lista de inspirações do blog.

* Desde o Natal venho lendo os romances da Jane Austen. Para contextualizar, li um pequeno livrinho sobre a vida dela que é uma graça, indicado pelo blog 1pedranocaminho.wordpress.com, outra leitura frequente.

* Apesar das confusões de saúde, consegui começar março me matriculando numa academia perto de casa. Graças à dica de uma amiga, fui parar numa aula de alongamento maravilhosa. Virou a recompensa ideal depois de suar na seção bicicleta-esteira-transport. Mesmo sem academia, quem quiser se animar pode fazer aulas gratuitas no Youtube. (Aqui uma busca de aulas com músicas legais, em inglês, porque os resultados em português foram um tédio.)

* Duas leituras que me tocaram especialmente nas últimas semanas: as colunas “Duas mulheres, dois tempos” da Dorrit Harazim e a “Restos de Carnaval“, da Ana Paula Lisboa. (Me avisem se não conseguirem abrir, pois o site do Globo é sempre imprevisível.)

* Uma alegria adorável que esqueci de registrar: este blog entrou na lista da Central do Textão, um portal de blogs em português onde sempre descubro ou reencontro maravilhas para ler, como as do pioneiro Duas Fridas.

* Pacotes de livros vindos pelo correio com selos! Amo essa figurinha rara hoje em dia, como já escrevi aqui, que acabou chegando na minha casa em duas entregas recentes: uma da Estante Virtual  e outra da Associação Brasileira de Antropologia (ABA). A ABA também publicou online o livro inteiro: Trajetórias antropológicas: encontros com Gilberto Velho, organizado por Cristina Patriota de Moura e Lisabete Coradini, disponível aqui.

* Desculpem-me por soterrar vocês de links. Na verdade, uma das melhores felicidades possíveis é não clicar em nenhum deles! 😉

*Sobre a citação inicial: A frase está numa compilação feita pelo blog Making a mark, que sigo no meu Feedly.

Sobre o desenho: Observação do quarto do Antônio feita por ele e por mim com pastel oleoso num caderno A4 fino da Canson. A foto postada no Instagram está aqui.

 


18 Comentários

Janeiro/2017!

jan2017p

Queridos, fico feliz de vir aqui no último dia do ano desejar um “Bom 2017” para todos! Não, não esqueci de escrever “Feliz 2017”. Desejo a vocês e a mim mesma:

Que 2017 seja um ano bom, com momentos felizes;
que tenhamos força para sobreviver aos dias difíceis;
que a calma prevaleça para enfrentar as situações estressantes;
que doses de energia nos ajudem a criar, cantar, tocar, desenhar, ler, escrever, suar;
que possamos sentar no chão e montar uma cabana com as crianças;
que as frutas, os legumes e as folhas coloram nossas geladeiras;
que o amor seja potente e suave;
que o sol brilhe, que a chuva refresque;
que a solidariedade e o afeto sejam maiores;
que tenhamos sabedoria para dar um passinho, que seja,
em direção a um Brasil menos injusto;
que todos vocês-que-estão-escrevendo-teses encontrem concentração e fôlego para continuar até o feliz dia de escrever os agradecimentos!

7 Coisas impossivelmente-legais-bonitas-interessantes-divertidas-hilárias-ou-dignas-de-nota das últimas semanas, com a colaboração da Alice e do Antônio:

* Abolimos os presentes de Natal na minha família, exceto para as crianças. Não fazemos nem mais amigo oculto. Esse ano, no entanto, agradecida por ter um emprego e um 13○, resolvi incentivar a leitura. Comprei livros de presente para todos (um por casal em alguns casos), aproveitando que tenho 40% de desconto nas editoras Companhia das Letras e Zahar. A listinha foi: A elefantinha que queria dormir (C. Ehrlin), Você conhece a Píppi Meialonga? (Astrid Lindgren), Segredo de família (Eric Heuvel), O livro das ignorãças (Manoel de Barros), O  livro sobre nada (Manoel de Barros), A resistência (Julián Fuks), Mansfield Park (Jane Austen), Galveias (José Luís Peixoto), O frango ensopado da minha mãe (Nina Horta), Percatempos (Gregorio Duvivier), Alucinações musicais (Oliver Sacks), Trinta e poucos (Antonio Prata), Sejamos todos feministas (Chimamanda Ngozi Adichie), A utilidade do inútil (Nuccio Ordine), Escritos de Artistas (G. Ferreira e C. Cotrim, orgs.). Gastei cerca de 400,00 reais com tudo. (Em 2015 gastei um pouco menos comprando — também livros — no sebo Luzes da Cidade; mas só para as crianças e jovens.)

* Alice e Antônio me ajudaram a fazer os embrulhos, já que os livros vêm pelo entregador da editora, sem embalagem. Compramos envelopes de papel pardo, 50 cm de papel adesivo vermelho (tipo Contact) e um pacotinho de etiquetas brancas A4 para computador. Encomendei para o Antonio desenhos de leitores. Em meia hora ele me veio com essas (abaixo) quatro criaturinhas lindas!

antonio_leitores

Imprimimos nas folhas de etiquetas e colamos para enfeitar os envelopes. Alice coloriu alguns detalhes feitos pelo Antonio na hora. O Contact vermelho serviu de fita para fechar. Há muito tempo eu não me divertia tanto fazendo presentes de Natal.

* A prova de que não precisamos gastar muito para agradar: minhas prendadas sobrinhas nos brindaram com lembrancinhas feitas por elas (ganhei dois mini-caderninhos) e foram super criativas nos presentes para as crianças maiores: miçangas e fios comprados na Saara para brincar de fazer bijuterias.

* Meu último compromisso no IFCS foi 22/12. No mesmo dia comecei a ler o meu próprio presente de Natal: Mansfield Park, de Jane Austen (ed. Companhia das Letras/Peguin). Que delícia mergulhar num romance! Pena que já acabou… Agora estou curtindo o Prefácio e a Introdução que, sabiamente, deixei para ler por último, pois ambos estragariam o suspense da história.

* Nesses mesmos dias, Antônio pintou um quadro, terminou a biografia da Marina Abramovic e começou a do Matisse. Comemoro secretamente: uma pessoa nunca estará sozinha em meio à arte e aos livros.

* No dia 25 lemos o presente da Alice: Segredo de família (Eric Heuvel), uma publicação em quadrinhos apoiada pela Casa Anne Frank. É uma história difícil, do tempo da segunda guerra mundial, contada pelos olhos de uma menina holandesa. Agora vamos encomendar A fuga, outro volume da mesma série.

* Aflita por decidir seus presentes, minha mãe aceitou a sugestão do professor de violão da Alice. A missão era comprar um Songbook, desses com letras, cifras e acordes. Mas quem disse que as livrarias comuns vendem esse tipo de livro? Felizmente, pergunta daqui, pergunta dali, a intrépida avó descobriu uma ilha musical na nossa cidade: Livraria Bossa Nova & Companhia, em Copacabana. Saiu de lá com o Songbook Bossa Nova vol.2, que já está sendo devidamente estudado e tocado. Fico quietinha, me beliscando para aceitar que não estou num sonho: minha filha tocando, cantando e se maravilhando com Tom Jobim! É muita felicidade. Nesse exato momento, enquanto escrevo, ela ensaia Águas de Março para cantarmos hoje à noite.

Até semana que vem!

Sobre o desenho: O emoji de sol é um dos meus preferidos do Whatsapp. Daí tive a ideia de fazer esse calendário só com sóis de variadas intensidades. Minha meta em 2017 é estar mais ao ar livre, andar e correr mais, levando as crianças para esse caminho. Cada solzinho foi feito com caneta Pigma Micron 0,05 e depois colorido com vários tons de amarelo, laranja e vermelho de lápis decor aquarelável Caran D’Ache.

Para imprimir: versão em pdf (ou clique na imagem no início do post em .jpg).


6 Comentários

Três anos e sete coisas impossíveis

akcalc2016p

O blog fez três anos no dia 6 de novembro. Sempre que chego nessa época de aniversário, entro em crise com a vida pública que levo aqui. Escrever e desenhar não é a parte difícil — duro é fazer isso compartilhando com todo mundo! Fora o desafio de me manter fiel à proposta de tratar apenas de temas úteis e bem-humorados… Afinal, o blog é a minha auto-terapia, lembram?  Acho que nem preciso explicar a contradição desse princípio com a época em que estamos vivendo… Com certeza vocês me entendem.

Nessas horas, entro no meu modo-de-fuga básico, lendo compulsivamente. Nas últimas quatro semanas li biografia  artística, texto de não-ficção, qualificação de mestrado, livro em edição, dezenas de trabalhos de alunos, artigos baixados no celular (para ler no metrô cheio, quando não consigo desenhar) e já estou terminando um romance.

Para sanar um pouco a falta de posts, resolvi fazer uma listinha das 7 coisas-impossíveis, que os leitores antigos do blog já conhecem e que nunca mais apareceram por aqui. (A origem dessa seção está explicada nesse post.)

7 Coisas impossivelmente-legais-bonitas-interessantes-divertidas-hilárias-ou-dignas-de-nota das últimas semanas, com a colaboração do gato Ulisses:

* Alice fez 11 anos! A comemoração teve amigos, bolo de cenoura com chocolate, piscina, basquete e uma etapa final, só nossa: duas horas na cama vendo filme no computador com os três gatos enrolados em volta. A cena do desenho (acima à direita) foi feita há alguns meses, mas retrata bem como somos felizes juntos. Ulisses, é claro, no melhor lugar, sempre de olho para garantir que os irmãos felinos não se aproximem demais.

* Antônio (15) está aproveitando o tempo livre das férias desenhando muito e fazendo algumas experiências de imprimir adesivos e prints das suas pinturas. Na semana passada, ele montou uma barraquinha em um sarau com uma amiga e vendeu quase tudo! Precinhos de 1 a 5 reais, para se divertir, sem exploração. Consegui ganhar duas impressões que sobraram para colar na parede do meu canto de trabalho. As imagens se juntaram às outras que já tenho e são o alvo preferido das patadas do Ulisses quando ele fica indignado comigo pela falta de ração no seu potinho.

* Por falar nesse gato-karma, cansados de ouvi-lo miar na porta de entrada do apartamento, resolvemos levá-lo para pegar um sol no terraço do prédio. Só pioraram as saudades que ele sente das ruas de Lisboa… Quem poderia culpá-lo? A coisa está tão feia que uma velhinha fofa do apartamento de baixo mandou a funcionária vir nos perguntar se o gato estava doente. Não, minha senhora… é drama mesmo, a vet garantiu! Prometi levar o Ulisses para visitá-la. Depois conto pra vocês como foi.

* Alunos e suas demandas impossíveis. Professora, me dá uma carta de recomendação? Claro, eu sempre respondo. Ah, que ótimo. Vão chegar umas mensagens para você das universidades! Uma, duas, três… dezessete mensagens depois, eu me pergunto: — O que mais faz uma professora na vida a não ser enviar cartas de recomendação? O Ulisses já está preparando um post sobre isso.

* Uma das minhas melhores ações de 2016 foi aderir ao projeto Ciclo Orgânico. Estamos reciclando todos os resíduos orgânicos da casa (restos de alimentos, café, guardanapos, palito de fósforo: tudo que pode virar adubo). A aprendizagem gera algumas situações inesperadas. Na primeira semana, descemos com os resíduos no saco apropriado para a coleta. Só que não era sacola de plástico e sim de casca de batata. O material se derreteu todo e fez a maior lambança. Mas ninguém ficou triste: que esperança ter um mundo todo de produtos biodegradáveis! O único chateado com tudo isso é o Ulisses: o lixo da casa acabou. Que afronta na vida de um verdadeiro vira-latas!

* A melhor parte da vida como professora nas últimas semanas foi dar duas aulas abertas na UERJ (uma no Maracanã e a outra em Caxias). Agora ninguém me chama para falar dos meus projetos. Os convites são sempre para conversar sobre os temas da vida acadêmica que trato aqui no blog! Ok, vou lá tentar ser útil. As plateias são diversas e simpáticas, cheias de perguntas interessantes. Tento ser divertida, mas a parte que o povo dá risada é sempre a mesma: quando mostro a foto do Ulisses jogado em cima do meu computador! Estão achando graça? Ele está aceitando convites para deitar (e pular!) no teclado do notebook de vocês também. Mandem seus pedidos.

* E a única coisa hilária da semana foi este vídeo aqui (na parte mais divertida tem legenda, mas infelizmente é tudo em inglês).

Bom final-de-semana, pessoal! Obrigada pelo carinho. ❤

Sobre os desenhos: No lado esquerdo, desenho que fiz do Antônio com seu próprio caderno de desenho (um Art Book da Canson) e um estojo vermelho que ele usa, já bem velhinho. Tenho um carinho enorme por esse objeto que um dia ganhei da antropóloga Lygia Sigaud, já falecida. Na imagem do meio, plantinhas que desenhamos juntos. As duas páginas foram desenhadas com canetinha 0.2 Unipin e coloridas com aquarela num caderninho A6. No desenho mais à direita, Alice rodeada dos gatos Charlie, Ulisses e Lola, feito com o mesmo material. Os mini-botões coloridos ao redor dela são uma colagem feita com pedaços do anúncio de um atelier de costura.

PS: Desculpem o erro: para os assinantes por e-mail, o post foi sem título. Já corrigi.


22 Comentários

Vida em família

picassotrio

Volta e meia me vejo como uma mãe-abaixo-de-zero no termômetro de felicidade das redes sociais. Não vou à praia com as crianças, esqueço que é feriado e morro de preguiça de encher o pneu da bicicleta. E, pior, quando passo o dia caçando Pokémon e andando de patins, esqueço de tirar fotos! Haja auto-estima.

Para completar, é um enorme desafio produzir um-dia-com-foto-feliz aqui em casa. Meus filhos têm idades, vontades e personalidades diferentes. Vamos pro sol: Alice ama, Antônio resmunga. Vamos pra feirinha de antiguidades: Antônio vibra, Alice se esconde no armário. Vamos para a vovó? Antônio quer show de música alternativa.Vamos de metrô? Alice quer táxi. Vamos ao cinema, eba, pipoca: perdemos a sessão porque não há consenso do filme! Haja persuasão.

Há duas semanas, cansada de ser a pior mãe do mundo, resolvo propor uma troca: vamos a uma exposição (Antônio) e depois à Lagoa (Alice). “– Uma horinha em cada local, gente!” Só com essa frase para convencê-los a aceitar o programa do outro. Ufa, vambora.

Não tirei foto, mas nem precisava. Saí desse dia com o coração maior que o mundo. Já no final da exposição do Picasso, Alice propôs: “Vamos desenhar?”  Claro, claro, pensamos, tirando os cadernos e as canetas da bolsa (por sorte, ou premonição?, tínhamos três de cada). E o resultado está nos desenhos que abrem o post: três olhares sobre a “Grande banhista com livro”, por Alice, Karina e Antônio, nessa ordem. Os tamanhos originais são mini, pequeno e médio (A5), da esquerda para a direita, em função da dimensão dos cadernos que usamos. Igualei para facilitar a visualização. Amo as pequenas diferenças, as legendas de cada um, a conversa silenciosa dos traços vistos lado a lado, as lembranças do momento em que trabalhávamos juntos em silêncio, nossas risadas de comparação, os guardas sorrindo com a cena.

Mais tarde, na Lagoa, cumprindo o trato, lá fomos andar naquele carrinho desengonçado, meio charrete, meio triciclo, que quase capota na menor curva. Eu e Antônio reclamamos tanto que a Alice aceitou trocar os dez minutos finais por um milho cozido, na barraquinha da vendedora simpática, nossa conhecida dos tempos em que eu era 5 anos mais nova e bem-disposta. Sentados na beira do pier, terminamos o dia nos divertindo observando a disputa dos peixes com um frango d’água por uns pedacinhos de milho. Sem fotos, mas com o termômetro interno lá em cima!

Sobre os desenhos: Os materiais da Alice foram um caderninho-mini com canetinha nanquim Graphik Derwent 0.1. O meu desenho (no meio) foi feito num caderno Moleskine 14x9cm, com canetinha Pigma Micron 0.05. O Antônio estava com o caderno preferido dele, um Canson Artbook A5, e a canetinha preferida também: a Unipin 0.4. Para quem não sabe, ele é o artista da família, autor de várias pinturas e centenas de desenhos — alguns à vista na página Onimul. A imagem do quadro do Picasso que observamos-desenhando pode ser vista na wikiart.org (explorem lá, esse site é o máximo!!): aqui.

alice2016p

Resolvi compartilhar também um retrato recente que fiz da Alice. Ficou com a carinha de tédio dela depois que eu e o Antônio cansamos de brincar na piscina. Para vocês verem como a minha avaliação de boa mãe dura pouco!

PS: o título do post é inspirado na série “Family time” do Nelson Paciência, um dos meus desenhadores preferidos, sobre quem já escrevi aqui.


4 Comentários

Os bichos do meu pai e o talento de Roberto Negreiros

folhasp

Quando nasci, meu avô gritou pela janela de um prédio da Rua Buenos Aires: — É menina! Em frente trabalhava meu pai, já cansado de ter filhos e dos alarmes falsos do bebê. Eu estava dividida: será que valia a pena vir para esse mundo? Até que não pude hesitar mais, vocês sabem como é.

Minha primeira lembrança é a de morder a minha amiga Adriana e ficar de castigo, chorando e tentando fazer um som alto que pudesse ser ouvido tanto como “mãããe” ou “pãããe”: quem sabe um dos dois vinha? Graças a esse dia, aprendi que era melhor não gritar, não morder e ir cuidar da minha vida.

Não me lembro de brinquedos preferidos: o que eu mais gostava era de bicho. Tinha um cachorro maior do que eu no apartamento. O amor pelo cão era do meu pai, mas quem cuidava era minha mãe. Taí a metáfora do casamento patriarcal. Que bom que a minha mãe se separou. A culpa não era do animal, mas sua presença deixou sequelas: nunca mais minha mãe aceitou bicho em casa. Até hoje tenho o sonho de ter um cachorro grande. Em 2009, aplaquei um pouco a vontade adotando dois gatos.

Depois de separado, meu pai continuou insistindo em ter bichos, e para isso precisava achar mulheres para cuidar deles. Ou era ao contrário? Foram vários: gatos estrangeiros, cachorros histéricos, gigantes, minúsculos, todos com problemas de comportamento vocês-sabem-porque. Minha favorita foi a gatinha Nívea, importada junto com a namorada americana que gostava de andar pelada pela casa (anos 1970, perdoem a moça). A falta de roupa era compensada por cílios postiços imensos (imaginem meu susto a primeira vez que vi a mulher puxando os olhos com uma pinça!) e o excesso de pelos da gatinha, uma persa que precisava ser escovada duas vezes por dia e cuja pelagem a dona usava para cobrir as partes.

Um dia, essa namorada foi embora e abandonou os gatos lá com meu pai, coitados. Caíam da janela (por sorte um segundo andar), passavam fome (acostumados com ração de primeira) e os pelos embolavam tanto que tinham que ser tosados por falta de escova. Decidido a mudar e ser responsável, meu pai arranjou outra namorada. Ela até gostava de bichos — disso não podemos acusá-la — mas cuidar dos gatos da americana plastificada? Aí já era demais.

Sabendo do coração mole do parceiro, a moça veio com um (ou dois?) cachorros a tiracolo, os “seus”, naturalmente — ou foram adotados como símbolo do enlace, sei lá. O caso é que os gatos passaram do semi-abandono ao purgatório. Nívea tentou fugir tanto que conseguiu e morreu atropelada. Fuzi, seu par lindo e gigante, vivia apavorado e escondido, ao ponto que não se notava mais sua existência. Acabou sendo doado para a moça da faxina, com certeza a melhor coisa que aconteceu na sua vidinha sofrida.

Essas lembranças foram inspiradas num livrinho delicioso que li essa semana: “Com a palavra o ilustrador Roberto Negreiros” (editora Mandacaru, SP). É um pequeno volume (62 páginas) de uma coleção de três, com imagens e textos autobiográficos de ilustradores. Além dos traços leves e divertidos (a la Sempé), Roberto Negreiros é um narrador fantástico, desses que te levam, de sorriso em sorriso, até a última página, onde a única tristeza é que a história acabou…

robertonegreiros.jpg

Da origem como “artista egípcio” aos domingos como “oficial arrancador de pelos das orelhas” do tio Ruy, o autor desfia uma coleção de personagens da sua infância, sempre com aquela mistura de humor e compaixão que tanta falta fazem na internet de hoje. Meu capítulo favorito é o da bicicleta que o menino não queria saber de aprender. Com a desculpa de embelezá-la, dava seguidas mãos de tinta na bichinha, alegando que precisavam de uma semana para secar bem.

De pintor de bicicletas a aluno do Externato Paulista, cujo lema ele diz que era “entra burro e sai artista”, o pequeno Roberto já se fazia admirado pelo talento com que desenhava em calçadas, murais e cadernos. Que bom que não se tornou farmacêutico, como seu pai queria. Sorte nossa e da arte! Sua obra pode não solucionar, mas certamente torna a realidade menos “rude, injusta e aborrecida”, como um dia ele a julgou, apaixonado diante de uma tela de cinema.

* Sobre a imagem inicial do post: Não tem muito a ver com o tema do texto, mas foi uma mistura de desenho, pintura e colagem que fiz nos últimos dias. Começou com dois passageiros observados no metrô (canetinha Pitt S Faber-Castell). Depois colei o pássaro, recortado de um folheto do Jardim Botânico. Por último, catei folhas no Parque Lage para inspirar as pinturas (contorno a lápis primeiro, seguido de água e aquarela). Estava melhor (e mais leve) com menos folhas, mas isso eu só descobri quando coloquei as outras! O suporte foi um caderninho novo (15 x 15 cm) que fiz com costura simples a partir de folhas de papel Fabriano antigas. Agora, pensando bem, o pombo olhando o casal separado até que se encaixa na primeira parte do post; as folhas parecem o tempo e, viajando um pouco, tudo lembra a vida rude e aborrecida da qual Roberto Negreiros nos ajuda a escapar.

* Links e coisas dignas-de-nota da semana:

. O livrinho mencionado vem numa caixinha chamada “Com a palavra, os ilustradores”. É difícil de achar, mas tem aqui e na estante virtual tinha também.

. Para ver um pouquinho do Roberto Negreiros, tem uma página no Facebook e um blog, (ambos sem atualização recente, já vou avisando).

. Para quem quer dar um passeio pela obra de Sempé, achei dois pequenos vídeos: um com o artista no seu estúdio desenhando; outro com uma coleção de imagens. É pena que não exista um site a altura da sua obra (se existe, não achei).

. Ainda para deixar a vida menos chata, um texto do Umberto Eco, “Por que as universidades?”, traduzido por Marco A. Nogueira. De 2014, é leitura indispensável nesses tempos difíceis por que passamos, não só os colegas professores das universidades estaduais do Rio de Janeiro, mas todos que acreditam que só a educação muda o mundo pra melhor.

. Sobre a promessa de dieta eletrônica do post da semana passada, me dou nota 6,0. O critério de autocorreção foi o seguinte: perdi quatro pontos porque, em vários momentos, peguei o celular (ou abri o notebook) achando que ia encontrar ali alguma resposta; mas ganhei seis pontos porque lembrei de ler, desenhar, escrever, conversar e até de tocar um pouco de violão com a Alice.

. Queria terminar agradecendo as mensagens de incentivo de vocês! Não estou dando conta de responder com calma, desculpem. Mas cada comentário e likes me alegram e me animam a continuar. Obrigada! ♥

 


14 Comentários

As cores de cada dia

coresp

“O tolo pensa que é inteligente, mas o homem inteligente sabe que é tolo.” (Shakespeare*)

Há alguns anos vi num filme uma cena que me tocou: uma família reunida para jantar começa um jogo. Cada um deve falar o que aconteceu de pior e de melhor no seu dia. Adotei a brincadeira aqui em casa com as crianças; e aos poucos fomos criando nossa própria forma de jogar.

Primeiro, fazemos uma rodada com o “pior do dia” de cada um. Adotamos o princípio de nunca usar uma situação entre nós como a pior coisa. É uma auto-censura amigável que acabou preservando o momento do jogo.

Em seguida, fazemos uma nova rodada onde cada um fala sobre o que foi o “melhor do seu dia”. Logo nas primeiras semanas percebemos que não valia dizer que o “melhor do seu dia” estava sendo o momento do jogo. Já estava perdendo a graça ouvir o mesmo “melhor do dia” todos os dias! Mas isso só confirmava a delícia de ter esse momento de jogar/conversar.

Com o tempo, surgiram outras regrinhas. Resolvemos que não vale falar algo abstrato, como “fiquei triste” ou “o dia foi animado”. E também não valem os desastres do mundo lá fora. Queremos ouvir: o que aconteceu que te fez desanimar ou se alegrar? Em que situação, com quem? E cada um dá os detalhes que quiser ou puder.

Quando estamos empolgados, fazemos uma rodada extra de escolher quem teve o “pior pior do dia” e quem teve o “melhor melhor do dia”. Daí criamos compensações para o mais sofrido ou festejamos o mais feliz.

Em algum momento, resolvemos que não vale “não ter um pior” ou “não ter um melhor”. Isso gera coisas engraçadas como o “pior do dia” ser só um garfo que caiu no chão. Mas gera também um esforço para encontrar uma pontinha de alegria naquele dia em que a alma está nublada (o melhor desse dia pode ser “eu apertei o gato Charlie”. Esse é um velho truque nosso para ter sempre uma coisa boa no dia ruim. Revezamos os gatos, mas o Charlie é imbatível como a melhor fonte de conforto da casa.)

A Alice também inventou de fazer algumas rodadas com perguntas diferentes, como: “Qual foi a coisa mais engraçada do seu dia?” ou “qual foi a mais estranha?” e assim por diante. E adoramos quando temos visitas para participar. Uma vez, na nossa fase sem-casa, convidamos uma amiga da vovó para a conversa. Ela estranhou muito ser chamada a “falar”! Mas foi tão bonito, porque o pior do dia dela tinha sido fazer um “molho que deu errado” e o melhor foi o “bolo de cenoura da Jô” que trouxemos de presente! Tudo girou em torno das comidas, e pudemos conhecê-la mais de perto. (Ah, e o bolo de cenoura da Jô é sempre o melhor do dia de quem prova!)

Uma das supresas dessa brincadeira é ver que frequentemente o pior e o melhor do dia são parte da mesma situação. Como em: “O pior do meu dia foi brigar com a minha amiga”; e o melhor foi “fazer as pazes com a minha amiga”. Ou em: “o pior do dia foi ter que escrever um trabalho longo”; e o melhor do dia foi “ter terminado o trabalho longo!”. Ou “o pior do dia foi ficar muito tempo na internet” e “o melhor do dia foi um poema que li na internet na timeline do Carlito Azevedo”.

Se machucar/se curar; chorar/ser consolado; ter preguiça/se levantar; sofrer/melhorar; viver algo difícil/superar. Parece que esses contrastes andam mais juntos do que a gente pensa.

E o melhor de falar-confiar-ouvir é a imensa intimidade que surge entre a gente, devagarinho, sem pressão, com choro e com risada.

E já que estamos falando de intimidade, e as crianças hoje não estão aqui comigo para jogar, aí vai o meu pior e o meu melhor do dia:

O pior — Saber que pessoas muito queridas estão sofrendo. E pra elas eu cito “E nem tente levar em seus ombros a sua sorte: não queira carregar os seus sofrimentos sozinha, deixando-me de fora. Por este céu, que agora empalideceu diante da nossa dor, me diz o que tu queres e eu vou estar ao teu lado.” (Shakespeare**)

O melhor — Como diz a Alice, foram dois “melhores”, então vou ter que roubar hoje. O primeiro foi ouvir as apresentações dos alunos sobre as suas etnografias na nossa última aula antes do recesso de final de ano! O segundo é estar aqui escrevendo esse 100º post! Mas o momento do jogo não vale, né? 😉

Sobre as citações: A epígrafe é uma fala do personagem Touchstone (o bobo-da-corte) da peça Como gostais, de Shakespeare, na tradução de Millor Fernandes, para a edição de bolso da LP&M. A segunda citação é da personagem Celia, amiga da mocinha Rosalinda, da mesma obra. Adoro essa peça! Não citei muito porque fica difícil entender as falas sem os contextos.

Sobre o desenho: Semana passada, relendo um texto do antropólogo Edmund Leach, percebi uma frase que nunca tinha me chamado atenção antes. Ao falar das variedades do comportamento humano, ele diz: “são como as cores do arco-íris; as aparências são enganadoras; quando se olha de perto para a imagem, as descontinuidades desaparecem”. E essa metáfora das cores-sem-fronteiras ficará gravada para sempre na minha memória! Queria ter feito uma ilustração especial para o post, mas essa já estava no caderninho pronta. Fiz os contornos com canetinha Unipin 0.05 e as cores são das variadas aquarelas que tenho na minha paleta atual. (A frase do Leach está no livro A diversidade na antropologia, das Edições 70, de Lisboa.)