Karina Kuschnir

desenhos, textos, coisas


11 Comentários

Entre o inofensivo e o mortífero: a delicadeza e o talento de Bel Franke

belfranke_p2

Era uma vez uma jovem, Isabel Franke, que tinha uma página no Facebook sobre fotografia e antropologia. Cada semana publicava um texto melhor que o outro. Um dia, de tanto receber meus elogios, ela respondeu perguntando se eu poderia ler seu projeto para o mestrado. Era uma ideia linda e desafiadora. Conversa vai, conversa vem, ajusta daqui e dali: vaga conquistada. Que alegria! Moramos em cidades diferentes mas nos acompanhamos de longe.

Para minha surpresa, meses depois recebi uma mensagem do Chris Tambascia, amigo querido, dizendo que precisava de mim numa qualificação. Logo eu? Não tenho mais nada pra dizer… “Essa você vai aceitar”, ele respondeu: é da Bel Franke.

E aceitei mesmo, e me maravilhei como estava tudo mudado. Só que era a mesma Bel: forte, delicada, inteligente, entregue ao exercício de pensar. Tempos depois nos conhecemos pessoalmente e, há poucos meses, depois de lutas internas intensas, estive no festejado dia da defesa. Ela não acha, mas eu sim: já nasceu mestra. A diferença foi só o diploma.

Quem vê de longe, pensa que a vida pra Bel foi fácil. Só sei da pontinha do iceberg, mas dá pra ver que o mar é profundo. Só uma pessoa com um oceano dentro de si é capaz de fazer uma dissertação sobre fotografia, ilustração, morte, guerra e máscara de gás nos deixando maravilhados. Onde ela se debruça surgem novas camadas.

A Bel é casada, tem bichos e trabalha com educação infantil num museu. Agora, faz parte de um projeto sobre história das roupas e dos tecidos, o Traje Brasilis: vestindo a história do Brasil, além de escrever seu próprio blog: belfranke.com.

Foi do blog da Bel que retirei as imagens para pintar as aquarelas que ilustram esse post. O estojinho preto com fita dourada foi feito por ela à mão, inspirada em um hussif, kit de costura popular nos séculos XVIII e XIX. O estojo antigo, à direita, foi pintado por mim a partir de uma foto de um hussif e um kit de linhas utilizado por um soldado neozelandês na Primeira Guerra Mundial, acervo do Auckland Museum. Para ler sobre a conversa entre esses dois objetos, leiam o post original “O hussif: ou quando a costura histórica e a dissertação se encontram“. Ali vocês terão uma amostra do talento dessa escritora, antropóloga, artista, costureira, historiadora e contadora de histórias. Há na sua arte uma tensão que remete ao sentido da vida, entre o “inofensivo e o mortífero”, como em sua análise de uma imagem de 1919:

“Costurar parece a única ação realmente humana, e por isso chama a atenção como esse personagem [um soldado] está despido de seu equipamento: o capacete que está aos seus pés e a bolsa que deixa entrever o tubo sanfonado de sua máscara de gás. Retratado em pleno ato de puxar a linha, é ele que tensiona toda a pintura, como se sintomatizasse a inutilidade e o absurdo da guerra.” (Bel Franke)

Não podia deixar de compartilhar com vocês esse duplo “pensar e fazer” que a Bel evoca. Tenho sentido em muitos jovens com quem converso a vontade de agir, de produzir concretudes. Concordo, apoio, preciso!

Entre a inocência e a morte, há um fio tênue —  entre a potência de uma criança feliz e a queda no precipício da decepção. De que lado queremos estar?

Não tenho muitas certezas, mas essa sim: estou do lado das crianças e dos sorrisos, da Bel e das costuras, da vida e não da máscara.

Para todos que vão entregar qualificações, dissertações e teses agora em março: meu abraço apertado e um lembrete: “quando não precisamos mais ser perfeitos, podemos ser bons” [And now that you don’t have to be perfect, you can be good. John Steinbeck, East of Eden], epígrafe desse post.

Para todos os professores que estão estreiando ou voltando às aulas: sorriam, sejam gentis, bebam água, descansem. A sociedade pode não nos valorizar como gostaríamos, mas nós somos a base de tudo. Muita transformação pode acontecer dentro da sala de aula — e quem sabe a primeira delas seja aprender tanto quanto ensinar. Dicas de volta às aulas nesse post, e sobre a importância do sorriso do professor, aqui.

7 Coisas impossivelmente-legais-bonitas-emocionantes-e-dignas-de-nota da semana:

♥ A vitrola da Alice continua a mil. Os hits atuais são “Tanto amar“, do Chico Buarque e “Baby“, na voz da Gal Costa. Ela não apenas ouve, mas canta e se acompanha no violão. Haja emoção.

♥ Antônio fez 19 anos! Quem me acompanha nas redes já sabe: compartilhei uma foto linda dele, com o sorriso maior que o mundo — uma imagem que toda pessoa que ama sonha em ver no rosto do filho.

♥ Um acontecimento inusitado. Minha mãe resolveu dar um tênis bonitinho de aniversário pro neto. (Por convicção, Antônio só tem um par de tênis e um de chinelos. Imagina o perrengue com essas chuvas.) Compra feita, presente dado, opa: “tem algo estranho, mãe”. Acreditam que o vendedor colocou na caixa um pé de cada tamanho? No dia seguinte tivemos que ir à loja trocar e ainda ouvimos um pedido de desculpas bem “mixuruca”, como dizia minha avó.

♥  Encontrei um ex-aluno que fez biscoitinhos pra nós, aprendi sobre o projeto para escolas do Permacultura Lab, da Unirio, telefonei para uma amiga que virou psicóloga, troquei mensagens com pessoas solidárias, recebi zaps de alunas com saudades das aulas. Muito obrigada, gente! Não sei realmente onde eu estaria sem vocês.

♥ Telefonei para um amigo que perdeu uma pessoa querida, mandei cartão com flores para outro que tá sofrendo. É difícil saber o que dizer nessas horas? É sim. Mas é importante. Não importa quão sem graça você fique — é mais digno dizer qualquer coisa do que ficar em silêncio.

♥ Na pintura, me dediquei ao desenho desse post e estou tocando também o projeto das 50 pessoas em aquarela (23/50). Preciso de dicas de lugares que sejam abrigados da chuva e bons para observar gente. Qualquer sugestão é válida. Agradecida.

♥ Uma leitora sugeriu um acréscimo na receitinha para lidar com desamor etc.: cuidar de plantas! ♣ Adorei a lembrança. Já tive uma varandinha repleta de vasos e flores. Minha planta preferida é o jasmin branco, desses que se enrosca nas coisas. Tem um cheiro maravilhoso e me lembra a casa da minha avó. Depois de ter gatos deixei de ter plantas, porque são perigosas pra eles; e talvez porque não tive como cuidar de tantos seres vivos ao mesmo tempo. Mas recomendo sim! Vou editar o post acrescentando essa dica. Obrigadíssima, Ana Valéria! ♥

Sobre o desenho: Desenhei a partir de fotos do post sobre os hussifs da Bel Franke. Linhas feitas com canetinha Pigma Micron 0,05 de nanquim permanente, em um papel Canson do bloco Aquarelle XL. Pintura feita com aquarelas dessa paleta. Depois escaneei e limpei as sombras do papel no Photoshop. Não deixem de ler o post original da Bel para acompanhar de perto a análise e outras imagens incríveis que ela publicou. Ah, já ia me esquecendo: a aquarela original será um presente para ela! ♥

Você acabou de ler “Entre o inofensivo e o mortífero: a delicadeza e o talento de Bel Franke“, escrito e ilustrado por Karina Kuschnir e publicado em karinakuschnir.wordpress.com. Se quiser receber automaticamente novos posts, vá para a página inicial do blog e insira seu e-mail na caixa lateral à direita. Se estiver no celular, a caixa de inscrição está no rodapé. Obrigada! ☺

Como citar: Kuschnir, Karina. 2020. “Entre o inofensivo e o mortífero: a delicadeza e o talento de Bel Franke”, Publicado em karinakuschnir.wordpress.com, url: https://wp.me/p42zgF-3Qr. Acesso em [dd/mm/aaaa].


9 Comentários

Memória visual, espaços e cotidiano – Ideia para aula lúdica (4)

arvoreifcsp.jpg

Ser professora, para mim, é viver numa eterna dúvida: será que tenho conseguido afetar positivamente meus estudantes? De vez em quanto a fortuna responde: sim! Pois imaginem minha felicidade quando um ex-aluno veio me pedir dicas para reproduzir uma aula do ano passado na turma em que é monitor. Como eu ainda não tinha escrito sobre essa atividade, pedi um tempinho para me organizar. Segue o plano para vocês (e para ele)!

Objetivos da aula:

. Produzir registros gráficos sobre o entorno do campus universitário, feitos pelos estudantes que o frequentam.

. Refletir (através dessa prática) sobre como lidamos com os espaços e caminhos por onde passamos cotidianamente, promovendo um debate sobre as várias dimensões de olhar, ver, enxergar, distinguir, conhecer, apreender, memorizar, registrar.

. Compreender que os mesmos espaços são percebidos e significados de formas diferentes pelos indivíduos, embora também possamos encontrar padrões mais coletivos de percepção.

. Empreender uma experiência de aula que gere conhecimento e transforme, nos fazendo sentir que aprendemos algo a partir de uma prática associada à reflexão.

. Lembrar que uma atividade de pesquisa pode ser divertida e interessante; pode ser vivida como um enigma, um quebra-cabeça que desvendamos.

. Fortalecer a autonomia: mostrar que podemos e devemos pensar a partir dos nossos dados, classificá-los e interpretá-los.

Material que precisa ser preparado antecipadamente:

. Antes da aula, é preciso tirar as fotografias que serão mostradas na segunda parte do exercício. No meu caso, fui com dois alunos de iniciação científica fazer o percurso no entorno do prédio onde trabalhamos. Tiramos 60 fotografias, procurando mostrar tudo que solicitamos aos estudantes que se lembrassem (ver a lista abaixo). Essa etapa de registro é por si só muito interessante. Mesmo que você não tenha alunos de iniciação científica, aconselho chamar dois ou três estudantes (ou colegas professores) para participar dessa etapa, pois a percepção de várias pessoas tornará mais instigante decidir o quê, e como, registrar. É importante que esse grupo não compartilhe a experiência com os demais alunos antes da atividade.

. Solicite aos alunos que levem lápis de cor ou canetinhas para a aula, mas não explique qual será a atividade. Bastam algumas cores básicas.

Material necessário para a aula:

. Canetas para quadro branco (ou giz, em caso de lousa tradicional).

. Fita adesiva ou fita crepe.

. Papeis A4 brancos. (Se possível, levar 1 folha para cada aluno.)

. Lápis de cor ou canetinhas. (É sempre bom ter um pequeno estoque de lápis-de-cor e canetinhas para os alunos que esquecem de trazer o material.)

. Notebook e Projetor de datashow.

. Pen drive com o conjunto de fotos preparado antecipadamente.

Dinâmica – Como conduzo a aula:

. Entrego uma folha de papel A4 para cada aluno. Peço que separem o material de desenho (canetas comuns e lápis de cor).

. Explico que o trabalho não tem certo ou errado e só conta como participação (ou seja, não é para nota!).

. Abordo o tema da aula: como lidamos com as informações visuais no nosso cotidiano? O que vemos? O que memorizamos?

. Escrevo no quadro o nome de 5 logradouros (o prédio da universidade e cerca de 4 a 5 ruas, praças, avenidas à sua volta). Peço aos alunos para desenharem, com caneta preta, um mapa contendo esses locais. A ideia é ocupar a folha A4 inteira.

. Não especifico como devem desenhar; deixo por conta da interpretação de cada um. Tento criar um clima de brincadeira, mas explicando que o trabalho é individual; o aluno não deve consultar os colegas.

. Em seguida, peço aos estudantes que comecem a registrar graficamente as informações listadas abaixo. É fundamental indicar 1 item de cada vez, esperando que todos tenham terminado de desenhar antes de anunciar o próximo. (Ou seja, os itens não devem ser escritos na lousa todos de uma vez.) A lista de temas e cores deve ser adaptada conforme o espaço onde a aula esteja sendo dada.

. Solicito aos alunos que registrem onde existem…

  • árvores e/ou plantas, utilizando a cor verde.
  • lixeiras, utilizando a cor laranja.
  • hidrantes, utilizando a cor vermelha.
  • monumentos ou estátuas, utilizando a cor rosa.
  • bancas de jornal e orelhões, utilizando a cor azul.
  • postes, fradinhos, bancos e mobiliário público em geral, utilizando a cor cinza.
  • grades, utilizando a cor marrom.
  • calçadas e texturas de pisos, utilizando a cor preta.
  • animais, música, comida etc. (A lista continua até esgotar os temas registrados nas fotos.)

. Divirtam-se com as expressões de desespero! Tem um lado muito engraçado de perceber o quanto somos cegos visualmente para coisas que sabemos que estão lá, mas não distinguimos exatamente onde estão, nem como são.

Vejam um exemplo de resultados baseados na memória de alunos, com o prédio do IFCS ao “centro”:

. Quando todos terminam, sugiro que guardem as canetas, para não ficarem na tentação de acrescentar algo. Em seguida, apresento as fotos dos espaços no Datashow. Primeiro, as mais gerais, depois, as imagens específicas dos itens da lista (árvores, lixeiras, monumentos etc.). Esse é outro momento de diversão geral, com muitos ah! e oh!, devido à comparação: fotografias x registros gráficos x memórias. Vejam o exemplo abaixo do registro do Tomás Meireles, um aluno experiente em desenho (à esquerda) junto a algumas fotos (à direita).

Além de adorar o desenho do Tomás, acho fascinante a comparação: a humanização da estátua (da figura e da escala),  a sensação de espaço ampliado (no desenho, por contraste com a foto), a presença do camelô de comida, a padronagem do chão, a posição da lixeira invertida (no desenho, à esquerda, na foto, à direita). Como nesse exemplo, muitos estudantes não registraram as duas grandes árvores que cobrem a fachada do prédio! Revejam: dos seis mapas mostrados acima, dois marcam com clareza a presença das árvores, dois trazem pontos verdes tímidos e dois não apontam árvore alguma na frente do edifício que frequentam cotidianamente.

Se tenho tempo, reúno todos os desenhos no quadro (colando com a fita adesiva) e peço aos alunos que venham à frente observar, comparar, percebendo as semelhanças e diferenças. É bem instigante comparar não só a presença ou ausência de elementos, mas também as proporções, formas e modos de ocupação dos espaços e dos registros.

Avaliação:

. No final da aula, solicito que todos escrevam na parte de trás do seu mapa uma pequena avaliação da experiência. A maioria registra que foi “difícil lembrar” dos lugares onde passam todos os dias. Uma aluna escreveu que ficou “surpresa” com a sua percepção “superficial” da cidade; o que outra estudante chamou de “olhar sem ver”. A bolsista de iniciação científica afirmou que, mesmo participando da sessão de fotos, esqueceu um monte de coisas na hora de desenhar. “A memória tem vazios” e “hierarquiza” a forma como lembramos,  escreveu outra aluna.

Acho que todos concordaram que “conhecer” é diferente de “saber que existe”, na expressão serena de um aluno, por contraste com a estudante que escreveu: “muito louco esse exercício, professora!” Um aluno explicou que conseguiu registrar os dados que se relacionavam com a bicicleta que usa para ir ao local, o que facilitou na lembrança dos pisos e equipamentos públicos, por exemplo. Vários apontaram essa característica: lembramos mais das coisas (e pessoas) que nos afetam diretamente. Um estudante anotou: “é impossível registrar a realidade em toda a sua complexidade; de forma que toda representação ou teorização é uma redução”. Sim, lembramos de “Funes, o memorioso“, famoso conto de Jorge Luís Borges.

Concluo com o texto do Tomás Meireles, o aluno que desenhou a estátua cor-de-rosa:

“Ao desenharmos a partir das nossas lembranças, temos a oportunidade de extrair um coeficiente estético de uma relação vivida. Desse modo, podemos traçar um contraste entre aquilo que sabemos e aquilo que achamos saber. Ao transportar isso para a antropologia, percebemos como podemos nos enganar a respeito da realidade que nos envolve constantemente.”

Espero que tenham gostado. Experimentem, mandem comentários, sugestões e notícias!

Ah, importante: a referência que me inspirou para construir esse exercício foi o texto abaixo. Coloquei no título um link para o PDF que fiz pois é um artigo difícil de achar. Boa leitura!

NIEMEYER, Ana Maria. “Indicando caminhos: mapas como suporte na orientação espacial e como instrumento no ensino de antropologia”, in: Além dos territórios: para um diálogo entre a etnologia indígena, os estudos rurais e os estudos urbanos. (Niemeyer e Godoy, Emília, orgs.). Campinas, SP, Mercado de Letras, 1998, p. 11-40.

Esse é o quarto post de uma série sobre aulas lúdicas:

E talvez vocês gostem de outros posts com a tag mundo acadêmico.

Sobre o desenho: Depois de várias semanas, me aventurei a desenhar a árvore de que mais gosto do Largo de São Francisco de Paula, praça em frente ao IFCS (Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da UFRJ). É uma lindeza, magrela e gigante (quase da altura da igreja). Fiz parcialmente de memória, parcialmente olhando no Google Street View. Ontem voltei a olhá-la ao vivo e me admirei ainda mais com a sua leveza imponente. Sim, os pombinhos ficam minúsculos e até as pessoas ficam mínimas perto dela. Desenhei com uma canetinha Graphik Line Maker 0.1 Sépia, da Derwent, numa folha que ainda está vazia do caderno Stillman & Birman, Delta Series 8 x 10 polegadas.

Você acabou de ler “Memória visual, espaços e cotidiano – Ideia para aula lúdica (4)“, escrito e ilustrado por Karina Kuschnir e publicado em karinakuschnir.wordpress.com. Se quiser receber automaticamente novos posts, vá para a página inicial do blog e insira seu e-mail na caixa lateral à direita. Se estiver no celular, a caixa de inscrição está no rodapé. Obrigada! 🙂

Como citar: Kuschnir, Karina. 2017. “Memória visual, espaços e cotidiano – Ideia para aula lúdica (4)”, Publicado em karinakuschnir.wordpress.com, url: http://wp.me/p42zgF-297. Acesso em [dd/mm/aaaa].


10 Comentários

Mensagem fotográfica – Ideia para aula lúdica (3)

2004_fotop

Post útil, pra variar, pessoal! Quem não está cansado de ministrar (ou assistir) aulas burocráticas sobre textos, autores e correntes de pensamento? Eu fico, muito! Para fugir um pouquinho da rotina, gosto de pensar em ideias para começar a aula de forma mais lúdica, já que nem sempre dá para fazer uma atividade longa (como já registrei aqui e aqui). Essas aberturas são uma espécie de aquecimento para entrar nos temas centrais, ajudando a “acordar” os alunos e a mim mesma. São super úteis naquelas aulas de tempos de mais de 3 horas e buscam um dos meus principais objetivos como professora: fortalecer a autonomia e a criatividade de pensamento dos próprios alunos.

Segue abaixo uma dinâmica que fiz nesse primeiro semestre de 2017, com uma turma de laboratório audiovisual. Espero que inspire os colegas de todos os níveis de ensino. Nosso trabalho é desgastante, sofrido… mas, por algum mistério, torna-se uma experiência maravilhosa quando ativamos uma energia positiva de trocas e descobertas.

Análise de fotografias dos alunos

Uma semana antes, solicitei que os alunos trouxessem para a aula seguinte uma fotografia tirada por eles (podia ser com celular) impressa em uma folha A4 (retrato ou paisagem) em preto e branco. Pedi que não identificassem nem mostrassem aos colegas. No dia da aula, recolhi as imagens e redistribui 3 ou 4 delas por grupos  (de 3 ou 4 alunos), variando os tipos de conteúdos e evitando que o grupo recebesse fotos de sua autoria.

Expliquei que não havia “certo ou errado” e que o conteúdo não era para nota. (Às vezes, atribuo uma nota de participação, mas acho importante não avaliar as interpretações para que eles se sintam confiantes em falar e pensar por conta própria.) Em seguida, pedi que analisassem as imagens livremente. Fui passando de grupo em grupo, escutando os debates, fazendo algumas perguntas para instigá-los, provocando comparações. Após vinte minutos, solicitei que cada grupo apresentasse os pontos principais discutidos. À medida que falavam, fui anotando no quadro.

O resultado é que eles próprios deram uma aula: tiraram conclusões, complementaram-se uns aos outros, fizeram pontes entre as observações e as imagens, encontraram perguntas novas. Parecia que tinham estudado profundamente o Roland Barthes, autor que usei para preparar o conteúdo e as imagens da segunda parte da aula (tendo como referência principal o texto “A mensagem fotográfica”). Por sorte, nesse dia, eu estava numa sala com quadro-negro à moda antiga, com giz e tudo. Aí vai uma foto dos temas levantados pela turma:

azul quadro.jpg

Quadro/foto Karina Kuschnir – IFCS 2017

Já fiz uma variante dessa dinâmica projetando as fotos dos alunos com datashow. Nesse caso, é preciso pedir as imagens por e-mail antes. Há vantagens (todos veem bem o material discutido), mas também desvantagens, pois demora muito, não dá para analisar as fotos de todos e não promove o diálogo mais aprofundado intra-grupos.

A opção por imprimir as fotografias em P&B e em tamanho A4 acabou sendo bem interessante. Eles se surpreenderam, enxergaram com novos olhos e valorizaram a ausência de cor como algo que permitiu que comparassem melhor e vissem mais elementos nas fotos do que julgavam presentes. Disseram que a “cor distrai” o olhar… Taí uma conclusão que o historiador Michel Pastoureau e tantos fotógrafos e cineastas concordariam!

Outro dia perguntei para uma turma o que eles acharam de um desses exercícios e fiquei feliz com a avaliação bem positiva. Assim como vocês, também tenho um diabinho no meu ombro sussurrando que “professor bom é aquele erudito, que entope os alunos de conteúdo”. Mesmo sabendo que as pesquisas pedagógicas já provaram que aprendizado precisa de afeto e envolvimento, a gente insiste com esse mito de achar que uma aula vai “ensinar” alguém. Podemos informar, inspirar, estimular, apoiar, instigar, semear ideias? Sim, acho que sim. Mas só vai aprender quem estiver aberto pra isso, para se afetar, se envolver, escutar, retrucar, pensar.

Comecei esse post com a ideia de escrever sobre várias pequenas aulas desse tipo que tenho experimentado em 2017, mas essa primeira acabou tomando o post todo! Então, prometo que volto ao formato se vocês tiverem interesse.

 

Esse é o terceiro post de uma série sobre aulas lúdicas:

E talvez vocês gostem de outros posts com a tag mundo acadêmico.

5 Felicidades-possíveis-das-últimas-semanas:

* A tristeza e as saudades do Ulisses foram aplacadas pelo apoio carinhoso que chegou nos comentários, e-mails e mensagens de vocês. Muito, muito obrigada. Está difícil demais viver sem nosso furacãozinho de pelo, mas estamos lambendo as feridas e cuidando dos que ficaram. Como vários disseram, ele viajou, virou livro, viveu intensamente, e isso é motivo para celebrar.

* Quando você vai numa missa de sétimo dia e, ao invés de apenas cumprir um dever social, se vê emocionada com as homenagens a uma vida rica, amorosa, delicada, frutífera. Lembrei das despedidas à minha avó, chorei à vontade, voltei mais sábia de ônibus.

* Chegar no trabalho e encontrar bilhetinho e presente feito-em-casa de um ex-aluno querido… ♥ ♥ ♥  Só tenho a agradecer e me desculpar. Estou em falta com ele e com tanta gente por conta dos meus problemas na retina. O pior já passou. Agora, o único inconveniente é que, toda vez que vou ao oftalmologista, pingam colírios de dilatação que me deixam sem enxergar direito. A outra sequela é que o olho direito (onde a rutura foi mais grave) não voltou ao normal, de modo que estou desanimada para desenhar e pintar. Mas vai passar.

* Desligando das redes sociais: desde o calendário de abril, estou sem repassar o blog para as redes sociais (Facebook e Instagram). Não desativei meus perfis lá; só deixei de usar. É uma experiência — não sei por quanto tempo –, mas estou gostando. Para completar o ciclo, nesse final-de-semana, cancelei as notificações do Whatsapp e tirei o ícone da tela principal do meu celular. A tentativa é retomar o meu tempo, escolher quando quero olhar as mensagens, ao invés de ser dragada por elas a qualquer segundo. Em relação às crianças, combinei que elas precisam me telefonar (!) em situações realmente importantes. A ideia é diminuir os estímulos do cérebro com micro-conteúdos e alongar os momentos de concentração. Podem deixar que vou contando aqui se continuo firme na experiência.

* Um dos incentivos para pensar sobre tudo isso veio desse post, sincero e engraçado da Val, autora do blog “Uma pedra no caminho”. Val, escrevi uma mensagem de parabéns pelo texto e pelo aniversário do seu blog, que acabou apagada naquele vácuo-sugador que são as páginas de login de comentários no celular. Era para te dizer que seu post me fez rir e me fez pensar também. O que eu quero, para onde vou, qual o valor das horas que dedicamos aos nossos blogs? Pra mim, o projeto nunca foi ter renda ou seguidores, mas também não ousaria dizer que sou imune ao efeito dos likes. Por isso, nada mais libertador do que simplesmente se livrar deles!

Sobre o desenho: Desenho feito por mim, em 2004, a partir da observação de uma fotografia de William Klein (NY, 1954), impressa em papel A4, dobrada, disposta na horizontal com um lápis de coração jogado por cima. Feito em grafite sobre papel Canson. O exercício foi proposto por um professor de desenho de observação da PUC-Rio, onde assisti a algumas aulas na época em que eu era professora lá, no Departamento de Comunicação.

Você acabou de ler “Mensagem fotográfica — Ideia para aula lúdica (3)“, escrito e ilustrado por Karina Kuschnir e publicado em karinakuschnir.wordpress.com. Se quiser receber automaticamente novos posts, vá para a página inicial do blog e insira seu e-mail na caixa lateral à direita. Se estiver no celular, a caixa de inscrição está no rodapé. Obrigada! 🙂

Como citar: Kuschnir, Karina. 2017. “Mensagem fotográfica – Ideia para aula lúdica (3)”, Publicado em karinakuschnir.wordpress.com, url: http://wp.me/p42zgF-1Kf. Acesso em [dd/mm/aaaa].