Karina Kuschnir

desenhos, textos, coisas


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Show de filha

alicetvp

Dia 2 de outubro Alice não acordou muito bem. Ficou de molho, sem escola, mas lá pelas 16h, parecia totalmente recuperada e dando pinotes de tédio. Propus que fóssemos ao shopping comprar uma chuteira, já que a antiga estava apertada. Ela topou. Chegando lá:

Alice: — Mãe, vamos olhar [no mapa eletrônico das lojas] para irmos direto onde tem chuteiras?

Eu: — Tudo bem, filha.

E ela, rápida, achou tudo e organizou a “busca”.

De vez em quando, eu dizia: — Alice, peraí, deixa eu só ver essa loja rapidinho.

Alice: — Ah, não, mãe, a gente veio aqui pra ver as minhas coisas.

Eu, mais à frente: — Alice, calma, eu quero aproveitar e comprar um presente para o amigo do seu irmão.

Alice: — Não… não dá, a gente ainda não foi na Nike.

Eu, numa última tentativa — Alice, olha que casaco bonitinho…

Alice: — Mãe…

Eu: — Mas Alice, você está sendo muito ditadora!

Alice: — Ué? Só estou fazendo meu papel de filha!

Eu tive que rir… Pra terminar bem: compramos uma chuteira muito simpática e brasileira, ufa!

No dia seguinte, ela ficou doente mesmo. Acordou vomitando, com febre alta, dor de garganta… [Não se preocupem, ela já está ótima!] À noite, mesmo medicada, continuava caidinha e super triste porque não poderia participar do jogo de futebol do dia seguinte.

Seria seu primeiro jogo-amistoso “de verdade”, num clube. Ela chorava por não poder jogar… E eu, inventando um jeito de consolá-la, disse que um dia ela seria uma jogadora tão famosa que ia ser entrevistada pelo Neymar (já velhinho):

— Alice, como você se sente sendo a primeira jogadora brasileira campeã mundial em três Copas do Mundo?

E ela, enxugando as lágrimas:  — Em três Copas não, mãe. Só em duas, tá?

Eu: — Mas por que não três, Alice?

Ela — Por que eu não posso passar o Pelé. Só ele ganhou três Copas.

Assim mesmo, ponto final, seríssima. [E eu e o Antônio nos acabamos de rir!]

Mais tarde, Alice vendo uma briga entre irmãos na novela Império, um almofadinha e um tipo “bad boy”.

Eu: — Ai, esse cara é uma chato… Não convence…

Alice — Mãe, pelo menos ele está amadurecendo!

Uns dias depois, Alice super entediada fazia bagunça numa gaveta.

Eu: — Alice, cuidado, essa gaveta é frágil, vai quebrar!

Antônio, se metendo: — Alice, se vc tocar meus CDs, eu te jogo pela janela!!

Eu: — Que jeito de falar é esse, Antônio?

Antônio, rindo: — Ah, é do térreo, nem vai doer tanto…

Alice, revoltada: — Se você me jogar pela janela, eu jogo óleo e boto fogo em todos os seus funis!!

Nós dois: — Hãããã???? Funis???

Alice: — O que, o que, o que vocês estão rindo?

Eu: — É vinis, filha, vi-nis. Aquele disco grande que o Antônio comprou é um disco de vinil.

[E mais uma vez desatamos de rir…]

Já totalmente curada, Alice se dedicou uma manhã inteira à produção de presentes de aniversário para uma ex-professora. Depois de muita negociação, ela concordou que eu transcrevesse aqui no blog a cartinha feita por ela para todos os amigos assinarem (desde que eu tirasse os nomes: — “Pras outras professores não ficarem com ciúmes, mãe”):

“X,

Parabéns pelos seus anos de vida e também pelos seus anos de profissão. Todos nós da turma [xx] te amamos muito e sempre vamos te amar por tudo que você fez pela gente. Você é muito legal e os alunos que estão com você são muito sortudos. E também é óbvio que a nossa foi a melhor turma que você já teve.

Feliz aniversário!”

Imaginem a emoção dessa professora… E a minha também… Ser mãe-professora e ver a filha escrevendo uma cartinha dessas!

Sobre os desenhos: Os desenhos que abrem o blog foram feitos no apartamento “ovinho” (nossa casa provisória). Alice estava jogando no Ipad e infelizmente ficou com cara de adulta :-(. Já o gato Charlie estava nessa pose de doidinho mesmo! Enfim, foi o que consegui… Usei canetinha preta Pigma Micron 0.05 e aquarelas.

Abaixo, um desenho que fiz como dever-de-casa do workshop online da professora Melanie Reim, na Sketchbook Skool. Neste, além das aquarelas, usei uma canetinha Muji 0.38 que o Ju trouxe de Portugal, junto com um caderninho Laloran novo, viva!

capitao salomao

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Chips a mais

davinci

O Jornal Nacional anuncia a primeira convocação de Dunga para a seleção brasileira.

Eu — Alice, o que você achou da lista do Dunga?

Alice — Horrível!

Eu — Nossa, por que, filha?

Alice — Ele não chamou o Thiago Silva, o melhor zagueiro do mundo!

Antônio, entrando na conversa: — Ah, Alice, cada um acha o seu jogador o melhor…

Alice — Como assim?

Antônio — Portugal acha que o Cristiano Ronaldo é o melhor zagueiro do mundo! Já o Brasil acha que o Neymar é que é o melhor zagueiro do mundo!

Alice revira os olhos…

Outro dia, Antônio chegou da escola animado com a boa nota que tirou em Ciências. Comentei com a Jô que era só ele estudar um pouquinho e já guardava toda a matéria. E concluí: — Ele tem um “chip a mais”, Jô. Tem uma memória muito boa.

Alice ouviu nossa conversa e gritou lá da sala: — E eu, mãe, não tenho um “chip a mais”?

Eu — Não, filha. Você não tem um chip a mais. Você tem vários!!

Pronto. O assunto de hoje era Leonardo Da Vinci, mas achei melhor contar logo as novidades da Alice. Tem gente reclamando quando deixo para o final do post!

A inspiração para o desenho foi o maravilhoso livro “O fantasma de Da Vinci: a história desconhecida do desenho mais famoso do mundo”, de Toby Lester (ed. Três Estrelas, selo do Grupo Folha; tradução de José Rubens Siqueira). Ô coisa boa de ler, de olhar, de pesquisar, de fuçar notas, bibliografia e agradecimentos, tipo-quero-mais!!

Partindo do seu fascínio pelo desenho do “homem vitruviano“, de Da Vinci, Lester escreve uma dupla história: a do mundo das ideias que tornaram esse desenho possível; e a do homem Leonardo (de Vinci, de Florença e de Milão) até o momento em que o desenhou. A primeira começa com Augusto, imperador romano, forjando seu corpo em estátuas e moedas de um homem-modelo ( 27a.c.) e segue passeando pela história da arquitetura, da arte, da filosofia e da política nas cidades italianas, até o século XVI. A segunda nos traz as amizades de Da Vinci, suas mazelas, suas pequenas listas de afazeres (“desenhar Milão”) e grandes desafios (“aprender latim”). Nas inseparáveis cadernetas com quase 30 mil páginas de anotações, lemos frases sábias, engraçadas, visionárias:

“O ar está cheio de imagens incontáveis, para as quais o olho é um ímã.”

“Quando a fortuna se manifesta, agarre-a com firmeza pelo topete, porque ela é careca atrás.” (1490)

“Com quais palavras, ó escritor, você descreverá com semelhante perfeição toda a configuração que este desenho aqui fornece?” (c.1500)

É contagiante a curiosidade de Da Vinci; e consolador aprender que ele odiava prazos e quase nunca terminava as obras que prometia (aos outros e a si mesmo)…E tudo isso sendo exímio pintor, escultor, músico, arquiteto, engenheiro, físico, médico… com uma biblioteca de 116 livros!

Ok, chega. Como diz o Antônio, Leonardo Da Vinci não é para os fracos.

(Espero que a Alice não leia isso, mas o Da Vinci devia ter uns mil chips a mais.)

Sobre o desenho: Resolvi estrear um novo caderninho que estava “economizando”, do selo Laloran, da Keta Linhares, com um formato quadrado e umas páginas de aquarela que dão vontade de morder, nem lisas nem ásperas demais. Tenho duas dessas belezinhas graças ao querido Eduardo Salavisa, que me deu a dica e mediou a compra. Aproveitei para tentar furar o bloqueio (vulgo projeto-para-o-cnpq) que tem me afastado dos cadernos e dos desenhos. Ufa, consegui. Enviei o projeto e encarei o caderninho, mesmo correndo o risco de não estar a altura.

ccampo


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Ulisses em fuga

agosto2014b

Juro para vocês que não foi planejado. Aconteceu exatamente assim.

O tema das chaves para o calendário de agosto já estava na minha cabeça há alguns dias. Nem precisa chamar o Sherlock Holmes para adivinhar por que… Com esse monte de mudanças, fui juntando uma tonelada de chaves. Até que ontem, finalmente, ia sentando para desenhar, já mais-do-que-atrasada-e-culpada, quando se deu a seguinte cena:

Antônio: — Tchau, mãe, estou indo!

Vou até a porta dar um beijinho nele: — Tchau, filho, vai bem.

De repente, o gato Ulisses corre por entre as nossas pernas porta afora e escada acima em alta velocidade!

Sem pensar, saio correndo de meias atrás dele pelos andares, mas ainda lembro de gritar:

— Filho, cuidado… com… não…!!! …a porta!!

No meio da frase ouço um grande “blam!”

Antônio, achando que eu estava preocupada com a fuga dos outros gatos, puxou com toda vontade a porta, que ficou lá, fechadinha-da-silva.

— A porta… a porta… não… não…

Me desesperei… Tudo bem não ter casa direito há quase quatro meses, mas ficar totalmente sem teto (e sem sapatos; e numa roupa-pijama!) foi demais.

Praguejei tanto que a vizinha saiu para ver se alguém tinha morrido!

Quando contamos a história da porta, com o gato pendurado no colo querendo fugir de novo, ela quase deu risada. Só não deu porque sentiu que eu voaria no pescoço dela, coitadinha. Uma boa alma!

— Calma, pode deixar que eu chamo um chaveiro para vocês. Vai dar tudo certo.

E nem precisou. Depois de uns minutos de suspense, chegou o porteiro João, que olhou pra tudo aquilo mais calmo ainda. Pegou sua maletinha, chaveou daqui, chaveou dali, voltou com um alicatezinho e “plec”! Coisa-mais-fácil-do-mundo.

— Ai, você salvou a minha vida…

E pronto. Antônio foi para a vó. E eu tratei de dar um bom dinheiro para o João e um pacote de chocolates para a vizinha. E para me acalmar voltei a desenhar… O que eu ia desenhar mesmo? Ah, sim: chaves!

Alice-filósofa:

Alice — Mãe, agora que me toquei. Quando eu jogo futebol eu não penso. Por que? Porque fico muito concentrada e não ligo pra mais nada.

 

Eu — É, Alice, que bom!

Alice — Quando fico concentrada, fazendo coisas de agilidade, correndo, meu corpo toma o controle de tudo. Não ligo pra mais nada.

Eu — É, filha, bonito o que você disse.

 

Alice —  Quando você não está fazendo nada, você pensa o tempo todo. E até pensa que está pensando! Você não consegue não pensar. E não pensar é muito bom!

Sobre o desenho: Depois de tudo o que aconteceu, qualquer desenho tá perdoado… Saiu tosco… As chaves ficaram grandes demais… Mas é melhor um desenho-mais-ou-menos do que nenhum-desenho, certo? E foi bom ter feito o calendário, porque desenhar para mim é como jogar futebol para a Alice: uma forma muito boa de não pensar! // As linhas foram feitas com canetinha Staedler de nanquim permanente 0.05 e a cor com ecoline diluída e colocada na caneta de aquarela (waterbrush). Tentei usar um pouco de hachurado, mas faltou coragem para fazer as partes escuras de verdade. O original estava em sépia; e ficou tristíssimo! Consegui esse azul depois de scanear, com a ajuda do Photoshop. Prometo algo mais alegre em setembro!


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Zero problema

UskBcn
Alice adora quando encontra mulher dirigindo táxi. Ontem avistou uma no trânsito e me perguntou:

— Mãe, você gostaria de ser taxista?

Eu — Não, filha, detesto trânsito! E ainda o dia inteiro…

Alice — Ah, mas imagina só: cada passageiro tem uma história para contar! Quando você se dá conta, já acabou o caminho!

Eu — E você, filha, o que gostaria de fazer quando for adulta?

Alice — Hum, será que pode ser “treinadora de futebol da seleção brasileira”? Será que pode ser mulher? Eu acho que pode!

Eu — Deveria poder sim.

Alice — … Ou então: professora de educação física, artista, desenhista, jogadora de futebol e… diretora da Globo!

Eu — Legal, filha.

[e mais tarde…]

Alice — Mãe, estou tão feliz! Atualmente eu tenho “zero problema”.

Eu — Como assim?

Alice — Eu resolvi o problema do cabelo na escola, o da falta da minha bola e o da falta da minha bicicleta, que você buscou hoje.

Eu — Que bom, filha! E como é que a gente faz para ter “zero problema”?

Alice — Ué? É só resolver todos. Resolve um, depois outro, depois outro e assim vai.

Eu — Mas os meus problemas nunca acabam…

Alice — É que nem jogo de futebol, mãe. Não pode sair todo mundo da defesa de uma vez; nem atacar com todos os jogadores de uma vez. Tem que defender quando precisar defender, e atacar quando precisar atacar. E não pode perder a bola.

Eu — Eu sempre perco a bola…

Alice — Não deixe nada te causar problema, mãe.

Eu — É, filha, você tem razão. Quer dizer que você não tem problema…?

Alice — Pensando bem, eu tenho um problema sim: não tenho com quem brigar!

Eu — Como é que é?

Alice — É que o Antônio está viajando! Ah, e tenho outro problema também: a Alemanha vai ganhar a Copa de 2018…

Sobre o blog: Vamos combinar que a semana passada não existiu? Eu finjo que não deixei de escrever o post-de-quarta e de brinde a gente ainda anula os jogos infames da seleção brasileira! Como os jogadores, não sei explicar o que aconteceu: apagão, excesso de Copa, volta às aulas das crianças, mudança número três, obras, gatos, dor nas costas, tudo-isso-junto. Só que não; não adianta dar desculpa. Desde que o blog existe, tive motivos bem piores do que esses para não escrever ou não desenhar ou os dois. Então, bora pra frente. Faz de conta que a semana passada não existiu.

(Mas vamos abrir uma exceção para não apagar a crônica deliciosa do Arthur Dapieve que saiu no Globo na sexta e nenhum dos textos sempre lúcidos do Mário Magalhães no Uol. A Copa ficou melhor com eles.)

Sobre o desenho: Feito no último dia do Simpósio Urban Sketchers em Barcelona, em julho de 2013. Que saudades dessa semana incrível! Queria voltar a desenhar assim… A mistura de cores e materiais foi influência dos workshops que fiz com duas artistas maravilhosas: Inma Serrano e Marina Grechanik. Usei de tudo um pouco: lápis de cor, caneta de pena e nanquim, aquarela, caneta Pentel com ecoline dentro, canetinha Unipin 0.1 e até lápis de cera (acho). Por falar nisso, em agosto acontecerá o 5o. Encontro dos Urban Sketchers no Brasil, em Paraty — ainda dá para participar!

E como alguns têm escrito para saber como se desenvolver no desenho, recomendo a maravilhosa Sketchbook Skool, uma escola online criada pelos ultra-simpáticos e talentosos Danny Gregory e Koosje Koene. Amei o primeiro semestre e estou sonhando com o segundo…