Karina Kuschnir

desenhos, textos, coisas


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Ulisses (2009-2017), despedida

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“Esta é a história dum gato com sete vidas — cada vida com sua graça, sua dor e suas medidas. Em todas as histórias o gato lutou, e quase nunca desanimou. Apaixonado e perdido o bichinho cresceu: apaixonadamente perdido pelas vidas que a vida lhe deu.”

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“Mas nosso Ulisses gostava era de gente; gostava de festinhas, atenção e presente. Decidiu, então, que sairia do solo; pularia, sem vergonha, direto prum colo. Mas o colo deveria ser quente, ou, se preferisse (e foi o que a si mesmo disse), o primeiro colo que surgisse à sua frente.”

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“‘Atira-te ao mundo, até o fundo; atira-te à vida, não tens saída.’ Era este o conselho materno, lá de longe e sempre eterno. Dando suas voltas em torno do umbigo, sentia-se da gata [Penélope] muito mais que um amigo. E os felinos pegaram a estrada; caíram na vida, esta grande charada.”

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“Quanto ao nosso gato, o que dizer de fato? Sua sétima vida começa agora, e lá está ele olhando para a aurora. entrou na canoa conversando com o mar, e é hora de nos afastarmos devagar. É hora de dizer que tudo valeu a pena, sim — uma forma de dizer que chegamos ao fim.”

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Ulisses morreu hoje de manhã (10/04/2017) e nos deixou de corações despedaçados… Isso de partir subitamente combina bem com o jeito dele: adoecer era uma humilhação para seu orgulho de gato. Sua vida era miar alto, exigir petiscos, colos e carinhos, fugir porta afora, pular nos teclados, rosnar para os pombos, lamber a banheira e depois desmaiar de tanto dormir. Ele ficou doentinho na segunda-feira passada, foi piorando, piorando, e nem a melhor veterinária, e nem a melhor clínica de gatos conseguiram salvá-lo.

Está difícil de escrever…  por isso recupero aqui os posts com a tag Ulisses para lembrar dos nossos momentos felizes:

7/08/2014 – Ulisses em fuga

30/04/2015 – Gato sarado, dona arranhada, calendário de maio

04/06/2015 – O gato que virou livro

10/06/2015 – Faz logo o meu autógrafo!

17/06/2015 – Artista, bicho, jardim

09/09/2015 – Empurrão de flor

09/12/2016 – Três anos e sete coisas impossíveis

10/04/2017 – Ulisses (2009-2017), despedida

Sobre os trechos e desenhos: As passagens e as imagens foram retiradas do livro “Do gato Ulisses, as sete histórias”, escrito por Juva Batella (quem primeiro adotou Ulisses em Portugal, 2009), e ilustrado por mim, Karina Kuschnir (que adotei o Ulisses em 2011, dando a ele dois irmãos humanos e dois felinos); edição Vieira & Lent, 2015.

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Três anos e sete coisas impossíveis

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O blog fez três anos no dia 6 de novembro. Sempre que chego nessa época de aniversário, entro em crise com a vida pública que levo aqui. Escrever e desenhar não é a parte difícil — duro é fazer isso compartilhando com todo mundo! Fora o desafio de me manter fiel à proposta de tratar apenas de temas úteis e bem-humorados… Afinal, o blog é a minha auto-terapia, lembram?  Acho que nem preciso explicar a contradição desse princípio com a época em que estamos vivendo… Com certeza vocês me entendem.

Nessas horas, entro no meu modo-de-fuga básico, lendo compulsivamente. Nas últimas quatro semanas li biografia  artística, texto de não-ficção, qualificação de mestrado, livro em edição, dezenas de trabalhos de alunos, artigos baixados no celular (para ler no metrô cheio, quando não consigo desenhar) e já estou terminando um romance.

Para sanar um pouco a falta de posts, resolvi fazer uma listinha das 7 coisas-impossíveis, que os leitores antigos do blog já conhecem e que nunca mais apareceram por aqui. (A origem dessa seção está explicada nesse post.)

7 Coisas impossivelmente-legais-bonitas-interessantes-divertidas-hilárias-ou-dignas-de-nota das últimas semanas, com a colaboração do gato Ulisses:

* Alice fez 11 anos! A comemoração teve amigos, bolo de cenoura com chocolate, piscina, basquete e uma etapa final, só nossa: duas horas na cama vendo filme no computador com os três gatos enrolados em volta. A cena do desenho (acima à direita) foi feita há alguns meses, mas retrata bem como somos felizes juntos. Ulisses, é claro, no melhor lugar, sempre de olho para garantir que os irmãos felinos não se aproximem demais.

* Antônio (15) está aproveitando o tempo livre das férias desenhando muito e fazendo algumas experiências de imprimir adesivos e prints das suas pinturas. Na semana passada, ele montou uma barraquinha em um sarau com uma amiga e vendeu quase tudo! Precinhos de 1 a 5 reais, para se divertir, sem exploração. Consegui ganhar duas impressões que sobraram para colar na parede do meu canto de trabalho. As imagens se juntaram às outras que já tenho e são o alvo preferido das patadas do Ulisses quando ele fica indignado comigo pela falta de ração no seu potinho.

* Por falar nesse gato-karma, cansados de ouvi-lo miar na porta de entrada do apartamento, resolvemos levá-lo para pegar um sol no terraço do prédio. Só pioraram as saudades que ele sente das ruas de Lisboa… Quem poderia culpá-lo? A coisa está tão feia que uma velhinha fofa do apartamento de baixo mandou a funcionária vir nos perguntar se o gato estava doente. Não, minha senhora… é drama mesmo, a vet garantiu! Prometi levar o Ulisses para visitá-la. Depois conto pra vocês como foi.

* Alunos e suas demandas impossíveis. Professora, me dá uma carta de recomendação? Claro, eu sempre respondo. Ah, que ótimo. Vão chegar umas mensagens para você das universidades! Uma, duas, três… dezessete mensagens depois, eu me pergunto: — O que mais faz uma professora na vida a não ser enviar cartas de recomendação? O Ulisses já está preparando um post sobre isso.

* Uma das minhas melhores ações de 2016 foi aderir ao projeto Ciclo Orgânico. Estamos reciclando todos os resíduos orgânicos da casa (restos de alimentos, café, guardanapos, palito de fósforo: tudo que pode virar adubo). A aprendizagem gera algumas situações inesperadas. Na primeira semana, descemos com os resíduos no saco apropriado para a coleta. Só que não era sacola de plástico e sim de casca de batata. O material se derreteu todo e fez a maior lambança. Mas ninguém ficou triste: que esperança ter um mundo todo de produtos biodegradáveis! O único chateado com tudo isso é o Ulisses: o lixo da casa acabou. Que afronta na vida de um verdadeiro vira-latas!

* A melhor parte da vida como professora nas últimas semanas foi dar duas aulas abertas na UERJ (uma no Maracanã e a outra em Caxias). Agora ninguém me chama para falar dos meus projetos. Os convites são sempre para conversar sobre os temas da vida acadêmica que trato aqui no blog! Ok, vou lá tentar ser útil. As plateias são diversas e simpáticas, cheias de perguntas interessantes. Tento ser divertida, mas a parte que o povo dá risada é sempre a mesma: quando mostro a foto do Ulisses jogado em cima do meu computador! Estão achando graça? Ele está aceitando convites para deitar (e pular!) no teclado do notebook de vocês também. Mandem seus pedidos.

* E a única coisa hilária da semana foi este vídeo aqui (na parte mais divertida tem legenda, mas infelizmente é tudo em inglês).

Bom final-de-semana, pessoal! Obrigada pelo carinho. ❤

Sobre os desenhos: No lado esquerdo, desenho que fiz do Antônio com seu próprio caderno de desenho (um Art Book da Canson) e um estojo vermelho que ele usa, já bem velhinho. Tenho um carinho enorme por esse objeto que um dia ganhei da antropóloga Lygia Sigaud, já falecida. Na imagem do meio, plantinhas que desenhamos juntos. As duas páginas foram desenhadas com canetinha 0.2 Unipin e coloridas com aquarela num caderninho A6. No desenho mais à direita, Alice rodeada dos gatos Charlie, Ulisses e Lola, feito com o mesmo material. Os mini-botões coloridos ao redor dela são uma colagem feita com pedaços do anúncio de um atelier de costura.

PS: Desculpem o erro: para os assinantes por e-mail, o post foi sem título. Já corrigi.


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Os bichos do meu pai e o talento de Roberto Negreiros

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Quando nasci, meu avô gritou pela janela de um prédio da Rua Buenos Aires: — É menina! Em frente trabalhava meu pai, já cansado de ter filhos e dos alarmes falsos do bebê. Eu estava dividida: será que valia a pena vir para esse mundo? Até que não pude hesitar mais, vocês sabem como é.

Minha primeira lembrança é a de morder a minha amiga Adriana e ficar de castigo, chorando e tentando fazer um som alto que pudesse ser ouvido tanto como “mãããe” ou “pãããe”: quem sabe um dos dois vinha? Graças a esse dia, aprendi que era melhor não gritar, não morder e ir cuidar da minha vida.

Não me lembro de brinquedos preferidos: o que eu mais gostava era de bicho. Tinha um cachorro maior do que eu no apartamento. O amor pelo cão era do meu pai, mas quem cuidava era minha mãe. Taí a metáfora do casamento patriarcal. Que bom que a minha mãe se separou. A culpa não era do animal, mas sua presença deixou sequelas: nunca mais minha mãe aceitou bicho em casa. Até hoje tenho o sonho de ter um cachorro grande. Em 2009, aplaquei um pouco a vontade adotando dois gatos.

Depois de separado, meu pai continuou insistindo em ter bichos, e para isso precisava achar mulheres para cuidar deles. Ou era ao contrário? Foram vários: gatos estrangeiros, cachorros histéricos, gigantes, minúsculos, todos com problemas de comportamento vocês-sabem-porque. Minha favorita foi a gatinha Nívea, importada junto com a namorada americana que gostava de andar pelada pela casa (anos 1970, perdoem a moça). A falta de roupa era compensada por cílios postiços imensos (imaginem meu susto a primeira vez que vi a mulher puxando os olhos com uma pinça!) e o excesso de pelos da gatinha, uma persa que precisava ser escovada duas vezes por dia e cuja pelagem a dona usava para cobrir as partes.

Um dia, essa namorada foi embora e abandonou os gatos lá com meu pai, coitados. Caíam da janela (por sorte um segundo andar), passavam fome (acostumados com ração de primeira) e os pelos embolavam tanto que tinham que ser tosados por falta de escova. Decidido a mudar e ser responsável, meu pai arranjou outra namorada. Ela até gostava de bichos — disso não podemos acusá-la — mas cuidar dos gatos da americana plastificada? Aí já era demais.

Sabendo do coração mole do parceiro, a moça veio com um (ou dois?) cachorros a tiracolo, os “seus”, naturalmente — ou foram adotados como símbolo do enlace, sei lá. O caso é que os gatos passaram do semi-abandono ao purgatório. Nívea tentou fugir tanto que conseguiu e morreu atropelada. Fuzi, seu par lindo e gigante, vivia apavorado e escondido, ao ponto que não se notava mais sua existência. Acabou sendo doado para a moça da faxina, com certeza a melhor coisa que aconteceu na sua vidinha sofrida.

Essas lembranças foram inspiradas num livrinho delicioso que li essa semana: “Com a palavra o ilustrador Roberto Negreiros” (editora Mandacaru, SP). É um pequeno volume (62 páginas) de uma coleção de três, com imagens e textos autobiográficos de ilustradores. Além dos traços leves e divertidos (a la Sempé), Roberto Negreiros é um narrador fantástico, desses que te levam, de sorriso em sorriso, até a última página, onde a única tristeza é que a história acabou…

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Da origem como “artista egípcio” aos domingos como “oficial arrancador de pelos das orelhas” do tio Ruy, o autor desfia uma coleção de personagens da sua infância, sempre com aquela mistura de humor e compaixão que tanta falta fazem na internet de hoje. Meu capítulo favorito é o da bicicleta que o menino não queria saber de aprender. Com a desculpa de embelezá-la, dava seguidas mãos de tinta na bichinha, alegando que precisavam de uma semana para secar bem.

De pintor de bicicletas a aluno do Externato Paulista, cujo lema ele diz que era “entra burro e sai artista”, o pequeno Roberto já se fazia admirado pelo talento com que desenhava em calçadas, murais e cadernos. Que bom que não se tornou farmacêutico, como seu pai queria. Sorte nossa e da arte! Sua obra pode não solucionar, mas certamente torna a realidade menos “rude, injusta e aborrecida”, como um dia ele a julgou, apaixonado diante de uma tela de cinema.

* Sobre a imagem inicial do post: Não tem muito a ver com o tema do texto, mas foi uma mistura de desenho, pintura e colagem que fiz nos últimos dias. Começou com dois passageiros observados no metrô (canetinha Pitt S Faber-Castell). Depois colei o pássaro, recortado de um folheto do Jardim Botânico. Por último, catei folhas no Parque Lage para inspirar as pinturas (contorno a lápis primeiro, seguido de água e aquarela). Estava melhor (e mais leve) com menos folhas, mas isso eu só descobri quando coloquei as outras! O suporte foi um caderninho novo (15 x 15 cm) que fiz com costura simples a partir de folhas de papel Fabriano antigas. Agora, pensando bem, o pombo olhando o casal separado até que se encaixa na primeira parte do post; as folhas parecem o tempo e, viajando um pouco, tudo lembra a vida rude e aborrecida da qual Roberto Negreiros nos ajuda a escapar.

* Links e coisas dignas-de-nota da semana:

. O livrinho mencionado vem numa caixinha chamada “Com a palavra, os ilustradores”. É difícil de achar, mas tem aqui e na estante virtual tinha também.

. Para ver um pouquinho do Roberto Negreiros, tem uma página no Facebook e um blog, (ambos sem atualização recente, já vou avisando).

. Para quem quer dar um passeio pela obra de Sempé, achei dois pequenos vídeos: um com o artista no seu estúdio desenhando; outro com uma coleção de imagens. É pena que não exista um site a altura da sua obra (se existe, não achei).

. Ainda para deixar a vida menos chata, um texto do Umberto Eco, “Por que as universidades?”, traduzido por Marco A. Nogueira. De 2014, é leitura indispensável nesses tempos difíceis por que passamos, não só os colegas professores das universidades estaduais do Rio de Janeiro, mas todos que acreditam que só a educação muda o mundo pra melhor.

. Sobre a promessa de dieta eletrônica do post da semana passada, me dou nota 6,0. O critério de autocorreção foi o seguinte: perdi quatro pontos porque, em vários momentos, peguei o celular (ou abri o notebook) achando que ia encontrar ali alguma resposta; mas ganhei seis pontos porque lembrei de ler, desenhar, escrever, conversar e até de tocar um pouco de violão com a Alice.

. Queria terminar agradecendo as mensagens de incentivo de vocês! Não estou dando conta de responder com calma, desculpem. Mas cada comentário e likes me alegram e me animam a continuar. Obrigada! ♥

 


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Faz logo o meu autógrafo!

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Alice, ontem à noite: — Mãe,  me dá o livro. Vou ler. Não posso chegar no lançamento sem ter lido né? ?

Eu: — Ok, filha, claro, tá aqui.

Alice, na página 42: — Mãe, adorei o Gatovsky. Ele é bem legal. Estão querendo comprar ele. Mas porque o Juva usa aspas ao invés de travessão?

Eu: — Os dois são certos… Ele preferiu aspas por causa das rimas.

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Alice, aos prantos, invade meu quarto: — Mãe!!! A Babi morreu… a Babi morreu…

Eu, tentando consolá-la: — Eu sei, filha… Mas, pensa bem, agora a Babizinha que você tanto ama está para sempre no livro…

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Alice, ao terminar: — Mãe, adorei!

Eu: — Que bom, querida!! De qual parte você mais gostou?

Alice: — De quando o Ulisses conheceu a Penélope!

Eu: — Esse também é meu capítulo preferido, filha!

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Alice: — Gostei do livro, é bem legal. E é melhor do que “Os bichos que eu tive”, da Sylvia Orthof. [Implicando, porque ela sabe que eu amo esse livro.]

Eu: — Ai, filha, não fala isso! Eu adoro o livro do Ulisses, mas a Sylvia é imbatível!

Alice: — Mãe, pára de ser velha. Os desenhos dos bichos desse livro [da Sylvia] são horríveis. E faz logo o meu autógrafo!

[E mais não falei; porque os desenhos do Gê Orthof são maravilhosos… É só a minha filha sendo filha… heart]

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Sobre os desenhos: Fiz a imagem que abre o post a partir de uma foto da Alice que tirei ontem mesmo. Desenhei com canetinha 0.05 e fiz umas aguadas de aquarela sobre papel A4 comum. O gatinho é o Charlie, que toda a noite faz companhia para a Alice ler. Depois de pronto, fui no Photoshop e encaixei no desenho uma imagem escaneada da capa do livro! Todas as outras imagens são ilustrações do livro novo. Abaixo, mostro pra vocês algumas ideias que tive antes de resolver qual seria o tipo de ilustração final — e isso levou mais de um ano!

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Sobre o livro: O lançamento é quinta-feira, 11/junho, na livraria Argumento, a partir das 19h. Para quem não puder ir ou estiver fora do Rio, todas as informações estão no site da editora Vieira & Lent. Na semana passada, esqueci de publicar pelo menos um pequeno trecho da quarta capa:

“Ulisses viajou o mundo inteiro, um mundo de aventura, um mundo de cheiro. Foi bailarino, músico e marinheiro; foi artista de rua e gato em cativeiro. Também se apaixonou, e o nome dela é bonito. A fera se chama Penélope — como no mito.

Viaje com este gato, ao longo de sua estrada. Vamos repensar a vida, esta grande, grande charada.”

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Um projeto todo seu

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“…se tivermos o hábito da liberdade e a coragem de escrever exatamente o que pensamos… (…) Trabalhar assim, mesmo na pobreza e na obscuridade, vale a pena.” (Virginia Woolf, Um teto todo seu)

Para milhares de pessoas, maio não é o mês do outono, dos taurinos, da crise… é o auge da temporada da série Preciso-Escrever-Meu-Projeto-de-Doutorado-Perfeito. Na maioria das áreas de ciências humanas, está todo mundo tentando finalizar um projeto estruturado, redondo, consistente, se-deus-quiser-aprovado-com-bolsa!

Como não tenho como ajudar a todos que me procuram, resolvi contar aqui algumas experiências nesse front. São episódios que me ajudaram (e ainda ajudam) a pensar o que é realmente essencial para criar um projeto.

* Paixão — Imaginem que logo nos primeiros meses da minha vida acadêmica descobri que a escolha de um tema de pesquisa era um caso de vida ou morte. Ok, não exatamente morte-morrida, mas aquela morte social básica, em que você é banido, ie, morre para o mundo, como nos ensinaram o Elias, o Dumont, o Geertz e tantos outros. Pois lá estava eu no final do primeiro ano de mestrado, já “escolhida” pelo orientador, mas sem tema de pesquisa. (Sim, bons tempos… nem falem.)

Pensa daqui, pensa dali, resolvi que queria ser útil para a sociedade estudando os parlamentares municipais (um tema bem estranho na antropologia da época, que surgiu do meu trabalho de jornalista). Ao saber da minha escolha, o Gilberto (Velho) reagiu horrorizado. Fez uma cara de nojo e disse que não, não poderia me orientar de jeito nenhum! Senti o sangue descendo, o coração parando, o exílio chegando. Mas, para minha surpresa, consegui murmurar: “– Que pena. Vou ter que procurar outro orientador.” 

É verdade, tenho testemunha. Uma amiga estava pelos corredores do Museu e me amparou. Graças à nossa conversa, me dei conta de que estava no caminho certo: eu tinha um projeto em que acreditava, e estava até pronta para “morrer” por ele. E não é que, no dia seguinte, o Gilberto me ligou dizendo que ia me “aceitar” de volta, com parlamentares e tudo? Lamentava que eu não desse continuidade à pesquisa que ele tinha pensado… E eu precisava entender que ele tinha aversão a surpresas etc. Mas, cá entre nós, acredito que o projeto se salvou mesmo pela paixão com que me dispus a defendê-lo.

* Paciência — Um ano e meio depois, ao invés de navegar nas primeiras ondas da passagem-direta mestrado-doutorado, optei por terminar a dissertação. Defesa feita, entrei no melhor dos mundos: dava aulas, trabalhava como pesquisadora e ainda podia assistir Seinfeld sem culpa! Mas quando chegou a hora de fazer o projeto de doutorado: cadê a ideia? Sem paixão, mas convencida de que já dominava os truques do ofício, costurei um projeto juntando alguns temas que sobraram do mestrado com autores que eu lia para dar aula. Nem precisava me preocupar com o quesito “orientador”, certo?

Errado. Projeto entregue. Projeto lido: “– Karina, vem cá, que projeto é esse? De onde você tirou isso? Cadê a antropologia?” Cadê isso, cadê aquilo…? Ooops. Foi mal. Tem razão. Dessa vez, não tinha nada a ver com escolha de tema. Era projeto-preguiça mesmo.

Bora fazer tudo de novo. Porque certa vez um terapeuta me disse que eu era uma sobrevivente. Pra quê! Me apeguei a essa ideia. Se tem um naufrágio, eu nado, até sem saber nadar. E, pra quem sobrevive a afogamento, projeto-de-doutorado-ruim tá mais para quatro-pneus-furados ao mesmo tempo… É chato, é trabalhoso, mas dá para consertar.

A solução? Muita, muita paciência. Paciência com os próprios erros e paciência para recomeçar… Teve que ser paixão construída… Revi o material de pesquisa do mestrado, escutei novamente as arguições da defesa, vasculhei todos os autores que pude e lá fui enfrentar a página vazia, de domingo a domingo — naquela fórmula chata-de-tão-verdadeira: uma palavrinha de cada vez.

* Prática — Tive a sorte de praticar num “laboratório” no Museu Nacional onde encontrava exatamente a mesma cena todos os dias de manhã: meu orientador lendo. Lendo, relendo, revisando, escrevendo sobre o que lia, reescrevendo. Da mesma forma, quando frequentei a biblioteca da professora Cleonice Berardinelli, frequentemente a encontrava concentrada com um livro nas mãos. Uma vez o título era o clássico “A cidade e as serras”, de Eça de Queirós — autor sobre o qual ela é uma grande especialista. E perguntei: “Dona Cleo, a senhora precisa reler esse livro para dar aula?” E ela me respondeu com toda humildade: “Sim, querida. Releio, e sempre aprendo coisa novas.”

Aprendi com eles que a prática essencial na nossa área é assim, muito simples: ler e escrever. Ler, ler, ler, ler, ler muito, é equivalente a um aluno de violão tocar “Let it be” mil vezes. É um trabalho individual, solitário, onde se aprende a lidar com o tédio, a perceber as nuances das palavras/acordes, a criar novos pensamentos e perguntas a partir daqueles. Escrever, escrever, escrever, escrever muito. Idem, ibidem.

Sim, dá para treinar algumas etapas de pesquisa na sala de aula. Mas, como dizia o meu amado professor Wagner Teixeira: “A prática se aprende na prática; o importante [na faculdade] é aprender a pensar.” Ou seja, pesquisa de verdade só se faz fazendo. Um trabalho de fôlego exige circunstâncias demais, impossíveis de repetir em laboratório.

É para isso que servem os livros: milhões de páginas já foram escritas sobre milhões de pesquisas. Um bom levantamento bibliográfico, quando lido, te leva a centenas de práticas e reflexões sobre essas práticas. É a nossa escala musical diária, sem a qual não desenvolvemos projeto nenhum.

* Um projeto todo seu — Nos mais de vinte anos depois daquela primeira experiência, muitas vezes tive dúvidas. Será que está bom? Será que vão gostar? Será que já não escreveram isso antes? Será que serve para alguma coisa? Essas dúvidas nunca se dissolvem totalmente…

“Desde que vocês escrevam o que desejarem escrever, isso é tudo que importa; e se vai importar por séculos ou apenas horas, ninguém pode dizer.” (Virgina Woolf, Um teto todo seu)

E para não terminar sem nenhum conselho prático de verdade, aí vai: a melhor coisa que já li sobre montagem de projetos é o clássico Como fazer uma tese, de Umberto Eco — baita de um livrinho perfeito, atualíssimo em toda a sua antiguidade.

Ufa, e se chegaram até aqui: meus votos de sucesso aos novos projetos! Estou torcendo por vocês!

* 7 Coisas impossivelmente-legais-bonitas-interessantes-hilárias-ou-dignas-de-nota da semana:
* Eu — Alice, qual o sentido da vida?
Alice — Não sei, mãe.
Eu — Se vc pudesse fazer algo, o que você faria?
Alice — Salvar o país, mãe.
* No metrô, uma senhora dá lugar a outra senhora, aparentemente mais velhinha. A senhora que senta tira um cartão do metrô da bolsa e oferece de presente para aquela que levantou. A cena me comove.
* Reli um livro infantil do Antônio só para encontrar um verso que amo: “O menino diz: — Gosto de você, aranha. Porque você não pica nem arranha.”
* Resolvi reler nas horas em que estou no transporte o “Cartas a Theo”, de Van Gogh ao irmão. É de doer de tão lindo. É meu antídoto pessoal contra a crise.
* Presente maravilhoso: ganhei o catálogo do IV Encontro Nacional de Ilustradores Científicos, organizado pelo professor, artista e ilustrador científico Paulo Ormindo.
* Por conta do Ulisses, fui à pequena loja veterinária do Jóquei Clube na semana passada. Passar pelas baias dos cavalos é mágico… e me lembra do meu sonho impossível de ter um cavalo quando era pequena.
* A melhor definição do Rio de Janeiro esta semana: “A cidade mais feia do mundo que por acaso ficava num lugar maravilhoso” (de Carolina Massote)

* Sobre o desenho: Dizem os profissionais do livro ilustrado que a boa imagem deve acrescentar algo ao texto… Então vou deixar para vocês interpretarem… Os gatinhos foram feitos com aquarela Winsor & Newton em papel Strathmore, e depois desenhados com canetinha nanquim Muji 0.38.

* Sobre o livro: Já fiz um post só sobre Um teto todo seu da Virginia Woolf, um livro que marcou a minha vida pra sempre.

* Sobre Paixão, paciência e prática: Minha inspiração para escrever sobre esses “três Ps” foi da aula online do artista indiano Prashant Miranda, na Sketchbook Skool (infelizmente é só para alunos pagantes… )


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Gato sarado, dona arranhada, calendário de maio

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Gato Ulisses bem melhor! A sequela é que está bravíssimo comigo, que não paro de enfiar comprimidos, azeites e outros unguentos goela dele abaixo. O problema é o intestino inflamado, mas sobrou até pro olho, que está levando colírio três vezes ao dia. Ele odeia.

No início do tratamento, tudo se compensava quando eu vinha mimá-lo com o pote de ração úmida, mais cara que caviar russo, e que ele ama (e seus companheiros comem de lambuja em delírio gatífero). Hoje, para deixar claro que não somos mais amigos, ele olhou para a iguaria, começou a cobrir com a pata (tipo “isso é lixo”) e me olhou feio, como quem diz:

“Não venha me seduzir com esses ópios felinos… Sei muito bem que depois você vai enfiar aquela joça amarga na minha garganta.”

E partiu para o arranhador, onde sempre desconta suas mágoas e zangas. Ufa. Sinal de que está voltando ao normal, pois ele é assim, muito previsível.

Chave na porta? Ulisses pensa: “bora tentar fugir” ou “bora não deixar ninguém sair”. Na primeira opção, passa como um raio por entre as nossas pernas. Numa dessas, no prédio antigo, quase foi morto pelo chow-chow da vizinha, mas outra vez quase foi parar na portaria, para nosso desespero. E na casa provisória, nos deixou trancados do lado de fora, como contei nesse post aqui.

Quando está com preguiça, no entanto, Ulisses resolve que nenhum humano deve deixar seu reino: corre pra porta e se joga de barriga para cima, miando alto feito um lobo uivando pra lua, como quem diz: “Estou mal, muito mal, preciso de cuidados, e você, ó humano cruel, vai me abandonar aqui sozinho, forever alone…” É seu papel preferido — Ulisses-the-drama-king.

Nesses tempos de convalescença, seu maior consolo foi poder dormir com a Alice e saber da notoriedade aqui no blog. Vaidoso, não pode ver visita, entregador, porteiro, vizinho. Quer logo fazer amizade e ouvir: “que gato bonito”, “que gato engraçado”, “nossa, como ele é simpático”. Ele só não fica muito feliz quando reparam nos seus defeitos: “Ixe, a cabecinha dele é meio torta?”, “Ele não tem dente de um lado da boca?”, “Ele é agitado assim mesmo, feito um cão?”. E nós sempre respondendo: “É sim, sim, sofreu muito… Mas pode fazer carinho… Ele adora aventura e gente estranha.”

Assim estamos indo: ele bem melhor e eu mais pobre (de tanta despesa do tratamento) e toda arranhada (de tanto dar remédio), mas muito, muito feliz, de ver meu gatinho amado voltando a ser quem ele é.

Ulisses mal sabe, mas em breve, muito breve, ele vai ficar famoso de verdade! Cariocas, guardem a data: 11 de junho!

7 Coisas impossivelmente-legais-inusitadas-interessantes-engraçadas-difíceis-ou-dignas-de-nota da semana:

* Surpresa maravilhosa de uma aluna recém-chegada na minha vida: em plena segunda-feira, às 18:15 da noite, eu longe e preocupada com o gato, a Regina me entrega um livrão incrível e diz: “Olha, professora, lembrei de você…” Era simplesmente o “Margaret Mee – Em busca das flores da Amazônia”, um volume incrivelmente bonito e interessante, que me fez esquecer tudo de ruim do dia, da cidade, do país, do mundo. Muito obrigada, Regina!

* Alice assim, como quem não quer nada, está cada vez mais interessada nas aquarelas! Eu tinha um estojo parado na gaveta que agora está a pleno vapor. Todo dia de manhã a gente experimenta um pouco. São momentos mágicos vê-la se maravilhando com as misturas de cores, água e pincéis. Um simples conta-gotas virou um tesouro no seu estojo hoje!

* Li metade do romance que chegou via Estante Virtual na semana passada: O Senhor March, da Geraldine Brooks (Ediouro, prêmio Pulitzer), mas cansei. A melhor coisa foi o capítulo em que o personagem principal encontra Henry David Thoreau, pois descobri que o filósofo foi também inventor do lápis a grafite moderno! (E já deu vontade de comprar mil livros sobre a história do lápis, claro, mas o dólar tá caro…:-( ). O livro, no entanto, não me conquistou.

* No domingo, ganhei de presente de um amigo muito querido dois pincéis de aquarela maravilhosos  — e ainda por cima vindos diretamente de Londres, cidade para onde mais desejo me transportar num futuro próximo. (Oops, meu passaporte tá vencido.)

* Aliás, para quem ama Londres, design, arte, livros: o blog London Letters, do Claudio Rocha, é uma lindeza de ver e de ler!

* Um presente para todos que amam desenho: novo pequeno filme Tommy Kane Draws Hong Kong, Imperdível!

* E, pra terminar: esse é o 70º post do blog, justamente no mês em que chegamos a impossíveis 70.000 visitas!

Sobre o desenho: Calendário de maio inspirado nos desenhos das estações do ano de uma ilustradora romena que sigo no Instagram, perfil @aitch.ro. Como não ficava bem sair só copiando, incluí algumas referências de outonos da minha infância (as amêndoas, a flor do abricó-de-macaco, os caquis e as flores vermelhas da Escola Parque) e do Jardim Botânico (a folha de palmeira-de-leque-da-china e seus frutinhos roxos, e uma vitória régia). As nuvens azuis são ideia da @aitch.ro, e achei que eram perfeitas para o céu de maio. As linhas foram feitas com canetinha Pigma Micron 0.2, as cores com aquarela Winsor & Newton, pincéis waterbrush Kuretake e sombras com uma Pitt Brush Faber-Castell warm grey 270.


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Morte desenhada

choro

 

O gatinho chora pelos mortos e feridos no atentado em Paris hoje, 7/01/2015, e por todos os crimes contra a vida humana por motivações religiosas. (Não custa lembrar que todas as grandes religiões já motivaram assassinatos em nome do seu ‘deus’.)

Parafraseando Dom Quixote: que não sobre nos tinteiros dos cartunistas nem um pontinho de tinta! Que os desenhos possam ser desenhados, que todas as histórias possam ser contadas.