Karina Kuschnir

desenhos, textos, coisas


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Um projeto todo seu

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“…se tivermos o hábito da liberdade e a coragem de escrever exatamente o que pensamos… (…) Trabalhar assim, mesmo na pobreza e na obscuridade, vale a pena.” (Virginia Woolf, Um teto todo seu)

Para milhares de pessoas, maio não é o mês do outono, dos taurinos, da crise… é o auge da temporada da série Preciso-Escrever-Meu-Projeto-de-Doutorado-Perfeito. Na maioria das áreas de ciências humanas, está todo mundo tentando finalizar um projeto estruturado, redondo, consistente, se-deus-quiser-aprovado-com-bolsa!

Como não tenho como ajudar a todos que me procuram, resolvi contar aqui algumas experiências nesse front. São episódios que me ajudaram (e ainda ajudam) a pensar o que é realmente essencial para criar um projeto.

* Paixão — Imaginem que logo nos primeiros meses da minha vida acadêmica descobri que a escolha de um tema de pesquisa era um caso de vida ou morte. Ok, não exatamente morte-morrida, mas aquela morte social básica, em que você é banido, ie, morre para o mundo, como nos ensinaram o Elias, o Dumont, o Geertz e tantos outros. Pois lá estava eu no final do primeiro ano de mestrado, já “escolhida” pelo orientador, mas sem tema de pesquisa. (Sim, bons tempos… nem falem.)

Pensa daqui, pensa dali, resolvi que queria ser útil para a sociedade estudando os parlamentares municipais (um tema bem estranho na antropologia da época, que surgiu do meu trabalho de jornalista). Ao saber da minha escolha, o Gilberto (Velho) reagiu horrorizado. Fez uma cara de nojo e disse que não, não poderia me orientar de jeito nenhum! Senti o sangue descendo, o coração parando, o exílio chegando. Mas, para minha surpresa, consegui murmurar: “– Que pena. Vou ter que procurar outro orientador.” 

É verdade, tenho testemunha. Uma amiga estava pelos corredores do Museu e me amparou. Graças à nossa conversa, me dei conta de que estava no caminho certo: eu tinha um projeto em que acreditava, e estava até pronta para “morrer” por ele. E não é que, no dia seguinte, o Gilberto me ligou dizendo que ia me “aceitar” de volta, com parlamentares e tudo? Lamentava que eu não desse continuidade à pesquisa que ele tinha pensado… E eu precisava entender que ele tinha aversão a surpresas etc. Mas, cá entre nós, acredito que o projeto se salvou mesmo pela paixão com que me dispus a defendê-lo.

* Paciência — Um ano e meio depois, ao invés de navegar nas primeiras ondas da passagem-direta mestrado-doutorado, optei por terminar a dissertação. Defesa feita, entrei no melhor dos mundos: dava aulas, trabalhava como pesquisadora e ainda podia assistir Seinfeld sem culpa! Mas quando chegou a hora de fazer o projeto de doutorado: cadê a ideia? Sem paixão, mas convencida de que já dominava os truques do ofício, costurei um projeto juntando alguns temas que sobraram do mestrado com autores que eu lia para dar aula. Nem precisava me preocupar com o quesito “orientador”, certo?

Errado. Projeto entregue. Projeto lido: “– Karina, vem cá, que projeto é esse? De onde você tirou isso? Cadê a antropologia?” Cadê isso, cadê aquilo…? Ooops. Foi mal. Tem razão. Dessa vez, não tinha nada a ver com escolha de tema. Era projeto-preguiça mesmo.

Bora fazer tudo de novo. Porque certa vez um terapeuta me disse que eu era uma sobrevivente. Pra quê! Me apeguei a essa ideia. Se tem um naufrágio, eu nado, até sem saber nadar. E, pra quem sobrevive a afogamento, projeto-de-doutorado-ruim tá mais para quatro-pneus-furados ao mesmo tempo… É chato, é trabalhoso, mas dá para consertar.

A solução? Muita, muita paciência. Paciência com os próprios erros e paciência para recomeçar… Teve que ser paixão construída… Revi o material de pesquisa do mestrado, escutei novamente as arguições da defesa, vasculhei todos os autores que pude e lá fui enfrentar a página vazia, de domingo a domingo — naquela fórmula chata-de-tão-verdadeira: uma palavrinha de cada vez.

* Prática — Tive a sorte de praticar num “laboratório” no Museu Nacional onde encontrava exatamente a mesma cena todos os dias de manhã: meu orientador lendo. Lendo, relendo, revisando, escrevendo sobre o que lia, reescrevendo. Da mesma forma, quando frequentei a biblioteca da professora Cleonice Berardinelli, frequentemente a encontrava concentrada com um livro nas mãos. Uma vez o título era o clássico “A cidade e as serras”, de Eça de Queirós — autor sobre o qual ela é uma grande especialista. E perguntei: “Dona Cleo, a senhora precisa reler esse livro para dar aula?” E ela me respondeu com toda humildade: “Sim, querida. Releio, e sempre aprendo coisa novas.”

Aprendi com eles que a prática essencial na nossa área é assim, muito simples: ler e escrever. Ler, ler, ler, ler, ler muito, é equivalente a um aluno de violão tocar “Let it be” mil vezes. É um trabalho individual, solitário, onde se aprende a lidar com o tédio, a perceber as nuances das palavras/acordes, a criar novos pensamentos e perguntas a partir daqueles. Escrever, escrever, escrever, escrever muito. Idem, ibidem.

Sim, dá para treinar algumas etapas de pesquisa na sala de aula. Mas, como dizia o meu amado professor Wagner Teixeira: “A prática se aprende na prática; o importante [na faculdade] é aprender a pensar.” Ou seja, pesquisa de verdade só se faz fazendo. Um trabalho de fôlego exige circunstâncias demais, impossíveis de repetir em laboratório.

É para isso que servem os livros: milhões de páginas já foram escritas sobre milhões de pesquisas. Um bom levantamento bibliográfico, quando lido, te leva a centenas de práticas e reflexões sobre essas práticas. É a nossa escala musical diária, sem a qual não desenvolvemos projeto nenhum.

* Um projeto todo seu — Nos mais de vinte anos depois daquela primeira experiência, muitas vezes tive dúvidas. Será que está bom? Será que vão gostar? Será que já não escreveram isso antes? Será que serve para alguma coisa? Essas dúvidas nunca se dissolvem totalmente…

“Desde que vocês escrevam o que desejarem escrever, isso é tudo que importa; e se vai importar por séculos ou apenas horas, ninguém pode dizer.” (Virgina Woolf, Um teto todo seu)

E para não terminar sem nenhum conselho prático de verdade, aí vai: a melhor coisa que já li sobre montagem de projetos é o clássico Como fazer uma tese, de Umberto Eco — baita de um livrinho perfeito, atualíssimo em toda a sua antiguidade.

Ufa, e se chegaram até aqui: meus votos de sucesso aos novos projetos! Estou torcendo por vocês!

* 7 Coisas impossivelmente-legais-bonitas-interessantes-hilárias-ou-dignas-de-nota da semana:
* Eu — Alice, qual o sentido da vida?
Alice — Não sei, mãe.
Eu — Se vc pudesse fazer algo, o que você faria?
Alice — Salvar o país, mãe.
* No metrô, uma senhora dá lugar a outra senhora, aparentemente mais velhinha. A senhora que senta tira um cartão do metrô da bolsa e oferece de presente para aquela que levantou. A cena me comove.
* Reli um livro infantil do Antônio só para encontrar um verso que amo: “O menino diz: — Gosto de você, aranha. Porque você não pica nem arranha.”
* Resolvi reler nas horas em que estou no transporte o “Cartas a Theo”, de Van Gogh ao irmão. É de doer de tão lindo. É meu antídoto pessoal contra a crise.
* Presente maravilhoso: ganhei o catálogo do IV Encontro Nacional de Ilustradores Científicos, organizado pelo professor, artista e ilustrador científico Paulo Ormindo.
* Por conta do Ulisses, fui à pequena loja veterinária do Jóquei Clube na semana passada. Passar pelas baias dos cavalos é mágico… e me lembra do meu sonho impossível de ter um cavalo quando era pequena.
* A melhor definição do Rio de Janeiro esta semana: “A cidade mais feia do mundo que por acaso ficava num lugar maravilhoso” (de Carolina Massote)

* Sobre o desenho: Dizem os profissionais do livro ilustrado que a boa imagem deve acrescentar algo ao texto… Então vou deixar para vocês interpretarem… Os gatinhos foram feitos com aquarela Winsor & Newton em papel Strathmore, e depois desenhados com canetinha nanquim Muji 0.38.

* Sobre o livro: Já fiz um post só sobre Um teto todo seu da Virginia Woolf, um livro que marcou a minha vida pra sempre.

* Sobre Paixão, paciência e prática: Minha inspiração para escrever sobre esses “três Ps” foi da aula online do artista indiano Prashant Miranda, na Sketchbook Skool (infelizmente é só para alunos pagantes… )


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Gato sarado, dona arranhada, calendário de maio

maio2015fbp

Gato Ulisses bem melhor! A sequela é que está bravíssimo comigo, que não paro de enfiar comprimidos, azeites e outros unguentos goela dele abaixo. O problema é o intestino inflamado, mas sobrou até pro olho, que está levando colírio três vezes ao dia. Ele odeia.

No início do tratamento, tudo se compensava quando eu vinha mimá-lo com o pote de ração úmida, mais cara que caviar russo, e que ele ama (e seus companheiros comem de lambuja em delírio gatífero). Hoje, para deixar claro que não somos mais amigos, ele olhou para a iguaria, começou a cobrir com a pata (tipo “isso é lixo”) e me olhou feio, como quem diz:

“Não venha me seduzir com esses ópios felinos… Sei muito bem que depois você vai enfiar aquela joça amarga na minha garganta.”

E partiu para o arranhador, onde sempre desconta suas mágoas e zangas. Ufa. Sinal de que está voltando ao normal, pois ele é assim, muito previsível.

Chave na porta? Ulisses pensa: “bora tentar fugir” ou “bora não deixar ninguém sair”. Na primeira opção, passa como um raio por entre as nossas pernas. Numa dessas, no prédio antigo, quase foi morto pelo chow-chow da vizinha, mas outra vez quase foi parar na portaria, para nosso desespero. E na casa provisória, nos deixou trancados do lado de fora, como contei nesse post aqui.

Quando está com preguiça, no entanto, Ulisses resolve que nenhum humano deve deixar seu reino: corre pra porta e se joga de barriga para cima, miando alto feito um lobo uivando pra lua, como quem diz: “Estou mal, muito mal, preciso de cuidados, e você, ó humano cruel, vai me abandonar aqui sozinho, forever alone…” É seu papel preferido — Ulisses-the-drama-king.

Nesses tempos de convalescença, seu maior consolo foi poder dormir com a Alice e saber da notoriedade aqui no blog. Vaidoso, não pode ver visita, entregador, porteiro, vizinho. Quer logo fazer amizade e ouvir: “que gato bonito”, “que gato engraçado”, “nossa, como ele é simpático”. Ele só não fica muito feliz quando reparam nos seus defeitos: “Ixe, a cabecinha dele é meio torta?”, “Ele não tem dente de um lado da boca?”, “Ele é agitado assim mesmo, feito um cão?”. E nós sempre respondendo: “É sim, sim, sofreu muito… Mas pode fazer carinho… Ele adora aventura e gente estranha.”

Assim estamos indo: ele bem melhor e eu mais pobre (de tanta despesa do tratamento) e toda arranhada (de tanto dar remédio), mas muito, muito feliz, de ver meu gatinho amado voltando a ser quem ele é.

Ulisses mal sabe, mas em breve, muito breve, ele vai ficar famoso de verdade! Cariocas, guardem a data: 11 de junho!

7 Coisas impossivelmente-legais-inusitadas-interessantes-engraçadas-difíceis-ou-dignas-de-nota da semana:

* Surpresa maravilhosa de uma aluna recém-chegada na minha vida: em plena segunda-feira, às 18:15 da noite, eu longe e preocupada com o gato, a Regina me entrega um livrão incrível e diz: “Olha, professora, lembrei de você…” Era simplesmente o “Margaret Mee – Em busca das flores da Amazônia”, um volume incrivelmente bonito e interessante, que me fez esquecer tudo de ruim do dia, da cidade, do país, do mundo. Muito obrigada, Regina!

* Alice assim, como quem não quer nada, está cada vez mais interessada nas aquarelas! Eu tinha um estojo parado na gaveta que agora está a pleno vapor. Todo dia de manhã a gente experimenta um pouco. São momentos mágicos vê-la se maravilhando com as misturas de cores, água e pincéis. Um simples conta-gotas virou um tesouro no seu estojo hoje!

* Li metade do romance que chegou via Estante Virtual na semana passada: O Senhor March, da Geraldine Brooks (Ediouro, prêmio Pulitzer), mas cansei. A melhor coisa foi o capítulo em que o personagem principal encontra Henry David Thoreau, pois descobri que o filósofo foi também inventor do lápis a grafite moderno! (E já deu vontade de comprar mil livros sobre a história do lápis, claro, mas o dólar tá caro…:-( ). O livro, no entanto, não me conquistou.

* No domingo, ganhei de presente de um amigo muito querido dois pincéis de aquarela maravilhosos  — e ainda por cima vindos diretamente de Londres, cidade para onde mais desejo me transportar num futuro próximo. (Oops, meu passaporte tá vencido.)

* Aliás, para quem ama Londres, design, arte, livros: o blog London Letters, do Claudio Rocha, é uma lindeza de ver e de ler!

* Um presente para todos que amam desenho: novo pequeno filme Tommy Kane Draws Hong Kong, Imperdível!

* E, pra terminar: esse é o 70º post do blog, justamente no mês em que chegamos a impossíveis 70.000 visitas!

Sobre o desenho: Calendário de maio inspirado nos desenhos das estações do ano de uma ilustradora romena que sigo no Instagram, perfil @aitch.ro. Como não ficava bem sair só copiando, incluí algumas referências de outonos da minha infância (as amêndoas, a flor do abricó-de-macaco, os caquis e as flores vermelhas da Escola Parque) e do Jardim Botânico (a folha de palmeira-de-leque-da-china e seus frutinhos roxos, e uma vitória régia). As nuvens azuis são ideia da @aitch.ro, e achei que eram perfeitas para o céu de maio. As linhas foram feitas com canetinha Pigma Micron 0.2, as cores com aquarela Winsor & Newton, pincéis waterbrush Kuretake e sombras com uma Pitt Brush Faber-Castell warm grey 270.


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Morte desenhada

choro

 

O gatinho chora pelos mortos e feridos no atentado em Paris hoje, 7/01/2015, e por todos os crimes contra a vida humana por motivações religiosas. (Não custa lembrar que todas as grandes religiões já motivaram assassinatos em nome do seu ‘deus’.)

Parafraseando Dom Quixote: que não sobre nos tinteiros dos cartunistas nem um pontinho de tinta! Que os desenhos possam ser desenhados, que todas as histórias possam ser contadas.


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Balançando

balanço

Nas últimas semanas fiquei numa espécie de limbo. Não consegui fazer as tarefas no prazo, nem responder emails, nem arrumar a casa, nem desejar feliz aniversário para meus amigos, nem escrever para o blog! Estive num leve estado de choque pós-traumático (aka, pós-mudança).  Mas, ufa, passou!

Cinquenta e quatro posts e treze meses depois… retomo o blog para fazer um balanço (ou melhor, dois, né?:-).

O WordPress me avisa que atingi 50.924 visualizações. Mais da metade (27 mil) só para os dois posts mais lidos (a Carta… e as Dez lições…). O engraçado é que criei esse blog para tomar um ar fora do mundo acadêmico…

Sim, sou apaixonada por livros, por dar aulas, por pesquisar e por conhecer a pesquisa dos outros… Também não reclamo de dar palestras, escrever, publicar e prestar contas. Considero minha obrigação compartilhar.

Só que a logística disso tudo anda meio complicada… A formação encolheu (o tempo dos mestrados e doutorados diminuiu); mas os orientandos, as aulas, os eventos, os textos e as publicações se expandiram (alguns ao infinito). Ou seja, todo mundo (professores e alunos) tem que produzir mais em menos tempo.

O problema é que o dia continua tendo aquelas velhas 24 horas de sempre; e as pessoas continuam sendo humanas — mesmo quem vira onça têm que continuar comendo, dormindo etc. e tal. E ainda com diversão, arte, amor e balé (ou série americana na Tv/ipod/ipad/iphone?).

E aí: não dá.

Por tudo isso, preciso continuar tomando ar…! E decreto para mim mesma que vou manter o blog! Farei só umas pequenas mudanças para deixar a tarefa mais trancs, mas acho que ninguém vai notar. (Vou continuar postando, só que sem dia e frequência fixos. E não vou mais mandar posts por email. Assinem o envio automático do WordPress, please.)

Sobre o desenho: Gatinho se balançando feito com canetinha Kuretake num bloco de papel aquarela, e depois borrado com waterbrush. Sujei de propósito o papel para lembrar a vida é assim, meio borradinha mesmo.

Desejo para mim e para vocês um 2015 com menos telas, menos pdfs, menos facebook e menos e-mails. Só não reclamo do whatsapp, pois sou uma whatsapp-group-less. Que nosso 2015 seja um pouquinho mais analógico, com muitos papéis e canetas coloridas; além de mais (muitos) exercícios e dias ao ar livre!

E, finalmente, o melhor balanço de todos: muitos desenhos!! (Vejam abaixo uma reunião de quase todos os publicados aqui.)

imaginarios internos livros 13 Calendarios   externos

externos 2

eletronicos


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300 dias

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É (quase) como escrever uma tese que nunca acaba:

Foram 16 dias para achar um apartamento e assinar uma promessa de compra e venda — dei sorte nessa fase!

Seguiram-se 107 dias de espera, filas, bancos, cartórios, prefeitura, mais certidões, e muitas caixas de mudança… e afinal sair da antiga casa.

Foram mais 177 dias em duas casas provisórias até podermos abrir a porta, entrar e morar no nosso novo apartamento!

Nesses 300 dias, aprendemos (com a colaboração do Antônio e da Alice):

– Um cartório é como uma loja de ferragens: você gasta muito mais do que pode e sempre precisa voltar no dia seguinte e no outro e no outro.

– A Caixa Econômica é a sucursal do purgatório.

– Os impostos, taxas, certidões e carimbos para mudar de casa são infinitos.

– Nunca alugue um apartamento provisório ao lado de um posto de gasolina.

– Uma boa fita adesiva pode consertar uma porta sanfonada caindo aos pedaços.

– Sem casa, seus gatos sofrem mais do que você.

– Amoedo é para os fracos. Leroy Merlin é para os fortes. (Eu sou fraca.)

– O entulho pode ser bonito:

– Uma portaria verde pode ser mais bonita ainda:

portaria Mariz

– A Casa Homero ainda existe.

– Morar perto da escola dos seus filhos tem preço; e vale.

– A obra acaba. A poeira é infinita.

– Uma máquina de lavar roupa precisa de uma tomada de 20 amperes. (Mas não me perguntem o que são amperes.)

– Ficar sem casa: engorda os adultos; emagrece as crianças.

– Bacalhau não é um peixe; é emenda feita por um marceneiro.

– Passar detergente no cabo da Net facilita sua entrada nos conduites da parede.

– Morar em três casas diferentes = fazer 42 cópias de chaves em 177 dias.

– Nunca jogue fora um pedaço de arame.

– Morar num prédio antigo de quatro andares é… sua filha chegar no térreo pela escada mais rápido do que você descendo no (velho) elevador.

– Telas anti-mosquito valem mais do que mil cortinas. (Pensamento positivo, porque o dinheiro pra cortina acabou…)

– A vida surpreende, para o mal e para o bem: armários comidos por cupins; porteiro apaixonado por Saramago!

Palavra da Alice (escritas por ela mesma):

“Gente que nem eu, aí vai uma dica: se sua mãe não deixar você dormir com ela, faça uma greve, pegue seu cobertor e durma na frente da porta dela=D!… depois ela e seu irmão vão aprender uma lição.”

[Lição aprendida: nem eu nem o Antônio conseguimos abrir a porta dos nossos quartos na manhã seguinte porque alguém (e seu colchãozinho) se instalou no corredor.]

Sobre os desenhos: O desenho que abre o post foi feito bem antes da mudança. O lado direito é a nossa sala em sonho… pois ainda não temos estantes nem livros fora de caixas, mas os gatos já estão sim (muito) felizes! (O lado esquerdo é meu estojinho de aquarelas.) O desenho seguinte, do entulho, foi feito umas seis semanas antes da obra acabar. Passei uma hora e meia no meio da poeira, mas feliz de ver o fim chegando… Os elementos da portaria e da fachada do prédio (cobogós verdes) foram feitos durante uma longa espera por um vidraceiro que não veio. Em todos: usei canetinhas Unipin de 0.05 a 0.2, aquarela e lápis de cor. Os cadernos quadradinhos são Laloran e o caderno em paisagem é um moleskine de aquarela.


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Ulisses em fuga

agosto2014b

Juro para vocês que não foi planejado. Aconteceu exatamente assim.

O tema das chaves para o calendário de agosto já estava na minha cabeça há alguns dias. Nem precisa chamar o Sherlock Holmes para adivinhar por que… Com esse monte de mudanças, fui juntando uma tonelada de chaves. Até que ontem, finalmente, ia sentando para desenhar, já mais-do-que-atrasada-e-culpada, quando se deu a seguinte cena:

Antônio: — Tchau, mãe, estou indo!

Vou até a porta dar um beijinho nele: — Tchau, filho, vai bem.

De repente, o gato Ulisses corre por entre as nossas pernas porta afora e escada acima em alta velocidade!

Sem pensar, saio correndo de meias atrás dele pelos andares, mas ainda lembro de gritar:

— Filho, cuidado… com… não…!!! …a porta!!

No meio da frase ouço um grande “blam!”

Antônio, achando que eu estava preocupada com a fuga dos outros gatos, puxou com toda vontade a porta, que ficou lá, fechadinha-da-silva.

— A porta… a porta… não… não…

Me desesperei… Tudo bem não ter casa direito há quase quatro meses, mas ficar totalmente sem teto (e sem sapatos; e numa roupa-pijama!) foi demais.

Praguejei tanto que a vizinha saiu para ver se alguém tinha morrido!

Quando contamos a história da porta, com o gato pendurado no colo querendo fugir de novo, ela quase deu risada. Só não deu porque sentiu que eu voaria no pescoço dela, coitadinha. Uma boa alma!

— Calma, pode deixar que eu chamo um chaveiro para vocês. Vai dar tudo certo.

E nem precisou. Depois de uns minutos de suspense, chegou o porteiro João, que olhou pra tudo aquilo mais calmo ainda. Pegou sua maletinha, chaveou daqui, chaveou dali, voltou com um alicatezinho e “plec”! Coisa-mais-fácil-do-mundo.

— Ai, você salvou a minha vida…

E pronto. Antônio foi para a vó. E eu tratei de dar um bom dinheiro para o João e um pacote de chocolates para a vizinha. E para me acalmar voltei a desenhar… O que eu ia desenhar mesmo? Ah, sim: chaves!

Alice-filósofa:

Alice — Mãe, agora que me toquei. Quando eu jogo futebol eu não penso. Por que? Porque fico muito concentrada e não ligo pra mais nada.

 

Eu — É, Alice, que bom!

Alice — Quando fico concentrada, fazendo coisas de agilidade, correndo, meu corpo toma o controle de tudo. Não ligo pra mais nada.

Eu — É, filha, bonito o que você disse.

 

Alice —  Quando você não está fazendo nada, você pensa o tempo todo. E até pensa que está pensando! Você não consegue não pensar. E não pensar é muito bom!

Sobre o desenho: Depois de tudo o que aconteceu, qualquer desenho tá perdoado… Saiu tosco… As chaves ficaram grandes demais… Mas é melhor um desenho-mais-ou-menos do que nenhum-desenho, certo? E foi bom ter feito o calendário, porque desenhar para mim é como jogar futebol para a Alice: uma forma muito boa de não pensar! // As linhas foram feitas com canetinha Staedler de nanquim permanente 0.05 e a cor com ecoline diluída e colocada na caneta de aquarela (waterbrush). Tentei usar um pouco de hachurado, mas faltou coragem para fazer as partes escuras de verdade. O original estava em sépia; e ficou tristíssimo! Consegui esse azul depois de scanear, com a ajuda do Photoshop. Prometo algo mais alegre em setembro!


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Caixas, gatos e listas

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A semana andou na direção oposta dos gatos do desenho: muito trabalho, caixas de mudança, poeira, dor de garganta, taxista furioso batendo no meu carro e listas enormes — uma de tudo que vai para o guarda-móveis e outra das milhares de coisas que preciso providenciar. O pior está sendo encarar o fato de que não sou mais uma garotinha livre leve e solta que sai por aí mudando de casa com uma mochila nas costas. Já estamos em 58 caixas e contando… Consola saber que metade está recheada de livros; e metade dessa metade com livros das crianças. Quem notou isso foi a professora de inglês do Antônio e da Alice: “Nossa, nessa idade eles já têm tantos livros; que lindo!” Ufa. Que lindo, então, vamos encarar.

Mas lindo mesmo foi achar a lista de tarefas da Alice, escrita por ela num papel A4, tipo todo oficial, preso a uma prancheta, por sua vez, presa com um barbante na porta do armário. Depois de uma certa relutância, ela me autorizou a reproduzir aqui para vocês. Segue a versão digitada para facilitar a leitura (e o original na imagem abaixo):

Lista de coisas para fazer
1 – Convidar o Zé para ir em casa ou eu ir na casa dele
2 – Lembrar de pedir para a Dani (a professora de capoeira) para provar a calça 6 anos
3 – Ajudar a fazer a mudança
4 – Comprar uma bola de futebol
5 – Sábado ligar para o Pedro e o Zé para conectar no Minecraft ❤
6 – Avisar ao Zé que a Maria Eliza tá namorando com o João Pedro (da van)
7 – Quando estiver no Leblon, perguntar à mamãe onde é a Lagoa
8 – Comprar um deck para colocar a bike no carro
9 – Lembrar de trazer cartas para trocar com o Hugo (da van)

Aí vai a versão com a letrinha dela:

listaAlice2

Posso não estar raciocinando direito hoje, mas acho que a Alice está dando de dez em mim. Ok, ela herdou a minha mania de fazer listas — uma das rotas de fuga que esqueci de mencionar no post da semana passada — e o senso de dever que vem junto (“ajudar a fazer a mudança”). Mas todo o resto é dedicado aos amigos e às coisas que ela gosta de fazer… Prova de que os meus defeitos não estão atrapalhando a vidinha dela!

Sobre o desenho: Eu tinha planejado outra coisa para o calendário de maio, mas não tive como fazer na confusão que está a minha casa. Com os gatos apaixonados pelas caixas, foi fácil usá-los como modelos. Os desenhos foram feitos com uma canetinha preta de nanquim que não é à prova d’água (a mesma desse post). Depois passei um pincel molhado para borrar de propósito. A ideia veio da aula de hoje (do Laboratório de Antropologia e Desenho que estou oferecendo no IFCS) que, por sua vez, foi inspirada na quinta aula da Sketchbook Skool. Passamos a tarde conversando sobre os desenhos científicos na história da antropologia e desenhando a partir de modelos de pequenos animais de resina (eu ia escrever dos “animais de brinquedo do Antônio”, mas não fica bem brincar na graduação; então a gente finge que é trabalho).

Agradecimentos: Muito, muito obrigada pelas mensagens e comentários sobre a carta-post da semana passada. O melhor de tudo foi saber que meu amigo melhorou; que aquelas palavras fizeram alguma diferença! O que desejei para ele vale para todos que estão nesse barco: força aí.